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Quaresma: Rasgar o coração a Deus e ao próximo PDF Imprimir E-mail
Por Rogério Gomes   
07 de March de 2007
A Quaresma é um tempo favorável em preparação à festa litúrgica por excelência, a Páscoa do Senhor, e nela, a nossa páscoa!

A Quaresma não é mera convenção criada pela Igreja, mas um exercício litúrgico-espiritual que conduz os fiéis à experiência da fé. Por isso, é importante conhecer o sentido deste período para celebrá-lo e expressar na vida pessoal e comunitária este mistério salvífico.

Para chegar à estrutura litúrgica da Quaresma como a temos hoje, precisamos entender um longo processo histórico.

A palavra Quaresma deriva de dois termos: Quadragésima, do latim, que significa 40 dias e/ou quadragésimo dia e Tessarakoste, do grego quadragésimo. Portanto, há uma relação com o numeral 40. Nas Escrituras este número, em suas variações, ocorre 192 vezes, nas diversas situações sociais, políticas, econômicas e religiosas dos israelitas. Refere-se aos clãs, ao número de homens do Exército, à idade das pessoas, aos períodos de tranqüilidade e de paz do povo, ao tempo de descanso de uma terra, à plenitude da fecundidade, ao reinado de reis, ao castigo de uma pessoa, às riquezas, à durabilidade do despovoamento de uma região e medidas econômicas...

Do ponto de vista teológico-litúrgico-espiritual o sentido se aprofunda e relaciona-se com a experiência que o povo faz de Deus ou como lê a ação Dele em sua história: os 40 dias e 40 noites da inundação do Dilúvio originam uma nova humanidade purificada pelas águas (Gn 7, 4-17); a peregrinação do deserto e a travessia do Mar Vermelho para chegar à Terra Prometida, tempo de provação e de purificação (Ex 14, 18-27); Moisés que permanece 40 dias e 40 noites sem comer e beber para receber a Aliança no Sinai (Ex 24, 12-18; Dt 9, 9); a penitência dos ninivitas antes de receberem o perdão de Deus (Jn, 3, 4); a caminhada do profeta Elias durante 40 dias e 40 noites para chegar ao monte de Deus (1Rs 19, 3-8); o jejum de Jesus durante 40 dias e 40 noites, quando foi tentado pelo Diabo (Mt 4, 1-11), e outras.

Deixando o mundo judaico e voltando para o cristianismo, durante os três primeiros séculos não se constata nenhuma longa preparação para a Páscoa, embora os padres da Igreja como Santo Atanásio, Cirilo de Jerusalém e Santo Agostinho mencionem a importância do jejum, como prescrição de solenidades ou preparação dos catecúmenos para receberem o batismo.

É no Concílio de Nicéia (325 d.C.) que o termo “Quaresma” começa a ganhar força. Nesse período, havia um jejum de três a sete dias, mas a partir da metade deste período, acrescenta-se três semanas num total de quatro. Esse costume adentra o século VI e consolida-se no VII, quando surge o hábito de jejuar na quarta-feira antecedente ao primeiro domingo da Quaresma. Estabelece-se o rito de imposição das cinzas que cunha o termo Quarta-feira de Cinzas e jejua-se, ao longo de 40 dias, exceto nos domingos, comendo uma refeição ao dia, sem ingerir carne. Atualmente, a Quaresma se inicia na Quarta-feira de Cinzas e termina na quinta-feira da Ceia do Senhor.

A Espiritualidade quaresmal

As Cinzas na Quarta-feira abrem um tempo de profundo questionamento existencial e espiritual. Recordam a condição frágil do ser humano que caminha para a morte, sua situação pecadora e penitente, mas que deve converter-se e caminhar para a vida nova em Jesus. Propõem um itinerário com três atitudes: o jejum, a oração e a caridade, um combate espiritual ao ter, ao prazer e ao poder, deuses interiores e da sociedade, que ofuscam a experiência do Deus de Jesus Cristo.

O jejum: liberdade diante da opulência

Jejuar não significa apenas privar-se dos alimentos. É uma experiência muito mais ampla. É abster-se das forças interiores que nos fragmentam. O jejum ajuda a nos libertar de nossos vícios e paixões desmedidas. Abre o nosso ser para a simplicidade. Ensina-nos a permanecer com o essencial. Abre o nosso apetite às coisas de Deus, elimina as impurezas interiores. Predispõe o espírito humano para integrar-se ao Espírito de Deus e questiona a nossa solidariedade com aqueles que nada tem, por causa da opulência de outros. Reafirma nosso itinerário espiritual, libertando-nos do egoísmo e incita a uma busca de vida plena, na vida nova que emanará da Páscoa do Senhor.

A oração: intimidade com Deus

Orar é colocar-se, numa atitude de fé perante Deus com o coração aberto, num diálogo de profundo amor. Neste tempo quaresmal a oração deve interpelar-nos a uma prática concreta de vida, ao testemunho e a contemplar o rosto das pessoas sofridas, vítimas da exclusão de nosso tempo e a evitar tudo o que é prejudicial à vida pessoal e à do próximo. O exercício da oração pessoal e comunitária deve se tornar nosso alimento diário para nos fortalecer não somente neste período, mas por toda a vida, para que ela seja fundada na vontade de Deus. A oração é uma maneira de ler a ação de Deus na história do mundo e perceber o seu rosto amoroso que acolhe a todos sem usar instrumentos de poder e de opressão.

Caridade: compadecer-se como Jesus

O ter, o poder e o prazer, as tentações que Jesus sofreu no deserto, cegam a pessoa para a prática da caridade, pois a distanciam de si mesma e dos outros. Não permite a atitude do Bom Samaritano, que diante do homem caído chegou junto, viu e moveu-se de compaixão, aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramou óleo e vinho, colocou-o no seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados (Lc 10, 23-37). A caridade é a base para uma espiritualidade da compaixão, aquela semelhante a de Jesus que quando via as multidões famintas, tristes, desesperançadas, movia-se até elas e restituía-lhes a dignidade.

Na Quaresma percorremos com Jesus Cristo o itinerário da tentação, da provação e da obediência filial ao Pai. transfigurando-nos Nele, cujo brilho cura-nos das cegueiras, renovando nossos olhos para a fé. É tempo de nos convertermos, renovarmos o templo interior, a fidelidade à Aliança com Deus, e crermos de todo o coração, rasgando-o para a vida nova, libertando-nos das amarras interiores para impelir-nos à misericórdia e à reconciliação.

Para refletir:

1. Como você vivenciou a Quaresma nos anos anteriores, pessoal e comunitariamente?

2. O seu comprometimento pessoal, neste tempo litúrgico, ilumina a sua caminhada espiritual durante todo o ano ou logo cai no esquecimento?

3. O que fazer para que a Quaresma em nossas comunidades seja um tempo de transformação da vida?


Rogério Gomes é sacerdote redentorista, autor de artigos em jornais e revistas de Teologia e trabalha na formação dos estudantes de Teologia, no Alfonsianum, São Paulo, SP.
Última Atualização ( 06 de March de 2007 )

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