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A Fidelidade PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, imc   
12 de March de 2006

19 de Março de 2004

Caríssimos Missionários:

Há muito que queria reflectir convosco sobre este tema. Principalmente porque cada vez se nota mais que a cultura contemporânea parece minar este valor que, no entanto, também parecia, no passado, ser de importância fundamental e absolutamente indiscutível. As mudanças, tão grandes como repentinas, no âmbito do pensamento moderno; o suceder-se vertiginoso dos acontecimentos; a tendência para a posse de coisas novas capazes de responder à procura duma criatividade que parece não ter descanso… tudo isso leva a questionar o valor da fidelidade quase como se ela fosse um anacronismo de velhos tempos. São prova disso, de modo mais acentuado no mundo ocidental, a facilidade com que se passa de um partido político para outro; da adesão a uma religião para outra; do compromisso conjugal para a simples convivência conjugal. Trata-se dum fenómeno que nem sequer parece causar surpresa a ninguém, tal é a habituação a uma cultura que rapidamente consome tanto as experiências mais significativas como as opções de vida mais relevantes. Assim, a fidelidade já não é um valor atractivo para as gerações mais jovens por parecer implicar uma atitude de defesa, um como que “fixar residência”, eliminando toda a abertura para o futuro e para a novidade.

Por isso, até a fidelidade incondicional que marca a vida consagrada deu entrada no olho do furacão. Os seus fundamentos parecem extremamente frágeis a muita gente e, cada vez mais, as gerações jovens dão a impressão de a questionarem na sua essência e no seu valor intrínseco. E perguntam-se – para que hei-de eu fazer uma escolha de duração vitalícia? E quem me garante que conseguirei ser fiel? Porque não fazer escolhas de curto ou médio prazo para assim poder continuar a ficar livre de fazer outras experiências de vida? E quando se dá, finalmente, o passo decisivo, ainda ficam outras interrogações, por vezes até angustiosas. Por exemplo, como é que eu vou regenerar a minha consagração de maneira que a minha fidelidade não se transforme numa paralisia ou em simples inactividade? Continuarei a sentir-me feliz com a escolha de vida que fiz?

As consequências destas dúvidas sempre recorrentes passam diante dos nossos olhos com aspectos nem só prejudiciais como até mesmo verdadeiramente dramáticos. É que uma grande percentagem dos nossos jovens que fazem a primeira profissão nunca chegam a demonstrar um compromisso definitivo, enquanto que uma quantidade relevante daqueles que chegam à profissão perpétua e às sagradas Ordens abandonam a caminhada que encetaram, dentro de poucos anos.

Uma vez que a nossa consagração missionária implica fidelidade não só ao Deus que nos chamou mas também às pessoas a que por Ele somos enviados, passemos a analisar este fenómeno a partir do seu aspecto humano e cultural contemporâneo, antes de mais – para depois o estudarmos do ponto de vista teológico e ascético, por onde possamos descobrir os meios mais adequados que permitam a vivência alegre da nossa vocação missionária de consagrados ad vitam.

Os obstáculos a uma vida consagrada “fiel”

Eles abundam na sociedade e no pensamento em que vivemos. E explicam-nos por que razão os jovens, e também alguns menos jovens, têm dificuldade em conceber a sua consagração a Deus para a missão em termos duma fidelidade que abarca a vida toda, com exclusão de reconsiderações e opções posteriores. Passo a indicar alguns.

- A nossa cultura parece ter grande predilecção pelo futuro, em vez de fixar o seu olhar no passado. Ela quer pensar para a frente, projectar sempre coisas novas, com fraca referência aos ensinamentos provindos da história. Segue daí que a criatividade e o planeamento, enquanto valores, superam imensamente o interesse pelo passado e a fidelidade aos valores já adquiridos.

- A nossa sociedade de consumo, que afinal gosta de oferecer uma infinidade de opções, torna difícil e ambígua qualquer escolha importante. As propostas são demasiadas; de forma que a pessoa já não sabe que escolha fazer, com medo de se enganar. E isso pode acontecer até a nível dos valores humanos e espirituais, incluindo mesmo o próprio projecto de vida. A pergunta é: mas porque hei-de eu escolher uma só coisa e dar-lhe adesão para sempre, quando afinal a vida me poderá trazer muito mais possibilidades?

- Estas tendências são, sem dúvida, alimentadas pelas correntes de filosofia moderna que entendem o ser humano como entidade absolutamente livre, sem necessidade de referência a valores estáveis. A pessoa não presta contas a ninguém e planeia a sua vida a seu bel-prazer, já que é pura existência. Por outro lado, a ênfase que se dá à psicologia das profundezas contribuiu para que alguns concebessem a existência humana como algo que depende de mecanismos inconscientes que a tornam pouco livre e pouco consciente no seu agir. Neste caso, toda e qualquer escolha se torna praticamente impossível.

- Algumas correntes de pensamento teológico moderno talvez até tenham ajudado, sem querer, a enfraquecer o compromisso da fidelidade do religioso. É o caso da reflexão sobre o Deus do Êxodo, que projecta a pessoa para o futuro, convidando-a a uma caminhada segundo o ritmo da história. Ela poderia levar a interpretarmos a nossa vocação como um progresso constante para a procura dum sentido cada vez mais profundo para a nossa vida. E esse crescimento até poderia levar a viragens capazes de colocar em crise as que se tiverem feito anteriormente. Depois, a abundante reflexão feita pelo Concílio Vaticano II sobre os carismas da Igreja, ao sublinhar que todas as vocações têm uma dignidade semelhante, poderá ter levado alguns a se interrogarem sobre se de facto vale a pena escolher a vida consagrada e respectivos compromissos contra a corrente, visto que ela é afinal apenas uma das muitas opções que um fiel pode fazer.

É possível ser fiel!

A fidelidade na vida consagrada, tal como em qualquer outra opção de vida, não deve ser vista como uma quimera ou como uma meta impossível de alcançar. De facto, cada pessoa que nasce já traz em si elementos genéticos e culturais que a comprometem duma maneira ou doutra. Nenhum ser humano vem à luz como se fosse uma “tabula rasa”, no estado puro. Nascer numa certa família, num certo período histórico e numa certa sociedade, já equivale a aparecer revestido dum conjunto de factores que haverão de empenhar a vida da pessoa. Poderíamos então dizer que, logo à nascença, todo o ser humano é portador das sementes do seu futuro, umas já determinadas e outras susceptíveis de actos de escolha e de desenvolvimento, graduais mas estáveis. Se houver recusa deste passo seguinte, acabaremos por condenar a nossa existência à incompletude e ao fracasso. Se por outro lado fizermos opções, mas de forma duradoura, daremos completude e significado à nossa existência. Quanto mais a pessoa for capaz de optar, tanto mais saberá exprimir a sua liberdade.

Mas poderá um compromisso qualquer ser realmente definitivo? Embora a nossa experiência de cada dia nos diga que devemos estar sempre atentos às “surpresas” até à morte, há no entanto maneira de condicionarmos o nosso futuro e de o fazer andar na trajectória por nós estabelecida – que é a de vivermos o presente com fidelidade. A fidelidade de hoje é que nos dirá se o futuro será o que quisemos que fosse. Do ponto de vista humano, é esta a única margem de “certeza” quanto ao nosso futuro: a de o garantirmos cuidando absolutamente do nosso presente. E as margens de garantia irão aumentar se este empenho envolver a pessoa na sua totalidade: as emoções, a inteligência e a vontade. Todos nós sabemos como o papel da vontade e da inteligência é determinante. E no entanto, parece que hoje em dia é a emoção a ter maior influência na determinação das opções de vida. Fazemos uma dada opção porque nos agrada e abandonamo-la porque já não nos agrada! A maior margem de certeza vem-nos porém da acção de Deus em nós, visto que a nossa esperança não é apenas humana mas também teologal. De facto é Deus a razão mais forte da nossa esperança, bem como o fundamento mais duradouro caso a nossa opção de vida se faça com Ele.

Mas que características deverá ter esta fidelidade? O termo “fidelidade” tem vários sentidos possíveis, de forma que é conveniente esclarecer desde já a sua essência e o seu conteúdo. Para nós, a fidelidade não é um fim mas sim efeito duma opção. Assim, por exemplo, eu não faço os meus votos como se fossem fins em si mesmos. Pelo contrário, eles são sinais da minha consagração a Deus; e essa escolha é tão importante que me empenho em fazer com que ela perdure em mim durante todo o período da minha existência. Vê-se logo que o empenho precede a fidelidade. Mas a fidelidade não é simples e pura repetição do passado no presente, ou então do presente em ordem ao futuro. Pelo contrário, ela é crescimento, descoberta sempre nova, esforço de criatividade, para poder viver hoje mesmo aquilo que me esforcei por viver no passado. Por esta razão, a pessoa que deseja ser fiel não poderá renegar o passado mas, antes, aprender do passado para poder ser autêntica na vivência dos compromissos de hoje. Por isso mesmo a fidelidade não é imobilismo, legalismo – mas sim empenho criativo no presente com olhar sempre fixo no futuro, logo ali adiante.

