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P. Luigi Wegher PDF Imprimir E-mail
Por Padre Artur Marques   
10 de March de 2006

1912-2004

Proveniente de Val di Non, era filho de Francesco e Luigi Bottocletti, tendo nascido a 19 de Setembro de 1912 em Sanzeno (TN). Entrou para o Instituto em 1925 pela casa de Madonna del Monte, Rovereto. “Eu era um ratito de 12 anos… e foi lá que comecei a voar», Consagrou-se a Deus com a profissão religiosa em 1933, sendo ordenado em 1937 embora com algumas dificuldades derivadas da sua pequena estatura. Chamavam-lhe o “pintainho” da turma e até parece que lhe não queriam dar a batina por… ser pequeno demais!

Foi professor durante um ano no seminário menor de Gambettola e, depois, no ano de 1939, partiu para Moçambique. Foi durante a viagem que rebentou a Segunda Guerra Mundial… e o navio alemão em que viajava, o “Usumbara”, até foi afundado pelos ingleses no regresso, perto da França. Mas o Padre Wegher conseguira chegar a Massangulo, no Niassa, onde trabalharia durante 40 anos, 30 dos quais ao lado do Padre Pietro Calandri, o primeiro missionário católico que chegara àquelas paragens em 1926 e fundara aquela missão.

Diz o Padre Mário Teodori: «Em Massangulo, o Padre Wegher entrou no seu verdadeiro mundo e mais ninguém haveria de conseguir tirá-lo de lá. Foi outro São Luís em termos de virtude e outro São João Bosco em termos de disciplina e formação de numerosos jovens. Foi lá que o Padre Luís encontrou maneira de revelar toda a sua genialidade de poeta, escritor, dramaturgo, tipógrafo, dactilógrafo, manobrador de fantoches, cartógrafo, etc. Todo esse grande armazém de iniciativas foi uma autêntica revelação».

O seu campo de trabalho foi a enorme escola da missão de que foi Director e que naqueles tempos contava 500 alunos que vinham de todos os lados de Moçambique e até mesmo do Malawi. De facto, era a única missão que acolhia os africanos e os mulatos que mais ninguém queria. Além disso, tinha a seu cargo o orfanato que contava cerca de sessenta crianças. Foram gerações inteiras de rapazes e jovens a receber formação humana e cristã da sua mente de mestre.

Para além de ser professor, também criou uma pequena tipografia juntamente com o Irmão Ugo Versino, que era Director da Escola de Artes e Ofícios. Aí se encadernavam livros e boletins oficiais do governo, se mantinha um estúdio de fotografia e se ensinava dactilografia, para a formação e promoção humana da juventude. Além disso era um apaixonado do teatro, do cinema e dos audiovisuais em geral – meios esses que soube aproveitar da melhor maneira para evangelizar adultos e crianças.

Embora andasse a transbordar de trabalho, o Padre Wegher ainda conseguiu formar, em 1954, uma banda de 35 músicos que, sob a direcção do Padre Ernesto Motta, se exibiu nas festas e procissões não só na missão como até na própria capital do Niassa por ocasião da visita do Presidente da República Portuguesa e de outras personalidades.

O trabalho era pesado e teria exigido o dobro do pessoal. Trabalho que representa “uma carga que já há muito superou as nossas possibilidades e que só o amor pela nossa vocação no-lo permitirá ainda aguentar» (carta ao P. Domenico Fiorina, superior geral, 18.04.1951).

E no entanto, foi graças a esta dedicação que Massangulo se tornou o emblema de lapela dos Missionários da Consolata e motivo de orgulho perante o país como um todo. Foi o que manifestou Luís Moreira de Almeida, inspector do Ministério da Educação, depois de ter visitado aquela missão: «A 13 de Novembro de 1951, fiz uma visita à Missão de Nossa Senhora de Massangulo, tendo ficado com a mais sublime, grata e consoladora impressão. Sem exageros e sem parcialidade alguma devo reconhecer que nem nas missões nacionais, mesmo estrangeiras, nenhuma outra lhe é superior em organização, ordem, zelo missionário e orientação. Não há dúvida de que esta visita constituiu para mim uma inesperada revelação, embora as referências que eu tinha já fossem prometedoras. Parabéns aos Missionários e às Missionárias desta Missão!».

Por seu lado, Dom Henrique Dias Nogueira, bispo de Lichinga, proclamou Massangulo Mãe e Mestra de todas as missões”.

