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Diálogo Inter-Religioso PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Ottone Cantore, imc   
10 de April de 2006

Bíblia e Alcorão: confronto sinóptico

Uma avaliação do livro de Cherubino Mário Guazzetti
(Cinisello Bálsamo, 1995) 



Apresentação da obra

1. Autor - O autor é um cristão, um salesiano, que conjuga ao mesmo tempo uma profunda adesão ao Cristianismo e o interesse para com o Islamismo, do qual é profundo conhecedor, uma vez que viveu cerca de trinta anos no Médio Oriente.

2. Conteúdo - Q livro contém as seguintes partes:
- Apresentação, de Gianfranco Ravasi.
- Introdução,
- Confronto sinóptico entre Bíblia e Alcorão.
Os textos de ambos (Bíblia e Alcorão) são colocados em páginas opostas, sendo fácil, por isso, ver, num relance de olhos, a página correspondente da Bíblia e do Alcorão. O texto bíblico é tirado de La Bibbia, novíssima versão dos textos originais (Cinisello Bálsamo, 1991). As citações do Alcorão são tomadas de Cherubino Mário Guazzetti, // Corano. Introduzione, Traduzione e Corrimento (Leumann, Torino, 1993). O texto da Bíblia serve de base; o texto do Alcorão é colocado junto ao texto bíblico. ^—

As notas - Encontram-se tanto sob o texto bíblico como sob o texto do Alcorão. As que se situam sob o texto bíblico servem para:
- explicar melhor ao leitor o texto bíblico (1);
- comparar o conteúdo bíblico ao do Alcorão (2).
As notas que se encontram sob o texto do Alcorão têm funções diversas:
- explicação de palavras e frases (3); referência a outros textos do Alcorão (4);
comparação entre episódios narrados pelo Alcorão e textos bíblicos (5); explicação de elementos históricos (6) e geográficos (7); explicação de conceitos teológicos (8).

Aparatos e índices
- O livro termina com os seguintes aparatos:
- Bibliografia essencial.
- Concordância para a grafiadosnomesdaBíbliacdo Alcorão (muito válida paia ligar o conteúdo dos dois livros).
- Glossário (que oferece uma breve explicação dos termos mais comuns que se encontram na leitura do Alcorão).
- índice analítico do Alcorão (elenca em 45 páginas os nomes próprios e os principais conceitos contidos no Alcorão, indicando-lhes o significado, o contexto no qual são citados e os textos onde se encontram).
- Índice das citações da Bíblia.
- índice das citações do Alcorão.
- índice geral.

3. Personagens e temas expostos

O autor, para confrontar a Bíblia com o Alcorão, escolhe o caminho mais óbvio e simples: começa do Génesis e prossegue até o Novo Testamento, escolhendo as personagens bíblicas que são consideradas no Alcorão. A esta lista são acrescentados também os temas: Criação do mundo; Criação do homem; Louvor ao Criador. Desta forma, é fácil para o leitor dar-se conta de como o Alcorão tenha tratado tais personagens, quais os dados em comum com a Bíblia e os que divergem dela. Além disso, para tornar mais fácil o confronto, quando os textos bíblicos ou do Alcorão são muito extensos, o autor os divide em pequenos capítulos. Eis a lista:
- Criação do mundo;
- Criação do homem;
- Louvor ao Criador,
- Pecado de Adão e Hva;
- CaimeAbel;
- Noée o dilúvio;
- Torre de Babel e Torre de Faraó;
- Abraão;
- José;
- Moisés;
- Saul;
- Davi;
- SalomSò;
- Elias eEliscu;
- Jonas;
- Jó;
- Zacarias, Isabel e João Bali s(a;
- Maria, mãe de Jesus;
- Jesus.

Avaliação crítica do livro

A meu ver, o li vro constitui uma ótíma introdução ao Alcorão em relação à B íblia quer para os cristãos que não conhecem o Alcorão, quer para os muçulmanos qut desejassem conhecer um pouco mais a Bíblia É claro, não posso examinar todos a aspectos do livro.
Particularmente, quisera anotar os seguintes aspectos.

Introdução

O autor faz notar exatamente que o confronto entre a Bíblia e o Alcorão é difíc mas ao mesmo tempo necessário, "porque é sobretudo do conhecimento recíproi que pode nascer o estímulo ao respeito e à convivência pacífica" (9). O autor pas depois a revelar as diferenças existentes entre a Bíblia e o Alcorão.

