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O Beato Charles De Foucauld PDF Imprimir E-mail
Por P. Aquiléo Fiorentini, imc   
16 de May de 2007
O BEATO CHARLES DE FOUCAULD
PROTECTOR ANUAL

Caríssimos Missionários:

No dia 16 de Novembro de 2005, na celebração solene da beatificação do Beato Charles De Foucauld na Basílica de São Pedro, o Cardeal José Saraiva Martins declarou que «Charles De Foucauld exerceu uma influência notável na espiritualidade do século XX e ainda constitui, no início do terceiro milénio, uma referência fecunda, um convite a um estilo de vida radicalmente evangélico, para além do que cabe aos diversos grupos de que integram a sua família espiritual, tão numerosa e tão diversificada que é. Acolher o Evangelho em toda a sua simplicidade; evangelizar sem querer impor nada; dar testemunho de Jesus no respeito pelas outras experiências religiosas; reafirmar o primado da caridade vivida na fraternidade – eis alguns dos aspectos mais importantes desta preciosa herança que nos impele a fazer com que a nossa vida consista, tal como a do Beato Charles De Foucauld, em “gritar o Evangelho de cima dos telhados, …gritar que somos de Jesus”».

Nós, missionários, sentimos próxima de nós esta figura de apóstolo que tanto tem influenciado a missão do século XX através da sua carga espiritual tão extraordinária. Que a sua intercessão atice em nós o fogo da santidade e da missão para que possamos realizar plenamente o ideal que o Beato Allamano sonhou para o nosso Instituto.

Continuando agora a minha reflexão sobre o Protector Anual, procurarei com esta segunda parte entender melhor a influência que o testemunho de vida e a doutrina espiritual do Beato Charles De Foucauld poderia ter na nossa actividade missionária.

1. Missão

A evangelização:
uma perspectiva simples e radical

Para o Beato Charles De Foucauld, a evangelização é inseparável do Evangelho, já que constitui resposta a um pedido específico de Jesus. Ao meditar sobre o mistério da visitação, De Foucauld coloca nos lábios de Jesus as seguintes palavras: «Às almas que levam uma vida de silêncio, de escondimento, afastadas do mundo, na solidão, eu digo: ‘Trabalhai todas, mas todas, na santificação do mundo; e trabalhai nela como trabalha o meu Pai, sem palavras e em silêncio: ide fundar os vossos ermitérios entre os que me desconhecem; levai-me para o meio deles erguendo um altar, um sacrário e levai-lhes o Evangelho, não pregando com os lábios mas com o exemplo, não anunciando-o mas vivendo-o; santificai o mundo, levai-me ao mundo!’».

Neste apelo aparecem todos os elementos constitutivos do seu estilo de evangelização: a presença silenciosa, a importância da adoração eucarística e da oração, e sobretudo a exigência essencial de que a evangelização seja, antes de mais, uma imitação do próprio Jesus. A presença cristã em certas culturas actuais, onde a conversão ao cristianismo (ao menos de forma visível) não encontra lugar, tem, na vocação específica do Beato De Foucauld uma indicação profética: a dedicação, o acolhimento, a humildade, o serviço, a amizade, o esforço pela compreensão no amor…são auto-estradas da acção missionária. Viver assim significa realizar, de forma autêntica, embora não única, claro, a missão. O exemplo de De Foucauld estimula-nos também a sermos fortes e proféticos perante as várias formas de injustiça: «…é preciso ‘amar a justiça e odiar a iniquidade; e quando o governo temporal cometer uma injustiça grave contra aqueles por quem, em certa medida, somos responsáveis […], então é preciso dizer-lho […]; não temos o direito de ser ‘sentinelas de sorna’, ‘cães mudos’, ‘pastores alienados’».

A nova imagem do evangelizador

Como estava impossibilitado de pregar o Evangelho de forma directa, o Beato De Foucauld defendia que o estudo é uma estratégia eficaz no apostolado entre os muçulmanos do Sara. Procura, assim, conhecer os Tuaregues e a sua cultura, abordando-os com prudência e discrição, entabulando com eles relações de amizade. Aplica-se também a melhorar as suas condições de vida, graças ao testemunho da bondade. Em Maio de 1903, pensou em fundar os Irmãos do Sagrado Coração como «congregação de missionários que não pregam directamente o Evangelho mas que o fazem conhecer, admirar, e amar com a vida de oração, de caridade e de pobreza».

