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Roma, 29 de junho de 2003. Festa de São Pedro e São Paulo Este meu relatório não visa tratar especificamente da formação do missionário, hoje. Nem mesmo tenciona sublinhar a complexidade da missão hodierna em seus múltiplos areópagos, em seus novos desafios e fronteiras. Isto já foi enfrentado amplamente a nível de Instituto ao longo dos dez últimos anos. A tarefa que me proponho é, ao invés, mais modesta: partir das intuições e orientações dos nossos últimos Capítulos Gerais acerca da espiritualidade, carisma e missão, para depois descrever quais deveriam ser, a meu ver, as principais acentuações no campo da formação, a fim de garantir que o Missionário da Consolata, preparando-se a dar vida a um segundo século de evangelização no Instituto, possa ser criativamente fiel ao carisma do Bem-aventurado Allamano.
Espero, além disso, que estas minhas reflexões possam fazer memória e evocar alguns elementos formativos que mais nos dizem respeito e que já fazem parte de uma rica literatura hoje existente a nível de Igreja. Formar aos valores do Evangelho, da missão e do carisma constitui a arte das artes, onde não se pode contar apenas com os recursos humanos. Por isso, peço para todos vocês aquela sabedoria, que significa capacidade de reflexão, pedagogia responsável, disponibilidade ao diálogo, mas especialmente abertura ao Espírito.
Sem preocupar-me com uma real sucessão lógica, farei um elenco de temas que mais freqüentemente me passam pela mente, quando penso aos desafios atuais da missão e às qualificações que um Missionário da Consolata deveria ter para enfrentá-los como convém.
1. Missionário – discípulo de Cristo
“Depois Jesus subiu ao monte, chamou os que ele quis. E foram a ele. Designou doze entre eles para ficar em sua companhia. Ele os enviara a pregar, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,13-15).
Apraz-me partir desta incisiva passagem do Evangelho de São Marcos, porque ela contém os elementos fundamentais e essenciais da nossa vocação. O Missionário da Consolata é alguém que foi chamado a seguir Cristo e, como ele, um consagrado ao Pai por causa do Reino. Este elemento é básico e fundamental na nossa vida e missão. Se, por um lado, deve ser enfrentado desde o começo da caminhada vocacional, por outro, é preciso lembrar que, depois, ele assinalará e marcará cada passo e cada etapa sucessiva da vida do missionário. Discípulos de Jesus nós o seremos por toda a vida; e o sucesso da nossa missão dependerá da capacidade que tivermos de perseverar na escola do Mestre. Efetivamente, antes de esboçar um programa formativo com os candidatos ao Instituto ou à missão, devemos ter a garantia de que tenham sido “chamados” por Deus e que haja neles aquela percepção de fé e aquele laço de amizade com Cristo, que manifestem que “algo” aconteceu na vida deles. O próprio nome de Jesus deve ser capaz de suscitar neles, quase que instintivamente, as mesmas sensações que o nome de uma pessoa querida sempre causa. Embora o olhar atento de um formador consiga perceber imediatamente e ter a impressão clara de que o jovem que está à sua frente é um “chamado”, normalmente, tal verificação primária e fundamental, não se realiza num instante, mas só com o passar do tempo, e não pode dispensar a utilização de meios, como: diálogo e discernimento, contato prolongado com o Evangelho e conseqüente despertar de um grande afeto pela pessoa de Jesus, verificação quanto à capacidade de fazer renúncias, de sonhar “desinteressadamente” o próprio futuro e querer que esteja em sintonia com as exigências do Mestre...
Depois de verificar que este primeiro e indispensável elemento existe, devemos então dar a mão ao jovem e acompanhá-lo no caminho do seguimento de Jesus. Nisto nós não podemos fazer de mestres, porque o verdadeiro Mestre é Jesus; podemos apenas ser condiscípulos, acompanhantes. Lembro agora os elementos principais que os nossos deverão cultivar com especial atenção durante a caminhada do seguimento de Cristo:
- Deixar-se fascinar pela pessoa de Jesus. Esta é a marca que distingue o discípulo de Jesus, porque é exatamente nisto que ele se diferencia de outros discípulos. Não se segue a Jesus para fazer um curso acadêmico, para lucrar vantagens econômicas, para fazer carreira atraente. O discípulo de Jesus vincula-se à pessoa do Mestre, adere ao seu ensinamento, imita-lhe o projeto de vida, para sempre. Jesus, depois, torna-se o Mestre exclusivo: não há lugar para outros. Perguntemo-nos então: que itinerário levamos os nossos jovens a fazer para se enamorarem de Cristo? Que meios utilizamos? Cremos de verdade que tal objetivo é realístico também para o “discípulo” do século 21?
- “E, deixando tudo, eles o seguiram...” Toda vocação evangélica implica uma ruptura com o passado e com as velhas seguranças. O discípulo deve saber cortar a ponte atrás de si para poder seguir Jesus. Deixa a casa, os afetos, as coisas importantes que lhe dão segurança, uma carreira que o apaixona, os próprios “hobby” para as horas de lazer, ou o prestígio que o atrai. Só depois de dar este passo é que se poderá de verdade iniciar o seguimento de Cristo. Somente então a vida do discípulo começa a impregnar-se de outros valores, a apaixonar-se por outras coisas, a amar outras pessoas, a lutar para atingir objetivos que não foram sonhados por ele. O que deixam atrás de si os jovens que batem às portas das nossas casas formativas? Sabemos submetê-los à prova do “deixar tudo?...” Será que não afrouxamos demais nesta exigência, permitindo que o seguimento de Jesus se confunda com o início de uma carreira humana?
- Vida de fraternidade A fraternidade nasce como exigência mesma do seguimento. Não é uma escolha opcional. Os irmãos, quem m’os dá é Jesus; e, normalmente, não são os que eu escolheria. Também a comunidade em que estou inserido, em via de regra, sempre apresenta limitações consideráveis. A sua é, de verdade, uma comunidade alternativa, precária e frágil. Para inserir os nossos jovens não devemos procurar comunidades perfeitas, ou comunidades elaboradas e estudada no computador, mas comunidades de pessoas que crêem, isto sim; comunidades de pessoas que não consideram um absurdo empenhar toda a própria vida a serviço dos outros; comunidades que sabem superar as dificuldades de cada dia com o perdão, que têm a força de recomeçar sempre de novo, a cada manhã que desponta...
- A serviço do Reino Para nós, o Reino chama-se “missão”, isto é, a missão mesma de Jesus. Não a nossa missão, mas a dele, projetada por ele, desejada por ele, “paga” por ele. “Pregar” e “expulsar os demônios” são os dois elementos da missão, através dos quais o Reino de Deus se estende no mundo. A nossa própria vida também é anúncio e faz missão: quando apresenta o estilo da vida de Jesus, quando reflete a sua pobreza e o seu desapego, quando repete o relacionamento de intimidade com o Pai. O jovem que pede para ser Missionário da Consolata deve saber com clareza que o seu empenho pelo Reino se identifica com a missão do Instituto, com a disponibilidade total de deixar a própria pátria e partir para lugares onde as necessidades e os desafios são maiores. Submetamos os nossos alunos, desde o início de sua caminhada formativa, ao teste dos “três ad”: ad gentes, ad vitam, ad extra.
2. Missionário capaz de harmonizar a integração entre consagração, vida fraterna e missão
O Sínodo sobre a Vida Consagrada e a exortação apostólica pós-sinodal consideram a consagração como base formativa para todo religioso, seja em relação à vida comunitária, seja em relação ao ministério apostólico. De fato, quem vai para a missão não vai porque chamado pelas situações sociais ou por outras motivações, mas somente porque é enviado por Cristo. Quanto mais profundo e autêntico for o seu relacionamento com Cristo, tanto mais significativa e incisiva se tornará sua vida apostólica. O mesmo diga-se da vida fraterna: tornar-se-á missionariamente significativa e fecunda à medida que seus membros souberem manter viva entre si a presença do Ressuscitado.
O nosso Instituto acabou, enfim, com a discussão inútil que, infelizmente, se prolongou por muitos anos, a saber: se nós, Missionários da Consolata, somos primeiramente missionários e depois religiosos, ou vice-versa. O Capítulo Geral de 1993 afirmou: “Confessamos, com o Allamano, que a vida religiosa é fonte profética e fortalecimento da missão; a missão, por sua vez, enriquece a vida religiosa. Sustentada pelo senso de pertença ao Instituto e pelo espírito de família, a vida religiosa forma comunidades que visam o dinamismo e a fecundidade apostólica” (IX Cap. Geral, Qual espírito, valor III). Durante todo um sexênio refletimos e aprofundamos esta verdade, descobrindo nela o segredo dinâmico de uma vida missionária como Allamano a sonhava e queria (1).
Retornando ao nosso tema específico, devemos confessar que a consecução deste objetivo é de extrema importância para que haja uma formação harmônica e bem integrada ao nosso projeto de vida. Harmoniosa integração significa que nenhum dos três aspectos deve ser absolutizado em prejuízo dos outros dois, ainda que o primeiro constitua o elemento nascente, o manancial. Harmoniosa integração significa ainda que, nas várias fases formativas, os três elementos devem caminhar juntos, sem que um seja destinado a uma determinada fase e outro à outra. Assim, por exemplo, não é oportuno que no Noviciado se fale somente de vida consagrada e dos votos, sem tocar também os elementos relativos à comunidade-família e à missão.
Tomo agora a liberdade de sublinhar, em cada um dos três aspectos, algumas exigências que, a meu ver, os formadores deverão oportunamente ter presentes:
a) Não permitamos jamais que as nossas comunidades percam o gosto pela oração bem feita. O Papa João Paulo II, na Novo Millennio Ineunte, apresenta com coragem, à Igreja que inicia um novo milênio, a vida de santidade e de oração. Afirma que hoje necessitamos da arte da oração; que um dos sinais dos tempos é uma renovada necessidade de oração; que cada comunidade cristã (e mais ainda a comunidade religiosa) deveria tornar-se uma autêntica escola de oração... Pois bem, como se explica que aquela intensidade de oração, própria dos primeiros estádios formativos e particularmente do Noviciado, com o passar dos anos da formação vá perdendo aos poucos a força? Aceitar esta situação, como se fosse algo de inevitável, é levar adiante um projeto formativo destinado à falência.
b) Penso que a Eucaristia, celebrada cotidianamente em todas as nossas comunidades formativas, juntamente com o uso freqüente do sacramento da Reconciliação, seja o meio indispensável que ajuda o jovem a alcançar aquela harmoniosa integração dos três elementos: vida consagrada, comunidade e missão. Não se trata apenas de convicções: é preciso usar os meios aptos para que um ideal se transforme em vida.
c) A lectio divina ou o uso meditado e rezado da Palavra de Deus torna-se cada vez mais a meditação da pessoa consagrada. Ela permite encarnar os dois valores sobre os quais o Fundador tanto insistia: a Palavra de Deus e a meditação cotidiana. Assim se exprimem as Constituições a este respeito: “A meditação diária, momento privilegiado da oração pessoal, é indispensável para aprofundar a vida interior e também para uma verdadeira participação na liturgia, a tal ponto que ‘deve ser considerado perdido’ o dia em que ela não foi feita” (Const. 61).
d) Esforcemo-nos por transformar as nossas comunidades em fraternidade. Não me estendo na explicação das motivações (2). Tenho a impressão de que, às vezes, os nossos seminários sejam considerados “boas” comunidades só porque os horários e os programas funcionam normalmente, ao passo que, talvez, não nos preocupamos o suficiente para criar um clima de verdadeira fraternidade, que deveria sempre caracterizá-las e ser bem visível.
e) O zelo e a paixão pela missão se obtêm com a soma de vários elementos: não basta somente rezar, não basta somente ler, como não basta dedicar-se somente às atividades apostólicas. Além disso, vivemos num tempo em que também a reflexão teológica sobre a missão parece sugerir mais dúvidas que seguranças, a tal ponto de apagar nos jovens o entusiasmo pela missão. O seminário deve então suprir esta lacuna com apropriadas iniciativas e experiências, para manter vivo nos jovens o zelo missionário.
3. Missionário – capaz de beber do poço do carisma
Penso que ninguém de nós duvida da importância do carisma na formação do missionário. É o elemento fontal e gerador da nossa família, o segredo da sua fecundidade e perenidade, garantia de autenticidade. Para o Missionário da Consolata, carisma é aquele núcleo original e genuíno da herança do Bem-aventurado Allamano, que a usura do tempo não corrompe nem envelhece, e que os diversos elementos culturais não devem e não podem modificar e, menos ainda, mudar. O jovem religioso deve, portanto, colocar-se perante o carisma com a mente e o coração abertos: deve aprender a lê-lo, a interpretá-lo e a vivê-lo. O jovem deve encontrar no formador a pessoa capaz de conduzi-lo ao poço do carisma, para que aí possa dessedentar-se nesta água fresca de vida, uma memória constante que sugere, que aconselha e que propõe. Lembro que o estudo do carisma não deve limitar-se apenas à etapa formativa do Noviciado: toda fase formativa do jovem deve encontrar no carisma do Fundador uma referência estável e indispensável..
Quisera agora deter-me brevemente sobre alguns aspectos relativos ao estudo do carisma:
- O carisma necessita de inculturação. Creio que no Instituto, hoje, os formadores sintam uma necessidade particular de inculturação, dado que devem tratar com uma crescente internacionalidade de suas comunidades. É preciso, antes de tudo, que eles mesmos conheçam claramente qual seja o núcleo fundamental e irrenunciável do próprio carisma. Depois, devem saber expressá-lo de maneira compreensível e com referências à cultura do país onde se encontram. No passado, já foram feitas algumas tentativas no sentido de expressar o nosso carisma nas categorias culturais e lingüísticas dos países de origem dos coirmãos. Talvez a mesma metodologia usada em tais ocasiões poderia oferecer sugestões interessantes aos formadores, em vista de um trabalho a ser feito em profundidade em suas comunidades (3).
- Aprendamos a fazer do carisma uma leitura mais aberta e eclesial. No passado, o carisma era visto e considerado como um dom do Espírito que deu origem à nossa Família e a ela permanecia vinculado, para não dizer, quase monopolizado. Hoje, ao invés, somos convidados a fazer do carisma uma leitura mais aberta, eclesial e universal. Não é uma herança que deve permanecer fechada no seio das nossas comunidades, mas um dom do Espírito que tem como confins o mundo inteiro. Portanto, comuniquemo-lo com coragem, proponhamo-lo, compartilhemo-lo. Aprendam os nossos jovens a considerá-lo assim, a transmiti-lo com alegria durante suas experiências pastorais, enquanto agem e trabalham com os próprios coetâneos. Logo perceberão que, ao contato com outros contextos, o carisma assumirá nova vivacidade e também um significado mais pleno e profundo. Não perderá seu mordente, não ficará aguado, nem se tornará simplesmente irênico. Por exemplo, não devemos ter medo que os nossos jovens se relacionem em profundidade com outros religiosos. A aproximação com outros carismas traz consigo o desejo de aprofundar o próprio, de torná-lo mais consistente. Os carismas não se misturam entre si, mas se harmonizam e se enriquecem reciprocamente.
- A vivência do carisma cria família. O espírito de família, o sentir-se plenamente identificados com uma comunidade, o senso de pertença a uma família religiosa – elementos muito importantes e que o Fundador não se cansava de lembrar – não nascem de um vago sentimentalismo ou da simples reflexão. Vivendo o carisma em plenitude, o jovem se identifica sem saber com todos os valores e ideais da nossa Família, faz amadurecer uma carga apostólica, sente que pertence a um grupo humano que lhe dá identidade, alegria e o enche de brio. Também a valiosa herança histórica do Instituto é “carisma” e merece ser conhecida: torna-se “mestra” de vida para as novas gerações. Alguns pedidos de jovens missionários, de neo-sacerdotes ou de professos perpétuos para sair do Instituto, não só nos causaram tristeza, mas nos interrogaram seriamente: - Será que a pertença deles ao Instituto nunca lançou raízes profundas? Será que a formação deles, em relação ao espírito de família, nunca foi objeto de séria consideração? Porque... uma família não é abandonada assim, deste jeito...
4. Missionário de hoje e para o mundo de hoje
Confesso que me sinto perdido sempre que leio sobre antropologia pós-moderna, caracterizada pelo assim chamado pensamento frágil, que não só nega o valor do ser, mas também o sentido do ser, cuja possível oração só parece ser esta: “Nada, e assim seja!” (4). O homem atual estaria assim exposto ao capricho de verdades mutáveis, adaptáveis, tolerantes, sendo forçado a construir para si a própria verdade. A irracionalidade é o único “pensamento forte” ao qual a pessoa possa aspirar, enquanto deverá fazer todo o esforço para afastar de si o espantalho de qualquer verdade como parâmetro absoluto. Eis então que nas massas juvenis, como conseqüência lógica, emergem fenômenos como estes: insegurança, mediocridade, ceticismo, fuga e isolamento, subjetivismo ético. No plano coletivo, então, chega-se a afirmar tranqüilamente que a história já não é mestra para ninguém, nada mais sendo que uma série de acontecimentos empilhados um ao lado do outro. Minhas perplexidades aumentam quanto continuo a ler, neste horizonte, que a única cultura válida é a do “fragmento”, bem representado pela utilização dos meios de comunicação social. Deste modo, também a pessoa se sente “despedaçada”, impessoal. O todo, o logo, a nenhum custo tornam-se então o adjetivo ao qual as massas juvenis parecem tender. Neste contexto, além disso, amadurece a precariedade das relações em todos os níveis, tanto no interpessoal quanto no familiar e social.
Para confirmar esta constatação, é suficiente considerar o número limitado de nossos jovens provenientes de famílias sadias, fortes e bem identificadas, como normalmente soía acontecer em decênios passados... Minha desorientação, enfim, acentua-se ainda mais quando penso que este é o mundo no qual não só vivemos e do qual participam em grande escala todos os povos e todas as culturas, mas também que desta sociedade e desta cultura é que devem surgir as vocações para o nosso Instituto. Estes jovens que batem às portas das nossas comunidades, devemos conduzi-los por um caminho formativo que os torne fortes e bem equipados perante os grandes desafios da missão, capazes de vibrar apaixonadamente pelo povo ao qual serão enviados, identificados com a vocação nada fácil de consagração à missão.
Perante este fato, perguntemo-nos então: A formação que oferecemos em nossos seminários, que resposta adequada poderá dar às numerosas dificuldades que o mundo até aqui descrito apresenta, um mundo que, de forma mais ou menos acentuada, corresponde ao mundo onde cada um de nós vive e trabalha? Como poderemos conduzir os nossos jovens àquela estatura de missionário que o Bem-aventurado Allamano desejava para o nosso Instituto? Não pretendo dar respostas, e sim formular, como exemplo, alguns quesitos que nos possam acompanhar ao longo deste encontro, e que tomo emprestados daqueles que conhecem mais profundamente esta temática:
- Os votos religiosos, no seu aprofundamento teórico e na concretização do cotidiano dos nossos jovens devem, necessariamente, fazer constante referência à cultura de hoje. Assim, a pobreza deverá fazer emergir os valores que o economismo exasperado da atualidade ignora ou despreza. A obediência religiosa deve ser resposta às concessões erradas e extremistas de uma liberdade sem leis e sem freio. Da mesma forma, o nosso amor casto deverá anunciar que existe uma alternativa ao princípio do prazer, que existe alegria neste modo de amar.
- A nossa vida de consagrados e de missionários deve, além disso, saber realçar os valores fortes e nobres do humanismo passado que o pós-moderno parece ter fatalmente varrido. Nenhuma cultura e nenhuma ideologia pode, da fato, arrogar-se o direito de fazer tábula rasa, de reduzir a nada tudo aquilo que a precedeu. Mencionemos apenas, por exemplo, a preocupação pela pessoa, o valor da dignidade humana, o senso da liberdade, a defesa dos direitos humanos, o significado da verdadeira liberdade.
- Um grande desafio, a cada processo formativo, é a capacidade de confrontar as atitudes que se ocultam sob estas formas de pensamento moderno com os valores do Evangelho, da consagração e da missão. Para defender-nos delas não basta simplesmente ignorá-las ou condená-las. É melhor conhecer-lhes a intenção, a substância, para depois aproximá-las do próprio Evangelho, conferi-las com a nossa espiritualidade, ou então encaixá-las no contexto vivenciado da missão.
5. Missionário – homem experiente de comunhão
Retorno sobre este argumento de maneira mais específica, depois de alguns acenos feitos aqui e acolá nos números precedentes. Não só porque este argumento nasce da forte insistência do Fundador acerca do espírito de família; não só porque entra em cena pela necessidade de dar uma resposta ao desafio lançado à Igreja pelo Papa na Novo Millennio Ineunte, isto é, de ser “casa e escola de comunhão”, mas porque a comunhão nasce da índole mesma da nossa vocação cristã e religiosa. A espiritualidade eclesial de hoje pede insistentemente a comunhão, o mundo vê neste anseio de comunhão e de fraternidade universal uma das mensagens mais poderosas que o cristão possa dar. Na missão hodierna da Igreja alarga-se sempre mais a exigência de que o missionário seja alguém que tenha grande “experiência de comunhão e de diálogo” com as religiões e com a sociedade.
Toda dinâmica formativa que vise fazer dos nossos jovens missionários experientes de vida de comunhão no mundo atual, que será seu campo de trabalho, deve partir primeiramente de experiências fortes de fraternidade vividas no seio das nossas comunidades. Esta é uma exigência das Constituições, que afirmam: “No Instituto, família reunida em nome do Senhor, todos se sentem e se aceitam como irmãos, interessando-se uns pelos outros, vivem a missão em unidade de intentos, fazem suas as alegrias, os sofrimentos e as esperanças do Instituto em qualquer lugar trabalhem ou estejam presentes. Esta comunhão é a ‘alma e a vida’ da nossa Família” (Const. 15). Ao viver uma intensa vida de comunhão e de fraternidade no seio das nossas comunidades, o missionário encontrará a força propulsora para semear comunhão, fraternidade, paz na Igreja e em toda parte.
Eis alguns objetivos que, segundo me parece, toda comunidade deveria considerar como irrenunciáveis e aos quais os jovens devem preparar-se com empenho:
- O último Capítulo Geral decidiu que as comunidades IMC devem contar, no mínimo, com três coirmãos (cf. X Cap. Geral, p. 29). Os nossos alunos sejam ajudados a entender que, se quiserem tornar-se Missionários da Consolata, deverão excluir a possibilidade de se tornarem depois “livres batedores”. O fato de viverem em comunidade, nunca deveria ser considerado por eles como um peso, mas um benefício incomparável que o Instituto lhes oferece.
- No seio de cada comunidade deve haver alguns pontos de referência bem determinados e irrenunciáveis, como: momentos de oração cotidiana, encontros comunitários semanais, um plano de vida e de trabalho, papel claro de animação do Superior local. Sem o uso destes meios, que favorecem a escuta, o diálogo e geram comunhão, os missionários correriam o risco de levar existências contrapostas e paralelas, ou seja, negação de qualquer fraternidade. E todos devem entender que estes meios não são só para “seminaristas”, mas para cada “Missionário da Consolata”.
- A comunidade deverá depois ser sinal transparente de comunhão, verdadeira “escola de amor”. Juntamente com a evangelização, a cujo serviço consagramos toda a nossa vida, será este o dom mais precioso que poderemos oferecer aos povos em cujo meio trabalhamos. Nós, na verdade, não somos enviados somente para pregar, mas acima de tudo para testemunhar a caridade fraterna, “a fim de que o mundo creia” (Jo 17,21).
- As nossas comunidades atuais e do futuro deverão ser ricas de comunhão. É uma exigência dos tempos de hoje, exige-o uma fraternidade participativa e autêntica, onde o conhecer-se em profundidade é essencial à comunhão. Tal comunicação se concretiza nos encontros de todo nível, através dos noticiários periódicos, através das comunicações oportunas, as visitas freqüentes dos responsáveis.
- As nossas comunidades tornam-se sempre mais internacionais. Suas expressões de comunhão deverão encontrar caminhos novos, ainda que depois todas devam haurir forças nas nossas nascentes de sempre: partilha da Palavra e da experiência de Deus, discernimento comunitário, projeto comunitário de vida, revisão e correção fraterna. A internacionalidade não deve ser considerada somente como um fato, mas deve implicar uma escolha de valores e conduzir a uma atitude de vida.
- Também a nossa consagração religiosa, expressa nos conselhos evangélicos, deverá ter uma acentuada dimensão comunitária. A resposta ao chamado de Deus, embora tenha um caráter pessoal e individual, nos chama a viver juntos, nos constitui em comunidade. Os votos – elementos mais marcantes da nossa consagração – deverão ser assumidos numa dimensão comunitária e sustentados pela fraternidade. É este um desafio que os formadores deverão assumir para depois ajudar os jovens a darem respostas adequadas. Da obediência, da castidade e da pobreza cada um deve aprender a prestar contas não somente a Deus, mas também à própria comunidade.
- As comunidades do futuro utilizarão o termo “família”, não só para incluir os irmãos ligados pelos vínculos dos votos religiosos, mas também as Missionárias da Consolata e os Leigos Missionários da Consolata. E nós deveremos aprender a estender nossa fraternidade a todos eles, e no respeito de sua peculiaridade vocacional, saber utilizar todos os meios que favoreçam o autêntico espírito de família que nos legou o Bem-aventurado Fundador.
6. Missionário – ministro de consolação
O Fundador quis colocar a Consolata no próprio nome do Instituto. Comentava a este respeito: “Trazemos o título (de Consolata) como um nome e um sobrenome” (Conf., I, 568), o “gênero e a espécie” (VS 687). Acrescentava mais: “O nome que trazeis, deve impelir-vos a ser o que deveis ser...” (VS 688). Falando, portanto, da nossa espiritualidade e das atitudes típicas do nosso ministério, a referência à “consolação” não pode faltar. Ela está, aliás, bem no âmago do nosso ser Missionários da Consolata: identifica-nos, propõe-nos um ideal, sugere atitudes de vida, mostra-nos inclusive itinerários de praxe missionária. Ao ler a nossa história centenária, apercebemo-nos como os missionários dos primeiros tempos e dos decênios sucessivos tenham sido fiéis ao legado recebido do Fundador, ou seja, ser pessoas capazes de levar ao mundo a verdadeira consolação que é Cristo, a exemplo de Maria. Eles realizaram esta missão com o anúncio do Evangelho, com o testemunho de vida, vivendo ao lado dos pobres, com um jeito que lembra constantemente a Mãe de Jesus.
Ao iniciar o segundo século de vida, o Instituto não deve expor-se ao risco de perder esta sua característica fundamental. Cabe aos formadores de hoje repropor este valor carismático, não só para confiá-lo às novas gerações, mas “relendo-o” também de maneira criativa no contexto atual do mundo e em sintonia com o Magistério da Igreja. Relembro e comento brevemente os itinerários mais importantes desde nosso ministério de consolação:
Evangelização – Nós, Missionários da Consolata, temos consciência de que o nosso ministério de consolação se realiza antes de tudo quando anunciamos Cristo Senhor aos povos e lhes testemunhamos o Evangelho com a nossa vida. O próprio e explícito mandato de Cristo: “Ide, pois, ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinai-as a observar tudo o que vos mandei” (Mt 28,19-20), dá pleno valor ao nosso serviço missionário e torna verdadeira a consolação que oferecemos aos povos. Paulo VI nos lembra na Evangelii Nuntiandi: “Evangelizar é a graça, a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. A Igreja existe para evangelizar” (EN 14).
O formador preste atenção para que nenhuma doutrina e nenhum ensinamento arranhe este elemento essencial e constitutivo da nossa vocação, nosso “fim supremo” (cf. Carta de José Allamano, 18 de dezembro de 1920), e diminua sua importância aos olhos dos nossos jovens. Novas formas de evangelização são hoje suscitadas pelo Espírito, que enriquecem a missão da Igreja. O estudo e o empenho dos jovens na preparação acadêmica tenham exclusivamente como objetivo uma melhor habilitação para evangelizar. Não estaria de acordo com o espírito de Allamano uma busca de títulos acadêmicos como fim a si mesma.
Escolha dos pobres – “Consideremos que a missão é escolha preferencial dos pobres, em sua realidade de sofrimento, anseio de justiça e abertura a Deus” (IX Cap. Geral,32). Esta escolha, que hoje talvez expressamos com termos mais modernos, já foi feita pelo Fundador, quando nos enviou à África e nos pediu que elevássemos o ambiente onde nos encontrássemos. É uma verdadeira escolha de campo e, para nós, Missionários da Consolata, deve tornar-se espontânea, visto ser evangélica, e por ser uma resposta pronta dada ao apelo da Igreja, parte do nosso específico carisma de consolação.
Nossos jovens, como são ajudados a fazer esta opção? São suficientemente instruídos acerca da necessidade de distinguir entre escolhas políticas e escolhas evangélicas? Durante a formação de base é-lhes oferecida, a este respeito, a possibilidade de fazer experiências significativas?
Libertação e promoção humana – O Papa João Paulo II, na mensagem que enviou ao nosso Instituto por ocasião do Centenário, afirma: "Ao anúncio explícito do Evangelho deve-se unir o esforço de libertação e de promoção humana, de tutela da justiça e de busca dos possíveis caminhos de uma paz estável e sólida. São estes os aspectos de uma ação apostólica eficaz, que visa dar uma resposta às múltiplas necessidades do ser humano. Por esta estrada, que caracteriza a vossa Família religiosa, caminhai com confiança, sempre coerentes com o vosso típico método de ser missionários” (Nº. 4). Tal coerência deve hoje explicitar-se em formas e maneiras novas, em consonância com o ensinamento da Igreja e os sinais dos tempos. Ensinamos aos nossos jovens a fazer uma leitura dos sinais dos tempos, cuidando de não sermos simples repetidores de métodos passados de promoção humana?