O Alcorão é a Palavra de Deus: "no Islamismo ocupa a posição central, cot Jesus a ocupa no Cristianismo" (10). Este esclarecimento é importante, porc ajuda a evitar erros grosseiros de avaliação. Ousaria acrescentar também: islâmicos - obviamente - acolhem o Alcorão de uma maneira até mais per ít que nós, cristãos, acolhemos aquilo que reconhecemos em Jesus Cristo. P nós, Jesus Cristo é verdadeiro Deus (portanto, perfeito), e também verdadi Homem (com suas limitações humanas, por exemplo, limitações conhecimento), ao passo que para o Islamismo o Alcorão é totalmente < ii v i inimitável, como se afirma em 17,88: "Ainda que homens eginn se unissem’ fazer um Alcorão como este, não conseguiriam, embora ajudand< reciprocamente" (11).
62 Diâlago

O autor do Alcorão é Deus, que dita "palavra por palavra, antes, letra por letra" (12) daquilo que o profeta deve escrever. Este é um aspecto profundamente diverso da compreensão cristã e hebraica da Bíblia, onde o autor não é o "dactilógrafo que escreve o ditado" de Deus, mas conserva a própria personalidade, como se pode notar em cada página da Bíblia e do Novo Testamento. Para o Cristianismo, esta revelação impede somente erros no campo dogmático e moral, não elimina a personalidade do autor sagrado.

Enquanto o Cristianismo reconhece as fontes e influências humanas da sua revelação, o Islamismo não se preocupa com o problema das fontes do Alcorão, porque, segundo os islâmicos, a única fonte é Deus (13).

O Alcorão, enquanto revelação "descida" de Deus, não pode ser traduzido, porque cada letra tem ura seu significado escondido. No Cristianismo, ao invés, a tradução é normal, enquanto a Bíblia, para Jesus e para a Igreja primitiva, já chegara em tradução grega. Quando se aceita uma tradução, aceita-se também uma pluralidade de visões, porque cada tradução deve mediar entre dois mundos diversos. O dito popular "tradutor, traidor" é muito verdadeiro! A falta de traduções oficiais do Alcorão (até recentissimamente) talvez explique o porquê o Islamismo seja um sistema monolítico.

Segundo o Alcorão, a Bíblia e o Evangelho são incompletos (enquanto revelados a uma humanidade imatura) e corrompidos no curso dos séculos; daqui a necessidade de uma nova revelação (14). Certamente - a meu ver - o confronto com esta crítica islâmica em relação aos nossos confrontos nos obriga a fazer um exame de consciência!

O conceito de "profeta", para o Islamismo, é o de "legislador", e não o conceito bíblico: "aquele que faz conhecer os mistérios divinos" (15). Para mim, este conceito não é adequado para representar os profetas bíblicos.

Além disso, os maiores profetas bíblicos (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, etc.) são ignorados pelo Alcorão. Por quê? O autor expressa esta opinião: Talvez os hebreus com os quais Maomé entrou em çontato não estivessem interessados nos ideais religiosos e morais anunciados por estes profetas (16).

JOSÉ

O Alcorão dedica à figura de José (do Egito) o capítulo n° 12, considerado o mais belo do Alcorão. Os dois ensinamentos principais que colho da leitura do texto do Alcorão são os seguintes:
- Deus provê às necessidades de seus seguidores, também nos perigos mais graves. Prova-se isso pelo comportamento integérrimo do jovem José, escravo num país estrangeiro, embora cobiçado com veemência e prepotência por sua patroa, embora sentisse por ela ardente desejo sexual (12,24). Nisto, o Alcorão segue o modelo bíblico.
- José é apresentado como um muçulmano perfeito (17), um perfeito hanif, enquanto obedece a Deus. Aqui a ênfase é mais muçulmana, embora tenha fundamento bíblico.

O confronto, porém, entre o texto bíblico e o do Alcorão apresenta os seguintes aspectos:
Na Bíblia, a descrição é psicologicamente delicada e revela forte tensão e emoção (Ex.: Gn 39,7-11; 45,1-15). Além disso, como observa claramente Guazzetti (18), o contexto da narração bíblica é muito mais tipicamente egipciano, com a presença de magos, adivinhos, carestias e prosperidades causadas pelo Nilo, o Faraó e a corte,
- A narração que o Alcorão faz de José, ao invés, é "anacronisticamente islâmica, e o próprio Faraó não passa de um rei qualquer" (19). Além do mais, a fineza psicológica "quase não existe na narração do Alcorão (20); é uma narração mais fria que a narração bíblica (21).

Confrontando, portanto, a narração entre os dois textos, a meu ver é evidente que:
A narração bíblica, sem dúvida, é de se preferir sob o ponto de vista estético, histórico e psicológico. É necessário acrescentar, contudo, que a minha avaliação se baseia na leitura do texto traduzido e na avaliação de Guazzetti; não tenhc certamente condições de avaliar o texto do Alcorão em árabe! A base da narração do Alcorão está a narração bíblica, não obstante aparece que o Alcorão - segundo a interpretação de Guazzetti - negue tal dependência De fato, cm í 2,102 lemos: "Esta á urna das histórias do mundo invisível que nós te revelamos" (22). Contudo, a dependência literária da Bíblia é evidente!

MARIA

Guazzeti faz notar os seguintes pontos:
As fontes das quais o Alcorão extrai as suas informações a respeito de Maria, Jesus, Zacarias, Isabel e João Batista são o Novo Testamento, os Apócrifos e fontes heréticas, especialmente maniqueístas (23).
A narração referente a Maria encontra-se sobretudo nos capítulos 3 e 19, com diversas outras citações (24).
O Islamismo, em razão da acentuação da transcendência divina, rejeita absolutamente o conceito de encarnação (19,35) (25). O Alcorão demonstra grande respeito para com Maria, Jesus e João Batista (26). A veneração do Alcorão tributada a Maria era, provavelmente, alimentada pela grande veneração com que o Cristianismo Bizantino honrava a Virgem Maria] e também porque na própria Caaba havia uma imagem de Nossa Senhora com o Menino, que Maomé quis conservar mesmo depois da conquista de Meca, no ano630(27).

Vejamos alguns detalhes. No que se refere à ANUNCIAÇÃO, o Alcorão apresenta:
■ Duas versões para as mensagens de Deus a Maria: o anjo Gabriel ("Espírito de Deus") em 19,17-21; e os anjos em 3,45-46).
■ A virgindade de Maria é sublinhada de maneira mais explícita e concreta que no Evangelho. Maria afirma com ênfase: "Nenhum homem jamais metocou" (3,47); e "Não sou uma mulher dissoluta" (19,20).
A Onipotência divina é apresentada de maneira mais concreta que nos Evangelhos: "Deus cria aquilo que quer. Quando decide uma coisa, só lhe resta dizer: ’Exista!’, e ela se torna realidade"(3,47b).

Quanto ao nascimento de Jesus, verificamos que:
■ O contexto em Lucas é bem definido, ao passo que "o Alcorão limita-se a uma narrativa genérica, sem nenhuma indicação histórica e geográfica, e situa o acontecimento num ambiente tipicamente árabe" (28).
■ O Alcorão chama Maria de "irmã de Aarão" (19,28). Acontece isto por causa da confusão entre a Maria do Novo Testamento e a Maria do Antigo Testamento? Guazzetti defende a opinião de que o Alcorão não confunde as duas mulheres chamadas MARIA, mas, por "irmã de Aarão", entende dizer: "da descendência de Aarão" (29).
Bíblia e Alcorão: confronto sinóptico 65
■ O Alcorão, baseando-se em narrações apócrifas, faz Jesus rccém-nescido falar, para defender Maria da acusação de ser mulher dissoluta (19,30-33).
O Alcorão sublinha que Jesus é "filho de Maria" (19,34), para indicar que não se trata, de modo algum, de filiação divina.
■ Maria é chamada "Santa" (5,75), que no texto árabe é "Siddiqa", isto é, "verdadeira, sincera, justa, excelente e, portanto, santa" (30).

