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formação de Base PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Giacomo Baccanelli, imc   
10 de Abril de 2006

Para uma formação mais orgânica e menos dispersiva

Premissa

Trabalho há três anos no Seminário Teológico Internacional de Roma. A média dos estudantes de teologia que compõem esta comunidade é de 25 jovens por ano, aproximadamente; jovens que se preparam à vida religiosa e sacerdotal, como Missionários da Consolata, provenientes da África, América do Sul e Europa. Após três anos de filosofia e um ano de noviciado, nos respectivos continentes, chegam ao Seminário Teológico trazendo a bagagem de uma caminhada de discernimento já feito, que culminou com a emissão da primeira profissão religiosa.

Em aqui chegando, começam logo o estudo da teologia, que abrange um ciclo-base de três anos, além da especialização, que dura dois ou três anos. Salvo exceções, os jovens missionários têm entre 25 e 30 anos de idade. Para os estudos teológicos podem inscrever-se nas várias Universidades Pontifícias. O grupo mais consistente frequenta a Universidade Gregoriana.

Neste Seminário específico, a formação é dada e acompanhada por dois formadores, e segue um projeto bem determinado: a Ratio Formationis IMC, com a mente e o coração voltados para a missão ad gentes. No tocante à finalidade, as nossas Constituições são muito claras: a evangelização dos povos. "Realizamo-la para glória de Deus, com a santidade de vida" (Const. 5). Nosso Fundador a sintetizou numa frase muito conhecida e repetida: "Primeiramente santos, depois missionários!" (A Vida Espiritual, edição brasileira, p. 105).

Sensação de uma dispersão difusa
O novo estudante que chega à comunidade logo experimenta dentro de si uma sensação de dispersão, de fragmentação e divisão interna. Claro, o "salto" que fez não é indiferente. A mudança de continente comporta novidade a nível de comportamento e de valores. Muitas mensagens, sobretudo as transmitidas pelos "mass media", não ajudam certamente o estudante a reencontrar a unidade e a centralidade de sua vocação. Muitas mensagens de consumismo, do efémero, do imediatismo, o experimento de emoções levam a uma dispersão de energia e de perspectiva
Depois, o jovem ingressa no estudo da teologia enfrentando métodos novos, tendo que usar uma língua estrangeira; tudo isso implica em desgaste de energia e consumo de tempo considerável, em relação às outras dimensões, como a formativa e a pastoral.

O indivíduo passa de um ritmo comun itário-homogêneo com prazos fixos, horário detalhado, como o do noviciado, ao Seminário Teológico, que tem ritmos mais variados e que são deixados à organização do indivíduo, tais como: ritmos de oração, empenhes comunitários. O jovem, por exemplo, é convidado a elaborar o próprio projeto pessoal de vida, a encontrar tempo para a meditação, a assumir o programa e plano de vida, sob o risco de ser envolvido pelo ritmo frenético: oração, aulas, ônibus, empenhos comunitários, trabalho pastoral, amigos..., sem ter uma consciência orgânica e central de tudo quanto acontece ou deveria acontecer seu crescimento humano-vocacional.

Também a nível de crescimento pessoal emerge a exigência de unidade do próprio EU. À medida em que o indivíduo vai crescendo, alarga-se o campo do conhecimento, o horizonte das várias possibilidades de vida, de amizades; e, se não estiver atento, corre o risco de dissipar-se na busca de muitos interesses e atrativos, de valores efémeros e de segunda categoria. Tornarao-nos dispersivos quando desejamos fazer interiormente uma síntese e procuramos descobrir um ponto central próprio, em torno do qual as nossas várias coisas, aspectos e experiências, etc., possam encontrar sentido, coesão e coerência. Para o jovem, este ponto central deve ser sua vocação de Missionário da Consolata.

A descontinuidade

Outra coisa que impressiona é a descontinuidade na comunidade entre os novos que chegam para começar a teologia e os que estão para terminar a assim chamada "Formação de Base".
Enquanto os primeiros manifestam o desejo de crescer na própria formação e têm vontade de saber, nos outros vê-se uma desafeição ao processo formativo. Nos primeiros anos de teologia são mais receptivos, abertos ao diálogo formativo, mais envolvidos nos ritmos da vida comunitária. No fim (nos anos de especialização), denota-se impaciência, maior desejo de autonomia. O envolvimento comunitário na oração, ao invés de crescer, parece diminuir. Tem-se a impressão de que o indivíduo esteja saturado. Muitas coisas lhe parecem devidas. Iniciativas e propostas o incomodam. Afinal, o indivíduo se prepara ao trabalho apostólico de amanhã, ou procura fugir dele?

Esta descontinuidade do processo formativo, entre o começo e a conclusão dos estudos teológicos, período de tempo que dura aproximadamente 5 ou 6 anos, suscita em mim interrogações:
Por que se começa com entusiasmo, após o noviciado, e depois de 3 ou 4 anos a gente chega cansada e impaciente? Exatamente no momento de tomar decisões importantes, como a consagração definitiva no Instituto e o acesso às Ordens maiores?
Qual a causa de tudo isso? Será a passagem à maturidade individual da estruturação da personalidade?
Ou uma contestação por causa da mudança dos valores geracionais nos confrontos dos formadores?
Quiçá, uma formação dispersiva?
Ou as lacunas e limitações dos formadores?

São inquietações para as quais não encontro respostas satisfatórias dentro de mim. Pensando na formação de trinta anos atrás, muito caminho foi percorrido! Agora dá-se maior atenção à pessoa, investe-se muito mais em meios e pessoal Sinto também que a formação deve reencontrar mais unidade entre as muitas e diferentes dimensões contempladas pela nossa Ratio. É preciso achar os núcleo: que ajudem o indivíduo a reencontrar a própria centralidade e conscientização, serr dispersar-se entre as várias dimensões.

Uma formação com um ecosistema
Parto do nosso grande objetivo - a "Missão Ad Gentes"; objetivo este queridc pelo Pai Fundador, o Bem-aventurado José Allamano, e testemunhado por muitos corajosos e santos missionários ao longo dos cem anos de vida do Instituto. Para o; jovens, a Missão ainda não tem um rosto bem definido e delineado. As destinaçõe: ao campo de trabalho acontecem no fim da teologia. Mas seja qual for o contexU em que o missionário venha a trabalhar, deveria encontrar um ecosistema com oi elementos vitais e essenciais à sua vida.
Impressionou-me um pensamento de um artigo que li na revista Testimoni, sobre a formação religiosa e o mundo de hoje (cf. P. Timothy Radcliffe, in Testimoni, n" 20,1998). O ecosistema é ilustrado com a figura da rã. Uma rã necessita de um ecosistema próprio para poder viver e reproduzir-se. Os elementos, como: lago, charco, algas ou outras plantas, água e outras rãs, são essenciais à sua sobrevivência.
Creio que também para um Missionário da Consolata haja necessidade de uma espiritualidade, da comunhão fraterna, de uma estrutura psíquica madura, com aquele algo mais de zelo pelo Evangelho, sem excluir muitas outras dimensões mencionadas pelas Constituições e pela Ratio Formationís.
Estes são os três elementos que considero mais centrais e importantes na nossa situação real: a Missão, em qualquer parte se realize, necessita de espiritualidade, de comunidade e de pessoas maduras, profundamente estimuladas pelo Evangelho. São os pilares que sustentam a Missão.

Uma espiritualidade mais forte
Para os jovens que se preparam para oferecer a vida pelo Reino de Deus, não se pode dispensar esta dimensão vital. Sempre esteve presente. Mas os constantes apelos dos últimos anos, feitos pelos nossos Capítulos e pelas Cartas da Direção Geral, terão também algum motivo e razão. Talvez se dá por descontado e evidente que a espiritualidade seja um pilar da nossa vida missionária. Contudo, em razão de nossa fragilidade humana, não há nada de descontado! Ou, talvez, constata-se que uma espiritualidade fraca, até mesmo carente, gera uma Missão anêmica, vazia e sem atrativo. A vida espiritual perde o sabor, desbota-se. Acho necessário que a formação proponha uma espiritualidade mais forte. O ecosistema do seminário ofereça uma alma, um espírito que marque mais profundamente, que determine mais vigorosamente nossa preparação para a vida de evangelizadores.

O primeiro fundamento não pode ser outro que Jesus Cristo (cf. 1 Cor 3,11). Uma tensão sadia, realística e madura, que faça transparecer o primado de Deus no nosso modo de ser e de agir, nas nossas decisões cotidianas da vida do seminário. Espiritualidade que é, portanto, interioridade, relação pessoal com Jesus: cada qual sinta que foi chamado pessoalmente por Deus. Redescobrir a presença de Deus na história da própria existência. Que no fim da teologia cada indivíduo possa fazer uma síntese daquilo que Deus operou nele, possa ver aquele fio vermelho de linha que costura os mais variados eventos da própria história à luz de uma presença contínua e amorosa de Deus Pai, que se manifestou em Jesus Cristo e que continua a se fazer presente no Espírito Santo.

Enfim, uma espiritualidade dos Doze, que são os primeiros missionários. Eles se formaram permanecendo com Jesus e cônscios da presença dele: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28,20). "Eu sou a videira, vós os ramos" (Jo 15, 5). Nosso crescimento espiritual torna-se desejo de ver e de permanecer com Jesus, à semelhança dos primeiros discípulos (cf. Jo 1,35-51). Eles, antes de se lançarem ao trabalho apostólico, permaneceram com Jesus (cf.Mc 3,10).

Todos os que se encontram neste seminário devem respirar este elemento de fundamental importância. Eis a formação do seminário: permanecer com Jesus. O ambiente, a atmosfera que se respira confronte o candidato e o leve a decidir se isto serve para ele.
Nós somos chamados e santificados por Deus para sermos enviados. É mister tomar consciência do próprio chamado, do sentir-se amado e atraído por Jesus.

Do fato de sermos "agarrados" por Jesus brota a nossa consagração através dos votos. Dimensão que ainda não encontra, com suficiente clareza, aquele lugar que o Fundador queria que ela ocupasse, segundo declara o último Capítulo Geral (cf. Atos do X Capítulo Geral, p. 31).
A consagração de si mesmo, do próprio "eu", coma oferta da liberdade mediante o voto de obediência, com a oferta do próprio corpo com a virgindade, do desapego de si mesmo e das coisas mediante a pobreza, é, antes de tudo, oferta a Deus por nos ter amado. Devo seguir Cristo obediente, virgem e pobre, porque fui atraído por Ele, porque este estilo de vida expressa melhor aquilo que eu quero fazer da minha vida. Correspondo ao chamado de Deus porque gosto, porque considero que este chamado é a mais belae conveniente maneira de viver a minha vida em plenitude.

É preciso que fique claro: a minha consagração, antes de tudo, é feita a Deus, por mais que seja mediada pelo Instituto. A Missão brotada minha consagração e relação com Deus, com Jesus Cristo. Funda-se no seu amor por mim, por toda a humanidade. A Missão, sem dúvida, enriquece e torna-se um sinal do amor de Deus por mim. Manifesta a minha consagração, mas não a funda. Não fazemos os votos para ser missionários, mas somos missionários porque fizemos os votos.

Outro aspecto da espiritualidade é, sem dúvida, a oração. Sem ela, creio que a espiritualidade se toros muda, estéril e sem alma. Durante c tempo da formação faz-se o exercício para adquirir este "hábito" de diálogo e de interioridade com Deus, com Jesus. Os bons costumes não brotam sozinhos, mas são adquiridos com o exercício, com a prática. É fácil chegar a um tal estado de ânimo de não provar nenhum sabor pela oração, ou de achá-la árida... Nestes casos, a tentação de abandoná-la, ou de fazê-la só por fazê-la, é grande. É preciso exercitar-se na oração com muito amor, para transformá-la em linfa, em vida.

