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V. COMO REFLEXOS DUMA ÚNICA VERDADE PDF Imprimir E-mail
Por Consolata.org   
06 de March de 2006

1. Podemos salvar-nos em qualquer religião?

 O anúncio de Cristo Salvador, que está intimamente ligado ao anúncio do reino de Deus e dos seus valores faz ressaltar duas perspectivas de evangelização que se consideram erradas. A primeira foi confrontada por Paulo VI quando, na EN, convida a não cairmos na tentação de reduzir a missão a um projecto meramente temporal e antropológico, que deixa de lado toda e qualquer preocupação espiritual e religiosa - e tende a reduzir a salvação à satisfação das necessidades terrenas do homem. Neste caso, a mensagem cristã de libertação «não teria nenhuma originalidade e facilmente acabaria por se tornar presa e instrumento de manipulação dos sistemas ideológicos e dos partidos políticos», questionando assim o próprio conceito cristão de “salvação” (32).

 Muito mais polémica é a segunda perspectiva, conhecida por “reino-cêntrica”. Ela entende a tarefa da Igreja unicamente como promoção do reino de Deus e dos seus valores. A intenção desta perspectiva é favorecer o diálogo entre os povos, as culturas e as diversas religiões. Interessa-nos sobretudo o aspecto religioso. A esse propósito, o Concílio Vaticano II foi perspicaz e inovador. Segundo a declaração Nostra Aetate, existem em todas as religiões valores que merecem a atenção e a estima dos cristãos. As suas vivências religiosas e as suas tradições contêm elementos verdadeiros e bons, que estabelecem um contacto com Deus. Por esta razão, a Igreja nota a necessidade de considerar «com respeito sincero os modos de agir e de viver, os preceitos e as doutrinas que, embora se distingam daquilo que ela própria crê e propõe, muitas vezes reflectem um raio daquela verdade que ilumina todos os homens» (2).

 João Paulo II tem tratado deste tema várias vezes. Na sua primeira encíclica, Redemptor hominis, ele recorda-nos que o Concílio mostrou imenso apreço pelos valores espirituais das outras religiões e faz notar como os Padres da Igreja viram nelas «como que outros tantos reflexos duma única verdade», que dá testemunho da profunda aspiração do espírito humano orientada, embora por caminhos diferentes, para uma única direcção, ou seja, a procura de Deus (cfr. 11). Vinte anos após esta sua primeira declaração, na Redemptoris Missio, o Papa volta a sublinhar, sem sombra de hesitação, que «o diálogo inter religioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja». Ele não se coloca em oposição à missão ad gentes; é um método e um meio para um conhecimento e um enriquecimento recíprocos. Mas sempre a partir dum ponto fixo, ou seja, que a salvação vem de Cristo e que, além disso, o diálogo não dispensa a evangelização, a proclamação firme de que Jesus Cristo é o único salvador do mundo e que a Igreja é o caminho normal para a salvação (25). Subjaz a estas afirmações um problema difícil. João Paulo II retoma-o no início da sua encíclica missionária fazendo algumas perguntas: «Ainda faz sentido a missão entre os não cristãos? Não deverá porventura ser substituída pelo diálogo inter religioso?…O respeito pela consciência e pela liberdade não excluirá porventura a proposta da conversão? Não nos poderemos salvar em qualquer religião? Então para que serve a missão?»

