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O Carisma do Instituto Missões Consolata na expressão do seu Fundador José Allamano (1851-1926) PDF Imprimir E-mail
Por Pe Luiz Balsan, imc   
10 de Abril de 2006

Neste artigo procuraremos apresentar uma síntese dos elementos fundamentais do estudo realizado, em vista da tese de doutorado em teologia espiritual, sobre o carisma do IMC.

1. Elementos introdutórios

          1.1 A expressão: carisma do Instituto

A expressão carisma do Instituto, ou outras análogas, como por exemplo carisma do IMC, é usada na tese com o significado que lhe é conferido pela maioria dos textos da teologia e do Magistério pós-conciliar, que fazem confluir nela o conteúdo anteriormente expresso com diversos termos, ainda em uso nos documentos conciliares e no atual Código de Direito Canónico, tais como: índole, natureza, fim, espírito e sãstadições (1). E visto que o carisma do Instituto tem íntima conexão com o carisma do Fundador, enquanto encontra no dom do Espírito a ele concedido a sua fonte, e enquanto se refaz continuamente à sua explicitação fundamental, a expressão Carisma do Instituto Missões Consolata na expressão do seu Fundador refere-se ao dom do Espírito concedido ao Allamano e por ele transmitido ao Instituto.
Este dom do Espírito é totalizante e representa uma forma específica de vida cristã em suas diversas dimensões: um determinado estado de vida, uma específica forma de apostolado, uma específica missão na Igreja e uma forma própria de compreensão do mistério de Cristo e, consequentemente, de espiritualidade (2). Segundo a impostação teológica pós-conciliar, é portanto inadequado o uso da expressão carisma do Instituto para se referir à sua missão ou, paralelamente, à vida religiosa, espiritualidade e sãs tradições. Na realidade, estes são aspectos que, somados, constituem o carisma de um instituto. Considerados em sua dimensão descendente, o conjunto dos elementos que constituem e caracterizam uma família religiosa nós os designamos com o nome de carisma, enquanto são suscitados por um dom de Deus.
Considerados sob o ponto de vista antropológico, isto é, da resposta dada pelo Fundador a este dom, podemos falar de identidade do Instituto. Esta nada mais é que a forma dada pelo Fundador ao seu Instituto como resposta ao dom de Deus, que será depois relida e atualizada pelas várias gerações de discípulos.
A forma na qual o Fundador estrutura a vida do Instituto, a partir do dom do Espírito por ele rqcebido e de certa maneira participado por seus discípulos, constitui a identidade da nossa família religiosa.

1.2. Conteúdo da tese

A tese se compõe de cinco partes. As duas primeiras têm, fundamentalmente, um caráter introdutório e constituem a base teórica a partir da qual se elaboram as outras partes. Na primeira parte apresenta-se uma síntese da doutrina e da teologia pós-conciliar acerca do carisma do Fundador e carisma do Instituto. Na segunda parte apresenta-se o Allamano dentro do contexto da realidade sócio-eclesial do seu tempo e sua participação ativa nele; em seguida procura-se identificar as obras de espiritualidade que exerceram maior influxo sobre ele. Na terceira parte analisa-se a experiência espiritual que conduziu o Allamano à fundação: a compreensão gradual do seu carisma de fundador; o amadurecer deste projeto em comunhão com a Igreja local; sua percepção de uma particular mediação da Consolata; a consciência de uma paternidade espiritual e de ter recebido um espírito«próprio a ser transmitido ao Instituto; seu relacionamento com Tiago Camisassa e, finalmente, a fundação do Instituto como um serviço à Igreja local e universal. As últimas duas partes se ocupam da dimensão trinitária e eclesial do carisma do EV1C. Delas, apresentaremos alguns elementos nas páginas seguintes.

2. A dimensão cristológico-trinitária do carisma do IMC

A vida apostólica, da qual a vida missionária é uma expressão eminente, é um chamado a participar da missão trinitária que busca a salvação de todos os homens. Os missionários, portanto, são pessoas que foram chamadas pela graruidade divina a tomar parte desta missão, vivendo-a de um modo específico. Este é, pelo que nos parece, o núcleo que dá unidade à vida dos Missionários da Consolata e, consequentemente, o ponto de partida para compreender a vida e a missão.

2.1. Chamados a participar da missão trinitária

Um breve aceno à teologia da Missão pode ajudar-nos a explicitar o pensamento do Allamano dentro de um quadro teológico mais próximo de nós.
Uma das aspirações apresentadas pelos padres conciliares no Concílio Vaticano II dizia respeito à elaboração de uma teologia mais ampla da missão universal. Sentiam a necessidade de uma doutrina teológica que explicitasse a especificidade da missão Ad Gentes, suq relação com a história da salvação e seu rundarnento existencial (3). Os primeiros capítulos do decreto Ad Gentes respondem a esta pergunta, mostrando que o dinamismo com o qual a Igreja se propaga no mundo mergulha suas raízes no amor fontal de Deus Pai, do qual é gerado o Filho e conjun-tamente com ele procede o Espírito Santo. O amor do Pai constitui a base também do grande projeto de comunicação de Deus com a humanidade, que se realiza na missão do Filho e do Espírito Santo. Inserida neste projeto de comunicação de Deus, a Igreja torna-se participante da mesma missão e, por isso, é por sua natureza missionária (4).

2.1.1. Participantes da missão do Filho

Seria pretensão excessiva querer encontrar uma tal elaboração teológica no ensinamento do Allamano. Por outro lado, não podemos esquecer que ele é destinatário do carisma de fundar congregações missionárias; consequentemente, para formar os seus à missão, procurou um fundamento para a espiritualidade missionária, que depois lhes propôs. É legítima, portanto, a expectativa de encontrar nele uma reflexão mais profunda e melhor elaborada do que na maioria de seus contemporâneos.
Nos apontamentos preparados para a reflexão do dia 24 de janeiro de 1905, por ocasião da partida do 5° grupo de missionários, o Fundador recorda o mandato missionário de Jesus aos discípulos (Mt 28,19; Jo 20,21). Depois procura explicar todo o conteúdo latente naquelas expressões do Evangelho: "Como se Jesus dissesse: Tendo eu recebido todo o poder, com o mesmo fui mandado pelo Pai à terra, para salvar os homens. Pois bem, agora eu vos transmito este mesmo poder, para que continueis a missão que eu recebi do Pai, visto que eu já não posso continuá-la, visível e diretamente, pois devo retomar ao céu" (5). Estas palavras mostram como Jesus, no ato de enviar os discípulos, lhes recorda que ele próprio foi enviado, e que, portanto, a missão que recebem dele se origina do Pai, que por sua vez enviou o Filho.
Através destas citações bíblicas, que lembra com alegria a cada envio de missionários, Allamano faz notar, de maneira incisiva, a íntima relação existente entre aquele simples acontecimento vivido pelo Instituto Missões Consolata e o plano universal de salvação. Do mesmo modo que foi enviado pelo Pai, e como ele mesmo um dia enviou os Apóstolos, hoje o Senhor envia os missionários, confere-lhes os seus poderes e confia-lhes a sua missão, para que sejam testemunhas autênticas.
São numerosos os textos que testemunham a densidade espiritual que envolvia a comunidade, quando da partida de missionários. É suficiente citar,um: "Refleti atentamente sobre estas palavras, que nos mostram a importância da missão conferida aos Apóstolos e, nos Apóstolos, a quantos os seguem. Nosso Senhor Jesus Cristo nesta noite vos diz: ’Com a mesma missão que o Pai Eterno confiou a mim, assim eu vos envio para a conversão dos povos’. Esta não é uma missão ordinária, de segunda importância. O Pai Eterno enviou o Filho, o Filho enviou a Igreja, e a Igreja, por meu intermédio, envia a vós" (6).
A missão, que se origina do Pai e se realiza plenamente no Filho, é confiada à Igreja. É nesta missão da Trindade que o novo Instituto Missionário está inserido, do qual, por obra do Espírito, Allamano é o fundador, e no qual, por obra do mesmo Espírito, muitos discípulos seus tomarão parte.