Fidelidade, muito bem – mas a quem? É necessário despoluir imediatamente o nosso campo de acção dos preconceitos mais comuns como, por exemplo, o de que vou comprometer a minha vida com fórmulas, ideias e abstracções do tipo votos religiosos. Pelo contrário: a fidelidade, seja ela qual for, faz sempre referência a pessoas: à família, ao cônjuge, aos jovens, aos pobres, a Deus. Os votos, tal como as fórmulas, são apenas expressões a indicar que estou comprometido com alguém. Salta logo à vista que a fidelidade é o meu modo de viver o amor para com Deus e para com os outros, e que tal amor, para ser autêntico, só pode ser duradouro.

O fundamento e as marcas da fidelidade do cristão

Depois desta breve indicação dos elementos humanos da fidelidade e da observação de que ela não é um corpo estranho numa pessoa amadurecida, tentemos agora descobrir sumariamente quais sejam o fundamento e as marcas da nossa fidelidade enquanto cristãos e enquanto pessoas consagradas – a partir da Palavra de Deus e da reflexão teológica.

Nós poderemos ser fiéis porque o nosso Deus é fiel. Lê-se no Antigo Testamento que Deus fez um pacto de aliança com o Seu povo, um pacto duradouro e eterno, um verdadeiro acto de amor para com Israel. Deus portar-se-á com o Seu povo sempre dessa forma e nunca faltará à sua aliança, apesar dos muitos pecados do povo. A Sua fidelidade é uma fidelidade de pai amoroso, misericordioso e paciente.

Em Jesus de Nazaré, o compromisso e a fidelidade de Deus para com a humanidade viria a atingir a plenitude. Mas, ao mesmo tempo, nós encontramos em Cristo a revelação de como também nós e toda a humanidade podemos ser-lhe fiéis. De facto, Jesus, em nome de nós todos, tornou-se o “sim” definitivo ao Pai. Quais serão as marcas deste caminho que Cristo nos traçou e pelo qual podemos atingir a segurança de podermos ser fiéis a Deus para o resto da vida?

Em primeiro lugar, essa fidelidade tem a marca da fé e da confiança n’Ele. Aqui temos os alicerces e o ponto de partida. Trata-se duma fé que não deve ser apenas teórica mas também prática e concreta, que envolva a nossa pessoa por inteiro. Esta fé revela-se na obediência à Sua Palavra e a todo o Evangelho; e assume formas e gestos concretos, diários, que são próprios tanto das grandes ocasiões como, e especialmente, da vida de cada dia. Este compromisso fiel com Deus toma em nós a forma do amor “cristão”, quer dizer, dum amor radical, que abarca o coração, a razão e a vontade, que, de Deus, passa espontaneamente para o próximo. O amor é verdadeiramente a alma da fidelidade.

A fé, que tem Deus por objectivo final, cria empenho e fidelidade dentro da realidade cristã que nasceu da incarnação de Cristo, a Igreja. Aqui, nós amamos Deus amando os irmãos; encontramos campo aberto para dar e receber perdão; celebramos o mistério maior que é a Eucaristia. Assim, constatamos que todo o empenho que tomamos em Deus se torna um impulso a que também nos empenhemos com os irmãos, na fidelidade. E sabemos que, junto a nós, está o Deus do Êxodo e do Ressuscitado.

A Igreja é uma comunidade de diversos carismas onde «vive entre todos uma igualdade verdadeira em termos de dignidade e acção comum a todos os fiéis para edificação do corpo de Cristo» (Lumen Gentium, 32). A especificidade do nosso compromisso enquanto religiosos e missionários está em que somos testemunhas fortes e permanentes da doação a Deus pela causa do Reino, no anúncio do evangelho ad gentes, conforme a característica que Allamano determinou para o nosso Instituto. O compromisso assumido com Deus, numa verdadeira aliança com Ele, mantém-se como elemento decisivo e fundamental desta nossa fidelidade ao Instituto para fazer missão. É por isso que o Fundador insistia na santidade de vida do Missionário, para que a sua relação de aliança com Deus se encontrasse, de certo modo, à altura d’Aquele que nos chamou. Se Deus é nosso parceiro neste pacto de aliança que é a nossa consagração religiosa, a nossa doação tenderá, por natureza, a ser definitiva e radical. Em última análise, a fidelidade é infinitamente superior ao simples “continuar no Instituto”; ela equivale a ficarmos para vivermos plenamente a nossa vocação.

Chegados aqui, poderemos nós afirmar que o compromisso assumido com Deus dentro da comunidade cristã não será porventura algo de temerário? Sim, podemos, mas com algumas condições:

- A nossa escolha e o nosso compromisso ad vitam são, mais que iniciativa nossa, um dom que Deus nos deu. . E Deus nunca se arrepende de nos ter chamado!

- Face às dificuldades que nunca faltam, Deus garante-nos a Sua ajuda e a Sua presença. E elas nunca faltarão se confiarmos n’Ele.

- Reafirmamos uma vez mais que é essencial a fé n’Aquele que nos chamou. “Sei em quem confiei!” (2 Tim 1, 12) e que Ele não deixará que sejamos tentados para além das nossas forças (cfr. 1Cor 10, 13).

- E também não podemos esquecer que a nossa vocação dá-se na Igreja e a ela pertence. A comunidade cristã na sua totalidade está envolvida connosco neste esforço de fidelidade: ela acompanha-me; apoia-me; dá-me coragem. E da minha parte, jamais poderei rescindir o compromisso assumido como se fosse um simples assunto “pessoal”. Nesta minha opção vocacional, eu também comprometi muitos outros irmãos na fé, perante os quais eu afirmei a minha consagração a Deus.

Cultivar relacionamentos que avivem a fidelidade 

Ao falarmos da fidelidade, não podemos escusar-nos a reflectir sobre os meios que a podem tornar cada vez mais significativa e rica, mais que reflectir sobre o medo de a perdermos. Afinal, a reflexão sobre este tema não está a ser feito por algum principiante mas sim por gente que, face ao desgaste do tempo, tem o difícil cargo de manter viva a chama. Eis alguns meios que poderiam fortalecer o nosso compromisso de fidelidade.

1. Cuidar do relacionamento com Deus na oração

Já vimos como é que Deus é o fundamento e a fonte perene da nossa fidelidade. Se o meu relacionamento com Ele continua a ser feito de amor, de abandono e confiança, de fé profunda, a esperança de me manter fiel estará assegurada. Os meios disponíveis para tornar relevante o nosso relacionamento com Deus são muitos e todos eles giram em torno do espírito de oração contínua, que foi muito recomendado pelo Pai Fundador, por ela ser especialmente adequada a missionários (cfr. Boletim 95, pp. 1-8).

Muito especialmente, na nossa tradição IMC, cabe um lugar de destaque à meditação diária, sobretudo sobre a Palavra de Deus. As nossas Constituições, após reafirmarem vivamente a sua importância e após recordarem as palavras do Fundador, para quem «já se deve considerar perdido o dia em que ela se não fizer», acrescentam: «Para acolher a voz do Espírito, é necessário criar em nós a capacidade de recolhimento e de silêncio» (61).

Até os aniversários e outras celebrações se devem tornar em ocasião de nos reapropriarmos do espírito da nossa vocação e de o reforçar. Tendo recordado a maneira mais adequada de os celebrar, o Beato Allamano dava-nos a seguinte conclusão: «É uma festa íntima, que se vive entre Deus e nós. É uma festa muito querida que nos lembra o enorme bem que Deus nos quer, os imensos benefícios que nos deu, apesar da nossa indignidade. Ela aviva a nossa fé e o nosso amor; é como que um estímulo à santidade, um empurrão para renovarmos o nosso espírito» (La Vita Spirituale, 268).

