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Encontro Continental de Animadores Missionários: Motivações Vocacionais PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Dario Rampin, IMC   
10 de April de 2006

Começo por esclarecer: tenho experiência de muitos anos de trabalho como animador missionário, mas somente na Itália, portanto numa realidade diferente da realidade africana. Contudo, embora o tema que me pediram ultrapasse as fronteiras de um lugar geográfico, à medida em que ia refletindo, vi que, fundamentalmente, diz respeito a cada pessoa.

Para elaborar a presente reflexão, aconselhei-me com o Pe. Sovernigo – sacerdote e psicólogo da diocese de Treviso – que tem uma longa experiência no campo vocacional. Ele me aconselhou a ler o livro de Manenti Vocação, Psicologia e Graça. Esta obra, por sua vez, se refaz ao livro de Rulla-Imoda e Ridick Estrutura Psicológica e Vocacional (Edições Marietti), no qual analisa as motivações que levam os candidatos a entrar e a abandonar o seminário.

Embora o estudo reflita a situação de alguns anos atrás, a estrutura psicológica da pessoa permanece; por isso, a pesquisa deste psicólogo pode ser sempre válida; antes, posso dizer que, depois de ler e reler os textos, considero a obra de utilidade fundamental para quantos trabalham neste campo.

Algumas datas e fatos

O pós-Concílio viveu um fenômeno particular: o abandono da vocação por parte de muitos seminaristas, sacerdotes, religiosos e religiosas. Durante um ano (em 1971), 7000 (sete mil) religiosos e religiosas abandonaram a vocação. Foram exatamente estes fatos que fizeram com que alguns aprofundassem melhor as motivações que levaram estes religiosos a abraçar e depois a abandonar a vida consagrada. Agora, depois de várias décadas, embora o abandono da vida religiosa tenha diminuído (não sei qual seria a porcentagem exata neste momento), continuamos a constatar que o problema não desapareceu e ainda continua sem solução. A crise não passou, mas se transformou, não apenas em relação aos que saem, mas também em relação aos que ficam. Comprovo o que afirmo com alguns exemplos:

a) Formação no “próprio ninho”. Os valores vocacionais são interpretados de maneira subjetiva, reduzindo a vida consagrada à medida individual. Os vocacionados, ao invés de fazer o esforço de saírem de si mesmos para se tornarem “imagem da glória do Pai”, procuram sua sistematização vantajosa.

b) Busca de um papel, de uma posição socialmente reconhecida. O trabalho remunerado, uma profissão leiga, um serviço público, uma láurea obtida a qualquer preço... E tudo, com certeza, não para expressar os valores vocacionais, mas como fim a si mesmo. É o eficientismo em prejuízo da eficácia: a construção da própria vida sobre conquistas calculadas, de acordo com a capacidade profissional, e não sobre os valores religiosos. Inclusive na oração pode-se procurar não tanto o rosto de Deus, mas as experiências emotivas e sensíveis. Estes fenômenos mostram que é possível permanecer na vocação, sem por isso aprofundar os valores da mesma. Neste uso egocêntrico das energias não entra má vontade ou malícia, mas o resultado é frustrante: a busca de si mesmo como fim último não conduz à felicidade, mas ao vazio existencial.

Senso de solidão

Muitos estudos dizem: o indivíduo abandona a vocação por causa do descontentamento pessoal, que se manifesta num sentimento de solidão e isolamento proveniente da falta de realização pessoal no trabalho pastoral, ou por motivo de tensões conflitantes entre valores e instituições. O complexo dos requisitos que delineiam este sentimento pode ser resumido desta maneira:

a) Medo de um Sacerdócio incerto e obscuro, desânimo e depressões, retorno à vida particular, busca da própria sistematização, desejo de amizades exclusivas e muitas vezes sectárias.
b) Sentimento de impotência perante as instituições (prevalece o conceito: “Quem faz por si, faz por três!”). Alergia no esforço de emergir para levar adiante valores impopulares.
c) Consciência de não estar mais exercendo nenhum controle sobre o próprio destino. O conceito renovado de pessoa parece não ser mais conciliável com os valores evangélicos. O homem destinado a buscar a própria realização, cônscio de seus direitos e de sua liberdade, como pode renunciar a si mesmo para tornar-se pobre, obediente e casto? A vida religiosa é vista como negação da vida humana.

