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Padre Franco Soldati PDF Imprimir E-mail
Por Giovanni Tebaldi   
12 de March de 2006

(1921-2004)

Morreu Dom Soldati, um campeão das missões. Foi assim que “Il Cittadino”, o jornal de Lodi, noticiou a morte do padre Franco Soldati no dia 6 de Janeiro de 2004. Com ele desaparece o último dos quatro irmãos Soldati. Este religioso ancião tinha 82 anos e havia já muito tempo que sofria. É uma história um tanto incrível, esta de Franco, Gabriele, Pierino e Luísa Piera. Nascidos em Corno Giovine de família humilde, todos eles professaram em jovens acabando por se espalhar pelo mundo a fazer obra missionária. Entre 1950 e 1954 partiram para vários destinos. Pierino, jesuíta, foi para as Filipinas; Gabriel, Franco e Luisa Piera, da Consolata, foram, respectivamente, para a Tanzânia e para o Quénia.

O padre Franco nascera em Corno Giovine, na diocese de Lodi, província de Milão, a 31 de Outubro de 1921, de Luigi e Lucchini Luigina. Fez o ensino primário em Ronco Canavese (1927-1933) e o secundário em Benevaggiena e Varallo Sesia (1934-1942) e, por causa da guerra, fez os estudos teológicos no seminário de Ivrea e em Uviglie Monferrato (1942-1946). Foi ordenado em Uviglie a 30 de Maio de 1946.

Prestou alguns anos de serviço como assistente nos seminários do IMC e, finalmente, partiu para o Quénia. Deparou-se-lhe aí uma visão perfeitamente compatível que haveria de o arrastar a gastar a vida nos anos seguintes numa transformação do modo de pensar, de viver e de agir. Surgiu nele um processo de inculturação que haveria de seguir caminhos bem diferentes dos habituais e que não se esgotaria na simples justaposição de valores culturais, mas numa interiorização duma nova mentalidade. O padre Franco tornar-se-ia africano até à medula do seu ser e até se lhe tornar perfeitamente natural transmitir a mensagem evangélica em termos acessíveis e compreensíveis. Sob este aspecto, ele conseguiu transmitir uma mensagem de grande valor que merece ser replicada – não necessariamente em termos de estilo, que era único na sua originalidade e inimitável nas suas manifestações.

Recordações biográficas

O padre Ermanno Montini, que o encontrou na Itália e no Quénia, escreveu as seguintes notas autobiográficas: «O meu conhecimento da família Soldati remonta a muitíssimos anos (já cinquenta) quando eu, com os meus dez anos, e tendo acabado o básico, tinha confidenciado a um padre missionário a minha meia vontade de me fazer missionário como ele. Ele era então um padre jovem, cheio de entusiasmo, que eu tinha encontrado no mês anterior com a minha mãe em Bevera, na casa dos Padres da Consolata, e que se chamava Gabriel Soldati, irmão do padre Franco. Bem depressa acabei por conhecer o resto da família: quatro irmãos, sendo três rapazes e uma rapariga que tinham ficado órfãos de pai bem cedo na sua vida, e eram alimentados por uma mãe que trabalhava dia e noite à máquina de costura - mas que a tísica bem depressa arrancaria ao afecto dos filhos. Interveio logo a sua tia Giacomina, que os levou para sua casa e os tratou como a filhos seus. A nova família cresceu no afecto e nas dificuldades, de forma que Franco sentiu a responsabilidade pelos irmãos que, um a seguir ao outro, se tornariam missionários. O Pedro entrou para os jesuítas e foi missionário durante muitos anos no Extremo Oriente, enquanto que o Franco e o Gabriele foram para os Missionários da Consolata; a Aldina, mais nova, seguiria o mesmo caminho fazendo-se Missionária da Consolata sob o nome de Irmã Luísa Piera.

Quando chegou o meu turno de ir para o Quénia, fui mandado para a diocese de Meru, na missão de Kyeni, hoje incorporada na diocese de Embu. Há vários missionários que, para nós, são verdadeiros gigantes. O padre Franco é um desses. Ele nunca fazia viagens compridas: ia uma vez por ano ao centro para exercícios espirituais e todos os sete anos (depois cada cinco) a Nairobi para apanhar o avião para a Itália. Trabalhava em Mwereria, palavra kimeru que agora compreendo melhor após vários anos de missão. Fundara uma obra para crianças deficientes em Tuuru. E já era missionário de Nyambene em geral e de Igembe em particular. Era pessoa de carácter forte e voluntarioso, de amor sem limites e duma doação e pobreza fora do comum. Falava, raciocinava, comia e actuava… tudo em kimeru. Só tinha uma fraqueza: as suas crianças de Tuuru. Por esta razão, eu, então em Kyeni, tive a sorte de me encontrar com ele e o ter como hóspede – uma noite, sempre, e para cada viagem sua.

Ainda sabia pouco sobre o padre Franco; só ouvia falar muito dele. Dezassete anos mais tarde, neste meu peregrinar, fui enviado para Kangeta em Igembe, e, por sorte, essa missão confinava com a do padre Soldati. Pude assim conhecê-lo bem. Ele e o irmão Argese, Mukiri – o silencioso – como o povo decidiu tratá-lo. Comigo vivia o padre Canova e, durante algum tempo, nós quatro formámos uma comunidade única com três residências diferentes : amámo-nos e ajudávamo-nos uns aos outros mesmo encontrando-nos raramente, de preferência no ‘chalet’ do irmão Argese. Da cooperação entre o padre Franco e o irmão Giuseppe nasceu o «Tuuru Water Scheme» - o maior aqueduto privado do Quénia, que foi definido pela “Misereor” como a fina-flor de todas as suas intervenções caritativas no mundo.

