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| Padre Severino Bordignon (1940-2006) |
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| Por A Redacção do “Da Casa Madre” | |
| 08 de November de 2006 | |
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Depois partiu para Moçambique, onde trabalhou até 1970 na pastoral, como coadjutor de pároco e como pároco: em Mepanhira (71-73), Nipepe (73), Esperança (73-78) e Lichinga (79). Ao escrever ao padre Bianchi a partir de Lichinga, em Novembro de 1976, referia-se à situação dos missionários sob o regime da Frelimo e falava de dificuldades e sacrifícios, como «duas constantes que acompanham cada dia da nossa vida, factores importantes que nos fazem amadurecer e nos tornam conscientes da vocação a que fomos chamados. Pensamentos, temores, reflexões e coragem sucedem-se uns aos outros em cada dia cheio de trabalho que sempre começamos todas as manhãs com oração e confiança em Deus». O assassinato de um missionário capuchinho impeliu-o a entregar-se a Deus; e a construção duma pequena capela em Nova Beira com a ajuda dos cristãos encheu-o de entusiasmo: «Cá para nós, estes são os momentos mais belos de alegria: unidos num ideal que ultrapassa o materialismo e a insensibilidade que hoje em dia estão na moda». Com perspicácia pastoral, trabalhava com os outros missionários para formar uma Igreja madura e autosuficiente, capaz de enfrentar a tempestade que já se aproximava: «Definimos novos critérios de pastoral local entregando vários ministérios a pessoas seleccionadas dentro da própria comunidade». No ano seguinte escrevia ao padre Tavares, vice-superior regional, a informá-lo de ter ajudado clandestinamente 30 alunos…porque não basta ajudar «os poliomielíticos, os cegos, os leprosos…se não virmos que a pior lepra é a ignorância». Para anunciar a Boa Nova aos pobres – acrescentava ele - «é preciso ter nas nossas fileiras alguns com cultura» (20.06.1977). No mês de Novembro de 1978, foi preso pelos agentes da Frelimo, acabando por ter que passar dois meses na cadeia sob a acusação de “subversão”, ou seja, por ter pregado o Evangelho às comunidades da sua paróquia, Esperança. Numa carta que conseguiu fazer sair da cadeia à socapa, a 12.11.1978 dizia: «Hoje é Domingo, e é o primeiro em que não celebrarei…em todo este tempo de sacerdócio. É muito doloroso para mim. Recordei-vos a todos nas minhas orações e na reza do Breviário. Deus é grande! Não quero ninguém triste por minha causa. Eu sinto-me bem: alegre, satisfeito. Quem sabe lá? Talvez todos terão que passar por coisas destas. Peço-vos para não vos preocupardes e não terdes medo. É uma experiência que nos faz bem, a nós que por vezes pregamos sem ter passado pelas coisas». Alguns dias depois escrevia: «Comemoro hoje três semanas de prisão: tem sido uma aula, uma vivência útil e maravilhosa para mim, sacerdote…Interrogatórios, inquéritos, humilhações, ataques capazes de fazerem tremer uma pessoa…e depois o escárnio: ‘você diz que Deus é pai – então porque não lhe pede para o tirar da cadeia agora que está a sofrer? ’. Mas eu respondi-lhes: «Nem pedi nem penso vir a pedir a Deus uma coisa dessas. Ele bem sabe o que tem a fazer”…Não sei que farão de mim…mas eu estou tranquilo e, bem o espero, não guardo rancor para com ninguém» (27.11.1978). Mas houve uma vivência que marcou profundamente a sua vida e que deixou gravada nas emocionantes páginas do seu diário. Foi a da missa que celebrou na cadeia: «Um copo, um lenço branco, um pouco de vinho e uma hóstia, a cama como altar, e em cima dele, o meu Deus com todos os meus “porquês”. Enquanto os meus colegas tomavam um pouco de ar fresco, eu tranquei a porta com um cordel e celebrei a minha missa, a minha única Força, o inesquecível Sacrifício. Eu falei a Deus de tudo aquilo que acontecera e perguntei-lhe se por acaso sabia dizer-me algo sobre aquele silêncio misterioso. Lembrei-lhe os meus companheiros e rezei para que as crianças pudessem crescer sem nunca virem a saber o que é uma cadeia!». Depois veio o Natal: «Sim, porque também eu queria ter Natal ali na prisão. Na véspera da festa, já se viam aqui e ali pequenos grupos bem intencionados e decididos a terem um lindo Natal. Uma das irmãs de Santa Doroteia tinha-me enviado na mala um micro Menino Jesus fechado numa pequena caixa, mas tão bem camuflado, que logo chamou a atenção dos olhares dos que entravam na minha cela. “Se o quiserem, venham buscá-lo amanhã de manhã depois da missa que vou celebrar pelas 10 horas”, disse-lhes eu. Naquela noite de vigília, ninguém pregou olho. Até quem não era cristão quis ter um natal. Pela manhã, comecei a preparar-me para a missa e estava a fechar a porta para não ser apanhado quando, de repente, entraram cinco ou seis colegas. “Senhor Padre, disse sorrindo um deles, viemos buscar o Menino”. “Não podem, disse. Eu disse – só depois da missa!”. “Mas não é isso que nós queremos. Ontem soubemos que hoje haveria missa e nós somos todos cristãos; é por isso que aqui estamos!”. Foi uma eucaristia inesquecível. Penso eu que teria bastado chamar…e Deus, como antigamente, teria certamente respondido: “eis-me aqui! Estou convosco!”. E foi um Natal lindo, mesmo assim e apesar de tudo». Foram dois meses de cadeia para o padre Bordignon: uma experiência que não conseguiu vergar o seu ânimo de missionário e lhe deu a oportunidade de se tornar motivo de esperança para os seus desafortunados colegas de cadeia e também de exemplo, perdoando perante todos a alguns cristãos da sua missão que, com as suas acusações, o tinham mandado para a prisão e onde eles próprios foram trancados como ladrões e corruptos. Foi libertado a 5 de Janeiro de 1979 e foi obrigado a termo de residência na diocese. Foi dali que escreveu aos seus confrades na Itália a falar de «uma grande experiência…uma consequência a que o Evangelho pode levar”, qual conclusão lógica de apenas ter sido padre. Mas nem por isso se sentia herói: professava sim a sua fé em Jesus cuja palavra foi para ele e para os seus amigos uma verdadeira força libertadora. A 5 de Maio foi libertado do termo de residência e pouco depois voltou para a Itália. Em 1981 foi destinado ao Brasil, onde trabalhou no seminário e na pastoral paroquial de Três de Maio. Entre 1985 e 1992 trabalhou na paróquia de São Manuel, sobretudo na pastoral dos jovens. Nos anos seguintes continuou a dedicar-se à pastoral paroquial em Rio do Oeste até 1997 e, depois, na paróquia de São Marcos, cidade de São Paulo. Entretanto detectou-se um tumor no fígado, que o levou a ser transferido para a Casa Regional para cuidados médicos. Fez várias operações mas teve de ser colocado em lista de espera para um transplante de fígado. Entretanto continuou a prestar serviço pastoral na diocese. Especificamente, ajudou na enfermaria e assumiu a responsabilidade da assistência material e religiosa da Casa Betânia para os doentes de SIDA. Durante o mês de Março, a sua saúde piorou de improviso. Internado no hospital de São Camilo, foi para o Pai no dia 5 de Abril de 2006. O seu corpo foi velado na igreja de São Marcos e teve grande participação dos fiéis. No dia seguinte foi o funeral a que presidiu o padre Lírio Girardi, superior regional. Concelebraram cerca de quinze confrades e vários padres diocesanos. No fim da celebração receberam-se numerosas expressões de gratidão dos padres e do povo pelo testemunho de alegria e jovialidade que o padre Severino deixou nas comunidades onde trabalhara. Tal como escreveu Dário Paterno: «O padre Severino foi honrado e lembrado com cânticos, sufragado com orações e também chorado…Foi uma festa de adeus, cheia de emoções fortes. Ele foi-se com a consciência de quem cumpriu o seu dever, triste pelos muitos amigos que fizera durante a vida e que agora tinha de deixar mas, ao mesmo tempo, cheio de alegria porque o seu nome “estava escrito nos céus”. Foi morar para uma casa que já o esperava (e como será bela a casa que Cristo lhe preparou!). Celebrou a sua páscoa. Agora, o padre Severino Bordignon repousa no jazigo dos Missionários da Consolata no cemitério Chora Menino de São Paulo. A Redacção do “Da Casa Mãe”
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| Última Atualização ( 08 de November de 2006 ) |
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