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| Por À Região do Congo | |
| 10 de March de 2006 | |
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VISITA À REGIÃO DO CONGO-ISIRO 28 de Set. a 14 de Out. de 2004 15 de Novembro de 2004 Caríssimos Missionários, Ao mandar-vos esta carta, passado cerca de um mês sobre a conclusão da minha visita à Região do Congo-Isiro, quero de novo dar graças a Deus por me ter concedido passar três semanas no meio de vós. Anteriormente já a visita fora cancelada por duas vezes por razões diversas. Finalmente pude fazê-la com serenidade, visitando todas as comunidades e testemunhando a participação de todos os Missionários. Por isso, quero agradecer à Direcção Regional pela preparação que fez e pela partilha que fez comigo tanto no princípio como no fim da visita. Mando um obrigado muito especial ao Padre Rinaldo Do, Superior Regional, pelo esforço que fez por me levar a encontrar-me com todos os confrades de cada comunidade e com vários representantes das três dioceses em que trabalhamos. Esta visita teve uma peculiaridade, a de se ter realizado na zona Norte (Isiro), numa altura em que a Região de novo se tinha unificado. Por isso, mais que visita canónica à Região, gostaria de caracterizar as três semanas que passei entre vós como um encontro fraterno que permitiu: - à Direcção Geral, ter uma perspectiva mais circunstanciada e de contacto directo com a vida e com as actividades da Região; - à Região, focar a sua atenção sobre um conjunto de temas que, sem dúvida, deverão ser retomados em futuras sessões de programação; - a todos os confrades, tanto do Norte como da capital, questionar-se sobre as implicações e consequências da reunificação que acaba de se fazer. Ainda que as circunstâncias em que a visita se fez talvez não tenha sido a melhor para fazer opções duradouras, ela no entanto deu azo a que surgissem pistas e direcções de que depois se poderá lançar mão e tratar na próxima Conferência Regional. Esta carta, que será propositadamente breve, reúne algumas considerações que foram manifestadas na assembleia regional de Isiro bem como as que surgiram dos encontros com as comunidades locais. Envio-a não só a vós, como também aos confrades de Kinshasa porque há nela assuntos que também lhes poderão servir, neste momento em que já fazem parte da única Região do Congo. Começarei com uma breve descrição da situação desse país, que poderá ter interesse para os confrades de outras Regiões. 1. A República Democrática do Congo na actualidade Ao chegar a Isiro no dia 28 de Setembro, fui cumprimentar os confrades do local e também me encontrei com o Director do aeroporto que, ao dar-me as boas vindas, me disse: “No Congo, depois de anos de escuridão e trevas, está a despontar uma nova aurora. Aliás já está no meio de nós”. E eu tive ocasião de verificar a verdade daquela afirmação durante a minha estadia nesse país. Encontrei um Congo em paz e desejoso de acelerar as coisas para chegar a uma normalidade que se traduza em reabertura de escolas já antigas e reconstrução de outras novas. O comércio e as pequenas indústrias artesanais estão a nascer por todo o lado, e ouve-se a insistência dos responsáveis sobre a reconciliação e a reunificação do país. O governo nacional de transição está a preparar, embora com inevitáveis incertezas, as eleições gerais que deverão ter lugar no próximo ano. Poderão devolver a legitimidade aos governantes e colmatar os vazios de poder ainda presentes em muitos sectores da vida nacional. Há alguns meses, a Comissão Permanente dos Bispos congoleses enviou uma carta a todos os fiéis do país e a todos os homens de boa vontade. Nela, além de louvarem os esforços que estão a ser feitos para levar o país à pacificação e evidenciarem os aspectos que fundam uma atitude de esperança, também decidiram denunciar aquilo a que chamaram de “zonas de sombra”. Essa carta dá uma olhada objectiva à situação do país, embora se detenha sobre aspectos que ainda causam problemas e que deverão ser encarados e resolvidos pelo governo e por todos os cidadãos, tais como: - as esperanças que o povo tivera em relação ao governo de transição tinham sido muitas. O governo está a fazer progresso mas ainda revela muita incerteza e indecisão, ao passo que os políticos nem sempre conseguem esconder as suas jogadas pelo poder. Ora, o povo espera muito mais do que isso de pessoas com autoridade. - Os desequilíbrios sociais, que são perigosos e dramáticos, deixam espaço ao protagonismo de alguns que açambarcam a pouca riqueza que há, deixando a maioria da população numa pobreza extrema. As reformas já anunciadas com tanto alarde pelo governo de transição têm dificuldade em aparecer, enquanto que a corrupção alastra ainda pelos vários sectores da vida nacional. - Os longos anos de guerra privaram