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O Fundador: Formador de Sacerdotes e de Missionários PDF Imprimir E-mail
Por Pe. francesco Pavese, imc   
10 de April de 2006


(Curso para os Formadores IMC Roma, 30 de junho de 2003)


INTRODUÇÃO

No passado, o tema “Fundador-Formador” já foi expressamente estudado sob ângulos diversos (1). Venho repropô-lo agora sob o ponto de vista dos formadores. O Fundador pode ser modelo para um serviço formativo junto aos jovens, indicando um espírito e um método pedagógico, que seja fiel ao carisma e, ao mesmo tempo, idôneo ao “hoje” da formação religiosa, sacerdotal e missionária.

As fontes principais a que recorro, além dos estudos indicados na notas, são as seguintes: o seu pensamento direto (conferências e cartas); a experiência dos missionários e missionárias (testemunhos e comemorações); a nossa atual experiência (sensibilidade do Instituto). Estas páginas não contêm um estudo geral sobre a formação, como é entendida na Igreja e no Instituto, mas reflexões muito específicas, ligadas à pessoa do Fundador, isto é, ao seu pensamento e à sua experiência, como foram recebidas na sã tradição IMC e MC. Portanto, no que se refere à formação, estamos no plano do “carisma” do Fundador e do Instituto.

Dando seguimento a uma ordem lógica, desenvolvo estes aspectos:
• a personalidade pedagógica do Fundador;
• a formação personalizada, através dos contatos mantidos com os indivíduos e nas intervenções comunitárias;
• a capacidade de criar um ambiente formativo comunitário, envolvendo a todos e a cada um em particular.

1. A PERSONALIDADE DE ALLAMANO COMO FUNDADOR

a) Consciência da própria responsabilidade de educador

Por ocasião da beatificação, a Igreja reconheceu oficialmente que Allamano foi um insigne educador de sacerdotes e de missionários (2). O próprio Allamano, desde o começo, teve consciência deste seu carisma: “Sou eu, e os que eu vos indico como guias, que deveis unicamente ouvir... A forma no Instituto é a que o Senhor me inspirou e me inspira” (3). Estas palavras são fortes e dão a entender que o Fundador considerava este empenho como uma “responsabilidade” especial e pessoal (4).

Esta experiência o induziu a reservar para si a formação. Padre L. Sales afirma que o Fundador “preferiu privar-se da ajuda de um homem da envergadura moral e espiritual de um Boccardo (que colocara como condição: ter toda a liberdade na formação dos membros do Instituto), antes que falhar no cumprimento do seu dever perante Deus: transmitir aos alunos do Instituto o seu espírito" (5).
A razão de tal tenacidade consiste nisto: o Fundador queria ser fiel à inspiração original, para transmiti-la como ele a tinha recebido, de sorte que resultasse em carisma do Instituto. Assim, enquanto formador, torna-se também “transmissor” do carisma.

b) Método e meios educativos

O método educativo do Fundador jorrava de uma atitude de fundo, que era o seu “senso de paternidade” (6). No estudo citado, Padre Tubaldo põe este título significativo: “Allamano na vida dos seus primeiros missionários”, qualificando a formação como um “ser na vida”, o que para o nosso Fundador foi perfeitamente verdadeiro, como testemunham muitos missionários (7).

Allamano realizava este “ser na vida” de seus filhos e filhas, antes de tudo, amando-os com verdadeiro amor paterno, que manifestava de diversos modos, sempre com muita dignidade. Algumas de suas famosas expressões são muito densas. Para exemplificar, cito três; duas se referem aos missionários do Quênia: “Muitas e muitas coisas boas para todos vós, meus queridos missionários, para quem agora unicamente vivo neste mundo” (8). “Transmita tantas coisas boas a todos, dando-lhes a certeza de que rezo por eles e somente por eles vivo” (9). A terceira expressão é dirigida a uma irmã, para encorajá-la a superar dúvidas acerca da vocação: “Ouve-me, pois sabes perfeitamente que te quis e te quero sempre muito bem, com verdadeiro amor de pai” (10).

Além deste profundo amor paterno, Allamano assumira uma outra atitude, que podemos igualmente definir como “atitude de fundo”, ou seja: atenção à realidade e à capacidade de se adequar também no plano da preparação dos missionários. Através das cartas, dos relatórios e dos diários, o Fundador conseguia compreender como os seus fossem realmente idôneos; e compreender também quando era necessário intervir e como intervir no plano da formação. Havia um dar e um receber entre a África e Turim, de sorte que Allamano era ajudado a adaptar a preparação de acordo com as necessidades missionárias. Esta sua atenção e capacidade de escuta fez com que se consolidasse nele a convicção de que era indispensável dar aos missionários uma preparação sólida e adequada. É neste contexto que compreendemos as suas insistências em não ter pressa de partir para a missão, mas de fazer primeiro uma adequada e boa preparação (11).

Finalmente, Allamano entrava na vida de seus filhos e filhas valendo-se de um método que se baseava na máxima confiança e no diálogo confiante, além de valorizar uma longa série de meios que o ajudavam a manter-se em contato constante e ativo com a comunidade e com os indivíduos em particular (12).

2. FORMAÇÃO PERSONALIZADA NOS CONTATOS INDIVIDUAIS

A arte pedagógica do Allamano facilitou-lhe o contato individual com as pessoas. Cada indivíduo se sentia acolhido, ouvido, compreendido e acompanhado, como se fosse a única pessoa. Evitou assim a massificação. Dentre todos os testemunhos, basta-nos o do Padre Panelatti, que assim recorda as visitas do Fundador à Consolatina: “Dava-me a impressão de que ele não tivesse nada a fazer. Estando conosco, ocupava muito bem o seu tempo... Nunca deixava transparecer que tivesse preocupação e urgência para atender a outros compromissos; foi somente mais tarde que viemos a saber que ele dirigia meia diocese e era pessoa muito ocupada” (13).

Em que consistia esta arte pedagógica que visava a formação personalizada nos contatos e com as pessoas em particular? Tentarei encaixá-la dentro de algumas linhas de comportamento do Fundador e dos alunos.

a) A arte de acolher as pessoas

O primeiro ato formativo se realiza no momento da acolhida. Allamano valorizou espontaneamente a acolhida, criando uma atmosfera favorável ao contato formativo, não apenas por ocasião da primeira aceitação (14), mas em muitas outras circunstâncias. Esta acolhida se realizava num horizonte muito amplo, demonstrando tanto a intensidade do seu coração de pai, como sua inata idoneidade formativa. Para entender, pensemos como acolhia a todos e cada cada aluno, na Casa Mãe, sempre que o desejassem, a tal ponto de se formar uma fila junto à porta do seu quarto; como acolhia, de boa vontade, com alegria e sem sala de espera, no Santuário da Consolata, quando iam visitá-lo (15); como acolhia os alunos em ocasiões especiais (profissões religiosas, ordenações, partida para as missões, retorno das missões, etc.); como acolheu, com especial atenção, os alunos que voltavam da guerra! A prova é que, estando com ele, todos se sentiam à vontade, recebidos como filhos, certos de não lhe causar aborrecimento com a sua presença. Para um formador que queira penetrar na vida de um jovem, para depois acompanhá-lo em sua caminhada, a arte da acolhida é uma arte insubstituível.

Sob este aspecto, trago dois testemunhos escolhidos entre muitos. O primeiro é do Padre Lorenzo Sales: “Em trinta anos, nunca aconteceu que alguém não fosse recebido. Depois, com poucas palavras, o Fundador colocava as coisas no lugar. Mas precisava ver com que acento ele as pronunciava, precisava ver o seu gesto parco mas resoluto, e aquela atitude da cabeça, aquele olhar límpido e penetrante que calava nas profundezas do coração!” (16).
O segundo testemunho é da Irmã Maria dos Anjos: “Ele queria que todas as irmãs tivessem a possibilidade de aproximar-se dele e de lhe falar livremente, tanto no Instituto como no Santuário da Consolata. Acolhia a todas com grande caridade, tratando-as com verdadeiro amor paterno. As irmãs saíam da sua audiência sempre sorridentes, de sorte que, quando se via uma irmã particularmente contente, costumava-se dizer: ‘Sem dúvida, ela foi falar com o Pai’” (17).

b) Atenção a situações particulares

Não tratava a todos e sempre do mesmo modo. Conhecendo pessoalmente os seus, sabia intervir de maneira “apropriada” nos momentos especiais da vida de cada um. Cada aluno era considerado na sua peculiaridade e no seu momento existencial. Allamano não massificava, nem padronizava os seus contatos. Neste ponto era muito atencioso e delicado.

No tocante a isto, os testemunhos são inumeráveis. Apresento apenas dois, para servir de exemplo. As cartas do Fundador ao Irmão Benedetto Falda, dono de um caráter sensibilíssimo, são todas muito significativas a respeito. Eis a do dia 26 de janeiro de 1905, que lhe foi enviada num momento especial; constitui uma obra-prima de afeto e de fineza pedagógica: “Penso freqüentemente ao meu caro Benedetto, e quisera tê-lo novamente ao meu lado no meu locutório, para ouvi-lo falar com entusiasmo e alegria. Também entre as irmãs e os clérigos do Instituto são muito lembrados o brio e a atividade de Benedetto. Sei perfeitamente que, para um coração sensível como o teu, é fácil deixar-se envolver pela saudade, por um pouco de tristeza e depressão; por isso necessitas de alguma palavra amiga de encorajamento. Quando acontece isto, pensa em mim e imagina que me ouves dizer: ‘Coragem no Senhor!’, e tudo o mais que te diria... Depois, não tens acaso o Superior, que te quer muito bem e que me escreveu tantas coisas bonitas a teu respeito?! E depois... Jesus Sacramentado, que transforma os fracos em leões! És sacristão... Desejo que não te afadigues demais; e quando estiveres suado, preserva-te com cuidado da correnteza de ar e da umidade; afinal, quero que tomes os devidos cuidados para proteger a saúde. Não censuro as tuas longas cartas que envias aos parentes e amigos, que muito se alegram; pode escrever-lhes, sim, e longamente; mas para que eu não fique com ciúme, escreve também a mim ou ao Senhor Vice-Reitor” (18).

Um segundo testemunho, igualmente muito original, é o do Padre A. Bellani que, sendo o primeiro não piemontês, encontrava dificuldades, visto que seus companheiros, normalmente, falavam em dialeto piemontês: “Decidi-me, por isso, dirigir-me ao Venerado Fundador, que sempre me inspirara grande confiança. E disse-lhe: ‘Monsenhor, o senhor me perguntou se me encontro bem na comunidade... Sim, encontro-me muito bem, mas aquele dialeto que é falado por todos os meus companheiros não só me é incompreensível, mas me dá nojo!’ – “Providenciarei, caro Pe. Bellani, e sem demora” – respondeu-me ele. Pois bem, na mesma tarde toda a sua conferência versou sobre a necessidade de que em casa, como também durante o tempo dos recreios, se falasse a língua italiana, para maior educação e respeito para com todos os não piemonteses que poderiam depois entrar no Instituto” (19).

c) Pedagogia do encorajamento

Allamano era um homem positivo, nunca deixava um coração prostrado, e menos ainda tumulduado. Fazia notar com clareza os lados defeituosos, mas depois sempre encorajava e infundia esperança. Quem afirma isto é Padre Lorenzo Sales, que o conheceu de perto e muito bem: “Como era portentosa aquela mão que ele pousava no ombro e aquelas expressões que dizia ao dar sua bênção paterna: ‘Vai em frente!... Tem coragem!’ (20).

A este respeito, quisera sublinhar quanto o Fundador tenha valorizado o versículo 11 do salmo 76: “Nunc coepi!”, que literalmente traduzia assim: “Agora começo!” (21). É um critério educativo deduzido da espiritualidade carmelitana. Às irmãs dizia: “Não desanimeis nunca, nunc coepi (agora começo). Diria que este é o brasão do nosso Instituto: começar sempre!” (22). E numa outra circunstância: “Caíste? Coloca-te no lugar! Santa Teresa dizia o ‘nunc coepi’ (agora começo) quarenta ou cinqüenta vezes ao dia. Pedia perdão a Deus e dizia: ‘Coisas do meu jardim, coisas da minha horta! Senhor, derramai um pouco de chuva, para que cresça coisa boa!’” (23).

d) Liberdade e maturidade nas pessoas

Ainda quando Allamano falasse para numerosas pessoas, não dominava ninguém. Não impunha confiança, mas ganhava-a. Admitia, ou melhor, desejava que os alunos amadurecessem e aprendessem a “caminhar sozinhos”. Como método ordinário de formação, Allamano previa os encontros regulares entre o aluno e o educador, mas procurava suscitar momentos de autonomia, sempre mais longos, considerando a situação de isolamento que depois se verificaria no campo de missão. Caminhar com as próprias pernas, além de tudo, é sinal de maturidade, ajuda a pessoa a não perder tempo com ninharias e banalidades.

Também a este respeito temos testemunhos significativos. Limito-me a citar um trecho da conferência feita às irmãs, no dia 13 de fevereiro de 1916, quando o Fundador trata do assunto de modo genérico e, portanto, propõe um critério de vida: “Numa comunidade há pessoas que não necessitam de nada, não têm necessidade de falar com a Superiora nem comigo; põem em prática o que ouvem, procuram observar as regras e prosseguem seu caminho tranqüilamente... Para estas, Deo gratias! Que continuem assim o ano todo; não necessitam de ninguém; basta-lhes o confessor e Nosso Senhor. Deo gratias! Se todas fossem assim, depois, lá na África tudo iria bem. São pessoas que caminham por si mesmas...” E mais adiante conclui: “Conheceis o vosso dever; conheceis também a maneira de o cumprir mais fervorosamente; pois bem, não se deve perder tempo nem fôlego por coisas da nada” (24).

e) A pedagogia das cartas

As assim chamadas “cartinhas” foram um dos meios mais utilizados para garantir um contato construtivo entre o Fundador e todos os alunos. Eis o testemunho do Padre Lorenzo Sales: “Na impossibilidade de realizar encontros mais freqüentes com o Fundador, como seria de desejar, os colóquios individuais eram, às vezes, substituídos pelos colóquios escritos. Todo aluno tinha plena liberdade de escrever ao Fundador e de fazer chegar às suas mãos a carta. Ele, depois, respondia de viva voz, ou, mais freqüentemente, utilizava o rodapé da mesma carta recebida, remetendo-a em seguida ao indivíduo, num envelope cuidadosamente fechado. Também aqui, poucas linhas e breves palavras, mas que alcançavam sempre seu objetivo” (25).

As cartas ao Fundador eram de dois tipos: as espontâneas, quando alguém sentia a necessidade de lhe escrever, e as quase obrigatórias – uma por ocasião da festa de São José, seu onomástico, e outra que continha os propósitos dos retiros. Para todas garantia a máxima reserva e liberdade (26), mas o Fundador as desejava. Analisando tudo isso, percebe-se como o Fundador, com muita sensatez, desejasse entrar nos acontecimentos ordinários da vida de seus filhos e filhas, para conhecê-los melhor, para orientá-los, encorajá-los e, se necessário, corrigi-los.

As cartinhas por ocasião do seu onomástico tinham uma importância particular. Trago aqui o seu pensamento, que explica muito bem o conteúdo pedagógico deste relacionamento epistolar: “Dado que no próximo domingo quereis celebrar a minha festa, e... não se pode recusar, por isso, como das outras vezes, ainda que os vossos cumprimentos eu os conheça antes mesmo que vós os façais, entretanto, me escrevereis uma cartinha, como de costume, não comprida..., pois não tenho tempo de ficar lendo tudo. Vós me direis o que pensais, o que vai nos vossos corações... Ninguém tocará a vossa carta, já sabeis que tudo é segredo; assim será uma espécie de confidência que fareis a um vosso Padre Espiritual. Mas não quero que faleis da minha festa, nem mencioneis os cumprimentos... Sei que, às vezes, quereis vir para falar comigo; eu, entretanto, nem sempre posso estar no meio de vós; por isso, esta será uma maneira de suprir. Na carta, podeis dizer-me tudo o que quereis. É um costume que foi seguido desde o começo. Claro, é algo que consola... Não me conteis os pecados; os pecados contai-os ao confessor, mas dizei-me aquilo que pensais e que tendes no coração... Uma página pode ser suficiente; alguém, talvez, não tenha nada a dizer-me; pois bem, quem não tem nada a dizer-me, coloque a própria assinatura e... pronto! Outro, ao invés, talvez tenha mais coisas a dizer-me... Pois bem, escreva o que sente. Eu as leio e depois vo-las restituirei, e vós as rasgareis” (27).

Como acenei acima, entre as cartinhas quase de obrigação estavam as que continham os propósitos dos retiros espirituais. Estas também constituíam um importante meio na pedagogia do Allamano. Depois de lê-las, comentava-as e, sobretudo, durante o ano, as lembrava, convidando o indivíduo a recordar os propósitos feitos, a examinar-se quanto à sua aplicação prática, sempre encorajando a retomar o caminho com generosidade. Também neste ponto é orientativo o testemunho do Padre Lorenzo Sales: “Depois do retiro, os bilhetes que continham os propósitos e as cartas confidenciais eram colocados num grande envelope, que ele levava consigo à Consolata, devolvendo-os em seguida na primeira oportunidade, às vezes retocados” (28).

3. FORMAÇÃO PERSONALIZADA NOS ENCONTROS COMUNITÁRIOS

Refiro-me sobretudo às conferências dominicais e quero fazer notar o seguinte: nestas conferências, embora o Fundador se dirigisse a todos, sabia atingir também os indivíduos, como se falasse com cada um em particular. Para entender isto, é preciso, antes de tudo, considerar o elo de união existente entre ele e cada aluno. Além disso, é claro, ele conhecia a arte de envolver aquelas vidas que bem conhecia e que sabiam ser conhecidas por ele. Não deixa de ser interessante o método de diálogo que usava quando se dirigia a todos, interpelando, às vezes, um indivíduo, como exemplo que servisse para os outros.
Creio que se possa afirmar que Allamano, nas conferências, falava a todos e, ao mesmo tempo, a cada um em particular. Procurarei demonstrar as razões principais.

a) Comunicava sua vida, sua pessoa, como meditamos ontem no retiro. Dado que os alunos o amavam, quando ele falava de si mesmo, os envolvia. Cada um percebia que o próprio pai lhe confiava alguma coisa. É de grande significado uma frase do Padre G. Bartorelli, referindo-se às conferências: “Como Fundador, não o teríamos trocado com nenhum outro” (29).

c) Envolvia os indivíduos. Allamano não era um orador que dominasse os ouvintes com o
brilho das palavras, mas alguém capaz de comunicar-se com qualquer um de seus ouvintes, interpelando-o. Não era apenas arte pedagógica, mas conhecimento vital e relacionamento de confiança. Podia falar a cada indivíduo em público, sem o perigo de ferir-lhe a suscetibilidade.
Eis alguns exemplos: no dia 9 de maio, tratando da humildade, dirige-se ao mais moço e lhe diz: “Por exemplo, você, Luís, deve considerar-se inferior a todos os outros, e creio que não seja necessário fazer muito esforço para isso” (30).
No dia 22 de outubro de 1916, falando às irmãs, em determinado momento diz: “Devemos ser tão exatas, de sorte que o Anjo tenha que acabar de escrever com letras de ouro a palavra que interrompemos! Nunca lhe aconteceu isto?” – perguntou a uma irmã; ao que ela respondeu: “Não!” E o Fundador: “Ah! É porque você ainda não é muito exata” (31).

c) Encontrava os filhos. Esta também é uma atitude interessante. Allamano, nas conferências, como pai, encontrava filhos, por quem era conhecido e amado. Não era um Reitor que encontrava alunos. Os encontros eram enquadrados no espírito de família que reinava do Instituto. Assim ele era esperado, suas palavras eram esperadas, as conferências eram muito curtas, ninguém se enfastiava. Esta não é uma definição poética, mas a síntese de numerosos testemunhos, que demonstram o clima que reinava na comunidade, nas tardes de domingo. Eis alguns:

Irmão Benedetto Falda afirma: “De domingo, Allamano era todo para seus filhos... Sua conferência nada tinha de catedrático ou de rigidez; era o Pai que, sentado entre seus filhos, que queria bem junto a si, especialmente os irmãos coadjutores, e nos falava com simplicidade, sem cerimônias. Eram conselhos segredados quase aos ouvidos, mas que ficavam impressos na alma e nos embebiam do seu espírito” (32).
Padre V. Dolza: “O seu zelo pela nossa formação e santificação se manifestava sobretudo nas maravilhosas conferências dominicais. Chegava entre nós sorridente, sentava-se, tirava do bolso um bilhete: e nós ficávamos encantados perante a sua palavra. Com que ardente desejo esperávamos aqueles momentos, sempre muito breves para nós!” (33).
Padre G. Chiomio: “Fala com simplicidade, fala aos seus filhos que muito ama; tudo é caracterizado pela maior bondade paterna” (34).

d) Tornava presentes os missionários que trabalhavam em lugares distantes. Refiro-me ao costume que Allamano tinha de ler, antes ou durante as conferências, trechos das cartas que recebia da África. Os que escreviam, no mais das vezes, eram conhecidos, para não dizer amigos dos ouvintes. Por isso, este método imprimia vivacidade ao encontro e tocava não só a comunidade, mas também os indivíduos. Este método ajudou muito o Fundador a criar o espírito de família.
Também a este respeito temos testemunhos interessantes. Limito-me a citar o do Padre G. Panelatti, que revela de maneira perfeita o clima reinante: “Para nós, a presença do Fundador era sempre uma alegria; ele nos entretinha familiarmente e nos afervorava em nossa vocação, quase sem que nos déssemos conta. Às vezes lia para nós cartas ou trechos de cartas vindas da África, escritas por aqueles que tínhamos conhecido, e daqui tomava a ocasião para fazer suas exortações” (35).

A bem da verdade, este modo de fazer criou alguma dificuldade. Foi o co-Fundador, Cônego Tiago Camisassa, que notou isso durante sua viagem à África. Acontecia o seguinte: alguns dos nossos missionários recém-chegados à missão, não encontrando as coisas exatamente como haviam sido descritas pelos missionários anciãos em suas cartas, começavam a fofocar, a queixar-se, ou a ridicularizar os confrades. Por isso, alguns missionários sentiam certa repugnância em escrever cartas ao Fundador, por medo que as lesse em público. Tiago Camisassa tomou a liberdade de sugerir ao Fundador, através de carta, que não lesse em público a correspondência dos missionários (36). Examinei as conferências do Fundador feitas após a carta enviada pelo Camisassa, despachada da África aos 23 de novembro de 1911. Em 1912, parece-me que tenha lido poucas, mas em seguida retomou o seu estilo e continuou a lê-las em público, talvez até com mais entusiasmo que antes. Acreditava demais na própria paternidade, como razão de conhecimento e de união de cada um de seus filhos com todos os outros.

d) As reações dos indivíduos – As reações dos missionários, provindas tanto das
conferências como das cartas do Fundador, difundiram-se no Instituto. São todas reações positivas. Pelo que diz respeito às conferências, é indicativo o entusiasmo que se descobre no testemunho do Pe. Lorenzo Sales: “Todos aqueles que tiveram a sorte de ouvi-lo, são unânimes em declarar que, após cada conferência, brotava espontânea nos ouvintes a expressão dos discípulos de Emaús: ‘Acaso não nos ardia o coração quando ele nos falava e explicava as Escrituras?’” (37).
Também Padre Vitório Sandrone é do mesmo parecer: “Depois da conferência, sentíamos a necessidade de entreter-nos com Jesus Sacramentado, para implorar a graça de sermos santos sacerdotes” (38).

