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Acompanhamento no Discernimento Vocacional PDF Imprimir E-mail
Por Irmã Jane Wugi, MC   
10 de Abril de 2006

A vocação é um dom de Deus. A iniciativa da vocação parte de Deus. O jovem não só acolhe o convite de permanecer com o Senhor, mas acolheo-o também com a disposição de ser enviado a trabalhar na construção do Reino de Deus.

A pessoa que recebe este convite tem necessidade de ser ajudada, para que possa ver com clareza, por si mesma, se Deus a está chamando de verdade. Este tipo de ajuda é o que nós chamamos de acompanhamento no discernimento vocacional. É um caminhar junto com o candidato, para esclarecimento da vocação, e também para ajudá-lo a descobrir se as suas aspirações para a vida consagrada estão em sintonia com a missão da Congregação.

O acompanhamento não é especificamente direção espiritual, porque esta implicaria que o diretor espiritual se concentrasse sobre a relação do candidato com Deus, trataria somente de valores religiosos e de atitudes derivantes destes mesmos valores. O acompanhamento trata também da relação do candidato consigo mesmo, no esforço de entender as próprias necessidades, sentimentos, qualidades características derivantes destas necessidades, sua relação com os outros e com a natureza. O acompanhamento deve envolver os dois aspectos: o espiritual e o psicológico (valores sobrenaturais e naturais).

No acompanhamento, o animador vocacional deve levar o candidato a compreender e a descobrir mais profundamente a própria relação com Deus, que chama, a compreender a si mesmo perante este chamado, a compreender aqueles que esperam o seu serviço. Caminhamos juntos, para ver se é possível integrar estes três aspectos de forma tranqüila. Portanto, a verdadeira missão do acompanhamento consiste em ajudar o candidato a descobrir as próprias motivações que o levam a querer tornar-se religioso, a verificar se tais motivações são autênticas ou não.

O animador vocacional e o acompanhamento

O animador deve ser alguém que acredita no valor do acompanhamento vocacional e se prepara para assumir esta tarefa, procurando desempenhá-la fielmente, visando o bem dos candidatos e do Instituto. É o primeiro instrumento que Deu utiliza para facilitar o progresso na caminhada do discernimento vocacional. Por isso, deverá ter:
- Profundo conhecimento de si mesmo, tanto em nível espiritual como psicológico.
- Prática da ascese no campo da oração e da humildade, perseverança e paciência.
- Todo animador deve desenvolver a “espiritualidade do acompanhamento”, para poder atingir seu objetivo, ou poder agüentar com perseverança no cumprimento de sua tarefa.
- Crer e confiar que o discernimento de uma vocação é obra do Espírito Santo; saber, por isso, que deve viver em consonância com o Espírito.
- Um suficiente conhecimento de si mesmo: sentimentos e intuições têm grande importância no processo de acompanhamento, pois ajudam a unir-se aos sentimentos do candidato.

No acompanhamento, o animador não é um observador que faz entrevista, mas um participante, neste sentido: deve perceber os movimentos do candidato e procurar dirigi-lo de acordo com estes sentimentos. Deve, por isso, conhecer as dinâmicas de liderança, além de contar com preparação espiritual e psicológica.

Outro aspecto importante: o animador deve conhecer os requisitos que o Instituto exige dos candidatos que podem ser aceitos na Congregação. Por isso, é mister que conheça com perfeição as nossas Constituições e o programa formativo. Não é atitude correta começar e continuar um discernimento com um jovem que não reúne os requisitos exigidos pela Congregação. Deve verificar também se os ideais do candidato correspondem aos ideais da Congregação.

Acompanhamento

Quem tem direito ao acompanhamento? Todos aqueles que escrevem e fazem o pedido de entrar na Congregação têm o direito de receber um determinado acompanhamento. Tal acompanhamento pode variar de um país a outro: alguns organizarão seminários ou retiros, outros visitarão as escolas, outros ainda se comunicarão através de correspondência. Aqui nos ocuparemos especialmente dos candidatos que mostram sério interesse de ingressar no nosso Instituto e que, portanto, deverão ser recomendados pelo animador vocacional para a formação.

No acompanhamento, é preciso estabelecer um bom relacionamento com o candidato, desde o começo, não tanto com a finalidade de criar amizade com ele, mas especialmente para ajudá-lo a progredir numa identificação mais profunda com Jesus Cristo e maior interiorização dos seus valores. O indivíduo deve perceber que é aceito; só assim poderá sentir-se à vontade no processo de abertura de si mesmo.

O que partilha o candidato?

