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| Povos indígenas ameaçados |
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| Por José Rosha | |
| 16 de April de 2008 | |
Construção de usinas hidrelétricas e agronegócio podem levar à extinção cerca de 60 povos na Região Norte do país. Mais um desafio a ser discutido na Semana dos Povos Indígenas, que se realiza neste mês.Projetos governamentais e empresariais podem causar a extinção de cerca de 60 povos indígenas ainda sem contato com a sociedade dos não-índios. Em Rondônia, quatro povos estão ameaçados pela construção das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, obras integrantes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), juntamente com organizações indígenas, tem alertado a Fundação Nacional do Índio (Funai), para o risco de desaparecimento desses povos. O antropólogo Gunter Kroemer aponta a região do rio Purus, no Amazonas como local onde vivem povos em situação de isolamento e risco. Dos 60 povos dos quais se tem conhecimento por meio de vestígios ou por informações a partir de outros indígenas, existem 18 sobre os quais pairam ameaças concretas, em perigo de extinção, devido ao avanço da frente econômica. Kroemer cita como exemplo o caso dos Katawixi, no rio Mucuim, entre os municípios de Lábrea e Canutama, no sul do estado do Amazonas. Ele integrou a equipe do Cimi que, no início dos anos 80, fez contato com os Suruaha, povo que vive na mesma região dos Katawixi. Segundo Kroemer, muitos desses povos rejeitam qualquer aproximação com não-índios, devido aos traumas sofridos em anos anteriores no contato com as frentes econômicas. “A experiência de contato deles foi dramática e traumática. Eles sofreram violências que desarticularam seu sistema social, político, econômico e cultural, e os levaram a uma situação de escravidão e dependência”, explica Kroemer. “Hoje eles correm risco de serem aniquilados pelo agronegócio, pelo desmatamento e pelos grandes projetos”, alerta. Os Suruaha são vítimas de outro tipo de ameaça. Jemerson Azevedo, membro da equipe do Cimi que atua junto àquele povo, conta que eles vivem muito bem, com alguma autonomia frente à sociedade envolvente, mas têm sido objeto da ação de igrejas evangélicas. Ali atuam missionários da organização "Jovens com uma missão" (Jocum), que, na opinião de Jemerson, tem por finalidade, através da religião, mudar os costumes dos indígenas e facilitar a absorção da cultura da sociedade nacional. “Eles (os missionários do Jocum), trabalham no sentido de integrar os índios à sociedade nacional”, conclui. Ação do Cimi O Cimi elegeu algumas áreas como prioridade para buscar vestígios da existência de povos indígenas sem contato para, a partir de dados concretos, instigar a Funai a tomar providências para protegê-los. Gunter Kroemer explica que “estamos fazendo um levantamento em todas as áreas possíveis, começando pela região do rio Purus e seus afluentes. Nosso problema, agora, é qualificar a informação, chegar mais perto possível das indicações da presença indígena. Estaremos sempre junto com os representantes das comunidades indígenas, porque as indicações geralmente vêm deles. Às vezes as comunidades acham que os isolados são parentes que historicamente se separaram e não querem mais contato”. No caso dos isolados que habitam a área a ser inundada pelas hidrelétricas em Rondônia, Gunter informa que “o Cimi e as organizações indígenas deverão ir até os locais onde há evidências de presença indígena e apresentar relatórios para a Funai. Depois, se não houver alguma iniciativa, iremos fazer denúncias nacionais e internacionais contra a inundação dessa área que coloca em risco a vida de quatro povos indígenas”. Seminário Nos dias 14 e 15 de fevereiro, o Cimi Norte I (AM/RR), realizou um seminário para definir sua ação junto aos povos em situação de isolamento e risco. O Amazonas concentra grande parte dessa população, segundo explicou Kroemer. No extremo oeste do estado, fronteira com o Peru, na terra indígena Vale do Javari, vivem pelo menos 15 povos sem contato com a sociedade envolvente. O povo Korubo é bastante conhecido por reagir energicamente a toda tentativa de aproximação de não-indígenas. Membros desse povo já tiveram experiência de contato que lhes deixou muitos traumas. Em 1989, três indígenas foram massacrados por moradores não-indígenas das cercanias do território onde costumavam transitar. Na região do rio Purus, entre os municípios de Pauini, Tapauá, Canutama e Lábrea, há informações da presença de oito povos, dentre eles Katawixi, rio Mucuim; Jacareuba, Koreketê, Itaparaná e Igarapé mambuhã. Kroemer explica que os nomes desses povos estão associados ao local onde foram vistos. Ele diz ainda que há um grande número no norte do Mato Grosso, na área do rio Pardo e no Guaporé, onde foi descoberto o único sobrevivente do povo Tanaru que ficou conhecido como o homem do buraco. O último Tanaru rejeitava qualquer aproximação com não-indígenas e refugiava-se dentro de um buraco cavado em sua choupana. Povo de pouco contato O missionário Pedro da Silva Souza, 31, conta como foi sua experiência junto aos Suruaha. Ele é membro do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Regional Norte I (AM/RR), desde 1997, e atuou junto àquele povo de 2002 a 2006: “no início, achei um pouco complicada a minha presença junto a um povo sem contato com os não-indígenas. Sou amazonense, de Tapauá, município da região do Rio Purus, onde vivem os Suruaha. É uma área muito extensa do ponto de vista territorial. Na verdade, imaginei uma situação, mas, quando cheguei lá, deparei-me com outra totalmente diferente. Trabalhava no Cimi há cinco anos, primeiro junto aos Apurinã. Quando me vi entre os Suruaha, senti que aquela situação era muito diferente do que eu pensava. O Cimi havia feito contato com aquele povo fazia 20 anos. Eu supunha que a vida entre eles não era diferente dos Apurinã. Mas, não dá para comparar a cultura dos dois povos. De início, os Suruaha não simpatizam com aqueles que não são do seu povo. É preciso mostrar serviço para adquirir a sua confiança. Isso é coisa que faz diferença: a maneira de se relacionar, de não estar ali apenas por curiosidade, interferindo na vida da comunidade. Cada um tem de descobrir as coisas do seu jeito, mais na observação. Isso foi o que me chamou a atenção. Só com cerca de dois meses que eu estava lá começou um laço de amizade, de confiança. Eu tinha a vantagem de não precisar deles para me ensinar como sobreviver na floresta. Pelo fato de ser amazonense, de já ter trabalhado com os Apurinã, dominava muito bem a geografia da área. Isso facilitou o entrosamento. A partir daí começamos a construir uma relação de amizade”. José Rosha é jornalista, assessor do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Manaus, AM. |
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| Última Atualização ( 15 de April de 2008 ) |
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