A figura de José - como esposo de Maria- é totalmente mantida em silêncio no Alcorão, provavelmente para sublinhar o caráter milagroso do nascimento de Jesus. Encontram-se, contudo, diversos hadith que se referem a José (31).
A figura de Jesus, central para o Cristianismo, é também muito importante para o Islamismo. Guazzetti anota os seguintes aspectos sobre o tratado que o Alcorão faz a respeito de Jesus:
■ É um realizador de milagres desde a infância e a juventude (19,30-33; 3,48-49; 5,112-115) (32).
" É um profeta (19,39), em tudo inferior a Maomé. Esta inferioridade é demonstrada também - segundo o Alcorão - pelo fato que Jesus anuncia a vinda de Mohammed (Maomé), como se pode verificar (61,6) (33).
■ E um mensageiro de Deus (4,171; 61,6)’.
■ É o Messias, entendido não no sentido hebraico-cristão de "Ungido" e "Consagrado por Deus", mas como alguém que "toca" ou "é tocado" (34).
■ É um exemplo a seguir (43,57-58).
■ Amaldiçoou os incrédulos (5,78) (35).
■ Muitos ensinamentos evangélicos se refletem no Alcorão, por exemplo: perdão e reconciliação (42,40); esmola feita em segredo (2,271) (36).
■ Segundo 4,157-158, Jesus não morreu na cruz, mas foi substituído por um homem semelhante a ele (um sósia?), ao passo que ele foi elevado ao céu por Deus (37).
■ Certamente, Jesus não é filho de Deus. A este respeito o Alcorão é enfático. Rejeita com veemência toda e qualquer afirmação da Trindade (4,171; 5,73; 5,116) (38).

Quisera encerrar esta avaliação do livro com as seguintes conclusões: • O tema Bíblia e A Icorão poderia ser apresentado de vários outros modos:
a) a ideia de Deus na Bíblia e no Alcorão;
b) valores morais na Bíblia e no Alcorão;
c) antropologia na Bíblia e no Alcorão;
d) fundamentalismo na Bíblia e no Alcorão; e outros ainda.
66 Diálogo InUr-Reltgioso

Guazzetti escolheu o método mais claro e fácil para confrontar os dois textos sagrados. Uma síntese permite ver com clareza os pontos em comum e os divergentes (39). Somente depois de verificar com clareza o confronto sinóptico entre Bíblia e Alcorão, é que o estudioso pode mergulharem paralelos temáticos mais profundos.

• Fazendo um confronto sereno entre Bíblia e Alcorão, aparece claramente que o Alcorão colheu da Bíblia, e de outras fontes, muito material (40), mesmo sem considerar o problema das fontes. Este fato põe em evidência uma notável divergência entre Cristianismo e Islamismo. O Novo Testamento, na verdade, ci ta diretamente amplos trechos do Antigo Testamento (cfr. por exemplo: Mt 11,10; 11,23; Lc 3,4-6; e muitos outros). Além do mais, a Igreja aceita como Palavra de Deus todo o Antigo Testamento dos Hebreus, convidando o fiel crente à leitura/escuta direta do texto. O Islamismo não faz assim, mas sublinha apenas a origem divina da revelação feita a Mohammed, sem preocupar-se das fontes bíblicas da Revelação. Neste ponto, o Cristianismo demonstra um senso histórico e crítico bem superior ao Islamismo, enquanto aceita como Palavra de Deus não só o Novo Testamento (que é fundamental para o cristão), mas também o Antigo Testamento (que era a Bíblia de Jesus).
• Uma leitura atenta do nosso livro ajuda um pouco a conhecer o Islamismo. É uma coisa muito válida, seja porque os muçulmanos estão hoje disseminados no mundo inteiro, seja também porque nós - cristãos - cremos que as "sementes do Verbo" estão semeadas em toda parte (41).
• A leitura sinóptica da Bíblia e do Alcorão nos ajuda a entender que, ainda quando se fala da mesma personagem bíblica, e também quando se usam até mesmo os idênticos termos, pode haver divergências notáveis de significado, por exemplo, arespeito de Maria e de Jesus. Para nós, cristãos, Jesus é o Filho de Deus. Não pode haver Cristianismo verdadeiro sem esta fé em Jesus, Filho de Deus. Não acontece o mesmo com os muçulmanos, como vimos acima. Este é um ponto que deve sempre ser lembrado num diálogo inter-religioso, do contrário criam-se equívocos perigosos, que podem gerar confusão.
• Na leitura do Alcorão, em relação à Bíblia, impressionaram-me positivamente estes elementos:
> Concretude de linguagem, por exemplo, acerca da virgindade de Maria (3,47 e 19,20) e da onipotência de Deus (3,47).
> Ênfase no reconhecer os "sinais" dcDeus(10,92;2,61;26,8.etc.>-Esteconceito é profundamente bíblico e importante para a vida de relacionamento com Deus.
> Vida moral de bondade para com os outros (por exemplo: 28,77; 21,90); de honestidade (38,24); de caridade concreta(17,23-26).
• Ao contrário, os seguintes elementos do Alcorão deixam-me perplexo:
> Falta de senso histórico, como se pode ver, por exemplo, ao tratar da história de José, como acenei acima.
> A arbitrariedade do comportamento de Deus, que é certamente estranha e até contraditória, por exemplo, ao tratar da morte real ou só aparente de Jesus na cruz.
> Mohammed prediz a condenação ao inferno a Abu Lahad e sua mulher (11,1-5). Parece-me que isto demonstra um espírito de vingança, que, a meu ver, não encontramos nem na Bíblia nem no Novo Testamento (42).