O passado: devemos conhecer a situação do seu passado, suas relações com a
família, com as demais pessoas, consigo mesmo, os estudos realizados, a experiência que fez do chamado de Deus (quando começou e como continuou até o momento presente). O passado, como condiciona o presente? O presente: o que pensa o candidato a respeito de sua vida em relação à vocação e a tudo o que diz respeito a ela? Como se orienta em relação ao futuro? O futuro: que aspirações alimenta em relação ao futuro e qual será o efeito que o presente exercerá sobre o futuro? Que lugar ocupa Deus em tudo isto que está sendo partilhado? Ajude-se o candidato a descobrir a ação de Deus na história de sua vida.

Outro aspecto que requer atenção é o celibato e a sexualidade. Seria um erro encaminhar um candidato à formação sem nada conhecer acerca de sua vida sexual. Este é um assunto delicado que deve ser tratado somente depois de adquirir certa confiança com o candidato. Pode ser feito através de um simples questionário, ou de uma pergunta direta sobre o que pensa o indivíduo acerca do celibato em relação à sexualidade. Se o candidato estiver realmente fazendo a experiência do chamado de Deus, não terá dificuldade em abrir-se com simplicidade também neste aspecto. Repito, é um assunto que deve ser tratado com grande respeito, discrição e delicadeza. No caso de encontrar portas fechadas, não se insista, mas tirem-se as próprias conclusões.

Crença nos espíritos e influência que esta crença exerce sobre a pessoa

Qual a experiência do candidato e de sua família a respeito deste ponto? É um aspecto que não deve ser dado por descontado nos jovens (especialmente nas jovens) que querem entrar no nosso Instituto. (É um aspecto que depende de país a país, e também de tribo a tribo.)

Encontros para o acompanhamento

É importante combinar o tempo e o lugar onde se realizarão os encontros e, quanto possível, também a freqüência dos mesmos. A estrutura do encontro não é preciso que seja formal, mas o animador vocacional poderia sugeri-la. Começar, por exemplo, com uma oração, ou com uma simples conversação, fazendo algumas perguntas acerca dos estudos e relacionamentos, só para quebrar o gelo. Depois, pode-se convidar o candidato a partilhar o tema que foi preparado para o encontro, sobretudo no que tange ao assunto tratado anteriormente, ou qualquer coisa que o indivíduo queira partilhar. Esta, pouco a pouco, pode tornar-se a regra do jogo; assim o candidato se adaptará mais fácil e conscientemente à rotina, sendo ajudado a planejar o encontro. Sentir-se-á sempre mais à vontade e adquirirá o controle da situação. Sessões sem estrutura podem criar ansiedade, porque o candidato não sabe o que seguir. Contudo, também os momentos não estruturados são necessários, a fim de trazer à tona alguns elementos importantes da vocação, que jazem desconhecidos.

Durante a sessão, a pergunta que o animador deve ter presente é a seguinte: Qual é o motivo da partilha que estamos fazendo? O que é que o candidato quer comunicar a respeito de si mesmo? Não se deve esquecer que a pessoa que partilha deve ter tido oportunidade de refletir bem sobre daquilo que vai partilhar, e que, portanto, tem uma mensagem pessoal a dar-nos. Ouçamos com interesse, seja qual for o assunto que partilha, para podermos assim penetrar em sua verdadeira vida.

Durante a partilha, não fiquemos desligados, participemos ativamente, ou seja, procuremos captar a natureza das palavras ou dos fatos que são partilhados, de maneira global, sem fazer julgamentos, para podermos compreender o que se esconde por trás da cortina das palavras e dos gestos. Escutemos o que é dito e também o que não é dito; a comunicação feita sem palavras é muito importante. Observe-se a aparência física geral do indivíduo, o modo de vestir, a pontualidade, o entusiasmo, o empenho, a abertura ou o contrário, o tom emotivo (tensão, frieza, timidez...), o comportamento dos olhares, rigidez, relaxe... Estas coisas são significativas, sobretudo quando constituem um modo de viver.

Não se tema o silêncio, sobretudo prolongado, depois de fazer uma pergunta provocativa. Dê-se tempo para refletir, se a pessoa tiver necessidade, e preste-se atenção à resposta dada após prolongada reflexão. Às vezes, estes são tipos de respostas muito reveladoras. Preste-se atenção também àquilo que a pessoa não consegue dizer, não consegue ver ou saber acerca de si mesma.

Uma das finalidades do acompanhamento é ajudar o candidato a harmonizar melhor o seu “ele” real com o ideal. Observem-se as incoerências no modo de viver do candidato e o modo no qual quer viver, entre os valores proclamados e os valores vividos. Procure-se pedir exemplos concretos de sua vida, que confirmem as virtudes. Ajude-se o candidato a expor as coisas de maneira prática e concreta, não abstratamente.

