| Home |
| Endereços úteis |
| Pesquisa |
| Contacta-nos |
| Site Map |
| “ESCREVO PARA VÓS, JOVENS…” (1Jo 2,13) |
|
|
|
| Por P. Piero Trabucco, imc | |
| 10 de March de 2006 | |
|
6 de Janeiro de 2005 Epifania do Senhor Caríssimos jovens, O autor da primeira Carta de João escreveu aos jovens não tanto para os exortar ao compromisso como para lhes dar a alegre notícia daquilo que o Senhor já realizara nas suas vidas em virtude da sua adesão a Jesus Cristo. Assim eu também, ao lançar-me a redigir estas linhas, tenciono, antes de mais, louvar o Senhor convosco pelo dom da vocação missionária. Em segundo lugar, quero convidar-vos à observação, pela óptica da nossa vocação, de alguns desafios que nascem da realidade que estamos a viver e, em conjunto, procurarmos os melhores caminhos para atingirmos a estatura missionária que o nosso Beato Fundador queria que tivéssemos. Talvez seja esta a última carta que escreverei como Superior Geral. Mando-vo-la a vós, os 380 jovens, tanto professos como não, que estais a formar-vos na missão segundo o espírito do Beato José Allamano e no estilo dos Missionários da Consolata, nas várias casas da Congregação. Durante estes doze anos de serviço como Superior Geral, terá sido esta a única mensagem que especificamente vos enviei. E isso aconteceu, não porque não estivésseis no centro das atenções da Direcção Geral, mas sim porque sempre acreditei que tudo aquilo que se escreve para os Missionários deve ser entendido como enviado a vós, antes de mais. De facto, como nossos irmãos mais novos, vós sois os primeiros destinatários a quem nada deve ser estranho nem guardado como um segredo. Há cerca de um ano, os noviços da Europa tinham-me pedido que, antes do fim do meu serviço, escrevesse uma mensagem que fosse reservada aos jovens apenas. Ora aqui estou eu agora a partilhar convosco aquilo que neste momento mais me está a peito no que toca à vossa vida presente e, sobretudo, no que toca ao vosso futuro. Não é minha intenção dizer-vos coisas novas mas sim reafirmar, com base na experiência que acumulei durante os vários anos de contacto com as mais variadas realidades do Instituto, algumas convicções que, como creio, serão úteis para a vossa formação e, depois, na vida missionária.
“Servitium Dei” é uma expressão cunhada por São Bento e que entrou para a bagagem espiritual da Vida Religiosa. Ela denota a primazia que Deus tem na vida da pessoa consagrada, a nascente da sua vida e da sua actividade, a energia interior do seu zelo missionário e apostólico. É neste sentido profundo e cheio de conteúdo que irei utilizar a expressão “serviço de Deus”. Sem dúvida que os mais velhos recordam o fascínio com que, ano após ano, o martelar sobre valores sociais e certas opções que se esperava poderem dar a volta aos nossos Institutos e ser fermento de vida nova para toda a Igreja. Era moda de então o modelo de vida religiosa chamado “liberal”, por oposição a “tradicional”; e os motos mais usados rezavam mais ou menos assim: a nossa oração é o compromisso social; o que interessa é inserir-se na sociedade e incarnar no seu mundo; a força da nossa fé tem a proporção da nossa abertura aos pobres…Ninguém está a querer negar, com isto, a margem de generosidade e de altruísmo presente naquelas tentativas de procurar uma vida religiosa e missionária diferente. Mas bem depressa se pôde constatar como essas generosas tentativas de renovação, orientadas principalmente para o compromisso, acabaram muitas vezes por levar as pessoas consagradas a privarem-se dos necessários momentos de contemplação e a ligar pouco à caminhada da fé numa pedagogia de crescimento global da pessoa religiosa. Enquanto toda a atenção ia para o serviço do irmão, o serviço de Deus foi parar logo às margens das suas vidas. Por sorte, nos anos mais recentes, estas atitudes radicais têm-se atenuado. Já ficou claro e assumido que quanto mais a pessoa crescer na doação ao outro, tanto mais deverá ficar fiel ao serviço de Deus com manifestações significativas