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2° Domingo de Páscoa PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Patrick Silva, imc   
13 de April de 2007
Após a grande noite da vigília pascal, quando proclamamos que o Senhor não tinha ficado naquele túmulo, que aquilo não era o fim, mas que ele vive! Somos convidados a reler vários episódios que relatam as aparições do ressuscitado aos seus discípulos. Estes episódios nem sempre têm uma continuidade lógica, mas querem dar a conhecer todos os episódios das aparições de Jesus após sua ressurreição. No evangelho de João estes episódios são “colocados” na manhã (Jo 20, 1-18) e na tarde daquele primeiro dia depois do sábado e oito dias depois, no mesmo lugar e no mesmo dia da semana.

Nos encontramos perante o acontecimento central da nossa fé, um evento que nos interpela pessoalmente: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor15, 14).

Na tarde daquele mesmo dia, alguns discípulos se encontram reunidos, mas com as portas fechadas. As portas fechadas podem ter aqui dois sentidos, de um lado o medo que estes sentem (de notar uma certa ironia, a ressurreição é vida, enquanto que os discípulos fecham as portas com medo de morrer!), mas de outro lado, é também sinal que este Jesus ressuscitado não está mais ligado às leis da física, e por isso, mesmo com as portas fechadas pode entrar no lugar onde os seus discípulos estão.

O Ressuscitado ao apresentar-se no meio do seus diz: “A paz esteja convosco”, saudação típica entre os Judeus, mas que no texto vai para além da simples saudação. Jesus tinha prometido a paz no seu discurso “final” (Jo 14, 27), quando se despedia dos seus discípulos, que ficaram aflitos. É a paz messiânica, uma paz que libertar de todo o medo, é a vitória sobre o pecado e sobre a morte, é a reconciliação com Deus. A expressão é repetida por bem três vezes.

De imediato Jesus mostra as suas feridas. Elas são as provas evidentes e tangíveis que é aquele que foi crucificado. Ao mostrar as feridas Jesus quer evidenciar que a paz que ele dá, é a paz que vem daquele que esteve na cruz. A alegria se apodera dos discípulos, finalmente o medo desaparece para dar lugar à alegria. Quem acolhe o ressuscitado recebe este dom, de conseguir deixar de lado os seus medos, para receber a alegria.

Segue-se a missão dos discípulos. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20, 21). Jesus é o primeiro missionário. Não se trata de uma nova missão, mas da mesma missão de Jesus, que agora se estende àqueles que são os seus discípulos. Para que foi enviado o Filho de Deus? “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). A vontade de Deus é salvar o mundo, e é dentro desta vontade que Jesus se insere e que quer que os seus discípulos se insiram. Isto é, a missão dos discípulos é continuar o plano salvífico do Pai.
Ao terminar estas palavras Jesus soprou sobre os discípulos. O verbo aqui usado é extremamente importante, pois está ligado ao mesmo sopro de Deus que dá vida ao ser humano no livro do Gênesis (Gen 2,7). Este verbo é usado somente aqui em todo o Novo Testamento. Estamos perante uma nova criação, uma criação baseado na ressurreição de Jesus, ou seja, uma criação não mais submissa à dura dominação da morte, mas agora “submissa” à vida.

Para poder enfrentar a missão é necessário o Espírito, só ele poderá guiar os discípulos nos caminhos da missão. Jesus dá também aos seus poder de perdoar pecados, para os Judeus, somente Deus tinha esse poder, Jesus (que é Filho de Deus) delega esse poder também aos seus discípulos, para que na sua missão possam libertar os prisioneiros do pecado.

Ao grupo dos discípulos estava faltando Tomé (o evangelho não dá a conhecer o motivo da ausência). Após a aparição, os discípulos se apressam a contar a novidade a Tomé: “Vimos o Senhor”. Porém, o relato dos amigos não bastou a Tomé, queria mais que o relato daqueles que tinha visto, queria tocar, queria também ele ver com os seus próprios olhos. Durante uma semana terá permanecido naquela terrível dúvida, será que é mesmo verdade, imagino as lutas internas do pobre Tomé, entre as dúvidas e as certezas da sua fé. Talvez Tomé não tenha acreditado, porque esperava algo mais daqueles que já tinham visto o Ressuscitado, esperava outra reação da parte deles, afinal eles continuavam fechados na mesma sala e sempre... porquê tanto medo?!

Oito dias depois, o mesmo episódio se repete, apenas com uma diferença: a presença de Tomé. Estavam de novo reunidos, de novo com as portas fechadas (agora não se justifica o porquê das portas fechadas). De novo se coloca no meio deles e os saúda com a mesma expressão de sempre: “A paz esteja convosco”. Jesus então se dirige a Tomé, convidando-o a colocar os dedos nas suas feridas. Mas o convite vai mais além, é um convite que o quer fazer passar da incredulidade à fé. A resposta não poderia ser mais acertada: “Meu Senhor e meu Deus.” Tomé é neste episódio nosso interprete. Ele representa a dificuldade de crer na ressurreição de Jesus. Por vezes nos resulta mais fácil crer no Jesus morto da sexta-feira, do que acreditar no Jesus ressuscitado. Tomé, não é um simples cético, mas um homem que procura a verdade. Jesus bem sabia que Tomé o amava e o quis ajudar na suas dificuldades. Jesus o fez amadurecer na sua própria fé. A resposta acertada de Tomé é muito profunda. Ele faz a profissão de fé no Ressuscitado, Jesus é na verdade o Senhor Deus.

Quanto se segue, deveria ser para nós, atuais crentes em Jesus de enorme alegria. Jesus nos declara felizes: “Felizes os que não viram e creram”. Jesus aponta aqui para uma fé mais autentica e madura. Uma fé que se alcança, sem as pretensões de Tomé, uma fé acolhida como dom e ato de confiança. O exemplo concreto dessa fé é Maria (Lc 1,45).

Este domingo poderia ser chamado, domingo das feridas. À pergunta que cada um se deveria colocar: onde posso encontra o Ressuscitado? Jesus responde dizendo: olha o meu corpo, contempla o meu corpo, escuta o meu corpo... lá onde uma pessoa está ferida, aí me podes encontrar! Este corpo ferido de Jesus conta uma vida entregue ao amor, amor que ele viveu até ao fim, um amor pleno. O amor está na origem da ressurreição. A minha vida é uma vida ressuscitada somente quando é uma vida capaz de amar, capaz de se entregar ao outro. É uma vida ressuscitada quando sou capaz de dizer: estas são as minhas feridas... e estas feridas têm nomes bem concretos; para alguns é a doença, para outros é o abandono, para outros é a traição, para outros é a violência. Entre as nossas responsabilidade de cristãos é a de mostrar o corpo de Jesus que aponta para a vida ressuscitada.

Última Atualização ( 13 de April de 2007 )

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