Não se criem expectativas de louvor ou de desaprovação. São coisas que até podem ser promovidas, mas não continuamente, para não levantar muita fumaça... Uma aprovação contínua pode criar o conformismo, tornando o candidato escravo da boa opinião do animador. Quando há necessidade de um esclarecimento, façam-se perguntas, mas sem mostrar desaprovação a respeito das respostas, especialmente se houver possibilidade de obter informações de fonte diferente, acerca daquilo que se compartilha.

O animador tome nota daquilo que é partilhado, para depois, no próximo encontro, ter um ponto de referência. É importante mostrar ao candidato que o acompanhamos de perto, com interesse; pode-se fazer isso, relembrando alguns pontos que haviam sido compartilhados no último encontro. Por exemplo, no caso que o candidato tenha falado da mãe doente, comece-se por pedir notícias acerca do estado de saúde dela...

Se anteriormente havia sido formulada uma pergunta, ofereça-se ao candidato a oportunidade de partilhar por primeiro aquilo que preparou; depois, no fim, recorde-se-lhe a pergunta que fora feita. É claro, para fazer isso, é necessário recorrer aos próprios apontamentos, inclusive para verificar se houve progresso no andamento do processo.

Depois que o candidato se explicou, o animador deve ter condições de intervir, fazendo uma reformulação simples daquilo que foi dito e exposto, para que saiba que é ouvido e compreendido. Isto pode tornar-se um auxílio para uma futura abertura, porque ajuda a esclarecer as idéias e a chegar ao cerne da questão, além de abrir caminho para o próximo encontro.

Encerra-se o encontro, oferecendo alguma leitura bíblica para ulterior reflexão, na linha daquilo que foi partilhado. É preciso lembrar que queremos ajudar o jovem a desenvolver a sua dimensão transcendental, isto é, ajudá-lo a ser sensível à ação de Deus em sua vida, sem com isso querer espiritualizá-lo.

Conclusão

Nesta breve apresentação sobre o acompanhamento procuramos simplesmente mostrar um esquema acerca do modo de ajudar um jovem a fazer o discernimento da própria vocação. Neste ponto, podemos tirar algumas conclusões que serão úteis a nós, animadores. O candidato e o animador, depois de terem caminhado juntos durante certo tempo, podem chegar ou não a uma conclusão comum. O animador, sobretudo, deve anotar alguns aspectos acerca do que emergiu nas partilhas, pois lhe servirão de critério na hora de tomar a decisão:
- As motivações dadas para a vocação: são autênticas ou não?
- Sinceridade e abertura: há contradições?
- Confiança no amor de Deus, fé em Deus, pelo fato de saber que é Ele quem o chama: dimensão transcendental da vocação.
- Certa coerência entre os valores proclamados e vividos: equilíbrio psicológico (o eu real e o eu ideal se harmonizam?).
- Entusiasmo em querer consagrar a própria vida a Deus. Um verdadeiro desejo de viver o carisma do Instituto.
- A este elenco, pode-se acrescentar outros requisitos exigidos pelo Instituto, como: capacidade intelectual, saúde, o conjunto das situações da família...

Há três resultados possíveis que podem ser alcançados depois de concluir o acompanhamento para o discernimento da vocação:
- Primeiro caso: ficou claro para ambos (animador e jovem) que o candidato reúne boas condições para poder iniciar a formação e tem as motivações certas para querer consagrar sua vida a Deus.
- Segundo caso: o candidato, através do auxílio recebido, pôde descobrir que não tem aptidão para a vida religiosa; neste caso, de comum acordo com o animador, pode tranqüilamente encerrar o acompanhamento.
- Terceiro caso (mais difícil): o animador notou algumas incoerências entre a vida do candidato e a escolha que ele quer fazer; apesar disso, o candidato insiste em querer ser admitido para iniciar a caminhada da formação. Neste caso, o animador deverá procurar a ajuda de uma terceira pessoa, a fim de esclarecer as próprias percepções referentes à caminhada do candidato. Feito isso, o animador pode tomar uma destas decisões: recomendar o candidato aos formadores, com as devidas cláusulas referentes aos aspectos de reservas, depois de explicá-las ao candidato; ou então aconselhá-lo a procurar outro tipo de vida.

Fazer o discernimento de uma vocação não é fácil, nem podemos ter total segurança, mesmo depois de indagar todos os diversos aspectos que podem iluminar a realidade acerca da pessoa. O ser humano é muito complexo, permanece um mistério também a si mesmo. A revelação do que somos, nós a percebemos pouco a pouco, perante os variados desafios da nossa vida cotidiana. Por isso, animação e acompanhamento vocacional exigem de nós boa dose de humildade e de paciência.

 

Irmã Jane Wugi, MC

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