Exerce o ministério com os cristãos que encontra, enquanto que, para os outros, apenas vai preparando o terreno. Não pretende fazer proselitismo embora deseje ardentemente que todos possam um dia viver da alegria que surge do encontro com Jesus. “Por amor da difusão do Evangelho estou disposto a ir até aos confins da terra e a viver até ao juízo universal”.

Com esta sede de levar todos a Jesus, atira-se para o interior do Hoggar, para atingir as tribos nómadas dos Tuaregues. Não se apressa; estabelece-se como um irmão entre homens de outra religião, com o desejo de que, a partir do seu amor, possam captar a infinita bondade do seu Senhor. Partilha os seus ideais convivendo com as dificuldades do povo de que faz parte e oferecendo-lhes a sua amizade fraterna. Deseja que o seu teor de vida melhore, que sempre se respeitem os direitos alheios e que se tenha grande consideração pelos seus valores culturais. É assim que dá início à sua obra de evangelização. Empreende um enorme trabalho de transcrição e tradução da sua língua (colhendo a literatura popular, léxico e dicionário) para que a sua cultura encontre espaço no mundo e para que um dia, quando chegar a hora, possam ouvir Jesus a falar…nessa sua língua.

Em suma: Charles De Foucauld ensina com o seu viver que, se houvermos de chegar mesmo ao coração daqueles que queremos evangelizar, o melhor método é tornarmo-nos um deles, tornarmo-nos irmão universal de todos eles. Define-se a si mesmo como monge-missionário. Monge, porque passa horas e horas diante de Jesus Eucarístico, em silêncio e na solidão do deserto, nos ermitérios que construiu e em que viveu, desde Beni-Abbés a Tamanrasset, e a Assekrem (na Argélia). A Palavra de Deus torna-se para ele como que uma gota de água que, à força de bater em pedra dura, tanto dá até que fura. Jesus torna-se o seu “único modelo” que leva ao Pai. Missionário, porque, por amor de Jesus e dos irmãos, sai da solidão que tanto aprecia e vai socorrer os mais necessitados, batendo-se contra a escravatura e acolhendo quemquer que sofra necessidade.

Apóstolos sim, mas com quê?

O Beato Charles De Foucauld é muito claro e diz aos evangelizadores, de modo muito directo, quais são os meios a usar na abordagem dos seus auditórios: “com todos os que estou relacionado, e sem excepção, eu pratico a bondade, a ternura, o afecto fraterno, o exemplo da virtude, a humildade e a doçura…que sempre atraem e assim os tornam cristãos. Com alguns, sem nunca proferir uma só palavra sobre Deus ou a religião, ser paciente como o seria Deus, sendo bom como Deus seria, revelando-me seu irmão e rezando; com outros, falar de Deus na medida em que são capazes de O aceitar e, tão logo tencionem procurar a verdade mediante o estudo da religião, colocá-los em contacto com um sacerdote muito bem escolhido, que seja capaz de lhes fazer algum bem…Acima de tudo é preciso ver em cada pessoa um irmão».

Dá-se a conhecer aos nativos procurando entrar numa relação de amizade e confiança com eles. Numa sua obra de título Observações sobre as viagens dos missionários no Sara, transparece o seu método de vida e de missão. Diz por exemplo: «Sempre que possível, os missionários devem ficar sozinhos, tomar as refeições sozinhos, para que não percam tempo e assim se possam dedicar aos exercícios espirituais e às boas obras, para que não estejam constrangidos a ouvir conversas malévolas e não se cause decréscimo no respeito de que gozam ao tornarem conhecidos os seus próprios defeitos e, além disso, para que mais facilmente estejam acessíveis aos pobres». Mas, onde quer que houvesse uma tenda, um conjunto de tendas, ou uma casinhota qualquer, lá ele parava, sempre, para cimentar a sua amizade com as pessoas.

Torna-se amigo dos Tuaregues, ou melhor, irmão, irmão universal. Não vive no meio deles mas juntamente com eles. Convida-os à sua cabana e faz-se hóspede nas deles: bebe o chá verde com eles, respeita os seus costumes, ouve as mulheres que lhe cantam as cantigas da tribo e lhe contam estórias muito antigas. Aprende, assim, a conhecer os seus problemas, desejos e temores. Passado algum tempo, já fala e pensa na língua deles. Torna-se um deles. Chamam-lhe Marabuto, ou seja, o homem da oração e o grande chefe de Hoggar Musa, Ag Amastan, honrando-o com a sua amizade.