As reações referentes às cartas também são muito positivas, especialmente as que o Fundador enviou aos missionários na África. Padre Filipe Perlo descreve com exatidão a situação, quando afirma: “As raras cartas [N.B.: nos inícios, não eram de forma nenhuma raras, mas este adjetivo denota a expectativa] do Senhor Reitor são, naturalmente, lidas por primeiro; e quando são cartas individuais, então cada um as lê quase que misteriosamente, temendo, por assim dizer, que o vento lhes possa levar embora alguma palavra; e depois da primeira leitura, cada frase é estudada e analisada” (39).
Parece-me aguda e exata a conclusão acrescentada pelo Padre Igino Tubaldo: “Nestas cartas, Allamano revela-se sobretudo o experiente diretor de espírito; escreve para encorajar, para iluminar e para mostrar os fins superiores das labutas apostólicas” (40).

Acerca dos contatos epistolares do Allamano com os seus filhos, apraz-me sublinhar a liberdade com que o Fundador podia expressar-se, sem ofender a sensibilidade dos seus. Esta atitude demonstra que, de ambos os lados, reinava confiança, respeito e grande liberdade. Em outras palavras: o pai podia falar com clareza, porque o filho sabia com que coração o pai o corrigia. Trago como exemplo emblemático um trecho da carta de 1918, dirigida ao Padre Gaudêncio Barlassina, quando este já era Prefeito Apostólico do Kaffa: “Na que me enviaste dizes que te sentes inspirado naquilo que fazes, e quase te apelas ao tribunal de Deus. Meu caro, o caminho seguro da vontade de Deus é a obediência /.../. Em todo o caso, jamais te arrependerás de teres retardado um progresso não desejado pelos Superiores. Nós também desejamos ardentemente o progresso, mas com prudência e segundo as diretrizes de Propaganda Fide” (41).

4. A COMUNIDADE: LUGAR FORMATIVO

Na pedagogia de Allamano há um mútuo influxo e um equilíbrio de relacionamento formativo entre indivíduo e comunidade. Ele ajuda a pessoa a formar-se na comunidade, com a ajuda da comunidade, em vista de uma vida e de um apostolado comunitário (espírito de família e união de espírito). Além disso, forma a comunidade, a partir da realidade das pessoas, não de maneira anônima ou teórica. Para o Fundador, cada indivíduo é importante não só em si, mas também em conexão com os demais membros da comunidade. Tentarei expressar os princípios mais salientes da pedagogia do Padre Allamano a este respeito.

a) Indivíduo e comunidade são inseparáveis – O Fundador, em diversas ocasiões,
manifestou a convicção de que entre o indivíduo e grupo (comunidade, Instituto) existe uma relação inseparável, e que ambos devem ser considerados de maneira unitária, sem separação. Não formulou expressamente o princípio teórico, mas o afirmou em diversas ocasiões, para solucionar casos particulares. Por exemplo, insistindo sobre a necessidade de não criticar, mas de obedecer, em determinado momento observa: “Não digo, de forma alguma, que vos devais desinteressar da casa, isso não; o bem e o mal do Instituto diz respeito a todos, indistintamente” (42). Ou então, explicando às irmãs a razão pela qual havia demitido uma certa Irmã Praxedes, que ocultara a doença da surdez, diz: “Enquanto se procura o bem do Instituto, busca-se também o bem da irmã... Ai de mim se não o tivesse feito, em vista do bem do Instituto e da irmã!” (43).

b) Da qualidade do indivíduo depende a qualidade da comunidade – O Fundador, com certeza, queria que o Instituto fosse de qualidade, com características próprias. Para conseguir isso, visava a qualidade dos indivíduos, queria “gente de primeira!” O Instituto, de fato, teria sido como eram os indivíduos. Exemplifico este princípio, recorrendo a uma expressão dita às irmãs, no dia 15 de setembro de 1918: “Se esta casa não se distinguisse em nada das outras casas religiosas, todas vós teríeis podido entrar em outras casas religiosas, sem que houvesse necessidade de construir uma outra casa. É preciso que esta comunidade se distinga das outras comunidades. Mas, para chegar a isso, uma coisa é essencial: deixar-se formar ao espírito do Instituto” (44).

e) Se os indivíduos são santos o Instituto é santo – É o ponto culminante do princípio
precedente. Para o Fundador, esta insistência deve ser evidenciada. Só há garantia de o Instituto ser santo, se cada indivíduo tender à santidade. É mister, portanto, que nos ajudemos mutuamente no empenho da perfeição. Eis uma expressão significativa, que foi dita ao explicar o fim primário: “Santificação dos membros... Não só de alguns, mas de todos. Não se diga, pois: ‘Oh! há tantos que percorrem o caminho da santificação!... Eu vou caminhando atrás, um pouco mais devagar!’ Não! Todos e tudo deve ajudar-nos a ser santos! Todos devemos tornar-nos santos, todos são membros do Instituto e devem torna-se santos, devem ajudar-se” (45).
Padre V. Dolza oferece este testemunho: “O Fundador sempre nos dizia que podíamos ser diferentes um do outro, mas que na santidade devíamos ser todos iguais” (46).

d) A comunidade dá autenticidade e faz o indivíduo crescer – Este princípio, provavelmente, é o mais forte. Para Allamano, a preferência é para a comunidade, neste sentido: cada indivíduo deveria saber dar precedência às expressões comunitárias, tanto de vida quanto de apostolado. Por isso, as expressões comunitárias são as que mais ajudam a viver fervorosamente, as que mais nos ajudam a crescer e a tornar-nos eficientes.
Para confirmar o que disse, menciono apenas dois exemplos, embora o Fundador se expressasse da mesma maneira em diversas outras ocasiões. Ao Padre Filipe Perlo, no dia 6 de maio de 1904, aprovando a primeira conferência de Murang’a, escreveu: “Em certos casos, a uniformidade de todos deve prevalecer, ainda que surja alguma idéia (isolada) melhor” (47). Às irmãs, falando da oração, diz palavras quase incompreensíveis, se não conhecêssemos as suas idéias: “As orações comunitárias devem sempre ser preferidas às nossas orações particulares... Não tenhais pena de interromper o Pai-nosso, ou qualquer outra oração que estejais rezando, para responder junto com as outras ainda que seja um simples ‘Amém’” (48).

Em resumo, podemos dizer que o Fundador valorizou grandemente o conceito da “vocação comum”: somos chamados pelo Espírito Santo a viver o carisma concedido a Allamano e que ele nos transmitiu. É um carisma que cada um de nós, por vocação, é chamado a viver não isoladamente, mas em comunidade, e com cada coirmão que compõe a comunidade. O Fundador nos dá a entender isso quando afirma: “O que o Apóstolo pede aos cristãos de Éfeso /.../, muito convém também a nós, que formamos um corpo superior pela força espiritual da vocação religiosa, sacerdotal e missionária” (49).

Conclusão

Creio que a melhor conclusão nos seja oferecida pelas palavras que o Fundador proferiu por ocasião da cerimônia de “envio” de missionários, no dia 16 de dezembro de 1920, quando confidenciou: “... O lugar onde se vai trabalhar é apenas uma materialidade; o importante não é estar neste ou naquele lugar... Todos somos missionários, vivemos todos unidos, formamos todos uma só coisa, como se estivéssemos todos aqui (em Turim), todos no Quênia, todos no Kaffa, todos em Iringa” (50).

Durante um colóquio, na Consolata, por ocasião do seu aniversário natalício, no dia 21 de janeiro de 1925, Allamano fez esta outra confidência: “Quando me examino, não penso só em mim, mas também nos outros, penso nas minhas responsabilidades, porque formamos um só corpo. Quero ver em vós a vontade constante de levar uma vida mais perfeita que for possível, sem medo de exagerar... Esta sempre foi a minha idéia” (51).

INTRODUÇÃO

No passado, o tema “Fundador-Formador” já foi expressamente estudado sob ângulos diversos (1). Venho repropô-lo agora sob o ponto de vista dos formadores. O Fundador pode ser modelo para um serviço formativo junto aos jovens, indicando um espírito e um método pedagógico, que seja fiel ao carisma e, ao mesmo tempo, idôneo ao “hoje” da formação religiosa, sacerdotal e missionária.

As fontes principais a que recorro, além dos estudos indicados na notas, são as seguintes: o seu pensamento direto (conferências e cartas); a experiência dos missionários e missionárias (testemunhos e comemorações); a nossa atual experiência (sensibilidade do Instituto). Estas páginas não contêm um estudo geral sobre a formação, como é entendida na Igreja e no Instituto, mas reflexões muito específicas, ligadas à pessoa do Fundador, isto é, ao seu pensamento e à sua experiência, como foram recebidas na sã tradição IMC e MC. Portanto, no que se refere à formação, estamos no plano do “carisma” do Fundador e do Instituto.

Dando seguimento a uma ordem lógica, desenvolvo estes aspectos:
• a personalidade pedagógica do Fundador;
• a formação personalizada, através dos contatos mantidos com os indivíduos e nas intervenções comunitárias;
• a capacidade de criar um ambiente formativo comunitário, envolvendo a todos e a cada um em particular.

1. A PERSONALIDADE DE ALLAMANO COMO FUNDADOR

a) Consciência da própria responsabilidade de educador

Por ocasião da beatificação, a Igreja reconheceu oficialmente que Allamano foi um insigne educador de sacerdotes e de missionários (2). O próprio Allamano, desde o começo, teve consciência deste seu carisma: “Sou eu, e os que eu vos indico como guias, que deveis unicamente ouvir... A forma no Instituto é a que o Senhor me inspirou e me inspira” (3). Estas palavras são fortes e dão a entender que o Fundador considerava este empenho como uma “responsabilidade” especial e pessoal (4).

Esta experiência o induziu a reservar para si a formação. Padre L. Sales afirma que o Fundador “preferiu privar-se da ajuda de um homem da envergadura moral e espiritual de um Boccardo (que colocara como condição: ter toda a liberdade na formação dos membros do Instituto), antes que falhar no cumprimento do seu dever perante Deus: transmitir aos alunos do Instituto o seu espírito" (5).
A razão de tal tenacidade consiste nisto: o Fundador queria ser fiel à inspiração original, para transmiti-la como ele a tinha recebido, de sorte que resultasse em carisma do Instituto. Assim, enquanto formador, torna-se também “transmissor” do carisma.

b) Método e meios educativos

O método educativo do Fundador jorrava de uma atitude de fundo, que era o seu “senso de paternidade” (6). No estudo citado, Padre Tubaldo põe este título significativo: “Allamano na vida dos seus primeiros missionários”, qualificando a formação como um “ser na vida”, o que para o nosso Fundador foi perfeitamente verdadeiro, como testemunham muitos missionários (7).

Allamano realizava este “ser na vida” de seus filhos e filhas, antes de tudo, amando-os com verdadeiro amor paterno, que manifestava de diversos modos, sempre com muita dignidade. Algumas de suas famosas expressões são muito densas. Para exemplificar, cito três; duas se referem aos missionários do Quênia: “Muitas e muitas coisas boas para todos vós, meus queridos missionários, para quem agora unicamente vivo neste mundo” (8). “Transmita tantas coisas boas a todos, dando-lhes a certeza de que rezo por eles e somente por eles vivo” (9). A terceira expressão é dirigida a uma irmã, para encorajá-la a superar dúvidas acerca da vocação: “Ouve-me, pois sabes perfeitamente que te quis e te quero sempre muito bem, com verdadeiro amor de pai” (10).

Além deste profundo amor paterno, Allamano assumira uma outra atitude, que podemos igualmente definir como “atitude de fundo”, ou seja: atenção à realidade e à capacidade de se adequar também no plano da preparação dos missionários. Através das cartas, dos relatórios e dos diários, o Fundador conseguia compreender como os seus fossem realmente idôneos; e compreender também quando era necessário intervir e como intervir no plano da formação. Havia um dar e um receber entre a África e Turim, de sorte que Allamano era ajudado a adaptar a preparação de acordo com as necessidades missionárias. Esta sua atenção e capacidade de escuta fez com que se consolidasse nele a convicção de que era indispensável dar aos missionários uma preparação sólida e adequada. É neste contexto que compreendemos as suas insistências em não ter pressa de partir para a missão, mas de fazer primeiro uma adequada e boa preparação (11).

Finalmente, Allamano entrava na vida de seus filhos e filhas valendo-se de um método que se baseava na máxima confiança e no diálogo confiante, além de valorizar uma longa série de meios que o ajudavam a manter-se em contato constante e ativo com a comunidade e com os indivíduos em particular (12).

2. FORMAÇÃO PERSONALIZADA NOS CONTATOS INDIVIDUAIS

A arte pedagógica do Allamano facilitou-lhe o contato individual com as pessoas. Cada indivíduo se sentia acolhido, ouvido, compreendido e acompanhado, como se fosse a única pessoa. Evitou assim a massificação. Dentre todos os testemunhos, basta-nos o do Padre Panelatti, que assim recorda as visitas do Fundador à Consolatina: “Dava-me a impressão de que ele não tivesse nada a fazer. Estando conosco, ocupava muito bem o seu tempo... Nunca deixava transparecer que tivesse preocupação e urgência para atender a outros compromissos; foi somente mais tarde que viemos a saber que ele dirigia meia diocese e era pessoa muito ocupada” (13).

Em que consistia esta arte pedagógica que visava a formação personalizada nos contatos e com as pessoas em particular? Tentarei encaixá-la dentro de algumas linhas de comportamento do Fundador e dos alunos.

a) A arte de acolher as pessoas

O primeiro ato formativo se realiza no momento da acolhida. Allamano valorizou espontaneamente a acolhida, criando uma atmosfera favorável ao contato formativo, não apenas por ocasião da primeira aceitação (14), mas em muitas outras circunstâncias. Esta acolhida se realizava num horizonte muito amplo, demonstrando tanto a intensidade do seu coração de pai, como sua inata idoneidade formativa. Para entender, pensemos como acolhia a todos e cada cada aluno, na Casa Mãe, sempre que o desejassem, a tal ponto de se formar uma fila junto à porta do seu quarto; como acolhia, de boa vontade, com alegria e sem sala de espera, no Santuário da Consolata, quando iam visitá-lo (15); como acolhia os alunos em ocasiões especiais (profissões religiosas, ordenações, partida para as missões, retorno das missões, etc.); como acolheu, com especial atenção, os alunos que voltavam da guerra! A prova é que, estando com ele, todos se sentiam à vontade, recebidos como filhos, certos de não lhe causar aborrecimento com a sua presença. Para um formador que queira penetrar na vida de um jovem, para depois acompanhá-lo em sua caminhada, a arte da acolhida é uma arte insubstituível.

Sob este aspecto, trago dois testemunhos escolhidos entre muitos. O primeiro é do Padre Lorenzo Sales: “Em trinta anos, nunca aconteceu que alguém não fosse recebido. Depois, com poucas palavras, o Fundador colocava as coisas no lugar. Mas precisava ver com que acento ele as pronunciava, precisava ver o seu gesto parco mas resoluto, e aquela atitude da cabeça, aquele olhar límpido e penetrante que calava nas profundezas do coração!” (16).
O segundo testemunho é da Irmã Maria dos Anjos: “Ele queria que todas as irmãs tivessem a possibilidade de aproximar-se dele e de lhe falar livremente, tanto no Instituto como no Santuário da Consolata. Acolhia a todas com grande caridade, tratando-as com verdadeiro amor paterno. As irmãs saíam da sua audiência sempre sorridentes, de sorte que, quando se via uma irmã particularmente contente, costumava-se dizer: ‘Sem dúvida, ela foi falar com o Pai’” (17).

b) Atenção a situações particulares

Não tratava a todos e sempre do mesmo modo. Conhecendo pessoalmente os seus, sabia intervir de maneira “apropriada” nos momentos especiais da vida de cada um. Cada aluno era considerado na sua peculiaridade e no seu momento existencial. Allamano não massificava, nem padronizava os seus contatos. Neste ponto era muito atencioso e delicado.

No tocante a isto, os testemunhos são inumeráveis. Apresento apenas dois, para servir de exemplo. As cartas do Fundador ao Irmão Benedetto Falda, dono de um caráter sensibilíssimo, são todas muito significativas a respeito. Eis a do dia 26 de janeiro de 1905, que lhe foi enviada num momento especial; constitui uma obra-prima de afeto e de fineza pedagógica: “Penso freqüentemente ao meu caro Benedetto, e quisera tê-lo novamente ao meu lado no meu locutório, para ouvi-lo falar com entusiasmo e alegria. Também entre as irmãs e os clérigos do Instituto são muito lembrados o brio e a atividade de Benedetto. Sei perfeitamente que, para um coração sensível como o teu, é fácil deixar-se envolver pela saudade, por um pouco de tristeza e depressão; por isso necessitas de alguma palavra amiga de encorajamento. Quando acontece isto, pensa em mim e imagina que me ouves dizer: ‘Coragem no Senhor!’, e tudo o mais que te diria... Depois, não tens acaso o Superior, que te quer muito bem e que me escreveu tantas coisas bonitas a teu respeito?! E depois... Jesus Sacramentado, que transforma os fracos em leões! És sacristão... Desejo que não te afadigues demais; e quando estiveres suado, preserva-te com cuidado da correnteza de ar e da umidade; afinal, quero que tomes os devidos cuidados para proteger a saúde. Não censuro as tuas longas cartas que envias aos parentes e amigos, que muito se alegram; pode escrever-lhes, sim, e longamente; mas para que eu não fique com ciúme, escreve também a mim ou ao Senhor Vice-Reitor” (18).

Um segundo testemunho, igualmente muito original, é o do Padre A. Bellani que, sendo o primeiro não piemontês, encontrava dificuldades, visto que seus companheiros, normalmente, falavam em dialeto piemontês: “Decidi-me, por isso, dirigir-me ao Venerado Fundador, que sempre me inspirara grande confiança. E disse-lhe: ‘Monsenhor, o senhor me perguntou se me encontro bem na comunidade... Sim, encontro-me muito bem, mas aquele dialeto que é falado por todos os meus companheiros não só me é incompreensível, mas me dá nojo!’ – “Providenciarei, caro Pe. Bellani, e sem demora” – respondeu-me ele. Pois bem, na mesma tarde toda a sua conferência versou sobre a necessidade de que em casa, como também durante o tempo dos recreios, se falasse a língua italiana, para maior educação e respeito para com todos os não piemonteses que poderiam depois entrar no Instituto” (19).

c) Pedagogia do encorajamento

Allamano era um homem positivo, nunca deixava um coração prostrado, e menos ainda tumulduado. Fazia notar com clareza os lados defeituosos, mas depois sempre encorajava e infundia esperança. Quem afirma isto é Padre Lorenzo Sales, que o conheceu de perto e muito bem: “Como era portentosa aquela mão que ele pousava no ombro e aquelas expressões que dizia ao dar sua bênção paterna: ‘Vai em frente!... Tem coragem!’ (20).

A este respeito, quisera sublinhar quanto o Fundador tenha valorizado o versículo 11 do salmo 76: “Nunc coepi!”, que literalmente traduzia assim: “Agora começo!” (21). É um critério educativo deduzido da espiritualidade carmelitana. Às irmãs dizia: “Não desanimeis nunca, nunc coepi (agora começo). Diria que este é o brasão do nosso Instituto: começar sempre!” (22). E numa outra circunstância: “Caíste? Coloca-te no lugar! Santa Teresa dizia o ‘nunc coepi’ (agora começo) quarenta ou cinqüenta vezes ao dia. Pedia perdão a Deus e dizia: ‘Coisas do meu jardim, coisas da minha horta! Senhor, derramai um pouco de chuva, para que cresça coisa boa!’” (23).

d) Liberdade e maturidade nas pessoas

Ainda quando Allamano falasse para numerosas pessoas, não dominava ninguém. Não impunha confiança, mas ganhava-a. Admitia, ou melhor, desejava que os alunos amadurecessem e aprendessem a “caminhar sozinhos”. Como método ordinário de formação, Allamano previa os encontros regulares entre o aluno e o educador, mas procurava suscitar momentos de autonomia, sempre mais longos, considerando a situação de isolamento que depois se verificaria no campo de missão. Caminhar com as próprias pernas, além de tudo, é sinal de maturidade, ajuda a pessoa a não perder tempo com ninharias e banalidades.

Também a este respeito temos testemunhos significativos. Limito-me a citar um trecho da conferência feita às irmãs, no dia 13 de fevereiro de 1916, quando o Fundador trata do assunto de modo genérico e, portanto, propõe um critério de vida: “Numa comunidade há pessoas que não necessitam de nada, não têm necessidade de falar com a Superiora nem comigo; põem em prática o que ouvem, procuram observar as regras e prosseguem seu caminho tranqüilamente... Para estas, Deo gratias! Que continuem assim o ano todo; não necessitam de ninguém; basta-lhes o confessor e Nosso Senhor. Deo gratias! Se todas fossem assim, depois, lá na África tudo iria bem. São pessoas que caminham por si mesmas...” E mais adiante conclui: “Conheceis o vosso dever; conheceis também a maneira de o cumprir mais fervorosamente; pois bem, não se deve perder tempo nem fôlego por coisas da nada” (24).

e) A pedagogia das cartas

As assim chamadas “cartinhas” foram um dos meios mais utilizados para garantir um contato construtivo entre o Fundador e todos os alunos. Eis o testemunho do Padre Lorenzo Sales: “Na impossibilidade de realizar encontros mais freqüentes com o Fundador, como seria de desejar, os colóquios individuais eram, às vezes, substituídos pelos colóquios escritos. Todo aluno tinha plena liberdade de escrever ao Fundador e de fazer chegar às suas mãos a carta. Ele, depois, respondia de viva voz, ou, mais freqüentemente, utilizava o rodapé da mesma carta recebida, remetendo-a em seguida ao indivíduo, num envelope cuidadosamente fechado. Também aqui, poucas linhas e breves palavras, mas que alcançavam sempre seu objetivo” (25).

As cartas ao Fundador eram de dois tipos: as espontâneas, quando alguém sentia a necessidade de lhe escrever, e as quase obrigatórias – uma por ocasião da festa de São José, seu onomástico, e outra que continha os propósitos dos retiros. Para todas garantia a máxima reserva e liberdade (26), mas o Fundador as desejava. Analisando tudo isso, percebe-se como o Fundador, com muita sensatez, desejasse entrar nos acontecimentos ordinários da vida de seus filhos e filhas, para conhecê-los melhor, para orientá-los, encorajá-los e, se necessário, corrigi-los.

As cartinhas por ocasião do seu onomástico tinham uma importância particular. Trago aqui o seu pensamento, que explica muito bem o conteúdo pedagógico deste relacionamento epistolar: “Dado que no próximo domingo quereis celebrar a minha festa, e... não se pode recusar, por isso, como das outras vezes, ainda que os vossos cumprimentos eu os conheça antes mesmo que vós os façais, entretanto, me escrevereis uma cartinha, como de costume, não comprida..., pois não tenho tempo de ficar lendo tudo. Vós me direis o que pensais, o que vai nos vossos corações... Ninguém tocará a vossa carta, já sabeis que tudo é segredo; assim será uma espécie de confidência que fareis a um vosso Padre Espiritual. Mas não quero que faleis da minha festa, nem mencioneis os cumprimentos... Sei que, às vezes, quereis vir para falar comigo; eu, entretanto, nem sempre posso estar no meio de vós; por isso, esta será uma maneira de suprir. Na carta, podeis dizer-me tudo o que quereis. É um costume que foi seguido desde o começo. Claro, é algo que consola... Não me conteis os pecados; os pecados contai-os ao confessor, mas dizei-me aquilo que pensais e que tendes no coração... Uma página pode ser suficiente; alguém, talvez, não tenha nada a dizer-me; pois bem, quem não tem nada a dizer-me, coloque a própria assinatura e... pronto! Outro, ao invés, talvez tenha mais coisas a dizer-me... Pois bem, escreva o que sente. Eu as leio e depois vo-las restituirei, e vós as rasgareis” (27).

Como acenei acima, entre as cartinhas quase de obrigação estavam as que continham os propósitos dos retiros espirituais. Estas também constituíam um importante meio na pedagogia do Allamano. Depois de lê-las, comentava-as e, sobretudo, durante o ano, as lembrava, convidando o indivíduo a recordar os propósitos feitos, a examinar-se quanto à sua aplicação prática, sempre encorajando a retomar o caminho com generosidade. Também neste ponto é orientativo o testemunho do Padre Lorenzo Sales: “Depois do retiro, os bilhetes que continham os propósitos e as cartas confidenciais eram colocados num grande envelope, que ele levava consigo à Consolata, devolvendo-os em seguida na primeira oportunidade, às vezes retocados” (28).

3. FORMAÇÃO PERSONALIZADA NOS ENCONTROS COMUNITÁRIOS

Refiro-me sobretudo às conferências dominicais e quero fazer notar o seguinte: nestas conferências, embora o Fundador se dirigisse a todos, sabia atingir também os indivíduos, como se falasse com cada um em particular. Para entender isto, é preciso, antes de tudo, considerar o elo de união existente entre ele e cada aluno. Além disso, é claro, ele conhecia a arte de envolver aquelas vidas que bem conhecia e que sabiam ser conhecidas por ele. Não deixa de ser interessante o método de diálogo que usava quando se dirigia a todos, interpelando, às vezes, um indivíduo, como exemplo que servisse para os outros.
Creio que se possa afirmar que Allamano, nas conferências, falava a todos e, ao mesmo tempo, a cada um em particular. Procurarei demonstrar as razões principais.

a) Comunicava sua vida, sua pessoa, como meditamos ontem no retiro. Dado que os alunos o amavam, quando ele falava de si mesmo, os envolvia. Cada um percebia que o próprio pai lhe confiava alguma coisa. É de grande significado uma frase do Padre G. Bartorelli, referindo-se às conferências: “Como Fundador, não o teríamos trocado com nenhum outro” (29).

c) Envolvia os indivíduos. Allamano não era um orador que dominasse os ouvintes com o
brilho das palavras, mas alguém capaz de comunicar-se com qualquer um de seus ouvintes, interpelando-o. Não era apenas arte pedagógica, mas conhecimento vital e relacionamento de confiança. Podia falar a cada indivíduo em público, sem o perigo de ferir-lhe a suscetibilidade.
Eis alguns exemplos: no dia 9 de maio, tratando da humildade, dirige-se ao mais moço e lhe diz: “Por exemplo, você, Luís, deve considerar-se inferior a todos os outros, e creio que não seja necessário fazer muito esforço para isso” (30).
No dia 22 de outubro de 1916, falando às irmãs, em determinado momento diz: “Devemos ser tão exatas, de sorte que o Anjo tenha que acabar de escrever com letras de ouro a palavra que interrompemos! Nunca lhe aconteceu isto?” – perguntou a uma irmã; ao que ela respondeu: “Não!” E o Fundador: “Ah! É porque você ainda não é muito exata” (31).

c) Encontrava os filhos. Esta também é uma atitude interessante. Allamano, nas conferências, como pai, encontrava filhos, por quem era conhecido e amado. Não era um Reitor que encontrava alunos. Os encontros eram enquadrados no espírito de família que reinava do Instituto. Assim ele era esperado, suas palavras eram esperadas, as conferências eram muito curtas, ninguém se enfastiava. Esta não é uma definição poética, mas a síntese de numerosos testemunhos, que demonstram o clima que reinava na comunidade, nas tardes de domingo. Eis alguns:

Irmão Benedetto Falda afirma: “De domingo, Allamano era todo para seus filhos... Sua conferência nada tinha de catedrático ou de rigidez; era o Pai que, sentado entre seus filhos, que queria bem junto a si, especialmente os irmãos coadjutores, e nos falava com simplicidade, sem cerimônias. Eram conselhos segredados quase aos ouvidos, mas que ficavam impressos na alma e nos embebiam do seu espírito” (32).
Padre V. Dolza: “O seu zelo pela nossa formação e santificação se manifestava sobretudo nas maravilhosas conferências dominicais. Chegava entre nós sorridente, sentava-se, tirava do bolso um bilhete: e nós ficávamos encantados perante a sua palavra. Com que ardente desejo esperávamos aqueles momentos, sempre muito breves para nós!” (33).
Padre G. Chiomio: “Fala com simplicidade, fala aos seus filhos que muito ama; tudo é caracterizado pela maior bondade paterna” (34).

d) Tornava presentes os missionários que trabalhavam em lugares distantes. Refiro-me ao costume que Allamano tinha de ler, antes ou durante as conferências, trechos das cartas que recebia da África. Os que escreviam, no mais das vezes, eram conhecidos, para não dizer amigos dos ouvintes. Por isso, este método imprimia vivacidade ao encontro e tocava não só a comunidade, mas também os indivíduos. Este método ajudou muito o Fundador a criar o espírito de família.
Também a este respeito temos testemunhos interessantes. Limito-me a citar o do Padre G. Panelatti, que revela de maneira perfeita o clima reinante: “Para nós, a presença do Fundador era sempre uma alegria; ele nos entretinha familiarmente e nos afervorava em nossa vocação, quase sem que nos déssemos conta. Às vezes lia para nós cartas ou trechos de cartas vindas da África, escritas por aqueles que tínhamos conhecido, e daqui tomava a ocasião para fazer suas exortações” (35).

A bem da verdade, este modo de fazer criou alguma dificuldade. Foi o co-Fundador, Cônego Tiago Camisassa, que notou isso durante sua viagem à África. Acontecia o seguinte: alguns dos nossos missionários recém-chegados à missão, não encontrando as coisas exatamente como haviam sido descritas pelos missionários anciãos em suas cartas, começavam a fofocar, a queixar-se, ou a ridicularizar os confrades. Por isso, alguns missionários sentiam certa repugnância em escrever cartas ao Fundador, por medo que as lesse em público. Tiago Camisassa tomou a liberdade de sugerir ao Fundador, através de carta, que não lesse em público a correspondência dos missionários (36). Examinei as conferências do Fundador feitas após a carta enviada pelo Camisassa, despachada da África aos 23 de novembro de 1911. Em 1912, parece-me que tenha lido poucas, mas em seguida retomou o seu estilo e continuou a lê-las em público, talvez até com mais entusiasmo que antes. Acreditava demais na própria paternidade, como razão de conhecimento e de união de cada um de seus filhos com todos os outros.

d) As reações dos indivíduos – As reações dos missionários, provindas tanto das
conferências como das cartas do Fundador, difundiram-se no Instituto. São todas reações positivas. Pelo que diz respeito às conferências, é indicativo o entusiasmo que se descobre no testemunho do Pe. Lorenzo Sales: “Todos aqueles que tiveram a sorte de ouvi-lo, são unânimes em declarar que, após cada conferência, brotava espontânea nos ouvintes a expressão dos discípulos de Emaús: ‘Acaso não nos ardia o coração quando ele nos falava e explicava as Escrituras?’” (37).
Também Padre Vitório Sandrone é do mesmo parecer: “Depois da conferência, sentíamos a necessidade de entreter-nos com Jesus Sacramentado, para implorar a graça de sermos santos sacerdotes” (38).

As reações referentes às cartas também são muito positivas, especialmente as que o Fundador enviou aos missionários na África. Padre Filipe Perlo descreve com exatidão a situação, quando afirma: “As raras cartas [N.B.: nos inícios, não eram de forma nenhuma raras, mas este adjetivo denota a expectativa] do Senhor Reitor são, naturalmente, lidas por primeiro; e quando são cartas individuais, então cada um as lê quase que misteriosamente, temendo, por assim dizer, que o vento lhes possa levar embora alguma palavra; e depois da primeira leitura, cada frase é estudada e analisada” (39).
Parece-me aguda e exata a conclusão acrescentada pelo Padre Igino Tubaldo: “Nestas cartas, Allamano revela-se sobretudo o experiente diretor de espírito; escreve para encorajar, para iluminar e para mostrar os fins superiores das labutas apostólicas” (40).

Acerca dos contatos epistolares do Allamano com os seus filhos, apraz-me sublinhar a liberdade com que o Fundador podia expressar-se, sem ofender a sensibilidade dos seus. Esta atitude demonstra que, de ambos os lados, reinava confiança, respeito e grande liberdade. Em outras palavras: o pai podia falar com clareza, porque o filho sabia com que coração o pai o corrigia. Trago como exemplo emblemático um trecho da carta de 1918, dirigida ao Padre Gaudêncio Barlassina, quando este já era Prefeito Apostólico do Kaffa: “Na que me enviaste dizes que te sentes inspirado naquilo que fazes, e quase te apelas ao tribunal de Deus. Meu caro, o caminho seguro da vontade de Deus é a obediência /.../. Em todo o caso, jamais te arrependerás de teres retardado um progresso não desejado pelos Superiores. Nós também desejamos ardentemente o progresso, mas com prudência e segundo as diretrizes de Propaganda Fide” (41).

4. A COMUNIDADE: LUGAR FORMATIVO

Na pedagogia de Allamano há um mútuo influxo e um equilíbrio de relacionamento formativo entre indivíduo e comunidade. Ele ajuda a pessoa a formar-se na comunidade, com a ajuda da comunidade, em vista de uma vida e de um apostolado comunitário (espírito de família e união de espírito). Além disso, forma a comunidade, a partir da realidade das pessoas, não de maneira anônima ou teórica. Para o Fundador, cada indivíduo é importante não só em si, mas também em conexão com os demais membros da comunidade. Tentarei expressar os princípios mais salientes da pedagogia do Padre Allamano a este respeito.

a) Indivíduo e comunidade são inseparáveis – O Fundador, em diversas ocasiões,
manifestou a convicção de que entre o indivíduo e grupo (comunidade, Instituto) existe uma relação inseparável, e que ambos devem ser considerados de maneira unitária, sem separação. Não formulou expressamente o princípio teórico, mas o afirmou em diversas ocasiões, para solucionar casos particulares. Por exemplo, insistindo sobre a necessidade de não criticar, mas de obedecer, em determinado momento observa: “Não digo, de forma alguma, que vos devais desinteressar da casa, isso não; o bem e o mal do Instituto diz respeito a todos, indistintamente” (42). Ou então, explicando às irmãs a razão pela qual havia demitido uma certa Irmã Praxedes, que ocultara a doença da surdez, diz: “Enquanto se procura o bem do Instituto, busca-se também o bem da irmã... Ai de mim se não o tivesse feito, em vista do bem do Instituto e da irmã!” (43).

b) Da qualidade do indivíduo depende a qualidade da comunidade – O Fundador, com certeza, queria que o Instituto fosse de qualidade, com características próprias. Para conseguir isso, visava a qualidade dos indivíduos, queria “gente de primeira!” O Instituto, de fato, teria sido como eram os indivíduos. Exemplifico este princípio, recorrendo a uma expressão dita às irmãs, no dia 15 de setembro de 1918: “Se esta casa não se distinguisse em nada das outras casas religiosas, todas vós teríeis podido entrar em outras casas religiosas, sem que houvesse necessidade de construir uma outra casa. É preciso que esta comunidade se distinga das outras comunidades. Mas, para chegar a isso, uma coisa é essencial: deixar-se formar ao espírito do Instituto” (44).

e) Se os indivíduos são santos o Instituto é santo – É o ponto culminante do princípio
precedente. Para o Fundador, esta insistência deve ser evidenciada. Só há garantia de o Instituto ser santo, se cada indivíduo tender à santidade. É mister, portanto, que nos ajudemos mutuamente no empenho da perfeição. Eis uma expressão significativa, que foi dita ao explicar o fim primário: “Santificação dos membros... Não só de alguns, mas de todos. Não se diga, pois: ‘Oh! há tantos que percorrem o caminho da santificação!... Eu vou caminhando atrás, um pouco mais devagar!’ Não! Todos e tudo deve ajudar-nos a ser santos! Todos devemos tornar-nos santos, todos são membros do Instituto e devem torna-se santos, devem ajudar-se” (45).
Padre V. Dolza oferece este testemunho: “O Fundador sempre nos dizia que podíamos ser diferentes um do outro, mas que na santidade devíamos ser todos iguais” (46).

d) A comunidade dá autenticidade e faz o indivíduo crescer – Este princípio, provavelmente, é o mais forte. Para Allamano, a preferência é para a comunidade, neste sentido: cada indivíduo deveria saber dar precedência às expressões comunitárias, tanto de vida quanto de apostolado. Por isso, as expressões comunitárias são as que mais ajudam a viver fervorosamente, as que mais nos ajudam a crescer e a tornar-nos eficientes.
Para confirmar o que disse, menciono apenas dois exemplos, embora o Fundador se expressasse da mesma maneira em diversas outras ocasiões. Ao Padre Filipe Perlo, no dia 6 de maio de 1904, aprovando a primeira conferência de Murang’a, escreveu: “Em certos casos, a uniformidade de todos deve prevalecer, ainda que surja alguma idéia (isolada) melhor” (47). Às irmãs, falando da oração, diz palavras quase incompreensíveis, se não conhecêssemos as suas idéias: “As orações comunitárias devem sempre ser preferidas às nossas orações particulares... Não tenhais pena de interromper o Pai-nosso, ou qualquer outra oração que estejais rezando, para responder junto com as outras ainda que seja um simples ‘Amém’” (48).

Em resumo, podemos dizer que o Fundador valorizou grandemente o conceito da “vocação comum”: somos chamados pelo Espírito Santo a viver o carisma concedido a Allamano e que ele nos transmitiu. É um carisma que cada um de nós, por vocação, é chamado a viver não isoladamente, mas em comunidade, e com cada coirmão que compõe a comunidade. O Fundador nos dá a entender isso quando afirma: “O que o Apóstolo pede aos cristãos de Éfeso /.../, muito convém também a nós, que formamos um corpo superior pela força espiritual da vocação religiosa, sacerdotal e missionária” (49).

Conclusão

Creio que a melhor conclusão nos seja oferecida pelas palavras que o Fundador proferiu por ocasião da cerimônia de “envio” de missionários, no dia 16 de dezembro de 1920, quando confidenciou: “... O lugar onde se vai trabalhar é apenas uma materialidade; o importante não é estar neste ou naquele lugar... Todos somos missionários, vivemos todos unidos, formamos todos uma só coisa, como se estivéssemos todos aqui (em Turim), todos no Quênia, todos no Kaffa, todos em Iringa” (50).

Durante um colóquio, na Consolata, por ocasião do seu aniversário natalício, no dia 21 de janeiro de 1925, Allamano fez esta outra confidência: “Quando me examino, não penso só em mim, mas também nos outros, penso nas minhas responsabilidades, porque formamos um só corpo. Quero ver em vós a vontade constante de levar uma vida mais perfeita que for possível, sem medo de exagerar... Esta sempre foi a minha idéia” (51).


Pe. Francesco Pavese

INTRODUÇÃO

No passado, o tema “Fundador-Formador” já foi expressamente estudado sob ângulos diversos (1). Venho repropô-lo agora sob o ponto de vista dos formadores. O Fundador pode ser modelo para um serviço formativo junto aos jovens, indicando um espírito e um método pedagógico, que seja fiel ao carisma e, ao mesmo tempo, idôneo ao “hoje” da formação religiosa, sacerdotal e missionária.

As fontes principais a que recorro, além dos estudos indicados na notas, são as seguintes: o seu pensamento direto (conferências e cartas); a experiência dos missionários e missionárias (testemunhos e comemorações); a nossa atual experiência (sensibilidade do Instituto). Estas páginas não contêm um estudo geral sobre a formação, como é entendida na Igreja e no Instituto, mas reflexões muito específicas, ligadas à pessoa do Fundador, isto é, ao seu pensamento e à sua experiência, como foram recebidas na sã tradição IMC e MC. Portanto, no que se refere à formação, estamos no plano do “carisma” do Fundador e do Instituto.

Dando seguimento a uma ordem lógica, desenvolvo estes aspectos:
• a personalidade pedagógica do Fundador;
• a formação personalizada, através dos contatos mantidos com os indivíduos e nas intervenções comunitárias;
• a capacidade de criar um ambiente formativo comunitário, envolvendo a todos e a cada um em particular.

1. A PERSONALIDADE DE ALLAMANO COMO FUNDADOR

a) Consciência da própria responsabilidade de educador

Por ocasião da beatificação, a Igreja reconheceu oficialmente que Allamano foi um insigne educador de sacerdotes e de missionários (2). O próprio Allamano, desde o começo, teve consciência deste seu carisma: “Sou eu, e os que eu vos indico como guias, que deveis unicamente ouvir... A forma no Instituto é a que o Senhor me inspirou e me inspira” (3). Estas palavras são fortes e dão a entender que o Fundador considerava este empenho como uma “responsabilidade” especial e pessoal (4).

Esta experiência o induziu a reservar para si a formação. Padre L. Sales afirma que o Fundador “preferiu privar-se da ajuda de um homem da envergadura moral e espiritual de um Boccardo (que colocara como condição: ter toda a liberdade na formação dos membros do Instituto), antes que falhar no cumprimento do seu dever perante Deus: transmitir aos alunos do Instituto o seu espírito" (5).
A razão de tal tenacidade consiste nisto: o Fundador queria ser fiel à inspiração original, para transmiti-la como ele a tinha recebido, de sorte que resultasse em carisma do Instituto. Assim, enquanto formador, torna-se também “transmissor” do carisma.

b) Método e meios educativos

O método educativo do Fundador jorrava de uma atitude de fundo, que era o seu “senso de paternidade” (6). No estudo citado, Padre Tubaldo põe este título significativo: “Allamano na vida dos seus primeiros missionários”, qualificando a formação como um “ser na vida”, o que para o nosso Fundador foi perfeitamente verdadeiro, como testemunham muitos missionários (7).

Allamano realizava este “ser na vida” de seus filhos e filhas, antes de tudo, amando-os com verdadeiro amor paterno, que manifestava de diversos modos, sempre com muita dignidade. Algumas de suas famosas expressões são muito densas. Para exemplificar, cito três; duas se referem aos missionários do Quênia: “Muitas e muitas coisas boas para todos vós, meus queridos missionários, para quem agora unicamente vivo neste mundo” (8). “Transmita tantas coisas boas a todos, dando-lhes a certeza de que rezo por eles e somente por eles vivo” (9). A terceira expressão é dirigida a uma irmã, para encorajá-la a superar dúvidas acerca da vocação: “Ouve-me, pois sabes perfeitamente que te quis e te quero sempre muito bem, com verdadeiro amor de pai” (10).

Além deste profundo amor paterno, Allamano assumira uma outra atitude, que podemos igualmente definir como “atitude de fundo”, ou seja: atenção à realidade e à capacidade de se adequar também no plano da preparação dos missionários. Através das cartas, dos relatórios e dos diários, o Fundador conseguia compreender como os seus fossem realmente idôneos; e compreender também quando era necessário intervir e como intervir no plano da formação. Havia um dar e um receber entre a África e Turim, de sorte que Allamano era ajudado a adaptar a preparação de acordo com as necessidades missionárias. Esta sua atenção e capacidade de escuta fez com que se consolidasse nele a convicção de que era indispensável dar aos missionários uma preparação sólida e adequada. É neste contexto que compreendemos as suas insistências em não ter pressa de partir para a missão, mas de fazer primeiro uma adequada e boa preparação (11).

Finalmente, Allamano entrava na vida de seus filhos e filhas valendo-se de um método que se baseava na máxima confiança e no diálogo confiante, além de valorizar uma longa série de meios que o ajudavam a manter-se em contato constante e ativo com a comunidade e com os indivíduos em particular (12).

2. FORMAÇÃO PERSONALIZADA NOS CONTATOS INDIVIDUAIS

A arte pedagógica do Allamano facilitou-lhe o contato individual com as pessoas. Cada indivíduo se sentia acolhido, ouvido, compreendido e acompanhado, como se fosse a única pessoa. Evitou assim a massificação. Dentre todos os testemunhos, basta-nos o do Padre Panelatti, que assim recorda as visitas do Fundador à Consolatina: “Dava-me a impressão de que ele não tivesse nada a fazer. Estando conosco, ocupava muito bem o seu tempo... Nunca deixava transparecer que tivesse preocupação e urgência para atender a outros compromissos; foi somente mais tarde que viemos a saber que ele dirigia meia diocese e era pessoa muito ocupada” (13).

Em que consistia esta arte pedagógica que visava a formação personalizada nos contatos e com as pessoas em particular? Tentarei encaixá-la dentro de algumas linhas de comportamento do Fundador e dos alunos.

a) A arte de acolher as pessoas

O primeiro ato formativo se realiza no momento da acolhida. Allamano valorizou espontaneamente a acolhida, criando uma atmosfera favorável ao contato formativo, não apenas por ocasião da primeira aceitação (14), mas em muitas outras circunstâncias. Esta acolhida se realizava num horizonte muito amplo, demonstrando tanto a intensidade do seu coração de pai, como sua inata idoneidade formativa. Para entender, pensemos como acolhia a todos e cada cada aluno, na Casa Mãe, sempre que o desejassem, a tal ponto de se formar uma fila junto à porta do seu quarto; como acolhia, de boa vontade, com alegria e sem sala de espera, no Santuário da Consolata, quando iam visitá-lo (15); como acolhia os alunos em ocasiões especiais (profissões religiosas, ordenações, partida para as missões, retorno das missões, etc.); como acolheu, com especial atenção, os alunos que voltavam da guerra! A prova é que, estando com ele, todos se sentiam à vontade, recebidos como filhos, certos de não lhe causar aborrecimento com a sua presença. Para um formador que queira penetrar na vida de um jovem, para depois acompanhá-lo em sua caminhada, a arte da acolhida é uma arte insubstituível.

Sob este aspecto, trago dois testemunhos escolhidos entre muitos. O primeiro é do Padre Lorenzo Sales: “Em trinta anos, nunca aconteceu que alguém não fosse recebido. Depois, com poucas palavras, o Fundador colocava as coisas no lugar. Mas precisava ver com que acento ele as pronunciava, precisava ver o seu gesto parco mas resoluto, e aquela atitude da cabeça, aquele olhar límpido e penetrante que calava nas profundezas do coração!” (16).
O segundo testemunho é da Irmã Maria dos Anjos: “Ele queria que todas as irmãs tivessem a possibilidade de aproximar-se dele e de lhe falar livremente, tanto no Instituto como no Santuário da Consolata. Acolhia a todas com grande caridade, tratando-as com verdadeiro amor paterno. As irmãs saíam da sua audiência sempre sorridentes, de sorte que, quando se via uma irmã particularmente contente, costumava-se dizer: ‘Sem dúvida, ela foi falar com o Pai’” (17).

b) Atenção a situações particulares

Não tratava a todos e sempre do mesmo modo. Conhecendo pessoalmente os seus, sabia intervir de maneira “apropriada” nos momentos especiais da vida de cada um. Cada aluno era considerado na sua peculiaridade e no seu momento existencial. Allamano não massificava, nem padronizava os seus contatos. Neste ponto era muito atencioso e delicado.

No tocante a isto, os testemunhos são inumeráveis. Apresento apenas dois, para servir de exemplo. As cartas do Fundador ao Irmão Benedetto Falda, dono de um caráter sensibilíssimo, são todas muito significativas a respeito. Eis a do dia 26 de janeiro de 1905, que lhe foi enviada num momento especial; constitui uma obra-prima de afeto e de fineza pedagógica: “Penso freqüentemente ao meu caro Benedetto, e quisera tê-lo novamente ao meu lado no meu locutório, para ouvi-lo falar com entusiasmo e alegria. Também entre as irmãs e os clérigos do Instituto são muito lembrados o brio e a atividade de Benedetto. Sei perfeitamente que, para um coração sensível como o teu, é fácil deixar-se envolver pela saudade, por um pouco de tristeza e depressão; por isso necessitas de alguma palavra amiga de encorajamento. Quando acontece isto, pensa em mim e imagina que me ouves dizer: ‘Coragem no Senhor!’, e tudo o mais que te diria... Depois, não tens acaso o Superior, que te quer muito bem e que me escreveu tantas coisas bonitas a teu respeito?! E depois... Jesus Sacramentado, que transforma os fracos em leões! És sacristão... Desejo que não te afadigues demais; e quando estiveres suado, preserva-te com cuidado da correnteza de ar e da umidade; afinal, quero que tomes os devidos cuidados para proteger a saúde. Não censuro as tuas longas cartas que envias aos parentes e amigos, que muito se alegram; pode escrever-lhes, sim, e longamente; mas para que eu não fique com ciúme, escreve também a mim ou ao Senhor Vice-Reitor” (18).

Um segundo testemunho, igualmente muito original, é o do Padre A. Bellani que, sendo o primeiro não piemontês, encontrava dificuldades, visto que seus companheiros, normalmente, falavam em dialeto piemontês: “Decidi-me, por isso, dirigir-me ao Venerado Fundador, que sempre me inspirara grande confiança. E disse-lhe: ‘Monsenhor, o senhor me perguntou se me encontro bem na comunidade... Sim, encontro-me muito bem, mas aquele dialeto que é falado por todos os meus companheiros não só me é incompreensível, mas me dá nojo!’ – “Providenciarei, caro Pe. Bellani, e sem demora” – respondeu-me ele. Pois bem, na mesma tarde toda a sua conferência versou sobre a necessidade de que em casa, como também durante o tempo dos recreios, se falasse a língua italiana, para maior educação e respeito para com todos os não piemonteses que poderiam depois entrar no Instituto” (19).

c) Pedagogia do encorajamento

Allamano era um homem positivo, nunca deixava um coração prostrado, e menos ainda tumulduado. Fazia notar com clareza os lados defeituosos, mas depois sempre encorajava e infundia esperança. Quem afirma isto é Padre Lorenzo Sales, que o conheceu de perto e muito bem: “Como era portentosa aquela mão que ele pousava no ombro e aquelas expressões que dizia ao dar sua bênção paterna: ‘Vai em frente!... Tem coragem!’ (20).

A este respeito, quisera sublinhar quanto o Fundador tenha valorizado o versículo 11 do salmo 76: “Nunc coepi!”, que literalmente traduzia assim: “Agora começo!” (21). É um critério educativo deduzido da espiritualidade carmelitana. Às irmãs dizia: “Não desanimeis nunca, nunc coepi (agora começo). Diria que este é o brasão do nosso Instituto: começar sempre!” (22). E numa outra circunstância: “Caíste? Coloca-te no lugar! Santa Teresa dizia o ‘nunc coepi’ (agora começo) quarenta ou cinqüenta vezes ao dia. Pedia perdão a Deus e dizia: ‘Coisas do meu jardim, coisas da minha horta! Senhor, derramai um pouco de chuva, para que cresça coisa boa!’” (23).

d) Liberdade e maturidade nas pessoas

Ainda quando Allamano falasse para numerosas pessoas, não dominava ninguém. Não impunha confiança, mas ganhava-a. Admitia, ou melhor, desejava que os alunos amadurecessem e aprendessem a “caminhar sozinhos”. Como método ordinário de formação, Allamano previa os encontros regulares entre o aluno e o educador, mas procurava suscitar momentos de autonomia, sempre mais longos, considerando a situação de isolamento que depois se verificaria no campo de missão. Caminhar com as próprias pernas, além de tudo, é sinal de maturidade, ajuda a pessoa a não perder tempo com ninharias e banalidades.

Também a este respeito temos testemunhos significativos. Limito-me a citar um trecho da conferência feita às irmãs, no dia 13 de fevereiro de 1916, quando o Fundador trata do assunto de modo genérico e, portanto, propõe um critério de vida: “Numa comunidade há pessoas que não necessitam de nada, não têm necessidade de falar com a Superiora nem comigo; põem em prática o que ouvem, procuram observar as regras e prosseguem seu caminho tranqüilamente... Para estas, Deo gratias! Que continuem assim o ano todo; não necessitam de ninguém; basta-lhes o confessor e Nosso Senhor. Deo gratias! Se todas fossem assim, depois, lá na África tudo iria bem. São pessoas que caminham por si mesmas...” E mais adiante conclui: “Conheceis o vosso dever; conheceis também a maneira de o cumprir mais fervorosamente; pois bem, não se deve perder tempo nem fôlego por coisas da nada” (24).

e) A pedagogia das cartas

As assim chamadas “cartinhas” foram um dos meios mais utilizados para garantir um contato construtivo entre o Fundador e todos os alunos. Eis o testemunho do Padre Lorenzo Sales: “Na impossibilidade de realizar encontros mais freqüentes com o Fundador, como seria de desejar, os colóquios individuais eram, às vezes, substituídos pelos colóquios escritos. Todo aluno tinha plena liberdade de escrever ao Fundador e de fazer chegar às suas mãos a carta. Ele, depois, respondia de viva voz, ou, mais freqüentemente, utilizava o rodapé da mesma carta recebida, remetendo-a em seguida ao indivíduo, num envelope cuidadosamente fechado. Também aqui, poucas linhas e breves palavras, mas que alcançavam sempre seu objetivo” (25).

As cartas ao Fundador eram de dois tipos: as espontâneas, quando alguém sentia a necessidade de lhe escrever, e as quase obrigatórias – uma por ocasião da festa de São José, seu onomástico, e outra que continha os propósitos dos retiros. Para todas garantia a máxima reserva e liberdade (26), mas o Fundador as desejava. Analisando tudo isso, percebe-se como o Fundador, com muita sensatez, desejasse entrar nos acontecimentos ordinários da vida de seus filhos e filhas, para conhecê-los melhor, para orientá-los, encorajá-los e, se necessário, corrigi-los.

As cartinhas por ocasião do seu onomástico tinham uma importância particular. Trago aqui o seu pensamento, que explica muito bem o conteúdo pedagógico deste relacionamento epistolar: “Dado que no próximo domingo quereis celebrar a minha festa, e... não se pode recusar, por isso, como das outras vezes, ainda que os vossos cumprimentos eu os conheça antes mesmo que vós os façais, entretanto, me escrevereis uma cartinha, como de costume, não comprida..., pois não tenho tempo de ficar lendo tudo. Vós me direis o que pensais, o que vai nos vossos corações... Ninguém tocará a vossa carta, já sabeis que tudo é segredo; assim será uma espécie de confidência que fareis a um vosso Padre Espiritual. Mas não quero que faleis da minha festa, nem mencioneis os cumprimentos... Sei que, às vezes, quereis vir para falar comigo; eu, entretanto, nem sempre posso estar no meio de vós; por isso, esta será uma maneira de suprir. Na carta, podeis dizer-me tudo o que quereis. É um costume que foi seguido desde o começo. Claro, é algo que consola... Não me conteis os pecados; os pecados contai-os ao confessor, mas dizei-me aquilo que pensais e que tendes no coração... Uma página pode ser suficiente; alguém, talvez, não tenha nada a dizer-me; pois bem, quem não tem nada a dizer-me, coloque a própria assinatura e... pronto! Outro, ao invés, talvez tenha mais coisas a dizer-me... Pois bem, escreva o que sente. Eu as leio e depois vo-las restituirei, e vós as rasgareis” (27).

Como acenei acima, entre as cartinhas quase de obrigação estavam as que continham os propósitos dos retiros espirituais. Estas também constituíam um importante meio na pedagogia do Allamano. Depois de lê-las, comentava-as e, sobretudo, durante o ano, as lembrava, convidando o indivíduo a recordar os propósitos feitos, a examinar-se quanto à sua aplicação prática, sempre encorajando a retomar o caminho com generosidade. Também neste ponto é orientativo o testemunho do Padre Lorenzo Sales: “Depois do retiro, os bilhetes que continham os propósitos e as cartas confidenciais eram colocados num grande envelope, que ele levava consigo à Consolata, devolvendo-os em seguida na primeira oportunidade, às vezes retocados” (28).

3. FORMAÇÃO PERSONALIZADA NOS ENCONTROS COMUNITÁRIOS

Refiro-me sobretudo às conferências dominicais e quero fazer notar o seguinte: nestas conferências, embora o Fundador se dirigisse a todos, sabia atingir também os indivíduos, como se falasse com cada um em particular. Para entender isto, é preciso, antes de tudo, considerar o elo de união existente entre ele e cada aluno. Além disso, é claro, ele conhecia a arte de envolver aquelas vidas que bem conhecia e que sabiam ser conhecidas por ele. Não deixa de ser interessante o método de diálogo que usava quando se dirigia a todos, interpelando, às vezes, um indivíduo, como exemplo que servisse para os outros.
Creio que se possa afirmar que Allamano, nas conferências, falava a todos e, ao mesmo tempo, a cada um em particular. Procurarei demonstrar as razões principais.

a) Comunicava sua vida, sua pessoa, como meditamos ontem no retiro. Dado que os alunos o amavam, quando ele falava de si mesmo, os envolvia. Cada um percebia que o próprio pai lhe confiava alguma coisa. É de grande significado uma frase do Padre G. Bartorelli, referindo-se às conferências: “Como Fundador, não o teríamos trocado com nenhum outro” (29).

c) Envolvia os indivíduos. Allamano não era um orador que dominasse os ouvintes com o
brilho das palavras, mas alguém capaz de comunicar-se com qualquer um de seus ouvintes, interpelando-o. Não era apenas arte pedagógica, mas conhecimento vital e relacionamento de confiança. Podia falar a cada indivíduo em público, sem o perigo de ferir-lhe a suscetibilidade.
Eis alguns exemplos: no dia 9 de maio, tratando da humildade, dirige-se ao mais moço e lhe diz: “Por exemplo, você, Luís, deve considerar-se inferior a todos os outros, e creio que não seja necessário fazer muito esforço para isso” (30).
No dia 22 de outubro de 1916, falando às irmãs, em determinado momento diz: “Devemos ser tão exatas, de sorte que o Anjo tenha que acabar de escrever com letras de ouro a palavra que interrompemos! Nunca lhe aconteceu isto?” – perguntou a uma irmã; ao que ela respondeu: “Não!” E o Fundador: “Ah! É porque você ainda não é muito exata” (31).

c) Encontrava os filhos. Esta também é uma atitude interessante. Allamano, nas conferências, como pai, encontrava filhos, por quem era conhecido e amado. Não era um Reitor que encontrava alunos. Os encontros eram enquadrados no espírito de família que reinava do Instituto. Assim ele era esperado, suas palavras eram esperadas, as conferências eram muito curtas, ninguém se enfastiava. Esta não é uma definição poética, mas a síntese de numerosos testemunhos, que demonstram o clima que reinava na comunidade, nas tardes de domingo. Eis alguns:

Irmão Benedetto Falda afirma: “De domingo, Allamano era todo para seus filhos... Sua conferência nada tinha de catedrático ou de rigidez; era o Pai que, sentado entre seus filhos, que queria bem junto a si, especialmente os irmãos coadjutores, e nos falava com simplicidade, sem cerimônias. Eram conselhos segredados quase aos ouvidos, mas que ficavam impressos na alma e nos embebiam do seu espírito” (32).
Padre V. Dolza: “O seu zelo pela nossa formação e santificação se manifestava sobretudo nas maravilhosas conferências dominicais. Chegava entre nós sorridente, sentava-se, tirava do bolso um bilhete: e nós ficávamos encantados perante a sua palavra. Com que ardente desejo esperávamos aqueles momentos, sempre muito breves para nós!” (33).
Padre G. Chiomio: “Fala com simplicidade, fala aos seus filhos que muito ama; tudo é caracterizado pela maior bondade paterna” (34).

d) Tornava presentes os missionários que trabalhavam em lugares distantes. Refiro-me ao costume que Allamano tinha de ler, antes ou durante as conferências, trechos das cartas que recebia da África. Os que escreviam, no mais das vezes, eram conhecidos, para não dizer amigos dos ouvintes. Por isso, este método imprimia vivacidade ao encontro e tocava não só a comunidade, mas também os indivíduos. Este método ajudou muito o Fundador a criar o espírito de família.
Também a este respeito temos testemunhos interessantes. Limito-me a citar o do Padre G. Panelatti, que revela de maneira perfeita o clima reinante: “Para nós, a presença do Fundador era sempre uma alegria; ele nos entretinha familiarmente e nos afervorava em nossa vocação, quase sem que nos déssemos conta. Às vezes lia para nós cartas ou trechos de cartas vindas da África, escritas por aqueles que tínhamos conhecido, e daqui tomava a ocasião para fazer suas exortações” (35).

A bem da verdade, este modo de fazer criou alguma dificuldade. Foi o co-Fundador, Cônego Tiago Camisassa, que notou isso durante sua viagem à África. Acontecia o seguinte: alguns dos nossos missionários recém-chegados à missão, não encontrando as coisas exatamente como haviam sido descritas pelos missionários anciãos em suas cartas, começavam a fofocar, a queixar-se, ou a ridicularizar os confrades. Por isso, alguns missionários sentiam certa repugnância em escrever cartas ao Fundador, por medo que as lesse em público. Tiago Camisassa tomou a liberdade de sugerir ao Fundador, através de carta, que não lesse em público a correspondência dos missionários (36). Examinei as conferências do Fundador feitas após a carta enviada pelo Camisassa, despachada da África aos 23 de novembro de 1911. Em 1912, parece-me que tenha lido poucas, mas em seguida retomou o seu estilo e continuou a lê-las em público, talvez até com mais entusiasmo que antes. Acreditava demais na própria paternidade, como razão de conhecimento e de união de cada um de seus filhos com todos os outros.

d) As reações dos indivíduos – As reações dos missionários, provindas tanto das
conferências como das cartas do Fundador, difundiram-se no Instituto. São todas reações positivas. Pelo que diz respeito às conferências, é indicativo o entusiasmo que se descobre no testemunho do Pe. Lorenzo Sales: “Todos aqueles que tiveram a sorte de ouvi-lo, são unânimes em declarar que, após cada conferência, brotava espontânea nos ouvintes a expressão dos discípulos de Emaús: ‘Acaso não nos ardia o coração quando ele nos falava e explicava as Escrituras?’” (37).
Também Padre Vitório Sandrone é do mesmo parecer: “Depois da conferência, sentíamos a necessidade de entreter-nos com Jesus Sacramentado, para implorar a graça de sermos santos sacerdotes” (38).

As reações referentes às cartas também são muito positivas, especialmente as que o Fundador enviou aos missionários na África. Padre Filipe Perlo descreve com exatidão a situação, quando afirma: “As raras cartas [N.B.: nos inícios, não eram de forma nenhuma raras, mas este adjetivo denota a expectativa] do Senhor Reitor são, naturalmente, lidas por primeiro; e quando são cartas individuais, então cada um as lê quase que misteriosamente, temendo, por assim dizer, que o vento lhes possa levar embora alguma palavra; e depois da primeira leitura, cada frase é estudada e analisada” (39).
Parece-me aguda e exata a conclusão acrescentada pelo Padre Igino Tubaldo: “Nestas cartas, Allamano revela-se sobretudo o experiente diretor de espírito; escreve para encorajar, para iluminar e para mostrar os fins superiores das labutas apostólicas” (40).

Acerca dos contatos epistolares do Allamano com os seus filhos, apraz-me sublinhar a liberdade com que o Fundador podia expressar-se, sem ofender a sensibilidade dos seus. Esta atitude demonstra que, de ambos os lados, reinava confiança, respeito e grande liberdade. Em outras palavras: o pai podia falar com clareza, porque o filho sabia com que coração o pai o corrigia. Trago como exemplo emblemático um trecho da carta de 1918, dirigida ao Padre Gaudêncio Barlassina, quando este já era Prefeito Apostólico do Kaffa: “Na que me enviaste dizes que te sentes inspirado naquilo que fazes, e quase te apelas ao tribunal de Deus. Meu caro, o caminho seguro da vontade de Deus é a obediência /.../. Em todo o caso, jamais te arrependerás de teres retardado um progresso não desejado pelos Superiores. Nós também desejamos ardentemente o progresso, mas com prudência e segundo as diretrizes de Propaganda Fide” (41).

4. A COMUNIDADE: LUGAR FORMATIVO

Na pedagogia de Allamano há um mútuo influxo e um equilíbrio de relacionamento formativo entre indivíduo e comunidade. Ele ajuda a pessoa a formar-se na comunidade, com a ajuda da comunidade, em vista de uma vida e de um apostolado comunitário (espírito de família e união de espírito). Além disso, forma a comunidade, a partir da realidade das pessoas, não de maneira anônima ou teórica. Para o Fundador, cada indivíduo é importante não só em si, mas também em conexão com os demais membros da comunidade. Tentarei expressar os princípios mais salientes da pedagogia do Padre Allamano a este respeito.

a) Indivíduo e comunidade são inseparáveis – O Fundador, em diversas ocasiões,
manifestou a convicção de que entre o indivíduo e grupo (comunidade, Instituto) existe uma relação inseparável, e que ambos devem ser considerados de maneira unitária, sem separação. Não formulou expressamente o princípio teórico, mas o afirmou em diversas ocasiões, para solucionar casos particulares. Por exemplo, insistindo sobre a necessidade de não criticar, mas de obedecer, em determinado momento observa: “Não digo, de forma alguma, que vos devais desinteressar da casa, isso não; o bem e o mal do Instituto diz respeito a todos, indistintamente” (42). Ou então, explicando às irmãs a razão pela qual havia demitido uma certa Irmã Praxedes, que ocultara a doença da surdez, diz: “Enquanto se procura o bem do Instituto, busca-se também o bem da irmã... Ai de mim se não o tivesse feito, em vista do bem do Instituto e da irmã!” (43).

b) Da qualidade do indivíduo depende a qualidade da comunidade – O Fundador, com certeza, queria que o Instituto fosse de qualidade, com características próprias. Para conseguir isso, visava a qualidade dos indivíduos, queria “gente de primeira!” O Instituto, de fato, teria sido como eram os indivíduos. Exemplifico este princípio, recorrendo a uma expressão dita às irmãs, no dia 15 de setembro de 1918: “Se esta casa não se distinguisse em nada das outras casas religiosas, todas vós teríeis podido entrar em outras casas religiosas, sem que houvesse necessidade de construir uma outra casa. É preciso que esta comunidade se distinga das outras comunidades. Mas, para chegar a isso, uma coisa é essencial: deixar-se formar ao espírito do Instituto” (44).

e) Se os indivíduos são santos o Instituto é santo – É o ponto culminante do princípio
precedente. Para o Fundador, esta insistência deve ser evidenciada. Só há garantia de o Instituto ser santo, se cada indivíduo tender à santidade. É mister, portanto, que nos ajudemos mutuamente no empenho da perfeição. Eis uma expressão significativa, que foi dita ao explicar o fim primário: “Santificação dos membros... Não só de alguns, mas de todos. Não se diga, pois: ‘Oh! há tantos que percorrem o caminho da santificação!... Eu vou caminhando atrás, um pouco mais devagar!’ Não! Todos e tudo deve ajudar-nos a ser santos! Todos devemos tornar-nos santos, todos são membros do Instituto e devem torna-se santos, devem ajudar-se” (45).
Padre V. Dolza oferece este testemunho: “O Fundador sempre nos dizia que podíamos ser diferentes um do outro, mas que na santidade devíamos ser todos iguais” (46).

d) A comunidade dá autenticidade e faz o indivíduo crescer – Este princípio, provavelmente, é o mais forte. Para Allamano, a preferência é para a comunidade, neste sentido: cada indivíduo deveria saber dar precedência às expressões comunitárias, tanto de vida quanto de apostolado. Por isso, as expressões comunitárias são as que mais ajudam a viver fervorosamente, as que mais nos ajudam a crescer e a tornar-nos eficientes.
Para confirmar o que disse, menciono apenas dois exemplos, embora o Fundador se expressasse da mesma maneira em diversas outras ocasiões. Ao Padre Filipe Perlo, no dia 6 de maio de 1904, aprovando a primeira conferência de Murang’a, escreveu: “Em certos casos, a uniformidade de todos deve prevalecer, ainda que surja alguma idéia (isolada) melhor” (47). Às irmãs, falando da oração, diz palavras quase incompreensíveis, se não conhecêssemos as suas idéias: “As orações comunitárias devem sempre ser preferidas às nossas orações particulares... Não tenhais pena de interromper o Pai-nosso, ou qualquer outra oração que estejais rezando, para responder junto com as outras ainda que seja um simples ‘Amém’” (48).

Em resumo, podemos dizer que o Fundador valorizou grandemente o conceito da “vocação comum”: somos chamados pelo Espírito Santo a viver o carisma concedido a Allamano e que ele nos transmitiu. É um carisma que cada um de nós, por vocação, é chamado a viver não isoladamente, mas em comunidade, e com cada coirmão que compõe a comunidade. O Fundador nos dá a entender isso quando afirma: “O que o Apóstolo pede aos cristãos de Éfeso /.../, muito convém também a nós, que formamos um corpo superior pela força espiritual da vocação religiosa, sacerdotal e missionária” (49).

Conclusão

Creio que a melhor conclusão nos seja oferecida pelas palavras que o Fundador proferiu por ocasião da cerimônia de “envio” de missionários, no dia 16 de dezembro de 1920, quando confidenciou: “... O lugar onde se vai trabalhar é apenas uma materialidade; o importante não é estar neste ou naquele lugar... Todos somos missionários, vivemos todos unidos, formamos todos uma só coisa, como se estivéssemos todos aqui (em Turim), todos no Quênia, todos no Kaffa, todos em Iringa” (50).

Durante um colóquio, na Consolata, por ocasião do seu aniversário natalício, no dia 21 de janeiro de 1925, Allamano fez esta outra confidência: “Quando me examino, não penso só em mim, mas também nos outros, penso nas minhas responsabilidades, porque formamos um só corpo. Quero ver em vós a vontade constante de levar uma vida mais perfeita que for possível, sem medo de exagerar... Esta sempre foi a minha idéia” (51).


Pe. Francesco Pavese
Última Atualização ( 10 de April de 2006 )

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