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| Por P. Piero Trabucco, IMC | |
| 12 de March de 2006 | |
VISITA CANÓNICAÀ DELEGAÇÃO DA COREIA(13-27 de Outubro de 2003) 27 de Outubro de 2003 Caríssimos Missionários, Esta foi a primeira visita canónica à vossa Delegação, como mandam as normas do Instituto. Anteriormente, a Direcção Geral sempre fizera uma visita anual à vossa circunscrição enviando um dos seus membros a participar numa ou noutra etapa mais importante, como por exemplo, os Exercícios Espirituais anuais ou outras acções mais demoradas de formação contínua. Mas com esta visita, que permitiu um contacto pessoal com cada membro da Delegação, uma estadia na comunidade e um encontro prolongado com o respectivo Conselho, tive a oportunidade de me concentrar na vossa vida pessoal e nas vossas actividades apostólicas. Passámos também um dia inteiro a ler a história – curta, sem dúvida, mas relevante – dos quinze anos de presença do Instituto neste país, durante a qual foram sublinhadas a actuação, os desafios e as dificuldades que se foram encontrando. O resultado deste trabalho serviu-me bem na compreensão da vossa situação e na redacção deste relatório, já que nasceu dum contexto de discernimento importante. De facto, estamos convencidos de que o Espírito Santo opera com uma eficácia toda especial quando os irmãos reflectem em conjunto, todos unidos no nome de Jesus, na comunhão fraterna e na oração.Uma premissa necessáriaÉ um tanto difícil descrever e tornar compreensível qualquer situação missionária específica a leitores longínquos sem apresentar o panorama do país e da vida da Igreja em questão. Por isso, como premissa, vou resumir a traços largos o ambiente em que hoje viveis e trabalhais aqui na Coreia, servindo-me à vontade da pesquisa que se fez há três anos, por ocasião da vossa Conferência Regional. Sociedade e cultura coreanas A Coreia do Sul está a viver, dia a dia, um momento histórico específico, seja a nível político, que social ou religioso. Trata-se de uma vivência que está a revolucionar a cultura já milenar deste povo e que está a transformar o seu modo de vida. A Coreia que, até ao início do século passado era designada como “estado eremita” devido ao seu fechamento a toda a influência externa, está agora a acelerar a sua abertura ao mundo, facilitando de várias maneiras o intercâmbio cultural e comercial com outras nações, e o acolhimento de trabalhadores estrangeiros. É significativo o esforço que a Coreia do Sul está a fazer para acelerar a pacificação com a Coreia do Norte. Embora os obstáculos ainda abundem na caminhada para a unificação da península, sobretudo por parte do regime do Norte, continua firme o desejo da população de acabar com uma divisão anacrónica que penaliza duramente todo o país, mantendo a separação forçada de muitas famílias e obrigando a enormes despesas económicas e militares. O território da Coreia do Sul, com apenas 99.000 kms quadrados de superfície, conta com uma população de 48 milhões de habitantes, que se concentra principalmente nos grandes e médios aglomerados urbanos. Assume particular relevância o fenómeno migratório da população do campo para a cidade. Basta considerar que a população que vive em cidades passou de 28% em 1960 para 79% em 1995. O bem-estar económico alargou-se e continua a crescer, apesar de a crise financeira de 1997 ter acabado com uma excepcional expansão económica fazendo surgir uma situação até então desconhecida como o desemprego. A expansão na construção civil é hoje muito evidente; as infra-estruturas do país estão a ser modernizadas, atraindo cada vez mais investidores estrangeiros. Mas há um problema que ainda penaliza duramente o desenvolvimento nacional – a corrupção, sobretudo dentro dos grandes grupos económicos e na política. A migração do campo para a cidade, o ritmo acelerado da vida urbana, a concorrência impiedosa que se sente a todos os níveis para poder ficar à tona em termos de nível de vida, afectam profundamente a organização tradicional da família. A família coreana, que assentava sobre uma estrutura confucionista, embora mantenha um papel de grande importância na sociedade, revela hoje várias fissuras, tais como o decrescente número de filhos, a distância entre pais e filhos, e o aumento vertiginoso do divórcio. O povo coreano tem um profundo sentimento de grupo, de organização e de trabalho. Sente profundamente a pertença, o “nós”, a “coreanidade”. Mas isto ainda não conseguiu resolver problemas como a disparidade social, a discriminação sexual, e a violência que nasce do abuso do álcool ou do jogo que as novas tecnologias têm produzido. A educação está a atingir