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| III. O ENCONTRO DE DEUS NA HISTÓRIA |
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| Por Consolata.org | |
| 06 de March de 2006 | |
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Resulta, desta análise, que, em todas as religiões, a pessoa tende a orientar-se para uma meta ideal que a atrai, num esforço por se subtrair a uma condição histórica instável e perigosa. Por exemplo, a meta do budista é o estado da perfeita tranquilidade, estado esse que se procura e atinge com a libertação do sofrimento, mediante um progressivo abafar de todas as paixões. As religiões primitivas, por outro lado, tendem para um estado ideal que, mais que de salvação, é um estado de incolumidade numa integração completa e perfeita no mundo e na sociedade. Por isso, não falta nas várias religiões a procura duma condição que se fixe no estabelecimento duma relação com o Absoluto, seja qual for a sua concepção, que, de facto, se resolve em aspiração à salvação. As propostas referentes ao sentido da vida, à visão do mundo, ou à concepção do destino humano e da história que as religiões representam ou querem disseminar, estão definidas, efectiva e essencialmente, em termos de salvação - na medida em que ela é a questão mais importante de entre todas as que atravessam e atormentam a existência do ser humano e toda a história da humanidade.
1. A salvação como história da salvação
Neste aspecto, o cristianismo não faz excepção. Também se apresenta como anúncio e caminho de salvação. O que o distingue das outras religiões é o seguinte: a salvação não é entendida como uma procura a que o homem se não pode subtrair por causa da insatisfação que sofreu devido ao estado presente da sua existência, mas como uma história de salvação que começou com a criação e chegou até à regeneração da humanidade em Deus. Na grande trajectória desta história, Deus “auto-revela-se” ao homem e comunica-lhe a Sua própria vida, a pontos de Se identificar com a história do homem, enviando-lhe o Seu Filho Unigénito “feito homem” para salvação da humanidade. No Credo cristão sempre se professou que tudo aquilo em que se crê, e é descrito como uma história de salvação, é proposto ao assentimento de cada um exactamente em virtude da sua importância e interesse «para nós homens e para nossa salvação”. O próprio nome de Jesus não significa outra coisa que “Deus salva”; e o título de Cristo, a que anda tradicionalmente unido, evoca a figura e a tarefa do Enviado ou Messias, que Deus manda em missão com a finalidade de cumprir a salvação do seu povo. Por isso, Deus não Se limitou a falar ao homem nem directamente nem indirectamente, como teria podido fazer também noutras religiões, mas agiu e actuou com o homem e a favor do homem até ao ponto de lhe dar a Sua própria vida através de, e na pessoa de, Jesus Cristo. A palavra de Deus, desta maneira, transformou-se numa acção divina que salva. Tanto assim que não é um exagero afirmar que a fé cristã se resume em crer que, no nome de Jesus Cristo, Deus é o Salvador. De facto, nós professamos que Deus, que enquanto Deus pode salvar o homem, manifesta concretamente na história a Sua vontade de salvação em Jesus Cristo - e que em Jesus Cristo, o único mediador entre Deus e os homens, se oferece ao homem a possibilidade de se salvar. Deixando de lado uma perspectiva principalmente especulativa e metafísica característica do passado, a teologia de hoje está orientada para a recuperação do tema da salvação enquanto história da salvação. Não nos resta senão alegrarmo-nos com esta abertura, que está destinada a iluminar melhor a revelação de Deus aos olhos e à inteligência do homem.