2. Uma espécie de “revolução copernicana”?

 Na tentativa de dar solução a estes problemas, alguns teólogos terão elaborado uma teologia cristã das religiões diferente da que a Igreja ensina. O ponto de partida desta teologia é a vontade salvífica universal de Deus: Deus quer que todos os homens se salvem e, portanto, Deus tem um plano de salvação para a humanidade que não tem de passar necessariamente por Cristo e pela Sua Igreja. A partir deste pressuposto, essa nova teologia das religiões recusaria a necessidade de ligar a salvação directamente a Cristo e à Sua Igreja. A salvação seria, em primeiro lugar, uma acção de Deus e, exactamente por essa razão, - pela universalidade do Seu plano de salvação - Deus actuaria indistintamente em todas as religiões, fazendo delas os caminhos normais de salvação. O que quer dizer que é preciso fazer uma espécie de “revolução copernicana”: assim como se acreditara por muitos séculos que o sol girava à volta da terra em vez de ser a terra a girar à volta do sol, também a Igreja, depois de ter acreditado durante séculos que Cristo e a Igreja estavam no centro da salvação e que as outras religiões deviam girar em torno do cristianismo, deveria reconhecer-se hoje que o centro à volta do qual giram todas as religiões, inclusive o cristianismo, é o próprio Deus. Se levada ao exagero e com atitude radical, esta teologia - do pluralismo teocêntrico - poderia levar ao abandono da pretensão do cristianismo, a de ser «a única verdadeira religião». A religião cristã seria então uma religião entre tantas, e Cristo seria um dos muitos salvadores enviados à terra por Deus. Seriam portanto múltiplos os caminhos que levam a Deus.

 Acabamos de resumir de maneira muito rudimentar um assunto bastante complexo e difícil. As várias tendências teológicas e as várias tentativas de solução não são capazes de conter os muitos problemas ainda em ebulição referentes à teologia das religiões e ao diálogo inter religioso. Mas é preciso recordar, antes de mais, e a este respeito, que os documentos da Igreja, apesar do progresso realizado no campo teológico, ainda parecem olhar para as outras religiões com uma óptica de auto-suficiência de tal ordem que lhes concede benignamente certo valor humano e espiritual. Não obstante, esses documentos, que já são numerosos, continuam a levantar mais questões, que parecem não ter solução: até que ponto são as outras religiões caminhos de salvação? Que elementos de “verdade e graça” contêm? (cfr. AG 9). Existe ou não existe uma complementaridade recíproca? Mais: a salvação também é possível fora da Igreja ou é apenas uma excepção? Existe ou não existe um mistério de amor maior que o nosso coração, e de tal ordem que inclui todos os que aderem, de vários modos e em vários graus, ao reino pregado por Jesus? A missão terá que ser substituída pelo diálogo religioso ou, então, é sempre indispensável o anúncio directo do Evangelho? As perguntas não faltam e questionam exactamente o trabalho da missão e dos missionários. Aqueles povos longínquos, que anteriormente tinham sido definidos como pagãos e infiéis têm agora uma identidade cultural e religiosa precisa e própria; caminham pelos nossos caminhos e pelas nossas cidades. As suas culturas e as suas religiões transmitem-nos valores antigos, ricos de símbolos fascinantes, que merecem a nossa admiração e o nosso respeito. Fala-se, por isso - tal como o Concílio nos convidou a fazer - de diálogo inter religioso. Mas que diálogo será este?

3. A Igreja enquanto caminho normal para a salvação

 O progresso feito na eclesiologia modificou bastante o significado da fórmula «Fora da Igreja não há salvação». Durante muito tempo fez-se uso desta fórmula com a convicção de que, por causa do pecado, todos os homens estariam condenados à morte eterna. Só quem acolhesse o convite à conversão e entrasse para a Igreja pelo baptismo poderia salvar-se. Em 1442, o Concílio de Florença, na sua profissão de fé pela união com a Igreja Copta afirmou: «Nenhum daqueles que se encontram fora da Igreja Católica, não só os pagãos, mas também os judeus, os hereges ou os cismáticos, poderão alcançar a vida eterna: irão parar ao fogo eterno…Ninguém - por muitas esmolas que tenha dado, ou até mesmo se tiver derramado o seu sangue pelo nome de Cristo - se poderá salvar se não estiver no seio e na unidade da Igreja Católica» (DS 1351). Tal maneira de ver nascia não só duma visão unilateral e parcial da Igreja como também da certeza de que o Evangelho já tinha sido anunciado ao mundo inteiro e que, por isso, a falta de fé dependia da recusa da palavra de Deus.

