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Problemática Missionária PDF Imprimir E-mail
Por Documento do MAC/RCA   
10 de April de 2006

Autonomia financeira da Igreja na África
(Documento do MAC/RCA)

Introdução

Desde o início de sua história, a Igreja na África preocupou-se com a própria autonomia financeira. Os primeiros missionários não trouxeram consigo apenas a Bíblia c o crucifixo; trouxeram consigo muitas outras coisas que julgavam ser úteis para a evangelização: livros, cantos, mesas de altares improvisados e até quadros-negros para ensinar os novos cristãos a ler, a escrever, a fazer cálculos de matemática . Eles construíram a Igreja.. Entre eles havia artesãos, pedreiros, carpinteiros, arqui tetos, construtores: eram os próprios missionários ou seus colaboradores técnicos. Assim o grupo tinha condições de educar os novos convertidos e proporcionar-lhes orientação e competência técnica para a construção de igrejas, escolas, casas de moradia para os padres e seus catequistas.

De fato, o objetívo da missão é o anúncio da Boa Nova - Jesus Cristo- e o fim de toda evangelização é apresentar a mensagem de Cristo completa: uma mensagem de libertação do pecado e suas consequências, uma libertação de cada pessoa como também de todos os diversificados grupos sociais. Portanto, a evangelização deve atingir os aspectos mais importantes da vida de cada pessoa e da sociedade, tais como: a educação, a saúde, a moradia, a alimentação, o vestuário, além de outros valores essenciais à dignidade e ao respeito pela pessoa humana. É por isso que uma evangelização autêntica exige a dedicação da Igreja nestas diversas dimensões e também em qualquer outro programa ou atívidade voltados ao desenvolvimento da pessoa e da sociedade.

Uma evangelização bem feita supõe também o manejo de consistentes meios financeiros e materiais. Porém, muitas vezes, as Igrejas locais da África estão bem longe de ter à disposição meios suficientes deste tipo; não só, mas, as vezes, estão tragicamente desprovidas deles. É urgente, portanto, que as Igrejas locais na África assumam quanto antes, como objetívo próprio, o cuidado de suas necessidades, assegurando a própria autonomia financeira. O próprio Santo Padre recomendalhes: "Convido as Conferências Episcopais, as dioceses e todas as comunidades cristãs do continente, por aquilo que lhes cabe, a procurar com urgência e progressivamente a realização de sua autonomia financeira" (Ecclesia in África, n. 104).

Como resposta a esta recomendação do Sínodo, que o Papa fez sua, um certo número de congregações religiosas, de dioceses e de conferências episcopais tomaram a sério o problema da autonomia financeira. A Associação das Conferências Episcopais da África Ocidental, de língua inglesa (AECAWA), declarou:
"Neste ano discutimos e refletimos seriamente sobre o tema ’Uma Igreja autosuficiente’, tema que tem muito a ver com a nossa região, onde se constata que a independência política não tem muito significado, uma vez que não corresponde igualmente a uma emancipação económica e a uma vida autosuficiente. Os missionários estrangeiros estão deixando o lugar a uma Igreja indígena, nas nossas nações. Contemporaneamente, as nossas Igrejas locais se aperceberam que o fluxo de pessoal e de outros recursos, como era costume no tempo dos missionários, se reduziu drasticamente. Portanto, estamos enfrentando o real problema de nos automanter, como Igrejas locais que somos. É por isso que o tema da autosuficiência deve ser tomado em consideração com muita seriedade".

Como resposta a este apelo, e para participar na reflexão que está em curso entre as Igrejas na África, o MAC/RCA redigiu o seguinte questionário, e o enviou aos Superiores das Congregações e Institutos Religiosos que trabalham na África.

Pelo que diz respeito à autosuficiência económica de uma diocese, um instituto religioso, uma paróquia, uma obra social, uma casa de formação, etc, que instrumentos adotastes? Quais os resultados obtidos? Poderíeis explicar as causas do sucesso ou insucesso alcançado com o uso desses instrumentos?

A partir da vossa experiência e da vossa reflexão, que sugestões poderíeis avançar para que se possa alcançar aquela autonomia financeira prevista no n° 104 do documento "Ecclesia in África" ?

Recebemos cerca de trinta respostas, de diferentes lugares da África sub-Sahariana e de Madagáscar. Esperávamos por um número maior. Contudo, a diversidade quanto à origem e o realismo prático das respostas recebidas, dão-nos a possibilidade de Autonomia financeira da Igreja na África construir uma visão global significativa sobre o assunto da nossa pesquisa. Serviram-nos também como fonte de informação alguns documentos, como: Uma Igreja autosuficiente (publicado pela AEC AWA) e Da dependência à responsabilidade: experiência eclesial para assumir a responsabilidade do Desenvolvimento.

Neste tratado, desejamos expor os conteúdos das respostas; isso nos dará uma visão geral das iniciativas tomadas, dos resultados alcançados e, especialmente, das propostas práticas para alcançar a autonomia financeira. Em seguida, ensaiaremos algumas reflexões, situando o tema da autonomia financeira no contexto da uma visão mais abrangente da autonomia da Igreja.

I. EXPERIÊNCIAS E MEIOS USADOS PARA CONCRETIZAR A AUTONOMIA FINANCEIRA

1.1. Conscientização prévia

Antes de falar em experiências concretas e realizações práticas, muitas das respostas sublinham a necessidade de haver um período inicial de conscientização, para que todos os membros da Igreja na África se coloquem diante do problema, façam um inventário de pressupostos que permitam uma indispensável mudança de mentalidade e de atitudes em várias frentes. Há duas coisas que é absolutamente necessário mudar
Em primeiro lugar, a ideia equivocada, introduzida na história ou na maneira superficial de considerar a Igreja, pensando que a Igreja é rica.
"Damo-nos conta que um número relevante de cristãos pensam e dizem abertamente que a Igreja Católica é rica, que o Vaticano distribui dinheiro, que o bispo tem dinheiro, que a diocese é rica, que a paróquia é rica, etc. Chegou o tempo de despojarmo-nos deste mito, que sustenta a ideia de uma Igreja rica, como fonte inesgotável de fundos, de onde se pode sacar indefinitivamente" (AECAWA).

Existe ainda uma certa superficialidade, ou um desinteresse generalizado na administração dos bens económicos. Num encontro de Bispos e Superiores Maiores, no Ciad, ficou bem acentuado que poucas pessoas e poucos institutos se preocupam com questões administrativas e económicas, embora todos se beneficiem de tais meios, e se tomem até muito exigentes em relação a isso.

Uma mudança de mentalidade é inevitável, se quisermos alcançar a autonomia económica, tendo em consideração que a administração ainda não faz parte das preocupações de muita gente. Temos que buscar as causas. Por que será que tanta gente mostra um desinteresse tão descarado pela administração?

"Provavelmente por falta de carisma pessoal, ou por falta de competência; na Igreja e na vida religiosa isto pode dar-se também por uma espécie de indolência intelectual Poderíamos até ir mais longe e perguntar-nos se não estamos demasiadamente habituados a viver, sem nos preocuparmos dos bens materiais?...".

É, por isso, extremamente importante conscientízar as pessoas a este respeito, e prepará-las. É claro que a mudança de atitudes requer tempo e meios. Diversas respostas chamam a atenção para tais iniciativas. Eis alguns exemplos:

• Elaborar uma série de elementos de reflexão, pelo menos para as lideranças, que levem as pessoas a tomar consciência da necessidade da autonomia económica, para melhorar a missão.
• Em ocasiões próprias, refletir juntos sobre a viabilidade de determinado projeto ou programa.. Iniciativas deste tipo foram tomadas por algumas Direções Gerais. Eis o exemplo de um instituto:

"Sob a orientação de um técnico em economia, a Direção Geral fez um estudo sobre os próximos 20 anos de toda a Congregação. Pediu-se a cada Província que estudasse as próprias contas e respectivos orçamentos, para projetar melhor as necessidades futuras. Dentro de um prazo estabelecido, será confiado a cada província um capital suficiente, para sua administração, de acordo com os recursos, as entradas e despesas, à luz do estudo feito, para que alcance a autonomia económica".

É verdade que, durante muito tempo, o desenvolvimento foi visto como crescimento de capital; agora, juntamente com isso, é preciso zelar pelo aumento dos recursos humanos, através da educação, da formação e informação. Esta é a finalidade da conscientização e do "dar-se conta" da questão. Enfim, conscier.iizar e assumir iniciativas concretas são aspectos que sempre devem caminhar juntos.

1.2. Experiências concretas de autonomia financeira

A tomada de consciência é um passo pedagógico que normalmente deve conduzir a pessoa a assumir a ti vidades e iniciativas. Eis algumas das iniciativas realizadas que constam nas respostas:

1.2.0. A nível diocesano

Apresentamos aqui um exemplo típico de uma diocese do Zâmbia, que coloca justamente a economia financeira num quadro de autonomia mais abrangente. A diocese procura alcançar a autonomia por meio de três "auto":
automjnisteríalidade (clero local, religiosas, leigos, catequistas voluntários);
autocresct mento (pessoas do lugar que se empenham no crescimento da Igreja local;
autosuficiência económica (os cristãos do lugar procuram os recursos necessários para a vida da Igreja).

O princípio básico é que as despesas ordinárias da Igreja devem ser cobertas com contributos locais. Somente as despesas extraordinárias (como construção de uma igreja, de convento, de seminário, compra de um meio de transporte) justificam a procura de ajuda extema. A comunidade cristã de base deveria cobrir todas as suas despesas, incluindo a construção da capela local (que normalmente tem cobertura de palha; se o telhado é de eternite, então pode pedir ajuda extema). A paróquia, por sua vez, deve cobrir as seguintes despesas:
- os salários dos catequistas, dos empregados contratados pela paróquia, do
cozinheiro, do pároco;
- as despesas da administração, do expediente paroquial, do culto; 
- parte das despesas de viagem do pároco.
Este é o projeto de uma diocese específica; mas as respostas ao questionário mostram outras iniciativas, de outras situações da Igreja na África.

1.1.1. A nível de escola

A título de exemplo, apresentamos uma experiência do Mali:
"A população de quatro povoados fez o levantamento das próprias necessidades, pôs a mão no bolso, deu o que pôde e pôs-se a trabalhar. Sem ajuda externa, construiu uma escola comunitária. Pagava os professores com a colheita de uma roça comunitária e com o modesto contributo das famílias dos alunos. A escola funciona em duas salas de uma construção pré-moldada, que uma organização internacional tinha construído no povoado alguns anos antes, sem consultar o povo".
Tudo isto está dentro da linha das recomendações concernentes às instituições escolares, contidas nas respostas ao questionário.
■ O funcionamento da escola é assegurado pelas contribuições e por outras atividades dos alunos.
■ A agricultura, em particular a plantação de arroz, constitui a base de sustentação da instituição; o trabalho da terra ê mecanizado, mas a sementeira, o plantio das mudas e boa parte da colheita são da responsabilidade dos alunos.
■ Damos cursos breves e gratuitos sobre agricultura moderna para os colonos; e nos autofinanciamos; os participantes cultivam em suas hortas o que precisam.
■ Em Mu som a (Tanzânia) professores e alunos mantêm em funcionamento uma oficina, da qual tiram recursos não só para mantê-la, mas também para melhorar a biblioteca, caria ano.
■ As vantagens deste processo não são apenas de caráter material: os alunos aprendem a teoria e a prática de métodos modernos de agricultura; eles acolhem o espírito e o sentimento do agricultor. Estaé a maior riqueza para qualquer país onde a vida tem por base de sustentação a agricultura.

São referidos não só os êxitos, mas também os fracassos. Em Morogoro ( Par izânia) conseguimos saldar o nosso déficit somente recorrendo à Província e à Direção Geral. Trata-se de um noviciado, onde as despesas são grandes.
Em Arusha (Tanzânia) experimentamos a administrar uma agência de viagens e tivemos que fechar. Foi um erro. Faltou-nos um estudo sobre a possibilidade de sucesso desse projeto. Descobrimos que havia muitas lacunas na nossa estratégia.

1.2.2. A nível de hospitais e dispensários (postos de saúde)

O que aqui reproduzimos é extraído do programa de uma diocese:
"O primeiro passo consistiu em estabelecer alguns responsáveis pela saúde, escolhidos pelas pessoas do próprio povoado, e prepará-los para assa função. Depois disto, os povoados organizaram pequenas farmácias locais, graças às doações feitas, onde se podiam encontrar os remédios essenciais para as doenças mais comuns. Paralelamente, cada povoado criava a própria Comissão de Saúde, para garantir uma gestão transparente e criar, com as pequenas entradas, um fundo para o desenvolvimento do povoado, a ser usado para financiar trabalhos úteis a todos, como por exemplo, a construção de um chafariz".

É preciso conscieni i zar-se de que, para resolver de verdade o problema da saúde, é necessário trabalhar seriamente pelo desenvolvimento. É preferível prevenir do que curar, porque assim se eliminariam as causas de algumas doenças, quebrando o círculo vicioso existente entre doença e subdesenvolvimento. A população é convocada para dar sua colaboração: constrói seus dispensários e exige que estes sejam centros de irradiação de assistência sanitária para todos os povoados; exige que os dispensários funcionem como centros de conscientização, de informação, formação e prevenção.

Outras respostas ao questionário descrevem algumas iniciativas com muita precisão:
■ Asseguramo-nos de que as instituições (hospitais, dispensários, clínicas) sejam, de fato, autosuficientes, mediante a contribuição dos pacientes e dos clientes, para cobrir as despesas vivas, os salários, os remédios e a manutenção.
■ Promovemos iniciativas que dêem alguma entrada e outras atividades para compensar o trabalho de voluntários nas comunidades de base.
■ Fazemos campanhas, apelando à generosidade da população, que contribui com colheitas, serviços ou com dinheiro.
■ Aproveitamos de todas as oportunidades para pedir financiamentos para as nossas iniciativas, como: ajuda do governo, iniciativas locais de coletas de fundos, empréstimos de empresas de seguros ou de cooperativas locais. E não deixamos de apelar também para a generosidade dos ricos.
■ No Centro de Saúde (Basoko Kisangani) as pessoas pagam pelo tratamento, mas os pobres designados peia paróquia são servidos gratuitamente.

1.2.3. A nível de paróquia

Para começar, apresentamos um exemplo prático:
Numa paróquia do Zâmbiaforam realizados programas educativos; fizeram-se tijolos com o trabalho gratuito dos paroquianos, para construir uma nova igreja, cuja manutenção sucessiva eles assumiram. Podem oferecer sua contribuição, graças às colheitas.

Outras iniciativas práticas de autosuficiência financeira referidas nas respostas são as seguintes:
■ Organização de centros de produção: garagens, tipografias, carpintarias.
■ Serviços de secretaria, hospedagem, negócios, transporte, caminhões.
■ Dízimos anuais pagos pelos fiéis.
■ O pároco recebe uma pequena contribuição para as despesas de viagens aos povoados.
■ A paroquia organizou uma pequena creche informa]...
■ Uma cabina de telefone particular: as receitas servem para o financiamento da paróquia (Senegal).

1.2.4. A nível de comunidades religiosas


O trabalho remunerado é o meio mais comum: as Irmãs recebem um salário na condição de professoras ou assistentes sociais. Temos atividades geradoras de receita, com a venda de produtos, tanto no mercado local como no internacional. Às pessoas ou aos grupos que usufruem de serviços, pede-se uma contribuição. Fazem-se investimentos em projetos de produção (agricultura, carpintaria, criação de animais, tipografia...). "Procuramos viver da agricultura e da criação de animais" -afirma uma Superiora de Madagáscar. "Uma fotocopiadora permite-nos pagar boa parte das despesas de manutenção das nossas junioras" - declara uma Superiora Regional.
Novas atitudes e modos de agir para alcançar a autonomia financeira são relatados:
-  Utilização máxima de produtos locais: é prioridade.
- Simplificar o estilo de vida de acordo com a disponibilidade económica (comida africana, redução de álcool, uso moderado do cano e do telefone).
- Nas escolas dos religiosos, os alunos contribuem com ofertas anuais para a formação dos candidatos.
- Fundos para cobrir despesas feitas, ou para realizar um projeto de produção, sob a supervisão de técnicos.

A experiência de algumas comunidades é vista com certas reservas por outras: Algumas congregações compraram terras de agricultura ou apartamentos de aluguel. Nós decidimos não fazer isso, porque nos colocaria numa situação de administração comercial ambígua e imprópria. Mas é um método que parece, frequentemente, ter sucesso, para alcançar a autonomia financeira.
Autonomia fina/uma da Ignja na África

Outras congregações enviaram alguns de seus membros para a Europa ou para a América, onde podem receber melhores salários que contribuem para a autonomia financeira da província de origem. Até agora evitamos isso... As nossas irmãs africanas são ainda muito jovens. Além do mais, o envio para o estrangeiro deve ser motivado pela missão e não simplesmente por razões económicas.

1.2.5. UM ESTILO DE FORMAÇÃO PREOCUPADO COM A AUTONOMIA FINANCEIRA

1.2.5.1. Para os agentes do desenvolvimento

Com cursos e com formação profissional, é garantida aos agentes do desenvolvimento a supervisão de que precisam, de tal forma que possam ter condições para analisar as situações da própria vida, e para ajudá-los a solucionar sozinhos os próprios problemas. Outros contributos foram encaminhados, como o aprendizado de técnicas e de animação de grupo, com o objetivo de aperfeiçoar tanto os produtos para venda como os reservados para o próprio consumo. O curso começa com a análise da vida diária, ou seja, as dificuldades que cada pessoa habitualmente tem que enfrentar. A partir daí estrutura-se o resto do curso. Usando métodos indutivos, os participantes procuram chegar às causas dos problemas. Por fim, estabelecem os planos de ação, estudando e discutindo em grupo os métodos usados e os assuntos.
.2.5.2. Para a formação à vida consagrada
No propedêutico e no postulado os jovens candidatos assumem plenamente sua automanutenção; quando se torna necessário, procuramos para eles uma atividade remunerada. No noviciado dá-se mais importância às atividades internas. Os noviços fazem os mesmos trabalhos de suas famílias: cultivam a horta, plantam árvores frutíferas, criam animais.

1.3. Contribuições do exterior (ONG e Direções Gerais)

Um bom número de respostas acentua o fato de que a autosuficiência é bem sucedida quando existe colaboração das administrações gerais das congregações, quase todas com sede nos países mais desenvolvidos da Europa e dos Estados Unidos. Começa-se por colocar um fundo suficiente à disposição da província africana, que o administra da melhor maneira possível, sem diminuir o valor do capital inicial. A principal estratégia adoçada pelas "províncias mães" para com as províncias;Africanas foi a de garantir-lhes fundos de investimento, como um tipo de patrimônio da congregação. Os grupos africanos, em seguida, decidem como investir esses fundos e como utilizar o lucro. Estes grupos, cada vez mais, terão que viver do fundo desses investimentos fixos e não de remessas anuais enviadas da Europa ou da América...
Este capital acaba sendo investido em moeda forte em qualquer país: os juros mantêm a província nos serviços de administração, de formação e de obras de apostolado. O capital é propriedade da província, mas permanece um fundo da congregação, que não pode ser diminuído sem autorização do Superior Geral. O financiamento de novos mini-projetos destina-se a cobrir as despesas (vivas) extraordinárias e sustém os investimentos que devem ser feitos nas obras apostólicas.

Em síntese:
Agricultura, criação de animais e, até certo ponto, pequenas indústrias constituem a base da autonomia económica.
• A manutenção e o normal funcionamento das instituições (escolas, paróquias, hospitais e similares...} podem ser habitualmente garantidos com recursos do lugar. Isto acontecerá sempre e quando a administração económica e a programação correta se tornarem palavras de ordem.
• A ajuda externa é concedida somente em vista das estruturas iniciais, como construções, meios de transporte, e para a manutenção da formação.
• No que diz respeito às congregações religiosas, a autosuficiência baseia-se sobre os salários dos próprios membros, resultantes de atividades manuais ou intelectuais, e até provenientes de outras iniciativas económicas.
As escolas técnicas ou de agricultura parece poderem atingir sua autosuficiência, antes de tudo, quando conseguem comprometer os alunos em verdadeiras atividades de produção. A manutenção acaba sendo assegurada com a cobrança de taxas escolares c o trabalho manual dos alunos.
No setor da saúde são referidas algumas experiências positivas de automanutenção por parte de algum centro hospitalar, graças às contribuições dos pacientes, à colaboração espontânea do povo, contributos do governo ou da Igreja local, que paga pelos pobres.
Paroquias e dioceses procuram a autosuficiência recorrendo às contribuições dos fiéis, à venda de produtos agrícolas, h criação de gado, à receita de creches, ou outras serviços públicos, como: cabinas de telefone, garagens, laboratórios. Além disso, as ofertas dos fiéis são sempre indispensáveis.

II. RAZÕES DO SUCESSO NA AUTONOMIA ECONÓMICA

2.1. Um ambiente favorável

Nos últimos anos, muitos países, como Camarões, atingiram uma aceleração do processo de reestruturação do setor agrícola. Este crescimento foi influenciado por diversos fatores: o dinamismo provocado por crises passadas, mas, acima de tudo, é preciso reconhecer o peso da "presença e o desenvolvimento de organizações que apoiam as iniciativas locais, passam para elas experiências bem sucedidas em outros países mais avançados, adotam a tolerância e, sobretudo, o apoio dado pelos poderes públicos".

2.2. Solidariedade no trabalho

"Os agricultores, guando organizados comunitariamente, podem fazer-se ouvir e exigir que sejam considerados os próprios interesses; podem discutir com as organizações e com os responsáveis pela política económica da região. Se não tivessem a capacidade de se organizar, de participar e de fazer o esforço necessário para melhorar o trabalho, não teriam meios para reagir contra os obstáculos, tradicionais ou modernos, que as autoridades inventam para impedir as mudanças, nem teriam condições de responder aos desafios".

2.3. A participação ativa de todos

Exemplos concretos desta participação são apresentados por algumas escolas:
• Graças à própria atividade e ao trabalho bem orientado, cada aluno teve a possibilidade de contribuir com a instituição com 60% das suas taxas escolares anuais.
• A alimentação dos alunos melhorou (ovos, verduras); as despesas não aumentaram, graças às atividades deles, e até contribuíram para a estabilização dos preços.

2.4. Uma reestruturação mais racional

Além destes exemplos concretos de autonomia financeira, constata-se importância de uma reestruturação mais racional, da seguinte maneira:
• Dar aos jovens religiosos uma formação prática: com cursos intensivos de economia, gestão, contabilidade e administração.
• Garantir uma boa formação das capacidades de gestão a todos os membros da comunidade.
• Manter informados os membros da comunidade sobre a situação económica.
• Encorajar a comunidade para que tenha em consideração o critério económico:
evitar despesas inúteis, como objetos de luxo...
• Rigoroso controle das orientações económicas emanadas pela Comissão
administrativa da instituição, da paróquia ou da escola.
Exigir um estudo preliminar sobre a possibilidade de execução e sobre o
rendimento de qualquer projeto.
Garantir o acompanhamento de qualquer iniciativa, como também a transparência e a seriedade da gestão.
Estes resultados positivos não se alcançam de imediato. "Educar os membros da nossa comunidade e aqueles que nos ajudam, é um processo que requer tempo e paciência" - responde um Superior ao nosso inquérito. Por outro lado, estes critérios nem sempre apresentaram resultados espetaculares ou duradouros. As experiências de "independência" económica são ainda muito recentes para nós, para que possamos tirar delas conclusões válidas.

III. OBSTÁCULOS À AUTONOMIA FINANCEIRA

Fízeram-se algumas experiências, alcançaram-se alguns resultados; mas a Igreja na África ainda está longe de poder alcançar a tão desejada autonomia financeira. Obstáculos e dificuldades não faltam.

3.1. Clima desfavorável e acidentes de natureza diversa

Acidentes naturais e, pior ainda, os que o homem provoca, acontecem periodicamente neste ou naquele país. Eis um elenco:
■ Inclemência do tempo, que dá origem a catástrofes de todos os tipos.
■ A terra é pobre e pouco produtiva.
Há escassez de água c fica cara quando usada para a irrigação. * Ratos e pássaros devoram tudo.
■ Ciclones que arrasam tudo.

3.2. OBSTÁCULO SÉRIO: A GRANDE POBREZA DA POPULAÇÃO

3.2.1. Pobreza material

Existe, infelizmente, a extrema pobreza da população, que além de não ter condições de contribuir para a instalação da autonomia financeira, constitui um verdadeiro obstáculo para ela, sob a forma de roubos, saques e outros modos de apropriação indevida
Afirma-se que a África sub-Saharíana seja a única região do mundo onde a proporção da população, que vive abaixo da linha da pobreza, se manteve em contínuo crescimento até hoje. A população local vive de pura subsistência, e até menos que isso, com os escassos recursos da agricultura. A pobreza dos agricultores não lhes permite comprar instrumentos de trabalho mais adequados, e isto impede ainda mais a sua capacidade produtiva.
As famílias encontram dificuldade no pagamento das taxas escolares dos filhos. A pobreza de que estamos falando consiste na "ausência de uma escola boa, de uma assistência médica eficaz, de estradas e pontes em bom estado de conservação, da possibilidade de encontrar emprego, da possibilidade de exportação, de uma aplicação justa das leis, de um sistema bancário eficiente e credíveV. (Afirmação da Comissão de Justiça e Paz dos Camarões).
3.2.2. Pobreza moral
Enfim, não existe apenas pobreza material. "Em outras palavras, a pobreza não se reduz à sua dimensão económica; há um tipo de pobreza ou miséria, na humanidade, que não é simples abandono material: é falta de amor, de sensibilidade perante os ideais que correspondem às necessidades mais profundas, como: a fome de educação, de justiça e de honestidade. A missão dos cristãos de hoje não consiste apenas em levar aos outros coisas materiais, mas ajudá-los a descobrir novamente os valores fundamentais da vida".

3.3. A MENTALIDADE DE SER AJUDADOS...

3.3.1.... é consequência de um espírito de dependência


Esta mentalidade tem várias origens. Basta lembrar, por exemplo, a pastoral da "passividade", uma pastoral baseada na ajuda e na manutenção da dependência.
"Começa-se por decidir que o povo necessita de uma igreja, que o pároco tem vontade de construí-la sozinho, dispensando qualquer ajuda. Essa prática só pode resultar no convencimento de que a Igreja é apenas tarefa dos padres e em especial dos padres "brancos".
Este tipo de pastoral não se dá conta da necessidade de associar o povo ao esforço para desenvolver a sua Igreja e o seu país. Não permite que o povo assuma a responsabilidade pela própria vida e peta vida da própria Igreja. É uma pastoral que mantém o povo no estado de dependência.
Esta "pastoral da dependência" silenciou a urgência de lembrar aos cristãos que o primeiro dever da humanidade, sobretudo daquela que vive em situação de miséria e de grande precariedade, é o de obedecer ao mandamento de Deus que nos diz de usar as forças, as potencialidades e os recursos da natureza, para colocá-los ao serviço dos homens e das comunidades.

3.3.2. ... é caracterizada pela grande dependência

A mentalidade de ser ajudado está profundamente gravada na consciência de muitas pessoas. É o resultado do fato de ter sempre recebido ajuda externa. Mantém em alguns uma dependência rcal, c uma atitude de paternalismo naqueles que podem providenciar a ajuda: o pároco, a congregação, uma organização. Este procedimento está muito longe de promover a autonomia financeira.
O pároco aparece como um "Papai Noef", o que não favorece a independência financeira. "Aquilo que me surpreende éa grande dependência do povo, a todos os níveis, quanto à ajuda externa. Antes ainda de perguntar-se o que se poderia fazer, já se aspira a encontrar alguém que providencie aos fundos necessários. Parece-me que isto constitui um grande impedimento (que inclui uma dependência psicológica} para que o povo programe iniciativas duradouras" (Malawi).
As atitudes de algumas congregações internacionais favorecem esta mentalidade da ajuda, quando, por exemplo, assumem todas as despesas de seus jovens candidatos (incluindo propedêutico e postulado), e sustentam integralmente as suas comunidades, sem preocupar-se em procurar recursos no mesmo país onde vivem.