Justiça e paz – “No mundo de hoje há uma manifesta convergência dos povos para a recusa da violência e da guerra, para o respeito da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, pela busca dos ideais de liberdade, justiça e fraternidade, vontade de ultrapassar racismos e nacionalismos, sensibilidade pela natureza e sua preservação (cf. RM 86). Estas dimensões são parte constitutiva da evangelização ad gentes e do nosso ministério de consolação, o qual leva a opções e gestos concretos de solidariedade com os povos e ao empenho pela reconciliação” (X Cap. Geral 46). Enquanto os temas relativos à justiça, à paz, à salvaguarda da criação vão penetrando sempre mais profundamente no tecido do nosso ministério de consolação, apesar das inevitáveis incoerências a nível de testemunho de vida, podemos perguntar-nos: Os nossos jovens vibram perante estes ideais? Estimulamos sua sensibilidade acerca destes temas só em nível teórico, ou levamo-los também a fazer experiências concretas?
Presença mariana – Nosso ministério de consolação encontra um modelo incomparável em Maria Consolata. Servir neste campo significa para nós não só oferecer os nossos préstimos a quem passa necessidade, mas também saber ficar perto dos pobres, assumindo um estilo de presença que poderíamos chamar de “mariano”. Tal estilo fala de amorosa solicitude e de generoso serviço, levados adiante com discrição e muito amor, com doçura materna e fineza, com referência constante ao amor gratuito do Pai e sem alarde. O Bem-aventurado Fundador encarnou em si, com fidelidade admirável, estas atitudes marianas e no-las repropõe também hoje. Elas podem provocar uma verdadeira revolução copernicana em nossa vida e atividade apostólica. Na verdade, são atitudes que nos convidam a iniciar o caminho que vai do centro à periferia, para sermos somente aquilo que, por vocação, somos chamados a ser: puro serviço, amor gratuito, experimentando sempre “a felicidade de sermos segundos”, de nos colocarmos em segundo plano.
7. Missionário – capaz de fidelidade criativa no contexto de internacionalidade e de encontro entre as mesmas gerações do Instituto, hoje
Os jovens missionários que saem dos nossos seminários ao concluírem a formação de base se inserem em comunidades missionárias caracterizadas por acentuada internacionalidade. Além disso, deverão conviver e trabalhar com coirmãos de gerações anteriores, numerosos e ativos na vida comunitária e nas escolhas apostólicas. A formação de base deverá, portanto, prestar muita atenção a esta realidade e preparar os jovens de modo tal que sua passagem, de uma realidade “protegida” como pode ser o seminário às realidades sucessivas, não se torne traumática, mas seja enfrentada de maneira madura e serena.
A vida consagrada, diferentemente de outras instituições sociais hodiernas, crê que cada idade tem a sua missão a desempenhar, tanto a que está iniciando uma caminhada como a que se prepara a “amainar as velas...” O segredo da “refundação da vida religiosa”, à qual os religiosos fazem freqüentes referências, consiste exatamente nisto: saber fazer o rodízio vital de valores entre as várias gerações presentes nas nossas comunidades. É esta a juventude do espírito (ou fidelidade criativa) que nunca deve faltar ao nosso Instituto.
Diga-se o mesmo da convivência na mesma comunidade ou circunscrição de missionários de diferente origem racial e cultural. Longe de ser um impedimento à convivência, ou uma diminuição nas atividades, tal variedade cultural, que nós chamamos de “internacionalidade”, é por nós considerada um valor e é escolhida como elemento que caracteriza a nossa Família: “O Instituto, constituído por membros de diversos países, é internacional. O missionário deve preparar-se para viver e trabalhar com confrades de outras culturas, procurando a comunhão nos elementos que caracterizam a nossa Família” (Const. 23).
Partindo deste duplo ato de fé, tomo a liberdade de elencar algumas pistas de trabalho que considero úteis para os formadores e para os nossos jovens missionários:
a) Todos sabemos que o confronto com novos desafios ou problemas oferece a ocasião de dar outros passos em frente, em busca de maior amadurecimento. O importante é saber aplicar o princípio evangélico do “perder para vencer”, ou do “morrer para viver”. Esta foi a dinâmica que Jesus aplicou na formação dos seus discípulos. E se nós soubermos usá-la na preparação dos nossos jovens, o encontro que eles farão com outras gerações ou com os desafios interculturais inéditos, no seu futuro campo de trabalho, será sem dúvida benéfico e positivo. Mais ainda: constataremos que também das nossas comunidades formativas de hoje poderão sair missionários capazes não só de organização ou de técnicas de ação, mas também pessoas capazes de escuta, de cordialidade, de compaixão, de gratuidade.
b) Para viver e crescer positivamente nas relações intergeracionais ou interculturais, é mister que cada pessoa saiba renovar constantemente as opções da própria vocação. Fá-lo-á se for capaz de monitorar atentamente as escolhas de cada dia e as mais empenhativas, próprias das mudanças importantes de sua vida. Portanto, o missionário de qualquer geração não poderá ser uma pessoa isolada em suas decisões, dado que somente o confronto, a busca de conselho, a referência comunitária, a justa consideração do parecer de cada pessoa, a perseverança nos compromissos assumidos, poderão dar garantia de consistência e segurança à sua vida missionária.
c) Outra dimensão indispensável será o senso de pertença à comunidade, à circunscrição, ao Instituto. Ele gera, de fato, disponibilidade e participação ativa e responsável de cada missionário de toda idade e origem cultural aos projetos comuns. Este senso de pertença não pode ser simplesmente afetivo ou de nível intelectual. Ele deve assumir mudanças concretas e criar um espírito de família que saiba apoiar, orientar e avaliar o trabalho de cada um de seus membros. Um grande amor ao Instituto e uma boa dose de ascese são indispensáveis para que isto se realize de verdade!
d) A empatia é o predicado moral que me abre ao outro e permite que o outro entre no meu mundo, e assim eu terei condições de dar e de receber ao mesmo tempo. É algo indispensável e que não se improvisa. Um jovem missionário deverá cimentar-se sobre este banco de prova a partir dos anos de sua formação de base, para aprender o perdão e a gratuidade, para administrar as responsabilidades e o dever cotidiano, o sucesso e os vexames, para saber enfim superar os inevitáveis conflitos.
É evidente que esta carrada de qualidades, que vão se infiltrando na vida dos nossos jovens, poderão servir também para avaliar o grau de maturidade de um aluno e sua capacidade de enfrentar as etapas empenhativas de sua vocação, como, por exemplo, a Profissão Religiosa perpétua e as Ordens Sagradas.
8. Missionário – capaz de formação permanente
Antes de tudo, por que falamos aqui de formação permanente? Porque a formação tende a ser permanente, ou então ela não existe. Além disso, as raízes de uma formação que seja global e que dure por toda a vida devem ser lançadas no decorrer do tempo da formação de base. Valho-me da oportunidade para apresentar algumas impressões que amadureceram no seio da Direção Geral.
• Notamos que são poucos os missionários que se interessam por uma leitura constante e sólida de temas que se relacionam com a nossa vida e missão. Também as revistas teológicas presentes nas nossas comunidades locais são escassas, ou então pouco lidas.
• São muitos os missionários jovens que pedem para melhorar sua preparação acadêmica. Parece-nos que as motivações para isso consistam freqüentemente no desejo de possuir um ulterior título de estudo, ou simplesmente para ter a possibilidade de fazer uma interrupção no seu trabalho missionário. Prova disto é que são poucos os que, concluída esta ulterior fase de preparação acadêmica, continuam a aprofundar o tema de sua competência.
• Muito difusa é a identificação da formação permanente com os estudos acadêmicos. Notamos, de fato, escassa procura de itinerários alternativos de formação permanente, que poderiam ter maior relação com as necessidades da pessoa (por exemplo: períodos de espiritualidade, experiências significativas, escolas de vida, etc.). Estes itinerários alternativos, normalmente, acontecem somente quando são propostos pela Direção Geral ou Regional. Falando a pessoas que têm responsabilidade na formação de base, desejo levantar a questão: Como instilar nos jovens o gosto pelo aprofundamento constante dos temas que muito têm a ver com a nossa vocação e a missão? Como ajudar os nossos jovens a compreender que a sabedoria é mais importante que a ciência, e que a formação deve alimentar todas as dimensões da nossa vida e não só a mente? O que fazer, para que, concluída a formação de base, o missionário continue a sentir-se sempre em estado de formação? Neste ponto, tomo a liberdade de recordar algumas passagens do suculento capítulo sobre a formação permanente, situado na conclusão da nossa Ratio Studiorum de 1993.
- Importância da Formação Permanente – “A formação permanente ajuda o missionário a tornar-se capaz de enfrentar as realidades novas com que se depara; ajuda-o a ser fiel à sua vocação, aos desafios da missão ad gentes e à história; ajuda-o a tomar o seu lugar na Igreja e na sociedade. Tudo isto exige dele uma formação ao senso dinâmico da vida, para que possa haurir da própria riqueza interior respostas sempre novas e significativas” (250). - Objetivo geral – “Fazer amadurecer em cada missionário a necessidade de manter-se em estado de renovação espiritual e de atualização profissional, para que tenha condições de oferecer à missão ad gentes um testemunho de vida evangélica e um serviço pastoral qualificado” (252). - Critérios gerais - “Continuidade, globalidade, fidelidade, participação. Assim entendida e vivida, a formação permanente torna-se princípio que orienta e imprime dinamismo à vida de cada missionário e comunidade” (254). - Conteúdo do projeto formativo – “A formação permanente interessa a todos os aspectos da vida e da atividade do missionário, pois lhe envolve o ser, o saber, o agir. Destina-se, portanto, a garantir-lhe o crescimento humano e espiritual, a torná-lo fiel ao carisma e à identidade do Instituto, a garantir-lhe atualização cultural, renovação pastoral e requalificação profissional, em resposta às exigências de amadurecimento da pessoa, da comunidade e aos desafios do serviço missionário” (256). - Método e meios – “A formação permanente, como seguimento de Jesus Cristo, nos ajuda a caminhar. O que não será possível, se faltarem método e meios que nos ajudem a manter-nos fiéis à nossa identidade de consagrados a Deus no serviço à missão” (266). “No planejamento e no desenvolvimento das iniciativas e dos programas de formação permanente, tenham-se presentes a orientação missionária e o método típico da Instituto” (267).
9. Missionário – pessoa de diálogo
Na instrução “Diálogo e Anúncio”, lemos: “O diálogo pode ser entendido de vários modos. Em primeiro lugar, a nível puramente humano, significando comunicação recíproca para atingir um fim comum; ou, a nível mais profundo, que seria comunhão interpessoal. Em segundo lugar, o diálogo pode ser considerado como uma atitude de respeito e de amizade, que permeia e deveria permear todas as atividades que constituem a missão evangelizadora da Igreja. Este pode ser, com razão, o espírito do diálogo”. Paulo VI, na encíclica Ecclesiam Suam, afirmava: “A Igreja é diálogo”. Diálogo ecumênico, diálogo inter-religioso são aspectos e parte intrínseca da missão da Igreja, como são reafirmados respectivamente pela Redemptoris Missio. Do diálogo inter-religioso falou o nosso último Capítulo Geral, tratando especificamente do assunto. Exortou particularmente a todos a se tornarem autênticas pessoas de diálogo, ao afirmar: “O missionário... forme-se ao diálogo e adquira as atitudes necessárias para poder praticá-lo. Rejeite toda atitude de auto-suficiência, fechamento, intolerância ideológica, fundamentalismo. Coloque-se, ao contrário, em estado de conversão, a fim de viver a própria fé em profundidade e com convicção. Eduque as pessoas ao respeito pelas religiões” (p. 73). Todos temos consciência de que o caminho de amadurecimento de uma pessoa pode ser realmente medido pela capacidade que o indivíduo tem de sair de si mesmo e de aventurar-se em direção ao outro. Este processo nunca brota em nós de maneira espontânea, mas é resultado de estudo e de esforço, ou seja, de um verdadeiro processo formativo. Eis porque, na caminhada formativa de um missionário, não podemos deixar de falar de diálogo e dedicar ao tema uma particular atenção. Limito-me, neste contexto, a evidenciar dois caminhos de diálogo, que para nós são necessários, sem pretender esgotar, a este respeito, uma temática tão vasta e complexa.
a) Diálogo consigo mesmo – Uma verdadeira comunicação com o exterior, deve primeiro começar em casa, ou seja, com o próprio indivíduo. O primeiro “próximo” somos nós mesmos e dentro de nós devemos saber encontrar um outro “nós”, quando mergulhamos em nosso íntimo com seriedade e verdade. Efetivamente, cada indivíduo deve saber dialogar e comunicar em profundidade consigo mesmo antes de iniciar um verdadeiro diálogo com o outro. Cada um deve, antes de mais nada, conhecer a verdade sobre si mesmo, conhecer seus próprios valores e suas limitações; deve conhecer os obstáculos que eventualmente possam impedir relações verdadeiras e construtivas; deve conhecer aquelas alergias que cada pessoa pode ter e que impedem ou cortam qualquer relacionamento. O verdadeiro diálogo parte sempre de uma atitude de humildade e de verdade, capaz de conscientizar o indivíduo e de fazê-lo saber que ele não é o centro do universo, mas simplesmente um ser que necessita do outro, que não pode administrar a própria vida sozinho, que tem necessidade de relacionar-se e de aproximar-se do outro para poder crescer e amadurecer. Ai dos blocos egoístas que não nos permitem estabelecer relações verdadeiras e sãs!
Lembro, neste contexto, a importância que podem ter estes meios, no caminho formativo dos jovens que buscam comunicar-se consigo mesmos: o uso e a prática da meditação, a capacidade de exame pessoal de vida, o projeto pessoal de vida, a direção espiritual, uma autêntica vida de oração pessoal. Quantos destes meios continuarão a ser utilizados pelos missionários, quando terminar o tempo da formação de base?
b) Diálogo com o outro – Faço primeiramente um aceno às barreiras que podem impedir a comunicação. O primeiro passo a ser dado é este: remover as barreiras; ou, pelo menos, esforçar-se para torná-las menos perigosas, através da ação formativa. - A linguagem corrompida – É a linguagem que não deixa passar a verdade, que não comunica coisas autênticas, uma linguagem nebulosa, não transparente, ambígua. Aqui não se trata de estética, mas de moral. - Ambigüidade da conversa – Há ambigüidade quando uma pessoa fala, mas não diz, quando não deixa transparecer a própria interioridade, quando não revela a si mesma. A conversa verdadeira constitui sempre um ato de ressonância espiritual, não brota dos lábios, mas nasce do coração. É sempre um ato eminentemente pessoal. - A surdez – Também no contexto das nossas comunidades pode existir o perigo de uma surdez que cria incomunicabilidade, impedindo que um irmão escute o outro. Tal surdez pode ter suas causas em feridas longínquas, em desculpas diversas, em interesses pessoais ocultos ou inconscientes.
Para que o diálogo com o outro possa acontecer, é necessário antes de tudo eliminar as barreiras e depois fazer o esforço de começar a dialogar, de praticar realmente o diálogo. Para verificar se este diálogo é autêntico, devemos prestar atenção a isto: - que seja envolvente, dado que a verdadeira comunicação envolve a vida; - que favoreça o encontro entre pessoas, promovendo relacionamentos interpessoais sadios e serenos; - que não se preocupe apenas em “informar”, mas sobretudo em “formar”; - que transmita algo de significativo capaz de tocar a vida, que desperte os ideais e os interesses dos interlocutores; - que abra o caminho para uma compreensão mais profunda do outro.
A partir da formação de base, o missionário seja habituado à comunicação verdadeira com os outros; valorizem-se para isso os meios tradicionais, como: encontros comunitários, revisão de vida, os projetos de vida, a lectio divina; utilizem-se também os meios modernos de comunicação. Acima de tudo, o missionário em formação seja ensinado e introduzido, de forma correta mas decisiva, a comunicar-se profundamente com sua vida de fé. Se esta é uma fronteira à qual talvez não possam mais chegar os missionários de uma certa idade, ela deve estar ao alcance das gerações mais jovens.
Não posso aqui silenciar acerca do real perigo que constitui o uso não sadio dos meios informatizados. Peço a todos vós, formadores, que vos pronuncieis com clareza a este respeito e apresenteis orientações que sejam válidas para todas as nossas casas de formação. É necessário educar corretamente ao uso destes modernos meios de comunicação, tão preciosos quando usados corretamente, mas igualmente muito perigosos, se usados de maneira imprópria, a ponto de se tornarem para alguns uma verdadeira droga.
Conclusão
Quisera, ao terminar, reler convosco o número 92 das Constituições: “A caminhada formativa realiza-se num contexto comunitário, onde se insere a mediação dos educadores. Eles têm a missão de ajudar os candidatos a conhecer, aceitar e viver a própria vocação no Instituto. Vivem constantemente com os jovens, rezam por eles e se interessam por eles como pais no Senhor, “conscientes da responsabilidade que têm perante o Instituto e perante a Igreja e Deus” (VS, 70).
Penso que concordais comigo quando afirmo que esta vossa “paternidade”, em relação aos jovens em formação, é, sem dúvida, algo de sublime, mas que, ao mesmo tempo, comporta uma grande responsabilidade. Por isso, neste momento, quisera garantir-vos toda a gratidão da Direção Geral e de todo o Instituto pelo vosso generoso serviço. Acompanhamo-vos com a oração incessante ao Espírito, a fim de que vos conceda sempre a sabedoria necessária, sem a qual o vosso trabalho resultaria impossível. A constante intercessão do Bem-aventurado Allamano, pai e mestre de missionários, vos acompanhe lá do céu!
Pe. Piero Trabucco
NOTAS
1. O volume Chiamati e Inviati recolhe as intervenções da Direção Geral que estiveram à base de dois intensos biênios de reflexão sobre consagração e missão. 2. Aconselho o documento da Congregação para a Vida Consagrada: A vida fraterna em comunidade (1994). É uma pequena obra-prima. 3. Leia-se o interessante artigo de F. Grasselli, Internazionalizzazione e inculturazione del carisma degli Istituti Missionari, in AD GENTES, 1999, 2, pp. 186-223. 4. Cf. SABINO PALUMBIERI, I Consacrati e la sfida antropologica odierna, in “Oltre la Porta”, Roma, 2002, p. 285-302.
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