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Deus na cidade PDF Imprimir E-mail
Por Dom Odilo Scherer   
24 de Setembro de 2007
A Conferência de Aparecida dedicou atenção especial à evangelização nas cidades grandes. De fato, é nesse espaço que se apresentam atualmente os maiores desafios à ação da Igreja; esse é o maior e mais exigente campo de evangelização dos discípulos-missionários de Jesus Cristo.

Em tempos passados e em ambientes mais interioranos, a Igreja esteve à frente da produção cultural e conseguiu marcar a vida do povo com sua influência; o mesmo já não acontece mais nas metrópoles, onde os geradores de cultura são tantos outros e conseguem agir com grande poder de influência.

Não é que tudo seja negativo na cultura urbana, onde também existem muitos valores apreciáveis; mas é certo que se afirmam sempre mais valores contrários àquilo que os cristãos crêem e propõem para a vida pessoal e social. Algo importante vai sendo perdido pelo caminho.


A própria comunidade católica urbana sofre fortes influências desses novos modos de cultura e, como conseqüência, tende a perder a própria identidade e a valorizar menos sua própria contribuição para a cidade. O forte impacto dessa “mentalidade urbana” penetra também os ambientes rurais. Quais seriam os motivos para as dificuldades que temos para a evangelização na cidade grande?

Nossa fé nos ensina que Deus também está na cidade, em meio às suas alegrias, desejos e esperanças, em meio às suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como a violência, a pobreza, o individualismo e o desrespeito à dignidade humana não devem nos impedir de buscar e propor o encontro e a contemplação de Deus também nos ambientes urbanos. As cidades oferecem espaços e oportunidades próprias para o encontro com Deus, que vem ao nosso encontro de maneiras, por vezes, bem surpreendentes.

Na cidade, somos constantemente chamados a construir a solidariedade e a comunhão fraterna, a exercer o serviço abnegado ao próximo, a testemunhar os valores da justiça, do respeito e da esperança. Os próprios sinais físicos da existência da Igreja no meio da cidade devem manifestar a presença amorosa e providente de Deus no meio do povo, através dos templos, obras sociais, instituições culturais e caritativas, além das comunidades vivas que se reúnem para celebrar. É missão da Igreja testemunhar de maneira eficaz e criativa a presença de Deus na cidade.

A Igreja tem um ideal para a cidade dos homens: que esta se torne cada vez mais “cidade de Deus”. Na verdade, segundo a nossa fé, este é o projeto final de Deus, como lemos no livro do Apocalipse (cf. cap. 21). O modelo e referência é a cidade santa, a “Jerusalém celeste”, bela e esplendorosa, tenda de Deus com os homens, para a qual os homens peregrinam; ali não haverá mais dor, nem violência, nem morte, nem luto, nem lágrimas, mas Deus será reconhecido por todos e seu reino de amor e paz será a alegria dos habitantes dessa cidade definitiva.

Desde agora, nossa Igreja está a serviço da edificação dessa cidade santa mediante a proclamação do Evangelho do reino de Deus a todos, a celebração dos mistérios de Deus na liturgia e o serviço da caridade, especialmente em relação aos “irmãos mais pequeninos” de Jesus (cf. Mt. 25). Se não conseguimos, por enquanto, mudar todas as coisas na cidade e, nela, ainda permanecem as marcas do pecado e de um reino que não é o de Deus, isso não deve nos impedir de colocar desde agora nossas energias melhores a serviço do reinado de Deus.

“Deus habita esta cidade”: este é o lema do centenário da arquidiocese de São Paulo. Nossa presença e atuação de discípulos-missionários de Jesus Cristo precisa ajudar a metrópole a ser melhor; como pessoas de fé, temos a missão de lembrar à cidade toda que, “se o Senhor não construir a nossa casa, em vão trabalharão os construtores; se o Senhor não vigiar nossa cidade, em vão vigiarão as sentinelas” (Sl 126/127,1). Uma cidade sem Deus não seria boa para seus habitantes.



* Dom Odilo Pedro Scherer é arcebispo de São Paulo
Última Atualização ( 23 de Setembro de 2007 )

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