Para sustentar as suas obras de caridade, o padre Franco escrevia artigos em revistas e jornais, batia a todas as portas e fazia de mendicante pelas crianças. A missão de Tuuru tornou-se uma cidadezinha ordenada e limpa, cheia de meninos deficientes, e o aqueduto acabaria por servi-los não só a eles mas a outras 200.000 pessoas.

O padre Franco trabalhou nas missões de Egoji, Tigania e Turu. Tinha um conhecimento profundo da língua e da cultura local, procurando de todas as formas inculturar o cristianismo e tornar a sua mensagem relevante para todas as categorias sociais. Até se tornou mwariki; entrando para o grupo dos njuri ncheke e instalando-se frequentemente nas suas cabanas de retiro para meditar, estudar e compreender. Ia experimentando novos métodos de apresentar a mensagem e consumia-se só ao simples pensamento de se dar mais cultura ocidental que mensagem evangélica. Interrogava-se muitas vezes sobre se o caminho era certo, sem nunca pretender ou querer ensinar os outros. E foi daí que lhe veio a alcunha de “Mwereria”, quer dizer, aquele que mostra o caminho mas é calado, que se não impõe mas mostra o caminho claramente com o exemplo e apontando o percurso. É aquele que sabe para onde se deve ir e conhece os meandros para lá chegar; é reflectido e pensador.

A sua casa foi muitas vezes uma morada provisória e a alimentação foi sempre frugal. Rarissimamente viajava para fora da sua missão: estava presente em muitas reuniões, e sempre nos exercícios espirituais de ano, quase sempre ausente das celebrações e das festas e quase nunca em visita a pessoas que não fossem da missão. Até comprara um cavalo para poupar em transportes, não porque lhe agradasse andar a cavalo. Passou muito dinheiro pelas suas mãos que se transformou em aquedutos, casas e alimento para as crianças e para os pobres, igrejas, escolas e construções para os outros.

Tenho gosto em lembrar aquela festa que nós, Missionários da Consolata organizámos em Meru, a 7 de Outubro de 1990, por ocasião da beatificação do nosso fundador, o beato José Allamano. Foi tudo organizado pelo irmão Mukiri no santuário da Consolata de Mukululu. Deu-se uma participação em massa da família consolatina com o apoio de todos os padres e religiosas daquela zona. Nessa altura, o padre Franco foi escolhido como celebrante e pregador de ocasião.

A trapa na selva

O padre Franco Soldati era pessoa de poucas palavras mas sabia comunicar bem com a sua pena. Apareceram muitos artigos seus nas revistas do IMC, havendo muitas cartas a demonstrar a sua extraordinária capacidade comunicativa. Os assuntos são variados, conforme os tempos e os lugares. Assim, em Meru discutia-se sobre se traduzir a expressão do Pai Nosso “que estais nas nuvens” ou “que estais no alto”. O trabalho entre os Borana do norte ia avançando, mas era preciso dinheiro para construir escolas; em Kangeta estávamos à facada com os protestantes; o Quénia ficaria independente dentro em pouco. Mas é a reflexão sobre si próprio e sobre a sua vocação que o atormenta. Assim escrevia ele ao superior geral em 1972: “Eu tinha tomado a decisão de sair de Meru e não tinha intenção nenhuma de me refugiar entre os loucos dos europeus. Quem me salvou foram os de Tuuru… Se calhar tornei-me tão africano que já nem sei dialogar com os europeus». E depois de 26 anos de sacerdócio, voltou a escrever ao superior geral e ao seu Bispo: «A incerteza sobre a nossa própria vida é a pior coisa que um missionário possa apanhar. Depois de três anos de crise, de reconsideração e de ansiedade, tomei uma decisão irrevogável a respeito do meu futuro. Vossa reverência já está ao corrente do meu propósito de mudar de teor de vida». Porém temia que tal decisão pudesse causar dano à missão. Por isso fez um acordo. Retirou-se para Mutuati, uma espécie de trapa, protegida por uma sebe, para passar o tempo na leitura, na oração e no apostolado entre os anciãos. A comunidade de Tuuru – escrevia ele – não vê este meu retiro com bons olhos, mas consegui convencê-la. A 25 de Julho de 1997 celebrou o seu 50º ano de profissão religiosa e confidenciou ao superior geral que se encontrava em boa companhia em Nthambiro: a Eucaristia. E concluía: Se já não tiver forças para ficar aqui, pedirei para ser transferido para Alpignano». Uma previsão do óbvio! Em 2003, apareceram algumas feridas nos pés: ele limpava-as e tratava-as, mas não havia maneira de ir ao médico para fazer uma análise. Quando o superior, ao visitá-lo em Nthambiro, notou que coxeava, ele disse-lhe que tinha dado um trambolhão. Só no início da segunda metade do ano de 2003 é que se percebeu, por relato dos cristãos de Ntahmbiro, que estava gravemente doente. O médico que o visitou diagnosticou-lhe a doença e constatou o grau de gravidade. A 26 de Julho foi internado no hospital do “Cottolengo” de Turim, onde lhe amputaram as pernas. O sofrimento físico e moral colocaram-no fora do mundo real. A 4 de Janeiro de 2004 veio a falecer em Alpignano. Tinha 82 anos de idade, 56 de profissão religiosa e 57 de sacerdócio.

Giovanni Tebaldi

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