e ricas. O que significa, entre nós, que se deve regressar à doutrina do Beato Fundador, para quem o serviço de Deus dever ocupar o primeiro lugar na vida do missionário. Precisamente porque “servir a Deus” era, para José Allamano, sinónimo de Eucaristia, Palavra de Deus, oração – como elementos básicos e indispensáveis da nossa vocação missionária e religiosa. É tão só nessa base que se deve erigir todo e qualquer projecto de compromisso missionário. Ao falar convosco durante as minhas visitas, tive ocasião de notar como a convicção “primeiro santos, depois missionários” meteu raízes profundas nas comunidades de formação. Mas, ao mesmo tempo, não me foi igualmente fácil descobrir no vosso quotidiano manifestações significativas de espiritualidade capazes de confirmar aquilo que as Constituições dizem em comentário àquela frase de José Allamano: “Este fim deve impregnar a nossa espiritualidade, orientar as opções, qualificar a formação e as actividades apostólicas; em suma, orientar toda a nossa vida” (5). Deixai que vos diga, com força e com muita convicção: fazei da dimensão contemplativa elemento sólido da vossa vida; nunca saiais da escola da oração; cuidai bem da meditação e da Lectio divina. A fidelidade à oração pessoal será a melhor garantia de fidelidade à vossa vocação e de crescimento harmonioso de toda a vossa pessoa.
A seguir a Deus, a missão é o dom mais precioso que a nossa vocação nos traz. O Fundador repetia-o continuamente: “ela é a continuação da própria missão de Nosso Senhor Jesus Cristo, da dos Apóstolos e da dos missionários santos”. E acrescentava: “Por vós, missionários, Deus quase que esgotou o Seu infinito amor em termos de vocação: Ele não saberia nem poderia dar-vos uma vocação mais excelente, precisamente porque vos deu a Sua própria missão”. A este respeito, quero apenas reafirmar o que o último Capítulo Geral, com base no carisma de José Allamano, procurou esclarecer-nos sobre os modos com que devemos hoje cumprir a nossa missão. E resumiu-os naquele tríplice “ad” a que cada Missionário da Consolata deve dar o seu consentimento antes de fazer votos: - ad gentes, que exige a nossa disponibilidade para irmos onde quer que o Instituto nos mande, de preferência para os não-cristãos e para outras situações que o n.º 17 das Constituições refere como nosso ad gentes. Como é lindo, na altura da apresentação das opções relativas à primeira destinação, ver-vos indicar de modo explícito o desejo onde o ad gentes é mais evidente. Ao fazê-lo, mostrais que sois filhos autênticos de José Allamano! - ad extra, já que, para um Missionário da Consolata, deixar a própria pátria não é apenas uma estratégia institucional mas constitui de facto, em elemento da nossa vocação. Nós fomos chamados para sermos enviados. E ser enviados significa, para nós, sair da nossa terra, da nossa cultura, para ir além, para outras terras, outras culturas e outros povos. - ad vitam, significando que a vocação missionária, nas suas duas características apenas apontadas, dura para sempre. A nossa consagração religiosa é para toda a vida; e o nosso serviço missionário é para sempre. Quando alguém opta por ser Missionário da Consolata, coloca-se alegremente à disposição da Congregação para trabalhar em qualquer lugar para onde seja enviado, e por toda a vida. Nesta altura, o Beato Allamano não deixaria de repetir onde se encontra a força para cumprir opções destas, que vão contra a maré. Para sermos missionários não basta sermos chamados, ter feito uma profissão religiosa, cumprir os três ad: é preciso ter “fogo”, quer dizer, paixão e zelo. Uma atitude que o nosso Fundador detestava, precisamente porque alheia ao seu “espírito”, era a tibieza, entendida como entusiasmo fraco, indiferença, desinteresse, falta de fervor. O fogo da missão deve acender-se e alimentar-se logo desde os anos da formação básica, no contexto duma caminhada formativa global que concretize iniciativas concretas, tanto ao nível pessoal como ao nível comunitário.
A nossa caminhada para a missão só terá uma base sólida se for acompanhada de fiel e atento seguimento de Jesus Cristo, que é Mestre e modelo da nossa vocação missionária. Por esta razão, o nosso Fundador, logo no início da fundação, concebeu o projecto da nossa família enquanto comunidade em que os membros fossem todos de Deus e todos da missão. Concebeu-os então como “religiosos” e insistiu em que deviam ser “santos”, permanecendo sempre no seguimento de Cristo. Entre missão e consagração religiosa nunca viu ele tensão ou, ainda menos, oposição, precisamente porque ambas se atraem mutuamente e colhem mútuo benefício. E para que o projecto do Fundador não passe de mero desejo, deverá haver sempre em cada um empenho e clareza no seguimento de Cristo. Para além da rica doutrina do Pai Fundador sobre este assunto, temos hoje à disposição uma verdadeira seara de materiais de apoio, tanto no Instituto como na Igreja, coisas que alumiam e facilitam a nossa caminhada. O meu desejo é que saibais tratá-las como vosso tesouro! Deixai agora que lembre alguns aspectos do “seguimento de Jesus” que poderão tornar-se eficazes para a harmonização do projecto de vida consagrada dentro do projecto missionário. Ao folhearmos os Evangelhos, principalmente o de Marcos, notamos a ênfase com que tratam do seguimento físico de Jesus. Para os discípulos, entrar na escola de Jesus resultou em deixar para trás um mundo familiar, ir atrás dele e acompanhá-lo continuamente na sua caminhada pelas estradas da Palestina. E Jesus estava continuamente a caminho, sempre em movimento. Depois da Ressurreição, quando o seguimento físico se tornou impossível, os discípulos passaram a dar um significado simbólico ao seguimento. Significado esse que hoje podemos utilizar para sublinhar alguns valores não negociáveis da nossa consagração. Eis alguns deles: - a espiritualidade do seguimento tem por base uma fé radical em Jesus de Nazaré, enquanto revelação plena de Deus e enquanto oferta definitiva, pela salvação da humanidade. Tal espiritualidade ensina-nos a prestar uma atenção toda particular à Eucaristia e à Palavra de Deus, bem como a colocar o próprio Jesus no centro da nossa vida. - O seguimento, além disso, impele-nos a que nos deixemos animar pelo Espírito de Jesus. É um espírito que nos leva ao Tabor, à contemplação prolongada da face do Pai, e que, ao mesmo tempo, faz aumentar em nós a atenção pelos pobres e pelos que ficaram em último lugar, mas que afinal são os primeiros no Reino que Ele anunciou. - Seguir Jesus significa deixar para trás tudo o que puder tirar-nos a agilidade e a capacidade de movimento, significando também uma disponibilidade incondicional para Ele e para aqueles a que nos enviou. - O seguimento, quando tomado a sério, impele-nos, por fim, a fazer o mesmo caminho que Ele fez, olhando sempre preferencialmente para os mais afastados, para as periferias, para os lugares privilegiados da missão, que são a “Samaria” e “para além do Jordão”.