• Falta de consideração da personalidade do autor sagrado, para sublinhar que todo o texto "desceu" diretamente de Deus. Esta atitude deriva do desejo de apresentar Deus como transcendente, mas não oferece um espaço realístico à função do autor humano, que escreve o texto com as suas limitações. Tais limitações aparecem de diversos modos, por exemplo, na mudança de opinião acerca da qibla, ou direção da oração (43). Todos os documentos produzidos por seres humanos, inclusive a Bíblia e o Alcorão, demonstram claramente as limitações do escritor. Negar isso comporta uma tarefa impossível, é fechar os olhos perante a evidência, é querer "trepar sobre vidros", na vã tentativa de provar que tudo deriva diretamente de Deus, inclusive as contradições. A Igreja Católica reconhece que a Bíblia é obra humana e divina. A inspiração divina salvaguarda os aspectos doutrinais e morais "para a salvação" (44). Tudo o resto é obra do autor humano. ,

Eis porque se aceita a leitura crítica de cada texto. Ao invés, para o Islamismo esta mediação humana não só não é reconhecida, mas é simplesmente negada. C Alcorão é só Palavra de Deus descida do céu. Consequentemente, a leitura crític do Alcorão é inaceitável; pelo que a única leitura aceitável é a fundamentalista.
Esta tendência do Islamismo em acentuar a ação divina e a desvalorizar a human aparece clara também nos textos básicos. Por exemplo, em Génesis 2,19: é o homei que dá o nome aos animais (mostrando assim o próprio domínio sobre o mune animal). Na passagem correspondente do Alcorão (2,31), é Deus mesmo que dá nome a todas as coisas, revelando-o depois ao homem. Ademais, o drama do pecad apresentado tão delicada e plasticamente no capítulo 3 do Génesis (tentação, peca como rebelião, consequências, perdão da parte de Deus), no Alcorão é apenas esboçado (2,36-39), com e enunciação: pecado, perdão da parte de Deus, expulsão do jardim, responsabilidade humana. Também este confronto revela a superioridí artística, literária e psicológica da Bíblia sobre o Alcorão.
• Finalmente, um confronto entre Bíblia e Alcorão não pode deixar de considerar as seguintes diferenças:

- Princípio de Tradução.
Como já vimos anteriormente, o Antigo Testamento chega aos cristãos em várias línguas (aramaico e hebraico) e também em tradução (grego). A aceitação do princípio comporta a aceitação de pluralidade de pontos de vista, porque cada tradução, inclusive a que procura ser fidelíssima, introduz novas interpretações. Na verdade, a tradução é como uma ponte entre duas culturas. Para transportar um texto da cultura que o produziu àquela que o recebe, deve necessariamente ser explicado com termos "novos", não originais, acessíveis ànovacultura; daqui a necessidade de interpretar a mensagem original. Isto leva à pluralidade de pontos de vista, porque ao menos dois pontos de vista devem ser considerados: o original e o da língua na qual se quer traduzir o texto. A Bíblia, portanto, para os cristãos, permite desde o começo uma abertura pluralística adiversas formas culturais.
Não se dá o mesmo com o Islanúsmo, que insiste desde o começo sobre a língua árabe (45) como lihgua essencial da Revelação divina e da oração. Tudo isso determina a fornia e o conteúdo da Revelação, impede a abertura a interpretações novas.

