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As motivaçôes Vocacionais PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Aquiléo Fiorentini, imc   
10 de April de 2006


Introdução

O tema da motivação é compreendido como uma das noções centrais da psicologia da personalidade, algo de suma importância no comportamento humano e na opção de vida das pessoas.
Na sociedade de hoje, constata-se que as tensões e os conflitos de ordem psicológica e moral crescem na população em gAS MOTIVAÇÕES VOCACIONAIS ral, com o perigo de criar desequilíbrios psíquicos e desadaptação nos que nela vivem e atuam. As jovens geAS MOTIVAÇÕES VOCACIONAIS ações, bombardeadas a cada momento por mil propostas diversas, procuram respostas AS MOTIVAÇÕES VOCACIONAIS ara cada estímulo que os meios de comunicação social lhes oferecem.

Nós queremos formar homens maduros, serenos, capazes de ser ponto de referência para o mundo de hoje. Por isso, do missionário – sacerdote ou irmão religioso – se requer uma psique bem equilibrada, suficientemente integrada e com válidas motivações, para que possa ter condições de propor aos outros os valores religiosos e morais com segurança, sem fazer concessões àquela sociedade que coloca em discussão esses mesmos valores.

A vocação sacerdotal e religiosa, enquanto tal, é um dom sobrenatural que não é objeto de um exame psicológico, e ao mesmo tempo se manifesta através de sinais, como a reta intenção e as capacidades do candidato, que são dons de Deus. Estes sinais podem também, sem dúvida, ser objeto de pesquisa humana. O ato humano, de fato, considerado também em sua dimensão sobrenatural, é uma realidade que pode ser examinada, não certamente em sua totalidade, mas em suas várias manifestações.

São muitos os que, em nossos dias, abandonam os compromissos vocacionais assumidos. Pode-se perceber que na raiz de tal abandono há uma “doença” de caráter “motivacional”, ou seja, o desconforto causado pelo enfraquecimento das motivações que davam sentido à opção feita.
A Igreja, e com ela também o nosso Instituto, preocupa-se com os candidatos que se apresentam em suas fileiras e deseja que sejam convenientemente conhecidos, sobretudo quanto às motivações. Hoje, mais do que nunca, em tempos de “pensamento débil” ( ), por causa das condições sociológicas e culturais ( ), e particularmente pela fragilidade psicológica das gerações mais jovens, é necessário que as motivações vocacionais dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa sejam estudadas com atenção e competência.

A avaliação de uma vocação não pode ser fundamentada somente sobre o gosto ou atração pelo sacerdócio ou pela vida religiosa, mas sobre a capacidade real do indivíduo de aceitar as obrigações inerentes a tais estados de vida sem transtornos repentinos. Padre Albert Plé, há décadas, mas ainda atual, já chamava a atenção para uma dolorosa constatação: um discernimento insuficiente das vocações cria vítimas, condenando-as a uma vida não somente difícil, mas também dramática, e muitas vezes sem saída, quando o indivíduo chega ao sacerdócio. O sujeito que revela demasiadamente tarde – psicologicamente incapaz para o sacerdócio e a vida religiosa – encontra-se perante uma vida intolerável, tanto para si como para o seu ministério; tornar-se-á igualmente um peso que a comunidade deverá suportar e, muitas vezes, também um desespero para os seus superiores ( ). Tais situações catastróficas poderiam ter sido evitadas, ao menos em parte, mediante um sério exame que considerasse todas as componentes psicológicas da vocação dos candidatos, antes de entrarem no seminário ou no noviciado. Portanto, as motivações devem ser examinadas de modo sério e em profundidade.

O que são as motivações? Quais são as que trazem bem estar, realização e bons frutos para as pessoas que fizeram a opção pela vocação religiosa e sacerdotal? Quais são as motivações autênticas e as que julgamos serem autênticas, mas que na verdade não passam de máscaras que encobertam desejos ou projetos procurados de modo inconsciente?
Queremos deter-nos sobre as motivações, a fim de iluminar os candidatos à vida sacerdotal e religiosa, como também os que devem acompanhá-los no discernimento, isto é, os formadores ou superiores que na Igreja e no Instituto exercem tal serviço.

I. AS MOTIVAÇÕES NO FENÔMENO HUMANO E VOCACIONAL

Do ponto de vista psicológico-comportamental as teorias sobre motivações são muitas e de natureza diversa, ao ponto de tornar cansativo o estudo de qualquer quadro conseqüente e evolutivo. Albino Ronco procura dar-nos uma síntese, dizendo: “A especificidade da motivação é bem compreendida quando se considera a conduta como uma relação do organismo psico-físico com o seu ambiente; tal organismo tem uma estrutura própria (fisiológica, psíquica, social, existencial), que tende a conservar-se e a desenvolver-se em contato com o ambiente. As exigências de tal estrutura, enquanto sentidas e vividas pelo indivíduo, constituem a motivação” ( ). Portanto, “por motivo entende-se todo fator interno que inicia, dirige e sustenta, no tempo, a procura da satisfação de uma exigência do organismo, e sensibiliza seletivamente rumo aos objetos relacionados com tal satisfação” ( ).
O termo motivação “cobre uma série de outras palavras da linguagem comum: intenção, desejo, fim, interesse, móbil, escolha, preferência... Todos termos que indicam que o comportamento segue uma direção que lhe foi impressa antes que se manifestasse. A motivação é aquilo que é capaz de “movimentar” o sujeito. Indica uma soma de motivos e de expectativas que impulsionam para o agir /.../. Motivação é um termo cumulativo: cada comportamento significativo é originado por uma pluralidade de motivos mais ou menos conscientes e centrais” ( ). A motivação considera também os motivos emotivos e os racionais, que acompanham a pessoa no ato de tomar uma decisão e, conseqüentemente, de agir.

1. Motivações homeostáticas e anti-homeostáticas

Os psicólogos que estudam o comportamento humano propuseram muitas e diferentes teorias sobre motivação, originadas pela própria concepção que se tem de homem. Duas são as teorias que sobressaem: motivações homeostáticas e motivações anti-homeostáticas.
Nas teorias homeostáticas o homem é considerado como um sistema fechado, interessado unicamente em conservar e estabelecer o seu próprio equilíbrio interior; é fundamentalmente passivo e, portanto, reage aos estímulos que recebe do ambiente ou de forças psicológicas impessoais. Os motivos considerados primários são os fisiológicos, impulsivos, de defesa, que favorecem a conservação psicofisiológica do organismo. Todos os outros motivos que parecem levar o homem à procura de informação, de contato com os outros, de busca de valores, etc., são considerados motivos derivados, usados como meio para satisfazer as necessidades primárias. Neste sentido, existe a convicção de que o único mecanismo “motivacional” realmente eficaz é constituído pela eliminação de um estado orgânico deficitário ( ). Segundo tal teoria, os seres humanos possuem, desde o nascimento, alguns impulsos ou instintos biológicos de base que motivam os indivíduos a se comportarem de determinados modos. De acordo com esta concepção, o papel dos educadores-formadores seria o de ajudar os alunos-formandos a controlarem e a orientarem tais impulsos. O indivíduo é impulsionado a aprender comportamentos que trazem gratificação e a repeti-los todas as vezes que se encontra perante a mesma situação de tensão. A lei do reforço garante o aprendizado. Em última análise, o comportamento está sempre e de qualquer maneira ligado a uma satisfação primária, que pode ser controlada e guiada através de recompensas, gratificações externas, como prêmios, presentes, ou também promessas e juízos positivos. A causa fundamental do comportamento se encontra fora e não dentro da pessoa. Ou, segundo Freud, no inconsciente do homem, tema forte da teoria da psicanálise. As representações permanecem inconscientes, mas operantes na pessoa. A partir disto, devemos ter consciência de que “um pensamento latente ou inconsciente não é necessariamente frágil, e que a presença de um tal pensamento na psique permite o acesso a provas indiretas das mais convincentes, cuja força persuasiva é quase igual à da prova direta fornecida pela consciência” ( ). O inconsciente, para esta teoria, constitui a base das motivações. Pode-se afirmar que é a sede das forças dinâmicas que dirigem direta ou indiretamente os comportamentos e tentam exprimir-se e manifestar-se ao nível da consciência. Através destas teorias, percebe-se que se faz um esforço de retorno ao passado para encontrar nele as razões do comportamento presente.

Nas teorias anti-homeostáticas, o homem é considerado como “ser-no-mundo”, radicalmente aberto a ele. O sujeito se lança para fora de si, superando efetivamente a si mesmo, alcançando o mundo repleto de outros seres com os quais entra em relação e cria significados ( ), um mundo que compreende a área dos significados e dos valores, que constituem, em última análise, os motivos que movem o homem no seu agir ( ). As dinâmicas fundamentais do homem não são apenas as instintivas, mas as produzidas através de uma integração de operações motoras, “motivacionais”, cognitivas e afetivas. No âmbito da psicologia humanista se acentua o devir do indivíduo, e se afirma que ele é sustentado por forças interiores direcionadas para um objetivo, definido como ideal de integração ou de unificação da conduta numa estrutura orgânica coerente. Para Allport ( ), o estado normal de um indivíduo não é a passividade, mas a atividade que é automática e funcionalmente independente dos antecedentes fisiológicos e impulsivos; os atos do indivíduo são portadores de motivação própria, autônomos (teoria dos motivos mutáveis). Nestas teorias caminha-se cada vez mais rumo a motivações superiores e transcendentes.
Maslow introduziu o conceito de “crescimento motivacional” ( ). O comportamento motivado pode ter como ponto de referência uma necessidade. Mas existe uma hierarquia de necessidades que vão desde as fisiológicas à necessidade de auto-realização; o indivíduo desenvolve as próprias motivações segundo tal escala ascendente. Toda sua vida é um processo dinâmico de crescimento contínuo. A vocação do indivíduo à auto-realização se fortalece com a confiança nas potencialidades da natureza humana e com uma grande carga de otimismo.
A motivação é determinante para a realização de tal processo. Os aspectos cognitivos e emocionais, que estão inextrincavelmente ligados entre si, têm um papel importante no campo das motivações (modo de estruturar e organizar a experiência). Deste ponto de vista a motivação é diretamente influenciada pelas convicções dos indivíduos no que diz respeito ao seu valor, às suas habilidades ou aptidões, aos objetivos, às expectativas de sucesso ou de malogro, aos sentimentos positivos ou negativos (ex. curiosidade, ânsia) que derivam dos processos de auto-avaliação. A emoção parece ser, para Perls, a força fundamental que infunde energia a toda a nossa ação ( ).

Viktor Frankl vai além e diz que a tensão não pode ser evitada; mais ainda, o homem necessita dela. O homem “pode muito bem limitar-se à realização de si mesmo e às suas possibilidades, sem partir em busca da realização de significações e de valores: tudo já estaria em ordem, tudo estaria em seu lugar, ao menos na forma da própria possibilidade de realização” ( ). Contudo – continua Frankl – “sabemos muito bem que a tensão entre o ser e a significação é radicada de tal forma, que não pode ser eliminada na existência do homem” ( ). Tal tensão é chamada por Frankl “vontade de significado”, que é a mesma vontade que ele experimentou nos ‘lager’, e aquilo que encarna substancialmente as condições existenciais do homem e a sua necessidade espiritual eletiva. Tal “vontade de significado” impulsiona o indivíduo a procurar não o equilíbrio homeostático, mas a realização da significação. Ele dá muita atenção à intencionalidade do comportamento humano, pela qual a conduta do indivíduo se orienta, com base na meta a ser alcançada, privilegiando a autotranscendência como característica peculiar. Para ele, a totalidade do homem não é somente psico-física, mas também espiritual, e o inconsciente é uma parte fundamental de tal totalidade. Compreendemos que o homem é percebido como um ser livre e responsável na sua individualidade singular e multiforme: uma tarefa aberta. O homem, como sistema aberto, sente-se interiormente chamado a procurar e a viver formas “superiores” de motivação humana ( ).

No homem existe sempre um confronto dialético entre motivos “superiores” e os assim chamados motivos “inferiores”. As motivações “superiores”, próprias do adulto, segundo as várias contingências de tempo ou de lugar, são perturbadas e também subjugadas pelas motivações de tipo “inferior”, cuja dinâmica parece sustentada pelos mesmos princípios arcaicos que regulam as motivações da infância. Tudo isso constitui uma sólida base para compreender como a psique humana está naturalmente orientada para valores superiores que a convidam a encontrar sua plena realização na superação de si mesma.

2. Motivações intrínsecas e extrínsecas

O ser humano é naturalmente inclinado a empenhar-se em comportamentos conscientes, motivados e orientados para um fim.
A motivação será intrínseca quando tende, sobretudo, a favorecer o crescimento, o desenvolvimento e a superação dos níveis já alcançados.
A motivação será extrínseca quando conduz as pessoas para uma ação da qual se esperam prêmios, louvores, dinheiro, títulos de reconhecimento que têm pouco a ver com a natureza da própria atividade. As motivações extrínsecas do comportamento implicam, como suporte funcional, formas de controle que outras pessoas exercem sobre o indivíduo. Este caráter das motivações extrínsecas implica em riscos potenciais, dos quais é preciso ter consciência, porque podem reprimir todos os impulsos provenientes das motivações intrínsecas, contanto que o empenho não deixe de ser um meio para conseguir outros fins. As interpretações, em termos “motivacionais”, devem ter em conta as experiências interiores realizadas pelos indivíduos, quer de tipo cognitivo quer emotivo.

Cada comportamento assenta sobre uma motivação: positiva, se conduz o indivíduo à plena afirmação de si mesmo; negativa, se o deixa arrastar-se passivamente, por motivos inconscientes, rumo à sua desestruturação ou até destruição.

3. As motivações na ação

Com certeza, o indivíduo tomará consciência da presença ativa de uma motivação, quando há um objetivo a ser alcançado. É importante sublinhar que a motivação é um fenômeno dinâmico que age como um impulso do comportamento humano. É um estímulo, uma força que provém tanto do ambiente exterior como do mundo interior, que lança o indivíduo rumo a um objetivo a ser alcançado e que corresponde à satisfação de uma necessidade. O fator fundamental da psicologia “motivacional” não é o organismo que age de qualquer modo, mas o fato de que sua atividade é seletivamente orientada para um fim preciso.

Orientação de defesa – Poucas pessoas têm a possibilidade de integrar harmoniosamente todos os componentes biológicos, psíquicos e espirituais da personalidade para utilizá-los estavelmente no autêntico e alegre dom de si e na conquista dos valores. Os problemas não enfrentados permanecem e se manifestam de modo mascarado, perturbando o desenvolvimento harmonioso; de fato, aquilo que não é integrado, torna-se fonte de divisão interior e provoca reações defensivas. Nas situações problemáticas, conflituosas ou frustrantes, a pessoa responde com uma conduta reativa, que deixa a iniciativa à situação e se reduz à aplicação automática e cega do comportamento precedentemente adquirido.

Orientação de crescimento – Na teoria que os humanistas chamam de “pró-ativa”, a pessoa é normalmente governada por forças interiores pessoais que nascem do conhecimento, ou pelo menos da intuição de um bem futuro rumo ao qual se caminha. A pessoa, neste caso, é governada por um “projeto” que geralmente dá início a uma atividade, e é ela mesma a fonte dos atos. Em cada momento, o espírito humano é ativo e ao mesmo tempo debruçado e empenhado continuamente no julgar, comparar, compreender, amar, desejar, evitar. O homem é ativo por iniciativa interior, com princípios interiores que lhe permitem autodeterminar-se e autoconstruir-se.

Podemos assim dizer que a motivação vem da síntese dos fatores dinâmicos da personalidade que guiam uma ação rumo a determinada meta, percebida como valor, que ajuda a pessoa a crescer em todas as suas dimensões, particularmente em busca das dimensões que dão à vida um significado “superior”. O homem sente a necessidade de dar um sentido à sua existência e de unificar os vários fins para os quais tendem as condutas particulares, para reconduzi-las a uma única meta.

