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| II. A SALVAÇÃO NOUTRAS RELIGIÕES |
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| Por Consolata.org | |
| 06 de March de 2006 | |
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Vimos como a salvação é uma tentativa feita pelo homem para dar solução aos problemas da sua existência. A procura do valor e do significado da salvação torna-se, então, central em todas as religiões: é como o coração que dá vida e sentido a qualquer religião e define a sua finalidade. Enquanto os rituais e as práticas (oração, oferendas, sacrifícios, iniciações e qualquer outra liturgia) são sensivelmente semelhantes entre elas, as religiões diferenciam-se umas das outras pelo modo como concebem a “salvação”. Podemos então intuir a complexidade e variedade, e, ao mesmo tempo, o perigo de possíveis generalizações. Embora não devamos esquecer esse perigo, será certamente útil definir, por alto, o modo de conceber a “salvação” nas principais religiões com que poderemos entrar em contacto. Ao fazê-lo, é preciso distinguir entre o aspecto filosófico-teológico a que se atém a minoria de fiéis mais preparados, e o aspecto mais comum da respectiva vivência e interpretação, bem como das suas múltiplas manifestações populares, cheias de fantasia e de amor.
1. A salvação nas religiões tradicionais
Uma vez colocada esta premissa, podemos dizer que as religiões tradicionais da África e das Américas, mesmo na variedade das suas expressões, tendem a representar o estado ideal de salvação numa perfeita e completa integração com o cosmos e com o mundo social a que o crente pertence. Como a Quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-americano afirmou, a concepção religiosa dos povos indígenas “vê na globalidade de Deus, do homem e do mundo, uma unidade à volta da qual se tecem todas as relações humanas, espirituais e transcendentes” (2). Portanto, nas religiões tradicionais, salvar-se significa evitar tudo o que vai contra a harmonia do cosmos ou do grupo, com submissão à lei que regula o respectivo bom andamento. Até as relações com os espíritos, as almas dos antepassados e o Ser Supremo - que muitas vezes devem ser propiciados com ritos de expiação das faltas rituais ou sociais - estão inseridas num complexo de forças constituído pelo universo, no qual todas as partes estão dependentes umas das outras e em relação recíproca. Portanto, a salvação realiza-se sobretudo na vida presente. Já pelo que toca à vida futura, normalmente afirmada como sendo possível (e, assim, admitida), a sua natureza depende e sintoniza-se com o sistema social ou cósmico em que a pessoa se encontra.
2. A salvação enquanto “libertação”: o hinduismo
É também neste horizonte cósmico que o hinduísmo funciona, nas suas correntes não teístas, isto è, que não admitem a existência duma divindade pessoal, mas uma ordem global e permanente que governa todos os seres e todas as coisas. Neste caso, para indicar a salvação, deve-se recorrer ao termo “libertação”. O mal fundamental de que a pessoa se deve libertar é a lei do karma, que, à letra, significa “acção”, incapaz de libertar do círculo doloroso e incessante dos nascimentos e das mortes (reincarnação). A acção, sobretudo quando má, só agrilhoa a pessoa ainda mais à roda ou ciclo dos nascimentos. O único caminho para a libertação encontra-se no conhecimento da realidade interior e inefável que é responsável pela subsistência das coisas, do princípio que dá respiro e vida a todos os seres. Portanto, “libertação” significa escapar aos ciclos de nascimentos, desembaraçar-se dos obstáculos que a natureza e o mundo nos levantam, desfazer-se do mal, do sofrimento, da ignorância…para podermos desaparecer enquanto indivíduos e dar entrada num mundo que transcende o espaço e o tempo. Nas correntes do bhakti hinduísta - palavra que significa apego e devoção dum crente a uma divindade específica, e por vezes a um guru, considerado como manifestação divina - a salvação-libertação consiste numa relação de amor entre a divindade concebida como realidade pessoal e a alma adoradora do crente. A salvação é, então, participação amorosa, apego, devoção, dedicação, afecto, fidelidade e adoração - atitudes mediante as quais o crente alcança a paz e a união com o seu deus, mas sem se fundir completamente com ele. Apesar da proliferação de outros caminhos de libertação por todo o mundo hindu, também há hinduístas que continuam a pensar que o cumprimento dos deveres de estado de cada qual, sem procurar interesses egoístas, constitui um caminho que pode levar à salvação enquanto libertação.