o país de governos competentes. Os Bispos queixam-se do amadorismo na gestão do poder, que não augura nada de bom. Além disso queixam-se que muitos políticos até parecem desejar o prolongamento deste período de transição a todo o transe mas que, afinal é inteiramente contra o verdadeiro bem da população. - A negligência e a leviandade dos administradores e dos responsáveis pelos serviços sociais estão na base de demasiados problemas que colocam em perigo a vida de pessoas inocentes. Como dizem os Bispos, parece que o valor e a sacralidade da vida humana já não têm a consideração e o respeito que deveriam ter em qualquer sociedade civil. - A responsabilidade, o empenho, a consciência moral deveriam ser o distintivo dos líderes do país. Parece, no entanto, que ainda continua a haver um espírito beligerante, que ajuda a inflamar os ânimos de um povo contra outro. Nesta situação tão delicada e frágil, mas cheia de esperança, a Igreja confirma a sua missão de servir o povo em união com todas as pessoas de boa vontade, mediante um trabalho capilar de formação cívica. Os Bispos dizem que a obra educadora da Igreja faz parte da sua missão evangelizadora, que se exprime não só no âmbito mais restrito da religião como também na área social. E insistem várias vezes sobre conceitos como a democracia, a reconciliação, o respeito dos direitos humanos, o respeito pela vida, o diálogo e o bem comum. Vale a pena reproduzir aqui a passagem de conclusão da sua mensagem de 14 de Fevereiro de 2004: “Irmãos e irmãs: o destino do Congo não está de forma alguma condenado a continuar a ser tragédia. A este propósito, a Transição deve suscitar esperança. Tem que haver verdadeira vontade política para acelerar esse processo. Nós, os vossos pastores, exortamo-vos uma vez mais a que pegueis no nosso destino levando o Congo para a democracia. Não devemos baixar os braços; mas também estejamos atentos (cfr. 1Pd 5,8-9). Apressemos a vinda do Reino de Deus, que é de paz, de justiça, de verdade e de amor, na nossa terra. Porque nada é impossível na companhia de Deus (cfr. Lc 1,37). 2. A Reunificação da Região Enquanto que, em 1999, a situação política do Congo tinha aconselhado a divisão da comunidade regional em dois grupos (Região do Congo-Isiro e Delegação Congo-Kinshasa), o claro melhoramento social actual sugeriu à Direcção Geral implementar a reunificação. Foi o que aconteceu a 1 de Outubro de 2004, fazendo das duas circunscrições uma só Região liderada por uma Direcção Regional transitória. A “normalidade” plena dar-se-á logo a seguir ao Capítulo Geral, altura em que os confrades irão escolher uma nova Direcção Regional, no formato que determinarem. Nestes últimos cinco anos, estas duas circunscrições fizeram uma caminhada autónoma em todas as áreas. Os intercâmbios entre a Região do Norte e a Delegação do Sul, em termos de pessoal, projectos missionários ou iniciativas de formação contínua não puderam ser concretizados. Importa notar que essa autonomia, mesmo assim, não prejudicou o empenho missionário destes dois grupos. Pelo contrário: passados cinco anos, a Região encontra-se agora mais rica em pessoal e com um número maior de comunidades e operações. Permitam-me fazer uma listagem das tarefas que, na minha opinião, deveis enfrentar, de várias maneiras, nos meses que seguem, a fim de concluir eficazmente o processo de reunificação: - Preparar um processo de harmonização entre os dois grupos, procurando sintonizar de novo os vossos programas e fazendo surgir as linhas comuns que deverão orientar-vos no vosso trabalho missionário. Deveis chegar à Conferência Regional não com duas “almas” mas como uma família unida que, através da complementaridade dos dois grupos, caminha para o objectivo único que é o bem de todos e a execução do projecto missionário regional. - Nestes próximos meses também devereis instituir uma reflexão sobre a sede da Região. Embora a decisão final caiba ao Superior Regional e respectivo conselho, não se devem ignorar as implicações que ela pode ter. Por isso, é conveniente que toda a Região faça discernimento sobre esta matéria. Também convém lembrar que já no passado termo de seis anos, se tinham dado passos concretos para a sediar em Kinshasa por ser o local mais apropriado, sobretudo em consideração dos nossos centros de formação. - A próxima Conferência Regional deverá enfrentar com igual seriedade o tema da planificação regional, depois dum período de cinco anos em que os dois grupos caminharam 3. Incidência do Projecto Comunitário de Vida (PCV) Foi reconfortante ver que em cada comunidade existe um Projecto Comunitário de Vida que sofre revisão e actualização a cada ano. Todos estamos convencidos de que ele, apesar de ser apenas um “meio”, pode ter impacto considerável na qualidade de vida da comunidade e sobre o trabalho