2.1.2. A missão no Espírito Santo

Na festa da Ascensão do Senhor, no dia l ° de maio de 1913, Allamano toma um texto do Evangelho de São João como principal ptato de referência da reflexão que dirige aos seus. Primeiramente faz notar como Jesus apresenta aos seus Apóstolos dois motivos de consolação. Primeiro: ele, voltando ao Pai, lhes preparará um lugar. Segundo: promete-lhes que não os deixará órfãos e que retornará na pessoa do Espírito Santo (7).
No dia 23 de maio de 1923, Allamano retorna ao tema, sempre com o intuito de mostrar aos seus que a missão da Igreja não começa sem que antes se cumpra a promessa de Jesus. As frases referidas por São Lucas: — "Ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas esperassem o cumprimento da promessa do Pai" (At 1,4) e "Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto" (Lc 24,49) - recebem nas palavras do Allamano uma intensidade especial: "Ide e não vos movais enquanto não receberdes o Espírito Santo" (8). A vinda do Espírito Santo constitui, pois, um pressuposto fundamental da missão. Junto ao Pai e ao Filho está o Espírito; e a missão, que é confiada à Igreja através do grupo dos Apóstolos, não deve iniciar sem a Sua assistência. A missão é, pois, um envio no Espírito.
Allamano faz a seguinte observação: não obstante tivessem os Apóstolos permanecido três anos em companhia de Jesus, é somente o Espírito que os conduz à verdade total (9). O Fundador, portanto, em primeiro lugar, realça o papel insubstituível do Espírito, que transforma interiormente os Apóstolos, suscitando neles uma plena confissão de fé. A fé em Cristo e a santificação na verdade são condições para o desempenho de sua missão no mundo (10). Em seguida, Allamano observa que no dia de Pentecostes se realizou neles uma autêntica transformação: de homens temerosos (11) e ainda preocupados com os próprios interesses, tornam-se testemunhas autênticas do Senhor, capazes de suportar com alegria os ultrajes e decididos a obedecer primeiramente a Deus que aos homens (12). O Espírito que conduz à fé é também o Espírito que suscita a missão.
Allamano observa, porém, que esta ação tão eficaz do Espírito não se limita aos primeiros séculos da Igreja, mas se estende a todos os tempos, e é sob sua direção que os pastores continuam a guiá-la (13). Tomando a missão como ponto focal de sua reflexão, o Fundador mostra que é o mesmo Espírito que suscita de um lado o testemunho e de outro prepara os corações para acolhê-lo, levando-os a aderir a ele pela fé (l4).
A vida missionária, portanto, torna-se incompreensível sem o Espírito. Neste contexto, aparece particularmente incisiva a afirmação do Fundador: "Se o Espírito Santo exercer influência no corpo do Instituto, então se realizarão prodígios" (15). Portanto, a missão que é de Deus, deve ser vivida no Espírito Santo.
Se o Instituto participa da única missão, que pertence a Deus e é confiada à Igreja, para desempenhá-la adequadamente é mister que participe também do seu dinamismo.

2.1.3. O amor - movente da Missão

Se a experiência de sentir-se chamado a participar na missão trinitária é o elemento central, em torno do qual se estrutura toda a vida dos Missionários da Consolata, é preciso voltar constantemente a ela para entender, de forma adequada, cada um de seus aspectos.
Em sua carta encíclica sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo (1986), João Paulo II, referindo-se a São João, recorda que o amor caracteriza o ser de Deus na sua essência e nas suas relações extra-trinitárias (16). Já tivemos ocasião de notar como o A d Gentes revela que todas as manifestações divinas têm sua origem no amor fontal do Pai. O Espírito é a expressão pessoal deste ser amor de Deus, que no dom do próprio Filho exprime a essência mais profunda de Si (17). Concluindo sua missão, o Filho enviou o Espírito, que derramou em nossos corações o amor de Deus (cf. Rm 5,5).
Nele e por meio Dele, este amor envolve definitivamente todas as nações e se manifesta como pura expressão de gratuidade, porque quando éramos ainda pecadores, e, portanto, desprovidos de qualquer merecimento pessoal, ’’Cristo morreu por nós" (Rm 5,8). Citando Isaac de Stella, a Redemptoris Missio reconhece no amor o "moyen,te da missão", sendo também o "único critério pelo qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, mudado ou mantido. É o princípio que deve dirigir cada ação e o fim para o qual deve tender" (RM 60).
Se o amor é uma categoria essencial para a compreensão de Deus e de toda a história da salvação, não poderia ser diferente a compreensão do Allamano em relação à participação dos seus na missão trinitária. O Fundador não se cansa de inculcar o zelo apostólico, mas ao mesmo tempo sabe que este, por sua vez, é fruto do amor. Em seus ensinamentos, o amor aparece como tema central. Em relação ao Espírito, condição essencial para a missão, Viglino afirma: "Allamano nota com particular persistência a conexão intrínseca entre a presença operativa do Espírito e a caridade, como condição e ao mesmo tempo fruto desta presença" (18). Este amor refere-se em primeiro lugar aos membros da própria comunidade, com os quais somos chamados a viver e a partilhar a missão (19). Referindo-se ao diálogo de Jesus com Pedro, Allamano afirma: "Eis a quem Jesus confia as almas: àquele que o ama de modo tríplice e superlativo!" (20). O amor a Deus, portanto, torna-se condição para tomar parte em sua missão.
É em São Francisco Xavier e São Paulo que o Fundador reconhece os grandes modelos do zelo apostólico. Apresenta o Apóstolo das Gentes como modelo de diversas virtudes, realçando particularmente o seu "entranhado amor por Nosso Senhor Jesus Cristo e o zelo pelas almas" (21). Mostra que o Apóstolo arde de amor pelo seu Senhor - um amor tão intenso que o leva a afirmar que nada o poderá separar de Cristo (22); um amor que o leva a fazer-se tudo para todos (23) e a desejar ser reprovado por amor de seus irmãos (24).
"A caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo o impelia a conduzir todas as pessoas a Jesus; por isso, julgava-se devedor de todos, e tudo suportava com paciência para que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse amado" (25).
Estes elementos já mostram qual a relação existente, no pensamento de Allamano, entre o amor a Deus e o amor ao próximo. O amor a Deus conduz ao amor dos irmãos. O Deus encontrado na intimidade da oração é o Deus missionário que zela por seus filhos. Portanto, estabelecer uma relação com Ele, quer dizer empenhar-se em favor do povo que Ele ama. É impossível amar a Deus, sem amar também os filhos que Ele ama. "O zelo pelas almas brota do amor de Deus. Quando temos um grande amor a Deus, temos igualmente um grande amor pelas almas, que são como que a pupila dos olhos do Senhor. O zelo é efeito do amor" (26).
O Fundador compreende com sagacidade que para participar de maneira adequada da missão trinitária é preciso entrar também no seu dinamismo. O amor que faz com que Deus se comunique, é o motivo fundamental e o movente de toda atividade missionária.

2.1.4. A missão como resposta ao amor de Deus revelado na cruz de Cristo

Diversos fatores contribuíram para que houvesse um certo esvaziamento da espiritualidade da cruz nos últimos decénios (27). Por outro lado, porém, houve bom número de teólogos que se manifestaram preocupados perante tal esquecimento, ou pouca valorização deste mistério (28).
Paulo, por sua vez, vê na morte de Cristo por nós a revelação da lógica que conduz toda a história da salvação: o amor gratuito de Deus (29). À vanglória dos judaizantes (cf. Gl 6,12), o Apóstolo conirapõe a própria, afirmando: "Quanto a inim. Deus me livre de gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo..." (Gl 6,14).
«Desta experiência da salvação, gratuitamente recebida, Paulo descobre o núcleo central de sua existência. A experiência da vida cristã como expressão total da graça provoca-o a dar uma resposta igualmente totalizante. A vida já não lhe pertence, porque pertence a Cristo: "Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (2 Cor 5,15).
Este gesto de Deus, que em seu Filho oferece a vida pelos homens, tornou-se uma fonte inexaurível de espiritualidade cristã (30). Não é diferente, pela proposta de vida que o Allamano faz aos seus missionários. O crucifixo, que ele entrega a todos os que partem para as missões, quer que esteja sempre em suas mentes e em seus corações (31). Ele se dá conta que uma tal expressão do amor de Deus constitui um forte apelo para o homem. E lembra a frase de São João: "De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único"(Jo 3,16); e comenta: "Amor reclama amor ao Eterno Pai e ao Filho" (32). A missão, que se origina do Pai que tanto amou o mundo, exige de todos os que participam dela a mesma atitude de doação total, como expressão do mesmo amor (33).
A consagração na vida sacerdotal, religiosa e missionária é, para Allamano, a expressão de uma doação total de si mesmo ante a experiência de termos sido amados por Deus primeiro. Ele exprime esta doação total utilizando a palavra holocausto, que significa ao mesmo tempo consagração a Deus, ao Instituto e ao apostolado entre os não cristãos. Dirigindo-se aos que estavam para pronunciar sua profissão religiosa, no dia 17 de abril de 1903, disse: "Vós, neste ato, como holocausto, abraçai do fundo do coração todos os sofrimentos e fadigas (...); aceitai generosamente tudo quanto for possível, também a morte mais dolorosa" (34). Em outra^ ocasiões, usa uma terminologia que realça a dimensão sacerdotal da oferta de si mesmo: "Ao chegardes à missão, beijai aquela terra que deverá ser banhada pelos vossos suores, e oferecei-vos como vítimas ao Senhor pelo ’adveniat Regnum tuum’" (35).
Esta doação total de si mesmo o Fundador a vê realizada de modo eminente,em Maria (36).
É na manifestação do amor de Deus que o Allamano quer que os seus missionários encontrem o verdadeiro sentido de sua consagração à missão e dos numerosos sacrifícios que acompanham a vida missionária.
A missão trinitária confiada à igreja, da qual o IMC participa, está inserida no íntimo de um dinamismo interior que parte de Deus e a ele retorna.

2.2. Tudo procede de Deus e tudo converge para ele

Diversas sào as ionte que ajudam o Allamano a compreender a missão a partir do centro de um movimento circular que tem em Deus seu princípio, do qual tudo promana, e seu fim, para o qual tudo converge. Em primeiro lugar, temos os textos paulinos, familiares ao Allamano, seja pela leitura pessoal, seja pela valorização dos mesmos na liturgia.
No dia 18 de maio de 1913, celebrando a festa da Santíssima Trindade, ele encontra a expressão de Paulo: "Quoniam ex ipso, et per ipsum, et in ipso sunt omnia: ipsi gloria in saecula. - Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade!" (Rm 11,36). Para fazer sua reflexão, serve-se do comentário de Santo Agostinho: "Ex quo omnia, per quem omnia, in quo omnia" (37). Allamano encontrava estes elementos também em Santo Tomás, que na Suma Teológica apresenta Deus como princípio (1ª parte) e ao mesmo tempo como fim da criação (2ª parte), e Cristo como Salvador, isto é, como caminho de retorno ao Pai (3ª parte). Um esquema análogo o encontrava também nos Exercícios Inacianos (38).
Este movimento da criação, que parte de Deus e ao mesmo tempo é orientada a ele e somente nele encontra sua plenitude, surge claro e insistente no Fundador: "Tudo é de Deus e tudo em Deus; tudo o que existe pertence a Deus, porque ele é o Criador de tudo; tudo o que temos, temo-lo porque o recebemos de Deus (...). Tudo, portanto, deve retornar a Deus, para sua honra e glória" (39). Este princípio teológico torna-se fundamental na compreensão da missão de seus missionários e na elaboração de sua espiritualidade. Participar da missão de Deus significa colaborar com o plano divino para recapitular tudo em Cristo. Em nível espiritual, há uma posição que se torna fundamental: se tudo vem de Deus, a vida em sua totalidade é, experimentada como dom. Consequentemente, aquilo que o missionário possui, não lhe pertence; portanto, é convidado a dirigi-lo novamente a Deus, como uma espécie de devolução ao seu verdadeiro dono. Se aquilo que temos nos foi dado, também a vida e a missão devem expressar esta mesma gratuidade.

2.3. A missão como cooperação à missão de Deus

É significativo que o Fundador faça referência à expressão paulina: "Adjutores Dei sumus - Somos colaboradores de Deus" (l Cor 3,9), com a qual o Apóstolo exprime a própria vocação no Corpo de Cristo. No mesmo texto (l Cor 3,4-9), o Apóstolo afirma que na Igreja há diversidade de ministérios. Estes, na verdade, pertencem a um mesmo nível de importância. Em nível diverso está Deus, o único que é capaz de tornar eficaz o apostolado: "Eu^plantei, Apoio regou, mas Deus é quem faz crescer" (40). A esta frase do Apóstolo, Allamano fará frequente referência, para dizer aos seus que a missão é obra de Deus (41). A ele pertence e somente ele pode garantir-lhe a eficácia. O apóstolo pode elaborar os seus projetos e ter seus merecimentos, "mas se o Senhor não rega, o terreno permanece ressequido e não brota nada" (42).
Embora Deus seja o agente principal, não é indiferente, contudo, a qualidade da mediação humana. Daqui nasce o insistente apelo de Allamano sobre a necessidade de se adquirir uma santidade superior: "Não basta ter uma santidade medíocre; é preciso possuir grande santidade. O apostolado é uma obra divina. São Paulo dizia: ’Nós somos colaboradores de Deus’" (43).
Este princípio teológico, segundo o qual a missão e a eficácia apostólica pertencem a Deus, leva o Fundador a insistir com os seus, para que a doação ao trabalho apostólico não os faça descuidar da própria vida interior. E declara: "Aqueles que esquecem que são meros instrumentos da graça de Deus na salvação dos infiéis, praticamente atribuem aos próprios esforços e trabalhos um resultado que depende essencialmente da graça de Deus; e isto, de modo geral, não se obtém senão pela oração e união com Deus" (44). Estes elementos mostram que o Fundador, na compreensão da vocação e missão do IMC, não só reconhece o dinamismo fundamental da história no qual tudo procede de Deus e converge para Deus, mas observa também que Deus é o verdadeiro protagonista. Seus missionários são apenas colaboradores na construção do Reino, que não pertence a eles, e cujo dinamismo não está em suas mãos.