Em 1971, o Padre Wegher foi nomeado superior da Missão. Os tempos eram difíceis por causa da luta armada pela independência de Moçambique. Em 1975 enfrentou a nacionalização de todas as obras paroquiais: numerosos emissários da FRELIMO chegaram a invadir a Missão, expulsando o padre de todas as suas funções da pior maneira e assenhoreando-se de tudo, passando logo a bivaquear no seu interior como se fossem donos. A 23 de Maio de 1979, assistiu com grande amargura ao encerramento do Santuário de Nossa Senhora da Consolata. «Como que por milagre – contou-nos o próprio Padre Wegher – tínhamos tirado de lá o Santíssimo e a estátua de Nossa Senhora da Consolata. Eu próprio consegui levá-la para Lichinga, deixando-a no palácio episcopal. No ano passado (2001), essa mesma estátua percorreu todas as missões do Niassa… em peregrinação; e agora já está de novo em Massangulo».

Os novos “patrões” tudo fizeram para se desfazerem da sua presença incómoda, de forma que acabou por ser chamado ao palácio do governo e submetido a longo interrogatório, a que porém soube responder com todo o pormenor. E até aproveitou para pedir a devolução dos quadros do padre Calandri que ornamentavam a missão, aliás quadros de grande valor artístico. E conseguiu! Encontram-se hoje expostos na Casa Geral de Roma. Também foi por sua iniciativa que se salvaram os diários das missões, sugerindo ao superior regional, o Padre Marchiol, para os retirar das nossas várias casas. Foi o que aconteceu; de forma que, agora, aqueles preciosos testemunhos do trabalho apostólico dos missionários em Moçambique estão guardados no arquivo geral de Roma.

Pouco depois, no dia 23 de Maio, recebeu ordem categórica de sair de Massangulo e mudar-se para Lichinga. As suas palavras representam toda a amargura dum pai que é separado da sua criatura pela força: «Confesso-o com toda a sinceridade: passados 40 anos de trabalho, foi uma recompensa que tal! Uma trouxa de artigos pessoais e nada mais! Disse adeus a tudo e a todos, ou melhor: ninguém me viu sair a não ser as poucas irmãs que tinham ficado… e com um nó na garganta! Deixar tudo… Massangulo sem padre…! Todas as escolas ficavam nas mãos de professores de marca marxista-leninista que, a bem ou a mal, tinham que injectar o ateísmo na juventude…».

O Padre Wegher estava a falar só de Massangulo, mas a estatização aconteceu por toda a parte e foi simplesmente catastrófica. Dentro de poucos anos, ficou destruído um trabalho de evangelização que durara mais de meio século, trabalho que fora realizado com amor, com sacrifício, até com derramamento do seu sangue. «A juventude de hoje (2002) – continua o Padre Wegher a relatar – não viu nem imagina como eram as missões, o trabalho que se fazia com as escolas de artes e ofícios… e como os alunos estudavam! Agora temos que reconstruir tudo e todos devem fazer esse esforço. Quando chegará o fim do analfabetismo? Qual é o compromisso de cada qual com a reconstrução do tecido social? E a nova evangelização? Hoje em dia o Evangelho e a cultura representam um problema candente… coragem! Não nos detenhamos nas dificuldades: há trabalho para todos».

Ainda agora – garante-nos o Padre Teodori - «em Massangulo, as paredes em ruínas continuam a falar dele. Tal como a tipografia em cacos, o estúdio de fotografia arrombado, a secretaria sem ninguém, os dormitórios dos alunos conspurcados com grafitos de todo o tipo, os refeitórios reduzidos a uma ou outra mesa de cimento. Também fala dele o palco, todo corroído pelo vento e pela chuva, o sítio onde ele montava os seus teatros, projectava filmes para alegria de grandes e miúdos, e onde se exibiam os coros dos alunos com acompanhamento da banda que ele comprara e tivera a direcção genial do seu maestro, o Padre Ernesto Motta. Os pinheiros majestosos que se erguiam ali à volta secaram; os jardins (uma das suas paixões) foram desfeitos; a casa dos padres ficou sem telhado e até mesmo o telhado do grandioso templo da Consolata revela a falta de várias folhas de zinco.

Mesmo assim, e mais que as obras, falam dele aqueles que durante anos e anos foram formados por ele e por ele foram preparados para a vida – os seus ex-alunos que se encontram espalhados por quase todo o país. De Massangulo, para além de muitos funcionários do governo e outros profissionais, vieram o Doutor Brazão Mazula, reitor da Universidade pública e o Padre Filipe Couto, reitor da Universidade Católica».

Tendo sido recebido pelo bispo de Lichinga, o Padre Wegher trabalhou como coadjutor do pároco da catedral. Por aquela altura, ao escrever ao Padre Mário Bianchi, superior geral, dizia ele: «Encontro-me aqui na diocese. Vossa Reverência bem sabe que foi um rude golpe para mim ter de fechar a igreja e, pior ainda, ter de abandonar aquela missão no mês em que cumpro 40 anos de vida em Massangulo. Mas fico com uma satisfação: a de que trabalhei até ao fim, apesar de todas as dificuldades…

O Evangelho torna-se difícil e pesado. Fiquei reduzido a fazer muito pouco. Intensifico a minha oração e ofereço a Deus e a Nossa Senhora a minha aparente inacção apostólica. O sacrifício é redenção. Deus providebit! Só Ele pode fazer e passar sem nós. Pelo contrário: se calhar, sem nós as coisas até correrão melhor. A provação purifica-nos bem como as nossas comunidades cristãs. Afinal, a semente que lançámos não foi semeada inutilmente! Tenhamos fé na obra de Deus. Ele é que é o Salvador». (15.06.1979).

Em 1986, depois da morte do Padre Camillo Ponteggia, ele foi nomeado vigário geral da diocese, cargo esse que exerceu até à morte. Entretanto, oferecia os seus serviços de capelão dominical às Irmãs contemplativas “Servas de Maria”, de confessor extraordinário de muitas congregações de irmãs, de pregador de exercícios espirituais, de conselheiro dos Missionários da Consolata do norte do Niassa.

Como sempre – uma marca de toda a sua vida – estava sempre rodeado de crianças, rapazes e jovens, a quem ao Domingo, nunca deixava faltar um filme. O salão paroquial era demasiado pequeno para os mais de 500 “ranhosos” que se empurravam para ver o espectáculo: vê-los alegres e satisfeitos era tudo, para ele. E os pobres, os cegos, os drogados, os mutilados pelas minas, os jovens e os velhos nunca voltavam de mãos vazias quando batiam à sua porta.

De Lichinga ele via os horrores da guerra civil entre a FRELIMO e a RENAMO e sofria: «Aqui o nosso Natal foi muito lindo: a catedral e a igreja paroquial estavam a abarrotar para todas as missas; cânticos de Natal maravilhosos e muito fervor. Apesar da maldita guerra, ainda conseguimos trabalhar… O Niassa continua atormentado… Saímos em visita às comunidades mas sempre com o coração apertado. Mas Deus e a Senhora da Consolata também continuam a proteger-nos… Aqui na cidade há bastante calma, mas lá fora continua a guerra e o corre-corre das pessoas que se escondem na floresta com medo dos ataques. Há crianças que sofrem e morrem; os refugiados são aos milhares; enfim, isto é uma grande tristeza e um grande sofrimento!

Eu já vou a caminho dos oitenta anos, lindos e perfeitos… com 53 de missão sempre no Niassa. Graças a Deus ainda consigo fazer algumas coisas e ao Domingo divirto centenas de gaiatos com filmes… Foi sempre essa a minha paixão, tal como o teatro e a poesia» (02.1992 – Carta de Madonna del Monte).

Foi um escritor fecundo, que sabia exprimir o seu génio artístico em numerosas publicações em que contava os usos e costumes do Niassa, as suas peripécias missionárias, obras de teatro, estudos e poesias. O seu livro Um Olhar sobre o Niassa, em dois volumes, trata da história, da geografia e da realidade social e religiosa do Niassa e foi publicado pelas edições Paulinas, com notável êxito. Foi lançado frente às câmaras de televisão na presença do Núncio Apostólico, de vários bispos, do presidente da Assembleia Nacional e de outras individualidades, recebendo aplauso unânime. Outras obras suas são: um livro de poesia em italiano e outro em português; um opúsculo para professores de título Luz no teu Caminho; um romance ainda não publicado, de título Sidrek, o príncipe amaldiçoado; a biografia do padre Calandri O Homem e a sua missão e numerosas peças teatrais que foram exibidas em Massangulo e noutras partes de Moçambique.

Em 1982, o Papa condecorou-o com a medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”. Foi consignada depois à Casa Mãe porque, como disse em 1999 ao comemorar os seus 60 anos de missão, «no Moçambique de hoje só há uma coisa a fazer: arregaçar as mangas – não há lugar para medalhas ou outras condecorações». Celebrava sessenta anos de missão no Niassa… e, alargando os braços até poder, exclamou :”Magnificat anima mea Dominum…! Um muito obrigado à Consolata, ao pai Fundador e ao Anjo da Guarda, ámen, aleluia!».

A 24 de Julho de 2004, o Senhor veio chamá-lo para casa: tinha 92 anos, sendo 70 de profissão religiosa e 67 de sacerdócio.

A missa fúnebre teve lugar na catedral de Lichinga, que estava apinhada de fiéis e amigos. Presidiu o bispo, Monsenhor Hilário Massinga, acompanhado de todos os missionários do Niassa. Também estiveram presentes o Governador e outras autoridades da província, algumas delas formadas pelo Padre Wegher. O Padre Artur Marques, superior regional, leu o seu testamento espiritual, que gerou um clima de profunda comoção.

Depois da missa fez-se um imponente cortejo fúnebre que acompanhou o corpo até à missão de Massangulo, que fica a 90 quilómetros de Lichinga, tendo sido acolhido pelo pároco, o Padre Mário Teodori, a sua comunidade e muitos islamitas, com enterro no cemitério cristão da missão. As exéquias foram celebradas pelo Padre Artur Marques, contando com a presença do bispo, da quase totalidade dos missionários da diocese e do clero local. Fizeram-se muitos e comoventes discursos, lendo-se ou apresentando-se mensagens vindas de todas as categorias de pessoas presentes. Agora, este nosso confrade repousa em paz entre as pessoas que tanto amou e que também nunca o esquecerão.

 A Redacção de “Da Casa Madre”

TESTEMUNHOS

Para nós, enquanto congregação, perdeu-se com o padre Wegher o penúltimo contacto directo com o Fundador e a sua época. Ele foi recebido no nosso seminário menor de Madonna del Monte (TN) em 1925, um ano antes da morte do nosso Beato Fundador, José Allamano. Do seu ano só nos fica o Padre Giuseppe Incicco que trabalha em Cascavel, no Brasil.

A nossa Região de Moçambique perdeu, com ele, o seu ilustre decano. Ele era o nosso porta-estandarte, o testemunho mais velho dos primeiros anos da missão em Moçambique. É verdade que encontrou a missão já organizada à chegada, mas ele viveu-a intensamente, dedicando-se a ela de corpo e alma, durante longos anos, ao lado dos pioneiros da última hora. O amor e a veneração que sempre sentiu e cultivou por eles está bem documentada nos escritos e testemunhos que nos deixou. O padre Wegher era a nossa história viva. Por sorte, ele gostava de escrever as suas memórias e, embora pouco ainda tenha sido publicado, deixou vasta e inédita obra escrita.

A comunidade cristã perdeu, com a sua partida, o último operário das primeiras horas da sua evangelização. E o Padre Wegher não perdeu o seu tempo nem viveu em vão: ele passou toda a sua vida entre as crianças e os jovens. Foi um grande educador. Soube modelar os jovens e forjar neles personalidades autênticas. Do seu trabalho nasceram homens ilustres, que iluminam a nação moçambicana com a sua seriedade e a competência dos seus serviços.

Mas nós, que somos teus irmãos mais novos, teus herdeiros e sucessores na missão, perdemos um pai, um mestre, um irmão, um conselheiro, um confessor, um… amigo – e um grande amigo! Tu abriste-nos um caminho largo e luminoso que abarca os últimos 65 anos da história de Moçambique. Foi uma viagem gloriosa e dolorosa, mas que assentou em virtudes sólidas humanas, religiosas, sacerdotais e apostólicas. Queira Deus que recebamos em herança “uma dupla medida do teu espírito”.

Que Deus te recompense, Padre Wegher, pelo que foste e pelo exemplo que nos deixaste. Que Deus te recompense pelo amor e pela dedicação que revelaste por esta Igreja, por este povo e por esta missão, quando optaste por ficar connosco até ao fim. Agora, da casa do Pai onde já estás, continua, como prometeste, a espalhar o teu “olhar sobre o Niassa” e sobre cada um de nós. Agora que já estás liberto das fraquezas e das limitações do corpo, faz com que possamos sentir, sempre e todos, a força da tua oração e da tua intercessão.

Padre Artur Marques

Fundador

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