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P. Marco Lonati PDF Imprimir E-mail
Por Ir. Maurizio Emanueli   
06 de Março de 2006

1919-2005

Filho de Angelo e Rosa Sgotti, nasceu em Mazzano (BS) a 21.04.1919. Em 1940 entrou para o Instituto proveniente do seminário de Brescia. Em 1941 fez a profissão religiosa e em 1944 foi ordenado sacerdote. Em 1946 foi para o Brasil e, passado um breve período de pastoral em São Paulo, mudou-se para Boa Vista, então Prelatura do Rio Branco, onde ficou encarregado das viagens pelo interior. Em 1949 fundou a missão de Surumú a que se dedicou até 1953. Depois continuou a organizar e a acompanhar as viagens dos missionários para as comunidades indígenas do interior até 1962.
Afectado fisicamente pelo estilo gravoso de vida que fazia e envolvia viagens longas e extenuantes num clima equatorial, ficou doente de artrose cervical. Foi operado sem resultados, ficando com graves dificuldades de locomoção. Assim, foi constrangido a trabalhar no Brasil no campo da pastoral como coadjutor do pároco ou encarregado de várias capelas dispersas pela savana de Botucatú, Três de Maio, Paraná, São Paulo, Rio do Oeste e Imirim. Entre 1982 e 1986 trabalhou como pároco na paróquia de Jardim Peri, em São Paulo. Voltou a ser coadjutor do pároco até 1994, ano em que se retirou para Alpignano por razões de saúde.
Em 28 de Abril de 2005, passados 10 longos anos de sofrimento e oração, terminou o seu calvário e foi chamado para a casa do Pai. Tinha 86 anos de idade, sendo 64 de profissão religiosa e 61 de sacerdócio.
No Sábado, dia 30 de Abril, foi celebrada a missa de exéquias, a que presidiu Mons. Aldo Mongiano, ladeado pelo pároco de Ciliverghe e pelo padre Antonio Merigo. Durante a homilia, o presidente da celebração realçou o carácter forte, por vezes até rude, mas também a bondade de coração, do Padre Lonati. Ele fizera parte da primeira expedição pelo Rio Branco e abriu caminho à futura obra de evangelização das populações indígenas Macuxi.
Estava presente na missa de exéquias sua irmã, Dorina, com outras irmãs de Venaria, vários sobrinhos e confrades de Rivoli e Turim. Após a missa, o corpo foi transferido para Ciliverghe (Brescia) onde foi sepultado. O acompanhamento foi feito pelo padre Antonio Merigo.
P. Giuseppe Villa

TESTEMUNHOS

Homilia de Dom Aldo Mongiano
O Padre Marco Lonati viveu os seus últimos anos no silêncio recolhido e na penumbra que toda a vida o marcaram. Agora, o nosso Pai chamou-o para lhe dar o prémio. Disse Jesus na sua despedida aos Apóstolos: «Eu vou preparar-vos um lugar. Depois voltarei e levar-vos-ei comigo para que estejais onde Eu estou». O padre Marco foi para onde o Senhor está e onde estão todos os que por Ele foram salvos.
O padre Lonati era um homem de carácter forte; por vezes parecia rude e fazia lembrar os irmãos Boanerges de que nos falam os Evangelhos. Mas também era capaz de manifestar ternura e amizade cordial. Era guiado por poucos mas simples princípios a que sempre foi fiel. Fui seu colega durante os anos de formação, mas depois a diferença de destinações separou-nos por muitos tempo.
Quando, no ano de 1975, em obediência ao Santo Padre, fui para Roraima, logo notei que lá tinha trabalhado como missionário o padre Lonati, juntamente a Dom Nepote e outros confrades. Várias pessoas ainda falavam dele e recordavam-no como a um amigo. De facto, fizera parte do primeiro grupo de missionários que aportara a Roraima, então designada Rio Branco, em 14 de Junho de 1948.
Aquela região era totalmente desconhecida dos missionários e do próprio Instituto. Uma região por descobrir. Na primeira divisão de trabalho que se fez entre as poucas pessoas do grupo, foi confiado ao padre Lonati o encargo de missionário itinerante na região ocupada pelos índios Macuxi, no extremo nordeste do território e bastante afastada da capital Boa Vista. Ia para dar continuidade ao trabalho dos Padres Beneditinos embora não tivesse conhecimento da cultura indígena. O próprio Dom Nepote viera das missões da África Oriental, de forma que a experiência africana era bem diferente e certamente não adequada à realidade latino-americana. Um empreendimento difícil, portanto.
O padre Lonati percorria distâncias enormes a cavalo, por estradas e carreiros apenas traçados, debaixo dum sol equatorial abrasador, com alimentação muitas vezes inadequada. Visitava as aldeias, à distância de dezenas de quilómetros umas das outras, onde administrava os sacramentos aos Macuxi que tinham sido evangelizados pelos Beneditinos.
Também foi incumbido de abrir a primeira missão na localidade de Surumú. Já existiam na região algumas fazendas, mas muitas outras havia que, pouco a pouco, andavam a ser estabelecidas entre as aldeias indígenas.
Também tinham chegado as Irmãs da Consolata, que colaboravam generosamente e com competência nos sectores da pastoral e da saúde. Durante longos anos, o padre Lonati sacrificou-se pelo Roraima. Depois, devido a problemas nas vértebras cervicais, ficou impedido de caminhar normalmente, tendo de ser transferido para o Sul do Brasil, para São Paulo, onde o trabalho pastoral não exigia tanto caminhar. Assim deixaria Roraima definitivamente, mas não sem antes ter colaborado na abertura do primeiro sulco naquela região que, pouco a pouco, os missionários e as missionárias teriam conhecido melhor, diagnosticando os problemas no seu conjunto e amplitude.
Os primeiros passos de aproximação foram dados pelo padre Lonati. Mesmo que não tivesse podido ver o problema na sua complexidade, esses passos não foram de forma alguma em vão. Que ele interceda do céu pela comunidade indígena que vive a sua vida cristã e sofre dos abusos do passado e do presente.
«Já não vos chamarei servos mas amigos»: o Senhor dá a Sua confiança aos seus missionários apesar da sua fragilidade. Serve-se deles, das suas limitações, para expandir o seu Reino. Ámen.

Um missionário generoso e heróico
A notícia da morte do querido padre Marco Lonati trouxe-me tristeza e alegria. Tristeza, por causa da morte de um grande amigo. Alegria, por poder imaginá-lo no céu depois de ter sofrido por muitos anos uma doença contrária ao seu carácter dinâmico de trabalhador incansável na vinha do Senhor.
Tínhamo-nos conhecido em Turim. Ele vinha do seminário de Brescia onde tinha completado os estudos filosóficos; eu estava a regressar de Varallo Sesia onde tinha completado o Noviciado. Colegas de carteira nas aulas, logo vi nele um jovem decidido, dedicado, sem grandes discussões; e embora ainda não fosse professo, mostrava ter amor pelo Instituto e pelas missões. Era o primeiro a enfrentar os sacrifícios que houvesse a fazer, sempre jovial, generoso e aberto ao bem dos confrades, que apreciavam a sua companhia e o seu bom espírito. A guerra que arruinou a Itália e o próprio Instituto, obrigou-nos a abreviar as coisas, a suspender logo os exames e a destroçar para Uviglie (Rosignano Monferrato).
Aqui viemos a conhecer a dureza do trabalho no campo e todos nos dedicámos, com espírito de colaboração e sacrifício, a ceifar o trigo e a tratar dos vários afazeres da vida camponesa. O seminarista Lonati, sem grandes conversas, não tinha medidas no esforço que era preciso fazer, de dia e frequentemente de noite, para nos protegermos até dos ladrões que continuamente assaltavam a nossa fazenda.
Varallo Sesia precisava de alguns prefeitos para o seminário menor. Também eu fui destinado para este novo encargo e foi assim que me separei do seminarista Lonati, que depois vim a reencontrar no dia da sua ordenação sacerdotal. Foi em conjunto porém que viajámos no navio “Argentina” em direcção ao Brasil.
Ele foi destinado ao “Rio Branco”, o Roraima de hoje, e acompanhou Dom Nepote, dedicando-se a um duro e problemático apostolado que enfrentou com zelo e generoso entusiasmo. Mas ele aceitou a situação colaborando totalmente com Dom Nepote. De poucas palavras, não perdia tempo, contentando-se com um breve descanso. Viajava a pé, a cavalo, de canoa, de bicicleta, de motocicleta e, por fim, num carro que lhe dava muitos problemas.
Era do tipo carrancudo benévolo, sempre empenhado em trabalhar e evangelizar índios e semi-civilizados. Nunca se queixou face aos sacrifícios que tinha de fazer nem das perturbações físicas que o atormentavam. Encarava tudo sem grandes conversas, armado de um bom sorriso e um cigarrito.
Na manhã de 1 de Janeiro de 1963, tendo-me eu sentido mal, mas tendo de celebrar a missa das 5:30, e depois de ter participado na da meia-noite que fora celebrada por Dom Nepote, arrastei-me até ao quarto do padre Lonati a pedir-lhe que, por caridade, celebrasse em minha vez. O padre Lonati, que tinha acabado de chegar de uma longa viagem a cavalo pela floresta amazónica, estava cansadíssimo. Mesmo assim, logo me substituiu na missa. Eu celebrei mais tarde e depois fui levado para o hospital da missão onde fui operado de urgência. E o pare Lonati decidiu ficar ali durante toda a operação e até que eu acordasse sete horas depois!
Por morte do padre Ricardo Silvestri fui eu a substituí-lo na paróquia de Mucajai. Aqui, o seu zelo para com os imigrantes nordestinos foi total. A caridade, a instrução religiosa, a bênção dos casamentos e os inúmeros baptizados, acompanhados pelo trabalho material em prol da igreja, fizeram com que fosse amado e estimado por todos.
O trabalho duríssimo, as viagens devastadoras, a alimentação inadequada… causaram-lhe graves e contínuos problemas de coluna, principalmente na zona cervical. Foi assim obrigado a deixar Roraima e a ir para São Paulo onde lhe fizeram uma complicada intervenção cirúrgica. Por erro médico, a operação correu mal; e o padre Lonati, ao deixar o hospital, teve que usar um pau para se movimentar e aguentar-se de pé. Mesmo assim, colocou-se à disposição dos superiores e, de facto, trabalhou como podia na paróquia da Consolata de São Paulo. Com necessidade de repouso e tratamentos especiais, foi transferido para a casa de Alpignano, na Itália. Compreendeu a situação e aceitou a vontade de Deus.
Na Itália, visitei-o várias vezes. Pensava muito no Brasil e sofria por causa da sua doença. Um dia, porém, vi-o triste. A chorar, disse-me: «Veja lá, padre Zintu, trabalhámos juntos no Roraima: agora você continua com as suas actividades e eu estou reduzido a ser um inútil, dependente, um farrapo para jogar fora». Procurei consolá-lo lembrando-lhe o espírito do nosso Fundador, que considerava os doentes como “turíbulos da comunidade”, e falando-lhe de Santa Teresinha que, do mosteiro de Lisieux, vivia o ideal missionário a pontos de ter sido reconhecida e proclamada “padroeira das missões”. O padre Lonati ficou confortado com aquelas palavras mas ainda manifestou uma outra vez a sua desilusão de ser um peso demasiado grande para a comunidade.
No dia 28 de Abril, o Senhor levou-o consigo para lhe dar a coroa do apostolado e do martírio. A Senhora da Consolata e o Pai Fundador terão certamente acolhido com alegria este filho generoso e heróico que perseverou fiel na sua vocação até ao fim.
Requiescat in pace!
P. Giuseppe Zintu

Tinha um coração cheio de ternura
Há mais uma estrela a brilhar no céu. Juntou-se mais uma flor à coroa de Deus. O padre Lonati. Eu conheci-o em Alpignano, no fim do trajecto da sua caminhada missionária quando, já doente, teve de passar da bengala à cadeira de rodas. O padre Marco, creio eu que faz parte daqueles grandes homens que, tendo um coração grande, foram enganados pela natureza ao dotá-los dum carácter não propriamente suave. Além disso, as suas dificuldades intestinais decerto que não o ajudaram a ser acessível e sereno. Mas uma coisa é certa: por detrás do sobrolho carregado escondia-se um coração terno e desejoso de dar.
Durante os três anos que passou em Alpignano, para além das resmunguices do costume, recordo bem a sua paciência e a sua resignação, que seria mais correcto designar de “aceitação” da sua realidade de doente e o seu interesse e amor pela Consolata e pelo desenvolvimento das missões.
Quando, antes de nos deixar, o fui cumprimentar, estava comovido e disse-me: «Coragem, a Consolata está sempre presente; tem paciência e verás que até as dificuldades se aplanarão». Obrigado, padre Marco, por me teres apoiado e mostrado a verdade daquele provérbio: “os sonhos não terminam ao nascer do sol”. Tenho a certeza de que continuarás a seguir-nos, talvez até resmungando, mas sempre com o afecto e o amor de um pai. Obrigado por tudo.
Ir. Maurizio Emanueli

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