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Espiritualidade do Animador Missionário: Sua Identidade e Qualidades Características PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Giuseppe Inverardi, imc   
10 de April de 2006

Introdução

Escrevendo aos Coríntios, o Apóstolo Paulo lhes diz: “Encorajai-vos, consolai-vos mutuamente, tende os mesmos sentimentos” (2 Cor 13,11). Coragem: palavra “sacramental” muito utilizada por Allamano! Todo encontro, mas especialmente este dos animadores vocacionais, não pode deixar de ter esta primeira finalidade: encorajar-nos reciprocamente. De fato, as dificuldades da animação na África, como também em outros continentes, não são poucas.

A segunda finalidade: ter os mesmos sentimentos. Sentimentos, objetivos, metodologia amadurecidos na partilha, na comunhão e colhidos também da sabedoria da experiência e das experiências. Passando de uma nação a outra, as dificuldades são diferentes. Contudo, há um substrato comum que nos pode ajudar através da criatividade e das atividades dos outros.

Declaro, sem mais, que não tenho nada de novo a dizer ou a sugerir, e que me consola o dito: “Repetita juvant”. As nossas famílias missionárias têm uma longa história de animação vocacional, guiada por princípios, diretrizes e sugestões, contidos numa literatura nossa muito rica. Eu simplesmente me inspiro nesta literatura de forma antológica, ou seja, haurindo dos nossos documentos, especialmente dos documentos dos Capítulos Gerais. Nós nos ajudamos, recordando, repetindo, mas para que o passado encontre uma encarnação no hoje e no amanhã. Efetivamente, a geografia vocacional, o mundo dos jovens e as situações mudaram; por isso, nos é solicitada nova atenção e contínua reflexão.

I. ESPIRITUALIDADE DO ANIMADOR VOCACIONAL

A primeira palavra do título do tema que me foi confiado é espiritualidade. Certa vez escrevi o seguinte: “Espiritualidade é mais que oração e ascética. Supõe uma característica estrutural de toda a vida. É um modo global de ser e de agir, de posicionar-se na presença de Deus e dos irmãos, segundo determinados fins e segundo uma personalidade própria, individual e/ou comunitária”.

Allamano fala de “espírito de...” Ou seja, uma dimensão que não é passageira ou de moda, mas que permanece, que é hábito. São Francisco de Sales é atento em proclamar uma espiritualidade segundo os diversos estados de vida ou profissões: bispo, sacerdote, monge, pessoa casada. Um não pode ter a pretensão de viver como um outro, assim como a rosa não tem as características do lírio, embora ambos sejam flores. A cada qual – flores ou pessoas – a sua identidade, suas características e suas conseqüentes manifestações extrínsecas.
Nós, diferentemente de outras formas de vida consagrada, temos a “espiritualidade missionária”, que se inspira na universalidade, nas pessoas que servimos, nas situações históricas do ambiente em que desenvolvemos nosso trabalho. O ad gentes acrescenta uma formação, vida e atividade que diferem da vida pastoral normal. Além disso, o ad gentes nas áreas de conflito de Roraima e do Caquetá difere do ad gentes de outros países, tanto dos países da Ásia com suas grandes religiões e culturas, como dos países de absoluta primeira evangelização – como a Mongólia. E nisto não há firmeza estática. O próprio termo “espiritualidade” deriva de “espírito”: elemento imutável em todas as mudanças, mas dinâmico. E isto implica adaptação, inculturação, encarnação.

A espiritualidade, obviamente, não é aérea, mas se manifesta através de expressões. Os nossos documentos, em relação ao animador, evidenciam as seguintes:

1. Intensa vida de oração. Obediência ao convite, à ordem do Senhor, que mandou que pedíssemos ao Dono da messe que enviasse operários à sua messe. Esta é uma tarefa de todos. O animador, entretanto, é o ícone ou sacramento desta obediência, desta necessidade de oração. Reza ele e leva os outros a rezarem: tanto as nossas comunidades como as comunidades pastorais. Não o faz por profissão, mas porque mais sensível e melhor sintonizado com a realidade vocacional. Reza e faz rezar pelo seu trabalho difícil, muitas vezes árido e infrutífero. Reza e faz rezar pelos jovens com os quais se mantém em contato, a fim de que o Senhor fecunde o germe da vocação e o faça amadurecer. Reza e faz rezar com abertura de coração pelas múltiplas realidades do mundo e da Igreja.

