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Padre Mario Bianchi (1925-2003) PDF Imprimir E-mail
Por Giovanni Tebaldi   
12 de March de 2006
Mario Bianchi deixara o Seminário de Rimini para dar cumprimento à sua vocação à missão mas não teve muita sorte. De facto, ele foi durante muitos anos um missionário “de escolta” – como costumava chamar-se – à espera daquele momento que afinal nunca mais chegava. A sua experiência no terreno chegou finalmente. Mas só durou dois meses, no Quénia. Foi quanto bastou para ele ver com os seus próprios olhos o lugar que tinha sido pisado e regado com o suor dos missionários e das missionárias. Aqueles poucos meses foram, depois, o ponto central que lhe serviu de padrão para medir as responsabilidades que lhe iriam ser confiadas. Foi o quinto na linha de sucessão dos Superiores Gerais que se tornou a consciência duma família sacerdotal religiosa e missionária IMC, transmissora do espírito de José Allamano. O período que o viu ao comando do Instituto não foi nada fácil, visto que aconteceu exactamente no tempo pós-conciliar, quando havia espíritos em ebulição e se debatiam, com todos os meios, para destronar a antiga ordem ou então substitui-la com um sistema novo mais adequado aos novos tempos. Nesta sucessão contínua de acontecimentos e mudança de condições, o Padre Mario Bianchi soube adaptar-se sem abdicar das suas convicções profundamente arraigadas na sua alma e sem faltar aos seus objectivos: vocação, missão, Igreja, Instituto, formação, doutrina e oração. Com uma grande carga de humanidade que se exprimia num sorriso contínuo numa cara de criança.

«Ao lhe dizermos o nosso adeus – escreve o Superior Geral Padre Piero Trabucco – gostaríamos de poder fazer reviver, para os podermos compreender, todos os valores pelos quais viveu, todas as coisas maravilhosas que transmitiu com o seu testemunho de vida e com a sua doutrina».

Notícia biográfica

O Padre Mario Bianchi nasceu em San Patrignano, na província de Forlì e na diocese de Rimini, no dia 30 de Julho de 1925. Era filho de Domenico e Modesta Carrara. Concluiu a instrução elementar na terra natal e continuou os estudos no Seminário de Rimini (1937-1942), entrando depois para o Seminário regional de Bolonha em plena guerra mundial. Aquela cidade sofria bombardeamentos quase diariamente, e o seminário ficou sujeito ao racionamento, acabando por ser evacuado. O seminarista Bianchi Mario voltou ao seminário diocesano de Rimini que, pouco depois, ficaria meio destruído. Seria depois reconstruído e reaberto no fim da guerra pelo Bispo Luigi Santa, missionário da Consolata e Vicário Apostólico de Gimma, na Etiópia. Foi aqui que se deu o primeiro encontro do jovem Bianchi com o Bispo Luigi Santa, encontro esse que foi decisivo para a sua opção missionária. De facto, o Bispo escreveu uma carta ao Vice Superior Geral, Padre Vittorio Sandrone, apresentando o seminarista Mario Bianchi como alguém que “dá as melhores esperanças”.

No dia 7 de Maio de 1947, escreveu ao Superior Geral, o Padre Gaudenzio Barlassina, a explicar que o seu pedido de admissão não levava a assinatura dos seus pais porque não lha pedira para lhes poupar algum sofrimento. Mas que se o Superior decidisse de outra maneira, estaria pronto a obedecer. Entretanto, antes de entrar no Instituto, pedia licença para terminar o ano escolar. Mas ainda havia uma questão por resolver: a do enxoval, muito pobre, dada a situação de guerra.

O Padre Barlassina não tardou a responder, o que levou o Mario a responder com surpresa no dia 28 do mesmo mês de Maio confidenciando-lhe que «entrar no Instituto da Consolata para me dedicar ao apostolado entre os infiéis, se tal for a vontade de Deus… me faz sentir profundamente a necessidade da intervenção de Nossa Senhora da Consolata».