2. Viver intensamente o dia a dia

O Fundador aconselhava aos seus missionários uma habilidade para o cultivo da sua vocação: a de viver intensamente, e bem, cada dia e cada momento com o famoso “nunc coepi”. Afinal, o tempo da nossa existência vai dobando a cada momento, um dia após outro. Não temos a possibilidade de o viver, por contracção, duma só vez. O passado já lá vai; e o futuro ainda não veio; só me resta o presente para realizar a minha existência: devo vivê-lo bem, dando significado a tudo o que faço, na certeza de que, assim, estou a cumprir a vontade de Deus e estou a realizar a minha vocação. O Beato Allamano sugeria aos seus Missionários que tivessem empenho nas coisas pequenas, para assim terem a certeza de serem fiéis nas mais importantes. Se percorrermos a Vita Spirituale, logo nos daremos conta de quanto era importante esta sua convicção. Eis algumas expressões que utilizou:

- Os membros do nosso Instituto devem realizar a sua santificação pela fidelidade às coisas pequenas. Que Deus vos faça entender bem esta lição e vos afervore com a Sua graça!

- Haja fidelidade às regras, mesmo as mais pequenas; por isso, observai-as todas, em tudo, mesmo nos seus mais pequenos pormenores. Cada regra pequenina tem por inerência uma graça de Deus.

- Haja fidelidade às práticas de piedade comunitárias, porque há mais bênçãos de Deus na oração comunitária.

- Haja fidelidade ao recreio; é no recreio que podereis alcançar muitos méritos ao observardes a piedade, a prudência e a caridade.

- Haja fidelidade no cumprimento das funções de cada um; cumpram-se com empenho e com desapego; não se procure a satisfação pessoal, face às tantas oportunidades que se apresentam.

- Haja fidelidade ao bom uso do tempo: ocupe-se por completo e com intensidade; apliquemos-lhe toda a nossa força, a nossa vontade e as nossas aptidões.

Para José Allamano, “fidelidade” e “obediência” são equiparáveis. Ele aplicou na descrição da obediência do Missionário os mesmos adjectivos que usou na descrição da fidelidade. De facto, ela deve ser constante, enérgica, pronta, generosa  em tudo, mas especialmente na vivência do quotidiano pessoal.

De facto, viver intensamente o presente assegura-nos a plenitude e a relevância de toda a nossa vida; mantém sempre vivos e presentes os ideais a que aderimos e que orientam a nossa existência. Por outras palavras, trata-se da resposta à vontade de Deus, que se manifesta continuamente a um espírito vigilante e atento. Ora isto infunde alegria na vivência da nossa vocação. A este propósito quero recordar-vos aquilo que o Beato João XXIII escreveu: «Sou como um saco vazio que Deus tem que encher. Não estou preocupado com mais nada, senão em fazer dia após dia a vontade de Deus. Acreditem: uma vida assim é a mais bela de todas».

3. Valorizar a vida comunitária e deixar-se acompanhar pelos irmãos

A comunidade é auxílio importante para a fidelidade. Na comunidade o Missionário sente-se recebido como discípulo empenhado em seguir o Mestre e aí encontra abundantes meios para lhe facilitarem a caminhada do crescimento em todas as dimensões da sua vida consagrada. Foi o próprio Deus que me deu irmãos para me apoiarem no itinerário de fidelidade a Deus seguindo uma vocação específica que recebi com o carisma do Beato Allamano. A presença destes irmãos é, para cada um de nós, uma força, uma garantia e uma autêntica boa sorte.

Toca-nos a nós valorizar ao máximo a comunidade, servindo-nos dos abundantes meios que ela nos oferece. Não é difícil fazer uma lista deles. Por exemplo: a oração comum, a comunhão de espírito, a Eucaristia, o aprofundamento e o discernimento comunitário da Palavra Divina, a correcção fraterna, os tempos de lazer. Ao mesmo tempo, é preciso recordar que cada qual tem o compromisso de construir a comunidade, não se contentando de ser apenas um utente. Na proporção com que me entregar aos outros, na mesma proporção ficarei enriquecido.

Mas não quero deixar de recordar mais um meio importante – a direcção espiritual. Vivemos numa época de grande incerteza e desorientação em relação às matérias que tocam a nossa vida e o serviço missionário. Por isso se impõe mais que nunca que tenhamos um guia espiritual a quem pedir conselho. Não se trata só de ir ter com uma pessoa de experiência capaz de apoiar quem tem menos; trata-se sim de criar uma “comunhão entre irmãos” de tal ordem que o Ressuscitado esteja presente e se torne luz do nosso caminho.

Conclusão

Gostaria de encerrar esta minha reflexão apontando-vos um criativo “elogio da infidelidade” que nos mostra eficazmente onde reside o segredo da fidelidade:

Feliz daquele que decidiu, no seu coração, ser infiel a si mesmo, aos seus projectos pessoais, com tudo aquilo que prometeu e planificou.

Feliz daquele que entregou a sua própria vida a Outro e o deixa fazer de realizador, declarando-se pronto a recitar a comédia, a divina comédia que Ele lhe sugere.

Feliz daquele que O deixa livre para desmontar todos os esquemas; Ele que, como o vento, sopra onde quer: sabes de onde vem mas não sabes para onde te leva: é livre, criativo, sempre imprevisível. Viver à mercê do Espírito; passar do certo ao incerto, do conhecido ao desconhecido… Aventura de vida nova, imprevisível.

A coerência é linear. Mas não dá liberdade ao Espírito para que se exprima com a criatividade que o caracteriza.

A incoerência é bizarra, sim. Mas possui a linearidade do desígnio divino. A sua harmonia vem do alto. É incoerência para uma coerência superior.

Convém deixar a segurança do timão, desfraldar as velas e entregar o governo ao Espírito (1).

Que São José, a quem a Igreja chama “homem fiel”, interceda por nós, nos reforce no nosso compromisso vocacional e missionário, e nos antecipe o gosto diário da alegria do nosso abraço final com Deus: “Muito bem, servo bom e fiel; como foste fiel no pouco, dar-te-ei autoridade sobre o muito: entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25, 21).

Saudações fraternas na Mãe Consolata,

P. Piero Trabucco, imc

(Padre Geral)

(1) F. Ciardi, “Elogio dell’infedeltà” in Unità e Carismi, n.º 1/2002, p. 37.

19 de Março de 2004

Caríssimos Missionários:

Há muito que queria reflectir convosco sobre este tema. Principalmente porque cada vez se nota mais que a cultura contemporânea parece minar este valor que, no entanto, também parecia, no passado, ser de importância fundamental e absolutamente indiscutível. As mudanças, tão grandes como repentinas, no âmbito do pensamento moderno; o suceder-se vertiginoso dos acontecimentos; a tendência para a posse de coisas novas capazes de responder à procura duma criatividade que parece não ter descanso… tudo isso leva a questionar o valor da fidelidade quase como se ela fosse um anacronismo de velhos tempos. São prova disso, de modo mais acentuado no mundo ocidental, a facilidade com que se passa de um partido político para outro; da adesão a uma religião para outra; do compromisso conjugal para a simples convivência conjugal. Trata-se dum fenómeno que nem sequer parece causar surpresa a ninguém, tal é a habituação a uma cultura que rapidamente consome tanto as experiências mais significativas como as opções de vida mais relevantes. Assim, a fidelidade já não é um valor atractivo para as gerações mais jovens por parecer implicar uma atitude de defesa, um como que “fixar residência”, eliminando toda a abertura para o futuro e para a novidade.
Por isso, até a fidelidade incondicional que marca a vida consagrada deu entrada no olho do furacão. Os seus fundamentos parecem extremamente frágeis a muita gente e, cada vez mais, as gerações jovens dão a impressão de a questionarem na sua essência e no seu valor intrínseco. E perguntam-se – para que hei-de eu fazer uma escolha de duração vitalícia? E quem me garante que conseguirei ser fiel? Porque não fazer escolhas de curto ou médio prazo para assim poder continuar a ficar livre de fazer outras experiências de vida? E quando se dá, finalmente, o passo decisivo, ainda ficam outras interrogações, por vezes até angustiosas. Por exemplo, como é que eu vou regenerar a minha consagração de maneira que a minha fidelidade não se transforme numa paralisia ou em simples inactividade? Continuarei a sentir-me feliz com a escolha de vida que fiz?
As consequências destas dúvidas sempre recorrentes passam diante dos nossos olhos com aspectos nem só prejudiciais como até mesmo verdadeiramente dramáticos. É que uma grande percentagem dos nossos jovens que fazem a primeira profissão nunca chegam a demonstrar um compromisso definitivo, enquanto que uma quantidade relevante daqueles que chegam à profissão perpétua e às sagradas Ordens abandonam a caminhada que encetaram, dentro de poucos anos.
Uma vez que a nossa consagração missionária implica fidelidade não só ao Deus que nos chamou mas também às pessoas a que por Ele somos enviados, passemos a analisar este fenómeno a partir do seu aspecto humano e cultural contemporâneo, antes de mais – para depois o estudarmos do ponto de vista teológico e ascético, por onde possamos descobrir os meios mais adequados que permitam a vivência alegre da nossa vocação missionária de consagrados ad vitam.