Porque estou a falar nisto? Simplesmente porque, mesmo uma rápida olhadela sobre o nosso pessoal missionário nesta matéria, dá-nos mais sombras do que luz. Por um lado, há muitos missionários que de tal modo se deixam envolver pelas exigências e stress do seu trabalho que parecem dedicar cada vez menos tempo ao estudo e à reflexão. Outros confessam mesmo que se não sentem levados para o estudo devido ao esmagamento cultural que existe em muitos países de missão e devido às poucas iniciativas de reflexão teológica das Igrejas locais em que fazem apostolado, resultando no empobrecimento da cultura e da reflexão. Não sei se tenho a percepção correcta ou não, mas perece-me notar entre os missionários em serviço pouca inclinação para a leitura constante e para a formação profissional fora do âmbito académico. Decerto que a bibliografia de qualidade e as revistas especializadas estão geralmente ausentes das estantes das comunidades missionárias ou, então, têm pouca procura. Não estou à altura de dizer quantos missionários lêem ao menos Não consigo evitar lembrar aquelas palavras tão claras e firmes do Fundador sobre a necessidade que o missionário tem de adquirir a prática da leitura e do estudo. Quando falava aos jovens estudantes, proclamava: “podeis ter a certeza - fareis muito ou pouco bem, e até mal, na medida do estudo que fizerdes ou não fizerdes. Um missionário sem conhecimentos é um candeeiro apagado” (VS, 185). Depois citava Pietro Blessense, um autor de ascética, que comparava o sacerdote ignorante a “um ídolo de tristeza e de amargura” (Ibid.). “Ídolo de tristeza e de amargura” para a Congregação, acrescentava. E ao tratar da finalidade do estudo, afirmava sem hesitação que ele é apenas para nossa santificação e pela missão. Um missionário não deve ter outros objectivos: nem a concorrência com outros, nem a rivalidade intelectual, nem a auto-afirmação (cfr. VS 197).
O último Capítulo Geral bem nos avisou: «O estar juntos em fraternidade e comunhão torna-se um método e um modo de nos apresentarmos ao mundo como verdadeira comunidade apostólica. A comunhão garante o valor do nosso serviço pastoral; é o objectivo do Reino de Deus a que tende o trabalho missionário. É forte a convicção do Fundador acerca da indispensabilidade da comunhão na Missão: para unir as energias, manter na fidelidade e orientar o trabalho de todos para objectivos comuns» (XCG 29). Não tenciono sublinhar aqui a importância da comunidade ou o valor da comunhão ou a unidade de intentos que não só foram recomendados vigorosamente pelo Fundador mas que hoje em dia até são exigidos por qualquer serviço que pretenda ter a marca da eclesialidade. Quero apenas lembrar e sublinhar três princípios que creio terem uma relevância especial no nosso contexto missionário. - Não devemos pretender que as comunidades sejam perfeitas. Muitas vezes, ouço queixas de jovens missionários por a comunidade que encontraram em missão já não ter as características da do seminário, ou então não ter um ritmo de vida igualmente intenso. Não esqueçamos que a comunidade cristã e religiosa não é uma comunidade de elite mas sim de pessoas com limitações e imperfeições. - Não podemos esperar ter comunidades já formadas. Somos nós que temos de construir a comunidade, mediante o contributo e esforço pessoal de cada um, favorecendo caminhadas de conjunto, sempre prontos, diariamente, a perdoar e a pedir perdão. Toda a referência a comunidades anteriores deve servir de ajuda mas não deve tornar-se padrão absoluto. - Cuidemos bem da comunicação. Ela é o segredo, infelizmente muitas vezes esquecido, através do qual a comunidade tece a sua verdadeira comunhão. A sua aplicação é dever de todos, ainda que pertença em modo todo especial a quem preside à “comunhão”. É logo desde os anos de seminário que devemos aprender a comunicar entre nós não apenas sobre a crónica diária mas também sobre a nossa situação, sobre aquilo que temos mais a peito, tal como a experiência de Deus, o sonho da missão e as descobertas que o mundo da escola nos apresenta.
A sociedade em que vivemos, neste início do terceiro milénio, tal como a que a globalização está a criar com tanta rapidez, são por vezes comparadas a um cadinho de raças (melting pot) em que a multiculturalidade está a tornar-se cada vez mais um dado adquirido. E isto está a acontecer em todos os cantos do mundo. Não é apenas a sociedade de hoje, mas até o nosso Instituto, que estão a caminhar rapidamente para a pluralidade e para a convivência de raças e culturas diversas. Mas nós não queremos que ele se torne um melting pot, queremos sim que se torne uma comunidade de Pentecostes em que, embora se ouçam várias línguas, todos se ouvem e se entendem mutuamente. Ainda menos queremos nós que as nossas comunidades missionárias se tornem lugares de tensão e oposição com a ajuda da diversidade de etnias, culturas, línguas e formação. Ao contrário, temos que aspirar a que surja no Instituto, já presente em vários continentes, o sonho da Família, que o nosso Beato Fundador tanto apreciava. Uma família multicolor e multicultural, sem dúvida, mas sempre “Família”. Os decénios vindouros irão certamente levantar enormes questões a todo o Instituto, tais como: que tipo de família missionária seremos? Que meios haveremos de utilizar para podermos salvaguardar a “unidade de intentos” que José Allamano queria como base dos nossos relacionamentos? Como havemos de evitar a insidiosa tentação xenófoba que sempre espreita por um ninho no nosso relacionamento? Como haveremos de ser testemunhos credíveis, perante a sociedade actual, duma convivência capaz de exprimir acolhimento, respeito mútuo e a configuração harmónica de culturas e raças diferentes? Não pretendo sugerir respostas. Prefiro antes fazer lista de alguns percursos que poderão guiar-vos na caminhada formativa com a finalidade de fazer crescer entre vós e no Instituto o espírito da comunidade do Pentecostes: - O ponto de partida encontra-se na crença de que o caminho a percorrer será sempre aquele que já se encontra traçado nas Constituições: «O Instituto, constituído por membros de diversos países, é internacional. O missionário deve preparar-se para viver e trabalhar com confrades de outras culturas, procurando a comunhão nos elementos que caracterizam a nossa família» (23). - É preciso fazer aumentar em nós uma espiritualidade adequada que não só nos abra ao acolhimento do vizinho em toda a sua individualidade e diversidade, como também desenvolva concretamente em cada um de nós um verdadeiro processo de conversão que faça aumentar a confiança em nós próprios e nos outros e permita reconhecermos as nossas limitações pessoais, com abertura à dinâmica da cruz. - É preciso ir à procura de elementos concretos que fazem crescer, embora lentamente, um novo modo de viver a vida comunitária. A gestação desta “comunidade intercultural”, que poderá ter momentos muito extensos, deve ser acompanhada com uma paciência perseverante e com muita fé. - Cada um deve aprender a estimar a cultura do vizinho como se fosse própria, enquanto se empenha na evangelização não apenas da outra mas também da sua no que tem de fragilidade e fraqueza, evitando a sua absolutização, mesmo nos aspectos mais positivos.
A vocação que abraçámos ao tornar-nos Missionários da Consolata só aguentará mediante uma fé sólida e a toda a prova. Por “fé” não estou a entender apenas a vida de oração, mas também o esforço por viver em tudo e sempre “segundo Deus” e na “lógica do Evangelho”. Ainda que já estejamos vinculados pelos votos religiosos, é sempre possível sermos engolidos pelos pseudo-valores que estão em contraste evidente com o estilo de vida que abraçámos. Eles devem então ser confrontados um por um, para não cairmos no erro de “correr ou ter corrido em vão”. Além disso espreita-nos sempre a tentação mais geral e mais global a que darei o nome de “vantagem pessoal”. Foi contra ela que Jesus ergueu a Sua voz alto e bom som perante os discípulos: «Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha causa encontrá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? Ou que poderá dar o homem em troca da sua alma? (Mt 16, 25-26). Quando dissemos “sim” a Deus que nos estava a chamar, tínhamos consciência da radicalidade da vocação. Nós depusemos nas Suas mãos a nossa pessoa, toda a nossa vida. À medida que vamos caminhando, poderá surgir em nós o desejo de reaver tudo aquilo que generosamente tínhamos dado, dando largas cada vez mais ao instinto da “auto-realização” e ao “narcisismo” que nos impedem de sermos mais sacrificados. Além disso, embora continuemos a cultivar uma relação com Deus, podemos sempre empurrá-la para a margem da nossa vida até Deus ter bem pouco a dizer sobre as actividades que realizamos. Até a nossa própria consagração pode correr o risco de já não ser vivida segundo a lógica da cruz, mas antes, como procura de interesses e vantagens pessoais, tais como, maior bem-estar, o poder, a aprovação dos outros, a tranquilidade ou uma carreira académica, ou algumas vantagens para a nossa própria família. O capítulo das motivações vocacionais é especialmente importante para um crescimento vocacional autêntico. Ele deve ser estudado e aprofundado a sério, com a ajuda dos formadores, para evitar gastar a vida com base em motivações falsas ou ambíguas e, consequentemente, desastrosas. O crescimento verdadeiro nas motivações vocacionais deve pautar-se fundamentalmente por três objectivos: a aquisição dos valores e respectiva concretização em atitudes de vida; a capacidade de discernir e trabalhar naquilo que vai determinar o nosso agir; a centralidade da pessoa de Cristo que nos empenhamos em conhecer, e querer viver como Ele viveu.