A sua entrada deu-se, finalmente, no dia 20 de Julho na Certosa di Pesio, onde faria o postulantado e o Noviciado. O Mestre de Noviços, Padre Giuseppe Caffarato, descreveu-o como “um dos melhores, de sólida piedade, dócil, de convivência fácil e agradável, grande inteligência e apaixonado pelo estudo, pessoa de êxito, trabalhador, etc.». E o seu assistente, Padre Ersilio D’Errico, descreveu-o como «um indivíduo que já se tornou homem».

Professou no dia 31 de Março de 1950 na casa de Rosignano Monferrato e, depois, recebeu o subdiaconado das mãos de Mons. Carlo Re, o diaconado das de Mons. Giuseppe Angrisani e o presbiterado das mãos de Mons. Luigi Santa no dia 25 de Junho de 1950.

Naqueles anos, o Instituto, que era governado pelo Padre Gaudenzio Barlassina, passava por uma época de grande expansão nos países da América Latina e da África. Representam este período feliz da história do Instituto e da formação de Mario Bianchi personalidades recém-chegadas: Mons. Carlo Cavallera, Padre Antonio Torasso e muitos outros.

Depois da ordenação sacerdotal, o Padre Mario Bianchi foi enviado para Roma para se formar em Teologia no Angelicum. No fim do primeiro ano informou o Superior Geral, Padre Domenico Fiorina, da láurea que conseguira com summa cum laude. Esse êxito foi altamente lisonjeiro: 10/10 no exame escrito; 30/40 no exame oral. Assim já poderia começar a tratar da tese, que poderia ser «A participação dos fiéis no sacerdócio de Cristo”. E de facto seria mesmo. Obteve a láurea em teologia no dia 11 de Junho de 1954.

Nos anos que se seguiram, enfrentaria responsabilidades de grande utilidade para o Instituto e para a missão.

Seria professor no seminário teológico de Turim (1952-1953); vice director do seminário, professor e redactor da Stampa IMC (1954-1961); director da revista Missioni Consolata (Rivoli, 1961-1966). Em suma: a sua vocação encontrou vida e espaço nos campos da educação e da comunicação; e para se actualizar no campo da teologia dogmática, apresentou várias vezes pedido (1952, 1956, 1959) para «ler livros proibidos”. Pelo que diz respeito ao primeiro, ninguém duvida que o Padre Bianchi encarnou o modelo de professor ideal porque era dotado de clareza de linguagem e de profunda humanidade. Mas ele também foi um óptimo transmissor de ideias e de opiniões e, por isso, justamente colocado na direcção das revistas do Instituto.

Director da revista Missioni Consolata

Ensino e informação são as duas faces da mesma medalha. Uma cultura sólida e transmissível é a condição da comunicação. O Padre Bianchi conseguiu objectivos claros e teve bom gosto nas suas decisões. A informação, mesmo quando parece sair do contexto, é para abrir espaço à missão. É o caso do surgimento de novas nações, a formação de novas igrejas e hierarquias, bem como a presença dos leigos na Igreja. E a obra missionária nos países independentes. A análise destas situações não parece apresentar soluções fáceis. Mas o Padre Bianchi arranja sempre espaço para a dúvida e para a esperança.

Há um tema que reaparece sistematicamente nos seus escritos: o da participação dos leigos no sacerdócio de Cristo e o carácter missionário da Igreja, aliás temas que se encontram nos documentos conciliares e a que o Padre Bianchi deu ampla cobertura. A seguir vem a parte doutrinal: a das obras missionários, tais como, o nascimento e o desenvolvimento das missões da Argentina, do Brasil e da Colômbia, os povos índios da Amazónia, o nascimento da Diocese de Marsabit, as religiões do mundo, o encontro com as novas igrejas, as várias culturas da América e da África. De entre os colaboradores mais fiéis ressaltam: o padre Merlo Pick, o Padre Peirone, o Padre Tubaldo, o Padre Casiraghi, o Padre Sabatini e outros.