2.4. Uma particular compreensão do mistério de Cristo e a missão 4d Gentes

Nas páginas anteriores afirmei que o núcleo central do carisma IMC consiste na experiência de sentir-se chamado a participar na missão da Trindade. Não se pode esquecer, contudo, que a espiritualidade cristã é por sua natureza cristocêntrica, e que toda e qualquer expressão da mesma encontra seu principal ponto de referência em Cristo. O carisma, comunicado pelo Espírito aos fundadores, leva a uma particular configuração com Cristo, sendo conhecido a partir de um dos aspectos do seu mistério (45). Este aspecto torna-se para cada fundador o ponto focal, a partir do qual contempla e adere à totalidade do mistério de Cristo, e, ao mesmo tempo, configura toda a vida dos seus discípulos.
Algumas referências que Allamano faz acerca da história da salvação começam a mostrar-nos sua particular percepção do mistério de Deus (46). Aqui, porém, quero limitar-me aos textos que nos falam mais especificamente de Cristo. Num encontro com os missionários, no dia 7 detlezembro de 1913, Allamano procura motivá-los ao zelo missionário: "Os alunos devem, durante o tempo da formação, e também depois, nas missões, despertar em si mesmos um ardente e prudente zelo pela salvação dos infiéis, pró quibus Ch[rist]us mortuus" (47). Este texto já nos oferece uma pista bem clara acerca de sua prospectiva de leitura: Cristo morreu, sim, para todos, mas particularmente para os infiéis. Allamano evidencia, portanto, a dimensão universal da missão de Cristo. Ele veio para todos, e não se dá repouso enquanto todos os homens não entrarem em comunhão com o Pai.
Outros textos são ainda mais explícitos. Referindo-se à diversidade de dons presentes na comunidade eclesial (cf. l Cor 12,28ss) e às diversas vocações existentes na Igreja, afirma: "A vocação missionária é realmente a melhor, porque é a mesma vocação de Jesus" (48). Dirigindo-se à Irmãs Missionárias da Consolata, repete a mesma ideia: "Nosso Senhor Jesus Cristo foi o primeiro missionário e o modelo dos missionários e das missionárias" (49).
Poderíamos citar diversos outros textos, mas estes são suficientemente claros:
Cristo escolheu para si a vida missionária; Cristo, por isso, é o Missionário. Esta é, portanto, a ótica a partir da qual Allamano contempla o mistério de Cristo e o propõe aos seus para imitação. É, pois, o seguimento de Cristo considerado sob este ângulo que dá unidade à vida dos Missionários da Consolata. É nesta percepção de Cristo que se encaixa a missão Ad Gentes, que é a missão específica dos Missionários da Consolata na Igreja.

2.5. A vida e a missão como Cristo

Como dissemos no parágrafo anterior, para Allamano, Jesus Cristo não é apenas o Missionário, mas o modelo de todos os missionários. Portanto, para participar adequadamente de sua missão, é mister viver num contínuo processo de configuração a ele. Eis aqui um dos principais motivos pelos quais Allamano não se cansa de convidar os seus a se revestirem de Cristo. Se Cristo é o modelo dos missionários, só à medida em que eles adquirirem o espírito de Cristo é que poderão realizar plenamente a própria missão. "Não é suficiente que eu seja cristão, devo ser missionário; e devo ter esta intenção. Não basta querer, é preciso adquirir o espírito. Qui spiritum Chrisii, quem não tem o espírito de Cristo, de apóstolo, o espírito do Redentor, quem não tem o espírito de querer se santificar desta maneira, hic non est ejus, este não é de Cristo. Seremos sombras de missionários, não verdadeiros missi-onários"(50). A missão - que é de Deus - deve, portanto, ser vivida com o espírito de seu Filho, o protótipo de todo missionário.
Partindo da prospectiva da configuração com Cristo - como enviado do Pai -Allamano convida seus filhos a considerarem atentamente alguns elementos particulares. Observa que Cristo viveu de maneira harmoniosa uma intensa atividade apostólica numa intensa intimidade com o Pai (51). Depois, lembra que o próprio Jesus pediu explicitamente que o imitássemos na humildade e mansidão (52). Lembra ainda que esta foi uma virtude constante na vida de Cristo e quer que se torne uma atitude característica da vida e atividade de seus missionários (53). Um terceiro elemento, observado carinhosamente pelo Fundador, une-o às numerosas pessoas que, vendo as obras de Jesus, diziam com admiração: "Ele fez todas as coisas com perfeição!" (54). Isto torna-se para os seus missionários um elemento constitutivo do próprio trabalho e, ao mesmo tempo, um princípio de vida espiritual: "Não basta fazer o bem; mas o bem deve ser feito com perfeição, isto é, que todas as coisas que fazemos, mesmo boas, sejam feitas com perfeição, com reta intenção e com todas as circunstâncias desejadas por Deus" (55).

2.6. A missão com e por Cristo

A exortação apostólica Redemptoris Missio, depois de afirmar que a comunhão com Cristo é uma nota essencial da espiritualidade missionária, e que a missão só se toma compreensível e possível se referida a Ele, enviado a evangelizar, conclui o parágrafo pondo em evidência a sua presença: "Exatamente porque ’enviado’, o missionário experimenta a presença reconfortante de Cristo que o acompanha em todos os momentos de sua vida: ’Não temas.,., porque eu estou contigo’ (At 18,9-10), e o espera no coração da cada homem" (RMi, 88).
Para Allamano, é impossível pensar em missão sem tazer de Jesus Cristo o contínuo ponto de referência. Recorda aos seus missionários que são participantes da missão de Cristo, portadores da promessa do Senhor ressuscitado, como a seu tempo o foram os Apóstolos: "Eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (56). Não só lhes recorda que Nosso Senhor promete aos missionários uma particular presença e assistência em todas as circunstâncias, mas quer também que colham proveito daquela promessa de Jesus: "Este pensamento deve ser a vossa consolação: o Senhor parte convosco e permanecerá sempre convosco, não de modo geral, mas todo especial. Se vós não o abandonardes, o Senhor nunca vos abando nará" (57). A missão - que é de Deus - e que foi realizada plenamente em Cristo, deve ser vivida com Ele.
Allamano se esforça por fazer com que esta real presença do Senhor na vida dos seus não seja apenas um princípio teológico que, embora muito conhecido, não influencie o codidiano da vida. Em outros termos, o Fundador não quer que os seus, embora portadores da consoladora promessa do Senhor (de permanecer com eles em todos os momentos até à consumação dos séculos), vivam o dia-a-dia de sua experiência missionária na solidão e aridez espiritual. Quer, pelo contrário, que esta presença do Senhor se torne também experiência existencial: o missionário é chamado a viver com o Senhor esta missão, que é Dele (58).
Os tempos consagrados explicitamente à oração constituem um elemento essencial da espiritualidade cristã e não pode ser diferente na espiritualidade dos Missionários da Consolata (59). São também momentos privilegiados para saborear a presença de Cristo. Mas, insistindo continuamente nesta presença do Senhor, Allamano quer que se evite o perigo sempre presente, sobretudo na espiritualidade apostólica, de dissociar oração e vida, para que o missionário se sinta constantemente na presença do Senhor, e não somente durante os momentos específicos de oração. O Fundador, na espiritualidade que comunica, quer que a vida dos seus missionários seja integralmente vivida e iluminada pela presença do Senhor. Não quer que se separe o tempo consagrado a Deus e o tempo dedicado aos irmãos. É claro, há uma maneira diversa de consagrar a Deus toda a vida e prestar a ele um único culto - e tal diversidade é importante que seja respeitada - mas não dissociada. Na espiritualidade apostólica comunicada por Allamano, há íntima relação entre liturgia e vida: o zelo pela casa do Senhor e pelos atos litúrgicos está intimamente unido ao zelo pela missão. Comentanto um pensamento de Santo Agostinho, Allamano afirma: "Como é duplo o objeto do nosso amor - Deus e o próximo -assim também há dois tipos de zelo: o amor e ,a glória de Deus e a salvação das almas (60). O sacrifício oferecido liturgicamente alcança seu pleno significado quando a própria vida se torna uma oferta autêntica a Deus. Da mesma forma, a atividade cotidiana só encontra seu pleno significado quando é realizada pela glória de Deus. E porque a glória de Deus é o homem vivente - glória que Allamano expressa sobretudo com a palavra salvação - o cotidiano de nossa vida se transforma em hino de louvor a Deus à medida que se apresenta como um autêntico serviço à humanidade. A missão vivida em Cristo e com Cristo torna-se missão vivida por Cristo: "Devemos agir, imitando Jesus Cristo, sob sua dependência e em união com ele: ’Cum ipso, per ipsum et in ipso’"(61). Se é fácil entender que esta frase tem relação com a Eucaristia, é fácil entender também que, para Allamano, a atividade missionária tem uma dimensão eucarística. Com este espírito, a missão se torna ao mesmo tempo expressão e meio de santidade: expressão, enquanto somente a santidade de vida torna possível uma semelhante liberdade interior e oferta de si; meio, porque, vivida desta maneira, a atividade Constitui um autêntico lugar de santificação. Liturgia e santidade de vida são duas formas, intimamente conexas, de prestar o único culto a Deus.