O ritmo comunitário da oração existe, embora se falte com muita facilidade. Além da Oração das Horas (Laudes e Vésperas), temos a celebração cotidiana da Eucaristia, a adoração, a "lectio divina" semanal, a devoção mariana... O que acho insuficiente, ao invés, é a oração pessoal. Não tenho certeza se a meditação é feita com regularidade e continuidade. Insiste-se para que todos se habituem a achar o tempo para fazer este encontro pessoal com Deus.
Parece-me que exista certa anemia espiritual proveniente da falta de qualidade e de continuidade da oração pessoal. É lógico, se não nos nutrimos suficientemente, a mesma oração litúrgica e comunitária é morta, desprovida de alma, não comunica vida. Por isso, não nos devemos maravilhar se, depois, com o passar do tempo, nos tornamos religiosos-missionários fracos e inconstantes!
Não raro, o abandono da vocação encontra suas raízes no abandono da oração pessoal. Não poderia ser diferente. É clara a advertência de Jesus: "O ramo, por si só, não pode produzir fruto, se não permanecer unido à videira..." (Jo 15,4).

A comunidade
Um ecosistema da formação compreende a comunidade, a comunhão com os outros, A tarefa da comunidade é exatamente esta: formar cada indivíduo a este elemento vital, importante: a comunhão fraterna. Ela nasce precisamente da vocação mesma de sermos consagrados para a Missão. A comunhão com Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo é a raiz da comunhão com os irmãos, que se adquire seguindo os passos de Jesus.
Os Missionários da Consolata nasceram da bela experiência de comunhão e de colaboração entre o Fundador, Bem-aventurado José Allamano, e seu Vice - Cónego Tiago Camisassa. Desde o início, todos vêm a saber que o espírito de família deveria animar a comunidade: "O Instituto não é um colégio, nem um seminário, mas uma família" (A Vida Espiritual - edição brasileira, p. 317). Os estudantes de teologia e os jovens professos da nossa comunidade já têm 3 ou 4 anos de experiência de vida comunitária. Sabem que o futuro trabalho missionário se desenvolverá em pequenas comunidades internacionais. Trabalharão juntos em lugares de preferência não cristãos, onde a Igreja ainda não está constituída, ou o Evangelho ainda não foi anunciado.
Somos chamados a viver juntos este ideal. "A vida comunitária é, para nós, um valor primário" (Const. 22). Não se parte para a Missão a título pessoal, mas incardinado no Instituto, na Igreja. Este período de formação e de preparação à Missão deveria ajudar cada indivíduo a se confrontar, para ver se tem condições de viver em comunhão fraterna.
De fato, esta fraternidade existe. É ativa. Respira-se um clima de acolhimento, de amizade, de serviços recíprocos. No começo do ano são constituídos os grupos encarregados da limpeza, do parque, da horta e da manutenção. Há turnos semanais para animar a liturgia, para a lavação de louça. Festeja-se o aniversário de cada membro da comunidade, realizam-se serões de cunho continental.
Mas, onde está então o problema? Há aspectos que devem ser melhorados. Os valores que pressupõem a vida comum, como: amizade, confiança recíproca, estima mútua..., talvez são dados por descontados. São valores que estão presentes, mas nem sempre são determinantes na vivência concreta. Além disso, estes valores devem sempre combater os correspondentes desvalores, que fazem parte da nossa fragilidade.