2. A universalidade da salvação
Esta abertura de que falámos explica melhor mais uma característica da salvação cristã. É que ela se deve entender em termos universais, já que está destinada a todos os homens, em comparação com as outras religiões, que tendem a reservá-la para os seus iniciados. A universalidade da salvação cristã, como oferta que é de Deus a todos os homens, coloca então o difícil problema do que acontecerá ao resto da humanidade que não conhecer Jesus Cristo. Devemos pensar que fique abandonada a si própria ou, então, que a vontade salvífica de Deus se estende a toda a humanidade? Ou seja: Deus oferece ou não, a cada homem, o dom da salvação (a que chamamos “graça”) de forma a exprimir-se no dom duma comunicação interior, directa e pessoal? E, acima de tudo, até que ponto as outras religiões são caminhos de salvação queridos pelo próprio Deus? Voltaremos mais tarde a estas interrogações, tão importantes para a missão e os missionários. Por ora, baste recordar que a nossa época revela um interesse descomum pelos problemas designados por diálogo inter religioso e por teologia das religiões. As soluções não são decerto fáceis e, muitas vezes, estão condicionadas por perspectivas unilaterais criadas pela própria teologia tradicional, segundo a qual Jesus Cristo teria apresentado o reino de Deus como transcendente, com plena realização no fim dos tempos. Esta interpretação fez com que, na prática e na pregação cristãs, a salvação assumisse uma conotação marcadamente transcendente e escatológica, ou seja, referente à vida eterna ou ao estado de felicidade a que cada homem é chamado. Trata-se duma implicação típica duma certa teologia e duma certa espiritualidade que muitas vezes resultou em formas exasperadas de individualismo, como a de considerar exclusiva só a salvação da própria alma. Até com o termo “redenção”, frequentemente associado à palavra “salvação”, se tem indicado a acção realizada por Jesus de Nazaré com o objectivo de salvar os homens do pecado e indicar-lhes o caminho da salvação eterna.
3. Deus manifesta-se salvando
A teologia actual contrapõe a esta noção de salvação, que é abstracta e parcial, a noção bíblica de salvação, assente no grande protagonista que é Abraão, nas experiências históricas do Êxodo e nas expectativas messiânicas. E fá-lo atribuindo ao termo “salvação” um significado mais completo e mais real, que se refere tanto à libertação da escravidão e do mal como ao reino de Deus que desceu ao tecido humano da história e aos benefícios que a vinda do Messias implica. Na Bíblia, as situações históricas em que Deus é invocado como salvador referem-se a todos os aspectos da existência humana: a doença, o medo, a angústia, o exílio, a escravidão, a guerra e a morte. Deus liberta o Seu povo de todos estes males e não há realmente contexto algum da vida humana em que Deus não seja invocado como salvador. Esta designação é, por sinal, a mais usada na Bíblia. Os hebreus tinham a certeza de que Deus os tinha libertado dos perigos que os ameaçavam. Disso tinham tido enorme experiência e, por esta razão, compraziam-se em representar os seus antepassados como gente que fora protegida e salva por Deus. Sara foi protegida; Lot escapou à destruição da sua cidade; Jacob beneficiou do auxílio divino; José foi salvo da má sorte que o ameaçava e, por sua vez, tornou-se salvador dos seus irmãos. Até alguns nomes de pessoas significavam “Javé é salvador”. É o caso de Josué, que é idêntico ao de Jesus (cfr. Mt 1, 21; Lc 2, 11). Sejam quais forem as manifestações, a salvação, na Bíblia, é sempre e apenas obra e dom de Deus. A salvação vem do alto; é um milagre de amor e de fé; mas nunca é uma expressão abstracta e alheia à vida do povo. Ela responde a um desígnio específico de Deus, a um pacto que Deus estabeleceu com o seu povo e que se realiza concretamente nas vicissitudes históricas por que passam o homem e a humanidade. O ponto de referência constante na celebração da salvação é, para o povo de Israel, a libertação da escravidão no Egipto. O Êxodo é, para os israelitas, o maior sinal revelador da salvação cumprida por Deus a favor do Seu povo. «Clamámos ao Senhor, Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu o nosso clamor, tomou em consideração a nossa miséria, o nosso trabalho e a nossa angústia e tirou-nos do Egipto, com Sua mão poderosa e o vigor do Seu braço» (Dt 26, 6-9; Ex 14, 30-31). Embora por vezes ela se aplique a indivíduos, a salvação refere-se imediatamente ao povo inteiro. Por esta razão, Israel não cessa de regressar àquele acontecimento que revela a acção salvadora de Deus. Deus dá-se a conhecer salvando, e Israel, experienciando a salvação de Deus, celebra as suas intervenções e proclama-o salvador.
4. Todos verão a salvação
É à poderosa acção de Deus que se ligam sobretudo os profetas. Eles fazem a releitura da história do povo de Israel e proclamam que Deus virá restaurar a unidade do seu povo, virá purificá-lo, lhe dará um coração novo - uma coração não já de pedra mas de carne. No horizonte desta esperança é que ressalta o Messias. Ele é sinal da fidelidade de Deus e salvará o Seu povo definitivamente: trará a salvação que vem de Deus a todos os povos. A realeza de Deus alcança, entre os profetas, uma dimensão universal: «Toda a terra está cheia da Sua glória» (Is 6, 3); o Seu reino «abraça o universo» (Sal 103, 19). Neste contexto, até a acção criadora de Deus revela carácter universal. O Deus de Israel também é o Deus do mundo que criou; e toda a acção salvadora de Deus em relação a Israel é algo que, de per si, se dirige à salvação do universo e de toda a humanidade. Nos cantos de Isaías II - uma das mais elevadas expressões do pensamento religioso - o profeta apresenta uma descrição significativa do “Servo do Senhor”. As suas características coincidem com as do Messias de modo surpreendente. Deus escolhe-o, chama-o, consagra-o, envia-o e transforma-o no homem da Palavra. Nas mãos de Deus, ele torna-se um humilde artífice da salvação. Como cordeiro inocente, ele actua segundo o Espírito, assume o fardo do pecado do mundo, torna-se solidário com os irmãos, não recusa o sofrimento, aceita tudo em silêncio e não se defende. O seu sofrimento é redentor. Desta forma, o Servo do Senhor, «desprezado e rejeitado pelos homens», torna-se «luz das nações» e leva a salvação de Deus até aos mais longínquos confins da terra (cfr. Is 42, 1-7; 1-7; 49, 1-9; 50, 4-11; 52, 13-15; 53, 1-12). Quem maior proveito tira desta salvação são as pessoas mais dispostas a confiar a Deus as suas necessidades. São os pobres, os humildes, os mansos, os justos, os perseguidos: todas estas pessoas experienciam a salvação que vem de Deus: «A minha defesa é o Senhor; Ele salva os de coração recto» (Sal 7, 11). Todo o Saltério ecoa com o mesmo brado: “Salvai-nos, Senhor nosso Deus!» (Cfr. Sal 106, 47; 118, 25). A salvação que Deus dá, sempre teve um aspecto misterioso: é um dom do dia de hoje e para hoje, mas sem nunca deixar de ser uma promessa para o futuro. O oráculo do Senhor, a palavra litúrgica que anuncia o gesto salvador do Senhor é uma promessa: «Eu sou a tua salvação» (Sal 35, 3). Neste caso, a atenção vai mais para o Deus salvador do que para a salvação como tal. A Sua presença na história nunca é vazia: ela é o Seu modo normal de ser para nós: todos «verão a salvação do nosso Deus» (Is 52, 10).
5. Em mais ninguém há salvação
Nos livros do Novo Testamento, o termo “salvação” é usado pelo menos umas 150 vezes e, de entre elas, pouco mais de um terço aparece em forma verbal. Tanto o substantivo como o verbo têm, neste caso, um significado muito amplo. Indicam libertação, segurança, prosperidade, saúde, justiça, bondade e paz. Mas prevalece, em todos os casos, o sentido religioso. A salvação é a acção com que Deus, por meio de Jesus de Nazaré, liberta o homem da sua situação presente e o introduz numa vida nova, que é a mesma vida de Deus. Os que acreditam sabem que esta palavra de salvação já chegou, que a promessa de Deus se cumpriu na pessoa de Jesus. Como dizia São Pedro, metendo em apuros as autoridades religiosas que tentavam sufocar a palavra de vida: «Ele é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular. E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar» (Actos 4, 11-12). É sobretudo Lucas que se apresenta como o teólogo da salvação. Fazendo ligação com as expectativas do Antigo Testamento e com «aquela que acreditou no cumprimento das palavras do Senhor» (Lc 1, 45), no cântico de Zacarias, ele celebra a salvação poderosa de Deus (Lc 1, 68, 79) e, no Nunc dimittis, canta e proclama com Simeão…que os seus olhos viram a salvação, qual «luz para iluminar as nações e glória de Israel de Israel, Teu povo» (Lc 2, 29-32). A tão esperada intervenção de Deus que salva já chegou. Concretizou-se em Jesus, que o anjo exalta como Cristo Senhor, mas que também traz em si um sinal de escândalo - o de Deus feito homem, envolto em panos e colocado numa manjedoura, conforme o anjo anunciara aos pastores (cfr. Lc 2, 8-14). Este escândalo torna-se ainda mais evidente na pregação apostólica, a começar com Paulo, para quem Cristo Crucificado é «escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Cor 1, 23). Nas suas cartas, Paulo revela, sem ponta de medo, uma certeza inabalável: em Jesus Cristo, «condenado à morte pelos nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação» (Rm 4, 25), já estamos de posse daquele dom messiânico por excelência que é a paz. Paulo nunca separa a morte de Cristo da Sua ressurreição. A morte de Cristo, que se realiza na ressurreição, revela o amor de Deus por nós, salva-nos da ira, reconcilia-nos com Deus. A condição indispensável para nos reconciliarmos com Deus é a fé, o acolhimento do dom de Deus. Este dom, que já está presente, está destinado a aumentar até à sua plenitude na glória. Por isso, a salvação ainda é objecto de esperança. É por esta razão que Paulo nos convida «a nos gloriarmos até mesmo nas tribulações», não pelo que são em si mesmas, e nem sequer para que possamos encontrar dentro de nós a força para as superarmos, mas pelo que elas significam, ou seja, a possibilidade de o amor de Deus «derramado pelo Espírito Santo nos nossos corações» descarregar todo o Seu poder na nossa fraqueza (cfr. Rm 5, 1-11).