O formato da revista estava adaptado à mentalidade missionária que mais tarde daria lugar a outros meios de comunicação. Devemos porém reconhecer ao Padre Bianchi o mérito de ter transformado a revista IMC numa plataforma de cultura missionária variada, legível e instrutiva.

A missão a dois passos

Depois do encerramento do Concílio Vaticano II, as portas da missão abriram-se sem, contudo, o fazerem de par em par: o Padre Bianchi foi para Londres estudar inglês. Dali seguiu para o Quénia – para a missão que desejara já desde os tempos do seminário de Rimini. Mas já não haveria muito tempo: o Capítulo de 1969 estava iminente e por ele seria chamado a governar o Instituto. Visitou os Missionários, as missões, fundou um boletim para as Regiões do Quénia e da Tanzânia, o East Africa Consolata News (EACN), pregou exercícios espirituais e fez conferências. Esse ano foi de grande actividade pré-capitular sob todos os pontos de vista, precedendo em pouco o Concílio Ecuménico II quando, de súbito, se teve consciência de que era preciso fazer mudanças estruturais na vida religiosa e missionária. Havia muitas opiniões a circular pelo Instituto, sobretudo entre as gerações mais jovens. E o Padre Bianchi foi chamado a fazer a passagem. O objectivo era claro, mas os métodos não. Foi preciso um ano para chegar a uma conclusão sobre os temas principais que serviriam de base aos anos seguintes: a pré-evangelização dos não cristãos, a participação no desenvolvimento dos povos, a assistência às jovens igrejas, e a inculturação. O novo superior geral cumpriu o seu programa capitalizando sobre o programa da direcção anterior: intensificou a presença IMC nos países da América Latina e da Europa.

Doze anos de governo

A primeira carta que escreveu foi para os jovens seminaristas e para todos os que trabalhavam na missão. As duas palavras que mais usou foram: confiança e optimismo.

No início deste primeiro mandato de seis anos, vale a pena acenar à nova ordem periférica, ou seja, a dos superiores regionais e delegados e respectivos conselhos, a escolha dos superiores por eleição livre, as conferências regionais, etc. Em 1970 deram-se as conferências regionais da Europa, da África e da América Latina, a que se seguiu a visita às comunidades da África. Resulta daí um horizonte articulado de pessoas, actividades, acção pastoral, formação de líderes espirituais, programação e colaboração diocesana, relacionamento com os Bispos e com o clero local, etc. Igualmente exigentes foram as visitas às regiões da América Latina.

Nestes contactos, o Padre Bianchi demonstrou a louvável capacidade de dar ouvidos e saber dialogar com as pessoas e com as comunidades. E também a de dar à oração e à vida espiritual a importância que lhes compete. Em 1972 instituiu o «fundo de assistência aos confrades idosos e inválidos»; e também encarou o problema dos auxiliares missionários fixando-lhe a selecção, a admissão e os termos de contrato. Reaparecem frequentemente nos seus escritos a recordação dos que se seguiram ao Fundador no governo do Instituto e o amor ao Instituto e à Igreja. Ao voltar da visita ao Quénia, deteve-se no Congo e deu início às missões de Wamba. Passados seis anos sobre a sua eleição, chegara a altura de se pronunciar sobre as mudanças introduzidas pelo Capítulo de 1969.

Sob o signo da missão

A direcção do Padre Bianchi distinguiu-se pelo feliz regresso dos Missionários da Consolata à Etiópia. Tinham-se feito muitas tentativas para abrir caminho. Primeiro foi o Padre De Marchi, depois o Padre Domenico Fiorina. Mas coube ao Padre Bianchi abrir finalmente a porta. Numa carta que escreveu aos confrades, informava-os de ter conseguido o regresso à missão do Fundador para criar uma obra de tipo caritativo-social. E Em 1975 o Padre Bianchi obteve confirmação para mais um mandato de seis anos no governo do Instituto.