O Beato De Foucauld é um pioneiro no estudo das línguas locais e no conhecimento da cultura desta gente, qual parte integrante da sua evangelização. Acredita que a inculturação é uma emanação do mistério da incarnação, de forma que quem se empenha em conhecer os irmãos, aproxima-se do próprio Cristo anonimamente presente no meio deles.

Para preparar o caminho para futuros missionários, completa uma série de estudos linguísticos de alto valor científico. Traduz os quatro Evangelhos para a língua Tuaregue. Escreve uma gramática e compila um dicionário. É o primeiro sacerdote a viver entre as gentes do Hoggar. O seu projecto pastoral contempla, entre outras coisas: «Fazer tudo o que é possível para ajudar os pobres destas regiões, esquecendo-me completamente de mim próprio; fazer anualmente o giro dos arrhem (ou pequenas colónias de agricultores) de Hoggar; aceitar os convites de viajar pelo Sara se for útil; e se possível, passar, todos os anos, um ou outro dia nas tendas do Hoggar».

2. Atitudes básicas do pequeno irmão

Humildade

«Deus quer mostrar-nos que a pequenez e a humildade são a condição da grandeza. Jesus Cristo não desejou mais que isso para si mesmo». A humildade implica uma atitude de serviço, de amor, de tolerância e de respeito. Quer isto dizer: alcançar a simplicidade e a santidade, que estão simbolizadas naquela atitude confiante duma criança. Se não formos capazes de humildade, nem sequer teremos capacidade para a alegria, porque apenas a humildade tem o poder de destruir o egocentrismo, que torna impossível a alegria. Uma pessoa humilde não teme o insucesso, não tema nada. A humildade consiste em sermos exactamente como Deus vê. Vem acompanhada da virtude do bom humor; oferece a todos um largo sorriso, que é fruto da vida nova que Cristo nos dá – a alegria pascal dos ressuscitados, como nos recomenda Santo Agostinho.

Pobreza
«...O Mestre foi pobre e o servo não deve ser rico. O Mestre viveu do trabalho das próprias mãos e o servo não deve viver de rendimentos próprios…».

Aforrar e amontoar bens equivale a privar outros, a deixar outros na pobreza, na fome e na miséria. A pobreza é o lugar privilegiado do divino, a escola superior do verdadeiro amor, o apelo mais forte à misericórdia, o encontro facilitado com Deus, o modo mais seguro de passarmos por este mundo.

Oração

«Na oração é que nós aprendemos a conhecer Jesus e a permanecer em união de intentos e sentimentos com Ele».

A oração é a primeira missa em prática, através da palavra, do gesto e do silêncio, da adesão incondicional à entrega de si mesmo a Deus. Para nós, primeiro, e depois para quem vier a nós com sede de Deus. Charles De Foucauld era homem de oração, que não separava a presença de Jesus na Eucaristia da Sua presença na pessoa pobre. Andava pelo deserto à procura de Deus mas também à procura dos mais afastados. Fundou a União de orações pela evangelização dos povos, projecto que cultivou no coração durante muito tempo e que tinha sempre como objectivo a oração pelas missões.

Trabalho

O Irmão Charles acredita que a santidade evangélica é possível a todos os que têm uma condição de vida normal e pobre e estão obrigados a trabalhar para poder viver. De facto, os que se deixam guiar pela “espiritualidade de Nazaré” conseguem demonstrar que é possível atingir a santidade mediante a oração e o trabalho.

Bondade

«Faz-se o bem não pelo que se diz ou se faz mas pelo que somos, na medida em que o amor acompanhar os nossos gestos. Jesus vive em nós e os nossos gestos são gestos de Jesus que opera em nós e por nós. O homem faz o bem na medida da santidade que possui. Devemos ter sempre presente esta verdade».

O Beato Charles De Foucauld vive a sua vida de oração pela meditação contínua da Sagrada Escritura e pela adoração. Num interminável desejo de ser, para cada pessoa, o «irmão universal», ele esforça-se por se tornar imagem viva do Amor de Jesus. «Gostaria de ser bom para que se possa dizer: se tal é o servo, como não será o Patrão!»

Procura realizar com os Tuaregues a sua “obra de fraternização” simplesmente “gritando o Evangelho com a vivência da vida”. É assim que explica o facto a um seu amigo protestante: «Tenho a certeza de que o bom Deus acolherá no céu aqueles que foram bons e honestos, sem terem que ser católicos-romanos. Tu és protestante, outros são descrentes e os Tuaregues são muçulmanos. Estou convencido de que Deus nos receberá a todos se o merecermos».

O coração da fraternidade é a capela, na qual passa longas horas de adoração à Eucaristia. É o centro do seu apostolado, que considera “uma missão enorme, maravilhosa, mas que requer muita virtude”. Trata-se de continuar o mistério da Visitação: “Fazer o maior bem possível às populações muçulmanas, que são tão numerosas e tão abandonadas, levando-lhes Jesus no Santíssimo Sacramento, tal como a Virgem Santa santificou João Baptista aproximando-o de Jesus».

Abandono

«Meu Pai, eu me abandono a Vós: fazei de mim o que Vos agradar. Façais o que fizerdes de mim, eu Vos agradeço por isso. Estou pronto para tudo para que a Vossa Vontade se faça em mim e em todas as Vossas criaturas – nada mais quero, meu Deus. Nas Vossas mãos eu entrego a minha alma; eu Vo-la dou, meu Deus, com todo o amor do meu coração, porque eu Vos amo. E é para mim uma exigência de amor este dar-me, este colocar-me nas Vossas mãos sem medida, com uma confiança infinita, porque Vós sois o meu Pai». Trata-se duma bem conhecida oração de abandono ao Senhor da vida e da missão. Que também se torna um desafio para todos nós.

Martírio

«Os pequenos irmãos devem pensar diariamente que um dos benefícios com que o seu Esposo Jesus os dotou é exactamente o da possibilidade, o da esperança bem fundamentada, de encerrarem a sua própria vida com o martírio: que se preparem continuamente para este fim bem-aventurado…». O Beato De Foucauld sempre desejou dar a vida pelo seu Senhor e por aqueles a quem Ele o enviara.

Quem se deixa guiar pelo Espírito que animava Jesus de Nazaré está capacitado para servir a verdade até ao empenho total do martírio. De facto, tudo aquilo que procede dum coração puro, recto e nobre, é como um uivo ensurdecedor até mesmo para os ouvidos dos violentos. O gesto de dar a própria vida para salvar a de outros é a máxima demonstração de amor e de generosidade.

3. Intuições perenes

Passo agora a uma listagem de algumas intuições que, tendo surgido de um coração enamorado de Deus e dos irmãos, ainda hoje continuam a fazer seguidores na Igreja e em todos os contextos da missão. A recente Beatificação de Charles De Foucauld foi uma autenticação da sua doutrina e da sua santidade de vida por parte da Igreja.

O envolvimento dos leigos na missão

Perante as dificuldades que muitos governos têm em acolher sacerdotes e religiosas na Argélia, Charles De Foucauld pensa em envolver os leigos como colaboradores da missão. E é sobretudo lá para o fim da vida que se dá conta do grande trabalho que se poderia realizar entre os Tuaregues através da colaboração dos leigos. Precisa-se de escolas, de formação para mulheres, de curar os doentes…e não é permitido a nenhuma irmã religiosa ir para o Sara nestes tempos. É então que ele escreve a Regra para uma associação de leigos. Está plenamente convencido de que, mediante o seu exemplo, eles irão poder “contagiar” muita gente, tal como acontecera nos princípios do cristianismo. «Seriam precisos cristãos como Priscila e Áquila, capazes de fazer o bem em silêncio, vivendo como pobres vendedores ambulantes».

Novos modos de evangelizar

A situação “extrema” com que De Foucauld se deparou a viver favoreceu o nascimento duma metodologia missionária inovadora. Trata-se duma metodologia que, em primeiro lugar, visa evangelizar os ambientes onde os cristãos são uma pequena minoria. Em segundo lugar, ela tende a envolver os leigos em toda a linha.

A estratégia que o Beato Charles De Foucauld propõe radica na análise rigorosa do ambiente e da sociedade Tuaregue em que vivia. Sugere, antes de mais, que se promovam e desenvolvam as capacidades humanas do povo que acha merecerem muita atenção: «Seria preciso “instruí-los” e, juntamente com a instrução, introduzir “educação e civilização”». Ele entende que a civilização «consiste em duas coisas: instrução e doçura». Mas para além do método, o irmão Charles recomenda uma atitude de auscultação e de encontro com o outro com toda a discrição, sob o olhar de Deus. Assim escreve à Madre Augustine: «Perante a imensidão da obra e o pequeno número de obreiros, vemos a necessidade de suprir à carência de meios externos com meios internos, sobrenaturais. É uma graça. Os meios naturais não estão ao nosso alcance; os sobrenaturais, sim, estão sempre connosco; e são muito mais potentes! Esforcemo-nos então por adquirir cada vez mais a consciência da presença de Jesus». O melhor apostolado para o Beato Charles De Foucauld é o da bondade: «Todos nós cristãos fomos chamados, tanto homens como mulheres, tanto sacerdotes como leigos; tanto solteiros como casados, a ser apóstolos do testemunho para podermos levar Jesus aos outros, mercê de um modo de agir afável e tornando-nos tudo a todos». É um “apostolado indirecto”: o apostolado da amizade que evita toda forma de pressão e que não suscita desconfiança ou antipatia.