Para poder responder à vocação, seja ela qual for, a pessoa deve aprender a amar. Desenvolver a capacidade de amar é indispensável para quem, como nós que somos missionários, consagra a sua vida a Deus em proveito dos irmãos. Se esta capacidade faltar, a pessoa irá programar a sua vida apenas com base em desejos e ideias que poderão dar certa ajuda mas que nunca formarão a base necessária para viver bem e alegremente a sua vocação. O empenho em empreender com decisão e com honestidade esta dimensão formativa tem importância capital. A experiência da Direcção Geral em enfrentar as situações de crise por que passam os missionários confirma como dado de facto que demasiadas vezes, durante os anos de formação básica, a formação afectiva dos jovens foi subvalorizada, talvez com a cumplicidade de falsos pudores e de um prejudicial silêncio. Podem ser vários os obstáculos que um jovem tenha de superar para enfrentar de maneira séria a formação afectiva. Vou dar alguns exemplos: - A sexualidade e a afectividade estão intimamente relacionadas, mas não se identificam. Algumas reticências culturais em enfrentar o tema da sexualidade tornam as pessoas pouco dispostas a enfrentar seriamente o seu amadurecimento afectivo. - A sociedade actual, caracterizada muitas vezes pela banalização da sexualidade e respectivas manifestações e pela ânsia do prazer, não cria um clima de respeito e justa consideração pela afectividade. - A dificuldade da pessoa em entrar nas suas próprias profundezas é uma dificuldade nada indiferente quando se procura encarar o tema da afectividade. Em vez de se submeter a uma “operação cirúrgica” destas no seu eu mais profundo, a pessoa prefere escapar ou esconder as suas fraquezas. - A formação para o amor tem ritmos próprios que nem sempre progridem com a nossa pressa ou com os prazos que as várias fases formativas nos impõem. Preferimos queimar etapas à custa de surpresas dolorosas e amargas manobras de marcha-atrás, mais tarde. Pressionado pelo tipo de carta que estou a escrever-vos, não poderei avançar mais na temática da formação da afectividade. Quero apenas fazer-vos um apelo fraterno: sede honestos para convosco e para com o vosso futuro; não enfrenteis etapas decisivas da vossa vida sem primeiro terdes a necessária certeza de possuirdes maturidade afectiva suficiente; sede abertos com os vossos formadores nesta matéria, bem como com aqueles são responsáveis por vós; disponibilizai-vos até para fazer terapias de apoio sempre que vos forem sugeridas, ou pedi-as vós próprios, se delas tiverdes necessidade.
