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Padre Alberto Ernesto Salomoni PDF Imprimir E-mail
Por P. Giano Benedetti   
10 de Março de 2006

(1941-2004)

Era filho de Aristide Geremia e de Elvira Sodi, nascido a 7.02.1941 em Gabbioneta B. (Cremona). Formou-se em contabilidade e trabalhou vários anos como empregado numa firma. Entrou para o Instituto em 1985 pela casa de Bedizzole, onde ficou poucos meses, seguindo para Rivoli onde cursou filosofia. Em 1987 professou e, já com 49 anos, foi ordenado sacerdote em 1990. Foi destinado para a Argentina, onde trabalhou nas paróquias de San Francisco (1990-1995), Machagai e Palo Santo (1995-1999). Entre 2000 e 2003 funcionou como responsável pela casa regional de Buenos Aires.
Vítima de tumor maligno, regressou à Itália em Julho de 2003, vindo a falecer a 29 de Janeiro. As exéquias foram na segunda-feira, 2 de Fevereiro, em Leno, sua terra de adopção. Presidiu à Eucaristia o p. Giano Benedetti, conselheiro geral. Estavam presentes vários confrades e irmãs da Consolata, Mons. Spertini, delegado do Bispo, e outros sacerdotes. Eram numerosos os amigos e amigas dos grupos missionários daquela zona e que o tinham apoiado. Digno de louvor foi o gesto do pároco, mons. Giovanbattista Targheti, sempre próximo da família e dos missionários. O seu corpo repousa agora no cemitério de Bonemerse, em jazigo da família.
A redacção de Da Casa Madre

Chamado para outra coisa
Rezava o letreiro: “Seminário para vocações jovens e adultas – Missionários da Consolata”. Na verdade, como já aconteceu muitas vezes, são muitos os que o lêem mas são poucos os que se deixam incomodar. Porém, para o técnico de contas Alberto Salomoni, bastou uma leitura atenta, de uma só vez.
Encheu-se de coragem e apresentou-se ao p. Giuseppe Villa, superior da comunidade, ousando fazer um pedido que não era nada fácil de exprimir em voz alta, sobretudo por alguém já com 44 anos e com uma carreira de futuro no currículo. Não lhe faltavam amigos, daqueles autênticos; também tinha a máxima certeza do solícito e sentido afecto dos seus parentes.
Mas havia já algum tempo que, ao confrontar-se com Dom Renato Musatti, então pároco de Gambara (BS) e animador do grupo missionário da paróquia, a ideia de se fazer missionário para servir a Deus e aos mais pobres, se tinha tornado cada vez mais clara e impetuosa. Melhor ainda: não se tratava já duma ideia, mas sim da convicção de que Deus o queria e o chamava para a missão. O Alberto sentia e vivia esta vocação como um dom que não estava nem registado nem orçamentado nos livros de contabilidade que preenchera em todos aqueles 18 anos de serviço. Percebeu que era um dom que tinha de partilhar o mais depressa possível e até ao fim.
Alberto encontrara pobres nas muitas viagens que fizera à África e à Ásia. Abençoadas viagens…-pois que se tornaram uma verdadeira ratoeira. De turista por diversão viu-se transformado em entusiasta animador missionário na companhia dos seus amigos e amigas do grupo de Gambara.
Mas a sua fé viera de longe. Era uma preciosa herança que se tinha incarnado no dia a dia da sua família. Era uma fé que tinha crescido com a idade e se tinha tornado em caminhada pessoal, uma experiência íntima e profunda que se purifica nas provações e no esforço de quem tece com coerência o enredo e a malha da existência, com aquele delicado entrelaçamento que se dá entre afazeres, sentimentos e projectos de curto e longo prazo.
Para o Alberto chegara a altura de dizer a Deus: “leva-me!”. Que os outros pensem e digam o que bem entenderem…
Um ano e meio mais tarde, em 1985, e já integrado no nosso seminário e embrenhado nos estudos de filosofia, assim escrevia ao superior que o aceitara, para lhe comunicar que já estava disposto a enfrentar a experiência do Noviciado: «O mistério da cruz é um fardo mas também é sinal de liberdade, razões pelas quais me sentirei tanto mais feliz quanto melhor conseguir libertar-me das coisas materiais para me enriquecer com Cristo. Certamente que não sou qualquer plantinha a que baste um jardineiro qualquer para endireitá-la. Vim com muitas malas de experiências e defeitos arraigados e vou precisar de paciência e constância todas especiais dos meus formadores. A ajuda do Espírito Santo, que é o advogado capaz de virar ao contrário até mesmo as situações mais difíceis e é o suave consolador da alma irá suprir as minhas deficiências. É a Ele que vou confiar as dificuldades e as dúvidas à medida que se me forem apresentando: enfrentá-las-ei com a oração porque estou certo de que se trata de provações mediante as quais o Senhor me chama a crescer e a abandonar as falsas certezas para aderir totalmente à Sua vontade. Confio na ajuda de Maria Santíssima, que sabe tornar fortes e grandes até mesmo os pequenos e os fracos que a Ela recorrem, o que é exactamente o meu caso».
Na mente e no coração do Alberto trata-se afinal dum passo decisivo: uma vez agarrado à rabiça do arado, não olharia para trás. As dúvidas e as indecisões terão que mudar de morada. De carácter emocional, voluntarioso e enérgico, de actuação entusiasta e incansável, ele iria directo ao assunto – como um ventarrón, à maneira argentina – e no entanto, também era capaz de afectos sinceros, solicitude, paternal e maternal ao mesmo tempo.
Acima de tudo, revelaria um coração transparente, simples e indiviso, que assim se manterá até ao fundo. Nada de fingimentos, truques ou máscaras, nada de egoísmo ou interesses pessoais: trabalharia duramente e serviria – apenas para glória de Deus e o bem dos necessitados. Tal como o Beato José Allamano nos quisera: simples!
Passado o ano de noviciado em Vittorio Veneto, o Alberto foi terminar a sua preparação para o sacerdócio cursando teologia em Bogotá, entre 1987 e 1990. Aprendeu o espanhol e começou a estudar a realidade latino-americana a partir de dentro. Chegou finalmente o dia da sua ordenação sacerdotal, o dia 1 de Dezembro de 1990. Foi este um período verdadeiramente feliz, arrebatador. Foi exercitando e saboreando a riqueza e o mistério de ser sacerdote no meio do seu povo enquanto se preparava para partir. Os parentes, os amigos, os antigos colegas, os paroquianos, os confrades e as irmãs da Consolata participaram todos no seu incontrolável entusiasmo e no seu desejo de chegar quanto antes à Argentina a que fora destinado. Desta vez já partia como Missionário da Consolata, não como turista ou como estudante. Partia com o crucifixo – o seu fardo e a sua liberdade – que recebera juntamente com o mandato missionário.
Foi trabalhar para as paróquias de San Francisco, Machagai e Palo Santo, sendo-lhe pedido por fim que pusesse as coisas em ordem e fosse gerir a casa provincial de Buenos Aires. Como de costume, em toda a parte e com qualquer um, não se poupou a esforços e canseiras, colocando sempre Deus e as necessidades das pessoas em primeiro lugar. Foram nada mais que dez anos sem olhar aos sacrifícios e ao preço que era preciso pagar, mesmo em termos de saúde física.
De facto, começou para ele uma nova etapa da sua corrida apostólica: a da doença e do sofrimento que haveriam de o prostrar e consumir fisicamente em menos de três anos. O anúncio da paixão, morte e ressurreição do Senhor que distingue a obra do apóstolo no seio da Igreja e no meio dos povos foi coisa que o p. Alberto não só expressou e testemunhou: foi também chamado a vivê-las e a apropriar-se delas na sua própria carne. O seu itinerário humano e espiritual aportaria seguramente à paz precisamente quanto mais agudo se tornava o tumor maligno que o agredira. Ele, o tal ventarrón quase imparável no seu ímpeto e nos seus projectos de solidariedade, tornar-se-ia cada vez mais sereno, em paz.
Foi este um longo percurso, o do p. Alberto que, como pessoa matura, muito viajada e com carreira de sucesso procurou e, depois, encontrou o Senhor no silêncio da sua consciência e do seu coração, para afinal instaurar com Ele um diálogo cada vez mais enriquecedor e fiel. Foi uma oração que, pouco a pouco, desenvolveu e tornou fecundo nele o dom da fé e do abandono confiante na vontade divina, que o impeliu a empreender um tipo diferente de carreira, a corrida da caridade evangélica no meio do povo, servindo sempre sem cálculos e sem nada reter para si.
Servir sempre, tanto no muito como no pouco: o p. Alberto, na pujança das suas forças, moveu consciências e muito auxílio monetário para realizar obras de solidariedade. Agora, na fraqueza da sua condição de doente terminal, continuaria a fazê-lo até ao fim. Investiu as pouquíssimas energias que lhe ficaram – já nem sequer conseguia alimentar-se – para espalhar à sua volta a confiança e para cultivar, de enxada nas mãos, uma rica horta para os confrades de Alpignano e para manter em ordem as verdes plantas e as flores frescas que decoravam a casa. Enfrentou a sua doença com lucidez e lutou até ao fim, sempre obedecendo aos médicos, contanto que pudesse continuar a ser útil e a servir, sempre a servir. É assim que se encontra a paz no serviço.
Tal como alguém escreveu:
O fruto do silêncio é a oração,
O fruto da oração é a fé,
O fruto da caridade é o serviço,
O fruto do serviço é a paz.
Nos últimos dias da sua existência, o p. Alberto falava da morte com surpreendente lucidez aos seus parentes, como de coisa que acontecerá quando já não estiver com eles, infundindo coragem, sugerindo até como organizar o seu próprio funeral…
Posso afirmar que, durante a sua doença, pedimos e insistimos num milagre por intercessão do Beato José Allamano, mas a cura que esperávamos não se deu. Chegou sim, como fruto maduro, a paz daquele que, com coração íntegro sentia como única urgência o convite a servir até ao fim de todas as forças, a paz do amigo do esposo que finalmente se encontra à sua ilharga depois de por ele ter ansiado, a paz do apóstolo que, depois de ter corrido incansavelmente, já entrevê a meta e a coroa do seu prémio.
O tom da voz do p. Alberto já não era estridente nem firme como nos tempos iniciais da vocação, mas a invocação que sussurrava frequentemente ao seu Senhor ficou na mesma: leva-me!
P. Giano Benedetti

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