3. Libertar-se do “desejo”: o budismo
O budismo não se deixa captar nas categorias do nosso modo ocidental de pensar, como, aliás, é também o caso do hinduísmo. Trata-se duma filosofia ou duma religião? Ora, essa distinção entre o religioso e o profano, que é tão espontânea para nós, não tem sentido na cultura e nas religiões da Ásia. Até o termo “salvação” revela dificuldades por ser um termo tirado do vocabulário cristão, já que a realização da salvação implica a intervenção dum salvador. Ora, o Buda não se apresenta como um salvador, mas sim como um Acordado, um Iluminado. Ele indica o caminho mas não é o caminho. Parece então oportuno evitar a palavra “salvação”. Tal como para o hinduísmo, também aqui se torna preferível definir o budismo como um “caminho de libertação” que, no entanto, muitas vezes se traduz concretamente na vida dos crentes num comportamento religioso, debaixo do qual se esconde uma necessidade fundamental de salvação. A originalidade da mensagem budista consiste em formular um diagnóstico sobre a origem do sofrimento ou da dor e em mostrar o caminho mediante o qual a sua causa se possa eliminar. Na origem do sofrimento, que se deve entender não só segundo o significado ordinário do termo, mas especialmente como sofrimento universal, como vazio de todas as realidades do mundo a que pertencemos, está o desejo ávido e passional que amarra o homem ao seu destino, à insuficiência radical deste mundo mutável. Desejo é a sede desenfreada do prazer dos sentidos, da existência em contínua mudança, do apego às coisas - que são todas semelhantes a gotas de orvalho de breve duração. A maneira radical para escapar à dor é, portanto, a libertação do desejo, para se poder chegar à libertação do vazio, do condicionamento, da existência fenoménica, da aparência, da ilusão e, portanto, da convicção de que a realidade, e especialmente a pessoa, têm concretude ou existem de facto. A meta definitiva deste caminho de libertação é o nirvana, palavra que indica “extinção”, “deixar de ser”, e que, assim, indica a extinção absoluta daquele desejo de viver que se manifesta na avidez, na ignorância, na ilusão, na desorientação. Ainda que o nirvana não seja um lugar e seja descrito em termos negativos, ele não equivale ao nada nem deve ser considerado totalmente negativo. Se existir um aniquilamento, ele não se aplica ao Eu - que, afinal, não existe nem a nível individual nem a nível universal. O aniquilamento aplica-se à ilusão, que dá uma falsa ideia do Eu. O estado final do nirvana é a felicidade total, uma situação de paz permanente. Ou seja, ele indica que se atravessou a soleira do absoluto, do não engendrado, do não criado, do incondicionado, em que todo o desejo cessou por completo e, assim, se pôs termo à dolorosa aventura dos (re)nascimentos.
4. A salvação enquanto “êxito” e “sucesso”: o Islão
O Islão apresenta-se como a religião de todos os homens e, por isso, como uma religião em que é difícil distinguir entre o temporal e o espiritual, a cultura e a civilização, o projecto religioso e o projecto político. Todo o muçulmano se considera, antes de mais, membro da «melhor comunidade que Deus jamais criou nesta terra» (Alcorão 3, 110). Eis porque a religião islâmica continua a ser um assunto social que contém ritmos sociais exuberantes. Neste contexto, a salvação corresponde a “êxito” e sucesso” tanto na vida presente como na vida futura. Mas o Islão também é uma grande aventura pessoal em que o crente, nas pegadas do Profeta, é convidado a responder à Palavra de Deus que é o Alcorão. Essa resposta dá-se mediante o testemunho duma submissão confiante a Deus, exprimindo-se num credo dos mais simples, num culto muito exigente, numa conduta conforme à Lei, e numa experiência religiosa interior que, por etapas sucessivas, pode levar a um conhecimento superior de Deus e a uma atitude mística. O dogma essencial da fé islâmica é a escatologia, a que o Alcorão chama de Último Dia. O muçulmano sabe que a história irá acabar e que a ressurreição, o juízo e a última vida (paraíso e inferno) representam uma escatologia universal em que a omnipotência misericordiosa de Deus triunfará. A finalidade do Último Dia também é a de dar um aviso às pessoas injustas e, mais propriamente, aos ricos egoístas que oprimem os pobres, de que os espera o castigo depois desta vida. Sobre o destino final do homem, as opiniões dividem-se. Para os antigos, e frequentemente ainda hoje nos ambientes dos simples, a pessoa é um corpo animado por uma alma corpórea, embora de matéria muito fina, que circula no corpo como a linfa nas plantas. Por ocasião da morte tudo desaparece, voltando a ser criado por Deus no Dia da Ressurreição. Já para os teólogos islâmicos posteriores, por influência do helenismo, a pessoa é composta de alma e corpo, dando-se uma separação de ambos depois da morte: o corpo transforma-se em pó até à ressurreição, altura em que irá reunir-se à alma. A alma vai directamente para Deus, por quem será julgada. Esta é, presentemente, a convicção mais comum. Seja como for, contra este pano de fundo feito de crenças e mitos, o Islão procura assegurar ao homem a felicidade nesta vida e na outra. Para alcançar o “sucesso” neste mundo e no outro, é preciso, antes de mais, ter fé em Deus, que é uno, grande e misericordioso. São igualmente necessárias as boas obras, sobretudo as que são chamadas de “cinco pilares”: o testemunho, a oração, a esmola, o jejum e a peregrinação. A fé islâmica e a fé cristã estão pois de acordo na crença de que o mundo, o tempo e a pessoa caminham ao encontro de Deus. Mas separam-se no conceito de felicidade eterna. Para os muçulmanos, ela consta das alegrias tanto sensíveis como espirituais do paraíso, que é descrito em termos semelhantes aos da tradição cristã; para os cristãos consiste, em particular e sobretudo, na união com Deus.
5. Uma presença que salva: o judaísmo
Por fim, no judaísmo, que de certa maneira serve de modelo a outras religiões monoteístas, a história humana decorre entre dois pólos: o da criação, no princípio; e o da salvação, no fim. A intervenção de Deus na história do povo hebraico com Abraão, Moisés e os Profetas constitui o início e o penhor desta salvação. A aliança de Deus com este povo é o sinal da Sua presença salvadora na história da humanidade e está em função dela. O povo de Israel alcança essa salvação na medida em que é fiel à Lei e se empenha na prática da “justiça”. Embora nasça na história, a salvação mantém sempre uma dimensão essencialmente escatológica que, aliás, é partilhada pelo cristianismo e pelo Islão.
6. Unidade e multiplicidade de significados
Nas religiões, “salvação” tem, portanto, significados múltiplos, que sublinham tanto a sua variedade como a sua unidade essencial. Todas as religiões consideram a salvação como um caminho a percorrer na direcção da esfera do sagrado ou, pelo menos, na direcção dum estado diferente do estado terreno. A pessoa empreende esta viagem porque nota em si mesmo um sentido de não acabamento e de precariedade individual que gostaria de ultrapassar, insatisfeito como está com a situação presente e com as suas limitações. Os males de que pretende libertar-se são muitos, mas, regra geral, reduzem-se a um estado de temor, sofrimento, culpa ou miséria espiritual e material. A raiz destes males fica, normalmente, fora da pessoa, ou no corpo ou na matéria, nas leis do cosmos ou no ciclo do tempo. As religiões monoteístas tendem a sublinhar principalmente o factor culpa, a transgressão voluntária da lei de Deus, que torna o homem indigno de estar na Sua presença. Igualmente variados e diferenciados são também os horizontes da salvação e os caminhos para lá chegar. Há religiões que colocam a salvação no passado, na primeira manhã do mundo, no Éden ainda sem as manchas da usura do tempo e da história. Já para outras, o horizonte da salvação projecta-se no futuro, visto que é escatológico, quer individual quer colectivo. Mas continua difícil dizer em que consista. Trata-se de pura simbologia, como poderia ser o caso do Islão, ou trata-se de avançar para além do espaço e do tempo, para além da ordem sensível, como é o caso do budismo e do hinduísmo? Nas religiões de fundo monoteísta, como é o caso do mazdeísmo irânico, o Islão e o bhakti indiano ou budista, a salvação consiste, fundamentalmente, numa participação na vida divina, ao passo que nos sistemas cósmico-místicos, ela realiza-se mediante o abandono do eu individual, acabando numa fusão com a fonte do ser. A conclusão do processo salvífico pode ser um dom ou, então, uma conquista - ou uma combinação dos dois; pode ser entendida como universal, ou destinada a todos os seres humanos, ou então apenas a algumas categorias de pessoas, a um grupo específico ou a uma nação, apenas aos iniciados que são detentores de segredos especiais, ou então aos homens instruídos, aos monges ou aos ascetas. Também são múltiplos os caminhos da salvação, embora cada um deles não exclua o outra. Assim, conforme for a corrente do hinduísmo sob consideração, haverá o caminho da acção, quer ritual quer ético-social; o caminho do conhecimento, que consiste na percepção intuitiva da realidade divina e do eu espiritual; o caminho da meditação, em que o homem, recolhido em si mesmo e liberto do sensível, se prepara para o êxtase; e por fim o caminho do amor, da submissão e entrega a Deus, que seria facilmente acessível a todos. Encontram-se caminhos análogos de salvação no budismo hinayânico, enquanto que no budismo mahayânico prevalecem a devoção e a invocação confiante. O Islão propõe, como meio de salvação, os cinco pilares ou deveres fundamentais do bom muçulmano. Outras religiões, como o jainismo indiano, valorizam o primado do espiritual e de rigoroso ascetismo para se poder gozar duma liberdade interior absoluta. E, por fim, também há figuras de mediadores ou auxiliares da salvação. No hinduísmo é o guru ou mestre espiritual; no budismo é o monge, com a função de guiar as pessoas até à iluminação. Os sacerdotes e os especialistas do sagrado têm uma função toda particular. De entre as figuras auxiliares da salvação destacam-se, no budismo mahayânico, os bodhisattava. Já no hinduísmo lidera o avatara, considerado como uma incarnação do divino nesta ou naquela forma criada, como é o caso de Krishna, considerado avatara do deus Vishnu. Os bodhisattava, por terem já alcançado a salvação da iluminação, devido à compaixão de que estão animados, adiam propositadamente a sua entrada no nirvana para poderem ajudar os outros a atingir a iluminação. Naturalmente, é preciso mencionar também a figura do salvador, que pode pertencer tanto ao passado como ao presente ou ao futuro. São muitas as religiões que têm os olhos postos num salvador futuro, sobretudo as religiões que têm fundamento histórico. Também se não devem desprezar os meios de salvação a que as pessoas comuns gostam de recorrer, tais como: as orações, os sacrifícios, os jejuns, as peregrinações, as oferendas simbólicas, as invocações de santos ou protectores e mediadores de graças celestiais. Este é um aspecto universal da religião como tal: por meio deles, a pessoa procura a sua própria salvação, conforme a sua intuição e espontaneidade lhes sugerirem.
PISTAS PARA REFLEXÃO
· Esta nossa divagação mental pelas várias religiões revela-nos que existe em cada pessoa um forte desejo de salvação. Será que nós, cristãos, damos a importância devida a esta dimensão? O teu ministério apostólico enfatiza o aspecto da salvação? Que elementos andam abafados ou, então, não são colocados em evidência? · A Ásia está a expor o Instituto a uma nova experiência de contacto com as grandes religiões. Como é que deveriam ser preparados os Missionários que vão enfrentar esta realidade missionária? · Achas que a nossa experiência na África e nas Américas tem valorizado em grau suficiente a religião tradicional enquanto expressão do desejo de salvação daqueles povos? Que é que se poderia fazer agora para dar mais valor às “raízes” religiosas dos povos no nosso ministério? · Gosto de dialogar com aqueles que aderem a outras religiões ou com aqueles que não acreditam em Deus? Com que método? Que tenho aprendido deles?
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