Os obstáculos a uma vida consagrada “fiel”

Eles abundam na sociedade e no pensamento em que vivemos. E explicam-nos por que razão os jovens, e também alguns menos jovens, têm dificuldade em conceber a sua consagração a Deus para a missão em termos duma fidelidade que abarca a vida toda, com exclusão de reconsiderações e opções posteriores. Passo a indicar alguns.
 A nossa cultura parece ter grande predilecção pelo futuro, em vez de fixar o seu olhar no passado. Ela quer pensar para a frente, projectar sempre coisas novas, com fraca referência aos ensinamentos provindos da história. Segue daí que a criatividade e o planeamento, enquanto valores, superam imensamente o interesse pelo passado e a fidelidade aos valores já adquiridos.
 A nossa sociedade de consumo, que afinal gosta de oferecer uma infinidade de opções, torna difícil e ambígua qualquer escolha importante. As propostas são demasiadas; de forma que a pessoa já não sabe que escolha fazer, com medo de se enganar. E isso pode acontecer até a nível dos valores humanos e espirituais, incluindo mesmo o próprio projecto de vida. A pergunta é: mas porque hei-de eu escolher uma só coisa e dar-lhe adesão para sempre, quando afinal a vida me poderá trazer muito mais possibilidades?
 Estas tendências são, sem dúvida, alimentadas pelas correntes de filosofia moderna que entendem o ser humano como entidade absolutamente livre, sem necessidade de referência a valores estáveis. A pessoa não presta contas a ninguém e planeia a sua vida a seu bel-prazer, já que é pura existência. Por outro lado, a ênfase que se dá à psicologia das profundezas contribuiu para que alguns concebessem a existência humana como algo que depende de mecanismos inconscientes que a tornam pouco livre e pouco consciente no seu agir. Neste caso, toda e qualquer escolha se torna praticamente impossível.
 Algumas correntes de pensamento teológico moderno talvez até tenham ajudado, sem querer, a enfraquecer o compromisso da fidelidade do religioso. É o caso da reflexão sobre o Deus do Êxodo, que projecta a pessoa para o futuro, convidando-a a uma caminhada segundo o ritmo da história. Ela poderia levar a interpretarmos a nossa vocação como um progresso constante para a procura dum sentido cada vez mais profundo para a nossa vida. E esse crescimento até poderia levar a viragens capazes de colocar em crise as que se tiverem feito anteriormente. Depois, a abundante reflexão feita pelo Concílio Vaticano II sobre os carismas da Igreja, ao sublinhar que todas as vocações têm uma dignidade semelhante, poderá ter levado alguns a se interrogarem sobre se de facto vale a pena escolher a vida consagrada e respectivos compromissos contra a corrente, visto que ela é afinal apenas uma das muitas opções que um fiel pode fazer.

É possível ser fiel!

A fidelidade na vida consagrada, tal como em qualquer outra opção de vida, não deve ser vista como uma quimera ou como uma meta impossível de alcançar. De facto, cada pessoa que nasce já traz em si elementos genéticos e culturais que a comprometem duma maneira ou doutra. Nenhum ser humano vem à luz como se fosse uma “tabula rasa”, no estado puro. Nascer numa certa família, num certo período histórico e numa certa sociedade, já equivale a aparecer revestido dum conjunto de factores que haverão de empenhar a vida da pessoa. Poderíamos então dizer que, logo à nascença, todo o ser humano é portador das sementes do seu futuro, umas já determinadas e outras susceptíveis de actos de escolha e de desenvolvimento, graduais mas estáveis. Se houver recusa deste passo seguinte, acabaremos por condenar a nossa existência à incompletude e ao fracasso. Se por outro lado fizermos opções, mas de forma duradoura, daremos completude e significado à nossa existência. Quanto mais a pessoa for capaz de optar, tanto mais saberá exprimir a sua liberdade.
Mas poderá um compromisso qualquer ser realmente definitivo? Embora a nossa experiência de cada dia nos diga que devemos estar sempre atentos às “surpresas” até à morte, há no entanto maneira de condicionarmos o nosso futuro e de o fazer andar na trajectória por nós estabelecida – que é a de vivermos o presente com fidelidade. A fidelidade de hoje é que nos dirá se o futuro será o que quisemos que fosse. Do ponto de vista humano, é esta a única margem de “certeza” quanto ao nosso futuro: a de o garantirmos cuidando absolutamente do nosso presente. E as margens de garantia irão aumentar se este empenho envolver a pessoa na sua totalidade: as emoções, a inteligência e a vontade. Todos nós sabemos como o papel da vontade e da inteligência é determinante. E no entanto, parece que hoje em dia é a emoção a ter maior influência na determinação das opções de vida. Fazemos uma dada opção porque nos agrada e abandonamo-la porque já não nos agrada! A maior margem de certeza vem-nos porém da acção de Deus em nós, visto que a nossa esperança não é apenas humana mas também teologal. De facto é Deus a razão mais forte da nossa esperança, bem como o fundamento mais duradouro caso a nossa opção de vida se faça com Ele.
Mas que características deverá ter esta fidelidade? O termo “fidelidade” tem vários sentidos possíveis, de forma que é conveniente esclarecer desde já a sua essência e o seu conteúdo. Para nós, a fidelidade não é um fim mas sim efeito duma opção. Assim, por exemplo, eu não faço os meus votos como se fossem fins em si mesmos. Pelo contrário, eles são sinais da minha consagração a Deus; e essa escolha é tão importante que me empenho em fazer com que ela perdure em mim durante todo o período da minha existência. Vê-se logo que o empenho precede a fidelidade. Mas a fidelidade não é simples e pura repetição do passado no presente, ou então do presente em ordem ao futuro. Pelo contrário, ela é crescimento, descoberta sempre nova, esforço de criatividade, para poder viver hoje mesmo aquilo que me esforcei por viver no passado. Por esta razão, a pessoa que deseja ser fiel não poderá renegar o passado mas, antes, aprender do passado para poder ser autêntica na vivência dos compromissos de hoje. Por isso mesmo a fidelidade não é imobilismo, legalismo – mas sim empenho criativo no presente com olhar sempre fixo no futuro, logo ali adiante.
Fidelidade, muito bem – mas a quem? É necessário despoluir imediatamente o nosso campo de acção dos preconceitos mais comuns como, por exemplo, o de que vou comprometer a minha vida com fórmulas, ideias e abstracções do tipo votos religiosos. Pelo contrário: a fidelidade, seja ela qual for, faz sempre referência a pessoas: à família, ao cônjuge, aos jovens, aos pobres, a Deus. Os votos, tal como as fórmulas, são apenas expressões a indicar que estou comprometido com alguém. Salta logo à vista que a fidelidade é o meu modo de viver o amor para com Deus e para com os outros, e que tal amor, para ser autêntico, só pode ser duradouro.