- Extensão do período no qual se efetuou a Revelação.
Para o Antigo Testamento temos um período muito longo, mais de 1000 anos. Esta extensão comporta notáveis variedades de experiências religiosas, de autores, de géneros literários. Uma pessoa que aceita o Antigo Testamento como Palavra de Deus é continuamente desafiada a compreender-lhe a variedade, a discernir entre o essencial e a mensagem que teve apenas um valor circunstancial, enfim, a acolher o "cânon no cânon".
Isto acontece também, em menor proporção, com o Novo Testamento, que foi escrito no espaço de 50 anos, aproximadamente, e que encerra a experiência religiosa de cerca de 70 anos. Também ele foi escrito por múltiplos autores que usaram géneros literários diferentes (Evangelhos, Epístolas, Narrações, Literatura Apocalíptica).
Não assim com o Alcorão. O tempo em que foi escrito é relativamente breve: no máximo 23 anos (46). A sua revelação foi proferida por uma única pessoa: Mohammed. Houve mais variantes textuais, mas o processo de unificação do texto foi iniciado muito cedo (47). Um texto unificado foi imposto a todos, poucos anos após a morte de Mohammed (48). Tudo isto conduz a uma mensagem uniforme, que dificilmente permite um pluralismo de perspectivas.

Conclusão

Deste estudo colhi notáveis vantagens para melhor conhecimento do Islamismo e de seu texto-base - o Alcorão - exatamente porque comparado com a Bíblia e o Novo Testamento, textos-base do Cristianismo. Confesso ainda que o presente trabalho despertou em mim maior apreço pela Bíblia e pelo Cristianismo. Desejo o mesmo resultado a quantos lerem com atenção o livro de Guazzetti.

