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São José Cafasso - Padroeiro para 2005 PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, imc   
10 de March de 2006

2 de Outubro de 2004

Caríssimos Missionários,

A 11 de Maio de 1925, ao voltar da beatificação solene de José Cafasso, que tivera lugar em Roma, o nosso Pai Fundador escrevia aos missionários e às missionárias nestes termos:

Caríssimos Filhos e Filhas em Nosso Senhor Jesus Cristo,

Sinto a necessidade de vos abrir o meu coração, agora cheio de consolações interiores, pela solene beatificação do nosso Dom Cafasso. Bem sabeis como eu anelava por este dia e quanto fizera para que chegasse. Finalmente, depois de tantas canseiras que duraram trinta anos, esse dia chegou; e, na alegria mais completa, tenho que me abrir a vós que sois a minha coroa e sempre participastes nas minhas tristezas e nas minhas alegrias.

No dia 3 do corrente, tive a sorte de me deslocar a Roma, onde pude degustar celebrações verdadeiramente celestiais, porque só na basílica de São Pedro e na nossa Santa Igreja se podem saborear. O Santo Padre demonstrou-me imensa bondade, tal como todos os Cardeais e Bispos.

Escusado será dizer-vos que vos recordei a todos naquele momento solene em que se proclamou o Decreto papal e se descobriu a efígie do Santo. Recomendei ao Beato Cafasso o nosso Instituto e implorei para todos vós as graças necessárias e úteis para vossa maior santificação e conversão dos infiéis. O Beato José Cafasso é Padroeiro do Centro de Formação Pastoral de que aliás foi co-fundador, luz e modelo das almas piedosas, principalmente eclesiásticas; mas também é nosso Padroeiro especial e, como costumais dizer, “vosso Tio” – e como tal deveis honrar e imitar as suas virtudes. Lá no céu, ele será vosso intercessor em todas as vossas necessidades; e como pessoa zelosa pela salvação das almas, haverá de vos ajudar no trabalho da Santa Missão.

Vou mandar-vos imagens para colocardes nas vossas igrejas; havereis de celebrar a sua festa e Ofício, e prestar-lhe-eis homenagem durante todo o ano. Com isto, sei que vos darei um grande instrumento de perfeição e que cumpri em parte a minha Missão a vosso respeito. Rezai-lhe também por mim para que Ele me conceda a graça de terminar bem a minha carreira e possa, em devido tempo, fazer-lhe companhia no céu. Abençoo-vos do fundo do coração e com todo o afecto em Jesus Cristo,

Cónego G. Allamano – Superior[1].

Decidi reproduzir na íntegra esta carta do Fundador porque ela ilustra de forma eloquente a motivação que levou as duas Direcções gerais a escolherem São José Cafasso como Padroeiro para 2005, ano do Capítulo Geral. Todos os Capítulos Gerais, além de serem uma ocasião de apreciação de cada mandato, são um convite a que todos os membros do Instituto façam revisão do andamento da sua caminhada perguntando-se: estaremos nós a calcorrear caminhos que foram traçados pelo nosso Pai Fundador? Ainda estamos a matar a sede na nascente autêntica do seu carisma? O nosso zelo missionário ainda estará a alimentar-se do “espírito” que o Fundador dizia ser “seu”? De entre os meios mais eficazes para atingir esse objectivo temos que incluir sem dúvida o empenho em voltar às raízes do projecto do Instituto criado pelo Fundador e assim revermo-nos nos “ideais” de vida e de missão que ele escolheu.

A ligação que o nosso Fundador tinha com o seu santo Tio – já o sabemos – não era apenas a do parentesco. Quando foi chamado a presidir ao Centro de Formação Pastoral, José Allamano compreendeu logo que o seu primeiro dever era seguir pessoalmente as pegadas da espiritualidade de São José Cafasso para depois poder transmiti-la aos jovens sacerdotes que seriam confiados aos seus cuidados formativos. Naquele seu empenho de “re-descoberta” da espiritualidade de José Cafasso, José Allamano também absorveu o seu espírito apostólico, a pontos de considerar a fundação do Instituto como uma realização dum sonho por ele acalentado[2]. José Allamano, após ter trazido à luz a sua Família missionária, quis que o espírito apostólico e o timbre de santidade característicos de J. Cafasso passassem integralmente para os seus missionários e para as suas missionárias. Foi sobretudo por esta razão que ele lançou mãos à obra da causa de beatificação do seu Tio. A Beatificação, que teve lugar em Roma a 3 de Maio de 1925, foi a conclusão duma azáfama que durara trinta anos mas que também lhe deu o direito de afirmar: “E agora…cantarei o Nunc dimittis[3]. Tinha dado aos seus Missionários um Padroeiro e um Mestre de vida e de missão!

Apontamentos biográficos

José Cafasso nasceu em Castelnuovo d’Asti a 15 de Janeiro de 1811 e era filho de Giovanni e Orsola Beltramo. Foi o terceiro de quatro filhos. A última, Marianna, viria a ser a mãe de José Allamano. A família Cafasso cultivava uma pequena propriedade que, no entanto, não chegava para acudir a todas as necessidades. Assim, os filhos adultos eram obrigados a arranjar emprego sazonal nas terras de outrem. A passagem continuada das forças armadas pelas terras e pelas vinhas tinham levado muitíssimas famílias de Castelnuovo e dos arredores a uma situação de miséria e de fome. A família Cafasso conseguiu superar, embora com muitas dificuldades, aqueles tempos difíceis.

A nível religioso, Castelnuovo sofreu, apenas ao de leve, a tempestade revolucionária da época, da política religiosa de Napoleão e das actividades do movimento jansenista. Em 1803, a paróquia passou da Diocese de Asti para a de Turim. É digno de nota o facto de Castelnuovo, durante o período que medeia entre 1829 e 1880, ter continuado a ser a localidade mais rica em vocações sacerdotais, oferecendo à Igreja personagens eclesiásticas de grande envergadura. Basta recordar que, além de José Cafasso, ali floresceram São João Bosco, o Beato José Allamano e o Cardeal Cagliero.

O jovem Cafasso, ao concluir o Secundário e o Curso de filosofia no Colégio Cívico de Chieri, ingressou no Seminário filosófico e teológico de Chieri em 1830. Este seminário tinha sido aberto no ano anterior por obra do Arcebispo Colombano Chiaveroti em alternativa ao de Turim, que era considerado como pouco adequado à formação de padres devido ao fermento contestatário que lá reinava. Foi admitido ao Diaconado a 23 de Março de 1833 e foi ordenado sacerdote a 21 de Setembro do mesmo ano. Passados quatro meses entrou para o Centro de Formação Pastoral (Convitto) de São Francisco em Turim para se aperfeiçoar na pastoral. Acabaria por lá ficar toda a vida, assumindo pouco a pouco cargos de crescente responsabilidade, tais como, assistente do Cón. Guala, Reitor da Igreja de São Francisco de Assis e do Centro de Pastoral, além de Reitor do Santuário de Santo Inácio em Lanzo.

O Centro de Pastoral de São Francisco, enquanto esteve sob a direcção do Dr. Guala e, depois, de José Cafasso, tornou-se um foco de numerosos e zelosos padres. Reinava a espiritualidade de Santo Inácio; a teologia moral e a orientação pastoral inspiravam-se nas obras de Santo Afonso Maria de’ Liguori. A docência recebia os melhores cuidados e estava orientada para a formação de bons confessores e hábeis pregadores. Durante o reitorado de José Cafasso, o Centro alcançou um dos momentos mais serenos e mais fecundos.

Sob a influência dos Jesuítas, os Exercícios Espirituais e a pregação de missões nas paróquias alargaram-se, deixando uma marca profunda na vida da Igreja. Ensinava-se aos jovens padres do Centro Pastoral que, para se tornarem pregadores, teriam que combinar santidade de vida e sólida preparação doutrinal. O próprio José Cafasso dedicaria muito do seu tempo à pregação dos Exercícios e das missões, particularmente após ser nomeado reitor do Santuário de Santo Inácio de Lanzo, Turim.

Embora José Cafasso gastasse muitas energias na pregação, era sobretudo ao sacramento da reconciliação que dava maior atenção. “Os padres que gostarem de se exercitar em acções de grande porte, sublimes, nobres e gloriosas, que ouçam confissões; os que quiserem tornar-se o mais úteis possível ao próximo, que ouçam confissões; e os que quiserem ganhar mérito, que ouçam confissões”. Era assim que José Cafasso exortava os jovens padres e lhes dava o exemplo, dedicando ao ministério da penitência bastantes horas de cada dia – o que fez durante vinte e seis anos. Também dava atenção à direcção espiritual, a pontos de os jornais se referirem a ele, por ocasião da sua morte, como “vir consiliorum” (o conselheiro) de pessoas de todas as castas sociais, desde nobres a pobres, padres, bispos, fundadores e fundadoras.

Mas a sua actividade não se limitou a tudo isto. Sempre atento aos fermentos de mudança presentes na cidade de Turim de então, e mesmo que nem sempre estivesse à altura de compreender o seu alcance, José Cafasso inventava todos os meios capazes de levar alívio aos mais marginalizados (limpadores de chaminés, órfãos, e feridos de guerra). Trepava pelas escadas mal seguras dos pobres para lhes levar o conforto da caridade e do seu ministério sacerdotal. Sempre pronto a ajudar com os seus conselhos e o apoio financeiro os que procuravam organizar obras sociais, também ficou célebre pelo apostolado entre os presos, a pontos de ficar conhecido como “o padre da forca”.

Quanto à sua influência na vida política do tempo, as biografias pouco dizem. Mas parece que a sua atitude de base terá sido marcada pela prudência e pela discrição, de forma que o Centro de Pastoral terá conseguido navegar com êxito pela borrasca do “Risorgimento” sem grandes prejuízos.

José Cafasso morreu a 23 de Junho de 1860, com apenas 49 anos de idade, após breve doença. A pedido de muitas personalidades, José Allamano deu início ao processo de beatificação, que foi oficialmente introduzido a 23 de Maio de 1896. Por essa ocasião, os seus restos mortais foram trasladados do cemitério da cidade para a cripta do Santuário da Consolata. Seguiram-se as várias etapas do processo: Bento XV declarou a heroicidade das suas virtudes a 27 de Fevereiro de 1921; a beatificação foi a 3 de Maio de 1925; a canonização foi feita por Pio XII no dia 22 de Junho de 1947, declarando-o “modelo de vida sacerdotal, pai dos pobres, consolador dos doentes, conforto dos presos, salvação dos condenados à forca”. O próprio Papa, na Encíclica Menti Nostrae de 23 de Setembro de 1950 apresentou-o como modelo dos sacerdotes.

A doutrina espiritual de São José Cafasso

Os apontamentos biográficos que acabei de traçar, embora esquemáticos e básicos, não revelam nem a intensa vida apostólica de São José Cafasso nem a riqueza de espiritualidade que ele viveu e divulgou, principalmente através do ensino e da pregação. Para quem folhear rapidamente a sua biografia, José Cafasso aparece como um sacerdote simples e humilde, que vive longe do barulho das grandes iniciativas ou das grandes fundações mas que se entrega a fazer o bem nos modos e formas mais condizentes com tal perfil. Mas se lermos as suas obras com atenção, logo nos daremos conta da sua profunda vida interior, facilitada e apoiada por uma força secreta que o guiava de forma decidida para a santidade mesmo numa intensa actividade sacerdotal. Essa força interior de José Cafasso congrega-se em torno da alta estima que tinha pela sua vocação sacerdotal. E foi isso que ele confessou na sua pregação ao clero: “Antes de mais, o sacerdote deve ter uma noção verdadeira de si mesmo e do seu estatuto; deve estar convencido de que é e deve ser uma pessoa diferente das outras; e que o estatuto que tem é feito de trabalho, sacrifício e submissão”.

Não nos surpreende nada que as pessoas acorressem em largos números às suas Missas, que a ele se quisessem confessar ou dele quisessem conselhos. Elas deixavam-se atrair pela sua atitude de santo sacerdote que celebrava os Sacramentos com uma participação intensa e que, na pregação, conseguia atingir os corações e aproximar-se de todos, mostrando sempre ser um “homem de Deus” que apontava para o sobrenatural. A santidade e a vida pastoral constituíram nele um binómio inseparável, em que o primeiro termo é fundamento e o segundo é o seu lógico desabrochar.

O espaço de que disponho apenas me permite delinear alguns aspectos da sua doutrina que têm mais a ver com a nossa espiritualidade missionária e que devem migrar para nós como herança carismática. Serei esquemático e irei ao essencial, deixando que, na medida do possível, sejam as suas próprias palavras a ilustrá-los.

O serviço de Deus

 Nas suas obras[4], José Cafasso entende a vida espiritual como um exercício de amor que se concretiza no “serviço de Deus”. Com esta expressão ele pretende indicar que a criatura se deve colocar perante Deus enquanto fundamento da sua existência, sem nunca perder de vista a fonte da qual se devem tirar os recursos necessários para realizar a sua existência e o objectivo final que a orientará em todas as actividades, sobretudo as apostólicas. Eis como ele explica este princípio numa meditação para o clero:

«Eu estou neste mundo só para servir a Deus: tal é a minha única finalidade neste mundo… Tudo o resto não é nada, para mim; Deus, a Sua glória, os seus interesses, a salvação das almas, eis o grande negócio em que devo estar ocupado, que deve absorver todos os meus dias, sem diferença alguma, e até mesmo os movimentos da minha vida. Eu existo apenas para Deus, onde só Ele ganha, como o querem os Seus interesses, o seu amor… O servo é uma pessoa, quer dizer, é uma personagem entregue, vendida, consagrada e devotada de todo aos interesses de Deus, pessoa que, de manhã à noite e de todas as maneiras, trabalha pela honra e glória de Deus, de forma que tudo isto é a sua única ocupação».

Se faltar esta clareza de intento, continua José Cafasso, o padre torna-se “uma coisa informe, desnaturada e monstruosa”. E acrescenta: «Neste mundo, se nos afastarmos da nossa finalidade, tornamo-nos instrumentos inúteis, alfaias atravancadas nesta grande oficina do mundo, e nada mais». O seu biógrafo conta-nos que, já no leito de morte, ao receber os padres do Centro de Pastoral, ele lhes repetia com firmeza: «O padre, sem Deus, não é nada!».

Este serviço de Deus, bem longe de ser mero sentimento, transforma-se numa fonte de “empenho, cuidado, uma ânsia de servir a Deus, de forma que tudo o resto nada conta, não interessa, contanto que se sirva a Deus”. Além disso, para se poder vivê-lo rectamente, ele exige da nossa parte algumas atitudes, tais como:

- totalidade: Deus não se satisfaz com partes; quer o coração humano na totalidade;

- constância: “estou no mundo para servir a Deus, quer a minha vida seja longa ou curta: em todos os dias da minha vida não existe uma hora ou sequer um momento em que eu esteja dispensado deste serviço. De dia ou de noite, em casa ou fora dela, na saúde ou na doença, na prosperidade ou na tribulação, tenho sempre o dever sagrado de O servir…”;

-  exactidão e prontidão: a totalidade requer a participação de todas as nossas energias e resiste a toda a forma de lentidão ou preguiça na acção.

A vontade de Deus

«Toda a santidade, toda a perfeição e o valor de uma pessoa está em fazer, à perfeição, a vontade de Deus, quer dizer, em apenas duas coisas: primeiro, em fazer o que Deus quer de nós; depois, em fazê-lo da maneira que Ele quer. Acho que não existe nem se possa pedir ou desejar mais que isto».

A doutrina de José Cafasso sobre a santidade e sobre a perfeição cristã é extremamente clara e precisa. Antes de mais, ela parte do fundamento de tudo, que é Deus e o Seu “serviço”. Depois procura o caminho que melhor possa levar a ajustar a nossa existência à de Deus. E encontra-o no fazer sempre e em toda a parte a vontade de Deus.

Esta conformidade com a vontade de Deus não é, como aliás explica extensamente, uma simples adesão intelectual àquilo que Deus quer de nós. Ela implica bastantes actos, tais como o reconhecimento do domínio de Deus sobre nós, o acto de confiança na Sua bondade e, sobretudo, o acto de amor. De facto, «o carácter e o distintivo do nosso amor a Deus consiste em nos conformarmos plenamente com todo o Seu querer e com a Sua vontade; já dissemos que o amor torna os amantes semelhantes entre si».

A adesão contínua e omnipresente à vontade de Deus leva a criatura, pouco a pouco, a identificar-se com o Seu Criador. Vale a pena fazer ouvir de novo as palavras do próprio José Cafasso: «Felizes de nós se conseguíssemos despejar o nosso coração no de Deus e unir os nossos desejos, a nossa vontade à Sua, de maneira a podermos formar um só coração e uma só vontade: querer o que Deus quer; querê-lo no modo, tempo e circunstâncias em que Ele o quer, e querer tudo isto apenas porque Deus o quer… Deus é o meu tudo neste mundo; e o que Ele quer é o que eu também quero: não tenho vontade própria, nem gosto, nem desejo, nem meta que não esteja em Deus. Que Ele disponha como quiser, porque a Sua vontade será sempre a minha vontade».

Ao tratar deste tema, José Cafasso prossegue com o esclarecimento amplo do significado da “indiferença” perante a vontade de Deus. Usando uma linguagem hoje talvez pouco familiar, mas adequada à espiritualidade da época, ele detém-se sobre os elementos positivos que se encontram nesta atitude aparentemente passiva, mas que leva ao abandono pleno e confiante em Deus. E por fim faz questão de relembrar que a “razoabilidade” nunca é apregoada pela pessoa que se abandonar amorosamente à vontade de Deus.

Viver o quotidiano à perfeição

É este o remate da espiritualidade de José Cafasso, consequência lógica dos aspectos antes mencionados. De facto, quem coloca Deus nos alicerces da sua existência e procura amá-lo fazendo em tudo a Sua vontade, encontrará na vivência empenhada do dever diário a via régia e a expressão mais sintonizada da caminhada para a santidade.

A valorização do dever diário orientado para a santidade não é um elemento inventado por José Cafasso. Fora São Francisco de Sales a propagá-lo duma forma original e com grande eficácia. O mérito de José Cafasso está, sim, em ter colocado esta doutrina ao alcance de muitas pessoas, principalmente do clero. A sua vida, que nunca teve nada de excepcional, de genial ou, pelo menos, de fora do ordinário, demonstrou a eficácia deste sistema para alcançar a santidade, quando aplicado com empenho, com seriedade e com atitude serena e optimista. Tal como o próprio Dom Bosco teve ocasião de confessar… “A virtude extraordinária de José Cafasso foi a de ter praticado continuamente e com maravilhosa fidelidade as virtudes ordinárias”. A quem lhe perguntava sobre o que era necessário para se fazer santo, ele respondia: «… Não é preciso fazer milagres, nem é necessário fazer grandes jejuns, grandes penitências, como fizeram muitos santos, senão – ai de nós! – quem conseguiria salvar-se?». E, depois, passava a explicá-lo ao pormenor num texto que se tornou clássico:

«Eu considero santo, e é-o na verdade, o sacerdote que se ocupa dos vários ministérios, em acções próprias do seu estado, mesmo que sejam comuns e ordinárias; e que não só se preocupa, como até procura e faz tudo o que pode por fazê-lo bem. Que vida leva o sacerdote? Como passa os seus dias? Reza, celebra, estuda, ouve confissões, prega, instrui, consola, aconselha, faz visitas, ergue-se, eis a teia de ocupações do bom sacerdote. Nada de extraordinário, nada de barulhento, tudo bastante comum, ordinário e até trivial, para assim dizer. Pois bem: tudo isto bem distribuído com ordem, com prudência, ajustado às circunstâncias e às necessidades do tempo, do lugar e das pessoas e feito bem, chega para tornar santa uma pessoa… seja ela secular, pai, mãe ou um sacerdote».

Nas suas pregações, José Cafasso combateu a mania que muita gente tem de procurar apenas as coisas estrondosas e extraordinárias, chamando a esta atitude “uma grande e funesta ilusão”. E fundamenta esta sua convicção do seguinte modo:

- Cada pessoa tem um caminho todo peculiar para alcançar a santidade. São poucos os que se sentem chamados a realizar acções estrondosas ou milagres. Antes, são muito numerosos os que são chamados a percorrer o caminho ordinário do dever quotidiano cumprido por amor de Deus e dos irmãos, com prontidão, com exactidão e com perseverança.

- As assim chamadas “acções extraordinárias” são, a bem dizer, poucas, na vida duma pessoa. Elas nunca poderão ser o verdadeiro tecido da vida humana.

- Mesmo o senso comum nos aconselha a não investir todas as nossas forças em alguns momentos especiais da vida, deixando o resto de lado. Ai da vida espiritual que não se importa com os deveres quotidianos a favor da procura exclusiva do extraordinário!

E conclui repetindo com insistência que este caminho para a santidade é fácil, fica ao alcance de todos e é seguido por muita gente.

A solidão em oposição a isolamento

A vasta experiência que José Cafasso acumulou na direcção espiritual do clero tornou-o muito sensível ao perigo do isolamento em que os sacerdotes frequentemente se vêem envolvidos. Não só porque os padres diocesanos vivem frequentemente sós na paróquia, mas também porque qualquer padre, uma vez entregue ao ministério, geralmente não tem acompanhamento fraterno na sua vida pastoral e espiritual. Poucos estão a seu lado quando erra ou quando passa necessidade; e raros são os que se prontificam a corrigi-lo fraternamente: os seus superiores talvez saibam pouco sobre a realidade concreta da sua vida e até os confessores hesitam em lhes dizer sempre a verdade, pensando: é padre e por isso sabe como se deve comportar…

Para esta situação, que José Cafasso aliás descreve de modo muito realista, ele sugere um antídoto: o amor pela solidão. A solidão, explica ele, dá ao padre a capacidade de entrar em si mesmo e vigiar a sua própria vida. A solidão é uma força, na medida em que ajuda na caminhada espiritual: «A união com Deus, a pureza de consciência, a exemplaridade da vida, tão específicas do padre, não se podem apenas esperar ou procurar fora do retiro e da solidão». E passa a explicar como a solidão não é um obstáculo à actividade, antes, pelo contrário, é a sua força motriz: «Meus irmãos, nunca nos esqueçamos de que a nossa vida consiste mais de espírito que de obras; as obras só valem segundo o espírito. Tirai ou diminuí num eclesiástico o espírito interno e específico do seu estado e logo tirareis ou diminuireis, em igual proporção, o valor das suas obras».

A solidão não é sempre a capacidade de “entrar em si mesmo”. Ela também exige momentos de verdadeiro “desapego” das actividades quotidianas, lugares de solidão, «em que, como num porto tranquilo, possas de tempos a tempos recuperar da grande torrente de afazeres que te oprimem». As modalidades desta solidão são muitas. Mas José Cafasso privilegia duas:

- A solidão do próprio quarto (cela): «Só no nosso quarto encontraremos aquela paz, aquela tranquilidade e aquela calma tão necessárias à formação dum bom padre». A quem objectar que o padre de vida activa não deve ser confundido com o monge da vida contemplativa, José Cafasso explica que se trata apenas duma hierarquia de valores. O padre deve colocar à frente os seus deveres sacerdotais, mas deve, ao mesmo tempo, ordenar toda a sua vida de maneira que o seu ministério seja verdadeiramente eficaz. A solidão dá eficácia e força ao seu ministério.

- A solidão dos Exercícios Espirituais: «De tempos a tempos, deixemos por alguns dias o mundo, retirados, fechados, na solidão e no silêncio, para, entre nós e Deus, fazermos uma sindicância às nossas acções e ao nosso coração». E descreve-os como um chamamento especial de Deus, como uma grande graça, como um momento não só de conforto e restauração espiritual, mas também como momento das especiais confidências de Deus.

Mas que irá preencher esta solidão? O exame de si próprio, a meditação e a leitura espiritual, a formação apostólica mediante o estudo continuado.

Vida de oração intensa

Creio que serão suficientes apenas algumas citações para nos fazer compreender a importância fundamental que José Cafasso atribui à oração na vida do sacerdote.

«De entre os meios que devem concorrer para a formação do eclesiástico, esse homem especial no mundo, que deve ser espelho da divindade na terra, homem interior, espiritual e separado da confusão do mundo e consagrado por completo aos interesses de Deus, mais divino que humano, deve contar-se, além do retiro, a oração».

«Santo Afonso costumava repetir que quem reza salva-se, e quem não reza condena-se. E eu direi o mesmo: podeis ter a certeza de que o padre que reza será bom padre, virtuoso, e se salvará; mas se não rezar, mesmo que seja pessoa esforçada, estudiosa e sabedora, temerei pela sua virtude e bondade; e temerei ainda mais pela sua salvação».

Diz José Cafasso que há um paralelismo entre o empenho com a oração e a caminhada para a santidade. De facto, a oração não só leva a pessoa a conhecer melhor Deus como até a possuí-lo, realizando assim uma união profunda com Ele: «A oração aproxima-a e de tal modo a abraça que quase a encarna com Deus. A oração mostra-lhe como tratar e conversar com Deus; enfim, a oração obtém-lhe de Deus toda a ajuda, a iluminação e o conforto necessários.

José Cafasso aconselha aos padres que queiram alcançar o verdadeiro espírito de oração que se lancem com todo o seu ser (espírito e corpo, vontade e coração) em Deus, até que possam dizer que “vêem Deus”, “Ele lhes fala”, “saboreiam-no e vêem-no, “o abraçam”. Compreenderão então o que significa “familiaridade” com Deus e também a ordem de Jesus para que rezemos sempre, sem interrupção.

A quem desejar empreender com êxito uma verdadeira caminhada de oração, José Cafasso sugere três coisas:

1. Desapego e retirada do mundo. Trata-se de um dos gonzos da sua doutrina espiritual. Mas é também condição indispensável para a pessoa que queira encaminhar-se para o espírito de oração. O nosso coração ou pulsa por Deus ou pulsa pelo mundo: é preciso fazer uma escolha clara e decidida. De facto, a oração não pode coexistir com a mediocridade do pecado, com as meias medidas e com o fraco empenhamento.

2. Práticas de piedade. A quem objectar que a verdadeira piedade não pode consistir em exercícios exteriores, José Cafasso responde: «É verdade, meus senhores, que a verdadeira religião, a sua essência, não está nestas práticas exteriores; mas eu temo que quando já faltar por fora, é porque também já faltou por dentro. Dizei-me, então: se vísseis uma árvore toda descascada e sem forma alguma de protecção das intempéries, diríeis que seria uma árvore sadia e daria muito fruto porque a parte boa está toda lá dentro?». E assim, sugeria que todo o sacerdote tenha, no decorrer de cada dia, “tempos fixos de oração” e que “nenhuma razão que pareça opor-se-lhe deve servir para uma dispensa deste empenho diário”.

3. Reflexão e meditação. José Cafasso tinha este exercício em tal consideração que não hesita em afirmar com toda a força: “mostrai-me a arte de fazer pensar seriamente, de fazer reflectir os padres, e eu vo-los devolverei todos santos”. E acrescentava: “Todas as confusões, sejam elas de seculares ou de clérigos, provêm exactamente do facto de não saberem recolher-se, desta falta de reflexão. Ai dessas pessoas; ai do eclesiástico que não pensa!”.

Conclusão

Vou terminar contando-vos um episódio. Nos últimos meses de 2002 e primeiros de 2003, os nossos confrades do Norte da Costa do Marfim tiveram as comunicações cortadas por causa da situação política precária que se vivia naquele país. Nos princípios de Janeiro, como não sabiam quem tinha sido indicado como Padroeiro para aquele ano, tomaram a iniciativa de escolher um por sua conta. Feita uma consulta comunitária, escolheram São José Cafasso. Pensaram que, afinal, sendo José Cafasso um santo da família, levaria a peito a situação dos seus “sobrinhos”, tinha uma espiritualidade muito ligada ao nosso carisma, e era autêntico modelo para todos.

Confiamos em que este São José Cafasso que acabou por proteger, de forma bem visível, os nossos confrades da Costa do Marfim durante aqueles tempos difíceis, também protegerá e abençoará o Instituto neste ano em que celebraremos o XI Capítulo Geral. Através do testemunho da sua santidade apostólica, possa ele estimular-nos no nosso compromisso de caminharmos para aquela perfeição de vida que continuará a ser uma premissa indispensável, para que cada evento importante da nossa Família possa dar fruto visível. Que ele desperte em nós todos o desejo de voltar às raízes espirituais e carismáticas que o nosso Beato Fundador nos deu. Que interceda por todos os Missionários para que tenhamos uma alma apostólica que saiba, a toda a hora, harmonizar a contemplação com a acção, o serviço de Deus com o empenho pelos irmãos. Que desperte nos Padres Capitulares aquela criatividade necessária para entrever e apontar novos caminhos à missão. Que alimente em nós o entusiasmo necessário no meio das dificuldades e do cansaço do nosso trabalho, para que consigamos caminhar sempre lestos pelos caminhos da missão em todos os continentes.

Que o Beato Fundador vos abençoe. Saúdo-vos a todos na nossa Mãe Consolata.

P. Piero Trabucco, imc

(Padre Geral)



[1] Giuseppe Allamano, Lettere ai Missionari e alle Missionarie della Consolata, 2004, pp. 490-91.

[2] P. Giovanni Piovano, in Missioni Consolata de Junho de 1960, refere uma confidência muito interessante que José Allamano terá feito a Mons. Michele Grasso: “O Padre Cafasso tinha idealizado o envio de sacerdotes para evangelizar a Etiópia, se bem recordo; e teria deixado uma conta para o concretizar”. E Mons. Grasso acrescentava: “E agora, se os Missionários da Consolata, que tanto bem andam a fazer na África, reconhecem como seu Pai e Fundador o Cónego Allamano, também sabem que a faúlha da sua missão veio do Beato José Cafasso, pelo que cumprem a sua missão animados do espírito do Beato Cafasso e do Cónego Allamano” (Turim, 8 de Fevereiro de 1933).

[3] Testemunho do Cónego Luigi Mollar, in I. Tubaldo, Giuseppe Allamano, IV, p. 569.

[4] Doravante, sem mais citações explícitas, servir-me-ei de duas obras: Giuseppe Cafasso, Meditazioni spirituali al Clero – meditazioni, Effatà editrice, 2003; Flavio Accornero, La dottrina spirituale di S. Giuseppe Cafasso, LDC, 1958.

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