Há um pormenor que vale a pena marcar por representar uma novidade na história dos Institutos Missionários. Para dar resposta à necessidade de colaboração, os superiores gerais dos quatro institutos missionários escreveram algumas cartas em conjunto: 1. A Missão (na Páscoa de 1970); 2. A disponibilidade (25 de Março de 1971); 3. A oração do missionário (na Páscoa de 1972); 4. Os nossos compromissos com a animação missionária (na Páscoa de 1973); 5. A nossa fidelidade ao carisma missionário (na Páscoa de 1974); 6. O sínodo e a evangelização ad Gentes (na Páscoa de 1975).

No segundo mandato dá-se o vazio vocacional com as respectivas consequências nos territórios de missão. As exortações do superior geral ao dever de atrair vocações com a palavra e com o exemplo vai de mãos dadas com a oração: «Enquanto missionários consagrados a Deus e à evangelização – escreveu ele – temos de ser homens de oração; o nosso dia está marcado por um ritmo de oração e comunhão com Deus».

Não se poderia compreender a natureza do Padre Mario Bianchi sem lhe apalpar a alma: serena, transparente e alegre.

Dele escreveu o Padre Giuseppe Mina: «Encontrei-o no funeral de um confrade. Tal como de costume, cumprimentou-me com o sorriso pacificador de sempre que o distinguia, e até com aquele jeito senhoril e presença gentil…Um homem de visões largas que deu ao Instituto contributos significativos que fizeram história. Governar durante tantos anos o IMC numa época de profunda mudança…»

Ao serviço da Pontifícia União Missionária

Findo o seu serviço ao Instituto como superior geral, o Padre Bianchi assumiu por duas vezes a posição de superior da Delegação Central (1982-1987) e a seguir foi presidente da Conferência dos Institutos Missionários (1983-1987).

Estava para abrir-se na sua vida um período de grande doação e de fervor: em 1988 foi nomeado Secretário Geral da Pontifícia União Missionária, «um cargo que lhe permitiu exprimir a sua grande riqueza a favor da animação missionária dos sacerdotes e das pessoas consagradas e manifestar a sua profunda espiritualidade e delicada humanidade. Os que tiveram a sorte de trabalhar a seu lado naqueles anos são testemunhas disso. Foi uma pessoa de grandes iniciativas orientadas para a animação e formação de sacerdotes segundo os critérios e intuições do padre Manna: 1. O primado da missão ad gentes; 2. A animação do clero; 3. A formação de comunidades cristãs na índole missionária da Igreja; 4. A animação e a promoção das vocações missionárias.

Foram estas as linhas-mestras da revista Omnis Terra que ele dirigiu até ao seu regresso em 1995. Durante estes anos, manteve muitos contactos com Bispos e directores missionários de todo o mundo; representou a PUM nos congressos missionários da Índia, da Austrália e nos Congressos Missionários Latino-Americanos; participou em acontecimentos de grande importância tais como o 75.º aniversário da fundação da PUM em 1975, o Sínodo dos Bispos Africanos em 1994, como representante das Obras Missionárias. Em 18 de Abril discursou perante a Assembleia dos Bispos sublinhando o dever de as jovens Igrejas educarem as suas comunidades para o espírito missionário.

Em 1989, na Assembleia Geral das Obras Missionárias, apresentou uma perspectiva da PUM em Angola, Camarões, Chade, Costa do Marfim, Nigéria, etc. Não havia vestígios da União Missionária no Quénia e na Tanzânia. Mas, segundo julgava, não teria tido aceitação.

Seria um erro pensar que na vida do Padre Mario Bianchi prevalecesse a actividade, a avidez do fazer a qualquer preço. Ele era uma pessoa tranquila, em paz consigo mesmo, com o seu Deus e com os homens. Era dócil e firme nos princípios que absorvera na sua formação e na sua vida sacerdotal. Não é descabido interrogarmo-nos sobre que marcas terá deixado no Instituto este homem de oração, de inteligência e de humanidade. Terá sido por certo uma marca de grande bondade, tal como Cristo que passou pela terra a fazer o bem. Deus chamou-o a Si na Casa Mãe de Turim numa segunda-feira, dia 11 de Agosto de 2003.

Giovanni Tebaldi

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