ANOTAÇÕES
Por exemplo, no 2 Sara 12,10 lemos: "Por isso, jamais se afastará a espada de tua casa". A nota B, à página 196, explica: "Segundo o antigo princípio bíblico, o castigo deve ser proporcionado ao delito; pelo
homicídio, Davi terá três filhos mortos: Amnon, Absalão e Adonias; pelo adultério, terá suas mulheres e concubinas desonradas."
2 Por exemplo, no 2 Sam 12,7 lemos: "Ouve o que diz o Senhor, Deus de Israel: Eu te ungi rei sobre Israel, salvei-te das mãos de Saul". A nota A da página 1% afirma. "O Alcorão não fala do contraste entre Saul e Davi, nem da amizade entre Davi e Jônatas, filho de
Saul".
3 Por exemplo, à p. 51, em 5,27 lemos: "Narra-lhes de acordo com a verdade a história dos dois filhos de Adão quando ofereceram um sacrifício, e o sacrifício de um deles foi aceito..." A nota "a" referente a "um deles" explica: "Abel",
4 Por exemplo, à p. 45, em 7,19 lemos: "E tu, Adão, habita com tua esposa no jardim e cornei dos frutos que quiserdes; não vos aproximeis, porém, daquela árvore porque vos tomaríeis iníquos". Na nota relativa a "vos tornaríeis iníquos",lemos: "Cf. 2,35". De fato, 2,35 reproduz quase literalmente 7,19.
5 Por exemplo, à p. 157, em 10,90 lemos: "Faraó, estando prestes a se afogar, disse: ’Creio que não há outro Deus afora o Deus no qual crêem os filhos de Israel! Eu também sou dos que se lhe submetem!’ ". A nota "a" afirma: "Desta conversão de Faraó, como da dos magos egípcios (cf. 26,46-51), não se faz menção na Bíblia".
6 Por exemplo, à p. 155, 44,32 lemos: "Na nossa presciência os escolhemos entre todas as criaturas". O texto indica claramente a eleição de Israel por parte de Deus. Na nota "b", referente a este texto, Guazzetti comenta: "Mais Urde, o comportamento favorável de Maomé, em relação aos hebreus (e em parte em relação aos cristãos), sofreu uma evolução negativa, porque recusavam reconhecer nele a missão divina".
7 Por exemplo, à p. 23, em 27,61 lemos: (Deus) "ergueu uma barreira entre os dois mares." Guazzetti na nota "m" explica: "Os comentaristas vêem uma referência aos dois rios, o Tigre e o Eufrates, que confluem no Shatt ai-Arab, e ao Golfo Pérsico, onde se lançam..."
8 À p. 31, em 23,14 lemos: "Bendito seja, pois. Deus, o melhor dos criadores!" À nota "b" Guazzetti explica: "Expressão que provavelmente deve ser entendida não como afirmação lógica, mas como simples exclamação emotiva; do contrário implicaria a existência de outros criadores além de Deus. Algumas seitas xiitas afirmam exatamente que Deus criou imatn (supremos chefes religiosos) para criar o mundo".
9 C. M. Guazzetti, Bibbia e Corano. Confronto sinottico, p. 9.
10 CM. Guazzetti, ibid., p. 9.
11 CM. Guazzetti, // Corano. Introduzione, Traduzione e Commento, p. 166, nota 23: "É especialmente sobre este versículo que se baseia a teoria da inimitabilidade do Alcorão".
12 CM. Guazzetti, Bibbia e Corano. Confronto sinottico, p. 10.
13 Certamente - faz notar o autor - o Alcorão tem como fontes principais o Antigo e o Novo Testamento (conhecidos provavelmente só de maneira indireta), como também o mundo pré-islâmico árabe e elementos maniqueístas e zoroastristas. Cf. C. M. Guazzetti, ibid., p. 11.
14 C. M. Guazzetti, ibid., p. 12. Comentário sobre 5,14 e 19,37.
15 CM. Guazzetti, ibid., p. 13.
16 C. M. Guazzetti, ibid., p. 13.
17 CM. Guazzetti, ibid., p. 101, nota a.
18 CM. Guazzetti, ibid., p. 109, nota a.
19 C. M. Guazzetti, ibid., p. 109, nota a.
20 C. M. Guazzetti, ibid., p. 112, nota a.
21 CM. Guazzetti, ibid., p. 117, nota a.
22 C M. Guazzetti, ibid., p. 125, nota b: "O que exclui categoricamente toda dependência do Alcorão de outras fontes (inclusive a Bíblia) que não sejam a revelação divina, feita pessoalmente a Maomé".
23 CM. Guazzetti, ibid., p. 226.
24 C. M. Guazzetti, ibid., p. 226.
25 C. M. Guazzetti. ibid., p. 226.
26 C. M. Guazzetti, ibid., p. 226.
27 C. M. Guazzetti, ibid., p. 233.
28 C. M. Guazzetti, ibid., p. 240.
29 C. M. Guazzetti, ibid., p. 241, nota b.
30 C. M. Guazzetti, ibid., p. 245, nota c.
31 CM. Guazzetti, ibid., p. 244, nota a.
32 C. M. Guazzetti, ibid., p. 257, nota d: "É claro que o Alcorão e a tradição islâmica apresentam Jesus sobretudo como realizador de milagres".
33 C. M. Guazzetti, // Corano. Introduziam, Traduzione e Commento, p. 322. Na nota 2 a 61,6 Guazzetti explica amplamente que o Ahmad anunciado no texto é o mesmo que Muhammed enquanto deri vante da mesma raiz; seria um jogo de palavras para indicar Maomé. Além disso, faz notar como João 15,26 -um texto que se refere ao "Paráclito" - seja interpretado por vários exegetas muçulmanos como referido ao "periclytos", isto é, ao "famoso", a Ahmad, a Muhammed.