um nível muito elevado na Coreia, aliás muito superior ao do nível hermético, uniforme e um tanto massificado, do passado. Mas ela caracteriza-se pela sua selectividade e pela impiedosa concorrência pelos primeiros lugares nas escolas, que virão garantir o emprego no futuro. Os jovens, embora andem muito concentrados nos seus estudos, estão a abrir-se rapidamente a estilos de vida alternativos, a outras culturas; muitas vezes contestando os elementos educativos tradicionais, revelando grande mal-estar. Gostam de imitar as modas do Ocidente, embora retendo algumas características típicas suas, tais como o respeito pela autoridade, o estudo intenso e a responsabilidade nos compromissos que tenham assumido. O Governo está a fazer esforços para que o inglês se torne a segunda língua do País, mas, se tal acontecer, será para tempos muito longínquos, ao passo que a informática já invadiu tudo e se tornou omnipresente. A Igreja e as religiões As tradições milenares religiosas coreanas, como o shamanismo, o budismo e o confucionismo, continuam a marcar profundamente a população coreana. O cristianismo, que já conta com 200 anos de existência, está em expansão contínua. Mais recentemente, surgiram muitos movimentos religiosos inspirados tanto na New Age como no taoismo, resultando em vasto pluralismo religioso. Há geralmente um bom relacionamento entre os chefes religiosos, embora seja forte por todo o lado o proselitismo, sobretudo entre as seitas protestantes. O povo coreano é profundamente religioso apesar de 50% da população declarar que não tem religião, ou seja, sem ligação a qualquer religião organizada. Os coreanos procuram antes de mais “a paz interior”, estando por isso prontos a acolher tudo o que possa ajudá-los a atingir esse objectivo. A comunhão com os antepassados ainda constitui a marca principal da religiosidade coreana. Os antepassados continuam a exercer um papel importante na vida da família e no relacionamento entre as pessoas. A Igreja Católica, que conta com cerca de 10% da população, continua a crescer. Tudo se centra fortemente na estrutura paroquial, no bom estilo clássico confucionista. Os leigos não são muito activos. Calcula-se que, actualmente, 30% dos católicos vão à missa dominical. A vida consagrada, principalmente masculina, parece que ainda não se afirmou plenamente na vida da Igreja. Os carismas das várias congregações religiosas têm dificuldade em se exprimir, enquanto que o ideal da missão longe da pátria, embora comece agora a desenvolver-se vagarosamente, ainda se depara com grandes obstáculos. Também se sente pouco a exigência do diálogo interreligioso; as poucas estruturas dedicadas a esta tarefa ainda não conseguiram influenciar realmente a vida eclesial. A caminhada feita pela Igreja Católica nestas últimas décadas teve um grande impacto sobre a sociedade coreana: nos anos 50-60 através das suas obras de solidariedade e, nos anos 70-80 através do seu papel activo em prol da liberdade e da democratização do país. Presentemente, a Igreja anda a interrogar-se sobre qual deverá ser o seu papel. Parece que já o descobriu: um forte compromisso com a educação e com a formação, além de procurar dar respostas oportunas à exigência sempre crescente que o povo sente por uma espiritualidade profunda. Uma inspiração que orienta e serve de alicerce A nossa presença na Coreia, que começou em 1988, conta actualmente com onze missionários originários de sete países diferentes; chegarão mais dois no próximo ano. O Grupo da Coreia, que se tornou Delegação a 22 de Dezembro de 1994 e tem como protectores os Santos Mártires da Coreia, compõe-se de três comunidades. A sede central e do Superior Delegado fica em Yokkok. Ela acolhe os confrades durante o período de aprendizagem da língua coreana; é residência dos jovens em formação; e dá a possibilidade de realizar várias actividades de animação missionária. O edifício é sólido e suficiente para as exigências actuais da Delegação. Também na diocese de Inchon, funciona, em Okkildong, o centro para o diálogo inter religioso com o nome de “Fonte de Consolação”, desde o ano de 1999. Compõe-se de duas pequenas casas à margem dum pequeno bosque e é um lugar ideal para as finalidades do centro. Em Kuryon, que é uma aldeia de invasão localizada na Arquidiocese de Seul, abriu-se mais uma casa entre os pobres da cidade, em substituição da de Mansokdong, que durou sete anos. Essa pequena casa acolhe os três confrades que compõem a comunidade; um pequeno salão que lhe é contíguo acolhe algumas actividades a favor da população do bairro. Tais são os edifícios, simples e essenciais, que permitem à Delegação da Coreia oferecer à