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"O Instituto toma a decisão de partilhar com os leigos a sua Missão..." (X Capítulo Geral, 61)
Introdução
Se perguntássemos a um Missionário da Consolata, quem são - segundo ele - os Leigos Missionários IMC, creio que a resposta mais comum seria esta: são pessoas que possuem uma base profissional adequada, colaboram, durante um determinado período de tempo, em alguns dos numerosos projetos de desenvolvimento e promoção humana que o Instituto realiza nas missões (hospitais, escolas, centros de promoção da mulher, todo o tipo de obras sociais). . No entanto, à luz da reflexão teológica pós-conciliar, de numerosas experiências que estão sendo realizadas na Igreja e nos institutos missionários, e também na nossa realidade IMC - ao menos em algumas Circunscrições do Instituto - tal definição do Laicado Missionário IMC parece muito redutora. Penso que nós, Missionários da Consolata, devemos fazer um ulterior esforço para aprofundar e ampliar nossas ideias sobre o tema dos Leigos Missionários. É necessário, sobretudo, situar o tema num contexto mais amplo, eclesial, em vista de uma melhor compreensão do mesmo, para ter urna visão mais completa do seu alcance para o Instituto, e como responder mais adequadamente às consequências que a partilha do nosso carisma e espiritualidade com os Leigos têm para todos os Missionários. Além disso, este é o caminho sugerido pelo X Capítulo Geral. A partilha dos carismas dos Institutos religiosos e laicais, não é mais, no atual contexto eclesial e teológico, uma realidade que pode ser ignorada. Por outro lado, tal partilha exige do Instituto uma mudança de mentalidade e de prática no exercício da missão. O Secretariado para a Missão, respondendo à tarefa que lhe foi confiada pela Direção Geral de implementar as Propostas operativas relativas aos Leigos Missionários (cf. Atos,X Capítulo Geral,61-62), pretende avançar em união com os Missionários e as Missionárias da Consolata e com os Leigos de nossos grupos e organizações, em vista de uma melhor compreensão do tema, e sugerir modos concretos para que o Instituto possa realizar melhor, nos próximos anos, uma autêntica partilha de seu carisma e da missão, com os Leigos Missionários. O que a seguir propomos são pistas de um trabalho que todos - Missionários IMC e Leigos - poderão realizar, nas comunidades e nos grupos. O trabalho consiste em ler a primeira parte - os primeiros dois documentos -que constitui uma introdução teórica ao tema em questão. Depois, avançar através do diálogo e da reflexão sobre outros documentos, especialmente sobre as duas questões finais. Pedimos que nos enviem o resultado, com comentários, reflexões e sugestões. Pedimos, em particular, aos Animadores Missionários que estão em contato com grupos de leigos, que façam o trabalho em conjunto e nos comuniquem as reflexões, comentários e sugestões dos próprios leigos...
Propomos os seguintes documentos:
- Síntese da intervenção que o Pé. Bruno Secondin O.C. apresentou no Lncon- troda União Superiores Gerais, realizado em Ariccia. em novembro de 1999. - Síntese da intervenção feita no mesmo Encontro de Ariccia pelo Pé. Robert J. Schreiter, C.PP.S. - Relatório de um Encontro do Secretariado com os Leigos Missionários IMC de Málaga (Espanha). - Plano de trabalho que o Secretariado para a Missão pretende desenvolver, para concreti/ar as propostas feitas pelo XCG. - Um subsídio que ajudará a refletir em conjunto - Missionários e Leigos - sobre alguns pontos particulares. Enviem sua colaboração ao Secretariado para a Missão Muito obrigado!
Partilhar os carismas e a espiritualidade Novos caminhos de comunhão e de irradiação apostólica Bruno Secondin, O.C.
Desde as origens do monacato - a começar por Pacômio e Basílio - e, mais tarde, conforme as várias fases e formas de vida consagrada, verificou-se sempre uma fecunda osmose entre as várias experiências de vida cristã. No decurso da história, esta variedade fenomenológica usou uma multiplicidade terminológica: em relação às pessoas foram usadas palavras como oblatas, terceiros, fâmulos, associados, cooperadores, coirmãos; em ralação às experiências foram usadas as palavras uniões, comunhões, famílias, fraternidades,Qic., sinal de uma história rica de santidade e de testemunho. No passado, estas situações - quando os protagonistas eram os religiosos - eram administradas e interpretadas como uma espécie de "associação" espiritual relacionada com os bens de uma família religiosa, ou uma forma de colaboração e de apoio ao apostolado ou às "obras" de um Instituto. Prevalecia, portanto, uma relação de "paternidade" (ou também de paternalismo), exercida pelos religiosos/e titulares para com outras categorias que neles se apoiavam por qualquer razão: espiritual, formativa, apostólica. Hoje, o modelo continua vivo, mas existem também novas modalidades de experiências. Novidade, nos nossos dias, é, sobretudo, a fundamentação teológica e eclesiológica dos fenómenos. A interpretação destas experiências é influenciada pela reflexão teológica sobre a natureza da vida consagrada e sobre a Igreja enquanto comunhão. Isso tem suas consequências práticas, também na gestão concreta das relações recíprocas, inspiradas, mais na teologia, na eclesiologia e na espiritualidade, do que em critérios jurídicos e administrativos. Além disso, tem-se a impressão de que o aparecimento do novo tipo de experiências - em torno de um mosteiro, de um Instituto, de uma missão apostólica - seja a prova concreta da fecundidade eclesial, enquanto sua ausência evidenciaria a esterilidade de um dado grupo de "vida consagrada". É evidente, portanto, que o tema apresenta um desafio: é questionável não somente "o modo de administrar" estes fenómenos, mas também a nossa função eclesial e a autêntica fidelidade criativa ao carisma recebido.
I Atualidade e complexidade do fenómeno
1. Um sinal nesta direção
Na Christifídeles Laici existe uma maravilhosa frase que vale a pena citar: "Na Igreja-Comunhão os estados de vida encontram-se de tal maneira interligados que são ordenados uns para os outros. Comum, direi mesmo único, é, sem dúvida, o seu significado profundo: o de constituir a modalidade segundo a qual se deve viver a igual dignidade cristã e a universal vocação à santidade na perfeição do amor. São modalidades, ao mesmo tempo, diferentes e complementares, de modo que cada uma delas tem uma sua fisionomia original e inconfundível e, simultaneamente, cada uma delas se relaciona com as outras e se põe a seu serviço... Todos os estados de vida, tanto no seu conjunto como cada um deles em relação com os outros, estão a serviço do crescimento da Igreja, são modalidades diferentes que profundamente se unem no "mistério de comunhão" da Igreja e que dinamicamente se coordenam na sua missão única" (CfL 55).
2. As etapas do Sínodo sobre a vida consagrada
No Imtrumentum Labona de junho de 1994, encontram-se muitos apelos à colaboração entre os vários membros da Igreja, em vista a uma comunhão efe-tiva e eficaz para a missão comum. O n. 80 refere-se à "Igreja, enquanto comunhão orgânica na complementaridade dos dons do Espírito" e acentua que isso "conduziu a uma construtiva colaboração, em todos os campos, entre fiéis leigos e fiéis consagrados". Depois de ter sublinhado que os leigos esperam dos religiosos um testemunho convincente de fé e de fidelidade à Igreja, acrescenta: Os leigos "muitas vezes pedem aos religiosos uma ajuda no âmbito da oração e da vida espiritual... Hoje, nota-se da parte dos leigos, enquanto indivíduos ou grupos, o desejo de participar da espiritualidade e da missão própria dos institutos de vida consagrada, numa complementaridade de vocações". O n. 98 acrescenta algo de novo: "Muitas comunidades e institutos desenvolveram, nos últimos tempos, uma rede de associados ou de amigos, sacerdotes e leigos, que partilham sua espiritualidade e missão. É uma realidade em crescimento, mas que procura formas adequadas... Formas que ofereçam a possibilidade de criar lugares de partilha, de fé, de apoio, em uma missão comum, vivida de forma diferente, mas realizada corn o mesmo espírito. É importante não pôr limites às novas experiências e deixar que possam explorar caminhos novos". No Sínodo existem ao menos duas proposições finais que estão diretamente conexas com o nosso tema. O n. 32, intitulado "comunhão entre consagrados e leigos, "deseja que seja melhor conhecido o vínculo entre as diferentes vocações, e lembra que a vida consagrada e a vida dos fiéis leigos se enriquecem mutuamente, dando e recebendo". Mais explícito é o n. 33 sobre "os associados e os voluntários": "Os institutos de vida consagrada saibam discernir cuidadosamente as vocações para o serviço gratuito, associando-as, não somente, nas suas atividades próprias, mas também na própria missão e carisma, respeitando, naturalmente, o caráter secular e espiritual dos leigos".