Compreende-se, portanto, que na raiz disto tudo está a “doença” religiosa, uma doença de motivação. A causa reside no enfraquecimento das motivações, na falta de sentido da razão pela qual as situações concretas são enfrentadas mais na chave do fazer do que na chave do ser. Desta forma, como religiosos, acabamos por esquecer quem realmente somos. Se estes são os fatos, convém que nos interroguemos sobre o porquê e quais os remédios a tomar.

Transcendência de si mesmo

Por que o ideal de um empenho irrevogável não chega, de fato, a ser sempre realizado? As respostas podem ser muitas: estilo de vida, constituições, normas, ambiente histórico e sociocultural... Aqui, contudo, deter-nos-emos de modo particular sobre as forças motivadoras que agem no íntimo da pessoa. As características da personalidade dos indivíduos dispõem os próprios indivíduos a responder de maneira diferente.

Premissas fundamentais

Antes de tudo deve-se dizer que a santidade da vida consagrada não depende da psicologia, mas da ação gratuita de Deus; é preciso, contudo, não esquecer uma coisa: os elementos psíquicos podem dispor a pessoa a receber a ação de Deus de maneira mais eficaz ou menos eficaz. Em condições iguais, o religioso sem bloqueios psíquicos é mais eficaz.

Padre Rulla fala de estrutura psicológica como fator predisponente e não como fator causante da ação da graça. Ele mesmo, falando da “Teoria da transcendência”, rejeita toda imposição da vocação como auto-realização. A vocação é transcendência de si mesmo: a escolha vocacional não está em relação àquilo que a pessoa é, ou como vê a si mesma, mas em relação àquilo que idealmente gostaria de ser com o auxílio de Deus.

A realização de si mesmo é vista como efeito e não como algo a realizar diretamente. A vocação é considerada como superação do “eu”, visto ser um convite a buscar valores transcendentes que só indiretamente visam o cumprimento do “eu”. O religioso busca primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e nisto encontra-se a si mesmo como “acréscimo”. Alimentar um ideal livre significa viver os valores escolhidos, não para gratificar as próprias necessidades, mas como fins a si mesmos.

Educar à vocação significa estar continuamente aberto aos valores, e não simplesmente buscar um mero fortalecimento de si mesmo, que é uma conseqüência da tensão de abertura. Neste caminho surgem resistências no interior de cada pessoa, que Padre Rulla chama de “inconsistências”; elas se tornam um obstáculo à plena realização dos ideais vocacionais. Tais inconsistências são, freqüentemente, subconscientes (ou latentes); e quando se fala delas, se exclui uma prospectiva de juízo moral ou de condenação acerca da retidão do indivíduo.

Vejamos agora os pressupostos da psicologia religiosa

a) A finalidade da vida humana é a transcendência de si mesmo. O homem não é feito para satisfazer-se e procurar a realização de si mesmo. Se é verdade que a satisfação e a realização de si mesmo ocupam lugar importante na vida humana, entretanto não constituem o fim último. Ser pessoa significa ser orientado para algo que está além, bem acima de nós mesmos. “Algo ou Alguém”, isto é, um significado a realizar ou então um outro ser a encontrar, a amar... “Existir quer dizer perder-se”.

b) Esta orientação diz respeito aos valores, e as metas finais são duas: imitação de Cristo e união com Deus. No Perfectae caritatis lemos que os meios para alcançar estes valores finais são os seguintes:
- Castidade – sinal de um coração livre.
- Obediência – expressão da imitação de Cristo.
- Pobreza – meio de comunicação com os pobres.
Temos, portanto, dois valores finais e três valores instrumentais. Juntos, eles constituem a orientação religiosa e a concepção transcendental do homem.

c) Realização pessoal como efeito colateral. A vontade de perder a si mesmo por causa do Reino não propõe a destruição da pessoa. Uma autêntica realização dos valores vocacionais leva o homem a realizar também todas as suas potencialidades. Quanto mais alguém transcende a si mesmo (quanto mais alguém se eleva acima de si mesmo), mais se encontra como criatura nova. O jovem rico do Evangelho não conseguiu, por isso foi embora muito triste; não se realizou nem mesmo como pessoa, porque não foi capaz de transcender a si mesmo. Quanto mais alguém “perde” a sua vida pelo Reino, mais rica a encontra. Quanto mais alguém se perde, mais se encontra. A realização pessoal é um efeito da transcendência.

d) Esta realização é uma conseqüência da eficácia apostólica. O religioso, quanto mais consegue viver os valores da própria vocação, mais realizado se sentirá. É importante não confundir eficácia com eficiência. A eficácia é a capacidade de realizar e de testemunhar os valores terminais e estruturais. A eficiência é o bom uso que fazemos dos meios à nossa disposição. Por isso, alguém pode ser eficiente (entende de contabilidade, de Bíblia...), sem contudo ser eficaz. O mesmo podemos dizer de um Instituto religioso. Daqui podemos tirar uma conclusão muito útil: a capacidade de viver interiormente os valores religiosos dispõe o indivíduo à realização de si mesmo e à eficácia apostólica.

A este respeito, as estatísticas nos dizem que muitas desistências e a falta de perseverança são resultado da não vivência destes valores; eles até podem estar presentes, mas permanecem letra morta, não se tornam fonte de energia. Pode-se crescer no conhecimento dos valores, mas nem por isso eles são mais intensamente vivenciados. No íntimo da pessoa há obstáculos que a deixam congelada e a tornam impenetrável aos valores que proclama com a boca. Isto acontece não por falta de generosidade, mas pela presença de elementos que obstaculizam a desejada abertura a Deus.

Chegou agora o momento de entrarmos no miolo da questão, que nos introduz numa segunda série de pressupostos.

A) Capacidade de interiorização

A vocação religiosa baseia-se na superação de si mesmo, no convite a buscar os valores transcendentes. À medida em que a pessoa for capaz de realizar os valores terminais e estruturais, superando-se a si mesma, encontrar-se-á na plenitude. O fator central para a perseverança – afirma a pesquisa – é a capacidade de interiorizar estes valores.

Ponto fundamental – Interiorizar os valores significa: não só conhecê-los intelectualmente, não só aceitá-los emotivamente, mas viver de acordo com eles, ou seja, colocar estes valores como base do nosso modo de pensar e de agir. É exatamente nisto que consiste o problema das motivações vocacionais. Interiorizar os valores não é problema fácil e espontâneo.

Os valores deveriam constituir a motivação de todo comportamento, o que raramente acontece. Pode-se viver a obediência em razão dos valores, mas também por medo da própria responsabilidade ou por receio do castigo. Pode-se viver no seio da família religiosa por fidelidade a Deus e para imitar Cristo, mas também por medo de enfrentar a vida normal das outras pessoas. Pode-se ingressar na família religiosa pelo vivo desejo de anunciar a Palavra, mas também, no nosso caso, pelo desejo de viajar (o caso de um rapaz da sétima série e de uma irmã entrevistada pela rádio Tumaini), ou para sentir-se mais importante, enquanto o indivíduo se vê colocado em nível cultural superior. Pode-se zelar pela vida litúrgica com a intenção de encontrar Deus, mas também para satisfazer às próprias necessidades de dependência de um grupo de referência. Pode-se viver a confissão sacramental como meio de conversão, mas também como meio para descarregar os próprios sentimentos de culpa. Pode-se viver em comunidade pelo desejo de partilhar os valores, mas também pela necessidade de retornar “ao seio materno”, onde tudo é seguro! Pode-se ficar com o povo para dar testemunho de Cristo, mas também para sentir-se admirado e aceito. Pode-se entrar no seminário pelo desejo de servir... Mas depois, escalado o primeiro degrau rumo ao sacerdócio, fazer-se servir, pretendendo tudo! Alguém pode empenhar-se na reforma da vida eclesial por amor à Igreja, mas também para descarregar a própria agressividade e por desejo de exibição e dominação.