O fundamento e as marcas da fidelidade do cristão

Depois desta breve indicação dos elementos humanos da fidelidade e da observação de que ela não é um corpo estranho numa pessoa amadurecida, tentemos agora descobrir sumariamente quais sejam o fundamento e as marcas da nossa fidelidade enquanto cristãos e enquanto pessoas consagradas – a partir da Palavra de Deus e da reflexão teológica.
Nós poderemos ser fiéis porque o nosso Deus é fiel. Lê-se no Antigo Testamento que Deus fez um pacto de aliança com o Seu povo, um pacto duradouro e eterno, um verdadeiro acto de amor para com Israel. Deus portar-se-á com o Seu povo sempre dessa forma e nunca faltará à sua aliança, apesar dos muitos pecados do povo. A Sua fidelidade é uma fidelidade de pai amoroso, misericordioso e paciente.
Em Jesus de Nazaré, o compromisso e a fidelidade de Deus para com a humanidade viria a atingir a plenitude. Mas, ao mesmo tempo, nós encontramos em Cristo a revelação de como também nós e toda a humanidade podemos ser-lhe fiéis. De facto, Jesus, em nome de nós todos, tornou-se o “sim” definitivo ao Pai. Quais serão as marcas deste caminho que Cristo nos traçou e pelo qual podemos atingir a segurança de podermos ser fiéis a Deus para o resto da vida?
Em primeiro lugar, essa fidelidade tem a marca da fé e da confiança n’Ele. Aqui temos os alicerces e o ponto de partida. Trata-se duma fé que não deve ser apenas teórica mas também prática e concreta, que envolva a nossa pessoa por inteiro. Esta fé revela-se na obediência à Sua Palavra e a todo o Evangelho; e assume formas e gestos concretos, diários, que são próprios tanto das grandes ocasiões como, e especialmente, da vida de cada dia. Este compromisso fiel com Deus toma em nós a forma do amor “cristão”, quer dizer, dum amor radical, que abarca o coração, a razão e a vontade, que, de Deus, passa espontaneamente para o próximo. O amor é verdadeiramente a alma da fidelidade.
A fé, que tem Deus por objectivo final, cria empenho e fidelidade dentro da realidade cristã que nasceu da incarnação de Cristo, a Igreja. Aqui, nós amamos Deus amando os irmãos; encontramos campo aberto para dar e receber perdão; celebramos o mistério maior que é a Eucaristia. Assim, constatamos que todo o empenho que tomamos em Deus se torna um impulso a que também nos empenhemos com os irmãos, na fidelidade. E sabemos que, junto a nós, está o Deus do Êxodo e do Ressuscitado.
A Igreja é uma comunidade de diversos carismas onde «vive entre todos uma igualdade verdadeira em termos de dignidade e acção comum a todos os fiéis para edificação do corpo de Cristo» (Lumen Gentium, 32). A especificidade do nosso compromisso enquanto religiosos e missionários está em que somos testemunhas fortes e permanentes da doação a Deus pela causa do Reino, no anúncio do evangelho ad gentes, conforme a característica que Allamano determinou para o nosso Instituto. O compromisso assumido com Deus, numa verdadeira aliança com Ele, mantém-se como elemento decisivo e fundamental desta nossa fidelidade ao Instituto para fazer missão. É por isso que o Fundador insistia na santidade de vida do Missionário, para que a sua relação de aliança com Deus se encontrasse, de certo modo, à altura d’Aquele que nos chamou. Se Deus é nosso parceiro neste pacto de aliança que é a nossa consagração religiosa, a nossa doação tenderá, por natureza, a ser definitiva e radical. Em última análise, a fidelidade é infinitamente superior ao simples “continuar no Instituto”; ela equivale a ficarmos para vivermos plenamente a nossa vocação.
Chegados aqui, poderemos nós afirmar que o compromisso assumido com Deus dentro da comunidade cristã não será porventura algo de temerário? Sim, podemos, mas com algumas condições:
 A nossa escolha e o nosso compromisso ad vitam são, mais que iniciativa nossa, um dom que Deus nos deu. . E Deus nunca se arrepende de nos ter chamado!
 Face às dificuldades que nunca faltam, Deus garante-nos a Sua ajuda e a Sua presença. E elas nunca faltarão se confiarmos n’Ele.
 Reafirmamos uma vez mais que é essencial a fé n’Aquele que nos chamou. “Sei em quem confiei!” (2 Tim 1, 12) e que Ele não deixará que sejamos tentados para além das nossas forças (cfr. 1Cor 10, 13).
 E também não podemos esquecer que a nossa vocação dá-se na Igreja e a ela pertence. A comunidade cristã na sua totalidade está envolvida connosco neste esforço de fidelidade: ela acompanha-me; apoia-me; dá-me coragem. E da minha parte, jamais poderei rescindir o compromisso assumido como se fosse um simples assunto “pessoal”. Nesta minha opção vocacional, eu também comprometi muitos outros irmãos na fé, perante os quais eu afirmei a minha consagração a Deus.

Cultivar relacionamentos que avivem a fidelidade

Ao falarmos da fidelidade, não podemos escusar-nos a reflectir sobre os meios que a podem tornar cada vez mais significativa e rica, mais que reflectir sobre o medo de a perdermos. Afinal, a reflexão sobre este tema não está a ser feito por algum principiante mas sim por gente que, face ao desgaste do tempo, tem o difícil cargo de manter viva a chama. Eis alguns meios que poderiam fortalecer o nosso compromisso de fidelidade.


1. Cuidar do relacionamento com Deus na oração

Já vimos como é que Deus é o fundamento e a fonte perene da nossa fidelidade. Se o meu relacionamento com Ele continua a ser feito de amor, de abandono e confiança, de fé profunda, a esperança de me manter fiel estará assegurada. Os meios disponíveis para tornar relevante o nosso relacionamento com Deus são muitos e todos eles giram em torno do espírito de oração contínua, que foi muito recomendado pelo Pai Fundador, por ela ser especialmente adequada a missionários (cfr. Boletim 95, pp. 1-8).
Muito especialmente, na nossa tradição IMC, cabe um lugar de destaque à meditação diária, sobretudo sobre a Palavra de Deus. As nossas Constituições, após reafirmarem vivamente a sua importância e após recordarem as palavras do Fundador, para quem «já se deve considerar perdido o dia em que ela se não fizer», acrescentam: «Para acolher a voz do Espírito, é necessário criar em nós a capacidade de recolhimento e de silêncio» (61).
Até os aniversários e outras celebrações se devem tornar em ocasião de nos reapropriarmos do espírito da nossa vocação e de o reforçar. Tendo recordado a maneira mais adequada de os celebrar, o Beato Allamano dava-nos a seguinte conclusão: «É uma festa íntima, que se vive entre Deus e nós. É uma festa muito querida que nos lembra o enorme bem que Deus nos quer, os imensos benefícios que nos deu, apesar da nossa indignidade. Ela aviva a nossa fé e o nosso amor; é como que um estímulo à santidade, um empurrão para renovarmos o nosso espírito» (La Vita Spirituale, 268).

2. Viver intensamente o dia a dia

O Fundador aconselhava aos seus missionários uma habilidade para o cultivo da sua vocação: a de viver intensamente, e bem, cada dia e cada momento com o famoso “nunc coepi”. Afinal, o tempo da nossa existência vai dobando a cada momento, um dia após outro. Não temos a possibilidade de o viver, por contracção, duma só vez. O passado já lá vai; e o futuro ainda não veio; só me resta o presente para realizar a minha existência: devo vivê-lo bem, dando significado a tudo o que faço, na certeza de que, assim, estou a cumprir a vontade de Deus e estou a realizar a minha vocação. O Beato Allamano sugeria aos seus Missionários que tivessem empenho nas coisas pequenas, para assim terem a certeza de serem fiéis nas mais importantes. Se percorrermos a Vita Spirituale, logo nos daremos conta de quanto era importante esta sua convicção. Eis algumas expressões que utilizou:
 Os membros do nosso Instituto devem realizar a sua santificação pela fidelidade às coisas pequenas. Que Deus vos faça entender bem esta lição e vos afervore com a Sua graça!
 Haja fidelidade às regras, mesmo as mais pequenas; por isso, observai-as todas, em tudo, mesmo nos seus mais pequenos pormenores. Cada regra pequenina tem por inerência uma graça de Deus.
 Haja fidelidade às práticas de piedade comunitárias, porque há mais bênçãos de Deus na oração comunitária.
 Haja fidelidade ao recreio; é no recreio que podereis alcançar muitos méritos ao observardes a piedade, a prudência e a caridade.
 Haja fidelidade no cumprimento das funções de cada um; cumpram-se com empenho e com desapego; não se procure a satisfação pessoal, face às tantas oportunidades que se apresentam.
 Haja fidelidade ao bom uso do tempo: ocupe-se por completo e com intensidade; apliquemos-lhe toda a nossa força, a nossa vontade e as nossas aptidões.

Para José Allamano, “fidelidade” e “obediência” são equiparáveis. Ele aplicou na descrição da obediência do Missionário os mesmos adjectivos que usou na descrição da fidelidade. De facto, ela deve ser constante, enérgica, pronta, generosa em tudo, mas especialmente na vivência do quotidiano pessoal.
De facto, viver intensamente o presente assegura-nos a plenitude e a relevância de toda a nossa vida; mantém sempre vivos e presentes os ideais a que aderimos e que orientam a nossa existência. Por outras palavras, trata-se da resposta à vontade de Deus, que se manifesta continuamente a um espírito vigilante e atento. Ora isto infunde alegria na vivência da nossa vocação. A este propósito quero recordar-vos aquilo que o Beato João XXIII escreveu: «Sou como um saco vazio que Deus tem que encher. Não estou preocupado com mais nada, senão em fazer dia após dia a vontade de Deus. Acreditem: uma vida assim é a mais bela de todas».