 Mas as grandes descobertas geográficas, a multiplicação dos contactos entre os povos, o encontro com religiões diferentes, foram progressivamente modificando o horizonte dentro do qual aquela fórmula apareceu. Já anteriormente, mas sobretudo no Concílio Vaticano II, por meio da constituição Lumen Gentium, tinham sido definidas as premissas duma reflexão mais rica, que amadureceu durante a análise da natureza da Igreja, aliás exigida pela complexidade e globalidade dos acontecimentos. «De facto, aqueles que sem culpa própria desconhecem o Evangelho de Cristo e a Sua Igreja, e que, no entanto procuram Deus sinceramente e, com a ajuda da Sua graça se esforçam por cumprir, por obras, a Sua vontade que conhecem pelos ditames das suas consciências, podem alcançar a salvação eterna» (16). O Concílio, portanto, reforça a convicção de que o Espírito Santo dá «a todos a possibilidade de entrar em contacto com o mistério pascal no modo a Deus conhecido», já que «trabalha invisivelmente a graça» (GS 22) no coração de cada um, e que a Igreja não pode ficar alheia à acção de Deus, que quer salvar todos os homens.

 Portanto, como é fácil intuir, o diálogo com as outras religiões coloca numerosos problemas ao anúncio de que Cristo é o único salvador dos homens. Na tentativa de dar uma resposta a estes problemas, a encíclica Redemptoris Missio reforça as posições tradicionais da eclesiologia pós-conciliar para a qual, sejam quais forem as formas de diálogo, nunca poderá faltar o anúncio de que a salvação vem de Cristo e que a Igreja é o caminho normal para a alcançar. Mas ainda ficam sem resposta algumas perguntas difíceis - a que já acenámos. Em que medida é que as várias tradições religiosas também são caminhos de salvação? São-no com, ou sem Cristo, com ou sem a Igreja? Como reconhecer nelas sinais da presença de Cristo? Qual é o sentido verdadeiro e profundo da revelação de Deus na história da humanidade? Como deve ser entendido e interpretado o desígnio de que «Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4) ? Trata-se de perguntas inquietadoras e inevitáveis, a pontos de se tornarem objecto da pesquisa teológica mais excitante dos nossos tempos.

 A complicada relação de reciprocidade entre diálogo e anúncio é trabalhada com maior precisão no documento Diálogo e anúncio (DA) emanado do Conselho Pontifício para o diálogo inter religioso e da Congregação para a Evangelização dos Povos e publicado a 19 de Maio de 1991 - a apenas cinco meses e meio da encíclica missionária de João Paulo II (17 de Dezembro de 1990). Nesse documento, os dois temas, aparentemente contrapostos, encontram-se inseridos na complexa realidade da missão evangelizadora da Igreja. O anúncio «é a comunicação da mensagem evangélica, o mistério da salvação realizado por Deus a favor de todos em Jesus Cristo, pelo poder do Espírito Santo. É um convite a um compromisso de fé com Jesus Cristo, um convite a que entremos na comunidade dos crentes que é a Igreja, pelo baptismo» (DA 10). O diálogo, por sua vez, é uma parte integrante da missão evangelizadora da Igreja, mas está separado do anúncio. Cada um deles mantém as suas finalidades específicas, embora a realidade complexa da evangelização os inclua ambos.