Há cerca de dois anos, a Direcção Geral mandou uma carta a todo o Instituto com o título Pobreza, Economia e Missão para lembrar a todos qual deve ser o percurso a fazer para seguir Jesus, pobre, nos nossos dias. O convite foi feito a todos os Missionários da Consolata no sentido de fazerem revisão das suas opções concretas de vida e, desta forma, dar um testemunho mais transparente de pobreza e atingir uma identificação maior com os pobres. Tenho a certeza de que também vós fostes envolvidos no aprofundamento desta temática, tanto a nível pessoal como a nível de comunidade. A sociedade que nos rodeia, tal como o mundo globalizado, dirige-nos uma provocação indirecta, a de revermos continuamente o nosso estilo de vida. E nós poderemos mandar-lhes mensagens credíveis só se nos revelarmos como pessoas livres do espírito consumista, da corrida para acumular cada vez mais, a coragem de passar sem o que não é necessário, o desejo de chegar a uma maior coerência de vida… são de facto o ponto de partida obrigatório para chegar até aos pobres. Sempre que leio a parábola do samaritano, sou levado a fazer um exame de consciência, tanto pessoal como de membro da Congregação. Sai espontâneo reflectir sobre os nossos dias completamente cheios, com prazos sempre apertados, por vezes programados até ao mínimo pormenor. Ora, será que me revejo frequentemente como que reflectido na caminhada acelerada do sacerdote e do levita que avançam sem olhar para aquele pobre desgraçado que jaz à beira da estrada? Também nós podemos correr o risco de não ligar aos pobres, não os reconhecer, ou de não ter tempo para eles. E no entanto, a atenção e o amor pelo pobre são o nosso bilhete de identidade e a nossa melhor especialidade missionária. Um missionário afastado dos pobres é uma contradição. Só ao aproximarmo-nos deles é que construímos sobre a rocha, tanto o nosso futuro como o futuro do Instituto e antepomos motivações fortes e evangélicas à nossa vocação. E serão os próprios pobres a dar-nos o gosto pelo anúncio do evangelho, a ensinar-nos o sentido da solidariedade e da gratuidade, a tornar-nos mais ecuménicos e mais universais. Sinto alegria por, durante os anos de seminário, alternardes o ministério pastoral e o de experiências no serviço dos pobres. A sua presença na vossa vida, ou melhor, a vossa presença no meio deles, deve tornar-se coisa lógica e perfeitamente normal. Pelo contacto com os pobres que vivem à vossa volta, vós aprendeis também a solidarizar-vos com as grandes “pobrezas” que estrangulam povos e continentes inteiros. Não podemos habituar-nos aos dramas da humanidade que os meios de comunicação social colocam à nossa frente dia a dia. Devemos procurar conhecê-los para podermos debatê-los e aprofundá-los. Não temos receitas para tantos e tão graves problemas. Mas não podemos viver sem procurar soluções. Não se pode viver se não se sonhar em coisas grandes, principalmente quando somos jovens. E o sonho do missionário é sempre o de um mundo mais justo, mais solidário e mais fraterno.
Este último ponto foi-me sugerido pelo documento Partir de Cristo, onde se pode ler: «É exactamente na quotidianidade que a vida consagrada cresce num amadurecimento progressivo para se tornar anúncio de um modo de viver alternativo ao do mundo e da cultura dominante» (6). Mas se folhearmos o Evangelho, logo descobrimos que há três etapas na vida de Jesus: Nazaré, a vida pública e a paixão. A que nos poderia parecer menos relevante e até a mais esquecida, é precisamente a primeira. E perguntamo-nos: Qual a razão daqueles trinta anos? Para que serviram? Aparecem-nos como um mistério que, no entanto, nos pode revelar muita coisa… - Não devemos comparar os trinta anos de Nazaré com a nossa formação básica que nos prepara para a actividade missionária. Eles integram uma dimensão que faz parte intrínseca da vida humana na sua totalidade. É a nossa quotidianidade que sucede em toda a parte e em qualquer idade: a rotina, a repetição, a simplicidade das acções…Viver esta ordinariedade com o espírito de Nazaré quer dizer vivê-la na plenitude e com grande