apostólico, se for bem cuidado e bem usado. Admitistes-me no entanto que o PCV cumpre, muitas vezes, a simples função duma programação comunitária ou apostólica. Parece que ainda não logrou incidir profundamente na correcção dos pontos fracos da comunidade e para apoiar as actividades e os programas apostólicos. Embora cada comunidade o redija anualmente e muitas vezes perante o Superior Regional, ele acaba depois por não ser levado em consideração no decorrer das revisões periódicas de vida e de trabalho. Quero por isso exortar-vos a que cuideis melhor do vosso PCV investindo nele todo o tempo necessário para a sua formulação e servindo-vos dos materiais de apoio que a Direcção Geral tem tornado acessíveis no passado (cfr. Consacrazione e Missione, pp. 725-741). Consultai-o amiúde, principalmente nos vossos encontros comunitários semanais; actualizai-o de tanto em tanto, sempre que virdes que precisa. Trata-se dum instrumento maleável e eficaz se for utilizado com frequência. Além disso, o PCV deve apoiar a vossa oração comunitária. As comunidades locais, regra geral, não conseguem ter mais que dois encontros diários para oração. Mas cuidai bem deles e vivei-os com calma para que a oração tenha significado. Retomai com empenho a prática do retiro mensal, fazendo-o com outros confrades onde e quando for possível. O PCV deve, por fim, contemplar o encontro comunitário semanal (cfr. Const. 25.1) e deve programá-lo cuidadosamente, tendo sempre presentes as várias dimensões da nossa vida que exigem confrontos e diálogo. O Superior local deve sentir-se responsável pela sua convocação e preparação. Será frutuoso se conseguir alternar momentos de revisão de vida com programação pastoral, aprofundamento de temas pastorais com especial atenção à formação contínua do pessoal missionário. O PCV poderá tornar-se um instrumento incomparável para suscitar o diálogo comunitário e harmonizar todos os aspectos da nossa vida, tais como: o cuidado com a saúde e o merecido descanso, o aprofundamento dos temas do Instituto, a partilha do projecto pastoral, a actualização constante e a comunicação intensa entre todos os membros da comunidade. Lembro-vos mais um aspecto que sobressaiu na visita. Para que o PCV possa ser eficaz, é preciso que a comunidade local tenha um número suficiente de membros. O esforço para se chegar a haver três confrades por comunidade não deve ser frustrado pelo desejo de fazer novas fundações ou de alcançar maior eficácia de trabalho. Lembramo-vos de que é exactamente o testemunho da nossa vida o maior contributo que possamos dar às pessoas e à Igreja. E este testemunho só pode vir de comunidades estáveis e serenas. 4. As vocações A reunificação da Região deverá imprimir novo impulso à acção vocacional de todos os confrades. A Região alberga o Seminário Teológico, o Seminário Filosófico, o Propedêutico e grupos de aspirantes em discernimento nas várias missões. O número de candidatos que pedem para entrar para o Instituto continua constante e até tende a aumentar. Perante um cenário destes, deixai que relembre alguns aspectos que vieram à tona durante a visita. São numerosos os jovens que pedem para entrar para a vida religiosa ou que procuram ingressar no sacerdócio. Mas eles têm necessidade de orientadores perspicazes e de conselheiros capazes de os acompanhar no discernimento da verdadeira motivação da opção que pretendem fazer. Isso deve acontecer não só quando o jovem se encontra nas nossas casas de formação como também logo desde o seu primeiro contacto connosco. Trata-se dum serviço muito importante tanto para o candidato como para evitar que enchamos as nossas casas com jovens que não têm real vocação para a vida religiosa e missionária. Ao mesmo tempo, é preciso ajudar os jovens a iniciar uma caminhada de fé profunda como premissa indispensável para a descoberta da vontade de Deus nas suas vidas e responder à chamada. Cada um de nós deve sentir-se interpelado pela realidade das vocações que deverá concretizar no interesse pela pastoral dos jovens, na proximidade com as nossas comunidades de formação, ou então disponibilizando-se para oferecer direcção espiritual aos jovens e formação para a vida de fé. No decorrer da visita também emergiram outras questões cujas respostas ainda levarão muito tempo de discernimento por parte de todos os membros da Região. Mas vou mencionar algumas: - Todos os nossos jovens candidatos do Norte vão para Kinshasa fazer a sua formação. Não seria interessante levantar a hipótese de erigir um Propedêutico também em Isiro? - Alguns candidatos vêm de Dioceses onde o Instituto não tem fundações. Não valerá a pena fazer discernimento sobre a conveniência de assim continuar a fazer? - Poderia por acaso a “Maison Oscar”, que abriu recentemente em Isiro, tornar-se centro de animação