Não há dúvida, necessitamos da graça de Deus para construir uma fraternidade de seguidores de Cristo (cf. Col 3,12). A amizade não basta. A comunidade também não deve ser um absoluto. A comunhão fraterna tem suas raízes na comunhão com Deus, na amizade com Jesus e o desejo de segui-lo quando encontramos a cruz ao longo do caminho. Todos nós gostaríamos de possuir estas belas qualidades, mas muitas vezes esquecemos que estes frutos suaves são adquiridos a preço de sacrifício e renúncia pessoal. É preciso conquistá-los mediante o esforço de cada dia.
Às vezes, é necessário também demitizar uma certa utopia da comunidade, que cada qual invoca quando as coisas vão mal. Aquela mania de achar sempre um pretexto: "A culpa é da comunidade"... "Não sou valorizado"... "Não encontro apoio e ajuda para crescer..."
A verdade é que cada um de nós deve pagar um preço para construir uma comunidade sã, harmoniosa, imbuída de espírito evangélico. Esquecemo-nos de que é preciso doar, oferecer os próprios dons, os próprios talentos. A comunhão fraterna tem raízes e motivações na gratuidade de Deus e nossa, em favor dos outros.
As amizades externas são um sinal para a comunhão fraterna. Nota-se, por vezes, uma busca exagerada de relacionamentos com pessoas fora da comunidade: amigos e amigas. É born que uma comunidade corno a nossa se abra ao exterior. Mas, estas amizades, para serem sãs e serenas, devem ser transparentes, devem brotar de forma simples e sincera, e nunca para encher vazios ou buscar compensações pessoais.
Outra característica da comunidade é o envolvimento, a participação, a responsabilidade que cada membro deve adquirir em benefício da fraternidade. O seminário, talvez, protege. Há outros que se preocupam para que não falte nada. Somos pouco questionados e confrontados com as exigências.
Falta uma consciência económica que faz crescer e amadurecer de forma mais realística, menos infantil. Sou do parecer que deve haver maior clareza, normas concretas para conceder, por exemplo, o dinheiro para as despesas pessoais. Parece que campeie no fundo a mentalidade de que muitas comodidades (rádio, vídeo, gravadores, viagens...) sejam coisas de normal administração. Pede -se com facilidade e não faltam as queixas quando não se consegue o que se pede.
Garo, é preciso que haja diálogo e discernimento por parte dos formadores e da comunidade, mas acredito que normas e disposições comuns ajudariam (et. Const 22).
Para formar à responsabilidade, não seria talvez melhor, por exemplo, entregar uma importância x para todas as despesas pessoais, e que o indivíduo aprenda a administrá-la? Que cada um se habitue a escolher as prioridades e, também, alguma vezes, afazer a! guma renúncia. Exemplificando: se compro um livro ou vou aocinema, renuncio depois à pizza fora de casa, ou a uma viagem não estritamente necessária.
Outro cavalo de batalhaé a relação obedienda-disciplina. Também aqui estamos em sintonia com a cultura e a mentalidade do nosso tempo: os filhos devem ter tudo. Parece que a ordem seja satisfazer os desejos dos filhos. A consequência c bem conhecida: cidadãos egoístas, solitários, pouco interessados nos outros, dos quais, muitas vezes, nos queixamos à vontade.
Também no seminário uma disciplina fraca acaba por formar jovens sem espinha dorsal, sem força de vontade e determinação. O indivíduo se habitua a usufruir da comunidade, a ser exigente nas próprias necessidades, mas não contribui com a comunidade. Reparo que qualquer pequena observação feita neste campo faz com que o indivíduo se sinta ’lesado" na própria liberdade: "Os Superiores não entendem... Decidem sempre seguindo a lógica do poder..." Assim, os formadores se encontram a dirigir o tráfego, a lida da comunidade, os pedidos de licença...
Ao invés, exercícioe disciplina formam pessoas coerentes.

A coerência da pessoa madura

Falei acima do senso de fragmentação interior que muitos experimentam no primeiro ano de teologia, em razão dos motivos expostos. Mas no seminário há também espaço e boas oportunidades para o crescimento, a confrontação com outras culturas, com diferentes modos de agir. Assim, cada qual pode relativizar sua bagagem no campo da educação e sentir-se impelido a procurar o âmago das coisas.
É tempo de crescer para uma visão unitária da realidade, da pessoa. As diferentes dimensões: intelectual, humana, pastoral e missionária devem encontrar uma síntese, um centro em torno do próprio "eu", de Deus e da comunidade.
É importante, com a especialização, formar-se um quadro de referência no campo do saber, encontrar harmonia e identidade consigo mesmo antes de partir para a Missão. Adquirir um senso de unidade interior, um senso de continuidade nas várias etapas superadas. Enfim, um "contínuum" próprio que perdura nas situações diferentes. Perceber o próprio "eu" (um "eu" interior) na caminhada da própria vocação. Este espaço interior ("pátria interior") não se identifica, antes, é distinto de todos os atrativos e paixões... Criar uma área muito íntima, distinta das nossas paixões, sentimentos, projeções, cólera, ofensas... Ou, como afirma A. Grun: preparar no fundo do coração um lugar onde se possa encontrar e adorar Cristo.
Em sintonia com esta voz interior que nos chama a escolher Deus, Jesus Cristo, na vocação missionária há algumas áreas que devem ser constantemente vigiadas e submetidas ao exame de consciência. Cito especialmente duas: autonomia e afetividade.
A maturidade procura ser coerente entre aquilo que queremos ser (o nosso "eu’ ideal) e aquilo que somos (o nosso "eu" real). O ideal de comunhão com Deus dev« ser construído com a coerência da minha vida, particularmente nestas duas áreas.
As inconsistências vocacionais neste campo atingem a liberdade, o senso d independência, o pedir as licenças, o comunicar saídas e programas...
A afetividade, frequentemente, gera conflitos com o celibato pelo Reine Geralmente não se fala de maneira aberta e franca das próprias amizades pessoai das tentações contra a virgindade. Neste assunto, é mais fácil encontrar-se ei comentários, piadas ou brincadeiras. É extremamente fácil montar falsj representações da realidade, iludir-se, pensando que fora da comunidade tudo se fácil, tudo seja lícito. Exatamente do jeito que a televisão nos quer fazer crer!

A maturidade nunca chega a ser totalmente alcançada. Sempre fica alge conquistar. Aqui entram em campo os dinamismos da nossa estrutura psíquica cor os mecanismos de defesa, o conhecimento de nós mesmos, as necessidades q impelem às atitudes que geram comportamentos. O conhecimento de nós mesrr nos pode ajudar a desmascarar tantas atitudes e maneiras de agir, bem mais que i certo voluntarismo teimoso. Muitas vezes somos mais apegados a nós mesmos e nosso egoísmo, que ao plano de Deus a nosso respeito.
Como é difícil sair da própria casca, do próprio mundo, para se abrir aos outros, que neste momento são as pessoas concretas da comunidade de Bravetta!
O senso de responsabilidade nos serviços assumidos dentro do grupo de trabalho: horta, parque, turnos de liturgia, refeitório, deixar em ordem o lugar onde se toma café..., mostra que não estamos preocupados somente com as nossas coisas e dificuldades, mas pensamos também nos outros.

Nosso Fundador insistia para que fizéssemos com perfeição as coisas pequenas... Queria que "fôssemos extraordinários no cumprimento dos deveres ordinários" (cf. A Vida Espiritual - versão brasileira, p. 116 ss).
Não pensar no que posso obter da comunidade, mas no que posso fazer pela comunidade. Este é, afinal, o ideal da nossa vocação. Na busca do verdadeiro sucesso, grande peso e valor têm a maturidade humana e a sã coerência interior.
Torna-se cada vez mais evidente que só as pessoas maduras são capazes de criatividade, têm capacidade de mudar e, portanto, de serem receptivas aos apelos e à graça de Deus. Os imaturos se bloqueiam e não conseguem imaginar outra coisa diferente. Não percebem a atração do bem.

Conclusão

Nosso Fundador insistia sobre o zelo, como condição para ser missionário: "Para ser apóstolo, é preciso arder!" (cf. A Vida Espiritual - versão brasileira, pp. 356-360). O zelo deveria constituir a alma de toda a formação. O amor pela Missão é o atrativo inicial e o fruto maduro do nosso permanecer com Jesus. Parece-me que este ardor pela Missão seja também o resultado próprio de uma cuidadosa espiritualidade, de uma comunhão fraterna continuamente cultivada, da maturidade sempre vivenciada, mas nunca definitivamente conquistada.

Sei que, quanto aqui foi dito, não é tudo, nem esgota o assunto. Há outros aspectos importantes. Julguei, porém, que estes três devam ser melhorados, a fim de que, por sua vez, possam aperfeiçoar muitos outros.

Pe. Giacomo Baccanelli

Fundador

Quem são...

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