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| Em busca do sentido da vida |
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| Por p. Domingos de Oliveira Forte, imc | |
| 14 de Julho de 2008 | |
Quem pode afirmar “fui eu que pedi para nascer?” Quem não concordará que nos encontramos diante de algo que nos supera? Só alguém com insanidade mental é que poderá levantar o dedo e dizer “eu sou o princípio” ou “fui eu que pedi para vir ao mundo”.Existe, poderíamos dizer com São Tomás de Aquino, um motor imóvel, um motor primeiro, um ponto de partida: o motor que nos transportou do não-ser à existência. Sem mais rodeios, está claro que é Deus quem nos chama à vida, é o ponto de partida. Nós não nos geramos sozinhos: a vida é dom, é presente gratuito! E então, quando me conscientizo de que sou um ser humano, acredito que não preciso fazer mais nada? Eis a questão O que Deus quer que eu seja? Qual é a vocação fundamental da minha existência? Quando Ele me desenhou, o que desejou para mim? Com certeza, tornar-me sua imagem não deformada (Gn 1, 27). Deus desejou que eu fosse sua imagem e semelhança. Fantástico! Mais: todos somos chamados “desde antes da criação do mundo” (Ef 1,4) a participar da própria vida divina, até à eternidade. Eis aqui a questão que preside o sentido da vida: como fazer para me tornar imagem e semelhança de Deus? Se formos buscar a resposta em certos espiritualismos frustrantes do tipo “devo corresponder a Deus”, ou “devo fazer de tudo para agradar a Deus”, não encontraremos nunca o que buscamos. O absurdo A história de Caim (Gn 4) lembra-nos que é (im)possível viver sem ser imagem semelhante de Deus. Como se faz? As palavras “irmão” e “Abel” aparecem sete vezes no texto; o número sete na Bíblia indica a totalidade, o que significa que nós também fazemos parte não só da história de Caim e Abel, como somos da família. Na história de cada um existe uma fraternidade negada (v.9), relações cortadas e complicadas: no relacionamento familiar, entre amigos, namorados, marido e mulher, pais e filhos... A criação é respeitada quando se reconhece a fraternidade, que, freqüentemente, se revela incômoda, talvez porque traz à tona algum aspecto em mim desapontador, ou, então, que não corresponde ao que espero da vida. Não estou sozinho... “Pouca coisa” é o significado do nome Abel, o mesmo que “sopro”, “vazio”, “nada”. Abel não diz uma só palavra. Para sua vida ter sentido, consistência e importância, é preciso que Caim o reconheça como irmão. Sou eu que dou consistência à vida do outro, assim como é o outro que dá consistência à minha. Toda vocação do outro depende de mim, do meu reconhecimento. Se não o reconheço, o outro passa a ser Abel, pouca coisa, sopro, nada. Esta abertura à vida e ao próximo está ameaçada (v.7) pelo inimigo, que quer entrar para convencer-me que basta olhar para mim mesmo. Ele quer que eu seja egocêntrico: “Eu sou... eu faço... eu decido... eu creio que não estou à altura (... de fazer aquilo que não me apetece, claro!)... eu não sinto necessidade de você”... e o outro, que importância tem? Será que aquilo que o próximo sente por mim não conta? Sê fraterno Acolhe a vida! As novas realidades passam diante da porta da sua casa, você pode decidir a quem deixar entrar. Abra os olhos e escorrace a serpente, feche a porta a ela, não àquilo que há de bom para descobrir nas pessoas que lhe querem bem... mesmo que tenham mil defeitos, mesmo que apresentem a Deus dons mais belos que os seus (vv. 4-5). Decida você quem quer deixar entrar, o sentido que quer dar à sua vida. Para esta empresa, a graça de Deus (só) basta (2Cor 12, 6-10). “Onde está o seu irmão?” Mesmo que nos esqueçamos, Deus não. Volta sempre. Semelhante é a pergunta feita a Adão (Gn 3, 9). Terrestre, onde você está?... por que se esconde? Por que se considera incapaz de uma amizade que lhe foi oferecida? Que distância está abrindo entre você e seu irmão, o seu amigo, o seu marido, a sua mulher, os seus filhos, o pobre? É difícil acolher e aceitar a alteridade, contudo se você não aceita o seu próximo, o reduz a nada; antes ou depois, também você se sentirá assim e buscará preencher o seu vazio com o vazio do sucesso, da ambição, da realização pessoal. Sim, todas coisas muito belas, mas secundárias, diante da vocação fundamental: buscar ser imagem semelhante de Deus. Sem o outro, sou nada A negação da relação com o outro me fecha a Deus. Por isso me sinto só, sem diálogo com Ele, rezo sem ter respostas esperando consegui-las amanhã (quem sabe?). Sem o outro, sou nada, fico cabisbaixo. Porém, Deus, não cessa nunca de me amar, mesmo se mato o meu irmão. Deus defende Caim (“será vingado sete vezes”). Mantém-o sempre aberto à vida, convidando-o a levantar a cabeça e a colocar-se em busca do irmão perdido. Quantas belas palavras foram ditas?!... Mas, relacionar-se com o outro não é só alegria, o outro que busco e tento amar me fere, me desilude. Faz-me ver, como que refletido em um espelho, as minhas rachaduras. Que faço com minhas feridas? Desapontamentos? Incapacidades? Sonhos inacabados? Relações interrompidas? Quanta angústia!... Como trato das feridas? Posso resignar-me, fazer-me indiferente, descartando toda a relação que não me cai bem. Convivo fraternalmente com o medo e a preguiça, enfim, não assumo nada com empenho, mato as razões. Mas... sem razões não se vive. Resignação “tanto não será nunca como antes”. Enfim, quantas coisas belas eu perco pelas quais valeria a pena tentar, arriscar, viver. Posso também dar uma de super-homem que combate para mudar a sociedade, ou seja, fugir do Evangelho porque insuficiente. Deus é um meio moribundo, um coitadinho de Abel. E por que não tratar minhas feridas com o bálsamo da fé? Medicamento que me dá razões para me levantar e buscar sempre... O bom samaritano passa por mim, não falha a estrada, aproxima-se para que as minhas feridas sejam saradas. Leva-me, estou fazendo a viagem arriscando a vida, descobrindo o fascínio de viajar com Ele. Encontro e viajo com Deus, quando encontro e viajo com o outro. Minhas feridas só serão curadas quando me aperceber da sua presença ao meu lado. Você pode aliviar suas feridas e angústias, olhando-as frontalmente e compreendendo-as. Confiá-las a Jesus quer dizer: “vende tudo, depois vem e segue-me” (Mc 10, 21). André vai buscar o seu irmão e o conduz até Jesus (Jo 1, 42). A fraternidade leva a Jesus, eu também sou levado, conduzido. Ou encontro uma pessoa que me conduza ou serei Abel, pouca coisa, sopro, vazio, nada... sem sentido. Domingos de Oliveira Forte, imc, animador missionário e formador no Propedêutico IMC, em Jaguarari, BA. |
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| Última Atualização ( 13 de Julho de 2008 ) |
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