34 C. M. Guazzetti, Bibbia e Corano. Confronto sinottico, p. 252 nota a: (Os exegetas muçulmanos "dão ao verbo árabe masaha (afim ao hebraico mashah) não o significado de "ungir", "consagrar", mas o menos comum de "tocar". Por isso, Jesus é Messias porque toca os doentes e os cura, ou também porque foi tocado e enriquecido pela baraka ou bênção divina. Segundo outros exegetas árabes, Jesus é Messias porque foi tocado pela asa do anjo Gabriel na hora do nascimento, para protegê-lo do contato impuro de Satanás. Seja como for, o Islamismo ignora o conceito cristão de Jesus como Redentor da humanidade".
35 C. M. Guazzetti, ibid., p. 259, nota e: "Exemplo típico da deformação da figura de Jesus em sentido islâmico. Jesus nunca amaldiçoou ninguém".
36 Guazzetti dedica ao paralelo entre os ensinamentos do Evangelho e os do Alcorão diversas páginas do seu livro: da p. 260 à p. 265.
37 C. M. Guazzetti, ibid., p. 269. nota "a". Guazzetti faz notar que a teoria da substituição de Jesus na cruz é tirada dos Docetas e é
a doutrina muçulmana ortodoxa. Esta se choca com o texto de 19,33 em que Jesus prevê a própria morte, e 3,55 em que Deus prevê a
morte de Jesus. Por outro lado, a não realização da morte prevista por Jesus e por Deus não constitui nenhum problema para os muçulmanos, porque Deus é absolutamente livre de mudar o que quer e
quando quer.
38 CM. Guazzetti, // Corano. Introduzione, Traduzione e Commento, p. 72, nota 32. Guazzetti faz notar: "Na realidade, não é que o Alcorão condene a Trindade Cristã, mas sim um triteísmo composto por Deus Pai, por Jesus e por Maria, sua Mãe" (cf. 5, 116) Além disso, Guazzetti faz notar, em Bíblia e Alcorão: Confronto sinóptico, p. 246: "Ao longo dos séculos a tradição islâmica sempre procurou minimizar as afirmações do Alcorão acerca de Jesus, interpretando-lhe os privilégios no contexto do monoteísmo mais intransigente e condenando como imperdoável blasfémia a afirmação de sua divindade".
39 Confrontei o nosso livro com o de Hugo Bonanate, Bibbia e Corano. I Testi Sacri Confrontati (Torino, 1995). Neste último livro, o autor faz uma escolha temática. Ele apresenta - sobre determinado tema -alguns textos do Antigo e do Novo Testamento e do Alcorão. Cada texto é precedido de brevíssima introdução explicativa. Em ralação ao modo de tratar e de expor de Guazzetti, o livro de Bonanate perde
em clareza, enquanto os textos se sucedem sobre uma página, e não são impressos em três colunas
paralelas. Além disso, a falta de um índice temático, de um índice dos textos bíblicos e do Alcorão citados,
torna-o um livro difícil de ser consultado.
Compara a este respeito o juízo expresso por J. D. Pearson, AL-KUR’AN, em Encyctopedia of Islam, V,
Leiden 1991, p. 423: "Most kuranic narratives are versions of traditional stories, found in Near Eastem
Cultures, which have been adapted to conform to the world-view and learning of the Ku’ran"
Cf. Lumen Gentium 8; Nostra Aetate 2.
Encontramos muitíssimas ameaças graves na Bíblia e no Novo Testamento, porém são anónimas, não
dirigidas a indivíduos explicitamente nomeados. Além disso, podem ser entendidas, frequentemente,
como apelos urgentes à conversão (Ex.: Apocalipse 3,14-21). Segundo o exemplo bíblico, a Igreja
Católica nunca declarou uma pessoa como "condenada ao inferno"; pelo contrário, muitos membros da
Igreja são declarados solenemente "santos".
CM: Guazzetti, // Corano. Introduzione, Traduzione e Commento, p. 32, nota 39 e, 2,115: "Os
primeiros muçulmanos rezavam voltados para Jerusalém". Em 2,115 lemos que a oração pode ser dirigida
em qualquer dircção. Em 2, 142-144 lemos que a direção da oração é a Mesquita Sagrada, isto é, Meca.
Dei Verbum, 11: "Oeve-se professar que os livros da Escritura ensinam com certeza e fidelidade, sem erro,
a verdade que Deus, em vista da nossa salvação, quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras".
13,37; 16,103, etc.
Se calculamos que Maomé tivesse 40 anos quando recebeu a primeira revelação, deveria ser em 610,
porque ele nasceu no ano 570. Se, ao invés, se aceita a outra opinião, isto é, que Maomé tivesse 43 anos
quando recebeu a primeira revelação, então devia ser em 613. Oado que Mohammed morreu em 632, o
período em que foi inspirado durou 23 ou 20 anos.
Foi o primeiro Califa Abu Bakr (632-634) a fazer a primeira redação dos textos. Veja-se: J. D. Pearson,
"AL-KURAN", in Encyclopedia of Islam, V, p. 404.
Segundo a versão ortodoxa tradicional, isto foi feito sob o terceiro Califa Uthman (644-656), embora se
saiba que houve variantes por diversos séculos. Cf. J. D. Pearson, ibid., p. 404.

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