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| Amazônia: Atitudes de inculturação |
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| Por Antônio de Assis Ribeiro, Bira | |
| 09 de March de 2007 | |
O missionário ou missionária que deseja trabalhar na Amazônia deve preparar-se para viver numa realidade complexa e de beleza exótica. Deve ter espírito de abertura e despojamento.A Amazônia constitui um dos assuntos de maior interesse atualmente. Dizem que a Região é a segunda área de maior cobiça do mundo. Dois fatores alimentam esta premissa: razões ecológicas e razões econômico-estratégicas. Mas, afinal, o que é a Amazônia? A resposta a essa pergunta depende do ponto de vista... A Amazônia é uma realidade poliédrica, multifacetada, pluridimensional e complexa! Por isso podemos dizer que a Amazônia é uma área geográfica multinacional, uma zona demográfica multicultural, um território que contém objetos e fenômenos naturais de rara beleza, um campo de concentração de grandes conflitos de interesse, uma região de grandes contrastes entre a riqueza natural e a pobreza humana. Do ponto de vista eclesial é “terra de missão” e um convite à solidariedade. A Campanha da Fraternidade deste ano volta-se para a Amazônia: estimula-nos a conhecê-la, a sair da ignorância, a superar opiniões preconceituosas, a cultivar solidariedade para com os povos necessitados que lá vivem e nos desafia para o voluntariado cristão e o serviço missionário. Propomos, pois, uma reflexão sobre atitudes bem-vindas na vivência da missionariedade na Amazônia. Não basta a empolgação de servir com disposição de ir às chamas (cf. 1Cor 13, 7); é necessário que este fervor seja permeado de racionalidade alicerçado Naquele Amor de Cristo para com a humanidade (cf. Ef 3, 19). Processo dinâmico A base teológica da inculturação está presente no fato da Encarnação do Verbo Divino. Deus, na sua grandeza e dinâmica transcendência, assume a realidade humana. A humanidade acolhe o divino, divinizando-se também, e assim, se torna enobrecida! A divindade abraça não uma dimensão, não simplesmente um corpo, mas a totalidade das dimensões humanas... não maquia e nem finge, não adultera e nem nega o dinamismo de cada uma delas, simplesmente as acolhe com ternura na perspectiva de Salvação da humanidade. Jesus Cristo, Palavra do Pai Encarnada, manifestando-se como Bom Pastor, visualiza a totalidade da realidade da vida de suas ovelhas: seus valores (fé), o que pensam (idéias...), o que sentem (medos, angústias...), de que males padecem (doenças, dominações), ameaças, políticas as quais estão submetidas (religiosas, imperiais), o peso das tradições e suas conseqüências, oportunidades, perspectivas de vida mais digna etc. Jesus Cristo é o nosso modelo acabado de “missionário inculturado” numa realidade humana. A partir Dele, “inculturar-se” não quer dizer renunciar à sua identidade, negar a própria origem, assumir uma forma postiça de pensar dos outros. Inculturação não é o fato de um encontro, mas é um processo de aproximação, constante e pluridimensional azeitado pela atitude de diálogo, simpatia e empatia em relação ao “mundo diferente” no qual o missionário se encontra. Atitudes contraditórias Missionários que produzem fatos carregados de insensibilidade, de arrogância, de imposição de esquemas mentais distantes da sensibilidade do povo atuam em muitos lugares, e não só em terras amazônicas. Tais atitudes contrariam a gratuidade missionária que deve ser caracterizada pelo “servir” e dar vida ao povo (cf. Mt 20, 28), pelo “revigorar” a chama que ainda fumega (cf. Is 42, 3), “acolher” as maravilhas de Deus no meio do seu rebanho e “respeitar” os valores e a sensibilidade do povo. O clima na Região, conhecido no mundo todo como tropical, é quente e úmido. A gratuidade do servir, alimentada pela espiritualidade missionária, convida a quem vai trabalhar para fazer a experiência da adaptação serena e alegre. Quando o amor é grande, tudo é suportável, o calor, o frio, a fome, a sede, a espera (cf. 1Cor 13, 7); assim Paulo confessou a Timóteo: “esse é o meu Evangelho por causa do qual eu sofro... tudo suporto por causa dos escolhidos” (2 Tm 2, 10). Como conciliar essa nobre atitude paulina com as de certos “missionários” e “missionárias” que vivem (na Amazônia ou não) maldizendo o clima, reclamando dos alimentos, desconfiando da cultura, menosprezando o saber popular e ao mesmo tempo importando da própria “pátria” suas iguarias, desprezando as locais? Soberba!? Sem a experiência da kênosis - do desapego - (cf. Fil 2, 6) não promovemos o Reino de Deus e no seu lugar haverá uma simples e cansativa prestação de serviços! Atitudes saudáveis Considerando a complexidade do contexto amazônico é certamente difícil precisar conselhos específicos para quem deseja fazer uma experiência missionária nesta Região. Mais acertado, talvez, seria dar indicações genéricas válidas para qualquer contexto. Como missionário, proponho o meu esforço de ter uma presença significativa no meio do povo onde trabalho, ou seja, no distrito indígena chamado Yauaretê na linha de fronteira com a Colômbia, território da diocese de São Gabriel da Cachoeira no extremo noroeste do Amazonas, a cerca de 1.250 quilômetros de Manaus: O missionário deve ter um prévio conhecimento da realidade onde vai atuar: chegar ao território vazio de informações é um mau sinal. Para amar, temos que conhecer; o conhecimento possibilita mais segurança; conhecer para ser menos agressivo nas afirmações, mais respeitoso e ponderado nas propostas, mais firme e decidido nos passos, mais documentado em relação ao passado. O missionário deve escutar o povo: a escuta do povo nos proporciona o confronto entre aquilo que lemos e a realidade existencial das pessoas; é necessário visitar, percorrer, saber provocar, buscar captar as intenções das pessoas, seus anseios, seus sonhos, suas críticas, o modelo de “missionário que quer”, colher os desafios, as tensões, os grupos, mas, sem cair no perigo do “populismo” e nem do “democratismo”; deve ter bom senso! O missionário deve ter consciência de ser hóspede. Por estar servindo em casa alheia, deve ter uma atitude de humildade, de provisoriedade, de gratidão, de respeito por quem lhe acolhe: o povo e sua cultura. O missionário deve se inserir e ter sinergia com a Igreja local. O missionário católico não é um sujeito de ação avulsa, ou seja, isolada, estranha ao contexto eclesial onde trabalha. Sem o sentido de família e nem comunhão com a Igreja local, a atuação do missionário perde sua força. Sinergia é o esforço de comunhão com todos os atores socioeclesiais presentes em um determinado território, consciente de que todos juntos trabalhamos em prol da mesma causa, o Reino de Deus. O missionário deve promover as pastorais. Uma das realidades que revelam a vitalidade da Igreja no Brasil é a existência das pastorais. Como Bom Pastor, conhecendo as condições de vida de seu rebanho, o missionário é sensível à promoção humana, zela e luta pela qualidade de vida do povo; por isso não é adepto da “evangelização genérica”, evita a relação paternalista, respeita o ritmo do povo, mas ao mesmo tempo, o educa e o estimula a superar-se. Centra-se na sensibilidade de Cristo que, ao contemplar ao seu redor as necessidades humanas, exclamou “tenho compaixão dessa multidão” (Mt 15, 29-38) e “começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6, 34). O missionário deve ter sensibilidade sociocultural. Já acenamos acima sobre este importante tema. Não há como negá-lo: a cultura é o chão onde pisa quem escuta a Palavra. Cada povo tem sua cultura e a partir dela, seus valores, sua sensibilidade, suas crendices. Nessa condição acolhe a seu modo o que lhe é proposto! Valorizar as belezas culturais do povo é uma nobre atitude de humildade. Muitas dessas expressões são moralmente neutras e nelas estão os sinais de Deus. O missionário deve formar os leigos. A Amazônia carece de sacerdotes! Mas a promoção dos leigos não é uma questão suplementar (tapa-buraco)! Aqui estamos diante de uma exigência de respeito vocacional. O calor amazônico acolhe com um sorriso mais generoso os missionários e as missionárias abertos, sensíveis à promoção do laicato, capazes de confiar nos leigos e dar-lhes responsabilidades, aqueles que os desafiem e valorizem suas idéias e iniciativas, que promovam estratégias de animação pastoral como comissões, conselhos, ministérios. O missionário deve potencializar as comunidades de base. Muitas e extensas paróquias da Amazônia constituem uma rede de comunidades. Nessa configuração, a expressão da matriz nem sempre representa a vitalidade da paróquia por causa da sua grandeza e expressividade da vida das comunidades, sejam elas urbanas ou rurais. Potencializar as comunidades favorece a oxigenação do dinamismo da fé católica capaz de organizar-se capilarmente fermentando os microcontextos dentro do território paroquial e dessa forma gera novas lideranças, amplia a catequese e alonga a efetividade das pastorais. O missionário deve ter capacidade de mobilidade. Jesus era um “missionário itinerante” (cf. Mt 3, 23). As extensas paróquias da Igreja na Amazônia pedem o perfil de um missionário disposto a mover-se, a percorrer ruas, seguir caminhos, visitar comunidades, entrar nas famílias, navegar por rios e igarapés. O sedentarismo pastoral não combina com o ardor missionário. |
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| Última Atualização ( 06 de March de 2007 ) |
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