3. "Vida consagrada" (n. 54-56)
O Papa dedicou três números (54-56) da exortação apostólica Vita Consecrata explicitamente ao tema da "Colaboração e comunhão com os leigos". São enfrentados vários aspectos do argumento, do ponto de vista teórico e prático: . O ponto de partida é uma premissa eclesiológica e cultural: são fruto da Igreja-Comunhão, a imagem mais completa da Igreja, exemplo de colaboração e partilha de dons, resposta mais eficaz aos grandes desafios (VC 54). Isto faz-nos compreender que o quadro interpretativo deve ser amplo, não limitado aos problemas do próprio instituto. É necessário voltar sempre à perspectiva eclesial, em sentido amplo e complexo. . Diversidade de relações: conforme os carismas (contemplativos-ativos), o tipo de colaboração pastoral, a história já vivida. Mas, hoje, abre-se uma fase nova, um "novo capítulo rico de esperanças", escreve o Papa, convencido de que "o carisma pode ser partilhado com os leigos" (VC 54b). É preciso ver a novidade que está surgindo, que é sinal de uma nova "partilha", não programada por nós, mas que é Dom do Espírito". . Existem "novos caminhos de comunhão e de colaboração": desde a irradiação da espiritualidade, à colaboração nos serviços. Tudo isso constitui uma "mais intensa cooperação entre pessoas consagradas e leigos em ordem à missão", de transformar o inundo segundo as bem-aventuranças (VC 55). Esta primeira perspectiva parece indicar somente âmbitos de espiritualidade e de simples colaboração nas obras. Em parte é uma perspectiva tradicional, ainda muito vaca e eficaz. Mas é também apresentado a "novidade" que está sendo experimentada: em relação aos leigos é usada a mesma expressão aplicada pelo Concílio como "proprium" aos religiosos, ou seja, o testemunho das Bem-aventuranças (LG 31). . Afirma-se que "a participação dos leigos, não raras vezes, ocasiona inesperados e fecundos aprofundamentos" na interpretação do carisma, em seu dinamismo apostólico, na sua espiritualidade. Os consagrados oferecem o contributo de sua "consagração", os leigos o da "secularidade" (VC 55b). A afirmação continua ainda genérica, no entanto, é significativa a linguagem que fala de "inesperados e fecundos aprofundamentos de alguns aspectos do carisma... e novo dinamismo apostólico". . Finalmente, são assinalados cinco casos concretos de comparticipação: membros associados, ou seja, a adesão a um instituto por vínculos estáveis e aprovados; partilha temporária de vida, de contemplação e de dedicação apostólica; voluntariado, o qual exige um cuidado especial na formação e esclarecimento da realidade, inclusive, jurídica; colaboração em iniciativas locais (VC 56).
II Algumas perspectivas de interpretação
Talvez a partir das citações feitas - que sintetizam o mais importante sobre o nosso tema - possa deduzir-se que elas não passam das afirmações genéricas do costume, que reconhecem o que existe, mas não ainda.o que pode vir a acontecer. Eu penso diferentemente: acho que os textos não negam um ulterior desenvolvimento dos fenómenos, de valor mais radical; ele é de certa maneira "insinuado", e nós ppde,mos explicitá-lo.
a) Statu nascenti
Em primeiro lugar, vejo delinear-se em muitos destes fenómenos a situação que os sociólogos e os antropólogos chamam "statu nascenti" (cf. F.Alberini), ou seja, aquela fase de pesquisa aberta, fluida, inovadora, desestruturadora e, ao mesmo tempo, reconstrutora do serviço eclesial e da forma institucional que o sustenta, que conduz à redefinição das tarefas e estilos de vida, em vista de uma nova fecundidade do carisma. Todos os institutos religiosos nasceram através de um processo parecido: a partir da intuição quase "mística" do fundador, constituíram-se em "movimento" inicial; depois, com o tempo, voltaram à "estabilidade" e, finalmente, passaram a ser "instituição" compacta, aprovada e definitiva, que depois se tornou intocável, sagrada e, também, afastada da criatividade das origens. As novas experiências parecem voltar, precisamente, à documentação original da fundação, para recuperar, não somente o impulSo criativo das origens, mas também o sentido eclesial de "família aberta" e complexa que existia nas origens e que depois se perdeu. Isto tem um valor teológico: o contato com o "carisma" não acontece por aproximação exterior, mas é como uma nova polinização, ou seja, o aproximar-se de uma fonte incandescente ou de um furacão que te envolve e arrasta. E tudo isso por ação do Espírito, que é criador e fala por meio da profecia.
b) Qual eclesiologia?
Existe um outro aspecto importante: na evolução, na interpretação e na gestão destes fenómenos, é necessário ter presente uma determinada teologia da Igreja e da vida consagrada na Igreja. Esquematizando: . Se a Igreja estiver centralizada nos "clérigos" e nos grupos que têm uma "especial consagração", os leigos acabarão sendo simples ajudantes generosos, mas externos; nesse caso, a preocupação será a de delimitar sua presença e apresentar as diferenças de identidade com disciplina e temor. . Se a Igreja for, em primeiro lugar, povo de Deus a caminho, na história (cf. Lumen Gentium, cap.II), prevalecerá o sentido mais integrado das várias tjpologias eclesiais; poder-se-á falar, também, de "vocações paradigmáticas" para o serviço recíproco. . Se a Igreja se sentir mais ligada à história e ao destino da humanidade, especialmente, dos pobres e dos sem-voz nem dignidade, o protagonismo dos leigos brotará com força e os carismas da vida consagrada serão orientados para uma tensão inovadora que os ligará à "exploração" das origens. . Se, no centro, estiver a história da humanidade destinada a entrar no "Reino", e dentro desta história estiver a tarefa de ser fermento e "sacramento" do povo de Deus, então os sacerdotes e os religiosos estarão ao serviço do povo de Deus, para que este viva o tríplice múnus (profético, régio, sacerdotal) de maneira plena e responsável, libertadora e transformadora, para que o "mundo creia".
c) Para uma nova aliança
Do que dissemos, conclui-se que é urgente a necessidade de construir, entre religiosos e leigos, uma nova aliança, não fundada na prestação de um serviço, mas na participação e na corresponsabilidade, na comunhão e na partilha de dons, numa nova corresponsabilidade eclesial em vista da fecundidade criativa do carisma. Em uma Igreja centrada, primariamente, na "manutenção" de sua estrutura hierárquica, de sua eficiência administrativa e do seu "sistema conceptual" (a ortodoxia), resta pouco espaço para os leigos, e, sobretudo, é-lhes negado o ministério de responsabilidade e de protagonismo. Podemos falar do "laicado" como de um "gigante adormecido" que se procura "domesticar" através de várias formas de controle. No próximo século, um dos grandes desafios será, precisamente, o despertar do protagonismo: os carismas da vida consagrada deverão dar seu contributo profético para este recíproco encontro e para esta procura de caminhos novos. Dou uma sugestão: algo devemos aprender da caminhada dos novos "movimentos eclesiais"; eles comprometem religiosos e leigos, não a partir da administração deobras (como parecem fazer os religiosos em relação aos leigos), mas a partir da comunhão da espiritualidade e dos carismas, dos ideais globais e das perspectivas, sem impor, em primeiro lugar, atividades específicas a serem conduzidas conjuntamente.
d) Fazer as próprias experiências
Neste último item apresento uma novidade: assistimos à tomada de consciência e ao crescimento de um laicado mais amadurecido, organizado e ativo, ao menos da parte de alguns leigos. Tal laicado não aceita mais ser condicionado pelas grandes "agregações" dedicadas à administração; mas procura estilos de vida autenticamente evangélicos a serem realizados na história dos nossos dias. Daqui deriva uma consequência, desenvolvida também pela sã eclesiologia que reconheceu o caráter específico do campo de ação e da identidade própria dos leigos. São cada vez mais numerosos os leigos que não querem mais viver a responsabilidade eclesial e o compromisso da evangelização num nível inferior: sentem-se convidados pelo Espírito a fazer as próprias experiências, sem necessidade do controle do habitual "enfermeiro" eclesiástico. Aplicando ao nosso caso: os grupos de leigos que pretendem associar-se a um instituto ou que manifestam vontade de assumir uma responsabilidade dire-ta, não têm nenhuma intenção de ser religiosos de "segunda" ou "terceira classe", mas procuram a plena participação no carisma, continuando na "vida laical", precisamente em razão de uma nova leitura "carismática" da sua laicidade. Existiu sempre a vontade de colaborar jias obras, nos momentos difíceis e, certamente, isso continua válido. Mas, esse não é o motivo principal do atual fenómeno, ou, ao menos, não é esta a novidade. Hoje, mais do que no passado, os leigos querem, verdadeiramente, abraçar - permanecendo leigos - a espiritualidade, os projetos, a missão do instituto na Igreja. Em resumo: querem viver o carisma em primeira pessoa, partilhando o dom do Espírito com plena corresponsabilidade, conservando, plenamente, seu caráter secular.
III Reelaborando a Teologia
A novidade deriva de um outro motivo: o conceito de Igreja mudou, precisamente a partir do Concílio Vaticano II, quer em relação à missão, quer em relação ao conceito dos protagonistas da missão.
1. A Igreja em missão
A Igreja é, essencialmente, uma Igreja em missão, não tanto enquanto faz obras ou parte para terras de missão; mas, sobretudo, enquanto é um povo de enviados; e os carismas são dons para tornar esta identidade ainda mais eficaz e dinâmica. O batismo não é passaporte para a salvação, é, mais precisamente, um chamado à missão; a verdadeira identidade do cristão -fundamentada no batismo - é ser chamado e enviado, para construir o Reino de Deus no mundo. . Toda a comunidade é protagonista da missão Não é comunidade cristã aquela para a qual a missão é um "suplemento" opcional reservado a alguns fiéis mais generosos. Isto vale também para a vida consagrada, que está L’em missão" em sentido pleno (cfr VC 72). Sem esta fundamental relação com a missão - unida à missão de Cristo enviado pelo Pai e pelo Espírito e que é fonte de toda a tensão salvífíca - prevalece a perspectiva da "manutenção" da situação atual e da "reforma" interesseira e administrativa. . Cristo - o verdadeiro missionário Cristo continua sendo o protagonista - "até o fim dos séculos" - da ati-vidade missionária realizada por seus discípulos "até os confins da terra". É Ele quem torna verdadeira e viva tal "atividade": é Ele o destinatário, o contendo, mas também o sujeito de tudo quanto a comunidade (unida a Ele) realiza. Portanto, teologicamente, a Igreja não tem uma missão, mas participa da missão de Jesus Cristo e do Espírito, transformando este mundo em uma "casa para todos", que seja acolhedora, rica de justiça e de verdade. Evangelizar é viver com os outros, dialogar, e, na convivência, dar tudo o que se é e se tem, inclusive, a Palavra de Deus, integralmente. Numa sociedade marcada por relações frágeis, conflituosas e de tipo consumista, a Igreja deve manifestar modelos de relações fundamentadas no Evangelho, na gratuidade, ou seja, na mútua aceitação, no diálogo e no perdão recíproco. Marginalizar os leigos, ou fazer deles simples auxiliares de projetos elaborados sem serem consultados e sem sua participação, é seguir caminhos errados. Foi quanto reafirmou o Papa na encíclica missionária Redemptoris Missio, quando disse que a missão, além de ser universal, é um compromisso de todos os crentes, em virtude do batismo. "A missão é de todo o Povo de Deus: se é verdade que a fundação de uma nova Igreja requer a Eucaristia, e, por conseguinte, o ministério sacerdotal, todavia, a missão, que comporta as mais variadas formas, é tarefa de todos os fiéis. Aliás, a participação dos leigos na expansão da fé é clara, desde os primeiros tempos do cristianismo, tanto a nível de indivíduos e famílias, como da comunidade inteira"(RMi 71).
2. Um povo de Deus para o Reino
É evidente, portanto - assim espero - que a nova evangelização deveria caracterizar-se pela tarefa de primeiro plano a ser exercida por todo o povo de Deus, e não somente pelo protagonismo das tropas de elite. "Antes de considerar a diversidade dos dons, dos ministérios, é necessário admitir como fundamento a vocação comum à união com Deus para a salvação do mundo"(MR 4). . Instrumento e significado A urgência de que todos os fiéis participem desta responsabilidade, não é somente uma questão de eficácia apostólica, mas é, sobretudo, um dever e, ao mesmo tempo, um direito baseados na dignidade batismal (cf. CfL 14). A Igreja é uma comunidade de discípulos, um povo de profetas, de enviados, que deve fazer germinar o Reino entre os povos, fazendo que se ’’ tornem discípulos"(Mt28,18). Consequentemente, também os agentes especiais (sacerdotes e consagrados), estão ao serviço deste protagonismo mais amplo: para o acompanhar, apoiar, reconhecer. Não para o anular ou temer, mas para o promover e libertar dos obstáculos fabricados pela mentalidade eclesiástica. Como bem lembrou o Vaticano H, a dimensão sacramental da Igreja supõe que seja, ao mesmo tempo, sinal e instrumento do Reino de Deus (LG1). Assim, o estilo "secular" é sinal do Reino de Deus sob o aspecto de instrumentalidade: por isso, é de grande importância a promoção dos valores do Reino, tais como: a paz, o diálogo, a justiça, a liberdade, a fraternidade (RM 17.20). O estilo dos religiosos é sinal do reino de Deus, enquanto acentua o significado, a função "cognoscitiva", a mensagem "significante", isto é, a abertura escatológica, aquela reserva de esperança e de sentido que será revelada quando Cristo "entregar o Reino a Deus Pai"(cfr. ICor 15,24-28). Nenhuma destas perspectivas é exclusiva ou excludente. . Que os leigos cresçam Na história da Igreja, os momentos de grandes mudanças foram marcados por movimentos proféticos e correntes carismáticas. Estes não se tornaram senhores do Reino, mas colocaram-se ao seu serviço, num momento de desorientação e- confusão, de cansaço e resistência anti-evangélica, de tragédias sociais e transformações políticas. Os "carismas" foram instrumentos do Espírito para "indicar" audaciosos caminhos novos e fidelidade ao Evangelho; mas, para vantagem de todos, para despertar todos e estimular em muitos o protagonismo para o anúncio de Cristo Salvador em vista do Reino. Hoje, constatamos que há necessidade de um novo protagonismo profético qije comprometa os leigo, de várias maneiras, yalorizando sua capacidade profética e enquanto testemunhas do Reino dentro "das realidades temporais para orientá-las segundo o projeto de Deus" (LG 31). Os leigos não são somente os colaboradores dos padres e dos religiosos e de suas obras, mas são partners na missão comum, carismaticamente diferentes, mas chamados com todos para a comunhão na diversidade. Podemos dizer que somente uma relação mútua e a complementaridade tornam dignos de credibilidade e eficazes o estilo laical e, também, o estilo dos religiosos e dos padres. Podemos até dizer que seremos dignos de credibilidade se soubermos derrubar os esquemas: é necessário que os leigos cresçam e, portanto, devemos nos colocar a seu serviço, para que eles cresçam. Fazer de sua participação na Igreja um caminho comum e uma experiência ue conversão renovadora para todos. OSimbolismo e apráxis dos religiosos e dos leigos estão intimamente interligados, como sublinhou a Christifideles laici: "Na Igreja-Comunhão os estados de vida encontram-se de tal maneira interligados que são ordenados uns para os outros (...), t«to no seu conjunto como cada um deles em relação com os outros, estão ao serviço do crescimento da Igreja, são modalidades diferentes que profundamente se unem no "mistério de comunhão" da Igreja e que dinamicamente se coordenam na sua única missão"(Cf L 55). 3. Reciprocidade vivida: expressão de uma refundação eclesial Em geral, podemos exemplificar as mútuas relações deste modo: . É necessário afirmar e aceitar a diversidade carismática e promover a comunhão, aceitando as diversidades, apoiando a caminhada particular de cada um, estando dispostos a colaborar nas iniciativas apostólicas mantidas pelos leigos ou pelos religiosos. Não existe direito de preferência de uns sobre os outros: cada qual deve procurar criar estima mútua, também nas "iniciativas apostólicas". Ou melhor, se existir urgência ou um sonho ainda por realizar ou incompleto, a promoção da missão dos leigos corre o risco de ser sufocada pela visibilidade dá instituição. . Isto significa, também, colocar em comum os recursos e as competências, para facilitar a missão universal. O Papa diz na sua encíclica missionária: "Deus abre à Igreja os horizontes de uma humanidade mais preparada para a sementeira evangélica. Sinto chegado o momento de usar todas as forças eclesiais na nova evangelização e na missão Ad Gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição da Igreja pode esquivar-se deste dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos" (RMi 3). . Como todos são operários da única vinha e todos são ’’simultaneamente objeto e sujeito da comunhão da Igreja e da participação na sua missão de salvação"(CfL 55), cada um deve recpnhecer, na tarefa específica do outro, o caminho e o apoio para a construção do Reino, sob a forma instrumental e sob a forma de símbolo dinâmico. Também os leigos são chamados a ser "sinal e instrumento" de salvação e de unidade: somente através deles a Igreja se torna "sinal e instrumento", na história e na realidade concreta. . Uma Igreja verdadeiramente comunhão e protagonista de uma viva missão não pode surgir sem a relação e a colaboração entre os diferentes grupos, ricos de dons carismáticos. Religiosos e leigos devem comprometer-se juntos para fazer nascer uma Igreja que viva mais radicalmente o seguimento de Cristo, que seja modelo de comunhão entre todos os irmãos, que esteja em permanente processo de formação, que procure a verdade sobre Deus, o homem e o significado da vida. Conclusão «, Sei que existem muitas outras questões importantes que seria necessário tratar e esclarecer. Mas, concluo com um texto da Vitp Consecrata: "Os desafios da missão são tais que não podem ser eficazmente enfrentados sem a colaboração, no discernimento e na ação, de todos os membros da Igreja. Dificilmente sozinhas as pessoas têm uma resposta resolutiva: esta é fruto do diálogo. Em particular, a comunhão operativa entre os vários carismas não deixará de assegurar, além de um enriquecimento recíproco, uma decisiva eficácia na missão... A vida consagrada, portanto, pode contribuir para criar um clima de aceitação recíproca, no qual os diferentes sujeitos eclesiais, sentindo-se valorizados, enquanto tais, unem-se de maneira mais consciente na comunhão eclesial, que tende para a grande missão universal" (VC 74).
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