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Padre Mauro Calderoni PDF Imprimir E-mail
Por Luís Mechiço, Luís Paunde, Octávio Rafael   
12 de March de 2006

(1932-2003)

Nasceu a 19 de Agosto de 1932 em Lissone (MI), de Innocente e Elli Rosa. Entrou no Instituto em 1961, vindo do seminário diocesano de Milão, onde fez os dois primeiros anos do secundário. Em 1963 consagrou-se a Deus com a profissão religiosa e foi ordenado em 1967.

Partiu para Moçambique em 1969 onde trabalhou oito anos, até 1977 em Massinga como pároco e como professor. Em 1976 deu-se o fenómeno da estatização das missões por parte do regime comunista já no poder. O padre Mauro ficava assim praticamente prisioneiro na sua própria casa, forçado a conviver com outras pessoas e impedido de fazer ministério.

No dia 2 de Julho de 1976, no dia seguinte ao da nacionalização, escreveu ao padre Mário Bianchi, superior geral, nestes termos: “Reze por nós, para que possamos encontrar nesta provação a vontade de Deus que nos quer ver unidos a Ele e separados das coisas do

mundo. Esta provação é certamente dura, tanto mais que nos parece que não a merecemos. Saúdo-o em união a toda a família missionária e

garanto-lhe que, ‘apesar de tudo’ o moral é de bom nível».

Pouco depois, a 7 de Julho, escrevia assim ao padre Manuel Tavares, vice-superior geral: «Somos duma só alma e estamos decididos a ficar aqui…os cristãos já foram avisados de que os padres e as irmãs não se irão embora e que, se houverem de partir, não será por escolha própria. O moral, passado o imprevisto choque inicial – que em vez de nos destruir, nos encheu de espanto e de compaixão por quem o causou, é alto e em nada comprometido. Só esperamos que nos acompanheis com a oração, porque só Deus é grande e os Seus desígnios não serão certamente afectados pela vontade humana». No entanto esta vontade virar-se-ia contra ele ainda mais, respondendo com a expulsão para fora do país às justas objecções que fizera.

Foi destinado a Portugal, trabalhando como administrador da casa do Cacém entre 1978 e 1982.

Mas a expulsão de Moçambique marcaria profundamente a sua vida. Juntamente com as suas precárias condições de saúde, tudo ajudou a fazer com que pedisse um período de descanso em família, em Lissone. Esse período prolongou-se até 1988, altura em que a sua situação pessoal logrou resolução jurídica com destinação para Moçambique, embora continuasse a viver na Itália. A 16 de Novembro de 2003, foi vítima de ataque cardíaco, indo para o Pai inesperadamente. Participaram no funeral os confrades da casa de Bevera, o padre Ernestino Venturi e numerosos párocos das redondezas. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Lissone.

Redacção de “Da Casa Madre”

Servo da missão

Encontrei-me com o padre Mauro Calderoni nos estudos teológicos: era um rapagão de 29 anos, um pouco mais velho que nós, mas capaz de grandes amizades; a sua exuberância fazia-o transpirar uma grande generosidade; e sendo apto do desporto, era uma espécie de estandarte.

A seguir, fomos ambos convidados a trabalhar em Moçambique juntos: ele no sul e eu no norte. Esses anos foram para ele tempos de fervor missionário, sempre inesgotável na sua disponibilidade. Por várias razões, fomos ambos parar a Portugal, ambos a trabalhar em seminários. O seu optimismo e o seu entusiasmo levaram-no a organizar e a servir sem reservas.

Uma vez findo esse nosso serviço, voltámos ambos a Moçambique mas, pouco a pouco, a sua saúde obrigou-o a voltar para a Itália, onde se lançou para um trabalho gigantesco, o de fazer animação missionária no seu ambiente, dando origem a críticas e também a muita admiração. E tornou-se o nosso criado – a quem todos nos dirigíamos. Das suas mãos e do seu coração vieram mais de cem contentores, sempre preciosos – que mandava gratuitamente.

Vi-o pela última vez em Lissone há alguns anos, perto de um contentor que andava a encher. Falou-me, arrebatado, da Rádio Maria pela qual tinha muito afecto e sentia-se alegre por ter também surgido em Moçambique. Era homem, padre e missionário: personagem muito bem conhecida pelas pessoas que se lhe dirigiam e em quem confiavam. Como padre, deixou-nos uma boa marca. Muito obrigado.

P. Forner Salvatore

Tinha grande espírito missionário

Conheci o padre Mauro em Massinga no ano 1974-1975, o ano da transição anterior à independência de Moçambique. Trabalhava então na missão de Mangonha e tinha o forte desejo de fazer promoção juvenil pela escolarização. Construiu e pôs a funcionar a escola e o colégio secundário na cidade de Massinga. Essa obra era grande e exigente e, ainda por cima, era professor, professor apaixonado, de matemática e física, tendo ainda de supervisionar os operários. Não era fácil sair da missão de Mangonha para vir até Massinga, a cerca de 7 quilómetros. Embora o padre Armanni tivesse posto uma cobertura de seixos do rio na estrada, o trajecto diário era um sacrifício que ele fazia, com paixão.

Quando se lhe perguntava “Como estás?”, só respondia: “Como Deus ordena”. Marcou-o um espírito missionário fenomenal que usava, já na Itália, para entusiasmar todos os sacerdotes da sua zona, que depois vieram ao seu funeral em grande número. Com a sua obra a favor das missões de Moçambique ele ajudou imensamente os missionários que agora choram a sua partida.

 P. Ernestino Venturi

Sociável e generoso

O padre Mauro trabalhou muito na formação de catequistas, que reunia no centro catequético de Mangonha (Massinga) onde organizava cursos de formação frequentes. Tinha muita criatividade e sabia transmitir-lhes uma espiritualidade sólida, alimentada pela oração.

Na altura da revolução, empenhou-se no fortalecimento da fé dos cristãos, passando por todas as aldeias a explicar o primeiro documento dos Bispos, de título “Viver a fé no Moçambique de Hoje”. Tendo conhecimento do sistema marxista que estava para ser instalado, encorajou os cristãos a permanecerem firmes na sua fé. Dizia-lhes ele: «A Igreja sois vós…se achardes que a Igreja é a barba do padre Mauro, então quando o padre Mauro for expulso daqui, ireis dizer que a Igreja saiu com ele. Nada disso! A Igreja continua convosco, mesmo que não haja padres». Interessava-se pela promoção dos jovens de Moçambique e por isso construiu a escola secundária de Massinga e outras escolas nas várias aldeias.

Era uma pessoa sociável, generosa e cheia de compaixão para com os pobres. Na medida do possível, ajudava sempre as pessoas necessitadas que iam ter com ele. Recordamos que uma vez levou um rapaz mutilado para a Itália, ajudando-o a estudar e a fazer caminho na vida.

Durante a guerra, decidiu visitar a missão de Mangonha. Pelo caminho, os soldados procuraram aterrorizá-lo com umas metralhadas e dizendo que era um ataque da Renamo. Mas o padre Mauro não lhes deu confiança e disse-lhes que eram eles que não o queriam deixar passar. E dito isso, carregou no acelerador, chegando a Mangonha sem medo.

Depois de ter sido expulso de Moçambique, continuou com Massinga no coração. Lembrava-se de nós, do sofrimento e da fome que tínhamos sofrido durante a guerra; por isso enviava-nos contentores com roupas e alimentos.

Quando recebemos a notícia da sua morte, a comunidade ficou de luto na sua totalidade, e todo o povo rezou por ele. O padre morreu fisicamente, mas continua a viver no coração dos cristãos que o conheceram.

Luís Mechiço, Luís Paunde, Octávio Rafael


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