6. Quem ama, terá a vida eterna
O anúncio dos apóstolos é, pois, fundamentalmente “o evangelho da salvação” (Ef 1, 13). Deus tem o poder de dar a salvação a quem acredita, judeu ou grego (cfr. Rm 1, 16), e os crentes são «aqueles que se salvam» (cfr. 1Cor 1, 18; 2Cor 2, 15; Ef 2, 5-8). A palavra desta salvação já chegou, mas ainda não é definitiva ou completa. Todos os crentes são “salvos em esperança” (Rm 8, 24). Quer dizer: estão à espera da manifestação final do Salvador «quando Cristo aparecerá pela segunda vez…àqueles que O esperam para se salvarem» (Hb 9, 28). Mas fica ainda em aberto esta pergunta: em que consiste a salvação cristã? Que esperanças traz? Que benefícios a integram? Jesus tinha escolhido muito claramente não ser um messias político. Não era Sua intenção libertar o Seu povo da dominação romana. No entanto, Jesus foi anunciado, por Paulo e João, como aquele que traz a salvação definitiva: «Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres» (Jo 8, 36). A libertação que Jesus traz refere-se ao pecado, ao domínio do mal, à escravidão da carne, ao afastamento de Deus, à morte eterna. Mesmo quando a salvação se concretiza em gestos históricos tais como curas, libertação, situações de perigo ou de morte, a salvação que anuncia é sempre definitiva. Como o indicam os milagres de Jesus, ser salvo é ficar curado. Os acontecimentos humanos são apenas sinais e antecipações que nos permitem acreditar na palavra de Deus, que salva. Jesus procura sempre uma cura total e definitiva que atinge a raiz do mal, e que envolve a história toda do homem, dando sentido completo à sua existência. Aquilo que Jesus propõe poderia parecer uma mensagem exclusivamente ético-moral. Através da Sua pregação, Ele teria tencionado levar o homem para o caminho do bem com a finalidade de o tornar melhor. Mas visto que o fundamento da Sua mensagem é Deus que salva, na realidade Ele quer indicar o caminho que leva à comunhão com Deus. Na pessoa de Jesus, o Filho de Deus feito homem por nossa causa, oferece-se a cada pessoa a possibilidade de se pôr em contacto com Deus. Segundo a teologia de São João, «Quem crê no Filho tem a vida eterna» (cfr. Jo 3, 36; 6, 40.47). N’Ele, Deus está presente para que recebamos a verdadeira vida. Mais propriamente falando, a meta desta caminhada é, para São João, o amor: quem ama tem a vida eterna, porque “Deus é amor” (cfr. 1Jo 4, 7-16).