2.7. A Eucaristia - coração da vida e da missão

Todos sabem que o Vaticano II reconhece a Eucaristia como centro e coração da vida da Igreja. Com uma linguagem prevalentemente alegórica, esta centralidade pode ser encontrada na espiritualidade transmitida por Allamano aos seus missionários. Falando de Jesus no Sacramento da Eucaristia, afirma: "É o sol: tudo gira em torno dele, tudo converge para ele. Portanto, sede devotos de Nosso Senhor no Sacramento (62). Jesus no Sacramento não é, de fato, o centro em torno do qual nos movemos continuamente (...), centro de onde partem todas as graças para a casa e para o Instituto? É a ele que devemos dirigir todos os nossos pensamentos e afetos" (63).
Sem dúvida, é no contexto da centralidade da pessoa de Cristo, na espiritualidade que comunica ao IMC, da qual nem todos os aspectos foram tomados em consideração nesta reflexão, que deve ser entendida a centralidade da Eucaristia: é o Senhor que envia a realizar uma missão, que é sua, e da qual torna participantes aqueles que ele quer; esta missão consiste em levar a todos a salvação que ele oferece gratuitamente e da qual a Eucaristia é memorial perene; a vida cristã consiste em estar em Cristo, em estar revestido de Cristo, e no consequente empenho de revestir-se de Cristo; é na Eucaristia que o enviado encontra o alimento e, na experiência de estar à sua presença, prova o amor e a consolação que Dele promanam; a presença de Cristo entre os seus enviados se atualiza particularmente na Eucaristia.
Acerca da centralidade da Eucaristia, há uma página particularmente bela e, talvez, não há exagero em dizer que constitui uma espécie de síntese da dimensão eucarística e cristológica da espiritualidade consolatina. São palavras que o Fundador proferiu a 13 de junho de 1915, falando às Missionárias da Consolata: "A nossa, deveria ser uma vida eucarística; nossa mente e nosso coração deveriam estar continuamente ocupados com o Santíssimo Sacramento (...) durante o dia, durante o estudo e no trabalho... O Santíssimo não é, por acaso, o centro para o qual convergimos como raios? É Jesus que do tabernáculo governa esta casa, como também todas as estações das nossas missões. Os modernistas erram quando dizem que os tempos modernos exigem obras exteriores e não tantas orações, vida ativa e não contemplativa. (...) Vós, meu caros, firmai-vos na presença contínua de Jesus Sacramentado em vós e nos santos tabernáculos. Na missão, quanta força e consolação podereis haurir do tabernáculo, nas vossas dificuldades e sofrimentos!’" (64)

3. Dimensão eclesial do carisma IMC

Limito-me aqui a considerar dois aspectos do carisma IMC, que podem ser compreendidos na dimensão eclesial: a vida religiosa e a devoção à Consolata.

3.1. A vida religiosa

Na vida dos fundadores, a inspiração inicial de uma fundação apresenta-se, normalmente, em forma de ideal, sem as características próprias de um projeto detalhadamente elaborado. Se o fundador tem consciência clara de uma missão a realizar na Igreja, como resposta a um apelo de Deus, no começo, entretanto, geralmente não é clara a fisionomia concreta que tal fundação terá (65). Isto não representa algo de específico na vida dos fundadores, mas faz parte de cada experiência espiritual (66). Considerando mais especificamente a experiência dos fundadores, podemos dizer que é durante o processo de concretização da intuição fundamental que eles compreenderam as dimensões reais do projeto de Deus (67). O fundador, ordinariamente, vive um longo processo de interpretação do carisma recebido e, consequentemente, de compreensão da fisionomia específica a ser dada à nova instituição. Deste processo de discernimento fazem parte a oração, a reflexão, o diálogo e o conselho de outras pessoas, particularmente o confronto com as realidades vividas pelos primeiros membros do instituto. Devido a este dinamismo, não é , raro que o próprio fundador passe por um longq período de leitura e também de releitura do carisma recebido, sempre em referência à inspiração originária. Em certos casos, esta evolução pode ser determinante na formação da fisionomia do novo instituto com a inclusão, por exemplo, da passagem dos votos simples aos votos solenes, ou da assunção da vida religiosa, talvez antes explicitamente excluída pelo próprio fundador (68).
É fácil verificar como estes elementos da teologia do carisma do fundador sejam atinentes à experiência do Allamano, em relação à gradual compreensão e assunção da vida religiosa para o IMC.
Para compreender bem a sua experiência, é preciso ter em conta diversos elementos. A primeira intenção do Allamano, que prevaleceu desde a fundação e nos nove anos sucessivos, foi de fundar um instituto não religioso (69). Um dos motivos importantes desta escolha foi o desejo de favorecer a realização da vocação missionária também nos sacerdotes que não se sentiam chamados à vida religiosa (70).
Por outro lado, porém, é preciso notar: se o Instituto, em nível jurídico, faz um longo percurso até tornar-se definitivamente um instituto religioso em 1923 (71), em nível espiritual o Fundador sempre tratou os seus como religiosos (72). Neste sentido, é interessante quanto o Allamano afirma a 26 de janeiro de 1902, referindo-se a um artigo de jornal que falava dos Missionários da Consolata, chamando-os de frades: "Nós também, todavia, além do juramento das Missões, fazemos três promessas: de castidade, de pobreza e de obediência; no começo, por cinco anos, e depois por toda a vida. Portanto, se não somos frades, somos religiosos e constituímos uma congregação religiosa, destinada a trabalhar como os frades na vinha da Igreja" (73).
A decisão de adotar a vida religiosa para o MC é fruto de um longo processo de discernimento, durante o qual o Fundador procurou perscrutar os sinais de Deus (74). A atenta observação da vida e da experiência dos primeiros missionários; uma cuidadosa reflexão sobre as vantagens e desvantagens para o Instituto de adotar a vida religiosa; a sintonia que percebia entre o ideal de santidade que desejava para os seus e a vida religiosa considerada como estado de perfeição por excelência; acomparação com a experiência de outros missionários pertencentes ou não a congregações religiosas; a nova configuração dos novos membros do Instituto; o diálogo com a Congregação para a Evangelização dos Povos são fatores que foram convencendo gradualmente o Allamano sobre a sintonia entre o ideal que ele prospectava para este Instituto e o estado de vida religioso (75).
Neste discernimento, Allamano deixa-se guiar por aquele critério que foi fundamental em todas as suas decisões: procurar acima de tudo a vontade de Deus. Referindo-se concretamente à vida religiosa para o Instituto, dirá: "Podemos dizer, todavia, que escolhemos um modo no qual se serve melhor a Deus"(76).

