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| Padre Giuseppe Bargetto (1919-2003) |
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| Por P. Giuseppe Inverardi | |
| 12 de March de 2006 | |
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Era filho de Leopoldo e Savio Vincenza e nasceu na terra natal do Pai Fundador, Castelnuovo Dom Bosco, a 9 de Janeiro de 1919. Entrou para o Seminário de Giaveno, mas foi obrigado a integrar-se nas campanha militares na França, na Albânia e na expedição da Rússia. Durante a trágica retirada de Don, desenvolveu o desejo pela missão, de forma que, terminado o curso de filosofia no Seminário de Chieri, entrou para o Instituto em 1944. Assim escreveu, de Varallo Sesia, onde fazia o Noviciado, ao Vice Superior Geral, Padre Sandrone, em 8.12.1944: «Sim, estou bem. Esta foi uma grande graça que Nossa Senhora me quis fazer; sem ela não me tornaria um bom padre. Vejo-me a navegar num rio de graças; e a minha preocupação é não ter correspondido, temendo ainda não ir corresponder plenamente. Penso muitas vezes nas suas palavras: “Diminuir sempre um palmo” e digo-lhe que não me deixam indiferente. Estou contente com os meus superiores e com os colegas. Estou mesmo em família. Procuro ganhar boas bases nas principais práticas de piedade porque sei que elas são o suporte do apostolado». No ano seguinte fez a profissão e foi ordenado em 1949. No ano de 1950 partiu para a Tanzânia, onde acabaria por trabalhar 51 anos, até Abril de 2001, data em que chegou a Alpignano, juntando-se ao Padre Cattoi, seu colega de missão que haveria de o preceder no Reino dos céus. O Padre Giuseppe era uma pessoa muito concreta e teve uma vida marcada pelas datas da fundação de missões e obras sociais em tempos difíceis. Foi destinado à imensa missão de Matembwe e em 1954 foi enviado por Mons. Beltramino a fundar Makambako onde pôde tirar partido dos dois anos de carpintaria que fizera em Castelnuovo “por detrás da estátua de Dom Bosco”. Lá ficou até 1960, quando passou para Pawaga – uma missão em condições lastimáveis, donde durante três meses por ano não se podia sair devido às chuvas e falta de pontes. Em 1953 foi fundar a missão de Ikonda e respectivo hospital. Relatava ele: «Faltava o dinheiro; e nós fazíamos os transportes com o autocarro de que se tinha quebrado o eixo». Passados dois anos encontramo-lo em Sadani, onde trabalharia até 1978. Voltou depois para Pawaga por mais três anos; e em 1982 foi fundar mais uma missão, a de Kifumbe, onde viria a trabalhar durante 11 anos. Em 1994 voltou mais uma vez para Sadani até que regressou à Itália. No dia 3 de Agosto de 2003, pelas 0:45 da manhã, Deus chamou-o a Si, de improviso. No dia 5 de Agosto fez-se a celebração de sufrágio em que participaram numerosos familiares, confrades e irmãs. O Padre Di Martino, na sua homilia, evocou episódios humorísticos e outras peripécias deste soldado da pátria, tal como aspectos edificantes deste soldado de Cristo, pioneiro das fronteiras da Tanzânia. Seguem os testemunhos do Padre Medri e de um colega seu do seminário diocesano. Os seus restos mortais seguiram para Castelnuovo, onde ficaram sepultados. P. Giuseppe Villae Redacção de “Da Casa Madre”
MILITAR PELA PÁTRIA E MILITAR POR CRISTOEntrevista ao Padre Giovanni Medri em 2001
O José, uma vez finda a instrução primária com 11 anos, foi para a oficina de Osvaldo Cagliero para se fazer carpinteiro, mas ao mesmo tempo sentia-se inclinado para a vida clerical, para as celebrações litúrgicas e de boamente ajudava à missa na capela da Consolata de Castelnuovo. Confidenciou o seu desejo de se tornar sacerdote ao Padre Pietro Bordone, coadjutor do pároco, que teve muita alegria em poder ajudá-lo nas primeiras lides com o latim, de forma que ao ser admitido no Seminário de Giaveno, passou logo para o segundo ano do ensino secundário. Mas por altura da incorporação militar, e sem ter ainda atingido o ano propedêutico, teve de deixar o seminário e ir para a tropa. Tendo cumprido o serviço, rebentou a segunda guerra mundial, sendo logo mandado para a frente ocidental do exército, na França. Uma vez encerrada essa frente, foi mandado para a Albânia, onde a guerra de trincheira, nas montanhas, foi terrível, principalmente durante o Inverno, onde muitos soldados morreram ou perderam os membros por congelamento. Finda a guerra na Albânia, voltou para a Itália durante algum tempo, tendo sido de novo convocado e enviado para a Rússia na expedição que chegou a Don. Por certo que muitos já ouviram contar a vida e os sofrimentos dos nossos soldados naquele lugar. Sem falar da trágica retirada de milhares de quilómetros a 40 graus abaixo de zero. O José salvou-se pela graça especial de um futuro destino missionário e por recurso às suas energias pessoais. A retirada da Rússia durou um mês inteiro, o de Janeiro de 1942. Foi naqueles dias horríveis que uma ideia começou a infiltrar-se nele: a de deixar tudo e se fazer missionário. Quando a guerra acabou, voltou para o Seminário de Chieri e, depois de concluir o curso de filosofia, pediu para entrar no Instituto. Fez o noviciado e o curso de teologia, passando pela Certosa di Pesio e por Rosignano Monferrato…, tendo sido ordenado sacerdote a 19 de Junho de 1949. Passados seis meses, nos princípios de 1950, já estava no vapor “Africa” a caminho de Dar es Salaam, na Tanzânia: já não havia aquela imensidão de neve a cobrir a tundra russa, mas sim a imensidão do oceano Índico… para uma conquista para Cristo. Em breve se encontrou numa frente diferente, no Sul da Tanzânia, na missão de Matembwe, do Vicariato de Iringa governado por Mons. Beltramino. Foi lá que se encontrou com o Padre Cattoi, que haveria de ser seu companheiro de missão por quase toda a vida. Depois de alguns anos, a vastíssima missão de Matembwe teve de ser dividida, de forma que foi enviado a criar de raiz a missão de Makambako, uma área de forte influência luterana. A seguir foi enviado para a região de Pawaga, de clima fortemente equatorial, ao longo do rio Ruhaha, na área do Great Rift Valley. Depois foi de novo para a montanha a fundar a missão e hospital de Ikonda. A seguir foi para Sadani e de novo para Pawaga… e uma vez mais para fundar uma nova missão na zona de Matembwe, numa aldeia do seu primeiro apostolado, tendo criado Kifumbe que, em poucos anos, se tornou capaz de completa autonomia. Kifumbe tornou-se uma grande paróquia que foi entregue ao clero diocesano. E ele, como bom soldado, foi para outra missão! Entrevê-se na pessoa do Padre Bargetto um certo paralelismo entre a sua vida de soldado e a sua vida de missionário. Tendo sido arrancado à serenidade da preparação para a vida sacerdotal, fora arremessado para a vida de caserna e para a vida de guerra, primeiro na França e depois para a desastrosa experiência da guerra na Rússia… encontrou na vida missionária algo de semelhante: foi sempre um missionário de fronteira em todas as regiões escaldantes… sempre em estilo militar, a fundar e a romper terreno… com muita graça de Deus mas também com muita iniciativa pessoal. E dizendo: «eu não; foi a graça de Deus que esteve comigo…Tenho plena consciência de que tudo foi obra de Deus. É ele que toca no coração dos evangelizados. Como soldado de Cristo, sinto-me estar a Seu serviço. Na missão, estivemos em tudo e por tudo ao serviço de Deus, da Igreja, do exército missionário e do destacamento de Missionários da Consolata, servindo-nos da graça de Deus e da nossa criatividade pessoal. Todo esse enorme conjunto de graças que cria de zero uma comunidade cristã se foi acumulando dia após dia durante dez, vinte, trinta ou cinquenta anos e… de repente, aparece-nos à frente a Igreja inteira com os seus leigos organizados em comunidades de base, com os seus seminaristas, religiosas, catequistas, neo-sacerdotes, bispos, cardeais – a Igreja toda, por completo! E tu, missionário, que trabalhaste sem parar, um pouco por aqui e por ali, como soldado disciplinado, nem sequer tiveste tempo para pensar no resultado final; mas foi Deus que tudo orientou e se serviu até de ti “para fazer de Cristo o coração do mundo inteiro”. Trabalhaste para construir uma capela aqui, uma escola acolá, organizar um grupo de base aqui, um grupo de jovens acolá, um hospital, um asilo, um centro catequético… Semeaste, plantaste e semeaste outra vez… e de onde veio o crescimento e a colheita? Foi de Deus! “E isto é maravilhoso perante os nosso olhar!”. Se é que eu possa ter um desejo, ele seria: voltar para onde combati o bom combate e voltar a dar aquilo que ainda de mim resta à minha gente».
TODO E SEMPRE MISSÃO
Ainda este ano, no dia 19 de Junho, me escreveu estas palavras: «Sinto que as minhas forças estão a faltar-me. E também a vista, por causa da diabetes». Se não bastassem as suas palavras – era a primeira vez que confessava uma fraqueza generalizada – mostrava-o a caligrafia muito diferente do habitual. De modo que, a quem me perguntava por ele, eu podia dizer com toda a franqueza: o Padre Bargetto sente que a sua hora está próxima. Já com 81 anos, assim me escrevia ele de Kifumbe a 10 de Fevereiro de 2000: «A velhice e os achaques tocam para a rendição. A missão de Kifumbe é bonita e não tem problemas; mas a idade obriga-me a baixar as asas. Morrer de espingarda na mão – dizia ele, que tinha combatido na guerra – é o destino dos heróis e só é dado a poucos». Estava na paróquia com o Padre Cattoi, que era seis anos mais velho que ele, um famoso dueto em estima e afecto mútuo feito de colaboração. O respeito pelos mais velhos e o seu desejo de ficar na frente de batalha fez com que o Bispo e a Direcção Regional os deixassem continuar durante muito tempo em actividade. Não podia esperar-se qualquer novidade metodológica, aliás difícil para todos. Mas o padre diocesano que os acompanhava deu um lindíssimo testemunho sobre eles. Ele deu com uma missão em tudo organizada e linda que nem um jardim, cada capela com a sua estrutura de alvenaria e, sobretudo, comunidades vibrantes. Dizia-o com surpresa, como se tivesse pensado encontrar o contrário antes de lá entrar. Participação, catecismo, visitas às aldeias era o seu método mesmo na velhice. E deixou marcas! Antes de deixar Kifumbe, o Padre Bargetto quis assegurar-se de que iria ser recebido numa missão – e calhou-lhe Sadani. Sentia a necessidade da amizade, da compreensão e da liberdade. Conhecia-se bem, o seu carácter, as suas exigências e as suas limitações de saúde. Não queria ser um fardo mas nem tão pouco se resignava à ideia de ir parar a Alpignano. Mas teve que ser, devido a graves motivos de saúde – e ali ficou, conseguindo até apreciar Alpignano, quanto à assistência que recebia. Mas o seu pensamento e o seu coração tinham ficado na Tanzânia. E era esse o refrão de todas as suas cartas e conversas. Um dia disse: «Sinto-me melhor. A glicemia baixou. Aqui em Alpignano é tudo muito lindo e as flores têm o seu perfume – um Padre Bargetto feito poeta! – mas sinto-me como quem está na cadeia. As minhas últimas decisões, se por acaso combinarem com as tuas, seriam: voltar para a Tanzânia daqui a dois meses e trabalhar, nem que fosse num terceiro ou quarto lugar». Mas a saúde estava a piorar, de forma que ficou destinado para a Itália. Ao receber a destinação, em Dezembro de 2002, escrevi-lhe com toda a sinceridade: «Recebi ontem a tua destinação. É só para formalizar a tua situação. Mas, mesmo assim, são muitos os sentimentos que vêm à superfície. Antes de mais, a profunda gratidão por tudo aquilo que eras para nós na Tanzânia e por tudo aquilo que fizeste nesta terra e nesta Igreja que tanto amaste. Infelizmente, é inevitável a rendição às condições de saúde. Tu poderás ficar em Alpignano… mas na verdade estás aqui: é o que eu sinto, é o que todos sentimos e eu sei que também é o que tu sentes. Estás aqui no pensamento, com o coração e com a oração. Estás aqui todo! Mais palavras seriam a mais. Convictas e do coração, estas poucas exprimem a totalidade da tua missão, no passado e agora». E eu respondi assim à sua carta de 10 de Junho em que me avisava que estava a perder as forças: «Nesta fraqueza de corpo ainda vive toda a energia espiritual, o coração missionário e um passado glorioso de dinamismo e de serviço. Sem adulação, mas com toda a verdade, tu viveste anos heróicos, esquecido de ti mesmo e todo entregue aos outros. Gostaria de ter o mesmo zelo que tu e a mesma paixão missionária que tu». Para mim, o Padre Bargetto era assim: todo e sempre missão. Missão vivida com uma personalidade forte, sincero e piedoso, amigo profundo de todos. Estava velho e doente. Mas talvez o seu depauperamento tenha sido causado também pela morte dos seus dois maiores amigos: do padre Cattoi e do Padre Olivo. Todos nós nos tínhamos interrogado sobre como teria podido aceitar e viver sem eles. Pois agora já está com eles. Não já no gelo da Rússia, da Polónia e de outros países onde tinha combatido e cujos acontecimentos contava ao pormenor e com todo o chiste. Já não está sujeito às fadigas dos princípios de Makambako e de Ikonda, ou às dificuldades de Matembwe, Pawaga, Sadani e Ndabulo. Haverá só repouso em Deus – a Quem serviu com verdadeiro zelo e com verdadeira fidelidade. P. Giuseppe Inverardi |
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