3. Valorizar a vida comunitária e deixar-se acompanhar pelos irmãos

A comunidade é auxílio importante para a fidelidade. Na comunidade o Missionário sente-se recebido como discípulo empenhado em seguir o Mestre e aí encontra abundantes meios para lhe facilitarem a caminhada do crescimento em todas as dimensões da sua vida consagrada. Foi o próprio Deus que me deu irmãos para me apoiarem no itinerário de fidelidade a Deus seguindo uma vocação específica que recebi com o carisma do Beato Allamano. A presença destes irmãos é, para cada um de nós, uma força, uma garantia e uma autêntica boa sorte.
Toca-nos a nós valorizar ao máximo a comunidade, servindo-nos dos abundantes meios que ela nos oferece. Não é difícil fazer uma lista deles. Por exemplo: a oração comum, a comunhão de espírito, a Eucaristia, o aprofundamento e o discernimento comunitário da Palavra Divina, a correcção fraterna, os tempos de lazer. Ao mesmo tempo, é preciso recordar que cada qual tem o compromisso de construir a comunidade, não se contentando de ser apenas um utente. Na proporção com que me entregar aos outros, na mesma proporção ficarei enriquecido.
Mas não quero deixar de recordar mais um meio importante – a direcção espiritual. Vivemos numa época de grande incerteza e desorientação em relação às matérias que tocam a nossa vida e o serviço missionário. Por isso se impõe mais que nunca que tenhamos um guia espiritual a quem pedir conselho. Não se trata só de ir ter com uma pessoa de experiência capaz de apoiar quem tem menos; trata-se sim de criar uma “comunhão entre irmãos” de tal ordem que o Ressuscitado esteja presente e se torne luz do nosso caminho.


Conclusão

Gostaria de encerrar esta minha reflexão apontando-vos um criativo “elogio da infidelidade” que nos mostra eficazmente onde reside o segredo da fidelidade:
Feliz daquele que decidiu, no seu coração, ser infiel a si mesmo, aos seus projectos pessoais, com tudo aquilo que prometeu e planificou.
Feliz daquele que entregou a sua própria vida a Outro e o deixa fazer de realizador, declarando-se pronto a recitar a comédia, a divina comédia que Ele lhe sugere.
Feliz daquele que O deixa livre para desmontar todos os esquemas; Ele que, como o vento, sopra onde quer: sabes de onde vem mas não sabes para onde te leva: é livre, criativo, sempre imprevisível. Viver à mercê do Espírito; passar do certo ao incerto, do conhecido ao desconhecido… Aventura de vida nova, imprevisível.
A coerência é linear. Mas não dá liberdade ao Espírito para que se exprima com a criatividade que o caracteriza.
A incoerência é bizarra, sim. Mas possui a linearidade do desígnio divino. A sua harmonia vem do alto. É incoerência para uma coerência superior.
Convém deixar a segurança do timão, desfraldar as velas e entregar o governo ao Espírito (1).

Que São José, a quem a Igreja chama “homem fiel”, interceda por nós, nos reforce no nosso compromisso vocacional e missionário, e nos antecipe o gosto diário da alegria do nosso abraço final com Deus: “Muito bem, servo bom e fiel; como foste fiel no pouco, dar-te-ei autoridade sobre o muito: entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25, 21).
Saudações fraternas na Mãe Consolata,

P. Piero Trabucco, imc
(Padre Geral)

(1) F. Ciardi, “Elogio dell’infedeltà” in Unità e Carismi, n.º 1/2002, p. 37.

19 de Março de 2004

Caríssimos Missionários:

Há muito que queria reflectir convosco sobre este tema. Principalmente porque cada vez se nota mais que a cultura contemporânea parece minar este valor que, no entanto, também parecia, no passado, ser de importância fundamental e absolutamente indiscutível. As mudanças, tão grandes como repentinas, no âmbito do pensamento moderno; o suceder-se vertiginoso dos acontecimentos; a tendência para a posse de coisas novas capazes de responder à procura duma criatividade que parece não ter descanso… tudo isso leva a questionar o valor da fidelidade quase como se ela fosse um anacronismo de velhos tempos. São prova disso, de modo mais acentuado no mundo ocidental, a facilidade com que se passa de um partido político para outro; da adesão a uma religião para outra; do compromisso conjugal para a simples convivência conjugal. Trata-se dum fenómeno que nem sequer parece causar surpresa a ninguém, tal é a habituação a uma cultura que rapidamente consome tanto as experiências mais significativas como as opções de vida mais relevantes. Assim, a fidelidade já não é um valor atractivo para as gerações mais jovens por parecer implicar uma atitude de defesa, um como que “fixar residência”, eliminando toda a abertura para o futuro e para a novidade.
Por isso, até a fidelidade incondicional que marca a vida consagrada deu entrada no olho do furacão. Os seus fundamentos parecem extremamente frágeis a muita gente e, cada vez mais, as gerações jovens dão a impressão de a questionarem na sua essência e no seu valor intrínseco. E perguntam-se – para que hei-de eu fazer uma escolha de duração vitalícia? E quem me garante que conseguirei ser fiel? Porque não fazer escolhas de curto ou médio prazo para assim poder continuar a ficar livre de fazer outras experiências de vida? E quando se dá, finalmente, o passo decisivo, ainda ficam outras interrogações, por vezes até angustiosas. Por exemplo, como é que eu vou regenerar a minha consagração de maneira que a minha fidelidade não se transforme numa paralisia ou em simples inactividade? Continuarei a sentir-me feliz com a escolha de vida que fiz?
As consequências destas dúvidas sempre recorrentes passam diante dos nossos olhos com aspectos nem só prejudiciais como até mesmo verdadeiramente dramáticos. É que uma grande percentagem dos nossos jovens que fazem a primeira profissão nunca chegam a demonstrar um compromisso definitivo, enquanto que uma quantidade relevante daqueles que chegam à profissão perpétua e às sagradas Ordens abandonam a caminhada que encetaram, dentro de poucos anos.
Uma vez que a nossa consagração missionária implica fidelidade não só ao Deus que nos chamou mas também às pessoas a que por Ele somos enviados, passemos a analisar este fenómeno a partir do seu aspecto humano e cultural contemporâneo, antes de mais – para depois o estudarmos do ponto de vista teológico e ascético, por onde possamos descobrir os meios mais adequados que permitam a vivência alegre da nossa vocação missionária de consagrados ad vitam.

Os obstáculos a uma vida consagrada “fiel”

Eles abundam na sociedade e no pensamento em que vivemos. E explicam-nos por que razão os jovens, e também alguns menos jovens, têm dificuldade em conceber a sua consagração a Deus para a missão em termos duma fidelidade que abarca a vida toda, com exclusão de reconsiderações e opções posteriores. Passo a indicar alguns.
 A nossa cultura parece ter grande predilecção pelo futuro, em vez de fixar o seu olhar no passado. Ela quer pensar para a frente, projectar sempre coisas novas, com fraca referência aos ensinamentos provindos da história. Segue daí que a criatividade e o planeamento, enquanto valores, superam imensamente o interesse pelo passado e a fidelidade aos valores já adquiridos.
 A nossa sociedade de consumo, que afinal gosta de oferecer uma infinidade de opções, torna difícil e ambígua qualquer escolha importante. As propostas são demasiadas; de forma que a pessoa já não sabe que escolha fazer, com medo de se enganar. E isso pode acontecer até a nível dos valores humanos e espirituais, incluindo mesmo o próprio projecto de vida. A pergunta é: mas porque hei-de eu escolher uma só coisa e dar-lhe adesão para sempre, quando afinal a vida me poderá trazer muito mais possibilidades?
 Estas tendências são, sem dúvida, alimentadas pelas correntes de filosofia moderna que entendem o ser humano como entidade absolutamente livre, sem necessidade de referência a valores estáveis. A pessoa não presta contas a ninguém e planeia a sua vida a seu bel-prazer, já que é pura existência. Por outro lado, a ênfase que se dá à psicologia das profundezas contribuiu para que alguns concebessem a existência humana como algo que depende de mecanismos inconscientes que a tornam pouco livre e pouco consciente no seu agir. Neste caso, toda e qualquer escolha se torna praticamente impossível.
 Algumas correntes de pensamento teológico moderno talvez até tenham ajudado, sem querer, a enfraquecer o compromisso da fidelidade do religioso. É o caso da reflexão sobre o Deus do Êxodo, que projecta a pessoa para o futuro, convidando-a a uma caminhada segundo o ritmo da história. Ela poderia levar a interpretarmos a nossa vocação como um progresso constante para a procura dum sentido cada vez mais profundo para a nossa vida. E esse crescimento até poderia levar a viragens capazes de colocar em crise as que se tiverem feito anteriormente. Depois, a abundante reflexão feita pelo Concílio Vaticano II sobre os carismas da Igreja, ao sublinhar que todas as vocações têm uma dignidade semelhante, poderá ter levado alguns a se interrogarem sobre se de facto vale a pena escolher a vida consagrada e respectivos compromissos contra a corrente, visto que ela é afinal apenas uma das muitas opções que um fiel pode fazer.

É possível ser fiel!