Todas estas considerações nos podem ajudar a adquirir uma visão mais realística, primeiro acerca de nós mesmos, depois acerca daqueles que pedem para entrar no Instituto. Ainda que proclamemos os valores vocacionais, o que freqüentemente nos guia são as nossas necessidades e medos. Muitas vezes os valores não são amados por aquilo que são em si mesmos, mas por aquilo que podem trazer, ou por aquilo que podem esconder.

B) Esta capacidade de interiorizar os valores vocacionais é dificultada pelas
inconsistências (resistências) psicológicas

É dificultada pelas inconsistências... Não se fala aqui de pessoas que sofrem perturbações psicopatológicas, neuroses ou alucinações, e sim de pessoas normais que, tendo embora o desejo de vivenciar os valores, sentem-se concretamente arrastadas por forças contrárias aos valores proclamados. Experimentamos a inconsistência no estado de tensão, ao constatar que gostaríamos de realizar o que mais é útil, quando, na verdade, fazemos o que mais nos agrada. Gostaríamos de viver de acordo com os valores, mas, de fato, vivemos segundo as necessidades psicológicas. É quanto São Paulo já dizia: “Eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (Cf. Rm 7, 16-19). É importante saber: este contraste interior não nasce de dois conhecimentos intelectuais; portanto, não se resolve o contraste oferecendo apenas ulteriores conhecimentos intelectuais.

C) As inconsistências psicológicas favorecem a busca de valores não objetivos, de valores não livres

Cada pessoa conta sempre com a graça interior e, auxiliada por Deus, pode mudar e crescer; mas, de fato, muitas vezes é ineficaz. Uma pessoa inconsistente não é que não tenha valores, mas, com facilidade, interpreta os valores apresentados de maneira objetiva. Ao invés de mudar o comportamento, procura, na subconsciência, adaptar os valores ao seu modo de viver, distorcendo assim os mesmos valores. (Exemplo feito com um grupo de seminaristas acerca do significado do sacerdócio: cada indivíduo adaptou segundo o seu modo de ver o que fora apresentado. Até mesmo alguns valores foram distorcidos, para adaptá-los ao próprio modo de viver.)

Acontece freqüentemente quanto disse um seminarista: “A Igreja nos transmite o Evangelho segundo Jesus e nós o transmitimos segundo nos parece”... Esta frase, aos nossos tempos, torna-se propriedade comum. Há, portanto, grande diferença entre “subjetivação da vida” e “subjetivação da vocação”; neste caso adapta-se a Palavra de Deus à própria mentalidade, manipulando assim a mesma Palavra de Deus. Interiorizar os valores significa: transformar o próprio modo de agir e de pensar segundo o agir e o pensar da Palavra de Deus. Quando isto acontece, temos a conversão do coração.

D) A incapacidade de interiorizar os valores vocacionais gera conseqüências na maneira de se comportar.

Já dissemos que a situação psicológica não atinge a santidade, mas a eficácia apostólica, isto é, a capacidade de manifestar a outros os próprios valores, e isto por três motivos:
1. Gasta-se mais tempo em aliviar a tensão interior do que em superar a si mesmo.
2. Incapacidade de ouvir as mensagens provenientes de pessoas e de acontecimentos; este fenômeno aplica-se também à Palavra de Deus.
3. Finalmente, vivendo em contínua tensão consigo mesmo, a pessoa, em qualquer circunstância se encontre, está mais propensa a reagir de maneira defensiva que criativa.

Inconsistências psicológicas e capacidade de interiorizar os valores

Se o indivíduo é apostolicamente ineficaz, não é por sua má vontade; pode ser ineficaz também apesar de sua boa vontade. Se involuntariamente procura a si mesmo antes que o Reino de Deus e Jesus Cristo, não é porque abandonou os valores, mas pela dificuldade que tem em transformá-los em atitudes concretas de vida e de apostolado. O conhecimento deste fato nos deve colocar numa atitude de não julgamento; e, ao mesmo tempo, nos ajuda a compreender que o religioso tem a capacidade de responder ao chamado transcendente de Deus. Sua vida é contínua abertura para o alto, uma evolução criadora em favor dos valores propostos por Cristo, que superam as suas próprias capacidades.

O indivíduo que foi chamado pode ser tudo isso, entretanto sua potencialidade pode ficar bloqueada, ou então comprometida, em razão das inconsistências psicológicas. Desta forma, pode viver num contraste interior entre duas estruturas psicológicas: de um lado, os valores; de outro, as necessidades, sem nunca conseguir integrá-las. Os valores religiosos e sacerdotais tornam-se fonte de frustração, ao invés de fazer crescer a humanidade da pessoa. São vividos em prejuízo da maturidade psicológica; sentimo-nos padres e irmãs, mas não homens e mulheres; ministros do culto, mas marginalizados na vida. A afetividade torna-se uma tentação; o desejo de autonomia, perigo para a obediência; a exigência de conquista, ameaça à pobreza.

Os exemplos poderiam ser multiplicados: o indivíduo pode dedicar-se com total boa fé ao serviço dos outros, mas ao invés de permanecer com os outros para dar o testemunho de Cristo, permanece para sentir-se gratificado e admirado. Assim também: pode pensar que se dedica e imola pela causa da Igreja, quando, na realidade, procura sua própria satisfação através do exibicionismo e desejo de dominar. Agindo desta forma, os valores são vividos como pseudo-valores: a obediência, por medo de responsabilidade; o celibato, por medo de depender e ter que se adaptar a outros... E tudo isto não obstante a boa vontade do indivíduo. Os valores estão presentes, mas não são interiorizados. O coração não é frio, mas subdesenvolvido.

Entidade do fenômeno

As inconsistências estão presentes em todas as pessoas, mas em 60-80% estão presentes de modo conflitante e contraditório. Assim também, segundo a média, 60-80% dos seminaristas religiosos interiorizaram pouco ou nada os valores, embora os aceitem intelectualmente. Esta situação está presente desde a primeira entrada no seminário, quando somente 15% tomaram uma decisão motivada por um ideal que é por si mesmo interiorizado; para os demais, a decisão é devida antes a atitudes incônscias, utilitaristas e defensivas.

Padre Rulla afirma que os candidatos decidem acerca do que gostariam de ser, e não acerca de capacidades pessoais conscientes, demonstrando desta sorte que estão dispostos a aceitar uma tensão de crescimento, para se abrirem sempre mais ao influxo da graça e para superar a si mesmos no cumprimento dos valores. Não faltam também, desde o começo, motivações subconscientes, em força das quais o indivíduo decide entrar no seminário por este motivo: para satisfazer determinadas necessidades, tais como: medo da competição que a sociedade exige, falta de confiança em si mesmo, a procura de um refúgio... Ou ainda para proteger-se de conflitos internos (problemas familiares, falta de identidade pessoal...). E tudo isso, tornamos a dizê-lo, sem colocar em dúvida a sinceridade e a honestidade do indivíduo.

Estas inconsistências permanecem durante todo o tempo da formação. Estudos realizados, chegaram à seguinte conclusão: depois de quatro anos de formação 68% dos indivíduos não apresentam nenhuma melhora; somente 20% apresentam maturidade vocacional; 3,5% apresentam uma situação pior; notável porcentagem deles, com alta prevalência de inconsistências, dentro de oito ou dez anos abandona o caminho começado. É evidente, portanto, que o fenômeno das inconsistências existe e permanece inalterado com o passar dos anos, se não for reconhecido e tratado. Estes dados nos mostram uma dupla realidade:

a) Não se pode dizer que todas as pessoas não afetadas por traumas psicológicos sejam automaticamente abertas à Palavra de Deus. É o que demonstram os fatos: não obstante os meios formativos usados, muitos indivíduos permaneceram imaturos.

b) Em segundo lugar, não se pode atribuir à formação a causa deste fato, porque, se assim fosse, não teria havido nenhum amadurecimento. É justo, portanto, que na formação sejam tidos em conta não só os casos patológicos, as atitudes, os comportamentos e os desejos formulados conscientemente, mas é preciso também prestar atenção às motivações subconscientes que podem influenciar a assimilação e personalização dos valores.

Que fazer?

Que recado nos podem dar, para a formação, em vista de um projeto educativo, os dados trazidos até aqui? Ao fazer este aceno, não é minha intenção entrar no assunto que será apresentado em seguida, a saber: o acompanhamento vocacional. Entretanto, podemos dizer algo de maneira sintética: antes de mais nada, é preciso trabalhar sobre a pessoa. Qualquer trabalho formativo está destinado à falência, caso não se dê mais importância à pessoa que à estrutura. Não é através de documentos, de planos pedagógicos, ou indo à procura de pesquisas que conseguimos formar o indivíduo. Se assim fizermos, poderemos contar com estruturas eficientes, mas não teremos pessoas eficazes. É preciso, antes de tudo, que se ajude o vocacionado a interiorizar os valores, a assumir uma escolha de vida; e só depois ajudá-lo a assumir uma forma de atividade pastoral, que não se baseie na realização pessoal, mas no desejo de empenhar ardorosamente a vida pelo Reino.

A auto-realização é uma conseqüência da realização dos valores transcendentes e não um fim a si mesma. Pode-se conceber a personalidade humana construída sobre três grandes pilares: necessidades, atitudes e valores. A eles, de fato, é que nos referimos quando nos perguntamos:
- Quem sou? Que tenho dentro de mim? (Necessidades).
- Como uso o que tenho dentro de mim? (Atitudes).
- Para qual fim o uso? (Valores).

As necessidades me dizem que trago em mim uma energia interior que impele a ser usada (por exemplo, a energia da agressão). As atitudes levam esta energia à realização (por exemplo, assumindo um comportamento agressivo), com a finalidade de alcançar algum valor (justiça), ou um contravalor (a prevaricação sobre os outros).

Todas as pessoas têm as mesmas necessidades fundamentais: afeto, autonomia, proteção, agressão... Estas necessidades não comportam uma conotação moral. Por exemplo, “sentir raiva”, ter vontade de possuir, sentir atração sexual..., não é uma culpa, mas são energias dadas com a vida humana, como dote. Cabe depois à pessoa decidir se consentir e como consentir naquilo que sente. Aqui está o risco e a responsabilidade do homem. A vida é poderosa energia: pode ser usada para iluminar ou para fulminar a pessoa, à semelhança do raio.

Concluo, dizendo: quando o jovem descobre desejos contrários ao Espírito, deve ser ajudado a não generalizar, a não tomar uma parte pelo todo. É bem verdade que a língua bate onde o dente dói, mas é preciso lembrar também que os outros dentes são sadios... O indivíduo não deve dizer: “Puxa, se sou assim, sou completamente mau!” A pessoa nunca é totalmente má nem totalmente boa... A atenção que se volta às inconsistências não deve desviar-nos da busca das boas qualidades e das virtudes que temos. Também estas qualidades estão presentes em cada um de nós.

Se admitimos que fomos chamados por Deus, devemos também crer que Deus nos terá encontrado amáveis, dignos de confiança, e que nos estima pelas qualidades que nos deu.
Deus não nos chama por piedade e compaixão, mas por amor, e nós não podemos amar-nos menos de quanto Deus nos ama. Deveríamos ajudar o jovem a olhar para si com os mesmos olhos com que Deus olha para ele.

Pe. Dario Rampin, IMC

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