missionária e vocacional? Não se poderia pensar a sério sobre a destinação de um confrade a tempo inteiro para fazer este tipo de trabalho? Passados os anos de emergência, no contexto da precária situação política e social do país, parece que chegou a altura de empreender uma evangelização em profundidade. Consideram-se opções pastorais prioritárias as seguintes: a formação de líderes, o acompanhamento dos catequistas e dos catecumenatos, o cultivo de numerosos grupos e movimentos, a atenção aos jovens e à educação. Eu próprio notei que cada paróquia tem as suas peculiaridades e características próprias advindas das situações específicas humanas e sociais em que se erguem, ou das exigências próprias da Igreja local, ou ainda por serem fruto da criatividade pastoral dos missionários. A possibilidade de desenvolver agora uma actividade pastoral em toda a linha, deve favorecer o retorno destas obras ou actividades pastorais dentro do contexto de uma dada paróquia. As obras de caridade e de saúde, a pastoral de grupos étnicos específicos, as iniciativas educacionais devem ser vistas como algo que deve interessar toda a comunidade paroquial. E assim ela, pouco a pouco, deverá assumir a responsabilidade da sua condução para lhe garantir continuidade e futuro. O interesse do IMC pela pastoral dos Pigmeus foi a razão de ser da Paróquia de Bayenga. Eles são relativamente numerosos e estão a caminhar decididamente para uma maior integração com a população bantu. Os pais encontram-se agora mais disponíveis para mandar os filhos para a escola. No “Projet Pastoral IMC pour les Pygmées”, que foi preparado pela Paróquia de Bayenga, ficou inscrito um programa intenso de actividades entre estas populações. Deixai que vos lembre duas exigências indispensáveis a uma pastoral significativa entre grupos étnicos: a aprendizagem da língua e uma presença prolongada no meio deles. As obras sociais e as que contribuem para o desenvolvimento das pessoas voltaram a ter o seu ritmo ou intensidade. Por vezes pode insinuar-se em nós a tentação de querer “queimar etapas” e não investir o tempo necessário para procurar com paciência a participação das pessoas. Esquecer esta exigência poderá querer dizer, muitas vezes, a frustração de todos os esforços, além de dispensar o uso correcto dos donativos dos benfeitores. Todos os projectos – e tendes tantos – devem ser analisados e aprovados pela Igreja local e pela Direcção Regional. Embora a sua concretização fique por vezes entregue ao missionário individual, a sua criação deve ser sempre feita a nível da comunidade local na sua totalidade. Assim evitam-se muitos empecilhos e a eventualidade, infelizmente comum, de um projecto ficar paralisado simplesmente porque algum missionário mudou de comunidade. A reflexão e a formação sobre os temas da justiça e da paz são uma exigência pesada se levarmos em conta a situação em que o país vive. As nossas comunidades missionárias devem ater-se escrupulosamente às orientações que vierem dos Bispos ou da Igreja congolesa. Ao realizar iniciativas orientadas para a denúncia de abusos e injustiças, procure-se a participação dos leigos. A sua palavra é mais livre e a sua actuação será mais eficaz do que a nossa. Neste contexto é preciso mencionar o precioso serviço prestado pelo Hospital da Consolata de Neisu aos doentes duma zona bastante ampla. Todos nós temos conhecimento das dificuldades por que tem passado esta instituição após a morte do P. Óscar Goapper. Em nome da Direcção Geral agradeço-vos pela coragem com que encarastes este momento tão difícil e porque o vosso empenho pela causa dos doentes nunca enfraqueceu. Continuai a apoiar e a sustentar esta obra que é a flor de lapela da acção consoladora da Região do Congo. Conclusão Vou fechar esta carta no dia em que o Instituto celebra a memória dos Missionários defuntos. Confio à intercessão do P. Óscar Goapper e do P. Ivano Magnani, ainda tão presentes no coração de todos vós e de inúmeras pessoas, cada um de vós, o vosso trabalho missionário e a caminhada futura da Região unificada. Que do céu peçam para todos vós zelo apostólico e dedicação à causa missionária que tão profundamente marcaram as suas vidas. Os Beatos Isidore Bakanja e Anuarite Nengapeta são os protectores da vossa Região. Imitai o seu desejo de santidade e o seu zelo missionário até à entrega da vida. Deixo-vos como ordem o seu testemunho de vida, que se pode resumir nestas palavras do Pai Fundador: “A obra da missão exige grande santidade. Não basta a santidade medíocre. Quero que sejais santos e, por serdes missionários, santos no superlativo”. Rezo por cada um de vós e confio-vos à protecção da nossa Mãe Consolata. Em nome do Conselho Geral, saúdo-vos fraternamente. P. Piero Trabucco, IMC (Padre Geral)
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