A fidelidade na vida consagrada, tal como em qualquer outra opção de vida, não deve ser vista como uma quimera ou como uma meta impossível de alcançar. De facto, cada pessoa que nasce já traz em si elementos genéticos e culturais que a comprometem duma maneira ou doutra. Nenhum ser humano vem à luz como se fosse uma “tabula rasa”, no estado puro. Nascer numa certa família, num certo período histórico e numa certa sociedade, já equivale a aparecer revestido dum conjunto de factores que haverão de empenhar a vida da pessoa. Poderíamos então dizer que, logo à nascença, todo o ser humano é portador das sementes do seu futuro, umas já determinadas e outras susceptíveis de actos de escolha e de desenvolvimento, graduais mas estáveis. Se houver recusa deste passo seguinte, acabaremos por condenar a nossa existência à incompletude e ao fracasso. Se por outro lado fizermos opções, mas de forma duradoura, daremos completude e significado à nossa existência. Quanto mais a pessoa for capaz de optar, tanto mais saberá exprimir a sua liberdade.

Mas poderá um compromisso qualquer ser realmente definitivo? Embora a nossa experiência de cada dia nos diga que devemos estar sempre atentos às “surpresas” até à morte, há no entanto maneira de condicionarmos o nosso futuro e de o fazer andar na trajectória por nós estabelecida – que é a de vivermos o presente com fidelidade. A fidelidade de hoje é que nos dirá se o futuro será o que quisemos que fosse. Do ponto de vista humano, é esta a única margem de “certeza” quanto ao nosso futuro: a de o garantirmos cuidando absolutamente do nosso presente. E as margens de garantia irão aumentar se este empenho envolver a pessoa na sua totalidade: as emoções, a inteligência e a vontade. Todos nós sabemos como o papel da vontade e da inteligência é determinante. E no entanto, parece que hoje em dia é a emoção a ter maior influência na determinação das opções de vida. Fazemos uma dada opção porque nos agrada e abandonamo-la porque já não nos agrada! A maior margem de certeza vem-nos porém da acção de Deus em nós, visto que a nossa esperança não é apenas humana mas também teologal. De facto é Deus a razão mais forte da nossa esperança, bem como o fundamento mais duradouro caso a nossa opção de vida se faça com Ele.
Mas que características deverá ter esta fidelidade? O termo “fidelidade” tem vários sentidos possíveis, de forma que é conveniente esclarecer desde já a sua essência e o seu conteúdo. Para nós, a fidelidade não é um fim mas sim efeito duma opção. Assim, por exemplo, eu não faço os meus votos como se fossem fins em si mesmos. Pelo contrário, eles são sinais da minha consagração a Deus; e essa escolha é tão importante que me empenho em fazer com que ela perdure em mim durante todo o período da minha existência. Vê-se logo que o empenho precede a fidelidade. Mas a fidelidade não é simples e pura repetição do passado no presente, ou então do presente em ordem ao futuro. Pelo contrário, ela é crescimento, descoberta sempre nova, esforço de criatividade, para poder viver hoje mesmo aquilo que me esforcei por viver no passado. Por esta razão, a pessoa que deseja ser fiel não poderá renegar o passado mas, antes, aprender do passado para poder ser autêntica na vivência dos compromissos de hoje. Por isso mesmo a fidelidade não é imobilismo, legalismo – mas sim empenho criativo no presente com olhar sempre fixo no futuro, logo ali adiante.

Fidelidade, muito bem – mas a quem? É necessário despoluir imediatamente o nosso campo de acção dos preconceitos mais comuns como, por exemplo, o de que vou comprometer a minha vida com fórmulas, ideias e abstracções do tipo votos religiosos. Pelo contrário: a fidelidade, seja ela qual for, faz sempre referência a pessoas: à família, ao cônjuge, aos jovens, aos pobres, a Deus. Os votos, tal como as fórmulas, são apenas expressões a indicar que estou comprometido com alguém. Salta logo à vista que a fidelidade é o meu modo de viver o amor para com Deus e para com os outros, e que tal amor, para ser autêntico, só pode ser duradouro.

O fundamento e as marcas da fidelidade do cristão

Depois desta breve indicação dos elementos humanos da fidelidade e da observação de que ela não é um corpo estranho numa pessoa amadurecida, tentemos agora descobrir sumariamente quais sejam o fundamento e as marcas da nossa fidelidade enquanto cristãos e enquanto pessoas consagradas – a partir da Palavra de Deus e da reflexão teológica.
Nós poderemos ser fiéis porque o nosso Deus é fiel. Lê-se no Antigo Testamento que Deus fez um pacto de aliança com o Seu povo, um pacto duradouro e eterno, um verdadeiro acto de amor para com Israel. Deus portar-se-á com o Seu povo sempre dessa forma e nunca faltará à sua aliança, apesar dos muitos pecados do povo. A Sua fidelidade é uma fidelidade de pai amoroso, misericordioso e paciente.
Em Jesus de Nazaré, o compromisso e a fidelidade de Deus para com a humanidade viria a atingir a plenitude. Mas, ao mesmo tempo, nós encontramos em Cristo a revelação de como também nós e toda a humanidade podemos ser-lhe fiéis. De facto, Jesus, em nome de nós todos, tornou-se o “sim” definitivo ao Pai. Quais serão as marcas deste caminho que Cristo nos traçou e pelo qual podemos atingir a segurança de podermos ser fiéis a Deus para o resto da vida?
Em primeiro lugar, essa fidelidade tem a marca da fé e da confiança n’Ele. Aqui temos os alicerces e o ponto de partida. Trata-se duma fé que não deve ser apenas teórica mas também prática e concreta, que envolva a nossa pessoa por inteiro. Esta fé revela-se na obediência à Sua Palavra e a todo o Evangelho; e assume formas e gestos concretos, diários, que são próprios tanto das grandes ocasiões como, e especialmente, da vida de cada dia. Este compromisso fiel com Deus toma em nós a forma do amor “cristão”, quer dizer, dum amor radical, que abarca o coração, a razão e a vontade, que, de Deus, passa espontaneamente para o próximo. O amor é verdadeiramente a alma da fidelidade.

A fé, que tem Deus por objectivo final, cria empenho e fidelidade dentro da realidade cristã que nasceu da incarnação de Cristo, a Igreja. Aqui, nós amamos Deus amando os irmãos; encontramos campo aberto para dar e receber perdão; celebramos o mistério maior que é a Eucaristia. Assim, constatamos que todo o empenho que tomamos em Deus se torna um impulso a que também nos empenhemos com os irmãos, na fidelidade. E sabemos que, junto a nós, está o Deus do Êxodo e do Ressuscitado.

A Igreja é uma comunidade de diversos carismas onde «vive entre todos uma igualdade verdadeira em termos de dignidade e acção comum a todos os fiéis para edificação do corpo de Cristo» (Lumen Gentium, 32). A especificidade do nosso compromisso enquanto religiosos e missionários está em que somos testemunhas fortes e permanentes da doação a Deus pela causa do Reino, no anúncio do evangelho ad gentes, conforme a característica que Allamano determinou para o nosso Instituto. O compromisso assumido com Deus, numa verdadeira aliança com Ele, mantém-se como elemento decisivo e fundamental desta nossa fidelidade ao Instituto para fazer missão. É por isso que o Fundador insistia na santidade de vida do Missionário, para que a sua relação de aliança com Deus se encontrasse, de certo modo, à altura d’Aquele que nos chamou. Se Deus é nosso parceiro neste pacto de aliança que é a nossa consagração religiosa, a nossa doação tenderá, por natureza, a ser definitiva e radical. Em última análise, a fidelidade é infinitamente superior ao simples “continuar no Instituto”; ela equivale a ficarmos para vivermos plenamente a nossa vocação.
Chegados aqui, poderemos nós afirmar que o compromisso assumido com Deus dentro da comunidade cristã não será porventura algo de temerário? Sim, podemos, mas com algumas condições:
 A nossa escolha e o nosso compromisso ad vitam são, mais que iniciativa nossa, um dom que Deus nos deu. . E Deus nunca se arrepende de nos ter chamado!

 Face às dificuldades que nunca faltam, Deus garante-nos a Sua ajuda e a Sua presença. E elas nunca faltarão se confiarmos n’Ele.
 Reafirmamos uma vez mais que é essencial a fé n’Aquele que nos chamou. “Sei em quem confiei!” (2 Tim 1, 12) e que Ele não deixará que sejamos tentados para além das nossas forças (cfr. 1Cor 10, 13).