Rezando, e rezando deste modo, o animador interpreta e continua a vocação profética que perpassa pelas páginas da Bíblia: Abraão intercede para que, pelo menos dez justos, sejam motivo de salvação para Sodoma e Gomorra; Moisés intercede muitas vezes pelo seu povo, de cabeça dura, para que não seja aniquilado; Isaías e Jeremias são profetas que, através da oração, mostram vivo interesse pela sorte de Israel. Não falta nem mesmo a intercessão de mulheres: Judite faz uma oração comovente e apaixonada quando aos habitantes de Betúlia, cercados pelo inimigo, faltavam víveres e água; Ester faz intensa oração pelos seus compatriotas, quando o extermínio deles já estava decretado. Neles todos, e sempre, é uma oração do coração, verdadeira, histórica. Tal oração atinge o ponto culminante em Jesus e continua em Paulo. Jesus reza longamente pelos seus. Paulo lembra constantemente as Igrejas plasmadas por ele com a Palavra e na força do Espírito. A oração é interesse, aproximação, amor. O animador, através de sua fervorosa oração, expressa estas características.

2. Intensa vida espiritual. A vida espiritual não deve ser confundida com a oração. Seus horizontes são mais amplos. Abrange a vida toda, inclusive em sua expressão específica de atividade vocacional. A fé do animador descobre coisas para além das aparências e dos resultados. Sua esperança o leva a confiar Naquele que nunca decepciona. Com a caridade está disposto a cooperar com todos, a fim de favorecer uma resposta que se harmonize com as inclinações e escolhas de uma pessoa. Não há espaço para ciúmes e fechamentos. Há somente motivo de alegria quando as sementes brotam, florescem e amadurecem, inclusive quando outros recolhem onde nós semeamos... Como também nós colhemos onde outros semearam! Só há verdadeira dimensão eclesial onde não há espaço para miopias.

A vida espiritual não se limita às três virtudes teologais. O animador necessita da ascética do empenho, deve identificar-se totalmente com a sua missão, evitando as dispersões indevidas. Necessita do espírito de sacrifício que acompanha as viagens, a preparação da dimensão formativa, a acolhida nem sempre entusiasta nas paróquias por onde passa, nas escolas e grupos. O animador deve armar-se de paciência e de grande discernimento perante quem vacila e nunca se decide; perante os numerosos que se aproximam, que depois diminuem ou desaparecem, aduzindo motivos muitas vezes falsos e fantasiosos. Bem sabemos e todos o afirmam: a parte mais quebradiça é a das motivações. É triste e desanimador ver esperanças murcharem e perderem o viço. Esta é, talvez, uma área que, como metodologia, deve ser revista.

O que é melhor: abranger um grande raio de ação e atividade, mantendo muitos contatos, ou limitar-se a uma concentração geográfica que ajude a realizar um trabalho mais intenso e incisivo? A resposta não é fácil, inclusive porque no contexto dos nossos países não é sábio limitar-se a uma só tribo, e as escolas – pelo menos na Tanzânia – recolhem jovens de todo o país. Além disso, uma dimensão não exclui a outra. Uma atividade redimensionada, porém mais intensa, se não trouxer todos os frutos desejados, será pelo menos um enriquecimento psicológico, espiritual e apostólico para os possíveis candidatos. E também não cria em nós expectativas ilusórias, desproporcionadas.

Como se vê, a área do espírito, de uma intensa vida espiritual, típica do animador, é vasta. Creio que bastem estes breves acenos. O animador deve procurar sempre nova energia NAQUELE que também sentiu desilusão perante a incapacidade que os Doze tiveram de compreender (embora fossem capazes de renegar e de trair), ainda que privilegiados pela contínua comunhão com Ele e iluminados por seu exemplo e ensinamento.

II. IDENTIDADE DO ANIMADOR VOCACIONAL

Identidade é clareza no ser, que depois se torna fonte de clareza no agir. O animador vocacional deve ser uma pessoa totalmente identificada com a missão ad gentes e com o Instituto. Um animador que desafiasse a missão ad gentes da Igreja seria uma contradição, embora soubesse respeitar e dialogar com as religiões e as culturas. Também porque o diálogo não é uma metodologia ou estratégia de evangelização, mas é missão mesma.

De forma idêntica, seria também um contra-senso um animador vocacional que repreendesse e criticasse continuamente o Instituto, que não o amasse, inclusive em suas demoras e fraquezas. O Instituto é uma família – proclamava o Allamano – e assim o queria. E a família, embora tenha suas dificuldades, é o emblema da comunhão do amor. Não se trata de idolatrar o Instituto em prejuízo de dimensões eclesiais. Mas é óbvio que a familiaridade com o Allamano, com sua vida e seu ensinamento, e com a história do Instituto, levam a falar e a testemunhar com convicção e de maneira convincente. Indiferença e falta de convicção seriam deletérias. Sal insípido não salga!

A total e afetiva identificação com o carisma torna-se fonte de força nas palavras e na vida. O animador, portanto, apresenta aos jovens a beleza e o privilégio – assim o considerava o apóstolo Paulo – de ter sido enviado a todas as nações para proclamar a Boa Nova de libertação de toda escravidão nas regiões mais difíceis e menos humanas. Com a inspiração e a força do carisma, o animador lança um desafio aos jovens. Será que os jovens africanos não almejam os ideais elevados e grandes? Ideais de universalidade, de doação total, de intensidade de vida, segundo o ensinamento e o coração do bem-aventurado Fundador?

É claro, no seio da nossa família existe uma pedagogia na apresentação da vocação missionária. A árvore madura – o missionário rico de experiência e de anos – não é a semente. Mas na semente está presente em potência a árvore toda. É de máxima importância que o animador, desde o começo, exponha com muita clareza o que somos, onde e como trabalhamos. Aqui está a dificuldade das motivações vocacionais, especialmente de quem é capaz de fingir e de suportar tudo, contanto que consiga alcançar segundas finalidades, que na África são sobretudo os estudos e, talvez, a miragem de viajar para o estrangeiro. Mas, pelo menos no campo da objetividade, sejamos claros e sinceros no que tange à vocação missionária e em tudo o que lhe diz respeito, em termos de desapego e de fadigosa inserção no novo de outras nações e povos.

Inculquemos, desde o começo, amor pela nossa família, refazendo-nos ao Fundador, como homem de grande coração, impregnado de ternura, homem sábio e profético, mestre que aponta caminhos seguros de vida espiritual e metodologia missionária. Ou ainda, fazendo emergir, com discrição e humildade, todo o bem que foi realizado com a ajuda de Deus. A nossa história também é sagrada!

III. ATITUDES (QUALIDADES) DO ANIMADOR VOCACIONAL

Eu também não sei dizer se, em italiano, é mais correto dizer “atitudes” ou “disposições”. Segundo o dicionário, os dois termos, em parte significam a mesma coisa e em parte se diversificam. Em outras palavras: por “atitudes” queremos entender as “qualidades” e as “características” do animador vocacional, nem assim facilmente separáveis da identidade. Detenho-me sobre algumas, sem seguir a ordem de prioridade ou de importância.

Os jovens – e não somente eles – sentem-se à vontade com uma pessoa serena, jovial, entusiasta e comunicativa. Nem todos conseguem ser assim, nem todos na mesma proporção. É evidente, contudo, que estes dotes de personalidade e de qualidades humanas constituem o abc para a atividade vocacional; se não fosse assim, o próprio animador se encontraria constantemente em situação desagradável ao ter que enfrentar pessoas e situações novas. Allamano chama do Quênia à Itália o Pe. Lorenzo Sales, porque reconhece nele estas qualidades. De fato, viajando de cidade em cidade, Padre Sales inflamará paróquias, escolas e seminários. Escreveu-se a respeito dele uma pequena biografia intitulada: “O homem de fogo”. O título já revela um pouco que homem e missionário era Pe. Lorenzo Sales. Permanece como um modelo de animação. Allamano afirmava: “Para ser missionário, é preciso arder.” Esta afirmação é ainda mais válida para os animadores. O fogo ilumina, aquece, atrai.