3.2. A Consolata: nossa Mãe e inspiradora da missão

Allamano vive um momento histórico no qual a devoção mariana estava crescendo consideravelmente. Ele mesmo deu um contributo significativo ao incremento da devoção mariana na cidade de Turim.

3.2.1. Algumas considerações prévias

Para suas reflexões marianas o Fundador serve-se também de obras que pertencem a um momento histórico no qual os autores se esforçam para mostrar as semelhanças existentes entre o Espírito Santo e Maria (77). Por outro lado, como o próprio Allamano reconhece, nos seus tempos, não era suficientemente reconhecido ao Espírito o papel que lhe é próprio: "Aos nossos tempos, inclusive entre os cristãos, muita gente não sabe que exista o Espírito Santo, ou então não se interessam dele" (78). Hoje, o desenvolvimento da teologia trinitária, da pneumatologia e da mariologia nos permite lançar um olhar mais amplo, sobretudo nos permite considerar Maria no plano da história da salvação e, portanto, no seu relacionamento com a Trindade e a Igreja (79). Sentimos, por isso, a necessidade de expressões mais amplas e seguramente também mais atinentes ao mistério da salvação das que dispunha o Allamano no seu tempo. Se então era clássica a expressão: "AdJesumper Mariarrí\ hoje, sob o influxo da teologia bíblico-trinitária, somos mais propensos a dizer: Ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo (80). Esta expressão é, com certeza, mais atinente à Sagrada Escritura e espelha melhor a posição mesma de Maria, plenamente voltada para Deus, dócil ao Espírito e sempre pronta a colaborar com o plano divino de salvação (81).
Estes elementos nos mostram que uma leitura dinâmica do carisma exige um esforço para passar além das formulações teológicas do tempo do Fundador - das quais ele também se serviu - para chegar aos elementos essenciais da vida cristã, e, nesta prospectiva, procurar compreender também sua relação com Maria e a presença da Consolata no carisma do IMC. Reconhecer ao Espírito Santo o papel que lhe é próprio não significa menosprezar o de Maria, tanto na vida da Igreja enquanto tal, como no carisma do Instituto. Pelo contrário, significa reconhecer a Maria o lugar e o verdadeiro papel que lhe foi confiado no plano de Deus.
Há uma nítida diferença entre o papel de Maria e o do Espírito, dado que este age em primeira pessoa com a santificação das almas e ,a efusão de seus dons, ao passo que Maria exercita sua ação mediante seu exemplo e sua intercessão (82).
Creio que podemos colher a riqueza do ensinamento do Allamano a respeito da presença da Consolata na vida e na espiritualidade do IMC sobretudo em duas prospectivas.

3.2.2. A Consolata: Mãe que intercede pelos seus

Comentando sua inesperada cura de 29 de janeiro de 1900, Allamano mostra a clara convicção de que foi curado pela intercessão da Consolata (83). Da mesma forma, perante os passos de consolidação do Instituto, torna-se quase impossível ao fundador não reconhecer uma especial intercessão de Maria. Por ocasião da elevação do Quénia ao grau demissão independente (1905), Allamano manifesta os seus sentimentos e explicita a leitura que faz dos acontecimentos, escrevendo: "Com o coração repleto da mais viva alegria vos envio hoje a mais consoladora notícia (...). resultado felicíssimo e verdadeiramente inesperado, uma vez que todas as nossas perguntas foram completamente acolhidas pela Sagrada Propaganda (...). Como não reconhecer nisto uma especialíssima proteção da Consolata (...)?" (84). É análoga a experiência que faz por ocasião da elevação do Quénia ao grau de Vicariato Apostólico: "Com o coração repleto da mais viva alegria venho anunciar-vos a graça insigne que a S[anti]s[si]ma Consolata nos alcançou do Senhor para o bem das nossas Missões e do nosso Instituto"(85).
Este é um primeiro elemento significativo do ensinamento de Allamano, que apresenta sua plena sintonia com a rica tradição eclesial: Maria é Mãe e, como tal, zela atentamente por todos os seus filhos. Por isso, dirige-se a ela com uma linguagem que exprime ao mesmo tempo intimidade, respeito e confiança: fala dela chamando-a "nossa querida Mãe do céu" (86). A confiança, a ternura e o afeto, próprios do relacionamento materno e filial, são elementos que caracterizam a devoção a Maria, assumida como nossa Mãe (87).

3.2.3. Modelo de vida cristã

Em sintonia com a tradição cristã, que nos apresenta Maria como modelo da Igreja e como mestra de vida espiritual (88), Allamano a propõe como modelo de santidade: "Nossa Senhora atingiu a plenitude da perfeição (...). Comecemos também nós uma vida de perfeição. Maria Santíssima nunca parou na senda da perfeição" (89). Tendo Maria percorrido seu caminho de santidade através do cotidiano da vida, vjda caracterizada pela fidelidade à sua missão de Mãe e Esposa, e por sua íntima união com Deus, tornou-se um modelo de santidade acessível a todos (90). Falando mais concretamen-te, o Fundador vê nela a plena realização da santidade que é vivida no fiel desempenho dos deveres da vida de todos os dias, santidade que ele exige de seus missionários. Em sintonia com o recente ensinamento do Magistério, Allamano apresenta Maria também como modelo de vida consagrada, enquanto ela fez a Deus a oferta de si mesma, sem nenhuma reserva, e com todas as suas forças (91).
Esta plena oferenda de si mesmo a Deus torna-se possível mediante uma igualmente plena liberdade de espírito. Aos postulantes, Allamano propõe Maria no mistério da purificação, como modelo da purificação da mente e dos afetos, necessária para obter aquela liberdade interior que permite à pessoa oferecer a própria vida a Deus, reconhecendo-o como Senhor absoluto da própria existência (92).
Para Allamano, Maria é também modete de fortaleza e expressão daquela energia e firmeza que desejava ver em seus missionários. Ele a vê como Mulher forte, capaz de enfrentar o sofrimento e a dor sem deixar-se abater. Maria não abandona seu Filho, mas caminha com ele até à cruz (93). "Nossa Senhora, em suas dores, é para nós modelo de fortaleza cristã e nos ensina a suportar as misérias físicas e morais. Aprendamos dela, portanto (...), e lembremo-nos disto: para sermos autênticos mártires, é preciso que o sejamos também nas pequenas coisas" (94). À sua particular sensibilidade feminina, Maria une a coragem e a firmeza na defesa de seus filhos (95).
A meu ver, a presença da Consolata na espiritualidade do IMC situa-se numa prospectiva mais ampla, que é a missão trinitária. Ela participa do desejo de seu Filho - que quer a salvação de todos os homens (96). Por isso, Maria quis dar o seu nome - Consolata - ao Instituto, chamado a cooperar na missão recebida de Deus, que é fazer com que todos os seres humanos participem de seu mistério de salvação (97).

4. Elementos de conclusão

Este artigo é uma tentativa de síntese do material desenvolvido na tese. Dada a brevidade do texto, diversos elementos - que têm particular importância no carisma transmitido por Allamano aos Missionários da Consolata - foram apenas citados, ou nem mesmo mencionados. É o caso, por exemplo, da vocação, como gesto de predileção divina, da santidade de vida, do espírito de família, do relacionamento do Instituto dos Missionários da Consolata com o Instituto das Missionárias da Consolata, da relação entre missão e consolação.

BIBLIOGRAFIA

1 Cf. G. GHIRLANDA. Carisma di un istituto e sua tutela, in Vita Consacrafa, (1992) 465.
2 Cf. M. RUIZ JURADO, fila consacrata e carismi dei fondalori, in Vaticano II. Bilancio e prospettive venticinque anni dopo (1962-1987) II, Assisi 1988, .1078.
3 Para maiores informações, veja-se J. SCHUTTE, Iproblemiposti dália missione ai Concilio.in II destino delle missioni.RTesciu 1969. 9-23.
4 Cf. J. MASSON, L ’atlività missionaria delia Chiesa, formo 1967, 196; A. WOLANIN, Linee attuali delia Theologia missionis. In Segui ré Cristo nella missione.Manuale di MissiologiaMi\ano 1996. 38.
5 CS 1.83.
6 CS III. 469. Outras \c/cs exprime a dimensão eclesial servindo-se da figura do Papa: "Falo-vos cm nome do Papa, e por ele vos confio a missão do Quénia, na África equatorial. Sim, em nome do Papa, que se dignou confiar aquela região aos Missionários da Consolata, para que a cultivem e, por seu trabalho, sejam aqueles povos agregados à Santa Igreja Católica" (CS I, 128).
7 Os textos a que se refere são respectivamente: Lc 22,28 (cf. C.SS!, 367; II, 80; III, 377); Jo 14,2.18 (cf. CS I, 551; III, 100; CSS I, 371; 11,265).
8 CS III, 684.
9 Cf. Jo 16,13: "docebit vos omnem veritatem" (CS I, 551). Esta é a prospectiva própria de São João que apresenta o Espírito como aquele que suscita a fé profunda, aquele que conduz à verdade total em Jesus (cf. Jo 14,25-26).
10 Cf. I. de Ia POTER1E, L’Esprit Saint et l’Église dans lê Nouveau Testament, in Credo in Spiritum Sanctum. Atti dei Congresso Teológico Internazionale di Pneumatologia, II, Roma 1982. 798.
11 Allamano refere-se à fuga dos discípulos e à negação de Pedro (cf. Mt 26,69-75; CS III, 684).
12 É uma alusão a At 5,29.40-41 (cf. CS I, 283; II, 67; III, 684). Allamano põe aqui em evidência a prospectiva dos Atos, que apresenta o Espírito como a força da Igreja, mais que como princípio
da santificação dos cristãos (cf. I. de Ia POTERIE, L ’Esprit Saint et l ’Église dans lê Nouveau Testament, 797).
13 CS II, 105,722.
14 Cf. CS II, 600,603. Para conferir com o Magistério pós-conciliar, veja-se, por exemplo: EN 75; Rmi 23.
15CSSm,253.
16 Cf. Dominum et Vivificantem,W. O texto citado pelo Papa c: l Jo 4,8.16.
17 Cf. Dominum et Vivificantem, 10-12.23.
18 U. VIOLINO, Lo Spirito Santo, in Tesoríede delia Consolata, (1983) 233.
19 Estes elementos abrem uma janela em direção à dimensão comunitária, que é parte fundamental do carisma transmitido por Allamano ao Instituto. Ela se relaciona internamente com os confrades; e tem uma ralação também com as Missionárias da Consolata.
20 CS I, 129. Só um coração que ama é capaz de gestos heróicos (cf. CSS I, 60).
21 CS III, 115.
22 É uma referência a Rm 8,35.
23 CS II. 330. Trata-se de uma referência a l Cor 9,22: "Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos: tlz-me tudo para todos, para salvar a qualquer preço alguns." Veja-se também: CSS I, 60; II. 105, 294.
24 CS I. 481. É uma referência a Rm 9,3: "Quisera ser eu mesmo reprovado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos." Veja-se também: CS II. 619: CSS I. 390. 392: II. 105. 107. f
25 CS II. 403.
26 CSS III, 476.
27 Cf. B.M.AHERN, Croce, in NDS, Milano 1989, 373s.
28 A título de exemplo citamos alguns: J. MOLTMANN afirma que a teologia da cruz é o fio condutor
do seu pensamento teológico (cf. // Dio crociflsso, Biblioteca di Teologia Contemporânea, 17. Brascia 1973, 7); para K. RAHNER o mistério da cruz é a manifestação iminente da vida imanente de Deus (cf. Morte di Gesú e defmitività delia rivelazione cristana, in La sapienza delia croce, Torino 1976, 150-58); E. DELANEY reconhece em Jesus crucificado o critério de toda a teologia e o lugar por excelência da revelação e, consequentemente, da compreensão de Deus (Teologia da cruz "na " e "para " a realidade da América Latina, in A cruz, teologia e espiritualidade, São Paulo 1983,119s).
29CT.GI 1,13-17; l Cor 15,8-10; Fl 3,7-14; l Tm l, 12-17. Para uma breve apresentação destes elementos, veja-se: B. MAGGIONI, Esperienza spirituale nella Bibbia, 582.
30 Cf. 1GNAZIODIANTIOCHIA Letteraairomani6,inIPadriApostolici,Rom& 1966,124; Martírio di Policarpo 17, in í Padri Apostolici, Roma, 1966, 168; A. SOLIGNAC, Martyre, III, permanence du martyre dans l’Église, in DS, X, Paris 1980, 726-732; M. OLPHE-GALLIARD, Croix (Mystère de Ia), in DS.II, Paris 1953, 2622.
31 Cf. CS I, 342.
32 CSS II, 452.
33 A doação de si mesmo que a missão exige é uma atitude própria de quem ama. (DM 7).
34 CS I, 50s.
35 CS 1,424.
36 Cf. CS 1,239,496.
37 Cf. CS I, 559. Esta frase encontrava-se na terceira antífona das Laudes da desta da Santíssima Trindade.
38 Cf. R. GARCIA MATEO, Fuentes filosóflco-teológicas de los ejercicios sogún el curriculum académico de su autor, in Lasfuentes de los ejercicios espirituales de Santo Ignacio, Bilhão 1998, 505.
39 CSS 1,19.
40 l Cor 3,6 (cf. CSS 1,414).
41 Cf. CSS II, 335, 450; III, 189; CS II, 607. Perante as dificuldades que os primeiros missionários encontram, o Fundador lembra que ninguém poderá prejudicar a missão, porque ela pertence a Deus (cf. Lettera deli ’Al/amano a L. Rosso, 2 giugno 1919, in Lettere, VIU, 400).
42 CS 1,414.
43 CSS II, 484.
44 CS l, 265.
45 Esta tòrma de aproximação ao mistério de Cristo, não é, na realidade, uma prerrogativa dos fundado res, mas algo de inerente à própria experiência cristã. Veja-se, por exemplo, a experiência de Santa Teresinha do Menino Jesus, uma contemporânea do Allamano. que diz contemplar todo o mistéiio de Deus a partir da sua misericórdia (cf. Manoscritto A 83 Vo). Para uma apresentação sistemática, veja-se S. DE PIORES, Gesit Cristo, in NDS, Milano 1989, 696; C.A. BERNARD. Teologia spirituale, Frascati 1993,690s.
46 Veja-se a este respeito o comentário que faz ao salmo 116 (cf. CS III, 19 Is), à parábola dos operários da vinha (Mt 20,1-16; cf. CS 1,9), ao lugar que atribui a Paulo entre os apóstolos (CS 1,574; CSS U, 103; CS 111, 672), e ao modo de agir de Nossa Senhora (cf. CSS II, 595).
47 CS I, 625; cf. CSS 1,27.
48 CS II, 349.
49 CS III, 520.
50 CS III, 16.
51 Cf. CS 1,265.
52 Allamano faz menção a Mt 11,29. Valendo-se desta passagem, pede frequentemente aos seus que se configurem a Cristo (veja-se, por exemplo, CS I, 216, 249, 276; CSS I, 69, 158, 385; II, 461, 609).
53 Cf. CS 1,266; II, 143.
54 Mc 7,37. Allamano retoma mais vezes este versículo. Veja-se, por exemplo: CS II, 671,689; CSS l, 69,158,385.
55 CS II, 669. Na tese, estes elementos são estudados mais amplamente em relação à atitude de Cristo, que viveu a missão recebida do Pai em plena sintonia com sua vontade, e se faz um aceno à dimensão eucarística de realizar o bem com perfeição.
56 Mt 28,20. O Fundador cita o texto latino. Este é um versículo muito querido ao Allamano (cf. CS I, 83,472,597; III, 142, 210,469, 470, 597; CSS I, 13; II, 123, 260, 375; III, 345).
57 CS III, 470. O cursivo é nosso. 58. Cf. CS III, 141.
59 Cf. Constituições 1923, 55. .60 PS I, 474
61 CS 111,221. O cursivo e nosso.
62 CS I, 191.
63 CS II, 604.
64 CSS I, 137.
65 Ugo Rahner assim comenta a experiência de Santo Inácio em relação a fundação da Companhia de Jesus: "À força luminosa, inesquecível, da graça de Cardoner une-se a obscuridade da ignorância acerca da forma concreta da execução, que o leva a caminhar ao encontro da meta durante quinze anos, com passos curtos, lentos, incertos" (La mística dei servizio,M\\wo 1959, 125-126).
66 Cf. K. RAHNER, Visioni e profezie. Milano 1995. 78-98.
67 J. M. LOZANO, El fundador y su família religiosa: ínspiración y carismaM’àdrid 1978, 59s.
68 Cf. CIARDI, F., Ifondatori uomini dello Spirito. Per una teologia dei carisma di fondatoreRoma 1982.116.
69 "É instituída em Turim, sob o patrocínio da Santíssima Virgem Consolata, uma Pia Sociedade de Missionários para a evangelização dos infiéis na África Equatorial" (fiegolamento 1891, 1). Veja-se a apre sentação do tema in I. TUBALDO, Giweppe Allamano, il suo temgp, Ia sua v/to, Ia sua opera, III, Torino, 1984,462ss. O próprio Allamano faz uma apresentação da natureza do Instituto (cf I ,ettera di G. Allamano adon Pierrô Airaldi, 14 gennaio 1906, mLittere, IV, 482s).
70 Cf. Lettera di G. Allamano ai padre Calcedonio Mancini, 6 aprile 1891, mLettere, l, 297.
71 Com as Constituições de 1909, o Instituto é juridicamente transformado em congragação religiosa, mas permanecem ainda dois problemas: um, em relação à fórmula da profissão, na qual não se usa a palavra "voto" e sim "juramento"; outro, em relação ao voto de pobreza. Veja-se respectivamente: Regolamento 1909, l e 20; e ainda: Lettere, V, 413 n. 6.
72 Concordo com Tubaldo, que afirma: quem não estivesse ao par da evolução pela qual passou o Instituto do ponto de vistajurídico. não o teria nunca intuído só pela leitura dos textos dos seus ensinamentos (cf. I. TUBALDO, Giuseppe Allamano, III. 481 s).
73 CS I, 9. Veja-se também: CS I, 42, 114s, 117. O cursivo é nosso.
74 Cf. CS I, 312. São as mesmas palavras de Allamano que indicam este processo de discernimento: "Vede, há muito se pensava e se estudava como seria melhor fazer" (CS III, 339).
75 Cf. CS III, 336. O próprio Fundador explica os motivos da escolha (cf. CS III, 339ss); Carta do
Cardeal G. M. Gotti ao Allamano. 13 de julho de 1907, mLettere, IV, 715; veja-se também a apresentação dos motivos feita por L. Sales (cf. I. TUBALDO, Giuseppe Allamano, III, 466).
76 CS III, 342.
77 Este é, por exemplo, o caso das obras de Louis-Marie Grignon de Montfort (cf. A. AMATO,Spirito Santo, in Nuovo Dizionario di Mariologia, Milano 1986, 1336). Por este motivo, encontram-se frequente mente expressões nas quais se nota que Maria exerça, em parte, o papel do Espírito Santo.
78 CS l, 400. Alguns anos antes, o Papa Leão XIII referia-se ao Espírito Santo com a expressão:graHúfe desconhecido, ou Qeus esquecido (Divinum illud Múnus, in ASS 29 [1896-1897], 6(45).
79 Com certeza, nos sentiríamos mais à vontade se as expressões que orientam todas as ações a ela - "com, em, por, de Maria" (cf. CS II, 594) - fossem substituídas por expressões mais trinitárias. Maria é por excelência uma pessoa voltada para Deus.
80 Cf. H. MUHLEN. Una mystica persona. La Chiesa come il mistero dello Spirito in Cristo e nei cristiani: una persona in molte persone. Roma, 1968, 575. Há quem proponha uma formulação na qual se inclui Maria: "Ao Pai por Cristo no Espírito com e como Maria" (A. AMATO, Lo Spirito Santo e Maria nella ricerca teológica odierna delle varie confessioni cristiane in occidente, in Maria e Io Spirito Santo. Atti dei 4° simpósio mariologico internazionale. Roma-Bologna 1984, 11).
81 Bastaria lembrar aqui duas frases do Evangelho de Lucas: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a lua palavra" (1,38); no Magnificai, Maria reconhece que todas as gerações hão de chamá-la de bendita, mas logo dirige a Deus o merecimento: "Grandes coisas fez em mim o Todo-poderoso" (1.49). Tudo procede de Deus. e a ele Maria oferece sua vida.
82 AMATO, Lo Spirito Santo, in NDM. Milano 1986. 1336.
83 Vejam-se os testemunhos em I. TUBALDO. Giuseppe Allamano. II, 465.
84 Carta de José Allamano aos Missionários do Quénia, 25 de setembro de 1905, mLettere, IV, 455.
85 Carta de José Allamano aos Missionários do Quénia, 31 de agosto de 1909, mLettere, V, 259.
86 CS II, 812. Particularmente significativo é o modo com que Allamano pede aos seus que se preparem e vivam a festa da Consolata (cf. CS I, 568).
87 Veja-se neste sentido a proximidade existente entre o ensinamento do Allamano e o texto conciliar: "A Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, com afeto e piedade filial venera Maria como mãe amadíssima" (LG 53).
88 Veja-se, por exemplo: LG 56; 63-65; MC 21; Rma 42.
89 CSS II, 335.
90 Cf. CS II, 416; III, 491.
91 Cf. CS II, 792s. A Exortação Apostólica Vita Consecrata ao n. 28 afirma: "Maria é, de fato, exemplo sublime de perfeita consagração, na plena pertença e total doação a Deus".
92 Cf. CS III, 527; II, 648.
93 Cf. CS III, 410.
94 CSS II, 254s.
95 Cf. CSS 1,347; II, 221, 594; III, 159; CSS II, 555. Para uma interessante relação entre esta sensibili dade de Maria e a perspicácia do Fundador em ler a situação eclesial do seu tempo, veja-se: G. PASQUALETTI, La Consolata e Iapersonalità spirituale deH’Allamano, in Tesoriere delia Consolata, 2 (1994)9.
96 "Ela só deseja a salvação de todos os homens" (CSS II, 594).
97 Cf. CSS I, 348.

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade