Narrow screen resolution Wide screen resolution
Por trás da violência PDF Imprimir E-mail
Por Dirceu Benincá   
27 de November de 2007
De 6 de agosto a 28 de setembro, o CESEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular) realizou, em São Paulo, o Curso Latino-Americano de Formação Pastoral para discutir o tema da urbanização e o fenômeno da violência. Provenientes da Bolívia, Colômbia, El Salvador, Moçambique, República Dominicana e de quatro estados do Brasil, os participantes também refletiram sobre os desafios culturais, sociais, políticos e pastorais emergentes desta realidade. Entre os assessores, esteve Ivo Lesbaupin, nosso entrevistado. Ivo é sociólogo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenador de um núcleo de pesquisa sobre prefeituras democráticas-populares e membro do Iser/Assessoria – uma Organização Não-Governamental do Rio de Janeiro que presta assessoria à pastoral popular e movimentos populares em nível nacional.

Ao longo da história, a violência emerge como um sério problema para os indivíduos e para as sociedades. Onde está a sua origem e por que ela se propaga tanto?


Não há uma causa única: existe uma série de fatores que contribuem para o crescimento da violência. Um estudo da ONU sobre a desigualdade social no mundo, publicado em 2005, dá conta de que a desigualdade cresceu muito nos últimos 20 anos. O relatório afirma que isso se deve à adoção de políticas neoliberais, que priorizam o capital financeiro, em detrimento do bem-estar social. Segundo a ONU, existem dois fatores associados que contribuem de forma significativa para o aumento dos índices de violência: a crescente desigualdade social e a diminuição das perspectivas de melhoria de vida. Os jovens percebem que dificilmente conseguirão emprego e, se o conseguirem, ele será precário e com baixo salário. Essa insegurança extrema é um caldo de cultura para o aumento da violência. Não se pode esquecer também o crescimento do espírito de competição na sociedade. O sistema social vigente proclama que a riqueza depende da competência dos indivíduos e que a pobreza é resultado da incompetência – em outras palavras, da pouca escolaridade, dos estudos insuficientes.

O que leva pessoas da classe média, como os jovens que espancaram uma empregada doméstica no Rio de Janeiro, a serem violentas? Que outros fatores, além do econômico, estimulam a violência?

Nas últimas décadas, nota-se uma acentuada perda de valores, de referências morais. Cultivam-se valores individualistas, ao invés da solidariedade e da ação coletiva. Segundo a ideologia neoliberal, cada um deve vencer na vida por si mesmo. Ora, se os meios legais não oferecem condições para uma vida melhor, a tentação será buscar saídas por vias ilegais. Os meios de comunicação social exaltam o esforço individual e, quanto muito, a solidariedade entre uma pessoa e outra: não valorizam a solidariedade coletiva. Com isso, quebram-se valores morais e éticos. Essa concepção vai crescendo na sociedade em geral e vai aparecer também em jovens da classe média – pessoas que têm acesso a boas condições de vida – porque o enriquecimento vai se tornando o ideal a ser atingido de qualquer maneira. A presença da violência não é exclusiva nos setores sociais empobrecidos, nem é gerada pela pobreza. Ela aparece não quando existe pobreza, mas quando existe acentuada desigualdade social e reduzidas chances de melhora de vida. Há outros fatores que contribuem para o aumento da violência social, como é a "banda podre" dentro dos próprios órgãos encarregados do controle social. Sabemos que setores da polícia estão comprometidos com o tráfico de drogas, com os jogos, a prostituição, etc. Eu costumo dizer que no Brasil não há máfia, como na Itália, por exemplo, porque a “máfia” aqui é um setor da própria polícia. Isso complica enormemente o controle da violência.

O sistema de mercado procura culpabilizar os pobres por seu fracasso social. Em sua opinião, ao dizer que o pobre é um incapaz, o capitalismo estimula a violência ou a contém?

O tipo de capitalismo que está se desenvolvendo atualmente só reforça a violência. Diferente do período de 1945 a 1975, quando tivemos um capitalismo mais preocupado em atender às necessidades sociais (o Estado de Bem-Estar Social), agora vivemos um capitalismo neoliberal, que é intrinsecamente injusto e gerador de injustiça social. Até a denominação “capitalismo de rosto humano”, usada para caracterizar aquela fase, desapareceu. Nem se fala mais do “capitalismo selvagem”, que seria o seu oposto – referente à fase inicial, do século XIX. Por que? Porque o que temos hoje é o capitalismo tal como ele é, em sua essência, selvagem. Naturalmente, os capitalistas não querem que as pessoas tomem consciência disso. Na verdade, o capitalismo é por natureza “selvagem”, uma vez que se baseia na exploração de uns pelos outros. O homem se torna “lobo do homem”, como dizia Thomas Hobbes. É a lógica do “subir na vida a qualquer custo”. O capitalismo só contribui para aumentar o esgarçamento do tecido social, fazendo as pessoas se voltarem umas contra as outras. O exemplo que o Estado está dando é de irresponsabilidade diante das mazelas sociais e isso influencia as pessoas a também serem irresponsáveis com as outras.

De que maneira o Estado e a sociedade civil organizada podem contribuir para uma cultura de paz?

Todas as vezes que acontece um surto de violência ou um caso mais grave, como foi o ataque do PCC a São Paulo, ou o episódio da criança arrastada por um carro no Rio de Janeiro, a reação imediata dos meios de comunicação é querer aumentar a repressão. Se for menor de idade, logo se fala em redução da maioridade penal, aumento do efetivo policial e das armas nas mãos da polícia, bem como a instituição da pena de morte. Nem sempre nos damos conta que a pena de morte já existe: é só observar o crescente número de pessoas que são mortas por policiais a cada ano. É claro que é necessário um controle policial maior e uma polícia menos corrupta. Porém, isso é insuficiente. É preciso atacar as causas do aumento da criminalidade, o que implica a mudança de políticas públicas, especialmente da política econômica, que é a responsável pelo desenvolvimento (ou não-desenvolvimento), pela geração de emprego (ou de desemprego). Embora no governo Lula o desemprego tenha diminuído um pouco, segundo o IBGE ainda estamos com uma taxa em torno de 10%. Em São Paulo temos cerca de 1 milhão e 500 mil desempregados. Conforme Márcio Pochmann, 90% dos empregos gerados nos últimos quatro anos foram precários, de alta rotatividade e renda de até dois salários mínimos. A meu ver, só haverá diminuição da violência quando o Estado assumir seu papel, desenvolvendo políticas públicas de emprego, saúde, educação e moradia para toda a população. Quando houver uma política econômica capaz de reduzir efetivamente o desemprego. Nós temos programas sociais importantes como o Bolsa-Família, mas isso não basta. Esta é uma política compensatória, não gera emprego. Também não é com violência (repressão) que se resolve o problema da violência. Só fortalecendo valores como solidariedade, colaboração mútua, participação e ação coletiva será possível garantir uma cultura de paz.


Dirceu Benincá é sacerdote e doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP. Assessor do CESEP - Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular. - Publicado na edição Nº09 – Novembro 2007 - Revista Missões.
Última Atualização ( 26 de November de 2007 )

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade