A liturgia da palavra deste domingo começa com três imperativos dados por Moisés ao povo: ouve, observa e converte-te. Três imperativos ditos em conseqüência lógica. Ouvir a voz do Senhor, ou seja, ouvir a palavra de Deus, que nos convida a observar os mandamentos e preceitos da lei de Deus e que, finalmente deveria levar ao ultimo imperativo, converter-se. Por outras palavras, podemos dizer que o convite inicial desta liturgia da palavra é que escutemos a palavra de Deus, que ela entre em nós e que nos deixemos purificar por esta. Qual é o objetivo? Para que tenhamos a vida eterna!
Será o tema da vida eterna que vai estar em discussão do evangelho de Lucas. Estamos no décimo capítulo deste evangelho, quando Jesus já iniciou a grande viagem que o vai levar a Jerusalém. Neste contexto, Jesus é colocado à prova por um mestre da lei. O evangelho nos coloca então na disputa entre dois mestres. A pergunta é simples: “que devo fazer para ter em herança a vida eterna?” Como bom Mestre que é, Jesus responde à pergunta que lhe foi dirigida com uma nova pergunta: “O que está escrito na lei? Como lês?” Esta era prática habitual nas disputas entre mestres. O Mestre da lei não deixou seus créditos por mãos alheias e respondeu perfeitamente à pergunta, o próprio Jesus confirma a boa resposta do Mestre. Acrescenta, “Faze isso e viverás!” Esta é sem dúvida a parte mais complicada, o Mestre conhecia bem a lei, mas será que estava colocando em prática o seu conhecimento da lei? Costumamos dizer em tom de brincadeira: “olha para o que eu digo e não para o que eu faço!” Talvez esteja aqui um dos grandes problemas que deve ser resolvido.
A disputa não está terminada. O Mestre não se dá por convencido e pergunta de novo: “quem é o meu próximo?” A pergunta é a ocasião para Jesus contar mais uma parábola, a famosa parábola do Bom Samaritano. A história é bem simples, certo homem descia de Jerusalém rumo a Jericó (ao contrário de Jesus que vai para Jerusalém, este desce), quando é vitima de um assalto que o deixa quase morto (a estrada que descia de Jerusalém a Jericó era famosa pelos assaltos). Ocasionalmente um sacerdote e também um levita descem a mesma estrada, acabam vendo aquele pobre homem quase morto e passam por outro lado. Ou seja, é um ato deliberado, perante o homem decidem passar por outro lado. O que motivou tal atitude? O texto de Levitico 21 nos dá a entender porque tomam tal atitude: eles estão obedecendo à lei, se tocassem no homem ficariam impuros. Aqui vai estar a verdadeira resposta de Jesus, o mandamento do amor ao próximo vai além da obediência cega à lei. Mas a parábola não terminou... Um Samaritano estava de passagem e vê o homem quase morto e, estranhamente, toma uma atitude. Estranhamente, porque os Samaritanos não eram muito bem vistos pelos Judeus, a briga entre estes dois povos é conhecida. Porém, o Samaritano sentiu compaixão por este homem. Sentimento que é próprio de Jesus, também Jesus sente compaixão várias vezes, compaixão pelos que sofrem, compaixão pelo povo que parece cansado e abatido, como ovelhas sem pastor. Mas o Samaritano não permanece apenas no sentimentalismo e toma atitude, leva aquele homem (sem medo de ficar impuro) para uma pensão para que pudesse receber tratamentos.
Jesus conclui a parábola, com mais uma pergunta para o Mestre da lei: “qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Mais uma vez o Mestre da lei responde corretamente: “Aquele que usou de misericórdia para com ele.” Segue, um novo convite de Jesus: “Vai e faze a mesma coisa!”
Entendemos que Jesus vai além da lei e nos convida a fazer a mesma coisa: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (Jo 13, 34-35). Para o discípulo de Jesus, a mera filantropia não é suficiente, o cristão é chamado a algo mais, a fazer como o seu mestre, como diz o apóstolo Paulo: “Nós, porém, temos o pensamento de Cristo.” (1Cor 2,16).
Boa Semana e boa missão... |