 Aquilo que parece significativo no documento Diálogo e anúncio, por ser de certa forma uma novidade, é que o diálogo inter religioso não se baseia apenas numa genérica valorização positiva das outras tradições religiosas, mas também em alguns textos dos Padres da Igreja, que apresentam uma espécie de teologia cristã da história. Segundo tal teologia, Deus manifestou-se à humanidade através duma longa série de eventos que culminaram com a incarnação do Filho de Deus. João Paulo II, avançando ainda mais nesta direcção, reconhece explicitamente a presença universal do Espírito Santo, que trabalha, não só na vida dos membros das outras religiões como também no mundo inteiro «sem limites de espaço ou de tempo», ainda antes da vinda de Cristo e, agora, até fora da Igreja visível (RM 28-29). A este respeito, o Papa fala dum «mistério de unidade» que encontra a sua base tanto na origem comum do homem como no destino comum da humanidade em Deus, na salvação universal em Cristo como na presença do Espírito em tudo.

 «Deste mistério de unidade - reza o documento Diálogo e anúncio - deriva que todos os homens e todas as mulheres que são salvos participam, embora de maneiras diferentes, no mesmo mistério da salvação em Jesus Cristo» graças à acção invisível do Seu Espírito e por caminhos conhecidos só por Deus. As diversas tradições religiosas não são, em si, um obstáculo à salvação. Os seus membros são salvos por Cristo, não apesar e fora delas, mas recebem a salvação - ainda que O não reconheçam explicitamente como seu Salvador - contanto que sigam fielmente os ditames da sua própria consciência e ponham em prática aquilo que nas suas tradições é bom e santo (cfr. 29).

 Tudo isto é possível porque a Igreja, que é sacramento universal de salvação, quer dizer, sinal e instrumento da graça nas mãos de Deus que salva, mantém uma relação misteriosa e complexa com o reino de Deus anunciado por Jesus. Visto que ela é o sacramento em que o reino de Deus já está presente de forma misteriosa, também os membros de outras tradições religiosas podem ser orientados «misteriosamente» para a Igreja. Mas não só! Visto que o reino de Deus é, na história, uma realidade muito mais ampla que a Igreja, eles já «partilham, de certo modo, na realidade que o reino significa» (35). A visão de que não há salvação fora da Igreja fica assim superada, embora continue a existir uma relação misteriosa com ela, pelo menos uma relação de completude e de realização, tendo-lhe sido confiada a plenitude da revelação de Deus em Jesus Cristo (cfr. DV 8).

4. Jesus, o Senhor, único salvador do mundo

 Esta leitura, certamente breve, dos principais documentos pós-conciliares sobre o tema do diálogo inter religioso e do anúncio missionário será agora passada em revista à luz da declaração Dominus Jesus de 6 de Agosto de 2000, que emanou da Congregação para a Doutrina da Fé e foi ratificada por João Paulo II. Aí se reforça a ideia de que Jesus Cristo é o único salvador do mundo e que «a plenitude do mistério salvífico de Cristo também pertence à Igreja, que está inseparavelmente unida ao seu Senhor» (16). Ao reapresentar a doutrina da fé católica sobre a unicidade e a universalidade salvífica do mistério de Cristo, essa declaração aponta «alguns problemas fundamentais que continuam em aberto para posterior aprofundamento» e refuta «certas posições erróneas ou ambíguas» que pretendem justificar o pluralismo religioso, colocando assim em perigo o anúncio missionário perene da Igreja (cfr. 3-4).

 Não é preciso recordar aqui que essa declaração provocou reacções negativas no meio das comunidades hebraicas e muçulmanas, tal como na Igreja da Reforma, que temem uma reviravolta nas posições assumidas pelo Concílio Vaticano II. Mas para quem conhece o magistério da Igreja Católica, ela não apresenta novidades substanciais. Antes, parece que, como disse o cardeal Ratzinger, a declaração talvez queira ser, acima de tudo, «um convite a todos os cristãos para se abrirem novamente ao reconhecimento de Jesus Cristo enquanto Senhor», numa altura em que «a fé em Cristo está em risco de ser esmagada». O tema verdadeiro do documento é, pois, a afirmação de que «Jesus é o Senhor» e não, como foi apontado de vários lados, o fim do empenho ecuménico e do diálogo inter religioso.

 A Congregação para a Doutrina da Fé, partindo da afirmação que «Jesus é o Senhor» - título que exprime a realização, em Cristo, das promessas contidas no Antigo Testamento e que é uma característica da fé cristã - também reafirmou ser «errónea a opinião que considera as várias religiões como caminhos complementares da Igreja, em ordem à salvação». Numa intervenção mais recente (Fevereiro de 2001), o Cardeal Ratzinger recordou que não só a Igreja é o único caminho para a salvação, mas «carece de fundamento na teologia católica a ideia de que as outras religiões são caminhos de salvação, até porque existem nelas lacunas, insuficiências e erros que têm a ver com as verdades fundamentais sobre Deus, o homem e o mundo».

5. O anúncio missionário

 Parece pois inevitável que os documentos do magistério e a reflexão de muitos teólogos, que procuram abrir novos e concretos caminhos ao diálogo e à oração com outras religiões, tenham criado graves tensões na Igreja, sobretudo na Igreja missionária. Mas, se por um lado a Igreja tem o dever de tornar precisos os fundamentos teológicos necessários para assegurar aos fiéis a integridade do depósito da fé, pelo outro é tarefa do missionário, especialmente aqueles que vivem e trabalham em contacto directo com as grandes tradições religiosas do Oriente, mostrar-se cauteloso e quanto menos “possibilista” melhor ao indicar os elementos das várias religiões que são compatíveis com a visão cristã da salvação.

 Seja como for, continua a ser tarefa eminentemente missionária a de proclamar que Deus, criador e senhor do universo, interveio pessoalmente na história do homem e o fez de maneira admirável através da pessoa e do ministério de Jesus de Nazaré, senhor da história e salvador de todos os homens. Em Jesus, feito homem, crucificado e ressuscitado por nossa causa, inaugurou-se o reino de Deus, que aliás não se pode definir apenas em termos da sua eficácia e resultados, mas antes em termos da sua natureza, que é a de ser mediação do amor de Deus em Jesus Cristo, que transforma e renova a vida da humanidade. Trata-se duma maravilhosa e importante notícia. As mediações mais ou menos milagrosas não servem para as pessoas que procuram Deus com tanto esforço. Para tais pessoas, servirá o essencial. O ponto fulcral do anúncio é, e continua a ser, sempre, uma pessoa chamada Jesus de Nazaré, por meio de quem Deus manifestou o seu amor pelo homem e inaugurou o Seu reino.

 Para o missionário, este anúncio nunca é um facto pessoal, nem é uma proclamação das suas próprias ideias e das suas próprias estratégias: é um tesouro vivo e precioso que deve comunicar fielmente. «Enviada e evangelizada, a Igreja, por sua vez, manda evangelizadores. Põe nas suas bocas a palavra que salva; explica-lhes a mensagem de que é depositária; dá-lhes o mesmo mandato que recebeu; e manda-os pregar. Não a pregar as suas próprias pessoas ou as suas ideias pessoais, mas um Evangelho de que nem eles nem ela são donos e proprietários absolutos de que poderiam dispor à vontade, mas ministros que o transmitam com extrema fidelidade» (EN 15; cfr. RM 45).

 O anúncio de Cristo Salvador, além disso, não é redutível ao anúncio duma sabedoria puramente humana, como se fosse uma ciência de bem viver. «Neste mundo fortemente secularizado, também se deu uma progressiva secularização da salvação, de forma que lutamos pelo homem, sim, mas por um homem mutilado, reduzido apenas à sua dimensão horizontal. Nós, pelo contrário, sabemos que Jesus veio trazer uma salvação integral, que reveste o homem todo e todos os homens, abrindo-os aos admiráveis horizontes da filiação divina» (RM 11).

 O anúncio de Cristo Salvador também é um convite a que olhemos, sob nova óptica, para a história do mundo e da humanidade, para descobrirmos nos acontecimentos e nas pessoas a referência a Cristo e ao facto de Ele ser o nosso “Deus connosco”. Por força do acontecimento chamado Jesus Cristo, Deus entra na história humana e produz uma “missionariedade” que não passa por cima dos acontecimentos em que vivem os destinatários do anúncio. Desse modo, a salvação que Deus oferece ao homem em Jesus Cristo fica mais ligada à vida humana, a conteúdos e expectativas de fé que são reais e claros. A história do homem torna-se a história de Deus que salva.

 O anúncio é, por fim, um ministério indispensável. Não é uma ferramenta facultativa da evangelização, mas é, antes, um dever que cabe à Sua Igreja. «Sim, esta mensagem é necessária. É única. E é insubstituível…Está em causa a salvação dos homens» (EN 5). Não se pode simplesmente supor que a missão evangelizadora da Igreja, em tudo o que faz e diz, também inclua o anúncio de Cristo Salvador. Antes, deve ser explicitado e proclamado de maneira «clara e inequívoca» (EN 22). Cada um tem o direito de ouvir a boa nova. «Ai de mim se não pregasse o Evangelho!», escreve São Paulo aos cristãos de Corinto (1Cor 9, 16). «Não podemos calar-nos», diziam Pedro e João, para confusão das autoridades do povo de Israel.

 Esta revelação do desígnio misericordioso de Deus cairia no vazio, em terreno estéril, se não respondesse também às expectativas do homem. «Jesus é o esperado das nações e o seu salvador» (AG 8). Seria difícil, para não dizer impossível, falar de salvação se ela não encontrasse no homem uma correspondência real e não lhe revelasse o significado das suas aspirações mais profundas. «Somente no mistério do Verbo incarnado vê a luz o mistério do homem…Cristo, que é o novo Adão, exactamente ao revelar o mistério do Pai e do Seu amor, revela também plenamente o homem ao homem e manifesta-lhe a sua altíssima vocação» (GS 22).

 Ao comentar esta passagem da constituição conciliar Gaudium et Spes, João Paulo II lembra-nos como Jesus Cristo é o homem perfeito que, assumindo a nossa natureza humana, devolveu aos filhos de Adão a sua semelhança com Deus e os elevou a uma sublime dignidade. «Com a Sua incarnação, o próprio Filho de Deus uniu-se, de certo modo, a cada homem. Trabalhou com mãos de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem» (RH 8). Pouco mais adiante, depois de ter sublinhado que o amor é mais forte que a morte e é maior que o pecado e a fragilidade humana, João Paulo II escreve que o homem não pode viver sem amor. «Ele continua a ser um ser incompreensível a si mesmo; a sua vida fica sem sentido, se lhe não for revelado o amor, se não se encontrar com o amor, se o não experienciar e o não fizer seu». O homem que quiser compreender-se plenamente terá que se aproximar de Cristo. «É esta - seja-nos permitido dizê-lo assim - a dimensão humana do mistério da Redenção». O homem volta a encontrar, assim, a sua grandeza e a sua dignidade; e a proclamação da Palavra que salva é o primeiro serviço que a Igreja pode prestar a qualquer ser humano e a toda a humanidade (cfr. RH 10). É neste anúncio, destinado a todos os povos e confiado por Cristo à sua Igreja, que consiste a missão.

PISTAS PARA REFLEXÃO

· Como é que eu respondo a quem me objecta que não é preciso pregar Cristo e aderir a Ele, já que todas as religiões são “iguais” e todas conduzem à mesma salvação?

· Qual é o elemento específico que Cristo e a Igreja oferecem numa economia da salvação? Como é que eu costumo explicar que a Igreja é sacramento universal da salvação?

· O diálogo com as religiões torna vã a necessidade de pregar Cristo Salvador? A evangelização e o diálogo são realidades compatíveis? Como?

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