O animador deve ter espírito de iniciativa. Espírito de iniciativa, segundo um programa claro e bem definido nos objetivos e meios. Não deve fazer muito apenas para mostrar que trabalha muito, mas deve trabalhar com inteligência, considerando as atividades mais aptas, as pessoas e os lugares mais promissores. E isto não por desprezo ou discriminação, mas porque as vocações tem um seu húmus natural – família, escola, ambiente – que ninguém menospreza. É necessário fazer uma avaliação periódica do trabalho que se realiza, para corrigir, melhorar, reforçar.

Uma boa dose de criatividade será de grande serventia: na preparação dos conteúdos e para apresentá-los de maneira participativa. Criatividade na oração. Daqui a importância do estudo, da atualização, bem como de algumas técnicas e meios de comunicação. A “pobreza” da África em relação aos meios (convém lembrar que em muitos lugares não há energia elétrica) nem sempre permite realizar muito. Mas há alternativas também de caráter cultural, que a criatividade pode inventar.

O animador é chamado a discernir, a aconselhar, a orientar. Não é fácil, visto que os jovens não batem às nossas portas com clareza de carisma e de ideais. Não sei se alguém é capaz de distinguir entre vida ativa e vida contemplativa, entre ser missionário e sacerdote diocesano, entre ser da Consolata e ser Agostiniano! Muitas vezes os jovens nos procuram porque, depois de ver uma lista de congregações e ter escrito a muitas, acabam por escolher uma. A culpa não é deles, porque a pluralidade de institutos e carismas é relativamente nova na África. Eis porque a clareza e o discernimento são necessários. O mesmo se diga a respeito da personalidade do jovem. Como metodologia, são oportunas as convivências prolongadas, durante as quais o jovem pode mais facilmente revelar sua personalidade. Sei que, na África, isto se torna difícil, em razão das distâncias e despesas inerentes. Em tais encontros, contudo, o animador prestará atenção às pessoas, procurará compreendê-las, mantendo diálogos pessoais com elas. Atividades, envolvendo a todos, podem resultar anônimas e infecundas. O contato pessoal, não raro, torna-se para muitos o pavio da própria vocação.

Outra coisa indispensável e irrenunciável: a cooperação entre nós e as demais forças eclesiais. A cooperação comunica experiências, evita os guetos, não suscita melindres, especialmente no que concerne às dioceses. A abertura e a generosidade contêm uma fecundidade e bênção particular.
O animador deve ter a capacidade de saber conviver com a frustração. Apesar das dificuldades e, talvez, dos escassos resultados, o animador deve lembrar sempre o ensinamento e a praxe adotada por Allamano: não é o número que conta, mas a qualidade.

Uma causa de frustração pode provir também deste fato: durante a caminhada do discernimento vocacional o jovem parece ser um ótimo elemento, mas depois, quando entra no seminário, ou logo em seguida, desiste e acaba por sair...
A recíproca acusação do animador aos formadores e dos formadores ao animador, é algo que vem de longe. Na realidade, são duas dimensões diferentes: uma coisa é fazer a caminhada sozinho, sem confrontos de espécie alguma; coisa bem diferente é fazer a caminhada da vida comunitária com todas as suas expressões. A compreensão desta realidade fará com que se evitem recriminações inúteis e injustas.

Conclusão

Convidaram-me a desenvolver este tema, e ousei aceitar..., eu que não tenho nenhuma experiência de animação missionária. Procurei simplesmente refletir sobre alguns princípios, realidades e acenos oferecidos pelo Instituto, mais que criar dos meus.
Concluo, fazendo uma consideração. A missão tem muitas frentes ou fronteiras: a do primeiro anúncio, do diálogo, das minorias étnicas, das situações urbanas desumanas, etc. Mas, segundo o meu parecer, se pelo termo “frente” ou “fronteira” se entende o lugar do novo e das dificuldades, a fronteira da animação missionária é a fronteira das fronteiras. Que pode haver de mais novo que descobrir um caminho para a vida? Que haverá de mais difícil que ajudar alguém a fazer o discernimento e a decidir-se pela escolha do caminho? A fronteira do espírito e da vida, como também a da animação vocacional, é verdadeira fronteira.

 

Pe. Giuseppe Inverardi, IMC

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