3.4.Falta de estabilidade no trabalho e salários de miséria

No contexto africano, quase por todo c lado, é abundante a rnão-dc-obra c escasso o trabalho. A economia não está suficientemente desenvolvida para absorver a mSo-de-obra disponível, que vai crescendo na média anual de 3%. Deve-seacrescentar ainda que existe adiminuição do trabalho remunerado, ou, pelo menos, o seu congelamento. Consequentemente, o poder de compra cai e as condições de vida e de trabalho se deterioram. A maioria dos africanos ativos não trabalha no seior moderno, mas ocupa-se em atividades económicas precárias, com pouca produtividade, como a agricultura de mera subsistência, ou pequeno comércio urbano informal, que compreende as mais variadas formas de expressão. É evidente que a excessiva mão-de-obra provoca o achatamento salarial, que chega a níveis mínimos; entretanto, um trabalho remunerado ainda é a única alternativa para enfrentar a indigência.
Pode-se ainda acentuar outra coisa: nos trabalhos, falta o senso de querer alcançar aboa qualidade do produto. A causa disto pode estar na qualidade medíocre dos materiais usados; mas é preciso reconhecer também que uma certa pressa de ganhar dinheiro e uma significativa negligência profissional, poderiam estar na raiz da escassa qualidade dos produtos locais; consequentemente, o povo prefere comprar produtos de importação, criando uma certa indiferença ou até desprezo para com os "produtos nacionais", apesar de todos os esforços empenhados na publicidade
Esta situação generalizada afeta o esforço da Igreja na África na busca de sua autonomia. É necessário ter em conta este fato.

3.5.PERMANENTES CRISES SÓCIO-POLÍTICAS

3.5.1. Fraca competência da classe política


Guerras fratricidas, corrupção, clima de insegurança- entre outras desgraças-continuam a enrolar qualquer esforço para o melhoramento da situação econômicae para o desenvolvimento. Julius Nyerere esperava muito da autosuficiência, e tecia juízos severos sobre a classe política africana.
■ Os governantes que estão no poder nem sempre favorecem o progresso em vista de um futuro melhor.
■ Os nossos chefes não possuem suficiente sentido do bem comum.
■ Fazem acordos que nem sempre representam o sentido de responsabilidade pessoal e de independência.

3.5.2. Sentido de resignação dos jovens

O grande sonho de milhares de estudantes africanos de hoje, diz Mbembe, nàoé o de fazer uma revolução. É sobretudo o de fugir da sua raiz de origem que, paraa maioria, é a agricultura. Hoje, após a falência das políticas alternativas, após eleições frustradas, após sérias consequências de inúmeros Planos de Ajustamento Estrutural (despedimentos, grande diminuição dos níveis salariais, greves) e após a desvalorização da moeda, "aquilo a que os jovens invariavelmente recorrem, de preferência a tudo o resto, é ao senso de resignação".

3.6. Crises económicas generalizadas e deficiências endémicas de gestão

A crise económica que atacou a maioria das nações da África sub-Sahariana nos últimos anos, e que não poupa nenhuma classe social, agravou as situações já extremamente precárias, como a economia dos povoados rurais.
A economia é esvaziada não só pelas despesas monstruosas dos governos, mas também por males sociais, como: desonestidade, corrupção e degradação moral. Estes fatores produzem uma influência negativa, tanto nos indivíduos como na sociedade, enfraquecem o sentido do trabalho e desistimulam a iniciativa das pessoas.
Considerando os esforços e as iniciativas em vista da autonomia das instituições eclesiais na África, as respostas apresentam um certo número de deficiências e defeitos nos setores de administração e de gestão. O que habitualmente se constata é o seguinte:
■ Falta uma séria e correta contabilidade na aíuação dos responsáveis em várias áreas.
■ Falta de transparência e seriedade na gestão.
■ Falta de tempo e continuidade no acompanhamento regular das iniciativas já em andamento.
■ Falta de informação e de comunicação nos níveis de base; pode-se afirmar, a título de exemplo, que os fiéis não conhecem as necessidades da Igreja, e imaginam que as ofertas que eles fazem tenham apenas como objetivo a manutenção dos agentes de pastoral que, às vezes, já gozam de um nível de vida superior ao deles. A esta situação some-se este fato: o comportamento de certos pastores e outros responsáveis de Igreja, que se apresentam como se "o caso já estivesse resolvido", e deixando a impressão de bem-estar, de vida folgada.

3.7. Outras dificuldades externas

Finalmente, devemos mencionar que este esforço pela autonomia não está isento da influência dos inconvenientes originados pela concorrência internacional do comércio, e até pela falta de compreensão por parte de algumas ONG amigas.
Durante os últimos decénios, ã concorrência internacional eliminou trabalhos: artesanatos tradicionais. Em geral, as empresas modernas, sobretudo i multinacionais, odotam a tecnologia usada nos países desenvolvidos, tecnologia qut exige grandes capitais e pouca mão-de-obra. Tais inovações procuram os elemento; qualificados que são exigidos pela competição do mercado mundial. Tudo isto teu repercussão nas nossas iniciativas de autonomia.
Aquelas iniciativas e projetos que parecem ter sucesso se confrontam comi problema de produtos novos e de saídas comerciais. O mercado mundial está en processo de fechamento. A África, umcontinente em desenvolvimento, foi atingid; pela queda do preço das matérias primas para a indústria: banana, cacau, etc. Também isto tem repercussão sobre a autonomia:
■ Clima desfavorável e acidentes de vários tipos.
■ A grande pobreza da população, que é um sério obstáculo.
■ A mentalidade de ser ajudado, caracterizada por uma grande dependêncii " Falta de trabalho estável e salários de fome.
■ Crises sócio-polfticas permanentes.
■ Crise económica generalizada e endémicos defeitos de gestão.
■ Os fenómenos do mercado mundial e da globalização.

IV. SUGESTÕES PARA O AUTOFINANCIAMENTO

Depois deste panorama geral, detemo-nos agora sobre alguns pontos particulait das sugestões práticas evidenciadas nas respostas do inquérito. Incluímos tambéir as que se referem as organizações internacionais que prestam ajuda, Sínoda diocesanos de algumas Conferências Episcopais, Administrações Gerais d congregações religiosas europeias ou americanas, que atuam na África com uit significativo número de membros e em crescimento.

4.1. Convite à conversão do coração, da mentalidade e de atitudes

A Conferência Regional dos Bispos da África Ocidental de língua inglesa diz o seguinte:
"Para alcançarmos este objetivo, fazemos um apelo a todos vós, irmãoi e irmãs, para que mudeis o coração e o comportamento. A Igreja não leu uma reserva inesgotável de recursos, nem as nossas Igrejas-irmãs que não fazem parte da nossa Região (Episcopal). É o povo dessas Igrejas que contribui para a manutenção das Missões, graças à sua fé, ao seu compromisso e à sua preocupação. Nós estamos convencidos de que uma autêntica autonomia deve enfrentar esta questão, com um exame de consciência crítico."

4.1.0. Necessidade de mudar as atitudes políticas

A Igreja tem o dever de colaborar com a formação de homens e mulheres com vocação para a atividade política, de sorte que possam comprometer-se com a construção de um Estado que promova a dignidade de seus cidadãos, e se preocupe de modo particular com os pobres. O desenvolvimento, sobretudo nas áreas rurais, não pode ignorar as mudanças que devem ser feitas nos Estados Africanos, em especial, as que dizem respeito aos mecanismos de domínio e exploração, dos quais as pessoas mais fracas se tornam vítimas. Chegou a hora em que o Estado deve tomar-se agente ativo e importante de um modelo alternativo de desenvolvimento, que coloque a pessoa humana no centro das atenções, que escolha um desenvolvimento efetívo e eficaz, que priorize seus objetivos e suas despesas, para alcançar um melhor serviço para a nação.

4.1.1, Necessidade de mudança no sistema de avaliação económica

Trata-se de retomar a discussão sobre um modelo de desenvolvimento que, à partida, gera exclusão da maioria da população, tanto no nível da tomada de decisões importantes, quanto na hora de repartir o poder e os lucros. Ao fazer um exame de consciência crítico, logo se percebe, no atual contexto, que existem avaliações e projeções inadequadas, que muitas vezes são a causa da falta de produtividade.
Esses modos de ponderação da economia são considerados simplesmente sub¬produtos da civilização moderna, ou então devem ser revistos, enquanto práticas tradicionais. Perante isto, é imperioso responder a esta necessidade mediante uma estratégia de formação e de educação, sobretudo para os agricultores. Não se trataria apenas de colocar como objetivo a adoção de novas técnicas, mas sim de educar as consciências e melhorar os conhecimentos do povo. Deve-se ter consciência do que acontece no país, e compreender que qualquer iniciativa agrícola ou comercial exige uma análise da situação, para descobrir as causas reais da estagnação e da exclusão.

4.1.1.1. A caminho de uma economia mais compreensiva e responsável

É necessário promover ao mesmo tempo o crescimento e o amadurecimento de cooperativas de produção, de pesquisa tecnológica, uma rede de comercialização, um sistema de serviços sociais, um centro de formação.
Háum denominador comum nestas experiências: lançar, a nível local, umacadeia de pequenas empresas, fortalecidas por políticas éticas e por uma educação aos valores. A formação ética é a chave de um novo projeto estratégico, que consiste em dar vida a uma economia de corresponsabilidade. Esta é qualitativamente diferente de uma economia neo-l iberrJ, porque inspirada numa lógica diferente: estimula a ajuda recíproca, o desenvolvimento integral das pessoas, favorece o relacionamento harmonioso entre o homem e a natureza.

4.1.1.2. A caminho de uma evolução cultural


Sente-se a necessidade de colocar em discussão a cultura, de promover uma mudança profunda de mentalidade, tanto nas organizações "tradicionais" como nas "modernas". Somente nestas condições podemos falar de e trabalhar para a libertação do homem de hoje, de sorte que ele mesmo possa tornar-se o artífice principal do seu desenvolvimento económico, político e social. É necessário, portanto, que suscitemos nos povoados uma nova consciência e saibamos assumir uma postura crítica que, enquanto ataca radicalmente o sistema empresarial dominante, transforme também uma cultura tradicional, que não corresponde mais às exigências atuais, e que necessita de estímulos para a criatividade.

4.2. Redefinir nossas necessidades e conhecer as fontes de receitas

Em primeiro lugar, devemos conhecer as nossas reais necessidades; depois devemos redefinir as nossas fontes de receita, a fim de utilizá-las plenamente através de investimentos locais. Temos recursos, propriedades e áreas agrícolas que podem tornar-se rentáveis.
Durante uma visita aos Camarões, o Papa João Paulo II declarou que é normal que cada país da África assuma a responsabilidade do seu desenvolvimento e seja encorajado a fazê-lo. Os países em desenvolvimento deveriam sentir a necessidade de serem eles mesmos os protagonistas principais e os primeiros responsáveis pelo seu progresso social e económico, porque o desenvolvimento das nações começa e encontra o modo melhor de exprimir-se no esforço que cada povo realiza pelo próprio desenvolvimento, em colaboração com outros. "Para avançar por este caminho, as nações devem discernir o seu próprio potencial e definir com clareza as próprias necessidades, de acordo com a situação concreta da população, das condições geográficas e das próprias tradições culturais".

4.2.1. Dar prioridade às populações rurais

Temos que começar por projetos que respondam, de verdade, as necessidades do povo de Deus. Abandonados há muito tempo pelas políticas do governo, parece que os núcleos rurais devam ser colocados no centro das atenções. Esta é uma escolha obrigatória no contexto de um continente, onde, apesar da forte urbanização dos últimos anos, 70% da população vive ainda no campo. É essa a razão que leva a dar prioridade à população rural.
A economia de nossos países depende da agricultura, da qual se extrai a maior parte dos produtos de exportação, e na qual um grande número de trabalhadores está ocupado. A maioria dos nossos leigos vive em zonas rurais e ocupa-se sobretudo com trabalhos agrícolas. Por isso, é uma questão de puro bom senso que a Igreja concentre sua atenção e seus esforços em indústrias agrícolas de base, e quando o julgar necessário e útil, empenhe-se em negócios que possam trazer recursos para suas atividades ou para fortalecer a capacidade económica dos leigos. Os investimentos nas grandes cidades, como aluguel de apartamentos, organização de distribuidores de gasolina ou farmácias, etc., não parece ser o modo mais condizente com as necessidades dos pobres. Estes são investimentos de risco. Investimentos deste tipo de negócio podem não só não ter sucesso, como também levar a perdas financeiras, com outras consequências negativas para a Igreja.

4.2.2. Valorizar atividades necessárias e de base

Para um número razoável de países africanos o contexto económico é encoraj ador. Desde 1995 a taxa de crescimento económico foi mais alta do que o crescimento da população. Em contrapartida, a taxa de investimentos foi fraca: menos de 20% do PNL. Os investimentos públicos diminuem. Há interesse em investirem atividades de necessidade básica, em infra-estruturas de serviços, especialmente no aproveitamento agrícola, na criação de aramais, na construção de sistemas hídricos e de drenagem, em trabalhos de irrigação, sem esquecer as exigências das grandes cidades, como garagens, casas e apartamentos.
O reflorestamento das áreas depredadas pelo homem vai melhorando a densidade pluviométrica em regiões que foram submetidas à desertificação. Este investimento pode tornar-se um projeto gerador de lucros, tanto para a Igreja como para a sociedade, além de promover a ecologia.

4.3. ELABORAR PROJETOS
DE AUTOFINANCIAMENTO INTEGRADO
 
4.3.1. A necessidade de uma previsão


Condição essencial para ter êxito consiste na boa elaboração do projeto. É necessário que cada empreendimento seja bem preparado. Isto significa que se deve identificar com clareza o objetivo a ser alcançado, estudar seriamente a possibilidade de executá-lo, detalhando os aspectos financeiros, técnicos e económicos de maior peso. O estudo sobre as possibilidades de sua realização deve explicar também, em detalhes, como o projeto vai ser financiado, até à sua plena realização. Assim se evitará a frustração de ter começado alguma coisa, sem ter condições de levá-la a termo, por falta de recursos.
Certamente, o sucesso das atividades não depende apenas de dinheiro; mas é importante determinar seriamente se um projeto é feito para gerar receitas económicas, ou se o objetivo é apenas oferecer serviços ou produtos, e não receitas. Uma tal distinção é importante, porque vai ter implicações tanto na preparação do projeto como no processo a ser seguido na captação de fundos.

4.3.2. Importância do acompanhamento

É necessário estabelecer um grupo de trabalho que se responsabilize do acompanhamento do projeto no seu desenvolvimento, para identificar os setores onde a despesa real é substancialmente diferente da prevista no orçamento. Este trabalho pode evitar uma despesa além do limite, talvez feita quando já não há possibilidade de recuar ou nada mais se pode fazer para corrigir o caminho. Por isso, é importante que se constitua, em cada diocese, uma comissão executiva para os assuntos económicos.

4.3.3. Ter em consideração o ambiente e o contexto

Ao elaborar um projeto, é necessário que todos os membros da província estejam conscientizados e diretamente interessados no projeto. O mesmo se diga dos colaboradores leigos, para que haja da parte deles interesse e participação.
É necessário também prestar atenção para que o empreendimento não contradiga o espírito religioso, sobretudo quando a uti vidade é de natureza comercial. Além do mais, é preciso ater-se ao contexto sócio-político e económico, que sempre exerce um papel determinante. Existem, de fato, muitas possibilidades de transformação real da economia, na arena política de cada país.
Às vezes, a própria administração pública pode constituir um obstáculo económico de primeira ordem, se pratica ou favorece explicitamente a pilhagem, a corrupção ou a repressão.
A instabilidade sócio-política, como a violência, pode bloquear o funcionamento financeiro. Devemos ter consciência disto, quando se trata de elaborar um projeto de autof 1 n andamento.

4.4. Procurar e encontrar um fundo de investimento

É necessário procurar um capital de investimento, de preferência a curto prazo. Isto facilitaria a organização de pequenas e médias empresas, com estrutura industrial. É preciso estudar bem o assunto, para saber se há prospectivas de mercado, e se o responsável do projeto tem condições de conduzi-lo a termo com sucesso.

4.4.1. Aceitar a ajuda com dignidade

Faz-se o pedido à Igreja ou à organização de ajuda mútua. Isto é indispensável, para começar e manter projetos que gerem emprego e lucro.
Autonomia ou autusufkiênua não significa recusar qualquer ajuda externa; significa apenas ter a capacidade de não aceitar qualquer tipo de ajuda que seja oferecida. Pode ser que devamos dizer a doadores generosos: "Não aceitamos a ajuda que nos ofereceis, porque não corresponde às nossas necessidades."

4.4.2. Apelar para a competência profissional dos leigos

Umapeloespecial deve ser dirigido aos leigos que (êmvisãoclaraetarimbaparaos negócios. "Pedimos aos nossos fiéis leigos que invistam sua competência na procura de fundos e na gestãofinanceira; que se tornem disponíveis para o serviço da Igreja e invistam seu génio no mercado e nos negócios, afim df alcançaraaulosufic.iênciu"’.

4.5. Realizar niini-p rojetos de desenvolvimento

A realização de mini-projetos está mais de acordo com as possibilidades das nossas instituições. É necessário rever, com as organizações de apoio, a possibilidade de financiar projetos de autosuficiência apresentados pelas congregações religiosas. Estes projetos, de fato, terão influência sobre a população.

4.5.1. Criando pequenas empresas locais

Aconselha-se a criação de pequenas indústrias, cuja gestão seja fácil de garantir. Estas incluem: agricultura e intensiva criação de animais, pequenas indústrias de transformação, como: moinhos, padarias, indústrias de extração de óleo, açougues, olarias, carpintarias, garagens, distribuidores automáticos.
Considerando que os pequenos e médios agricultores representam a maioria dos produtores rurais em quase todos os países da África, é preciso dar prioridade aos instrumentos que promovam acima de tudo: a participação dos agricultores na modernização de suas estruturas de produção, estudo dos seus sistemas de trabalho, acesso a novas tecnologias, acompanhadas de assistência técnica, abertura de caminhos para entrar no mercado nacional e internacional, atenção às condições e aos típicos requisitos dos diversos produtos locais, um crédito para a agricultura, a distribuição da terra e o registro de propriedade, informações sobre os mercados, crédito, possibilidade de abastecimento, fontes de energia para a área rural, saúde pública e serviços de educação.

4.5.2. Criar seguros e sociedades de crédito

Algumas sugestões apontam para a necessidade de criar seguros agrícolas e instituições onde se possa obter crédito para compra de equipamentos necessários: máquinas agrícolas, arados, debulhadoras, formação de postos de venda. A produção pode até ser relativamente fácil, mas a comercialização não o é.
A possibilidade de encontrar abastecimento de produtos primários e vendê-los é essencial, quando um projeto tem por objetivo responder às necessidades de uma determinada região. Seria interessante reorganizar os mercados financeiros para que possam oferecer pequenos empréstimos às micro-empresas e aos empresários autónomos.
É verdade que as instituições financeiras preferem os grandes projetos, mas são exatamente estes que se deparam com o problema de sobrevivência na atual situação africana. Por isso, "há necessidade de encontrar caminhos de produção diversificada na agro-indústria, como forma de apoio às pequenas e médias empresas, que atenda às necessidades básicas da população, que consolide a tecnologia adquirida, favoreça a equidade e o crescimento sustentável’.

4.5.3. Assegurar perspectivas comerciais para os produtos

Deixamos definitivamente para trás o preço baixo para entrar na economia de mercado. No sistema atual de produção, a moeda é usada universalmente. Pastores e fiéis têm que medir sua importância e usá-la com diligência, para responder às numerosas necessidades que se impõem.
A saída dos produtos comerciais pode ser encontrada "in loco" ou fora. No entanto, convém estar informado sobre as tendências do comércio internacional, respeitar as leis do comércio, abastecer-se de mercadoria a tempo e cuidar do aprímoramento dos produtos.
Não há dúvida de que o progresso económico acontece quando há intercâmbio internacional. Cresce na Europa a demanda de produtos manufaturados da África (peças de vestuário de esporte de baixo custo; a confecção de produtos Malagasy reproduz nomes franceses de marca: Celio, Prenatal...).
De qualquer forma, o setor primário tem que ser ainda modernizado. Por exemplo, a diversificação de produtos agrícolas, requer que o cultivo extensivo seja abandonado, para dar lugar a produtos mais rentáveis e mais facilmente exportáveis (flores, frutas tropicais, produtos hortícolas).
Por outro lado, é importante lembrar que a importação de produtos baratos do exterior, faz baixar o preço dos produtos locais, desencorajando aqueles que estão dispostos a produzir mais.

4.6. Esforçar-se por fazer investimentos comuns

O fundo a ser investido pode ser usado para comprar um campo de influência suficientemente amplo que possa ser desfrutado para o autofinanciamento, ou para a necessária formação dos jovens e sua subsistência. Um tal projeto se tornaria vantajoso quando feito em conjunto entre comunidades religiosas, ou entre diocese e comunidades religiosas. Isto seria também um exemplo de solidariedade e de comunhão, com maior possibilidade de êxito. O projeto pode ser estudado e realizado por várias congregações, ou com a diocese. Trata-se de trabalhar o mais possível "em conjunto", para evitar que cada um enfrente sua luta sozinho. O exemplo de mosteiros masculinos próximos a mosteiros femininos, para usufruir de um benefício comum, material e espiritual, pode ser elucidativo.

4.7. EM GRANDE SOLIDARIEDADE COM O POVO

4.7.1.0 povo é uma força inalienável

Não se deve realizar nada em absoluto, passando por cima do povo, nem prescindindo dele. É com ele e estando no meio dele que tudo podemos realizar. Nenhum projeto de desenvolvimento deve cair de pára-qucdas, prescindindo da situação concreta e da necessidade de envolvimento da população, tanto na elaboração quanto na realização de qualquer projeto. Além da preocupaçi com a eficácia, um semelhante projeto está intimamente relacionado com convicção de que o homem merece respeito e dignidade, que lhe advêm do fai de ser criado à imagem de Deus e, por isso mesmo, constituído colaborador r criação, e do fato de encontrar o sentido último da vida na encarnação do Filh de Deus.

4.7.2. ... e contribui para a própria libertação

Nenhum projeto de autofinanciamento pode ser concretizado sem uma verdadeii solidariedade com o povo de Deus. Isto significa participar nas lutas do povo, sobretud nas ocasiões de maior privação, que podem acontecer quando há conflitos tribais, o quando chega a ordem de demolição das casas nas favelas; significa também denuncia as injustiças e posicionar-se do lado das vítimas contra os opressores, tomando-s voz dos que não têm voz; significa construir para o desenvolvimento das pessoas ajudando-as a superar o empobrecimento. Falamos de empobrecimento, porque pobreza tem as suas causas próprias. É a consequência de ações de outras pessoas. ( povo sente a necessidade de ser libertado de seus opressores. E os opressores poden ser encontrados também no coração dos países africanos.

4.8. ESPÍRITO DE PARTILHA ENTRE SACERDOTES, RELIGIOSOS E LEIGOS

4.8.1. Partilhar os bens materiais

É essencial que os sacerdotes, os religiosos e os leigos aprendam a partilhar a dar e a receber uns dos outros. Alguma coisa já se faz, por exemplo, quandc os veículos são de "uso comum"; quando os que têm carro o colocam á disposição, por ocasião de acontecimentos especiais (ordenações, profissões perpétuas...).
Mas o espírito de partilha não se reduz ao uso do carro; deve ser possível também em outros serviços que incluem alimentação ou outros instrumentos. Por exemplo, uma paróquia urbana que dispõe de entradas e recursos..., poderia partilhá-los com uma outra qualquer que passa por necessidade.
É necessário insistir sobre a exigência de uma maior solidariedade no interior da Igreja local, para que não se torne necessário pedir ajuda externa, a não ser quando os recursos locais, a nível regional ou nacional, sejam insuficientes.

4.8.2. Partilha de pessoal

"Neste espírito de Igreja como família, que implica solidariedade e partilha de pessoal e de outros recursos a todos os níveis, é necessário encorajar as dioceses, as paróquias e as instituições a partilhar com quem tem menos, a dar as mãos uns aos outros, para edificar uma Igreja que seja autosuficiente" (AECAWA).

4.9. TODOS COMPROMETIDOS

4.9.1. Trabalhar para que cada um ganhe o pão de cada dia

Para chegar ao verdadeiro autotinanciamento, é importante que cada membro da comunidade procure ganhar para viver. Isto significa que cada um, onde quer que esteja, deve ter um trabalho remunerado, que lhe permita a autoinanutenção.
Na luta contra a fome e a má nutrição, é preciso trabalhar para providenciar alimento para si mesmo, alimento que não pode ser obtido de outro modo.

4.9.2. Cada um contribui para a autonomia da Igreja

Cada membro da comunidade se tomará consciente de sua responsabilidade na manutenção de seus pastores e contribuirá com seu pecúlio para a paróquia. Isto supõe que haja uma educação permanente dos fiéis, promovida pelo pároco e pela comissão de finanças.

4.93. Cada um contribui para eliminar a pobreza

Através de "uma atuação concreta, que atinja as causas da miséria, da ignorância, da doença e da injustiça; uma atuação que leve cada indivíduo a caminhar com seus próprios pés, a ser responsável por si mesmo e pelos outros, e a viver com dignidade, como filho de Deus".

4.10. Necessidade de uma rigorosa gestão financeira e de compreensão da economia

Reproduzimos aqui o texto de uma diocese que enfrenta adequadamente o tema: "Todos concordamos que não pode haver desenvolvimento sem rigorosa gestão.
Nós, da diocese de Pala, escolhemos como objetivo primário de nossas atividades de desenvolvimento a autopromoção. Mas será que poderemos autopromover-nos, se não soubermos gerenciar com maior rigor o que produzimos e aquilo de que podemos dispor? Se formos coerentes conosco mesmos, devemos tomar como prioridade a capacidade de gestão: nas nossas comunidades sacerdotais e religiosas, nas nossas paróquias, nas instituições sob nossa responsabilidade, escolas, dispensários, enfim em tudo o que fazemos pelo desenvolvimento".
A necessidade de manter com exatidão a contabilidade, em todos os setores, é evidente. A diocese deve insistir na exigência de prestação completa das contas-correntes, se quiser chegar ao controle das despesas e eliminar o desperdício.

4.10.1. Elaborar um orçamento e segui-lo

A Igreja que desejar tornar-se autosufíciente, antes de mais nada, deve procurar conter as despesas. Para atingir esta meta é necessário que prepare um orçamento, a partir do qual seja possível avaliar as despesas dos vários setores. É verdade que nem sempre é possível orçamentar tudo, mas, mesmo perante situações complexas, deveria ser possível, não só numa paróquia, como também em qualquer instituição, ter uma previsão das despesas e das receitas, dentro de um determinado prazo. Caberá depois aos responsáveis examinar em profundidade as características tanto das despesas como das receitas.

4.10.2. Reduzir as despesas

Os padres e religiosos podem dar o exemplo na contenção das despesas. Podem mostrar aos leigos que o dinheiro para as despesas pode ser adquirido de várias formas. Por exemplo, os padres podem valorizar a terra que cerca a residência, para o cultivo, ajudando assim a diminuir a despesa da manutenção da própria comunidade.
Isto se tomaria um poderoso bom exemplo para os membros da Igreja, mostrando de que modo se pode ajudar uma comunidade a se tornar "autosufíciente", tanto em ações de grande porte como nas mais humildes.

4.10.3. Gestão transparente

A boa gestão nos negócios é uma exigência para os sócios financeiros, além de ser também um elemento que se soma ao sentido de respeito que a democracia e os direitos humanos merecem. Trata-se de um exercício delicado. A luta contra a corrupção é um dos elementos de bom governo e uma condição prévia necessária para a prosperidade.
Por isso se insiste, tanto quanto possível, na centralização da administração e na informação devida a todos os que estão envolvidos no processo. Isto já foi realizado em Maurítius, quando um grupo de técnicos programou toda a organização administrativa. Ela previa: a publicação dascontas-correntes de todas as paróquias, cada ano; a contribuição de uma determinada soma por parte de cada pessoa da comunidade; uma colem regular de fundos. Isto supõe um bom desenvolvimento e uma boa organização na Igreja local, a vontade de agir com clareza e transparência, o acompanhamento constante de peritos.

4 NECESSIDADE DE UMA COMISSÃO DE GESTÃO E REVISÃO

4.11.1. Não se pode dispensar uma comissão de gestão


Na verdade é preciso sublinhar é necessário que haja uma gestão financeira que não esteja, porém, sob a responsabilidade de uma só pessoa. Deve haver uma comissão constituída por vários membros, especialmente quando se trata de geienciar recursos de grande porte, por exemplo, uma fábrica com grande projeção de desenvolvimento, dirigida por um técnico profissional, que controle toda a contabilidade (pessoal técnico e executivo, trabalhadores). Requer-se uma comissão (diíetoria), formada por pessoas verdadeiramente competentes, capaz de geienciar este tipo de investimentos e fazer com que produzam o máximo de lucro.
É isto que o Sínodo Diocesano de Kisangani pede: "Que sejam realmente instalados os Conselheiros de finanças exigidos pelo CDC (Art. 492-493).

4.11.2. O controle da contabilidade dá segurança

Todas as operações financeiras deveriam ser controladas por revisores qualificados, escolhidos pela paróquia, para supervisionar a contabilidade. Uma contabilidade bem ordenada e uma revisão eficaz deveriam fazer parte essencial da organização de uma paróquia. Todas as operações financeiras, receitas c despesas, sem execção de nenhuma atividade, deveriam estar sob o controle dos revisores. Somente a autoridade competente, por razões válidas, poderia fazer exceção.
Por responsabilidade financeira criteiiLk-seuunbém que não deveria haver nenhum "monstro sagrado", ou seja, nenhuma contabilidade intocável. Pode acontecer que, no decorrer dos anos, algumas despesas tenham adquirido um caráter de inviolabilidade, simplesmente porque a paróquia, naquele momento, não podia fazer de outra maneira. Mas, apesar deste procedimento no passado, não justifica que certas despesas escapem agora do controle dos revisores.
Os bispos da AECAWA, em suas recomendações, chamam a atenção para a importância e obrigação de uma boa gestão, e confirmam o que ficou acima registrado: "Pedimos que se faça uso criterioso de nossos minguados recursos; pedimos que haja transparência, honestidade e responsabilidade em nossa gestão financeira. Constituir comissões financeiras e para o desenvolvimento, em todos os níveis - dioceses , paróquias e outras organizações - é essencial para a consecução deste fim".

4.12. Assegurar uma sólida formação dos sacerdotes na área da gestão económica

A persistência do problema da qualificação dos sacerdotes que saem das nossas estruturas formativas foi mais uma vez sublinhado, sobretudo no que toca à capacidade de enfrentar as exigências do tempo atua! e do próximo futuro. Atualmente, é difícil encontrar um padre recém-saído do seminário, que tenha competência ou qualificação no campo técnico e profissional, nestas áreas: engenharia, medicina, contabilidade, comércio, finanças, gestão administrativa.

4.12.1. Formar os agentes de pastoral em gestão económica

Chegou a hora de encarar com seriedade a inclusão de alguns cursos técnicos no currículo dos seminários. Seria suficiente fazer algumas modificações no sistema ai uai, sem ter que se afastar demais dos currículos da formação tradicional.
Se olharmos de frente para a complexidade e para as rápidas mudanças da realidade que nos cerca, não podemos dar-nos por satisfeitos com apenas algum anos de formação para a vida religiosa, nem sequer com os estudos tão importante! de filosofia e teologia ministrados ao longo dos anos da formação. De fato, é fáci perceber que a formação, tal como está, não se adapta às exigências do trabalhe pastoral. Saber como fazer uma coisa e executá-la com perfeição, são dois aspecto que temos que aprender a conjugar. Competência e consciência profissional dever caminhar juntas, para que os agentes de pastoral possam, com eficácia, tomar-s servidores mais eficientes no exercício de suas funções.

4.12.2, Formar comunidades autosuficientes

De tudo o que foi dito, podemos concluir que as características específicas de un Igreja que queira contar consigo mesma são as seguintes: dispor de pessoal competen e disponível; ter capacidade de produzir, manter e gerir um próspero fundo financeir o crescimento financeiro e o desenvolvimento humano autêntico e espiritual.
Nesta perspectiva, a proposta é que se promova, na formação de base do pessoal da Igreja (clero, religiosos e leigos), uma adequada iniciação nos se!ores financeiro, da contabilidade, do comércio..., de sorte que os agentes da pastoral possam compreender e participar com inteligência no esforço para a automanutenção.
Esta formação deve ser concretizada em todos os níveis de desenvolvimento (escolas, centros sociais, casas de formação...). Também os formadores dos seminários devem ser preparados no campo da gestão económica, ajudando-os a adquirir os necessários conhecimentos técnicos e práticos nas áreas da administração, contabilidade, gestão e processos de investimento de capital.

4.13. Manter um estilo de vida modesto

O autofinanciarnento pode ser favorecido ou dificultado segundo o estilo de vida que for adotado. Portanto, ter em consideração o atua) fator cultural. Em primeiro lugar, o fato da assimilação, sem reservas, do estilo ocidental de consumo, estimulado pela pressão constante dos meios de comunicação, pode ser visto corno uma necessidade imperiosa de acumular grandes somas de dinheiro. As novas gerações esquecem rapidamente os modelos de vida da própria culturae as possibilidades a ela inerentes.
Não se pode negar que "o estilo de vida, o modo de ser, põem em evidência, inevitavelmente, os religiosos na sociedade. Eles constituem grupos unificados, organizados, poderosos e superiores pelo que têm, pelo que sabem, pelo que podem. Casas, meios de transporte, modos de vestir e alimentação de que dispõem..., refletem uma posição bastante alta em relação àqueles que lutam pela sobrevivência".
Também é verdade que muitos africanos encontram dificuldade para chegar ao fim do mês. Muitos deles vivem na pobreza e na miséria, causadas pelo trágico esbanjamento dos recursos disponíveis, pela instabilidade política e peto caos social. O ganho de um paroquiano não é suficiente para matar a fome da família.
Perante esta situação, espera-se que a Igreja, ou a paroquia, que depende da generosidade dos fiéis, tenha mais atenção com o seu modo de viver. Dentro de tal
um estilo de vida simples, que evite a ostentação, eles poderão controlar e reduzir os gastos, e acrescentar um "superavit" financeiro que fortalecerá as suas reservas.

4.13.1. Rever e diminuir o nível de vida

Em gera!, o clero e os religiosos vivem muito acima do nível comum de vida da população. Por isso, deveriam fazer uma boa revisão e aproximar seu estilo de vida ao de seus concidadãos: viver com simplicidade, cercados apenas de meios condizentes, como, por exemplo, viver num apartamento. Os meios à disposição devem crescer, mas não necessariamente segundo o modelo ocidental do passado. Urna Conferência Regional de Bispos faz a seguinte exortação aos seus anunciadores do Evangelho: "Os agentes de pastoral dêem testemunho de um estilo de vida simples. Os que presidem em nossas igrejas devem evitar o luxo (veículos, festas) no meio de um numeroso povo que passa fome... Portanto, exortamos o clero e os religiosos, homens e mulheres, para que adotem um estilo de vida modesto, recordando o quanto diziam os Padres Conciliares: ’Guiados pelo Espírito do Senhor, que ungiu o Salvador e o enviou a evangelizar os pobres, os Presbíteros - como também os Bispos - tudo evitem que de qualquer modo possa afastar os pobres, excluindo de seus pertences, mais do que os outros discípulos de Cristo, toda a aparência de vaidade. Instalem de tal forma sua moradia, que a ninguém ela pareça inacessível, e jamais alguém, mesmo que bem humilde, se envergonhe de frequentá-la’" (Presbyterorum Ordinis, 17).

4.13. TRABALHAR PELO PERDÃO DA DÍVIDA EXTERNA

4.14.1. Ela é causa de muita miséria


A maioria das respostas recolhidas se referem à questão da dívida externa. Afirma-se, por exemplo, que "para o interesse da população, a dívida deve ser anulada, porque são os pobres que estão pagando àqueles que dela se beneficiaram" (Angola).
Além disso, se faz notar que "é moralmente objetâvel o fato de fazer recair sobre as futuras gerações dos países em desenvolvimento o peso de uma dívida feita pelas gerações anteriores, enquanto, em contrapartida, os países credores acumulam benefícios para os quais não trabalharam. Po isso, pedimos a anulação da dívida, dentro do contexto do Jubileu de 2000, como saída para restabelecer a igualdade e a dignidade humana" (AECAWA).

4.12.2. Inspirou o PRAS... uma imposição verdadeiramente desumana
Da mesma forma é importante repensar, com espírito crítico, os Pianos Reforçados de Ajustamento Estrutural. Estes são programas impostos com o objetivo de ajudar os países devedores a permanecer com capacidade de solvência e poder assim pagar a dívida.
Mas as consequências drásticas deste PRAS já se fazem sentir "na falta de material sanitário, nos salários miseráveis dos funcionários, as turmas com exagerado número de alunos para os professores, por causa do enxugamento" (Uganda).
As organizações de ajuda deveriam rever o modo como é feita a sua assistência. Sobretudo a assistência que se baseia apenas no setor da economia. A ajuda que estas organizações prestam serve para mudar alguma coisa, ou prolonga sem fim a dependência?

ALGUMAS REFLEXÕES CONCLUSIVAS

O caminho para chegar à responsabilidade e à autosuficiência é obrigatoriamente um processo lento, sobretudo quando o povo se habituou a viver no sistema de dependência. Contudo, chegou a hora de a África e seus habitantes "acelerarem a passagem da economia do receber para a economia do produzir". Só produzindo é que a África se torna autosuficiente; o mesmo princípio se aplica à Igreja.
A Igreja na África vive uma situação de buscada autosuficiência, mas este objetivo ainda está longe de ser alcançado. Não é o caso de recusar colaboração externa, mas não é admissível que tal colaboração seja impedimento para a autonomia, ou dite os caminhos a seguir. Para realizar sua missão de evangelização, a Igreja na África deve contar com seus recursos internos, sem partir simplesmente para a procura de ajuda externa. Os padres necessitam de subsídios de fora para manter um nível de vida razoável. Muitas dioceses dependem de amigos externos, para subsidiar a compra de meios de transporte necessários ao apostolado. E dependem ainda dos subsídios de Roma. As comunidades religiosas dependem de suas Direções Gerais na Europa ou na América. Há também instituições que vão à procura de agências externas que as ajudem a ir para frente.