amor, conscientes de que assim estamos a construir o Reino de Deus. - Dar valor a cada acção, por pequena que seja, a cada encontro com as pessoas com quem vivemos, aceitando “perder tempo” dando-nos aos outros e servindo-os. Também quer dizer valorizar os pequenos gestos de amizade que constroem melhores relacionamentos com os outros. - Este espírito também nos ajuda a crescer e a amadurecer, em todas a as idades, mediante contínuas demonstrações de amor, que damos na gratuidade e na simplicidade da vida de cada dia. É a tal caridade “monótona” que temos de usar com aqueles que Deus colocou à nossa ilharga. Lembremo-nos sempre de que é Deus quem nos dá “irmãos” com quem temos de viver a missão e santificar-nos. É fácil amar os “afastados”; mas é muito mais difícil amar as pessoas com quem partilhamos a vida de cada dia. - Nazaré ensina-nos a praticar uma pobreza que nos priva até mesmo da capacidade de sermos nós a decidir os nossos projectos, os nossos planos, os meios a usar, as pessoas com quem temos de colaborar… Jesus aceitou tudo isto do Seu Pai. Para nós, que somos discípulos de Jesus, a pobreza também é disponibilidade para aceitar as limitações do ambiente em que vivemos, a escassez de bens, a falta de comodidade. - A capacidade de continuar em testemunho quotidiano que seja límpido e sereno, é um dos elementos fundamentais da nossa espiritualidade missionária que aprendemos do mistério de Nazaré. Fazem parte deste nosso testemunho: a bondade, a fidelidade ao dever, a oração, o serviço. A vida do missionário deve ser tecida com tudo isto! - Nazaré revela-nos, por fim, a preciosidade da mediação humana. Jesus “crescia em idade e em graça”, capitalizando os ensinamentos da Sua mãe Maria e deixando-se guiar pela autoridade paterna de São José. Para nós, esta mediação está na comunidade e naqueles que têm a missão de nos guiar, recordando a recomendação que está no livro de Qoelet: «Dois homens juntos são mais felizes do que um só, porque obterão bom fruto do seu trabalho. Se um cair, o outro levanta-o. Mas ai do homem que está só: Se cair não há ninguém para o levantar!» (4, 9-10). Conclusão Esta carta ficou mais comprida do que eu planeara; no entanto, ainda teria muita coisa para partilhar convosco! Mas creio que o que importa agora não é mencionar muitos aspectos ou trazer à baila tudo aquilo que pode incidir positivamente sobre o amadurecimento da vossa vocação missionária. Os documentos que o Instituto vos põe em mãos durante os anos de formação básica já são muito ricos e completos. Quis escrever-vos para vos dizer como a Direcção Geral vos tem presentes, tal como a toda a Congregação. Lá estáveis na nossa oração diária e sempre que reflectíamos sobre a formação, mas principalmente quando tínhamos de confirmar as admissões à Profissão Perpétua e às Sagradas Ordens. Cumpríamos esse nosso dever com alegria quando não havia obstáculos. Mas encarávamo-lo “com temor e tremor” quando o discernimento se complicava. Mas nestes casos, logo nos dava confiança a oração que fazíamos ao Espírito Santo e consolava-nos a consciência de estarmos a procurar somente o bem da pessoa, do Instituto e da missão. Quero terminar fazendo votos para que possais ser sempre pessoas livres e felizes na realização da vossa vocação no seio do nosso Instituto. A liberdade é a condição indispensável para sermos discípulos do Mestre de Nazaré. Orientai-vos sempre para o essencial e equipai-vos bem com ele. E mantende-vos alegres, porque não há vocação que maiores alegrias possa trazer-vos! Confio-vos à Senhora da Consolata, nossa Mãe, na certeza de que n’Ela havereis de encontrar um acolhimento materno em cada uma das dificuldades da vossa formação. Ela será também vossa companheira na caminhada do seguimento de Cristo, Seu Filho. Rezo para que de cada um de vós se possa dizer quanto foi escrito pelo apóstolo João: “E o discípulo recebeu-a em sua casa” (Jo 19, 27). Juntamente ao Beato Fundador, eu vos abençoo e vos saúdo com afecto, P. Piero Trabucco, imc (Padre Geral)
|
| Quem são... |
| Santidade |
| Boletim Oficial |
| Documentaçâo |
| Nossas revistas |