Igreja deste país um serviço conforme ao nosso carisma missionário. Durante a visita quisemos percorrer juntos, em reflexão e em discernimento, o caminho que já andastes nos passados dezasseis anos. Notámos que cada opção feita teve sempre um objectivo muito claro, que foi fruto duma reflexão comunitária atenta e aturada. Também notámos que houve uma inspiração ou uma “graça” que iluminou e sustentou esta caminhada logo desde os primeiros passos, inclusivamente os que tiveram de ser dados na incerteza e no escuro. Vou agora tentar descrever esta inspiração pelo essencial, para que fique como marco quilométrico da nossa presença na Coreia, agora e futuramente. Missão em comunhão A comunhão-comunidade já assumiu nos anos passados um significado todo especial, a pontos de se ter transformado em dimensão fundamental da Delegação. É que ela exprime a procura contínua da unidade de propósitos mediante comunicação intensa e constante, tal como exprime os momentos de discernimento e de programação comunitária, tanto a nível local como da Delegação na sua totalidade. Este espírito de família revela-se sob a forma de acolhimento fraterno mútuo, sobretudo daqueles que chegam à Coreia pela primeira vez e têm de encarar uma realidade nada fácil por causa da cultura, da língua e do próprio trabalho missionário. Além disso, ele torna-se testemunho relevante nesta sociedade em que a comunidade, seja ela qual for, apresenta uma organização bastante piramidal, em conformidade com o espírito confucionista. A nossa comunidade, aliás marcada por forte internacionalismo, torna-se uma proposta válida da fraternidade que encontra no Evangelho a sua inspiração e, no amor do próximo, a sua actuação concreta, através do diálogo constante e acolhimento fraterno, do respeito pela diversidade e do apreço pelos dons e qualidades de cada um. A nossa presença missionária na Coreia, como provavelmente será em qualquer outra nação da Ásia, é minúscula e de números muito reduzidos. Mas, ao relacionar-se com uma realidade social e cultural muito complexa, poderia facilmente levar ao desânimo de qualquer pessoa que não possa contar com apoio fraterno e eficaz. Foi assim que logo descobrimos nesta primeira e especial característica da nossa missão na Coreia o segredo que a animou para uma experiência missionária na linha da continuidade e da relevância. Fidelidade ao carisma Vós viestes para a Coreia para realizar um serviço que devia estar em sintonia com o nosso carisma específico. Os primeiros confrades que aqui chegaram logo se deram conta de a Coreia ter sido abençoada com um grande número de sacerdotes diocesanos já capazes de atender às necessidades das comunidades paroquiais, aliás sempre a crescerem. Assim, a atenção dos primeiros não ficou logo ocupada com as necessidades pastorais da comunidade cristã, podendo deste modo virar-se de imediato para a especificidade do nosso carisma, ou seja, orientando-se logo e decididamente para o ad gentes. 1. “Os pobres serão evangelizados”: logo de princípio se tornou claro que deve ser este o sinal distintivo da nossa missão na Coreia, tal como o foi do ministério de Cristo. Esta atracção pelos pobres vê-se logo à tona não tanto pela falta de meios materiais como pela necessidade de se solidarizarem com eles e assim dar testemunho duma dimensão essencial da Igreja de Cristo. Não foi uma escolha fácil, esta. Nem a ela se chegou por qualquer pedido da Igreja local. Foi, de facto, um movimento contra a corrente, já que a Igreja Católica está constituída, em grande parte, por gente da classe média-alta. Mansokdong então e Kuryong agora continuam a ser um “sinal” da opção que Jesus Cristo fez e que quer que cada discípulo repita em cada época e em cada lugar, para os pobres não evangelizados e para a Igreja local. Ao viverem em contacto com os pobres, também nós missionários acabamos por ser interrogados. Os pobres evangelizam-nos ao convidarem-nos a compreender melhor a força libertadora da Palavra de Deus que nos chama a convertermo-nos à autenticidade da vida e à solidariedade para com todos, como caminho obrigatório para nos podermos apresentar como discípulos do Mestre de Nazaré. 2. A fé cristã aumenta quando a partilhamos com outros ou quando a damos a quem ainda a não conhece. Vós ouvistes esta afirmação de João Paulo II, logo desde o início, como se tivesse sido dirigida com vigor a esta Igreja da Coreia, tão rica em recursos, mas ainda dobrada sobre si mesma e toda empenhada em manter viva a fé de quem crê. Eis que então nasceu em vós o desejo de dizer aos cristãos da Coreia que o dom da fé deve impulsioná-los pelos caminhos do mundo para a anunciar a quem ainda o não ouviu Aquele Cristo que eles próprios receberam há cerca de dois séculos. A animação missionária e a promoção vocacional são, por isso, duas actividades inerentes à nossa própria vocação mas que assumem particular carácter de urgência e necessidade nesta Igreja. Não faltaram dificuldades da nossa parte nem resistências por parte de outros e que ainda continuam, mas elas não nos devem fazer desistir do propósito de encarar este compromisso com entusiasmo, sob pena de desvalorizarmos a nossa própria vocação missionária. 3. A opção que fizemos de nos envolvermos em iniciativas de diálogo religioso chegou mais tarde devido a dificuldades reais que tal compromisso envolvia. Foi por esta razão que decidistes arrancar com o centro “Fonte de Consolação” de Okkildong e decidistes preparar de propósito o respectivo pessoal. A caminhada que então empreendestes deparou-se com uma travagem brusca; mas agora parece ter sido retomado e, encaminhando-se na direcção certa. Em sintonia com a doutrina da Igreja, cremos que esta actividade não é corolário da nossa presença na Coreia: é de facto parte integrante dessa presença. Uma parte integrante que, no entanto, é também muito exigente. Temos que dialogar com a vida, antes de com a palavra; temos de partilhar com os crentes de outras religiões a fé que nos tornou novas criaturas; queremos partilhar com eles a nossa espiritualidade, que encontra na Palavra, na Eucaristia e no silêncio orante a sua própria força. Muito apropriadamente, quereis agora retomar a caminhada, partindo de alguns pressupostos fundamentais como a vida comunitária e o empenho na oração, o esforço por conhecer com seriedade a cultura e a religião deste povo, a abertura e o acolhimento fraterno no nosso Centro a todos os que queiram partilhar connosco a sua experiência de fé e de oração. Pobreza de recursos e vida simples A Coreia abriu ao Instituto uma nova fronteira missionária, a fronteira da Ásia. Ao chegarem aqui em 1988, os nossos primeiros quatro missionários tiveram logo uma percepção bem clara de que fazer missão na Ásia é significativamente diferente de a fazer à maneira tradicional. Antes de mais, na Ásia sentimo-nos sempre estrangeiros mesmo que o acolhimento do povo seja cordial. Por muito esforço que o missionário faça, o processo de inculturação nunca se pode considerar encerrado, a aprendizagem da língua nunca estará completa, e a integração na Igreja local nunca plenamente realizada. O missionário, na Ásia, tem que possuir uma intensa paixão apostólica que lhe permita passar alegremente por um verdadeiro processo de despojamento, como por exemplo, a inactividade forçada ou as longas esperas. Só pelo acolhimento positivo desta realidade é que ele poderá constatar como o milagre evangélico do grão de trigo que cai à terra e morre, mas gera vida, poderá renovar-se uma vez mais em si mesmo. Creio eu que, para alcançardes o vosso objectivo que acabo de descrever, poderão servir-vos bem algumas atitudes específicas: - a discrição, que nos empurra a evangelizar nos bicos dos pés, dando grande atenção à cultura local, respeitando a tradição, tendo grande consideração para com o seu génio religioso. O missionário, em paráfrase da famosa expressão de São Paulo, deverá compreender tudo, respeitar tudo, esperar pacientemente, sempre propor e nunca impor. - A atenção ao essencial, que sempre subjaz a todos os projectos missionários, leva-nos a preferir os ambientes pobres e menos espalhafatosos, para que o valor do sinal se revele em toda a sua eloquência. É aqui que se revela a verdadeira pobreza evangélica que leva a dar mais importância ao ser que ao fazer. - O espírito de serviço, que leva o missionário a nunca desdenhar dos papéis auxiliares, a presença serviçal e pouco protagonista, desejando o último lugar como o que mais adequado é à sua índole vocacional. As exigências que acabo de descrever, que são próprias da espiritualidade missionária na Ásia, não vos devem levar a pensar, porém, que a obra missionária seja pouco necessária neste continente, ou, então, levar-vos à passividade ou à inactividade, respectivamente errada e perigosa. É antes uma questão de fé que é posta à prova e purificada, uma fé sempre em estado de alerta que nos impele a caminhar, que se torna esperança nas adversidades, e constância nas provações. Tal como a fé de Maria que gera Cristo e O dá aos outros. Constantes duma prática já consolidada Demorei-me a descrever a vossa situação missionária e os vossos valores ideais. Passarei agora a fazer uma análise do vosso projecto missionário concreto, que sempre foi elemento de força, facultando-vos uma longa caminhada, muitas vezes marcada por incertezas e dificuldades. A pausa para reflexão que fizestes durante esta visita permitiu-vos focar os elementos de força e os elementos de fraqueza, de que aliás elaborastes lista. Não vou demorar-me sobre cada um deles individualmente, passando a sublinhar apenas os aspectos que surgiram com mais frequência e que devem ser uma referência permanente para o futuro. Fá-lo-ei sem me preocupar com lhes imprimir nenhuma ordem lógica ou lhes aplicar critérios de prioridade. 1. A Delegação continua pequena, com uma quantidade de pessoal que fica abaixo do óptimo das quinze unidades que indicastes na Conferência Regional. São três as comunidades locais, com pessoal numericamente suficiente mas nem todos estão preparados para enfrentar o trabalho específico de cada uma, devido ao insuficiente conhecimento da língua. A Direcção Geral esforçar-se-á por vos dar o pessoal necessário, mas importa continuar a manter o número actual de fundações para se não ter de sacrificar a preparação do pessoal e as suas exigências de formação às necessidades pastorais que fundações posteriores possam criar. 2. Após a sua chegada ao país, cada missionário dedica dois anos ao estudo da língua e esforça-se por conhecer a cultura, a história e as respectivas tradições. A experiência já confirmou a vossa convicção de que o estudo da língua e da cultura nunca deve terminar. Poderão analisar-se e realizar-se iniciativas adequadas a este objectivo mesmo a nível comunitário, para manter vivo o interesse de todos nesta tarefa que, com o passar do tempo tenderia facilmente a enfraquecer. Aproveitai das oportunidades já existentes e inventai outras, se achardes que vos poderão ajudar na interpretação da situação deste País, que aliás não é nada simples. 3. A espiritualidade tem um papel fundamental na vossa vida. Afinal, tendes necessidade de possuir uma grande carga de energia interior para poderdes enfrentar um tipo de missão que por vezes poderá apresentar-se árida e que talvez dê pouca satisfação pastoral. As iniciativas que favorecem a vossa espiritualidade também poderão ser úteis a outras pessoas. Várias vezes e em vários lugares ouvi que as pessoas têm hoje uma grande fome espiritual. Acompanhá-las de forma a poderem fazer um encontro pessoal com Jesus Cristo ou a descobrir o Absoluto nas suas vidas é um dos serviços mais preciosos que a vossa missão poderá oferecer. Se preciso for, inventai iniciativas ad hoc que tenham a capacidade de responder melhor às necessidades e aos desejos das pessoas. Este contributo encaixa perfeitamente na nossa actividade específica de estimular e servir de fermento missionário dentro da Igreja e da sociedade coreana. 4. Vós também sentis que, neste momento, tendes de aumentar ainda mais a animação vocacional e missionária. Já se notam alguns sinais de maior abertura da Igreja coreana ao ad gentes, com maior número de sacerdotes e religiosos a abrirem-se à missão e com o Dia Missionário Mundial a ser mais vivido e a sensibilizar mais o povo de Deus. Importa que cada missionário sinta a tarefa de animar a Igreja local como tarefa pessoal, para além do trabalho que cada um realiza e do papel que cumpre na sua comunidade. Que lhe dedique o tempo livre de compromissos específicos, sobretudo aumentando os contactos com as paróquias. Nesta área, a nossa Revista deve ter um papel importante. As Religiosas locais também podem constituir potencial importante de animação missionária e vocacional: dêmos-lhes o nosso contributo de boamente para a formação missionária e apoiemo-las no seu trabalho a favor da missão. 5. Como já disse, a vida comunitária intensa e fraterna é uma das coisas mais maravilhosas que tendes. Mas ela nunca se pode considerar adquirida para sempre, pois que se caracteriza pela fragilidade. Ela precisa de ser guardada com cuidado, alimentada de muitas maneiras. Até pode padecer do desgaste do tempo e da habituação. Por isso, o dia semanal livre de encargos e dedicado a vós próprios, tal como as avaliações periódicas, as programações comunitárias e os momentos anuais de formação contínua, de oração e de férias em comunidade, devem ser considerados indispensáveis para crescerdes na vida comunitária e na comunhão fraterna. 6. A proximidade relativa das três comunidades permite à Delegação manter um estilo comunitário intenso. Ao mesmo tempo, importa que adopteis os mecanismos necessários para dar às comunidades uma feição e um andamento próprios. Não deixeis a comunidade local sem tempos de formação, ligando importância apenas aos que são comuns a toda a Delegação. Ela desenvolve-se bem e de maneira sadia quando consegue respeitar o ritmo de vida de cada comunidade que, por seu turno, poderá, desta forma, oferecer as suas próprias experiências em prol da totalidade. 