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Espiritualidade de um Animador Missionário-Vocacional: Sua Identidade e Características PDF Imprimir E-mail
Por Irmã Joe Marie William, MC   
10 de Abril de 2006


O termo “espiritualidade” faz referência “à presença e ação do Espírito Santo” na Igreja e em cada um de nós. Por isso, espiritualidade significa “caminhar segundo o Espírito” (cf. Rm 8,4-9), sob sua ação renovadora.

A espiritualidade é um “estilo de vida”, um viver em Cristo, permitindo ao Espírito Santo que nos forme gradualmente, como formou o Cristo, para colaborarmos na obra da santificação, que o Espírito realizará em nós. A espiritualidade envolve a nossa vida inteira. Não é algo que começa e termina com a oração, é uma realidade que abraça e orienta todos os momentos da nossa vida.

Nós, como religiosos, somos chamados a manifestar e a oferecer um programa que reproponha ideais visíveis e de santificação, que brotam da riqueza da nossa espiritualidade. Segundo Amadeu Cencini, nós, religiosos, somos chamados diariamente a viver uma espiritualidade “sapiencial, comunitária, apostólica” (Vocazioni: dalla nostalgia alla profezia, ed. Dehoniane, Bologna 1989, p. 325).

Espiritualidade sapiencial

A espiritualidade sapiencial – segundo o referido autor – conduz à “experiência de Deus, à descoberta de si mesmo”. É um processo contínuo, em que se faz experiência da “distância”, da “diferença” e da “ausência” que se interpõem entre nós e Deus. É uma experiência tipicamente pessoal. Nasce da iniciativa de Deus, ou de uma inspiração “recebida como dom” do Fundador ou do Instituto. É uma experiência rica e completa em si, que não se limita ao campo da oração, da meditação e da celebração dos santos mistérios. É uma experiência que se percebe no próprio ser. Esta experiência sapiencial transforma o amor em serviço e convivência com o povo, para proclamar a Palavra de Deus.
Se a espiritualidade é sapiencial, também a animação vocacional o deve ser, ou seja, a animação vocacional deve ser entendida sobretudo como uma partilha da experiência pessoal.
Muitas vezes a nossa animação/educação vocacional se reduz a um simples convite dirigido aos outros, um convite que dificilmente se torna desafio, porque não é produto nem parte integral da nossa vida. A animação vocacional deve jorrar da partilha ou da profissão de nossa fé.

Nossa espiritualidade, enquanto animadores, deve ser participada com aqueles que vamos contatar. Constatamos freqüentemente, e dizemos isto com tristeza: muitas vezes tratamos os nossos jovens como se fossem nossos estudantes e nós, seus professores! Sabemos apresentar-lhes fatos relativos à vocação, à vida religiosa, ao nosso carisma... Ensinamos, mas não partilhamos uma experiência pessoal.
Como animadores, deveríamos falar de nós mesmos, deveríamos professar a nossa fé, testemunhar nossa experiência de Deus. Não deveríamos limitar-nos a falar do nosso Instituto, do Fundador, dos nossos sucessos apostólicos e missionários (que sempre causam impressão), mas deveríamos falar da nossa vocação, do contínuo e cotidiano esforço que fazemos para compreender melhor a nossa identidade no carisma.

Propomos, com freqüência, como modelos, as personalidades bíblicas de sempre, ou outras que corresponderam ao chamado de Deus. Mas, das nossas vicissitudes pessoais, o que participamos? O que participamos aos jovens da nossa luta constante para corresponder ao chamado cotidiano de Deus nos pequenos acontecimentos da vida? Se agíssemos desta maneira, faríamos uma catequese vocacional bem direcionada – de pessoa a pessoa – muito significativa e original, humanamente rica e repleta de vitalidade, uma catequese que não pode deixar de ser ouvida, uma catequese apaixonada que brota da experiência concreta da vida. Não resta dúvida, hoje, mais que a participação de caráter informativo e intelectual, é o testemunho concreto das pessoas que atinge os jovens... Indivíduos como eles, enfrentando as mesmas tentações, as mesmas fraquezas, as mesmas dificuldades, mas que, com o auxílio da graça de Deus, conseguiram realizar-se na vocação... Este testemunho de esforço e luta pessoal desperta também neles a esperança de conseguir o que nós conseguimos.

Um animador vocacional autêntico, que realizou a caminhada de descoberta de si mesmo (como todo religioso e religiosa deveria ter feito), procura, com grande respeito, ajudar os jovens a descobrirem a própria identidade. É mister que ajudemos os jovens a entender que o ser humano não está confinado em sua atual personalidade, mas, vivendo ardorosamente o seu elevado ideal, pode alargar ainda mais os espaços da sua personalidade.
Outro aspecto importante: os jovens devem conscientizar-se de que a vida deles não está e não pode estar totalmente em suas mãos; devem entender que são chamados, durante a vida, a corresponder a uma missão específica que lhes foi marcada pelo próprio Autor da vida.

Espiritualidade comunitária

Amadeu Cencini chama de “espiritualidade comunitária” a consciência que o indivíduo tem de ter recebido um grande dom e o desejo de compartilhá-lo reciprocamente com todos e com cada um dos membros da comunidade. É um dom que não é propriedade reservada, que não é secreto. Estas riquezas espirituais não nos foram dadas para o nosso uso, para o nosso aperfeiçoamento, como se fosse uma recompensa, mas são riquezas que foram concedidas em favor dos outros, em favor daqueles aos quais somos enviados.

Nossa espiritualidade é, por si mesma, comunitária, porque se baseia essencialmente no nosso carisma. É a realidade que nos une e nos distingue. A espiritualidade é a primeira expressão do nosso carisma. Por meio desta nossa espiritualidade, compreendida e vivenciada, descobrimos os nossos ideais e os desafios da nossa vida na experiência específica de Deus.

Todos, indistintamente, somos chamado a reavivar na nossa espiritualidade a particular espiritualidade que o Fundador viveu. É um modo específico de entrarmos em contato com Deus, comum a todos nós – membros da mesma família religiosa, que brota da nossa identidade comum. Toda outra pessoa que participa dos mesmos dons e vive comigo torna-se canal normal e precioso, meio constante e privilegiado que Deus escolheu para manifestar-me a sua vontade e cumular minha vida com seus dons.

Parece, contudo, que ainda não temos consciência desta verdade. Realizamos, juntos, muitas coisas na comunidade, mas ainda nos falta a espontaneidade de, juntos, procurarmos a Deus e nele procurarmos também o nosso desenvolvimento total. Temos ainda dificuldade de “participar aos outros a nossa experiência de Deus”. Moramos em quartos vizinhos, permanecemos juntos de boa vontade, talvez somos até guiados pelos mesmos interesses, mas a experiência mostra que cada um percorre o seu caminho individual, enfrenta seus problemas e dificuldades, seus sucessos e fracassos, segue suas intuições e debate-se em suas dúvidas... Cada um busca a “sua” perfeição, o “seu” Deus, tão pessoalmente “seu”!

E quais são as conseqüências? O isolamento espiritual torna insignificante o nosso viver comunitário, ao ponto de provocar até mesmo a morte da comunidade. Se não há espiritualidade comunitária, não há verdadeira comunidade, não pode reinar a comunhão, dado que a comunhão começa com a participação dos dons do Espírito.

Devemos aprender a criar comunhão em torno da Palavra de Deus e do carisma, de acordo com as sugestões e orientações do Espírito, de sorte que estas sugestões e orientações se transformem, por sua vez, em alimento espiritual para todos. Quanto mais alguém faz experiência de Deus e gosta de permanecer junto dele, de gozar de sua intimidade na oração, mais facilmente descobre que também os outros estão perto de Deus e, portanto, mais perto também dos irmãos e irmãs.

Espiritualidade comunitária significa “deixar que os outros entrem no meu relacionamento com Deus”. Os jovens de hoje, que andam à procura da própria identidade, sentem-se fascinados pelas comunidades que mostram efetivamente que é possível viver uma vida fraterna bem unida, baseada no encontro com Deus. Eles se admiram em ver como a Palavra de Deus e a íntima união com ele, através da oração, exerce profunda influência sobre as pessoas, a tal ponto de chegar a plasmá-las segundo determinada identidade, firmando nelas a razão que lhes dá força de viver e de partilhar a vida com grupos de pessoas tão diferentes uma das outras.

Nosso carisma é um dom que todos nós recebemos. Cada um lhe focaliza e interpreta um determinado aspecto. É como se fosse um mosaico, do qual cada um de nós é uma peça. Somente o testemunho comunitário é que tornará o mosaico completo. Os que tiverem aprendido a participar na comunidade serão também capazes de comunicar, com simplicidade e naturalidade, sua herança espiritual aos jovens que procuram o caminho da vocação. Foi a comunidade e seu aspecto de participação que os preparou e os tornou capazes de oferecer este precioso serviço.
Se em nossas comunidades soubermos viver a espiritualidade comunitária, o desejo de participar com os irmãos e irmãs os dons recebidos há de eliminar o silêncio que nos isola e divide, que nos impede de vivermos mais perto uns dos outros, de sermos profetas uns dos outros.

Espiritualidade apostólica

Por fim, Cencini fala da espiritualidade apostólica como sendo a chave para interpretar, compreender e viver melhor a espiritualidade do nosso cotidiano. A pessoa consagrada descobre sua identidade e sua vocação no encontro com o Deus vivente, na oração. Descobre o Deus que envia e descobre também a si mesma, que é enviada. Diariamente, na oração e na meditação da Palavra de Deus, ela descobre sempre mais a novidade da sua missão e a maneira de desempenhá-la. Ciente do dom recebido, sabe que deve oferecer a todos aquilo que o Espírito lhe revelou, para que também outros descubram e gozem do mesmo dom.
A pessoa consagrada não pode viver duas vidas: a vida “espiritual” do seu relacionamento pessoal com Deus e a vida “apostólica” de serviço e de interesse da vida dos outros. Se a nossa espiritualidade não influir sobre a nossa missão, seremos ineficientes.

Nosso carisma, nossa espiritualidade, nossos programas ascéticos o que ofereceram ao nosso mundo? Até parece que nem mesmo as pessoas mais próximas a nós tenham sido influenciadas. Servimos os outros ou pedimos seus serviços; eles, entretanto, não têm parte nos nossos tesouros, como se somente a nós “fosse dado compreender”.
A espiritualidade não acessível ao homem comum é falsa, está fora do caminho; a espiritualidade que não é expressa com palavras facilmente compreensíveis, de sorte que também o menor e o mais ignorante de todos a possam compreender, não é verdadeira.
Este é o tipo de espiritualidade que nós, religiosos, somos chamados a viver diariamente – afirma Amadeu Cencini. Se o que dissemos é verdade, que tipo de animador missionário-vocacional nós somos chamados a ser?

A identidade do animador, da animadora

Animador/a é a pessoa que sabe que foi chamada, não por ser melhor que os outros ou as outras, mas porque escolhido/a para realizar uma missão na vida. E, como Maria, responde: “Sou o servo (a serva) do Senhor. Cumpra-se em mim a tua palavra”. Sabe perfeitamente que não pode dar o que não tem; por isso, permanece constantemente aberta ao Espírito Santo, de quem recebe a força para realizar seu contínuo crescimento.
O animador é uma pessoa simples, que vive em profundidade, humilde, pobre, disponível, serena, iluminada por luz interior: luz que irradia a divina bondade e gentileza de Deus; é pessoa que se curva sobre os outros e procura amá-los profundamente, a fim de que também eles possam adquirir a experiência do amor de Deus; é pessoa que sabe ouvir “o grito dos pobres” que vivem nas trevas e na escravidão; pessoa disposta a doar-se sem reserva, para que as vidas dos irmãos sofredores ainda adquiram um significado; pessoa que vive, porque fez a experiência da vida; pessoa que ama, porque fez a experiência do amor; pessoa que tem consciência de ser um simples instrumento à disposição de Deus, disposta a preparar o terreno onde a semente da vocação será plantada... Enfim, não se preocupa com sucessos ou fracassos, sabe que tudo está nas mãos de Deus. É dele que vem a vocação: ele chama aqueles que quer.

Animador/a é a pessoa profundamente enamorada de Deus; e movida por este grande amor, sente-se impelida a dar o melhor de si àqueles que serve, pondo a serviço dos outros os dons e talentos recebidos de Deus. Animador vocacional e missionário é o homem de oração, que fez uma profunda experiência do amor de Deus e sabe quanto seja necessário ser continuamente sustentado e guiado por aquele Amor. Vive sua vocação com alegria, procurando testemunhá-la e partilhá-la também com os outros. Não tem medo de sorrir e de rir, porque sua segurança se baseia no fato de saber que é amado. Tem consciência clara de pertencer a uma família que o ama, que está pronta a defendê-lo, a sustentá-lo na caminhada, até à plena realização de seu chamado. Fala com gosto de sua família religiosa. Sabe transpor os confins: os confins geográficos e outros que separam, isolam, discriminam e fecham. Sabe ultrapassar estes confins, porque esta é a medida de sua doação a Cristo, doação que o animador é chamado a imitar.
O animador/a escolheu Maria como modelo de compaixão, gentileza, bondade, disponibilidade, coragem, simplicidade e amor materno. Enfim, confia plenamente em Deus em todas as coisas e circunstâncias.

As características de um animador/a vocacional

É capaz de entender, de apreciar e de aceitar a sua própria cultura, para enriquecer-se de seus valores, como é capaz de entender, apreciar e aceitar também as diferenças de outras culturas. Deseja crescer no seu relacionamento com Deus, para poder falar aos outros deste seu relacionamento pessoal com ele. Partilha os valores do Reino, não apenas os seus valores pessoais. Crê que vive numa comunidade em companhia de outros irmãos de vocação, para testemunhar o amor e partilhar os dons concedidos por Deus a cada membro da comunidade, para que todos se ajudem reciprocamente no crescimento espiritual. É capaz de “abandonar” seus planos pessoais para tornar-se “instrumento de Deus” em benefício do Reino. É capaz de partilhar com outros seu caminho de fé.

 

Irmã Joe Marie William, MC

Última Atualização ( 10 de Abril de 2006 )

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