A imitação da vida escondida de Jesus de Nazaré

Eis o âmago do carisma perene do Irmão Carlos de Jesus. Foi este o ideal que o levou, primeiro aos Trapistas, depois a Nazaré e, por fim, a ser sacerdote-missionário no Sara para «manifestar o Evangelho de modo laborioso e escondido, naquele silêncio em que Deus revela a sua presença sob a forma de “uma suave brisa”».

4. A mensagem perene do Beato Charles De Foucauld

A sua singular figura de asceta e de místico inspirou, até agora, dezoito Institutos religiosos, todos eles desejosos de partilhar do seu carisma no seguimento de Jesus. Influiu de modo notável na espiritualidade do século XX e ainda hoje, no início do terceiro milénio, é um ponto fecundo de referência, sendo até uma provocação. Acolher o Evangelho na sua pura simplicidade, evangelizar sem a pretensão de conquistar, dar testemunho de Jesus no pleno respeito por qualquer experiência religiosa diferente, reafirmar o primado da caridade vivida ao estilo da fraternidade – eis alguns aspectos relevantes da sua preciosa herança.

A sua mensagem, embora endereçada à sociedade de hoje, radica na tradição dos apóstolos e dos mártires: «Nós somos levados a colocar em primeiro lugar as obras cujos resultados são visíveis e tangíveis. Mas Deus dá o primeiro lugar ao amor e depois ao sacrifício inspirado pelo amor, e à obediência que emana do amor. É preciso amar e obedecer por amor, oferecendo-nos como vítimas com Jesus, no modo que mais Lhe agradar! Toca a Ele manifestar, se assim o entender, que vivemos a vida de São Paulo ou a de Santa Maria Madalena». Por outras palavras: a vida e a morte do Beato Charles De Foucauld são para nós um apelo a que descubramos o que há de mais radical e mais essencial na vocação cristã – a vida segundo o Evangelho, o seguimento de Jesus, a primazia de Deus na missão. A nós missionários, ele ensina-nos um modo simples e radical de evangelização, que é inseparável do seguimento total de Cristo. E demonstra a falsidade da ideia de que a evangelização consiste puramente em comunicar o conteúdo do Evangelho, sem incluir a responsabilidade por o tornar credível mediante o testemunho da própria vida.

O Beato Charles De Foucauld teria podido pensar que a sua missão acabara no fracasso total. Mas, à luz da Sexta-Feira Santa, não foi nada disso. A sua experiência de vida não foi senão o percurso da de Jesus, da dos santos e da de todos os cristãos. O seu exemplo serve-nos de consolação quando também nós podemos ser privados de êxito no nosso apostolado; quando, apesar da realização de todos os esforços pastorais, as nossas igrejas ficam vazias e a sociedade parece encaminhar-se para a descristianização.

Conclusão

Acabamos de entrar em contacto com uma pessoa de Deus que viveu uma espiritualidade original, caracterizada por cores carregadas tanto na dimensão horizontal como na vertical. Foi um herói de santidade mas também um prodígio de saber, um linguista inigualável, um homem de relacionamento, admirável desenhador e trabalhador infatigável. Este homem, depois de uma longa caminhada de procura, encontrou o seu lugar na Igreja e uma realização pessoal plena numa forma de vida completamente entregue a Deus e ao povo.

Que a sua “pedagogia de santidade” nos espicace a todos, que somos Missionários da Consolata, para que caminhemos com decisão para aquela “medida elevada de vida cristã normal” à qual a Igreja nos convida neste início de milénio. Que a intercessão da Consolata e do Beato José Allamano sustente cada um de nós a viver intensamente o biénio de santidade que o XI Capítulo Geral definiu para o Instituto.

Com fraternas saudações,

P. Aquiléo Fiorentini, imc
Padre Geral
Última Atualização ( 15 de May de 2007 )

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