7. O anúncio do Reino que há-de vir
Mas a mensagem de Jesus nunca se reduz a uma salvação individual e exclusiva de alguém. No centro da Sua pregação ergue-se o anúncio do Reino de Deus, que irrompe pela história da humanidade adentro. Ele garante que este Reino está próximo (cfr. Mt 4, 17); e até já chegou (cfr. Mc 1, 15). E, no entanto, ele ainda está para vir (cfr. Lc 11, 2). Trata-se duma realidade actual, mas que também é transcendente, escatológica: começa aqui mas projecta-se para o futuro. As bem-aventuranças proclamam “felizes” aqueles que passam pela experiência do Reino de Deus (cfr. Mt 13, 16) e acolhem o mistério desconcertante que se esconde em Jesus de Nazaré (cfr. Mt 11, 6). Esta felicidade está presente em todos os que vivem as bem-aventuranças, mas permanece continuamente aberta ao futuro; está orientada para a realização plena do Reino de Deus, visto que o reino é uma realidade escatológica que se cumpre plena e definitivamente no fim dos tempos, na vida eterna e na comunhão com Deus. O Reino de Deus, porém, não é apenas escatológico-final: ele também é actual; está no meio de nós; cumpre-se através da nossa vida, inspira as nossas decisões; propõe valores diferentes dos valores puramente mundanos. Bem-aventurados os pobres, os oprimidos, os marginalizados e os perseguidos. Deus alinha com eles, não porque tenham direito a este privilégio ou sejam particularmente dignos disso, mas porque Ele é, por definição bíblica, aquele que pode defender quem não tem condições de o fazer sozinho. É este o motivo de Jesus para proclamar a gratuidade e a liberdade da iniciativa de Deus, que escolhe os pequenos e os pobres e concede o perdão aos pecadores. Durante toda a Sua vida pública, Jesus empenhou-Se em libertar o homem de tudo aquilo que o degrada e deturpa a sua dignidade. Liberta-o do egoísmo e da injustiça (Zaqueu), da marginalização (os leprosos), da solidão (o cego de nascença), da dependência (o paralítico), da vergonha (a hemorroíssa), da fome (a multiplicação dos pães), do medo (a tempestade no lago), da doença (as curas), da morte (Lázaro), do pecado. Todos estes são sinais de salvação e sinais de que o Reino está próximo, e até já no meio de nós (cfr. Lc 4, 17-20). Já o evangelista Lucas (cfr. 6, 20-26) pretende dar coragem aos que “agora” se encontram em condições difíceis, fazendo-lhes antever uma recompensa futura; enquanto que Mateus (cfr. 5, 1-12) se concentra em sublinhar as disposições necessárias para viver a mensagem das bem-aventuranças. Aquilo que vai contar, antes de mais, não são as condições da existência humana mas sim a maneira como se vive a docilidade à Palavra de Deus e o amor pela “justiça”. A pobreza tem o seu valor, mas só se for vivida “em espírito”, se for acompanhada pela mansidão. A verdadeira fome terá que ser “de justiça”. Bem-aventurados são os puros de coração, os agentes da paz, os misericordiosos, os perseguidos por causa da justiça. Ou seja, as bem-aventuranças contêm uma mensagem rica em força e deslumbramento porque a riqueza do coração e as disposições interiores têm que preceder as condições económicas e sociais. Portanto, a salvação que vem de Deus intersecta toda a existência da pessoa; acontece na moldura da história, torna-se história e até a supera e ultrapassa para assentar definitivamente em Deus. A função da Igreja está em se inclinar perante os sofrimentos humanos mas também em orientar a pessoa e a vivência da humanidade inteira para o mistério de Cristo. É deste mistério que a Igreja é sinal e instrumento através do qual Deus realiza na história o Seu desígnio de salvação.
PISTAS PARA REFLEXÃO
· A nossa perspectiva de salvação tem raízes bíblicas profundas. Como é que as tenho manifestado na pregação e na catequese? · Tenho o cuidado de ajudar os crentes - especialmente os jovens - a descobrir a presença e a salvação de Deus na história actual e na vivência pessoal de cada um? · Deus quer que todos se salvem: como é que manifestamos esta verdade na nossa actividade missionária? Que meios culturais utilizo para apresentar o “Salvador” às pessoas no meio das quais desenvolvo a minha acção missionária? · Temos capacidade para introduzir os destinatários da nossa evangelização a profundas e autênticas experiências de salvação? · Que lugar ocupa o kerygma na nossa pregação? Que vivência fazem os nossos cristãos? · Como ajudamos as pessoas a captar e viver o “já” e o “ainda não” do Reino de Deus?
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