4. Classificação e efeitos da satisfação ou não das necessidades

As necessidades, segundo Goya ( ), em grandes linhas, dividem-se em fundamentais ou básicas, em superiores ou de crescimento.
Necessidades fisiológicas: a conservação do próprio “eu” e da própria espécie.
Necessidades psicológicas: necessidade de conhecimento, de uma justa estima de si, de segurança...
Necessidades sociais: necessidade de relações interpessoais satisfatórias, de pertença, de amizade, de domínio...
Necessidades superiores ou de crescimento: necessidade de auto-realização, de um alto nível de aspiração, de dar sentido à vida...

Efeitos positivos da satisfação das necessidades – Maslow enumera muitos. Indicamos sinteticamente alguns: sentimento de saciedade física e, como subprodutos: bem-estar, saúde, energia, euforia; sentimento de segurança: serenidade, paz, proteção, auto-estima, confiança em si mesmo e na própria habilidade; sentimentos de amor e de pertença ao grupo: ser aceite, sentir-se bem consigo mesmo; melhoramento na visão dos problemas e do mundo, tornando-se mais aberto e verdadeiro, menos demolidor de si mesmo e dos outros; tolerância das diferenças individuais e com o mesmo interesse e aprovação das mesmas com um maior sentimento de fraternidade, de respeito e de amor pelos outros; movimento rumo à vida espiritual mais elevada, com esperança e interesse pelo futuro; maior freqüência de êxtase, de experiências culminantes, de emoções intensas e de experiências místicas ( ).

Efeitos negativos da insatisfação das necessidades – O ser humano é capaz de resistir longamente em situações mais ou menos adversas, nas quais a satisfação de uma ou várias necessidades são negadas ou adiadas indefinidamente. Mas quando esta situação se prolonga, ele não consegue habitualmente manter a sua normalidade e se refugia facilmente nas atitudes neuróticas e compensadoras, nas quais é provisoriamente incapaz de enfrentar as próprias ânsias e conflitos. Os seus efeitos se manifestarão em sintomas semelhantes a estes: inquietude, mal-estar, tensão, irritabilidade, um estado de agressividade difusa, especialmente quando encontra uma preciso impedimento para a consecução da gratificação; diminuição da qualidade e regularidade no rendimento e, como conseqüência, dificuldades na concentração. A reação do indivíduo, dependendo de seu temperamento, poderá ser de «ativismo» ou de «depressão», de falta de vontade e de desejo de fugir de tudo; aumento artificial, mas urgente, de outras necessidades. O sujeito poderá reagir abaixando o nível de aspiração e procurando compensações negativas e satisfações imediatas nos abusos alimentares, sexuais ou afetivos, como fazem habitualmente as pessoas incapazes de autocontrole. As pessoas maduras, por outro lado, recorrem a comportamentos construtivos como: “hobbys”, passeios, leituras, encontro consigo mesmas no silêncio.
A resposta autêntica, naturalmente, consiste somente em tomar consciência da própria situação e retornar à gratificação das autênticas necessidades humanas e cristãs.

5. A motivação no cristão e no vocacionado

A motivação permeia todos as dimensões da vida do homem, incluindo a transcendente ou religiosa propriamente dita. No âmbito religioso, o ser humano procura o caminho da salvação, um caminho para a realização daquilo que é chamado a ser; faz uma peregrinação existencial na qual se empenha com a convicção que tal empreendimento o ajudará a alcançar a meta final da própria vida.
A psique humana é naturalmente orientada para os valores superiores que a convidam a encontrar a sua plena realização na superação de si mesma. Partindo deste princípio, o discurso sobre os valores espirituais e sobrenaturais, o fim último do homem, o significado da religiosidade concebida como encontro com Deus, se desenvolve sem parar. É assim que o estudo da motivação para a vocação consagrada e sacerdotal afunda suas raízes no húmus da psique humana, na qual Deus colocou o desejo veemente de se lançar rumo ao Eterno.

Quando pensamos na personalidade religiosa de um ser humano, pensamos numa vida “virtuosa” que no sentido pleno da palavra pode constituir-se somente sobre um terreno psicologicamente sadio e integrado. As «atitudes de base» positivas (confiança, autonomia, iniciativa, etc.) constituem o suporte do desenvolvimento das «virtudes naturais», da possibilidade de relações interpessoais criativas, da capacidade de doar-se aos outros e portanto a Deus. Estas disposições humanas são o terreno mais propício para a integração da religião por parte do indivíduo ( ). Ter uma personalidade religiosa significa assumir sempre mais uma atitude consciente em relação a Deus, participar sempre mais da sua Vida, estar presente n’Ele por meio de todas as coisas e para além de todas as coisas ( ).

Das motivações psíquicas às motivações religiosas – Até que ponto um jovem, colocando em prática a decisão de abraçar a vida religiosa, está verdadeiramente consciente, livre, e movido pela virtude religiosa? Isto acontece quando a pessoa passa da conversão de vida à decisão vocacional. Tal processo inicia com a conversão intelectual, passa pela conversão moral e religiosa, reconhecendo nesta última o fundamento de uma decisão de vida, na motivação transcendental ( ). Condição fundamental é a passagem do estado «psíquico» ao estado verdadeiramente «espiritual», pois a vida religiosa e sacerdotal, na qual nos empenhamos com a conversão religiosa ou sacerdotal, não se limita ao nível do psicológico, mas do transcendente.

Concluindo esta parte, podemos dizer que a motivação tem um lugar de importância inestimável na vida dos jovens, pois é ela que desde a tomada de decisão de seguir o chamado divino até atingir a meta, além de iniciar, canaliza e sustém o empenho, em todo o momento.

II. A QUALIDADE DAS MOTIVAÇÕES

Embora o psicólogo não possa ou não pretenda diagnosticar com as suas técnicas a presença ou ausência de um chamado divino, pode, pelo menos, provar, através dos instrumentos que tem à sua disposição, a maior ou menor liberdade, a qualidade e a autenticidade das motivações vocacionais (validade, insuficiência, inaptidão) e os interesses dos candidatos, o conhecimento de sua idoneidade, a sua maturidade psico-social-afetiva, a presença ou não de uma hierarquia de valores com predomínio bem diferenciado dos valores religiosos e sociais e a possível presença de elementos patológicos. Uma diagnose da personalidade do indivíduo pode, de modo particular, oferecer aos mesmos jovens os elementos para compreenderem a si mesmos e para detectar, de modo ativo, quanto pode constituir um obstáculo à realização do próprio chamado.

Os principais fatores que estão diretamente envolvidos no dinamismo das motivações são as necessidades e os valores.
As necessidades eqüivalem às tendências inatas que constituem as raízes das motivações e são comuns a todos os homens.
Os valores são representados pelos ideais rumo aos quais o indivíduo entende caminhar, são realidades objetivas, independentes do pensamento humano, e se referem tanto ao comportamento atual, quanto à meta final da existência. Se forem assumidos de modo ativo, tornam-se valores subjetivos e passam a dirigir tanto o pensar quanto o agir, capacitando o indivíduo de um poderoso dinamismo e de uma atração íntima capaz de liberar, de canalizar e de integrar as fortes energias impulsivas e passionais.

Para ser fonte eficaz de motivação não é suficiente que o valor seja vivido no plano cognitivo ou racional, mas deve envolver também a parte afetiva. Somente assim, os “objetos-valor” (plano cognitivo) se transformam em “bens-valor” que invadem a totalidade da pessoa e a atraem na direção da conquista do ideal, sentido como um bem pessoal (plano afetivo). Os valores vocacionais (que são transcendentes), aceitos e assumidos pelo indivíduo, dão uma dimensão particular à visão de toda a realidade, constituem um impulso que leva a superar as tendências egocêntricas, colocam o homem em confronto com o além e se traduzem numa disposição sempre mais madura para realizar a opção definitiva. Nesta opção definitiva o candidato encontra na realização dos valores próprios da vocação religiosa o seu acabamento e a sua realização. Neste sentido, pode-se concluir que a auto-realização em Cristo não é procurada nem em vista do culto da personalidade (podendo implicar um egoísmo escondido), nem para a auto-satisfação das próprias necessidades. A auto-realização é um efeito, uma conseqüência da auto-transcendência, do cumprimento de uma significação na realização de valores que vão além do “eu” egocêntrico e seguem os convites do “eu” ego-transcendente ( ). O Deus que chama, por puro amor, torna o homem livre para responder e transcender-se. O homem que acolhe o convite e responde, exercita a sua liberdade de expressão, o seu amor para com Deus, auto-realizando-se na auto-transcendência. Ponto máximo de realização desta liberdade humana é o enamorar-se de Deus, quando o homem é capaz de auto-transcendência, que é recebida como dom do próprio Deus, e renuncia a tudo quanto se põe abaixo de tal nível (elementos que podem atrair e distrair).

Como vimos acima, existem fundamentalmente três grupos de motivações: biológicas, sociais e de valor. A opção religiosa se apóia sobre motivações de valores, porque existe em todo o ser uma profunda necessidade de transcendência. O dom de Deus pressupõe, antes de mais nada, que seja acolhido na fé, que é a primeira motivação que põe o alicerce de adesão do homem à iniciativa de Deus, capaz de transformar toda a vida.

Examinar as motivações é o primeiro critério para avaliar uma vocação. Nos últimos decênios verificou-se a passagem de um psicodiagnóstico, que procurava encontrar indicações positivas e contra-indicações relativas à personalidade dos candidatos (atitudes, interesses, equilíbrio psíquico, etc.), à fase psicodinâmica e social, na qual os psicólogos se interrogam de maneira mais aprofundada sobre as motivações e respectivas condições que permitem enfrentar melhor as dimensões de uma vocação.

III. O DISCERNIMENTO DAS MOTIVAÇÕES

Sabemos que as motivações raramente são simples. Cada comportamento significativo é originado por uma pluralidade de motivos mais ou menos conscientes e centrais. As motivações conscientes podem encobrir tendências escondidas, recônditas e desconhecidas. As motivações naturais se misturam inevitavelmente às motivações de fé. Não obstante isto, o importante é que as motivações dominantes sejam sobrenaturais. Quanto mais predominante for o papel das motivações sobrenaturais, mais a pessoa se sentirá segura do chamado de Deus ( ).

O discernimento tem por objetivo clarificar e descobrir se subsiste a motivação fundamental ou o valor dominante de uma vocação, que é a pessoa de Cristo. Quando dominam as motivações inconscientes, a pessoa pode ir ao encontro de dificuldades muito sérias. Neste sentido devemos considerar seriamente o que diz Rulla: “Não podemos aceitar os valores a partir do modo como se nos apresentam os indivíduos no momento da entrada na vida religiosa; é preciso considerar também a motivação inconsciente” ( ), porque uma vida dedicada aos outros pode ser sustentada por um espírito de doação de si mesmo, mas também pela necessidade de busca de si próprio; o dom de si pode brotar de um amor maduro e oblativo, ou da incapacidade de viver um amor verdadeiramente humano, pois a disposição de sacrificar-se pelos outros pode ser expressão de um grande amor, como pode também brotar de uma atitude masoquista.

No discernimento, devemos tomar seriamente em consideração certos sinais ou critérios que podem discernir a autenticidade de uma resposta vocacional e que confirmam a sua presença:

a) a existência de verdadeira liberdade por parte do jovem, para que não vá em frente
sob pressão externa (é o primeiro passo a ser feito). Só depois se passará ao exame da sua liberdade interior (isto é, a autenticidade psicológica de suas motivações) e das motivações reais da sua vocação;
b) a reta intenção;
c) a idoneidade.

É preciso ver se a motivação se apresenta como uma energia interna que impele a pessoa para frente, ou se é simplesmente uma força que provém do ambiente. O essencial é verificar se aconteceu ou se está acontecendo na pessoa o encontro pessoal com Cristo, experiência fundamental de toda vocação, e se existe uma atração íntima, o desejo de seguir Jesus de forma absoluta.
Diversos outros sinais podem manifestar a autenticidade das motivações que deram fundamento à experiência feita pelo candidato, de ter sido encontrado por Jesus: o amor a Jesus, a sua relação com o Pai, sua proximidade com os pobres, a disposição de caminhar pelas suas veredas – pobreza, desprendimento, alegria, amor, sacrifício e disponibilidade, identificação com a sua ação evangelizadora, etc.
Deve também ser verificada a experiência eclesial vivida pelo candidato, para conhecer sua verdadeira vocação comunitária e saber se tem uma abertura ao mistério e à mediação da Igreja – continuadora da vida e missão de Jesus.
Outro aspecto importante: verificar quais são os referenciais nos candidatos acerca da vida do ser humano, do mundo e seus problemas, e como se sentem solidários na construção da nova humanidade.

É necessário transcender os atos e os resultados imediatos para saber colher a atitude de fundo, o essencial na estrutura da personalidade, a capacidade de superar o nível sensível da satisfação imediata, para fazer convergir as potencialidades do ser sobre os valores espirituais-religiosos, e a direção prevalescente das aspirações do indivíduo que possam oscilar entre dois pólos: do egocentrismo à tensão e disponibilidade total para com Deus, através da doação desinteressada ao irmãos; da ansiedade, da obstinação e do ativismo ao abandono a Deus e à sua vontade na atividade criativa e fecunda; do apego ao material, ao sensível, à letra, ao sucesso imediato à espiritualidade, ao desapego afetivo, ao amor oblativo; da evasão do real e do espiritualismo ao empenho efetivo, realista e sereno nas responsabilidades de cada dia, radicado numa vida de intensa oração ( ).

1. Motivações autênticas

Temos motivações autênticas quando os valores “motivacionais” são vistos, percebidos e reconhecidos pelo indivíduo que os vive e age de modo conseqüente, demonstrando a maturidade das suas estruturas psíquicas. Em termos psicológicos, chamamos tais motivações de autênticas, porque revelam o que de fato são. Nem todas as motivações autênticas são válidas para a vocação sacerdotal e religiosa. As motivações psicologicamente autênticas, que devem estar na base de uma verdadeira vocação, são portadoras de conteúdo sobrenatural, fundamentadas sobre a consciência de um chamado divino e sobre o desejo de se dedicar ao amor e serviço exclusivo de Deus e do próximo.

Constata-se geralmente que existe uma relação positiva entre motivações conscientes, autênticas, pró-ativas e o crescimento na escolha e eficácia da vida consagrada e sacerdotal. São as motivações adequadas à vida religiosa e sacerdotal. A pessoa movida por motivações adequadas tem conhecimento da própria doação, é capaz de amar o outro realisticamente, tal como é.

Há motivações autênticas, mas insuficientes para a vida sacerdotal e religiosa. São as que põem em primeira linha as vantagens pessoais do candidato. Não são motivos maus, em si mesmos. Mas não se pode fazer do sacerdócio ou da vida religiosa um meio de promoção pessoal. Quem assim se comporta, inverte a ordem justa, colocando o Senhor ao seu serviço. Estas motivações se encontram particularmente nos indivíduos que se lamentam da vida religiosa ou do seminário, acusando-os de pobreza de idéias, de formação pouco eficaz, de pouca união fraterna; buscam apoio sentimental, têm desejo de cultivar os próprios hábitos e «standing» intelectual, etc. Constata-se facilmente a presença dominante de motivações insuficientes de tipo egocêntrico nos indivíduos que abandonam a vida religiosa. Entre estes emerge a necessidade de afeto, de segurança, de sentir-se valorizados, de afirmar-se pessoalmente. Há predomínio do “eu menino”, o predomínio do emocional e do egocentrismo.
Existem também motivações vocacionais insuficientes, sem adequado amadurecimento, que se encontram nos indivíduos temperamentais, necessitados de vários tipos de compensações que podem representar contra-indicações para a vida sacerdotal e religiosa.

Temos, por fim, as motivações inadequadas, que são inválidas, porque mascaram outras razões de que provavelmente o indivíduo não tem consciência. Trata-se de motivos religiosos e, enquanto tais, válidos, mas trazem a marca de um só defeito: são invocados por razões erradas, porque não correspondem ao fim pelo qual são mencionados, como por exemplo: se alguém que se consagrasse ao Senhor ou se tornasse sacerdote como sacrifício expiatório para alcançar a conversão do pai.

Alguns sinais que ajudam a diagnosticar a presença ativa de motivações autênticas: uma personalidade sã, a consistência vocacional, a idoneidade, a caridade, a alteridade, a orientação rumo aos valores, a capacidade de aceitar-se, de realizar-se, a consciência de poder autodeterminar-se, a presença de uma boa consistência entre o “eu ideal” e os valores da vida religiosa e sacerdotal, a virtude da humildade, a atitude pró-ativa perante a vida, a possibilidade de viver com serenidade e plenitude humana a própria opção com formas e ritmos diversos, a capacidade de estabelecer relações estáveis e serenas, a gratidão.

Os efeitos que sobressaem da presença de tais motivações na pessoa do vocacionado são: equilíbrio e integração de interesses, conveniências e valores, autenticidade e veracidade dos motivos, transparência e auto-conhecimento do indivíduo, presença da área de liberdade na decisão do indivíduo.

2. Motivações não autênticas

Há tipos de motivações baseadas em valores percebidos pelo indivíduo, mas que não correspondem àquilo que verdadeiramente o move para a ação; são simplesmente substitutos (portanto, não autênticos), são máscaras de outros verdadeiros motivos que o indivíduo, por processo de remoção inconsciente, não reconhece. Parece ser animado por motivos, que na realidade são apenas fruto dos mecanismos de defesa postos em prática. A pessoa não toma consciência de que a sua inclinação e sua escolha não são fruto do valor que ele busca a nível consciente, mas o resultado da necessidade de resolver um conflito, ou de superar uma frustração por ele previamente removidos para o inconsciente.

Geralmente constata-se uma estagnação do crescimento, quando na base da escolha de vida há motivações inconscientes, não autênticas e reativas. Quando existe esse tipo de estrutura de motivações, baseadas na própria defesa, aparecem as incongruências e, portanto, uma falta de autenticidade. A incongruência existe quando há dissonância entre os valores, as atitudes vocacionais e as necessidades pessoais.

As motivações imaturas, muitas vezes, interceptam a resposta autêntica ao caminho vocacional. Por isso são inautênticas, porque originam estagnação do desenvolvimento afetivo que reconduz o indivíduo a comportamentos infantis. São geralmente as motivações egocêntricas, ligadas à reivindicação de afeto ou à necessidade inconsciente de possuir e dominar o outro. A realidade não é vista no seu valor intrínseco, mas como fonte de compensação das próprias frustrações e dos problemas afetivos inconscientes não resolvidos.

As pessoas que procuram o ideal da vida religiosa e sacerdotal movidas por motivações inconscientes, geralmente buscam: afeto, poder, reivindicações, gratificações, identificações que dão sensação de segurança; opções inconscientemente camufladas por motivos socialmente aceitáveis para satisfazer os instintos; busca de segurança, necessidade de ser sustentado, de ser valorizado, de dependência; postura de agressividade e medo da sexualidade; procura de compensações, de vantagens materiais, de salvação; idealização e dependência da mãe, etc.

As pessoas movidas por motivações inautênticas apresentam geralmente as seguintes características: adiamento contínuo de problemas, não encontrando modo estável de resolver os conflitos que se apresentam na vida normal de cada pessoa e a dificuldade de tomar decisões de modo sereno, manifestando perplexidade perante uma opção para a qual há muito tempo se preparava; interesses e pretensões de gratificação emotiva, medo da solidão; medo da diversidade, dos próprios limites próprios e dos outros. De um lado, um baixo nível de auto-estima, que seria atribuído a impulsos inconscientes ou a pressões do ambiente educativo; do outro, a preocupação com a auto-realização. Exalta-se o pólo subjetivo e descuida-se do pólo objetivo. Outras características são a divisão interna, o senso de culpa, o medo, a rigidez e a crítica.

3. Autenticidade psicológica de uma motivação para a vida sacerdotal e religiosa

Há autenticidade quando há congruência entre a motivação conscientemente professada e vivida, e as tarefas, os fins «objetivos» da vida consagrada e/ou sacerdotal (entre outros: a dedicação, o amor, a contemplação, o serviço). Neste sentido, vocacionalmente «autêntica» é a motivação que tende ao fim próprio da vida sacerdotal e religiosa e não aos fins de «cobertura psicológica». Tal autenticidade supõe que o fundamento da vocação seja o amor total e o serviço exclusivo a Deus e, conseqüentemente, o amor ao próximo em Deus. Esta é a essência de uma motivação vocacional autêntica: vontade profunda, embora de modo imperfeito, de pertencer totalmente a Deus.

O critério fundamental para verificar a autenticidade vocacional é o grau de liberdade de opção do candidato, o equilíbrio psicológico e, portanto, a qualidade das suas motivações.

Alguns critérios gerais que demonstram e ajudam, de modo mais objetivo possível, no discernimento da autenticidade das motivações vocacionais para a vida sacerdotal e religiosa:
- a motivação essencial é a pessoa de Cristo, como motivo primordial;
- ter reta intenção;
- ser idôneo;
- possuir uma estrutura de personalidade religiosa;
- ser capaz de fazer experiências religiosas autênticas;
- possuir as condições psicológicas de base para a religiosidade autêntica;
- possuir uma personalidade sã e integrada, que funcione bem;
- gozar de liberdade psicológica;
- ter consciência das motivações, aprovando-as e integrando-as no próprio sistema de
valores;
- chegar a uma plena maturidade humana, na qual a fé e a consagração devem proceder de
maneira uniforme, harmoniosa;
- possuir as atitudes de base positivas: confiança, autonomia, iniciativa, relações
interpessoais criativas, capacidade de doação pessoal aos outros e, portanto, a Deus;
- saber passar da conversão de vida à decisão vocacional;
- ter a capacidade de fazer uma opção por um compromisso definitivo da própria vida;
- ser capaz de um juízo reflexivo que permite agir com autodeterminação, de demonstrar
emotividade, de viver em comunidade;
- possuir motivações adequadas, etc.

4. Contra-indicações no plano “motivacional” à vida religiosa e sacerdotal

Como vimos acima, são as motivações insuficientes (que implicam motivos de vantagens pessoais, seja de ordem material como de ordem mais elevada, de desenvolvimento da personalidade, das próprias qualidades, ou de refúgio e fuga perante as dificuldades da vida, etc.) e as motivações inadequadas (que derivam de motivos religiosos e, enquanto tais, válidos, mas distorcidos, porque não respondem ao fim pelo qual foram assumidos).

IV. MUDANÇAS NAS MOTIVAÇÕES VOCACIONAIS

As motivações de uma vocação têm a possibilidade de modificar-se e podem evoluir: o jovem adulto se empenha com objetividade fazendo síntese entre as suas atrações e os seus desejos, entre a sua reflexão e sua vontade.

1. Crescimento das motivações

A visão psicanalista acredita muito pouco na capacidade de tomar nas mãos a própria vida para dar-lhe uma nova orientação, pois, na prática, pensa que é o inconsciente que tem as rédeas do comando sobre a pessoa.

A linha humanista responde ao problema do crescimento de modo diferente: através da teoria da autonomia funcional dos motivos, as motivações podem desenvolver-se e crescer, para levar a pessoa a gozar de bens superiores, a fruir novos gostos de viver, a responder positivamente a um convite, transcendendo-se e auto-transcendendo-se. Concentramos a nossa atenção sobre a personalidade normal, que se constrói a si mesma e desenvolve a própria vocação, realizando os valores, com o objetivo de ajudar os jovens a levarem ao amadurecimento o dom de Deus em harmonia com as exigências humanas pessoais. A vida religiosa e sacerdotal, pelas suas intrínsecas exigências de radicalidade, requerem pessoas suficientemente maduras, ou, pelo menos, não excessivamente perturbadas no seu equilíbrio psico-físico.

O jovem que entra numa congregação religiosa, ainda que possua já uma certa maturidade humana e um certo desenvolvimento religioso, deve realmente “mudar” de vida, o que em termos psicológicos significa: adquirir uma nova identidade, isto é, a identidade do religioso e, particularmente, do religioso franciscano, da Consolata, etc., sem, por outro lado, perder as próprias qualidades individuais ( ). Deve ser capaz de doar-se, isto é, de amar autenticamente, de amar com alegria.

