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(Retiro com os formadores Roma, 29 de junho de 2003)
Introdução
Inspiremo-nos na pessoa do Fundador, considerado como ponto de referência para a nossa vida. Há uma característica que muito favoreceu o contato entre ele e seus filhos e filhas: o Pai se confiou a eles, envolvendo-os na própria vida. Conseqüentemente, eles tinham a certeza de conhecê-lo no seu íntimo e, exatamente por isso, o estimavam e lhe queriam muito bem, confiavam nele e o seguiam de boa vontade.
O Fundador continua vivo. Nós também podemos manter com ele a mesma atitude dos nossos primeiros coirmãos e coirmãs, construindo com ele uma relação espiritual que incida de maneira prática em nossa vida. Procurarei ilustrar este objetivo, refletindo sobre dois pontos: primeiro, examinando a experiência do início da vida do Instituto, ou seja, como era recebida a pessoa do Fundador, quando se comunicava com os seus; depois, imaginando como poderíamos hoje viver a mesma comunhão com o Fundador perene.
1. O FUNDADOR COMUNICA AOS SEUS SUA VIDA, SUA PESSOA
Na introdução aos três volumes das Conferências IMC, Pe. Igino Tubaldo oferece alguns critérios de leitura. Um, particularmente, diz respeito ao nosso tema – o “teológico” – que mostra como a fé do Padre Allamano fosse segura, sincera, mas especialmente operosa, voltada para o lado prático da vida. Prova disso são certas expressões, como: “Fazei assim...”, “Felizes sereis se fizerdes assim...”, “Experimentai também vós...”, etc. Daqui pode-se ver como o Fundador procurasse transmitir a própria experiência, transformando-a numa espécie de garantia para seus filhos (1).
a) O Fundador comunica a própria experiência
No começo da vida do Instituto, o Fundador é uma pessoa madura, homem de grande experiência. Também no plano formativo ele consegue transferir espontaneamente aos seus filhos a própria experiência. Este é um ponto importante, pois nos dá a garantia de que ele formou de acordo com a linha do seu amadurecimento. As propostas que fazia (pensemos, por exemplo, em suas numerosas insistências sobre a santidade) não eram teóricas, mas algo já filtrado em sua própria vida.
O próprio Fundador expressou este critério. Trago dois exemplos, um no começo da vida do Instituto, no dia 2 de março de 1902: em seus apontamentos para o retiro mensal, o Fundador conclui deste modo: “Minha experiência de vida comunitária, que abrange todo o arco da minha existência, quero aplicá-la a este Instituto. Prestai atenção às minhas ordens e exortações, como também aos meus desejos, que bem conheceis” (2). O segundo exemplo, quase no declinar de sua vida terrena, temo-lo no dia 29 de maio de 1921, quando o Fundador ensina a fazer a visita ao Santíssimo Sacramento com grande devoção e fé, afirmando entre outras coisas: “Ao entrardes na capela, dirigi o olhar ao sacrário, fazei a genuflexão bem feita e, mantendo o olhar fixo no sacrário, rezai ao mesmo tempo uma jaculatória... Conto-vos aquilo que sinto... Eu gostava muito do tempo em que não se costumava estender a pequena tenda na frente do sacrário: tinha-se a impressão de estar mais perto do Santíssimo”(3).
b) O Fundador “quis” comunicar também sua pessoa, sua vida
O Fundador queria descer mais profundamente: com a própria experiência, tencionava comunicar também sua própria pessoa, toda a sua vida. Acreditava neste método de comunicação vital, baseando-se sobretudo no fato de que a família se constrói a partir do pai. O espírito de família devia primeiro ser vivido com ele, que era o pai, e depois com todos os irmãos. Contudo, o fato de Allamano comunicar sua própria pessoal, sua vida, não deve ser visto tanto como “método pedagógico”, mas como “estilo de vida”, como “espírito”. Dado que conhecemos o Fundador, podemos crer que nele tudo isto foi espontâneo, ou melhor ainda, que não teria sido capaz de agir de forma diferente, apesar de ser uma pessoa reservada, em constante comunhão com Deus.
Vejamos, antes de mais nada, de que maneira o Fundador comunicava sua vida, sua pessoa aos outros. Entre os numerosos exemplos que encontramos nas conferências, cito um que considero muito bonito, deduzido da circular que Allamano enviou aos missionários e missionárias, por ocasião do seu 50º aniversário de sacerdócio. Na carta, começa por reconhecer que toda sua longa vida foi tecida de graças. Lembra as principais, sublinhando a celebração de inúmeras santas missas, exclamando em seguida: “Conta as estrelas, se podes” (Gn 15,5). Considerando as múltiplas responsabilidades que pesaram sobre seus ombros (e também destas indica as principais), comenta com simplicidade: “Se em meu lugar estivesse um santo, teria realizado muito maior bem, teria alcançado mais merecimentos. Uma coisa, porém, me consola: procurei sempre fazer a vontade de Deus, reconhecida na palavra dos meus Superiores. Se Deus abençoou muitas obras que realizei, a ponto de suscitar até admiração, meu segredo foi este: procurar somente Deus e sua santa vontade, que me foi manifestada através dos meus Superiores. Esta foi e continua a ser a minha consolação durante a vida e minha confiança perante o tribunal de Deus”. Depois de agradecer a todos pelas orações, cumprimentos e festas, conclui: “Atribuo a vós a graça de não ter morrido no inverno passado; e, com a saúde suficiente, pude chegar a este belo dia... Continuai a rezar, a fim de que em mim e em vós se cumpra sempre a santa vontade de Deus” (4). Assim falava o nosso Pai, e os filhos o compreendiam.
Com certeza, Allamano se dava conta desta sua espontaneidade e abertura em relação aos seus alunos, pensando que esta maneira de se comunicar poderia despertar neles admiração, ao menos em alguns. Algumas vezes o fez notar. É provável que com isso tencionasse ajudar os alunos a compreendê-lo. Por exemplo, depois de ter falado longamente de sua viagem a Roma, no dia 12 de novembro de 1914, cita até diversos particulares, inclusive mostra-se satisfeito e comenta: “Conto-vos tudo, como faz um pai de família” (5). Numa conferência, falando dos “Anjos da Guarda”, no dia 26 de setembro de 1916, insere muitos fatos acerca da guerra que estava em curso, observando: “Eu vos conto tudo aquilo que consola, e também aquilo que traz sofrimento e espinhos” (6).
c) O Fundador não esconde seu estado de espírito
Um último aspecto que sublinho: o Fundador não disfarçava os próprios sentimentos. Dado que ele e os próprios ouvintes se sentiam à vontade, não era o caso de assumir um comportamento formal. Allamano jamais desceu em banalidades, mas permitiu que através de suas atitudes se pudesse conhecer seu estado de espírito. Poder-se-ia ilustrar este aspecto, examinando suas próprias palavras. Tanto nas conferências quanto nas cartas encontramos uma infinidade de expressões que revelam seu estado de alma. Aqui, ao invés, quero fazer notar um costume que os alunos, especialmente as irmãs, tinham adotado: enquanto escreviam as palavras do Fundador, durante as conferências, algumas vezes anotavam entre parêntesis o estado de espírito do Fundador: se sorria, se mostrava preocupação, vontade determinante, tristeza, serenidade, sofrimento... Este fato nos faz compreender a “corrente” de afeto que entrelaçava o pai, os filhos e filhas, e como o Fundador se sentisse livre perante eles, certo de ser compreendido. Os exemplos seriam muitos, e alguns também interessantes. Trago apenas dois, para ilustrar este aspecto da personalidade do Allamano e como era entendido.
Numa conferência às irmãs, no dia 28 de janeiro de 1917, falando da “colaboração com o IMC”, lemos o seguinte: “Vede (tira do bolso uma carta e, com um largo sorriso de complacência, coloca-a sobre a mesa), temos os nossos missionários que prestam o serviço militar e que escrevem uma carta... (Com ar de satisfação, tira-a do envelope, desdobra-a calmamente e depois, ajeitando os óculos sobre o nariz, começa a lê-la. Na altura em que os Reverendos Coirmãos agradecem, especialmente pelos pacotes que haviam sido preparados para eles, pacotes que continham um pouco de alimento que eles mesmos se preparam para a viagem, no término da breve licença que, de quando em quando, lhes é concedida, o nosso mui Venerando Pai acrescenta:)... Até aqui nenhum deles tinha partido para o campo de combate; agora, contudo, há dois entre os combatentes... (Acaba de ler a carta e depois, sorrindo:) Este é o afeto que deve reinar entre irmãos e irmãs... Cada qual em seu lugar, mas... afeto sincero, afeto de coração. Vós sois como as piedosas mulheres...” (E aqui faz notar com clareza o que está dizendo) (7).
Em referência ao Camisassa, no dia 23 de julho de 1922, antes da morte do Camisassa, é anotado entre parêntesis: (“O nosso mui Venerado Pai nos fala afetuosamente do amado Senhor Vice-Reitor e depois, com um nó na garganta, diz:) Mandei o seguinte telegrama a todas as missões: ‘O Vice-Reitor está gravemente doente: é preciso rezar’ (8). Depois da morte do Camisassa, numa conferência do dia 3 de dezembro de 1922: “Eu contava com o Senhor Vice-Reitor... que sempre nos amamos no Senhor... (ao dizer estas palavras o nosso muito amado Pai olha a fotografia do nosso caríssimo Senhor Vice-Reitor, afixada na parede, e assume uma fisionomia triste e profundamente dolorosa”) (9). A maneira de se expressar das testemunhas revela quão profunda fosse a sua participação. Parece até que vivam os mesmos sentimentos. Tenha-se presente mais uma coisa: ainda que, às vezes, refiram reações de fragilidade, as irmãs nunca se escandalizam, porque conhecem muito bem a fortaleza de alma do Allamano (10).
2. COMO COMUNICAR COM O FUNDADOR PERENE
Apresento-vos três pistas de reflexão acerca do nosso relacionamento, hoje, com o Fundador, de sorte que entre ele e nós haja comunhão, uma comunhão que exerça influência sobre o nosso modo de viver e também sobre o serviço que desempenhamos.
a) Conhecer o Fundador
Não se deve esquecer que Allamano viveu num precioso momento histórico que exerceu influência sobre ele. Por isso, para compreender bem o Fundador, é mister que se conheça a sua “historicidade”, isto é, sua vida e seu pensamento, sem deixar-se condicionar pelas circunstâncias ou pelo estilo do tempo. Para conhecer de verdade a vida do Fundador não basta apenas conhecer os acontecimentos e as obras que realizou. O mais importante é conhecer a experiência interior que ele fez em cada situação de sua vida, em cada atividade que exerceu. Exemplifico, trazendo aqui uma de suas expressas reflexões, na conferência do dia 19 de janeiro de 1913, ao responder à mensagem de feliz aniversário que lhe fora dirigida, na ocasião em que completava 62 anos de idade. Entre outras coisas, disse: “No seminário, onde vivi durante 14 anos, ouvi a voz de Dom Gastaldi, que me chamava a assumir o cargo de Diretor Espiritual; e mais tarde, a mesma voz, que me chamava a trabalhar na Consolata... Vede, portanto, como agora, ao lançar um olhar sobre o passado, eu possa alegrar-me com santa complacência por ter obedecido à vontade de Deus, que me foi manifestada através dos Superiores; e agora alegro-me com a certeza de ter sempre percorrido a senda que Deus me traçou” (11). Portanto, conhecer os acontecimentos da vida e o dinamismo apostólico do Fundador significa: saber qual a percepção que ele teve da própria vocação e de que maneira correspondeu a ela.
Conhecer o seu pensamento, para nós, é relativamente fácil. Temos a sorte de possuir as suas palavras e seus escritos, graças à publicação das suas conferências e cartas. Se quisermos estar em condições de, antes de tudo, viver o pensamento do Fundador para depois comunicá-lo aos outros, é indispensável que conheçamos adequadamente as suas palavras e seus escritos. Ele mesmo teve consciência de nos ter dado em herança o seu pensamento, conforme se sabe. Certo dia, ao entregar ao Pe. José Nepote – então Mestre de Noviços – os dezesseis cadernos dos apontamentos, Allamano disse: “Estes manuscritos das Conferências contêm o meu verdadeiro pensamento”. E dado que sabia que suas conferências eram estenografadas, acrescentou: “O resto contém a substância, visto ter eu falado convosco com toda simplicidade...” (12).
b) Confrontar-se com o Fundador
Podemos imaginar o Fundador “em diálogo” conosco, seus filhos e filhas. Confrontar-se com ele significa colocar-se à sua frente e interrogá-lo, talvez discutir, para depois dar-lhe uma resposta. O conteúdo do confronto é a nossa vida e atividade que desempenhamos. Não convém dizer levianamente: “O Fundador, hoje, diria assim ou assado...”, inventando nós as suas respostas. O confronto só é autêntico quando há conhecimento, estima e sobretudo amor. O confronto é ato de sabedoria e deve ser feito em clima de meditação e de oração.
Além disso, o confronto tem por base teológica a “vocação comum”. Cada um de nós é chamado, em força da vocação pessoal, a viver o carisma do Allamano, não isoladamente, a sós, mas com os coirmãos e coirmãs. Sob este ponto de vista, o confronto torna-se uma garantia de autenticidade. Os auxílios para viver a vocação não devem ser procurados alhures, em outros carismas, visto que cada um de nós é chamado pelo Espírito a viver este carisma e não outro. Não foi sem razão que o Fundador, cônscio desta realidade, insistia sobre a necessidade de se adquirir uma sólida formação “aqui”, e de acordo com o “espírito do Instituto” (13).
Confrontar-se com o Fundador significa, finalmente: não acovardar-se jamais! Allamano é um educador que encoraja sempre. A este propósito, pensemos na importância que ele atribuía ao versículo 11 do salmo 76: “Nunc coepi – agora começo!”
c) Educar com a vida
Sem esquecer quanto foi dito acima, quisera concluir estas reflexões reafirmando o valor do testemunho de vida, inclusive no desempenho da tarefa de formador. O Fundador falou muito, de forma ordenada e constante, em público e em particular. Nós o conhecemos através deste seu modo de comunicar. Os primeiros missionários e missionárias, que tiveram a sorte de fazer a própria caminhada formativa com ele, se prestarmos atenção ao que testemunharam, veremos que, primeiro foram atraídos pelo seu testemunho de vida, depois por suas palavras. Este é um desafio que vale também para nós.
Pe. Francesco Pavese
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NOTAS
1. Cf. Le Conferenze Spirituali del Servo di Dio Giuseppe Allamano, I, p. 21. 2. Conf. IMC, I, 15. Padre L. Sales cita uma frase dirigida ao Pe. D. Ferrero, que explica o método com o qual o Fundador se baseava na própria experiência: “Aquilo que vos digo, digo-o com simplicidade, mas me preparo sempre, pois quero que sejam coisas sólidas. Claro que isto me custa, mas é para o vosso bem. Quando vou e volto da igreja Catedral penso nestas coisas e, ao chegar ao quarto, tomo nota” (Bibliografia, pp. 233-234). 3. Conf. IMC, III, 595. 4. Lett., IX/2, 653-654. Sobre este assunto, cf. o interessante estudo aos cuidados de Ir. RACHELIA DREONI-MC: Il Fondatore narra la sua vita, Nepi 1997, pp. 300. Este volume reúne passagens das conferências aos membros dos dois Institutos, nas quais o Fundador narra alguns tópicos de sua vida. 5. Conf. IMC, II, 111. 6. Conf. IMC, II, 369. 7. Conf. MC, II, 14-15. 8. Conf. MC, III, 441. 9. Conf. MC, III, 486. Vê-se como Allamano se dá a conhecer, sobretudo através de vários testemunhos. Num momento de dificuldade a respeito do andamento do Instituto, nos últimos anos de sua vida, quando Dom Filipe Perlo já estava em Turim, na conferência de 26 de agosto de 1921, Allamano disse às irmãs: “Eu é que sou o responsável de transmitir-vos o espírito; e ninguém pode arrogar-se o direito de modificar, ainda que seja a mínima coisa em relação ao vosso espírito. A responsabilidade de dirigir as irmãs é sempre minha, até agora não a cedi a ninguém. Eu darei o meu espírito aos que se mantiverem unidos a mim” (Conf. MC, III, 278). Aqui a estenógrafa não acrescenta nada entre parêntesis, mas o Fundador, com sua atitude, não escondeu o desgosto com que falava. Quem afirma isto é Irmã Adelaide Marinoni num testemunho datado de 20 de março de 1944. Depois de contar que, enquanto algumas irmãs, com Dom Perlo e um outro padre trabalhavam e brincavam entre si, chegou o Fundador e logo deu para entender que não aprovava o clima de camaradagem que se havia criado.. A irmã anota algumas atitudes através das quais se percebe que o Fundador não faz nada para disfarçar seu desapontamento: “... Enquanto o Fundador passava na frente deles (Dom Perlo e Pe. Dal Canton), fizeram uma reverência, mas ele nem sequer os olhou. A Superiora o acompanhou, e nós também /.../, e subimos ao laboratório, onde Allamano fez a famosa conferência, na qual deu a entender que muitas coisas não estavam de acordo com o seu espírito, e portanto nos disse mais vezes, dando inclusive um soco na mesa: ‘É o meu espírito que deveis acolher e não um outro!” 10. Por exemplo, Irmã Emerenziana Tealdi, que o assistiu durante a última enfermidade, depois de referir certas palavras do Fundador, mais duras que mansas, assim conclui: “Em toda esta provação /.../ o Pai sempre se mostrou forte, cheio de fé, jamais prostrado, mas apenas aflito” (Depoimento no processo canônico). 11. Conf. IMC, I, 489-490. 12. Prefácio do Pe. G. Chiomio à cópia dactilografada das Conferenze del Padre, Torino 1947, p.V. 13. Cf. por exemplo: Conf. IMC, II, 210-211; Conf. MC, II, 33-35.
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