7. Outro elemento energético na vida da comunidade é o esforço por terdes sempre um projecto missionário claro e configurado com o nosso carisma IMC. Até agora tendes conseguido resistir à tentação de o diluir, pelo envolvimento em actividades que não são estritamente da nossa linha. Mas essa fidelidade não deve impedir-vos de dar um contributo pastoral às paróquias e às comunidades religiosas sempre que estejais livres de outros compromissos específicos. Nesta fase inicial da nossa presença nesta Igreja, é preciso alargar o círculo dos relacionamentos, quer para alargar o âmbito da vossa animação missionária quer para favorecer a proposta vocacional. 8. A formação contínua e o bom cuidado do pessoal missionário ocupam sempre posição elevada na escala das vossas prioridades. Mas também já confessastes que por vezes o tempo consegue enfraquecer a intensidade e a participação activa nas iniciativas comunitárias. Ouso pedir-vos que não desistais deste vosso tradicional compromisso, embora constatando que o passar dos anos possa vir a sugerir-vos a diversificação de algumas das vossas iniciativas. Por exemplo, os jovens que estão agora a chegar à vossa Delegação precisam, sem dúvida, de alguns tempos formativos adequados à sua situação e à resposta às suas necessidades. 9. A estabilidade do pessoal foi boa durante os anos anteriores, embora já se tenham feito quatro substituições e tenha havido a desistência de outro missionário. Vós sentis que esta estabilidade é um elemento muito importante, e tendes razão. As dificuldades de inserção no mundo coreano, a língua cuja aprendizagem não é rápida e a necessidade de garantir continuidade ao vosso trabalho assim o exigem. Mas à estabilidade deve andar ligado também o bem dos indivíduos que, como bem apontastes, exige que os revezamentos dos Missionários se façam mesmo, ainda que com prazos mais alargados. 10. A administração dos bens assenta totalmente no princípio da caixa comum. A auto-suficiência da Delegação conseguiu-se com relativa facilidade, sobretudo graças à generosidade duma quantidade sempre crescente de benfeitores e também graças aos serviços pastorais que se prestam às paróquias. A crise económica que se abateu sobre a Coreia há cinco anos fez-se sentir em tudo; apesar disso, a Delegação conseguiu encarar o seu trabalho com relativa serenidade. Entre os amigos das missões também se iniciaram com êxito projectos de ajuda às várias obras noutros continentes. Este é um meio eficaz de abrir os horizontes das comunidades cristãs e assim ajudá-las a se sintonizarem com os brados que chegam de situações de pobreza de todo o mundo. Visão do futuro Os dezasseis anos de presença neste país e nesta Igreja, onde a acção missionária é tão diferente da acção missionária tradicional do Instituto, mal serão suficientes para considerar já estabelecida a nossa prática missionária. Há muitos desafios a interpelar a nossa vida e a nossa missão, convidando-nos a modernizar os nossos métodos e as nossas iniciativas apostólicas. Por esta razão, quero exortar-vos a que não desistais do compromisso da procura, do discernimento e do aprofundamento da nossa vocação missionária nas suas várias dimensões. A seguir, vou destacar mais alguns aspectos que precisam duma atenção toda especial de todos vós, a bem da caminhada futura da Delegação. Trata-se de assuntos que surgiram durante a visita, em modos e tempos diversos, e que agora vou simplesmente enunciar e descrever, com todas as perguntas e desafios que envolvem, sem pretender sugerir soluções definitivas. A Formação básica Há já vários anos que a Delegação está a receber jovens que desejam conhecer o Instituto, discernir a sua vocação e percorrer as duas primeiras etapas da sua caminhada formativa, quer dizer, o ano propedêutico e os anos de filosofia. O número de alunos, que sempre foi muito pequeno, nunca foi além de cinco. Hoje há dois. As dificuldades inerentes à promoção vocacional missionária são do conhecimento de todos: ambiente cultural fechado, escasso conhecimento da vida religiosa, com baixa consideração por ela, dificuldade de os jovens saírem do seu próprio país. Essas dificuldades acabam por incidir duramente sobre a formação e fazem desanimar bastantes jovens para poderem aceitar a vocação missionária. Aproveito para vos agradecer pelo esforço generoso que até agora tendes demonstrado neste campo da animação missionária e na formação, apesar de os frutos continuarem a ser escassos ou pelo menos inferiores às vossas expectativas. Há dois problemas ligados à formação básica que devereis estudar com atenção, tanto dentro da Delegação como em união com a Direcção Central. Antes de mais, a conveniência ou não de se ter uma sede à parte da Casa da Delegação de Yokkok para funcionar como seminário. Até agora, os que são a favor da actual situação parecem ser mais do que os que se inclinam para uma sede à parte. Um outro tema que deverá ser encarado nos próximos anos, caso o número de alunos aumente, é o da conveniência ou não de haver noviciado na Coreia, para evitar aos jovens as dificuldades de língua e ambiente numa etapa tão importante da sua formação religiosa e missionária. A evangelização dos não cristãos As três opções feitas até agora pela Delegação ficam todas claramente dentro do âmbito específico do nosso ad gentes. A opção de estarmos presentes entre os pobres da periferia de Seul já nos dá a oportunidade de estarmos próximos dos que não são cristãos e de colaborar com as suas várias iniciativas de solidariedade. Nos diálogos individuais que tive convosco, e também no discernimento comunitário, foi levantada várias vezes a questão de saber se já terá chegado a altura de a Delegação dar mais um passo, assumindo também um compromisso específico com o primeiro anúncio. Uma decisão dessas completaria perfeitamente o conjunto das que fizemos até ao presente. Infelizmente, a quantidade de pessoal não nos deixa abrir já uma nova frente de actividades. Assim, porque não aproveitar para vos preparardes, começando em Kuryon actividades de primeiro anúncio, mesmo que de forma gradual e de forma tal que se não prejudique a natureza da nossa presença de inserção no meio dos pobres? Tal projecto deveria ser planeado e iniciado sempre em íntima colaboração com a paróquia a que pertencemos. O relacionamento com a Mongólia São múltiplas as ligações que existem entre a Mongólia e a Coreia, principalmente do ponto de vista económico. A Igreja coreana também se sente próxima da Mongólia. Há padres e religiosos coreanos naquele país; e a Conferência Episcopal já interveio com ajuda económica àquela comunidade cristã nos seus primeiros passos; o Núncio Apostólico da Coreia também representa a Santa Sé na Mongólia. A nossa recente fundação na Mongólia não pode deixar de vos interpelar também e ver-vos próximos da obra missionária que os nossos confrades e irmãs estão a fazer naquele país. Tendo-os acolhido durante uma semana enquanto tratavam dos seus documentos de entrada, estais agora a perguntar-vos qual a colaboração possível entre vós e eles. Eu penso que seria conveniente esperar que a sua experiência se afirme e lhes permita dar os primeiros passos para uma programação de conjunto. Prevejo a possibilidade de os poderdes ajudar no campo da formação contínua, em empenhar os fiéis e os colaboradores da Coreia em projectos de solidariedade com a Igreja da Mongólia. Leigos e colaboradores Constituem um presença viva e promissora da Igreja coreana e uma ajuda preciosa na vossa acção missionária, além de uma companhia fraterna nas vossas três comunidades. O XCG, depois de ter indicado os vários modos de colaboração leiga na obra missionária, acrescentava: «Estes desenvolvimentos e as solicitações existentes evidenciam um sinal dos tempos, ao qual o Instituto deve prestar atenção. De outra forma, descuidaria um verdadeiro serviço missionário e privar-se-ia de preciosas potencialidades à disposição da Missão. A presença de leigos exalta o valor do testemunho, reforça a capacidade de colaborar e viver a Missão na comunhão e na complementaridade, é uma ajuda contra a solidão e o individualismo pastoral.» (60). Estas afirmações do Capítulo soam verdadeiras, agora mais do que nunca, no contexto da Coreia. Os colaboradores leigos são para vós um dos sinais dos tempos mais claros que deveis valorizar ainda mais. Serão eles a permitir-vos uma influência ainda maior na Igreja e no ambiente coreanos, apesar da vossa pequenez numérica e das vossas limitações linguístico-culturais. Já fizestes uma boa caminhada na valorização do laicado. O futuro talvez vos venha a sugerir novos modos de colaboração através dos quais eles poderão ter um papel mais activo na missão, tanto no país como no estrangeiro. Fé em Deus e espiritualidade do diálogo Antes de terminar este relatório, não posso deixar de chamar à vossa atenção dois aspectos que considero muito importantes para a vossa vida pessoal e para o bom êxito da vossa missão. Já tendes consciência da sua importância, uma vez que já os tínheis recordado no documento da primeira Conferência Regional e também agora, durante a visita canónica. Creio eu que nunca devemos cansar-nos de os encarar, especialmente nos momentos de exame da nossa vida e da nossa missão. É meu desejo que fiquem como especial recordação da minha estadia no meio de vós. 1. Fé em Deus Quando falo de “fé em Deus” (cfr. XCG 28), pretendo referir-me à posição central que Ele deve ter na nossa vida e no trabalho apostólico, evitando o risco e a tentação de nos apoderarmos daquilo que é realmente Seu, quer dizer, a missão, o povo a evangelizar, os pobres, o Reino. Falar de fé em Deus significa, afinal, enfatizar a necessidade de santidade, e exactamente aquela que o Beato José Allamano queria que cada missionário tivesse, visto que a considerava elemento essencial para poder fazer missão. A fé vivida no vosso contexto missionário também indica o abandono de todas as certezas, inclusivamente as certezas religiosas a que estávamos habituados a utilizar nos momentos difíceis ou de provação. Também é fé deixar que Deus purifique o nosso modo de crer, para que aquilo que nela é menos autêntico desapareça ou se transforme. Fé significa portanto apoiar-se solidamente em Deus, permitindo-nos perseverar mesmo quando as “nossas” razões para continuarmos fiéis parecem desmoronar-se ou quando os nossos cálculos já não funcionam. Como é acertada, na Ásia, a ordem bíblica de não fazer censos como faziam os imperadores romanos! O Reino de Deus não aparece nas estatísticas, no número de conversões ou no êxito vocacional. Ele só se realizará se soubermos amar da mesma maneira que Ele, na mais absoluta gratuidade. 2. Espiritualidade do diálogo O documento “Dialogo e Anúncio” reza que «o diálogo pode entender-se de várias maneiras. Em primeiro lugar, a nível puramente humano, significa uma comunicação recíproca para alcançar um objectivo comum; ou, a nível mais profundo, uma comunhão entre pessoas. Em segundo lugar, o diálogo pode ser considerado como uma atitude de respeito e de amizade, que penetra ou deveria penetrar em todas as actividades que constituem a missão evangelizadora da Igreja. Com razão, poderá ser este o espírito do diálogo» (9; ver também o XCG 71). Por falar de espiritualidade do diálogo eu gostaria de fazer relevar ambas as suas formas como elementos de importância fundamental para o missionário dos nossos dias. Afinal, sem diálogo não poderá haver missão, tal como não poderia haver comunhão na Igreja ou evangelização dos povos. Diálogo é, de facto, no âmbito da fé cristã, o acolhimento da Palavra de Deus que cada um traz consigo para a poder dar aos outros. É ele que possibilita a transmissão da vida que nos vem de Deus. Muitas vezes vós sentis a necessidade desta espiritualidade e sabeis que ela não se pode improvisar. Antes de mais ela requer, em cada um que a pratica, uma atitude de profunda humildade que leva a reconhecer aquilo que cada um é, as suas limitações e a necessidade íntima dos outros. Em segundo lugar, é preciso que a pessoa cultive uma atitude constante de abertura para estar à altura de dar e receber. A paciência é a terceira atitude que jamais deverá faltar para que a caminhada da conversão não seja penalizada, visto que já é comprida e cheia de dificuldades. Conclusão Não posso encerrar este relatório sem dirigir o meu pensamento para vós três, confrades africanos recém-chegados à Coreia. Estais satisfeitos com a experiência feita até agora e sentis-vos plenamente à vontade na comunidade e no meio do povo. O contributo que podereis dar à Delegação, e que estais a dar, é grande, sobretudo em termos de internacionalismo, fraternidade e pluralidade de participação missionárias. O meu voto é que a vossa experiência positiva seja de bom agoiro para tantos outros confrades africanos que no futuro haverão de vir para ajudar a missão do Instituto neste continente. Vou encerrar agora agradecendo do fundo da alma a experiência que me deixastes viver junto a vós. Para além do diálogo pessoal e comunitário que me deu a oportunidade de compreender melhor a vossa situação existencial e laboral, já há tempo que tínheis redigido relatórios que ilustravam amplamente os vários aspectos da vossa vida, da Delegação e das várias comunidades. Durante a visitação, vós também quisestes que eu participasse em algumas das vossas actividades, apresentastes-me os vossos amigos e fizestes com que me encontrasse com o Núncio Apostólico e com o Bispo de Inchon. Um muito obrigado muito especial ao padre Paco López, Superior Delegado, que teve de aguentar com a carga mais pesada da visita, bem como ao seu Conselho, que se disponibilizou para uma larga troca de ideias. Que Nossa Senhora da Consolata e o Beato Fundador vos apoiem sempre na vossa missão e vos abençoem. P. Piero Trabucco, IMC (Padre Geral)
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