A experiência demonstra, contudo, que a ajuda necessária nem sempre está disponível, e que, certamente, o atual modo de proceder não pode prolongar-se para sempre. Ainda que as Instituições do Norte queiram continuar a ajudar, não se deve pensar que esta seja a situação ideal. Chegou a hora em que a Igreja, na África, deve gerar por si mesma o suporte financeiro necessário para a evangelização. De fato, as respostas ao questionário mostraram o que se está fazendo a este respeito.
Contemporaneamente, a Igreja vive na sociedade. É parte da sociedade; e é a sociedade que, em boa parte, determina até que ponto a Igreja pode, de fato, ser financeiramente autosuficiente. Portanto, é preciso somar esforços para construir uma sociedade que permita a realização da autonomia financeira da Igreja. A Igreja deve oferecer um contributo para constituir uma verdadeira sociedade democrática, na qual cada cidadão, sem exceções, possa sentir-se chamado a peregrinar para o Pai. A Igreja deve trabalhar para a construção de uma sociedade na qual os pobres, os fracos, os marginalizados, possam receber sua parte dos recursos sociais e ser atendidos pelos serviços de que precisam.

A caminho da verdadeira democracia

O Estado, e a sociedade em geral, têm obrigação de garantir os direitos fundamentais de cada cidadão, que incluem: segurança, habitação, alimentação, assistência à saúde e educação.
É isto que entendemos por democracia, baseada na participação, num sistema político-econômico sobre cujo gerenciamento todos os cidadãos tenham a possibilidade de opinar.
O esforço por uma autêntica democracia é um dos principais caminhos nos quais a Igreja pode trabalhar com o povo. Um cristão leigo envolvido na luta democrática, inspirado no Evangelho, toma-se sinal de uma Igreja que quer participar na construção de uma sociedade justa. Uma das tarefas mais urgentes da Igreja na África, hoje, consiste em preparar homens e mulheres, jovens e adultos, a assumirem a responsabilidade da reforma social. Os movimentos leigos da Igreja não devem apenas encorajar o povo a participar ati vãmente na vida da Igreja, mas devem ainda atuar em outros campos, como na educação, onde as pessoas são preparadas para agir com compromisso na esfera secular.

A caminho de uma economia de solidariedade

A economia é uma parte importante da sociedade e tem graves repercussões sobre o esforço da Igreja para conseguir seu autofinanciamento. As economias da África são frágeis. Ajudar a África a sair da pobreza é uma das tarefas cruciais em nossos dias. É necessário individuar aquelas estratégias que possam contrariar a tendência da atual ordem económica internacional que procura a redução de custo do trabalho e o rebaixamento dos salários.
A Igreja tem um papel importante na questão da organização de uma nova ordem económica. O objetivo deve ser este: trabalhar juntos na libertação coletiva, promovendo uma economia de solidariedade, que articule os aspectos individual e coletivo. Na situação precária em que vivem as populações africanas e suas organizações sociais, a ajuda mútua é indispensável para alcançar as metas que ultrapassam as possibilidades dos esforços individuais. É por meio de uma ativa cooperação que o povo chega a compreender a estratégia da solidariedade.

A caminho de uma educação libertadora

Além da atuação polftico-econômica, é necessário atuar também no campo da educação. É preciso rever os conteúdos e os objetivos dos programas educativos. O sistema educativo atuai está baseado em métodos tradicionais inadequados e sobre cenários cole ti vi >s oriundos de esquemas de pensamento estrangeiro e alienador. Os sistemas culturais e sócio-econômicos ocidentais são apresentados como universalmente válidos e como os únicos possíveis para todos os países da África que aspiram ao desenvolvimento. Não é de se admirar que hajaum êxodo maciço de africanos em basca dos centros ocidentais de estudo. Os africanos mm cultura mais elevada preferem colocar os seus filhos em escolas estrangeiras: na França, na Alemanha, nos Estados Unidos, em busca de ciência e de prestígio, e, acima de tudo, para obter diplomas que lhes garantam melhor salário, ao regressarem à própria casa.
É de vital importância que a Igreja continue a investir recursos próprios na educação nacional, mas deve fazer isso com olho crítico sobre os programas utilizados nas escolas. Tentativas corajosas devem ser feitas para adaptá-los ao contexto local e às necessidades reais dos jovens. A Igreja deve cuidar de modo especial da educação nas áreas rurais. Muitas vezes a escassa qualidade do ensino e a falta de recursos significa que os jovens do campo não conseguem ir além do curso primário. No entanto, são estes os jovens que amanhã constituirão a força da Igreja.

Autonomia para além da autosufíciência financeira

Uma Igreja autónoma é a Igreja local que é capaz de determinar a direção e a evolução do próprio desenvolvimento, segundo as próprias circunstâncias particulares, os próprios problemas e os recursos disponíveis. Uma Igreja autónoma, portanto, controla sua missão, tem ideias claras do que necessita para progredir, tem suas prioridades, suas diretrizes e políticas próprias. É também uma Igreja que tem uma compreensão fundamental da diferença entre aquilo que pode ser feito com os próprios recursos locais, e os projetos que, ao invés, exigem recursos vindos do exterior.
Ao falarmos da autonomia de uma Igreja, ou de qualquer outra instituição, não nos referimos a uma Igreja que tenha como meta o isolamento, e cujos membros devam preocupar-se apenas com os próprios compromissos internos, sem considerar a experiência de outras comunidades.
Em especial, quando se trata da área da evangelização, autonomia não significa, certamente, uma Igreja local voltada para si mesma. Foi o Papa que advertiu as Igrejas, antigas e novas, sobre os problemas que podem surgir quando se acentua demasiadamente a autosuficiência. De fato, autonomia não significa autosuficiência, porque a graça do Senhor será sempre necessária. Tomar a Igreja autosuficiente não significa prescindir de contatos com as outras Igrejas. O que toma uma Igreja autosuficiente é sua capacidade de agir com eficácia e de controlar os seus programas de atividade, enquanto continua a dialogar com outras Igrejas, oferecendo aos outros, com inteira caridade e humildade, aquilo que pode, e recebendo dos outros, com gratidão e dignidade, tudo o que parecer necessário ou útil. A Igreja-Famflia é uma Igreja em comunhão.

Caminho para a autonomia

O primeiro passo consiste em poder dispor de pessoal e de estruturas necessárias para as obras eficazes de evangelização. Em outras palavras, dispor de equipes pastorais competentes, instrumentos e serviços adequados: centros de pastoral, espaços para a educação e a saúde, convénios necessários para que os serviços atinjam todas as pessoas, tanto de fora como de dentro da Igreja.
A segunda condição: que a Igreja tenha a capacidade de financiar suas atividades de evangelização, total ou parcialmente, sem ter que depender totalmente de ajuda externa. O ideal é que cada Igreja tenha o controle total sobre os próprios recursos. É claro, nem sempre é possível que uma diocese possua todos os recursos necessários em cada setor, embora possa, às vezes, em alguma área, ter até de sobra. É útil, portanto, e até necessário que as Igrejas vizinhas se ajudem mutuamente, num recíproco movimento de dar e receber.
A terceira condição decorre da precedente. É a capacidade e a vontade de partilhar com outras Igrejas recursos materiais e espirituais. Haverá, portanto, uma relação de verdadeira interdependência entre Igrejas, não apenas no que tange ao pessoal ou a recursos financeiros, mas também em ideias e métodos, capazes de desenvolver maior eficácia na atividade da evangelização.
Esta mútua partilha entre Igrejas era uma das características das comunidades paulinas. São Paulo dedicou boa parte de sua atividade à coleta em favor dos pobres das Igrejas cristãs. O objetivo da comunhão de bens entre as primeiras comunidades cristãs (cf. At 2,44ss; 4,32-34ss) é o de revelar e experimentar a comunhão e a solidariedade entre elas.
O exemplo de São Paulo nos mostra que deve existir uma verdadeira interdependência entre as Igrejas, não apenas em termos financeiros e de agentes
pastorais, mas também no intercâmbio de ideias e de métodos de evangelização. Se assim for, a Igreja será acolhida e respeitada como uma força útil na sociedade na qual ela age.
As diferentes Igrejas cristãs são chamadas a viver a solidariedade não só entre si mesmas, mas com os povos da África. Esta era a visão presente no encontro do Conselho Mundial das Igrejas, realizado em Harare em 1998:
"Sentimo-nos felizes por poder constatar nas Igrejas da África a visão de uma peregrinação de esperança no desenvolvimento do continente, no século 21. Estamos decididos a ampliar esta visão, que é promessa de uma vida digna para os povos da África, Cremos que esta mesma visão esteja radicada no conceito africano de pessoa, na espiritualidade africana e na ética da solidariedade comunitária.
Esta visão nos convoca a trabalharmos juntos, de modo criativo mas sempre em cooperação, colocando-nos ao lado de todos aqueles que, entre nós, carregam fardos muito pesados, demolindo aqueles muros que nos dividem e nos escravizam.
Ê um sonho que se transformará em realidade se nós, africanos, aceitarmos de trabalhar juntos em espírito pan-africano, e se soubermos usar os recursos humanos com responsabilidade e de acordo com os princípios éticos, na mútua colaboração e em harmonia com a natureza".

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