Narrow screen resolution Wide screen resolution
Brasil: Festas Juninas PDF Imprimir E-mail
Por Gilberto Paiva   
13 de June de 2007
No mês de junho é tradição celebrar as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro. Folclore ou religiosidade popular?

Quando entramos no mês de junho, ficamos à espera das festas chamadas juninas em homenagem aos três santos do calendário católico: Antônio, João e Pedro. Cada santo com sua história e sua experiência de vida. São João Batista, além de Nossa Senhora, é o único que celebramos o nascimento e o martírio. O nascimento, em 24 de junho e o martírio, em 29 de agosto.

João foi o anunciador e o precursor de Jesus Cristo. Pedro, o apóstolo da primeira hora que vivenciou ao lado de Jesus momentos decisivos do cristianismo narrados nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Com Santo Antônio, temos o jovem Fernando de Bulhões nascido em Lisboa, que entrou para a recente Ordem Franciscana e faleceu em Pádua, na Itália, em 1231.


Com uma vida tão diferente, em que cada um expressou sua adesão ao projeto cristão de maneira diversa, por que eles se tornaram os patronos destas festas tão populares? Festas juninas, no Brasil, entram na denominação de folclore ou de religiosidade popular? Como são festejadas e celebradas nas várias partes do Brasil? São perguntas que nos remetem às origens ou mesmo como foram trazidas para o Brasil pelos imigrantes europeus.

Origens

Estas festas têm origem em certas regiões da França e depois foram levadas para os países da Península Ibérica, de modo especial para Portugal. No Hemisfério Norte, os dias 22 e 23 de junho, são os dias mais longos do ano, chamados de solstício de verão. É o tempo propício para as colheitas. No Hemisfério Sul ocorre a noite mais longa do ano, celebrando o nascimento de João Batista e o período das colheitas. Exatos seis meses depois, ocorre o contrário. Celebrada nos Hemisférios Norte e Sul, a data de 25 de dezembro foi cristianizada como o nascimento do Menino Deus, Jesus Cristo. Além de cristianizar uma festa de origem pagã, somada à tradição portuguesa, no Brasil, houve a contribuição indígena e a africana na expressão destes festejos populares.

No Nordeste brasileiro ainda existe a tradição que manda que os festeiros visitem, em grupos, todas as casas onde sejam bem-vindos. Os donos das casas, em contrapartida, mantêm uma mesa farta de bebidas e comidas típicas para servir os grupos. Os festeiros acreditam que o costume é uma maneira de integrar as pessoas da cidade. Na parte sul do Brasil, mais precisamente no Sudeste, há também boas comemorações, sobretudo nas escolas, com forte destaque para o mundo caipira. Há danças de quadrilha, quermesse e os participantes se vestem como o homem do campo.

Para os católicos, a fogueira, que é o maior símbolo das comemorações juninas, tem suas raízes em trato feito pelas primas Isabel e Maria. Para avisar Maria sobre o nascimento de São João Batista e assim ter auxílio após o parto, Isabel pediu que se acendesse uma fogueira sobre um monte. Outra teoria afirma que estas fogueiras fazem parte da antiga tradição pagã de celebrar o solstício de verão no Hemisfério Norte. Em Portugal era tradição pular a fogueira nos dias dedicados a estes santos e queimarem-se alcachofras.

A quadrilha é uma dança francesa que surgiu no final do século XVIII e tem suas raízes nas antigas contradanças inglesas. Ela foi trazida ao Brasil no início do século XIX, passando a ser dançada nos salões da corte e da aristocracia. Com o passar do tempo, a quadrilha passou a integrar o repertório de cantores e compositores brasileiros e tornou-se uma dança de caráter popular.

Festas populares

No Nordeste brasileiro, as festas juninas são um evento tão grande quanto o carnaval carioca. Os que vão até lá o fazem por religiosidade ou por interesse nas expressões folclóricas? O importante é que na festa do povo se preserva uma tradição centenária que passa também pela homenagem aos santos católicos. É uma festa religiosa e popular que integra as várias etnias neste imenso país de dimensões continentais. Santo Antônio, o santo mais popular no Brasil, no período colonial, esteve ligado à proteção do país. Em seu nome, ou em períodos de guerra de defesa no litoral, era invocado como arma contra perigos imbatíveis. Recebeu patente e tinha soldo pago pelo governo, que geralmente o guardião de algum convento franciscano ia receber. Em seu nome foram construídas inúmeras igrejas por este país afora. A figura de Santo Antônio está ligada ainda à questão da proteção às moças solteiras arrumando um bom casamento, além de objetos perdidos onde se recorre ao santo como ajuda na busca. Em igrejas dedicadas a ele, todo o dia 13 de cada mês, além dos ofícios religiosos, há o costume de se distribuir os ditos “pães de Santo Antônio”.

São João tem sua expressão maior no Brasil nos festejos do Nordeste do Brasil. Seu nome está ligado ao maior São João do mundo, em Campina Grande, a 116 quilômetros da capital João Pessoa, no estado da Paraíba. É o tempo da colheita do milho e do feijão verde. Ainda que não aconteça uma colheita com fartura, o santo não deixa de ser homenageado. No Parque do Povo, uma área de 42 mil metros quadrados, tudo funciona e gira em torno do forró pé-de-serra. A festa é tão heterogênea que faz o Plenário do Congresso esvaziar, devido a corrida dos políticos para as suas bases eleitorais.

Cada região com suas características, com a chegada do mês de junho, é tempo de festas juninas. É tempo de comidas típicas, de danças e fogueiras de norte a sul do Brasil. É tempo de recuperar a mensagem deixada por cada um destes santos aos quais se presta homenagem e olhar para frente. Mais do que definir se é folclore ou religiosidade popular, é entender o que move o devoto ou o turista a celebrar a festa da vida. Vida que se vive na cidade grande onde a correria e o agito nos indicam momentos de parada, quando os ritos e as festas nos apontam o sentido maior, o da confraternização.

Vida que se vive no interior e no campo, onde a mesmice e a rotina são quebradas pelos ritos e as festas que nos indicam o sentido maior: celebração. Mastros com as imagens dos santos juninos, meninos e meninas vestindo-se de caipiras nos grandes centros urbanos, localidades como centros de turismo a partir da expressão das festas juninas... tudo converge para uma integração do povo. Os santos juninos, mais que folclore e religiosidade, tornaram-se patrimônio do povo brasileiro, católico ou não.



Gilberto Paiva é missionário redentorista, doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. professor de história no Itesp e Unisal, campos Pio XI.
Última Atualização ( 12 de June de 2007 )

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade