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A fé rompe as fronteiras PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Ramón Cazallas Serrano, imc   
21 de October de 2006
“...vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”. (Mc 16, 15)
“...vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”. (Mt 28, 19)
“... no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. (Lc 24, 47)

No final dos Evangelhos sinóticos aparece o mandato missionário de Jesus com três palavras expressivas que indicam os destinatários e a geografia da missão dos Apóstolos. São elas: humanidade, povos e nações. Cada uma encerra implicitamente o conceito de “todo o mundo”, todos os povos e raças devem ser alcançados pela pregação de Jesus, os Apóstolos devem chegar até os confins do mundo. Se começarem por Jerusalém, devem terminar onde encontrarem as últimas pessoas. Ou seja, o projeto de Jesus é sem-fronteiras e a este projeto são chamados todos os homens e mulheres.

Um mundo sem-fronteiras
No início do primeiro livro da Bíblia vemos a Criação do mundo, do homem e da mulher. Deus os criou para crescerem e multiplicarem-se pelo mundo que ele havia feito e que era “muito bom”. Podiam se servir de tudo e deram nome aos animais e às plantas como sinal da sua superioridade sobre eles. Uma superioridade que não era de domínio indiscriminado, mas, de serviço recíproco. Assim a raça humana estendeu-se: “cresçam e se multipliquem”, foi a ordem de Deus. Quando Deus veio ao encontro da humanidade, encarnando-se, assumindo a própria natureza humana, deu a vida por todos, não se limitou a um povo, uma raça ou religião. No momento da última Ceia, quando deixou o seu testamento, poucas horas antes de morrer, pronunciou as palavras sobre o pão e o vinho para que deles todos se alimentassem. “Tomai e comei todos..”, “...o corpo que será entregue por vós e por todos”. “Tomai e bebei todos...”, “...o sangue que será derramado por vós e por todos”. Jesus, circunscrito a uma nação e cultura determinadas, no supremo momento da sua vida se entrega por todos, supera as fronteiras da própria raça e abre o amor para todos, um amor universal que quebra as barreiras humanas.

As fronteiras são humanas
Deus criou um mundo aberto a todos, mas os seres humanos fizeram dele “parcelas” nascidas do egoísmo: para melhor dominar, para possuir mais, para repartir o poder entre poucos foram colocando fronteiras pequenas ou grandes que se distribuíam sempre entre os mais fortes e poderosos. Até povos com a mesma cultura, língua e costumes foram separados pelas barreiras das fronteiras. Pensemos nos grandes povos da África, sacrificadas pelos poderosos quando nasceram os novos Estados modernos.
O mundo de hoje vive as suas contradições, anulando fronteiras antigas, mas, ao mesmo tempo criando outras. Pensemos na globalização e no neoliberalismo. As suas ofertas vão criando novas fronteiras entre ricos e pobres. Ainda mais, vão construindo muros de bem-estar e consumo que os pobres nunca poderão alcançar. Pensemos no nosso pequeno mundo: quantas cercas de arame são colocadas pelos fazendeiros para protegerem as suas terras evitando que outros entrem? Quantos títulos falsos de propriedade são necessários para se assegurar o bem que pertence a outros? A terra é de Deus e de todos os seus filhos.
E todos os sistemas colocam as suas fronteiras: na saúde, na educação, na política... e não deixam atravessar os milhões que estão do outro lado. Quantos jovens do ensino público têm acesso à universidade? Qual é a distribuição dos médicos no Brasil? E poderíamos seguir enumerando outros campos ou situações onde claramente as barreiras, as fronteiras ou as cercas impedem que a pessoa humana caminhe mais livremente pelo mundo de Deus, que é o seu mundo.

O Espírito derruba as fronteiras
Em algumas partes do Nordeste, quando os trabalhadores rurais sem-terra querem derrubar a cerca de arame de alguma fazenda não-produtiva, passam à voz uns aos outros dizendo: “Esta noite temos o vento da meia-noite” e nesta mesma noite, as cercas caem pela união e coragem de muitos que se organizam para que caíam. Gosto de pensar que o Espírito Santo é esse vento da meia-noite que vai derrubando as fronteiras (cercas) construídas pelas mãos humanas. Em Pentecostes quando o Espírito abriu as portas e as janelas do Cenáculo que os mesmos Apóstolos trancaram com segurança por medo dos judeus, esse Espírito os empurrou para o Templo e para as praças a anunciar com coragem que Jesus era o Senhor. E é interessante ler o capítulo segundo dos Atos do Apóstolos para ver quantas raças, povos e línguas derrubaram as suas cercas para que a mensagem de Jesus circulasse livremente nas suas vidas.
Temos homens e mulheres que, escolhidos pelo Espírito, dedicaram suas vidas a derrubar as fronteiras humanas: Paulo de Tarso abriu o Evangelho de Jesus para todos os “pagãos”. Na sua profunda fé teve que derrubar tantos prejuízos instaurados pela sociedade e religião judaica contra os que não eram do povo de Deus. Foi o grande Apóstolo missionário da Igreja nascente. São Francisco Xavier foi outro apaixonado pelo amor de Cristo que deu a própria vida pelos irmãos. O missionário maior de todos os tempos foi um inconformista da fé. Hoje pode nos parecer uma loucura as viagens que realizou para pregar o Evangelho a todos. De ilha em ilha com pouca bagagem, só a sua fé em Jesus ia evangelizando os mais afastados. A sua vida e a sua obra traçam as vidas de muitas pessoas no ideal missionário. Frei Bartolomeu de las Casas foi outro homem que no nosso continente latino-americano, em nome de Jesus, quebrou as fronteiras criadas pelos colonizadores: contra a injustiça, a dignidade humana dos índios e a prepotência dos europeus. Poderíamos continuar enumerando outros homens e mulheres que pela sua fé em Jesus não pararam de levar o Evangelho aos mais distantes, vivendo iluminados pelo Espírito para que todos se sentissem amados por Deus e seus irmãos. O Dia Mundial das Missões que celebramos no penúltimo domingo de outubro é uma data para que nós, cristãos, analisemos a nossa fé, a nossa força. Pensemos nas fronteiras que temos nas nossas comunidades e igrejas e aos poucos vamos criando essa fraternidade universal que Cristo trouxe. Olhemos para a nossa fé e a nossa caridade e todos seremos agentes de um mundo melhor. Escrevo estas reflexões no dia em que Irmã Leonella, missionária da Consolata foi assassinada em Mogadíscio, na Somália. O seu martírio quebra as fronteiras de um mundo injusto e fanático. A sua vida foi entregue aos mais pobres e ela preferiu ficar com eles, mesmo sabendo que corria riscos. Que o seu sangue possa ser uma trombeta que toca tão forte, derrubando os grandes muros que existem em tantos “Jericós de hoje”.

Ramón Cazallas Serrano é missionário e diretor do Centro Missionário José Allamano em São Paulo.
Última Atualização ( 25 de October de 2006 )

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