 E também não podemos esquecer que a nossa vocação dá-se na Igreja e a ela pertence. A comunidade cristã na sua totalidade está envolvida connosco neste esforço de fidelidade: ela acompanha-me; apoia-me; dá-me coragem. E da minha parte, jamais poderei rescindir o compromisso assumido como se fosse um simples assunto “pessoal”. Nesta minha opção vocacional, eu também comprometi muitos outros irmãos na fé, perante os quais eu afirmei a minha consagração a Deus.

Cultivar relacionamentos que avivem a fidelidade

Ao falarmos da fidelidade, não podemos escusar-nos a reflectir sobre os meios que a podem tornar cada vez mais significativa e rica, mais que reflectir sobre o medo de a perdermos. Afinal, a reflexão sobre este tema não está a ser feito por algum principiante mas sim por gente que, face ao desgaste do tempo, tem o difícil cargo de manter viva a chama. Eis alguns meios que poderiam fortalecer o nosso compromisso de fidelidade.


1. Cuidar do relacionamento com Deus na oração

Já vimos como é que Deus é o fundamento e a fonte perene da nossa fidelidade. Se o meu relacionamento com Ele continua a ser feito de amor, de abandono e confiança, de fé profunda, a esperança de me manter fiel estará assegurada. Os meios disponíveis para tornar relevante o nosso relacionamento com Deus são muitos e todos eles giram em torno do espírito de oração contínua, que foi muito recomendado pelo Pai Fundador, por ela ser especialmente adequada a missionários (cfr. Boletim 95, pp. 1-8).
Muito especialmente, na nossa tradição IMC, cabe um lugar de destaque à meditação diária, sobretudo sobre a Palavra de Deus. As nossas Constituições, após reafirmarem vivamente a sua importância e após recordarem as palavras do Fundador, para quem «já se deve considerar perdido o dia em que ela se não fizer», acrescentam: «Para acolher a voz do Espírito, é necessário criar em nós a capacidade de recolhimento e de silêncio» (61).
Até os aniversários e outras celebrações se devem tornar em ocasião de nos reapropriarmos do espírito da nossa vocação e de o reforçar. Tendo recordado a maneira mais adequada de os celebrar, o Beato Allamano dava-nos a seguinte conclusão: «É uma festa íntima, que se vive entre Deus e nós. É uma festa muito querida que nos lembra o enorme bem que Deus nos quer, os imensos benefícios que nos deu, apesar da nossa indignidade. Ela aviva a nossa fé e o nosso amor; é como que um estímulo à santidade, um empurrão para renovarmos o nosso espírito» (La Vita Spirituale, 268).


2. Viver intensamente o dia a dia

O Fundador aconselhava aos seus missionários uma habilidade para o cultivo da sua vocação: a de viver intensamente, e bem, cada dia e cada momento com o famoso “nunc coepi”. Afinal, o tempo da nossa existência vai dobando a cada momento, um dia após outro. Não temos a possibilidade de o viver, por contracção, duma só vez. O passado já lá vai; e o futuro ainda não veio; só me resta o presente para realizar a minha existência: devo vivê-lo bem, dando significado a tudo o que faço, na certeza de que, assim, estou a cumprir a vontade de Deus e estou a realizar a minha vocação. O Beato Allamano sugeria aos seus Missionários que tivessem empenho nas coisas pequenas, para assim terem a certeza de serem fiéis nas mais importantes. Se percorrermos a Vita Spirituale, logo nos daremos conta de quanto era importante esta sua convicção. Eis algumas expressões que utilizou:
 Os membros do nosso Instituto devem realizar a sua santificação pela fidelidade às coisas pequenas. Que Deus vos faça entender bem esta lição e vos afervore com a Sua graça!
 Haja fidelidade às regras, mesmo as mais pequenas; por isso, observai-as todas, em tudo, mesmo nos seus mais pequenos pormenores. Cada regra pequenina tem por inerência uma graça de Deus.
 Haja fidelidade às práticas de piedade comunitárias, porque há mais bênçãos de Deus na oração comunitária.
 Haja fidelidade ao recreio; é no recreio que podereis alcançar muitos méritos ao observardes a piedade, a prudência e a caridade.
 Haja fidelidade no cumprimento das funções de cada um; cumpram-se com empenho e com desapego; não se procure a satisfação pessoal, face às tantas oportunidades que se apresentam.
 Haja fidelidade ao bom uso do tempo: ocupe-se por completo e com intensidade; apliquemos-lhe toda a nossa força, a nossa vontade e as nossas aptidões.


Para José Allamano, “fidelidade” e “obediência” são equiparáveis. Ele aplicou na descrição da obediência do Missionário os mesmos adjectivos que usou na descrição da fidelidade. De facto, ela deve ser constante, enérgica, pronta, generosa em tudo, mas especialmente na vivência do quotidiano pessoal.
De facto, viver intensamente o presente assegura-nos a plenitude e a relevância de toda a nossa vida; mantém sempre vivos e presentes os ideais a que aderimos e que orientam a nossa existência. Por outras palavras, trata-se da resposta à vontade de Deus, que se manifesta continuamente a um espírito vigilante e atento. Ora isto infunde alegria na vivência da nossa vocação. A este propósito quero recordar-vos aquilo que o Beato João XXIII escreveu: «Sou como um saco vazio que Deus tem que encher. Não estou preocupado com mais nada, senão em fazer dia após dia a vontade de Deus. Acreditem: uma vida assim é a mais bela de todas».

3. Valorizar a vida comunitária e deixar-se acompanhar pelos irmãos

A comunidade é auxílio importante para a fidelidade. Na comunidade o Missionário sente-se recebido como discípulo empenhado em seguir o Mestre e aí encontra abundantes meios para lhe facilitarem a caminhada do crescimento em todas as dimensões da sua vida consagrada. Foi o próprio Deus que me deu irmãos para me apoiarem no itinerário de fidelidade a Deus seguindo uma vocação específica que recebi com o carisma do Beato Allamano. A presença destes irmãos é, para cada um de nós, uma força, uma garantia e uma autêntica boa sorte.
Toca-nos a nós valorizar ao máximo a comunidade, servindo-nos dos abundantes meios que ela nos oferece. Não é difícil fazer uma lista deles. Por exemplo: a oração comum, a comunhão de espírito, a Eucaristia, o aprofundamento e o discernimento comunitário da Palavra Divina, a correcção fraterna, os tempos de lazer. Ao mesmo tempo, é preciso recordar que cada qual tem o compromisso de construir a comunidade, não se contentando de ser apenas um utente. Na proporção com que me entregar aos outros, na mesma proporção ficarei enriquecido.
Mas não quero deixar de recordar mais um meio importante – a direcção espiritual. Vivemos numa época de grande incerteza e desorientação em relação às matérias que tocam a nossa vida e o serviço missionário. Por isso se impõe mais que nunca que tenhamos um guia espiritual a quem pedir conselho. Não se trata só de ir ter com uma pessoa de experiência capaz de apoiar quem tem menos; trata-se sim de criar uma “comunhão entre irmãos” de tal ordem que o Ressuscitado esteja presente e se torne luz do nosso caminho.



Conclusão

Gostaria de encerrar esta minha reflexão apontando-vos um criativo “elogio da infidelidade” que nos mostra eficazmente onde reside o segredo da fidelidade:
Feliz daquele que decidiu, no seu coração, ser infiel a si mesmo, aos seus projectos pessoais, com tudo aquilo que prometeu e planificou.
Feliz daquele que entregou a sua própria vida a Outro e o deixa fazer de realizador, declarando-se pronto a recitar a comédia, a divina comédia que Ele lhe sugere.

Feliz daquele que O deixa livre para desmontar todos os esquemas; Ele que, como o vento, sopra onde quer: sabes de onde vem mas não sabes para onde te leva: é livre, criativo, sempre imprevisível. Viver à mercê do Espírito; passar do certo ao incerto, do conhecido ao desconhecido… Aventura de vida nova, imprevisível.
A coerência é linear. Mas não dá liberdade ao Espírito para que se exprima com a criatividade que o caracteriza.
A incoerência é bizarra, sim. Mas possui a linearidade do desígnio divino. A sua harmonia vem do alto. É incoerência para uma coerência superior.
Convém deixar a segurança do timão, desfraldar as velas e entregar o governo ao Espírito (1).

Que São José, a quem a Igreja chama “homem fiel”, interceda por nós, nos reforce no nosso compromisso vocacional e missionário, e nos antecipe o gosto diário da alegria do nosso abraço final com Deus: “Muito bem, servo bom e fiel; como foste fiel no pouco, dar-te-ei autoridade sobre o muito: entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25, 21).

Saudações fraternas na Mãe Consolata,

P. Piero Trabucco, imc
(Padre Geral)

(1) F. Ciardi, “Elogio dell’infedeltà” in Unità e Carismi, n.º 1/2002, p. 37.

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