Stickler, depois de afirmar que no caso de motivações inconscientes inacessíveis não se pode chegar a uma «retificação», acaba por dizer: onde as disposições de fundo são positivas, o sujeito poderá facilmente alcançar uma reorganização das próprias potencialidades psíquicas e dar-lhes, na gradual integração dos valores, uma direção especificamente religiosa ( ).

A motivação deve ser considerada como uma atitude interior que segue as vicissitudes do processo dinâmico da maturação da personalidade: a atitude egocêntrica (1ª adolescência), a escolha de um modelo (2ª adolescência), a disposição oblativa (típica da juventude).
A pessoa madura é caracterizada por critérios que podemos definir como critérios de maturidade: conhecimento e aceitação de si; prevalência do princípio da realidade e dos valores; capacidade de análise da realidade, realismo e flexibilidade; capacidade de amor como dom e como participação; capacidade de tolerar os conflitos, as frustrações e as ambigüidades das situações; capacidade de adaptação a situações novas; capacidade de autocontrole; capacidade de aceitação do passado; capacidade de dar e receber; capacidade de aceitação do senso de culpabilidade; capacidade de esperar; poder de sublimação; tomada de consciência e capacidade de ter uma visão de conjunto da vida.
O cristão maduro evidencia o sentido da gradualidade, da capacidade de misericórdia, o sentido da catolicidade. A maturidade é gradual, mas nem sempre com ritmo ascendente constante; podem existir momentos de lentidão, de parada e de regressão.

Que itinerário seguir para alcançar a maturidade? Eis algumas pistas: ter presente, antes de tudo, o primado da síntese sobre a análise; o primado do objetivo sobre o subjetivo; o primado da evolução criativa: crescer, refazer-se continuamente; dar o primado das motivações sobre o esforço. Além disso, lembrar que é preciso aprender a escolher sempre, entre dois valores, o maior ou o melhor; não ter medo dos conflitos, mas procurar dilatar e expandir sempre as forças positivas; reforçar, com o sucesso, boas ascendências; induzir, voluntariamente, sentimentos bons. Finalmente, é preciso estar bem consigo mesmo, estar bem com os outros e dar sentido e valor aos próprios afetos, amar de modo verdadeiro e autêntico.

Na dinâmica do crescimento vocacional devem predominar as motivações conscientes e pró-activas. Junto à motivação central, autêntica, existem outras motivações mais ou menos inconscientes. É importante que as motivações inconscientes acompanhem as motivações conscientes na intencionalidade profunda, em tudo: na consistência da decisão, no nível de liberdade, na retidão dos desejos, na capacidade de esperança, nos sinais de autenticidade, na capacidade de superar crises e conflitos, na disponibilidade livre de abandono a Deus no serviço prestado aos outros.

2. Crescimento nas pessoas motivadas em modo reativo

As pessoas motivadas em modo reativo são geralmente imaturas no campo afetivo e exageram no uso de mecanismos de defesa para manter o próprio equilíbrio psíquico. Tais formas de imaturidade não representam em si mesmas um obstáculo à vida religiosa, porém poderiam tornar-se. Em casos mais graves, como a insaciabilidade dos instintos, a depressão neurótica, a psicose maníaco-depressiva, a esquizofrenia, a mania persecutória, o complexo de inferioridade e de culpa, a mania de colecionar, a ânsia neurótica, o histerismo, a psicopatia, poderiam constituir por si mesmos contra-indicações para a aceitação de um candidato ao estado eclesiástico e religioso.

Sob a ação reativa da pessoa, a motivação, embora escondida, enquanto inacessível à introspeção, não é inativa e pode ser percebida apenas por dedução. De modo geral, isto requer notáveis aplicações e técnicas apropriadas para que possa vir à tona, com plena aceitação, na esfera da consciência; neste caso a motivação pode ser controlada pela liberdade. Nas pessoas neuróticas não existe a possibilidade da presença de motivações válidas para a vida religiosa e sacerdotal. Atribuem-se qualidades que, na realidade, possuem só potencialmente e não efetivamente; usam a religião para satisfazer ou silenciar as necessidades inconscientes e não as religiosas.

3. Momentos de crise e períodos de prova

A presença contemporânea de motivações sobrenaturais e naturais (conscientes e inconscientes) tornam inevitavelmente complexo e ambivalente o inteiro caminho vocacional. A concepção humanista-existencial da pessoa humana nos apresenta o homem como um ser vulnerável, mas também perfectível, através de experiências e de aprendizado. Que haja então uma adesão livre e responsável e uma purificação progressiva dos motivos vocacionais e uma atenção especial à dinâmica da decisão.

Quaisquer tenham sido as motivações no início da caminhada vocacional, é necessário chegar à motivação essencial do convite de Jesus Cristo, para uma vida de intimidade com ele, poder partilhar as suas preocupações e sua obra de salvação. Desta forma a pessoa se torna psicologicamente madura a partir de uma motivação válida.

Quem carrega consigo conflitos inconscientes, as experiências provocam normalmente reações defensivas de tipos diferentes, agravando a situação e bloqueando qualquer tipo de processo de solução. Perante um indivíduo psiquicamente frágil e a nível vocacional inconsistente, é necessário, antes de tudo, esclarecer a situação e curar os eventuais desequilíbrios psíquicos, para evitar que os componentes conflituosos se tornem dominantes na dinâmica da personalidade.

Os períodos de prova, propostos aos indivíduos em dificuldades vocacionais, particularmente no campo das motivações, têm como objetivo fazer com que a pessoa entre em si mesma, em sua intimidade mais profunda, onde encontrará as respostas para suas expectativas. Em tais períodos, pode-se providenciar um adequado tratamento terapêutico, integrado com uma clara tomada de consciência a nível vocacional. Caso não se tomem medidas já antes e durante o período de prova, a experiência corre o risco de produzir efeitos negativos e destrutivos. As experiências em relação ao futuro e ao bem, nas pessoas abertas aos valores e pró-ativas, ajudam a progredir e a realizar o fim da vida religiosa e sacerdotal. Se a pessoa alcançou um bom nível de maturidade e é animada por motivações consistentes, a experiência consolida ainda mais tais motivações e favorece um ulterior processo de maturação humana e vocacional.

Um sinal que poderia indicar qualquer coisa de ambíguo na decisão fundamental é o improviso aparecimento de uma resistência quase insuperável, quando a pessoa deve enfrentar o seu dever específico. Em tais casos, o recurso à força bruta não ajuda, pois a aversão seria maior. A melhor coisa é procurar aquilo que realmente se deseja no mais profundo da própria existência: ser capaz, talvez pela primeira vez na própria vida, de chegar à autenticidade, de destruir a mentira na própria vida, de tornar-se um homem sincero não somente a nível de consciência, mas também no âmbito do inconsciente da própria vida ( ).

4. Terapia

A vocação à vida religiosa e sacerdotal é um chamado à plenitude, isto é, à perfeição. Ser como Jesus Cristo, isto é, ser perfeitamente humano. Na encarnação, de fato, ele assumiu a humanidade em toda a sua integridade, mostrando-nos o que significa ser homem.
Na experiência cotidiana é coisa comum encontrar, em quem se empenha na perfeição, sinais de debilidade de motivações, desconfiança, algum arrependimento pela vocação abraçada; portanto, é fundamental ajudar os jovens a descobrirem o verdadeiro motivo das suas inclinações. A religião não resolve todos os problemas que aparecem. A religião e a psicologia se ajudam reciprocamente em algumas atitudes-base: não há nenhuma terapia que prescinda do amor. É deste modo que os conceitos de terapia e de redenção se fundem realmente. A cura segue o trilho do amor que redime, seja ele humano ou divino. O indivíduo que escolhe a vida eclesiástica baseada em motivações pouco claras ou inconscientes, acaba por levar uma vida em contínuo conflito, mesmo sem ter plena consciência disso. Tal indivíduo apresenta a seguinte sintomatologia: vive num habitual estado de confusão e de insatisfação, interrompido por esporádicas expressões de euforia; quando entra em contato com os valores, aos quais deveria ter renunciado, permanece facilmente perturbado; vive continuamente indeciso; perante os compromissos e os desafios morais que se apresentam durante os anos da formação, não toma uma consciente e livre posição pessoal; nutre internamente uma atitude de forte agressividade, resultante da tensão criada nele pelo estado de frustração contínua das aspirações naturais; debruçado sobre si mesmo, torna-se insensível aos problemas dos outros; inseguro de si, vive em contínua preocupação com o seu futuro; rígido na sua estrutura psíquica, não consegue adaptar-se a novas situações.

Para diagnosticar a presença de dinâmicas inconscientes, em certos casos, é necessário recorrer aos testes de personalidade, especialmente os projetivos que, aplicados em diversos momentos do período de formação, evidenciam o percurso do desenvolvimento e da sua direção. Feito o diagnóstico, é necessário recorrer à terapia. Neste campo, o educador – se for preparado e sensível aos problemas humanos – pode ajudar o jovem a tomar consciência da dinâmica interior e a compreender e resolver o conflito. Em casos particulares será mesmo necessário recorrer a um especialista.

De um ponto de vista de diagnóstico, quando se deseja analisar a autenticidade psicológica de uma vocação, avalia-se antes de tudo o grau de realismo, de integração e de abertura aos outros.

A meta da psicologia é ajudar o indivíduo a sentir a vida com maior intensidade, a tornar-se mais consciente do mundo ao qual está unido, mais consciente das pessoas que o circundam, tornando mais fácil uma grande variedade de opções e uma maior compreensão das vantagens e das desvantagens que cada opção comporta. Assim, se o indivíduo quiser, poderá conceder-se o privilégio de adquirir um maior sentido da realidade, com mais criatividade e liberdade.

A pessoa escolhida para a terapia deverá ser um psicólogo que tenha um conceito de pessoa humana como sujeito capaz de liberdade, de pró-atividade, aberta aos valores espirituais e com tendência para a transcendência, que acredite nos valores superiores e que entenda o homem como uma totalidade, no qual existem as dimensões conscientes e inconscientes, e que a dimensão consciente pode penetrar na inconsciente e mudá-la, exceto nos casos de doença mental. O respeito pelos valores espirituais é pedido como exigência, não só por uma preocupação religiosa, mas também pelas exigências intrínsecas da própria terapia: os motivos religiosos podem ser as energias mais fortes de um crente.

Um bom terapeuta ajudará o paciente a adquirir maior auto-compreensão, um maior e melhor discernimento das pessoas e dos acontecimentos que entram a fazer parte da sua vida. Ajudará a evidenciar algumas opções de fundo e possíveis linhas de comportamento. Inclusive, ajudará o paciente a discernir algumas conseqüências das várias alternativas, mas deixará que o cliente, no fim, tome a sua decisão pessoal e responsável. Assim a terapia pode ser uma válida ajuda para que um membro de uma congregação religiosa ou um presbítero possa reafirmar a própria vocação, se é autêntica. Um discernimento profundo e uma maior elasticidade de ação intensificarão na pessoa o empenho em relação à sua real vocação, tornando assim mais plena a resposta a Deus.

A ajuda psicológica não livra o indivíduo de dificuldades e de conflitos, mas o ajuda a enfrentar e assumir com maior coragem a fadiga da labuta e da responsabilidade pessoal, sobretudo no esforço de superar os mesmos conflitos e de acolher a realidade da vida; ajuda-o inclusive a descobrir um significado positivo de crescimento, através da renúncia de si mesmo.

V. ALGUNS LEMBRETES FINAIS

1. Terapia preventiva

A terapia preventiva no campo das motivações tem sobretudo como objetivo iniciar o processo de percepção e de organização das motivações, no sentido de crescer no bem-estar e na eficácia vocacional. A sua função preventiva é de descobrir, desde o momento do ingresso na casa de formação, as fontes das dificuldades que cada indivíduo encontrará mais tarde no seu empenho vocacional. É bom intervir, desde o início, para reduzir o número e a importância das frustrações, porque, com o passar dos anos, se tornaria extremamente difícil e insuportável controlá-las. O psicólogo poderá dizer se na estrutura psíquica de uma pessoa há contra-indicações para um certo tipo de vida e, eventualmente, quais setores da personalidade deverão desenvolver-se e harmonizar-se melhor para que o indivíduo esteja à altura de enfrentar um determinado compromisso e possa expandir-se nele com plena liberdade. Poderá também verificar a eficácia dos valores presentes na pessoa e, portanto, também a eficácia dos valores vocacionais que se realizam nos vários comportamentos. Verá inclusive se a motivação dominante é a motivação sobrenatural.

A psicologia procura integrar, não substituir, o atual tipo de formação e quer ser somente um apoio, utilizando para isso os seus instrumentos: com a função terapêutica procura remediar os erros educativos, tirar o peso das frustrações, curar as neuroses; com a função de seleção dos candidatos, analisa a qualidade das suas predisposições e procura ajudá-los a avaliar as próprias forças perante o chamado de Deus; com sua função preventiva, descobre desde o início da caminhada as raízes das dificuldades que cada candidato encontrará mais tarde no empenho vocacional; com sua função formativa, ajuda a pessoa a conhecer-se em profundidade e a canalizar todas as próprias energias na realização construtiva dos compromissos vocacionais; na função integrativa, favorece um crescimento harmonioso na maturidade psicológica e vocacional da pessoa ( ).

2. Dimensões que não devem ser deixadas à margem

Além do aspecto racional, a dimensão afetiva tem um grande peso no agir humano. Ela exerce um influxo relevante – e em certos casos determinante – sobre a atividade mental e, portanto, sobre o processo em base ao qual se estruturam as motivações racionais. É importante que se conheçam as motivações afetivas, para depois conhecer a origem de certas ações e opções de vida. É errado pensar que uma pessoa, condicionada fortemente por conflitos inconscientes, seja capaz de adquirir outras motivações capazes de combater as motivações inconscientes, somente a nível racional. Se um fato emotivo impulsiona um indivíduo a tomar decisões – que com o passar do tempo não considera mais idôneas, porque nocivas ao seu bem estar – deve retornar à emoção inicial e revivê-la em modo existencial, porque smente assim poderá chegar a compreender a sua situação e dar uma nova orientação à sua opção. Assim sabemos que a pessoa tem necessidade de tomar contato consigo mesma, com os próprios sentimentos e emoções, para educar a própria maturidade afetiva. Somos chamados a educar os circuitos das emoções.

A vontade, que nos ajuda a decidir entre várias tendências possíveis ou eventuais que seguiremos, contra outras que também nos solicitam, nos ajuda ainda a abraçar o projeto que dá pleno significado à nossa existência. É dever dos formadores educar para uma vontade pronta, cordial e decidida o candidato que segue a vocação.

As verdades da fé, do ponto de vista psico-dinâmico, são motivações existenciais particulares que vêm de dentro à pessoa, ajudam a perceber um bem para si e respondem à profunda necessidade de dar um sentido de totalidade à própria vida. Trata-se de um processo de transformação gradual e lento no qual, entre outros elementos, são elaboradas e reorganizadas as motivações relacionadas ao transcendente, isto é, relacionadas a Deus e aos valores religiosos, vistos como possibilidade de aceder à intimidade com Deus, colocando a própria vida à disposição da vontade divina e ao bem dos irmãos.

É necessário que todos os processos – afetivos, cognitivos e volitivos – se organizem de forma unitária em torno de Deus e dos valores religiosos com gradação. A identidade não se faz num momento. É preciso que Deus seja percebido como valor sumo e se torne na pessoa objeto das suas aspirações e dos seus afetos, preferindo-o a todos os outros valores.

O projeto formativo deve contribuir para o crescimento da motivação segundo o seu ritmo evolutivo, favorecendo as dinâmicas do seu devir nas várias dimensões: intelectual, afetiva, moral, volitiva e de fé.

Ao propor aos formandos períodos de prova, como momentos fortes para verificar a genuinidade das motivações vocacionais, deve-se ter em conta o diferente nível de maturidade que os indivíduos alcançaram.

Procure-se sempre articular os diversos níveis de motivação, porquanto cada nível de motivação, embora qualitativamente distinto e autônomo, está fortemente relacionado àquele que o precede e o segue. É importante que a pessoa possa viver a experiência emotiva que caracteriza cada nível de idade, para depois passar sem violência e de modo estável ao nível superior. É bom notar que as motivações do comportamento humano relativo aos primeiros níveis são, em sua grande maioria, inconscientes e, por isso, dificilmente reconhecíveis. Outra coisa: num adulto não plenamente integrado, podem coexistir motivações inconscientes imaturas com motivações conscientes válidas.

Um programa de formação verdadeiramente eficiente deve colocar à disposição dos indivíduos três instrumentos relacionados entre eles: o didático-espiritual, o experiencial e o psicológico. Devem ser considerados contemporaneamente. Sem esta integração entre o humano e o espiritual, os ideais propostos ao invés de favorecerem o crescimento, podem tornar-se fonte de alienação e de frustração ( ).

3. Educadores significativos na ajuda do amadurecimento das motivações

A identificação permite ao indivíduo assimilar valores conhecidos e admirados em outras pessoas e organizar o próprio modo de ser, em conformidade com tais valores. Mediante a identificação, a pessoa se torna realmente uma outra, embora permaneça a mesma. Também o grupo religioso como tal – a comunidade, o Instituto – tem uma função importantíssima na apresentação de modelos de vida e na transmissão de valores que entram na estruturação da personalidade religiosa e na opção vocacional, oferecendo-lhe válidas motivações. O modelo não pode cancelar as motivações de fé e a originalidade do indivíduo, mas o encontro com modelos educativos válidos é necessário na caminhada do próprio amadurecimento.

O educador deve ser autenticamente motivado; capaz de comunicar, de perceber a própria dinâmica das motivações; capaz de fazer perceber a dinâmica do próprio caminho vocacional e da própria alegria. Por isso, a presença de educadores-formadores preparados e maduros é importante. Não se exige dos mesmos uma formação psicológica profunda, mas é necessário que tenham esclarecido e superado os seus problemas pessoais e que sejam livres de conflitos. Devem possuir uma boa capacidade de perceber os problemas dos jovens. Deles se espera que tenham integrado em si mesmos a maturidade psíquica com a dimensão sobrenatural da vocação.

Deseja-se que os formadores desempenhem as seguintes funções:
- que saibam ajudar os jovens a tomar consciência e a enfrentar os problemas espirituais, bem como as dificuldades referentes ao desenvolvimento psíquico;
- que percebam a presença de traços patológicos da personalidade e saibam ler os sintomas e eventuais inconsistências vocacionais inconscientes;
- que encaminhem para uma pessoa qualificada em psicologia o candidato que apresenta sinais de inconsistência psicológica ou vocacional e, eventualmente, que colaborem com o psicólogo no processo construtivo; seria imprudente e arriscado se o educador pretendesse substituir o psicólogo nestes casos;
- que dêem a conhecer com clareza as exigências da vida religiosa aos candidatos que se apresentam, ajudando-os a assumir um compromisso sério e ativo, como também a direcionar as energias da própria personalidade.


Pe. Aquiléo Fiorentini

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NOTAS

1. Por “pensamento débil” entende-se um conhecimento que não desce à raiz das coisas, nem estabelece a verdade absoluta, mas se limita a reconhecer o mundo dos fenômenos, aceitando a semelhança com o horizonte mais adequado às efetivas possibilidades cognitivas dos homens. Cf. Giuseppe SAVIGNONE, Evangelizzare nella post-modernità, Torino, LDC 1997.
2. Segundo vários estudiosos, o atual clima cultural e social seria dominado por um exagerado relativismo e ecletismo que representam a outra face da organização flexível da vida individual e coletiva exigida pelo identificar-se da complexidade social em escala global. O homem contemporâneo não tem mais necessidade das grandes verdades cotidianas que o ajudam a viver e a sobreviver. Cf. AA. VV., La religiosità in Italia, Milano, Arnoldo Mondatori Editore, 1995.
3. Cf. Albert PLÉ, A propos du discernement des vocations, in “Supplément de la Vie Spirituelle”, 29 (1954), pp. 115-118.
4. Albino RONCO, “Motivazione”, in: José M. PRELLEZO, a cura di Dizionario di Scienze dell’Educazione, Torino, LDC – LAS – S.E.I., 1997, p. 717.
5. Albino RONCO, Introduzione alla Psicologia dinamica, vol. I, Roma, LAS 1991, p. 27.
6. Amedeo CENCINI – Alessandro MANENTI, Psicologia e formazione. Strutture e dinamismi, Bologna, EDB 1989, pp. 283-284.
7. Cf. Heinz-Dieter SCHMALD, Psicologia della motivazione, Bologna, Il Mulino 19986, p. 32.
8. Sigmund FREUD, Opere. 1909-1912. Casi clinici e altri scritti, Torino, Paolo Boringhieri 1979, pp. 575-576.
9. Cf. Viktor E. FRANKL, Fondamenti e applicazioni della logoterapia, Torino, S.E.I. 1969, p. 41.
10. Cf. Viktor E. FRANKL, Determinismo e umanismo, in “Humanitas”, 31 (1976) 11, p. 883.
11. Cf. Gordon W. ALLPORT, Psicologia della personalità, Roma, LAS 1977.
12. Cf. Abraham H. MASLOW, Motivazione e personalità, Roma, Armando Editore 1977, pp. 83-117.
13. Cf. Fritz PERLS, L’approccio della gestalt e testimone oculare della terapia, Roma, Astrolabio 1977, p. 33.
14. Viktor E. FRANKL, Logoterapia e analisi esistenziale, Brescia, Morcelliana 1972, pp. 103-104.
15. Ibid., p. 104.
16. Cf. Joseph NUTTIN, Teoria della motivazione umana. Dal bisogno alla progettazione, Roma, Armando Editore 1996, p. 154.
17. Cf. Benito GOYA, Vita spirituale tra psicologia e grazia, Bologna, EDB 2002, pp. 111-141.
18. Cf. A. H. MASLOW, Motivazione e personalità, Roma, Armando Editore 1977, pp. 139-143.
19. Cf. Gertrud STICKLER G., Condizioni psicologiche ottimali per una religiosità autentica, in “Atti del Convegno per maestre di noviziato e direttrici di juniorato. Pro manuscritto.Roma, Scuola Tipografica Privata FMA 1974, pp. 282-283.
20. Cf. Adrian VAN KAAM, Religione e personalità, Brescia, La Scuola 1972, p. 7.
21. Cf. Carlo BRESCIANI, Conversione e decisione vocazionale: aspetti psicologici, in “Vita consacrata” 21 (1985), PP. 335-346.
22. Cf. Luigi M. RULLA, Psicologia del profondo e vocacione: le persone, Torino, Marietti 1978, p. 66.
23. Cf. W. C. BIER, L’examen psychologique, in “Supplément de la Vie Spirituelle”, 29 (1954) 130, p. 145.
24. Luigi M. RULLa – Franco IMODA – Joyce RIDICK, Struttura psicologica e vocacionale. Motivazioni di entrata e di abbandono, Torino, Marietti 1977, p. 53.
25. Cf. Gertrud STICKLER, Forme immature e derivanti della religiosità. Atti del “Convegno” per Maestre di Noviziato e Direttrici di Juniorato (Roma 16 marzo- 12 aprile 1973). Pro manuscritto. Roma, Scuola Tipografica Privata FMA 1974, pp. 318-319.
26. Cf. Gertrud STICKLER, Lo psicologo clinico in campo vocazionale-religioso, in “Rivista di Scienze dell’Educazione”, 18 (1980), pp. 189-217.
27. Cf. STICKLER, op. cit., p. 204.
28. Cf. VAN KAAM, Religione e personalità, Brescia, La Scuola 1972, p. 161.
29. Cf. Alessandro MANENTI, Vocazione, psicologia e grazia. Prospettive di integrazione, Bologna, EDB 1992, pp. 54-55.
30. Cf. Ibid., pp. 52-53.

Última Atualização ( 10 de April de 2006 )

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