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(Encontro dos Formadores IMC Roma, 3-4 de julho de 2003)
Introdução
São dois os temas indicados pelo título deste trabalho, que tratarei separadamente: a identidade cultural (primeira parte) e a interculturalidade (segunda parte). Ambos os sujeitos estão intimamente ligados à realidade e à noção de cultura, que dá unidade e sentido às diversas problemáticas presentes neles.
A questão cultural, tão viva na sociedade de hoje, é particularmente sentida tanto nos nossos centros de formação como nos centros vocacionais. Fala-se e faz-se experiência da própria cultura, das diferenças culturais, dos encontros e desencontros culturais, de uma cultura universal, do relacionamento entre cultura e fé, e também da necessidade de inculturar o nosso carisma. Tudo isto suscita novas interrogações e novos desafios na formação dos futuros Missionários da Consolata, que exigem respostas adequadas.
Não podemos esquecer que a reflexão sobre a cultura faz parte da nossa história desde o começo da fundação do nosso Instituto. O Pai Fundador intuiu isto bem cedo e, na formação dos primeiros missionários, transmitiu pessoalmente ensinamentos que ainda hoje conservam seu valor, e que, com prazer, encontramos presentes também na doutrina do Concílio. Allamano falava de respeito às pessoas e às culturas que os evangelizadores encontravam em seu apostolado, recomendando a necessidade de estudar e de usar adequadamente as línguas dos povos das terras de missão, com abertura de coração e mente. São elementos que devem ser tidos em conta ainda hoje, especialmente na formação dos nossos jovens.
É muito importante, para este nosso estudo, saber o que se entende por cultura. Para podermos compreender as outras coisas, lembremos que o conceito de cultura é central; por isso, no momento oportuno, voltaremos a falar dele. Teremos presentes, ainda que de forma breve, em razão da natureza deste estudo, os diversos processos culturais de enculturação (endoculturação) e de aculturação, para não cometermos o erro de conceber a cultura como se fosse uma realidade fixa e inamovível.
Devemos também fazer referência à modernidade e à pós-modernidade, à globalização e à locoglobalização, para nos situarmos historicamente neste mundo, que é também o nosso, e podermos responder aos desafios que ele atualmente nos lança.
PRIMEIRA PARTE: IDENTIDADE CULTURAL
I. UMA PERSONALIDADE FORTEMENTE SACUDIDA PELA HISTÓRIA E PELO HOJE
1. A realidade: os nossos jovens
Somos convidados, mais uma vez, a refletir sobre a “matéria prima” que temos diante de nós, no papel que desempenhamos como formadores dos novos missionários, ou seja, de pessoas em formação, a caminho da própria maturidade, no sentido pleno e global da palavra. O caminho em busca da maturidade passa necessariamente pela cultura. Ao indivíduo sem maturidade cultural, isto é, a uma pessoa que ainda não é competente e adulta na própria cultura, faltam os fundamentos culturais, o equilíbrio psicológico e a serenidade humana, coisas indispensáveis para ulteriores opções que deverá enfrentar durante a vida. Na maioria dos países onde trabalhamos, ainda perduram as conseqüências históricas de uma personalidade negada, porque a identidade de tantas nações e povos foi fortemente sacudida pelo desprezo e pela negação do direito que eles têm de serem eles mesmos. A ruptura da corrente de transmissão dos valores de muitas sociedades desencadeou uma crise de identidade individual e comunitária. Se durante vários séculos os anéis da corrente cultural foram despedaçados, a alma do povo, contudo, não morreu e se manteve viva, apesar do suceder-se de humilhações e vexações de todo tipo: os idiomas, as instituições, a sabedoria tradicional e os ritos conseguiram sobreviver.
As profundas mudanças das nossas sociedades foram, aos poucos, arrancando os jovens da influência dos anciãos, verdadeiros detentores e mediadores da sabedoria de um povo. Além disso, o fenômeno da urbanização, próprio do nosso tempo, provoca o esvaziamento progressivo das povoações do interior e o êxodo das energias mais vitais, dado que são os jovens que vão para a cidade. Podemos facilmente imaginar as graves conseqüências de tal fenômeno, que comprometem seriamente o desenvolvimento econômico e a estabilidade cultural dos povos, visto que o fruto mais evidente de tal situação é o de encontrarmo-nos com “jovens sem raízes e anciãos sem herdeiros”.
Nos tempos atuais, podemos facilmente encontrar-nos perante indivíduos de personalidade fortemente sacudida, que vivem uma situação de grave dicotomia (1). O Sínodo especial para a África descreve esta falta de síntese e de profunda harmonia cultural, explicando-a em termos de esquizofrenia. Verifiquemos-lhe as causas, porquanto o fenômeno não se origina de uma só causa, mas são diversos os elementos e componentes que a produzem:
• O processo de maturidade cultural (enculturação ou endoculturação) (2) não foi completado em nível individual. No mundo da própria cultura a pessoa ainda não é adulta e competente, chegando até a desprezar-lhe os elementos, os valores e as expressões, que não são vividos plenamente, assumindo outros, porque considerados melhores, apenas pelo fato de serem novos e vindos de fora.
• As situações de conflitos violentos (3), guerras ou revoluções impostas (temos diversas destas situações na geografia do IMC: Etiópia, Moçambique, Uganda, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, África do Sul, Colômbia), impedem o desenvolvimento normal do “processo enculturativo”, e não raro o cortaram pela raiz ou nas primeiras fases. As fases iniciais são as mais importantes, pois permitem que se lancem as bases da estrutura psíquica, isto é, os fundamentos dos valores de referência para o comportamento ético, moral e religioso. Dou a estes fatos os nomes de “degradação revolucionária” e “destruição violenta dos valores”.
• O processo de maturidade cultural foi superado por um processo de enculturação atípico, a saber: um processo feito sem um quadro de valores de referência, sem uma visão global do cosmos, ou com uma visão incompleta ou corrompida, que confunde e troca os valores por antivalores, a ponto de assumir uma “cultura da morte”.
• A modernidade também propõe, por sua vez, os próprios elementos culturais e se esforça para que as novas gerações os assimilem: a negação da verdade objetiva, uma própria escala de valores, a liberdade moral absoluta e o conseqüente permissivismo; a crescente secularização, o consenso como única forma de moralidade e de direito, o consumismo ilimitado, o reducionismo econômico e tecnológico, a globalização entendida apenas na dimensão econômica e comercial. É a isto que chamamos de impacto da modernidade (4).
• Não podemos, entretanto, esquecer os diversos elementos positivos da nossa sociedade e do nosso tempo: hoje o homem se vê mais livre de prejuízos ideológicos e de fechamento intelectual, que o tornam mais aberto aos valores do Reino – justiça, paz, liberdade, cooperação, solidariedade, igualdade, dignidade da pessoa humana, sede de verdade e de bem, respeito pela natureza – e ao mundo, que se reduz cada vez mais a um “povoado global”, graças também aos novos meios de comunicação social.
• Também em nível religioso pode-se dar realce a graves lacunas existentes nos diferentes processos de enculturação, sobretudo por motivo do difuso desprezo e senso de suspeita manifestado nos confrontos da experiência religiosa de base, em nível filosófico, histórico e científico.
2. Harmonização do processo
É necessário, antes de tudo, que tomemos consciência e estejamos convencidos do trabalho que tempos pela frente. É necessário que façamos um grande esforço para ajudar as pessoas que perderam a própria identidade a recuperá-la, para retomar o processo enculturativo, completá-lo, aperfeiçoá-lo e levá-lo à maturidade. Este é um trabalho de importância fundamental, se quisermos construir sobre sólido alicerce. É preciso curar as feridas do passado e preencher as lacunas, para poder completar o processo e alcançar a maturidade e o equilíbrio cultural desejados. Somente assim poderemos criar nas pessoas aquelas condições que possibilitam fazer a opção por Cristo, uma opção que seja firme, harmoniosa e equilibrada. Neste tipo de trabalho, é preciso ter presente com clareza o conceito dinâmico de cultura e dos processos relacionados a ela, à luz da antropologia cultural hodierna e do ensinamento do Caoncílio Vaticano II (Gaudium et Spes, 53-62).
3. Cultura
O termo “cultura”, na nossa sociedade, é usado com significados às vezes muito diferentes entre si. Basta abrir um jornal, ouvir uma discussão, ou visitar a internet; basta prestar atenção ao que as pessoas dizem ou escrevem, para dar-se conta desta diversidade de usos e significados do termo “cultura”. Até mesmo os especialistas nos oferecem uma infinidade de definições, demonstrando assim que ainda não se chegou a uma síntese comum. O conceito de cultura desenvolveu-se através da história, assumindo freqüentemente aspectos ou acentuações particulares ligadas a épocas diferentes. Do ponto de vista da reflexão antropológica, consideremos alguns aspectos cruciais: a) o aspecto sistemático e os seus percursos relevantes, que manifestam e atestam a estabilidade e a identidade cultural; b) o aspecto diferencial que evidencia a importância da alteridade e da diversidade entre as culturas; c) o aspecto dinâmico que sublinha os processos dos encontros interculturais, fazendo-lhes evidenciar a complementariedade, a mudança e a transformação que alimentam nas mesmas culturas.
Seja qual for a definição preferida, entre as milhares que encontramos nos dicionários e nos manuais de antropologia, consideremos a cultura como algo de central em relação ao nosso agir e ao nosso pensar. Cultura é tudo aquilo que fazemos e o motivo pelo qual o fazemos; o que desejamos e porque o desejamos; o que percebemos e como o exprimimos; o que vivemos e como enfrentamos a morte (5). É o nosso mundo, a maneira como o vemos e no qual vivemos e compreendemos a nossa rede de relações, os nossos modelos de comportamento.
A cultura faz referência aos valores e aos significados, às relações com a natureza, às relações interpessoais, sociais, e com o Transcendente, através de instituições e expressões adequadas. Estas relações são múltiplas e diversificadas, segundo a variedade das culturas e o momento histórico. Em sentido mais amplo, a cultura pode ser considerada como um conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos, que caracterizam uma sociedade (6).
4. Processos culturais
Falar de processos culturais significa pôr em evidência o aspecto dinâmico da cultura. As culturas estão em contínuo movimento, mudam e transformam-se, inclusive as que parecem firmes, fechadas ou inertes. A cultura, de fato, deve ser considerada entre dois extremos – o da estabilidade e o da mudança – e entre os dois opostos deve haver complementariedade e harmonização. Daí nasce um movimento que corresponde, de um lado, ao funcionamento, e de outro, à transformação. É preciso considerar a estabilidade e os processos que a gerenciam (aspecto sincrônico da cultura), como também os processos que a transformam (aspecto diacrônico da cultura).
5. Enculturação (endoculturação)
Ao falar de enculturação ou endoculturação referimo-nos ao processo antropológico de aquisição da própria cultura, mediante o qual os membros de uma sociedade, tomando consciência do mesmo, tornam-se também seus participantes. Trata-se de um processo de adequação das respostas individuais aos modelos culturais de determinada sociedade (7). Por meio deste processo, o indivíduo se habitua ao modelo de vida da sua sociedade, aprendendo suas formas de comportamento. Este processo é o mecanismo dominante em relação à formação da estabilidade cultural e desempenha um papel muito importante na formação da personalidade do indivíduo.
O processo de enculturação comporta estes passos: a) assimilação dos comportamentos dominantes na sociedade; b) conformação do comportamento individual aos paradigmas culturais assimilados; c) aquisição de hábitos, usos e costumes; d) interpretação dos fenômenos biológicos e psicológicos à luz dos significados transmitidos pela cultura.
Tal processo é individual e dura por toda a vida. Na infância, é muito acentuado e notavelmente receptivo, visto que tende a aceitar facilmente todas as mensagens culturais. Na idade adulta, perde de intensidade à medida que cresce a consciência e a capacidade crítica do indivíduo, ainda que este dificilmente se disponha a uma reformulação cultural.
Os processos da aculturação e da inculturação em nível comunitário serão analisados mais adiante, na segunda parte deste estudo.
6. Inculturação individual
A inculturação é um processo teológico e pastoral referente ao encontro e interação entre fé e cultura. Por enquanto referimo-nos apenas ao nível individual do processo, deixando para outro momento o nível comunitário e a problemática geral referente ao tema. Neste sentido, pode-se dizer que cada indivíduo atua a inculturação a partir da própria cultura, e ninguém pode levá-la adiante em lugar do outro. Os jovens formandos são chamados a fazer a sua opção fundamental por Cristo: uma decisão basilar e radical na vida de um cristão, que se realiza no nível mais profundo da personalidade do indivíduo. Isto nos ajuda a compreender onde devemos situar o que chamamos de “inculturação pessoal” – síntese entre o chamado pessoal de Cristo e a própria cultura – que os nossos jovens são chamados a realizar. A inculturação começa, em primeiro lugar, na consciência do indivíduo. É a este nível que a pessoa responde ao chamado de Cristo, onde cada um efetua o encontro entre a fé que lhe é proposta e os valores que o identificam culturalmente. Em tal nível, a pessoa envolvida no processo pode saber por experiência se há condições de concretizar aquela síntese harmoniosa e equilibrada entre a própria cultura e a fé, superando, se for o caso, as contradições e antagonismos que, à primeira vista, podem existir entre Evangelho e cultura na mente do formando ou na dos formadores.
7. Experiência de adulto
Este progressivo encontro entre fé e cultura, que os jovens são chamados a realizar, deve ser acompanhado por “alguém que tem experiência (adulto) na própria cultura”, e que vive a experiência religiosa, como a componente cultural que une todas as outras. Não se pode partir da estaca zero com indivíduos que ainda não atingiram a maturidade, o equilíbrio e a harmonia cultural, e muito menos ainda com os que negam absolutamente ou rejeitam a própria cultura. Em grau maior ou menor de intensidade, cada um experimentou a existência de Deus, do mistério e do mundo espiritual no ambiente onde nasceu e cresceu. Da etapa inicial e fundamental da experiência cultural do absoluto, passa-se à da experiência cristã, que sem menosprezar os valores da tradição cultural, e à luz da fé em Cristo, os purificará e os desenvolverá até à sua plenitude. A cultura inclui uma estrutura religiosa de base, um modo de sentir e de se abrir ao absoluto como Ser Supremo; um modo de relacionar-se e dirigir-se a Deus, entendido como fonte e meta de todo o ciclo vital. A cultura propõe também determinadas exigências éticas, quais pontos referenciais para o comportamento, como: o senso do bem e do mal, da justiça, do respeito pelos bens e pela vida alheia, do sacrifício, do perdão, da ajuda aos pobres, do respeito à intimidade, à amizade... São regras de vida que nascem da relação com o Transcendente e com o mundo espiritual. Há valores especificamente religiosos que são expressos na concepção do cosmo e da criação, na veneração dos seres espirituais e de Deus, na oração e nos ritos. É em tal contexto e na vivência dos valores que acabamos de lembrar – portanto num contexto cultural experimentado – que se deve realizar o encontro com Jesus, o Mestre que chama a trabalhar na sua vinha.
8. Linha vital
O processo de inculturação pessoal deve basear-se na experiência religiosa do indivíduo e na tomada de consciência dos próprios valores religiosos, conhecidos e sentidos em profundidade. A este nível de consciência ninguém pode chegar, a não ser o próprio indivíduo. Este amadurecimento pode ser alcançado somente pela pessoa que descobre o papel e a mensagem de Deus em sua própria vida, nos momentos cruciais da existência, no sofrimento, no amor, na doação de si mesmo. O indivíduo deve perguntar a si mesmo: – Deus é vida para mim, ou apenas uma tradição a ser esquecida? – O mundo espiritual e religioso com seus símbolos, ritos e cerimônias deve ser rejeitado como coisa superada pela sociedade moderna? – Deus é apenas um mito?
9. Expressão da experiência
Como acontece com qualquer outra, também a experiência religiosa deve ser partilhada com os membros da comunidade a que se pertence. Nos nossos ambientes formativos trata-se de descrever as várias expressões religiosas ligadas às culturas de origem, expressando por palavras e manifestando o que acontece interiormente. Como é vivida esta realidade em nossos seminários? Que incidência comunitária exerce a experiência religiosa do outro? Também neste aspecto a cultura e seus elementos têm uma importância especial. A pessoa que faz a experiência de Deus e da vida interior, sente a necessidade de transmitir aos outros a experiência vivida; mas, para que isto aconteça, deve recorrer a uma linguagem comum, melhor conhecida. Entramos assim no mundo dos símbolos e dos ritos, uma realidade que, com facilidade, ignoramos ou minimizamos. Há, de fato, um código de interpretação que muda de um grupo a outro, ao qual devemos prestar muita atenção, para podermos entender de maneira certa as pessoas que o utilizam para descrever a própria vivência no campo religioso. Devemos ter consciência e sensibilidade perante a experiência que cada indivíduo tem da multiforme ação de Deus e de suas expressões, para poder inserir nelas a de Cristo. Somos chamados a fazer uma partilha da experiência religiosa de todos os membros das nossas comunidades formativas, para conhecê-los e compreendê-los melhor, promovendo um verdadeiro e recíproco enriquecimento, uma comunhão profunda entre as pessoas.
10. Atitudes
Perante a experiência religiosa dos nossos jovens, podemos encontrar uma variedade de comportamentos, que depende não só das diferentes origens culturais, mas também das culturas que encontraram em sua ainda breve mas intensa experiência, das mensagens que recebem nas sedes acadêmicas que freqüentam, da vida espiritual que cada um conduz. Para não me delongar demais na análise de todos estes comportamentos, limito-me a indicar três, sob o ponto de vista cultural. Antes de tudo, o modelo etnocentrista. É o mais negativo, porque encerra complexos de superioridade, que se manifestam com expressões como esta: “Só a minha cultura!” (inclusive nos confrontos do próprio Evangelho), e com atitudes de desprezo ou de total ignorância em relação aos outros. Temos depois o modelo da adaptação. É menos negativo que o precedente, porque procura acomodar-se, sem ofender, sem separar-se do outro ou rejeitá-lo; é um modelo limitado, porque incapaz de desenvolver nos indivíduos uma síntese entre os diferentes valores presentes no contexto comunitário. Em terceiro lugar, o modelo da encarnação. É o mais positivo, porque aberto e disponível a reconhecer e a receber os valores e o bem do outro; demonstra capacidade de assimilação e de ulteriores sínteses, levando as pessoas a um novo modo de pensar e de agir.
11. Linhas coordenadas de ação (8)
Para entender adequadamente a realidade sociocultural e histórica dos nossos jovens e encontrar um caminho formativo libertador, profundo e realístico, é preciso necessariamente partir da cultura e dos processos anteriormente mencionados: enculturação, inculturação e aculturação (hoje: pluriculturalidade).
12. Encontro vertical: Palavra-Cultura
Fundamentos culturais próprios – Os processos devem estar radicados no patrimônio cultural do indivíduo, onde nasce a cultura mais autêntica que não se limita a repetir o passado, mas que se projeta para o futuro, com a capacidade de renovar-se e de equipar-se de maneira apropriada, para viver a modernidade. Neste sentido, João Paulo II afirma: “A encarnação humana do Filho de Deus é também uma encarnação cultural” (Discurso na Universidade de Coimbra, 1988).
Adesão a Cristo – A fé em Cristo deve ser entendida no seu significado mais genuíno: acolher a Palavra de Deus e aderir a Cristo, testemunhando-o. Este processo é impossível sem a cultura. Se é verdade que a Palavra de Deus não se identifica com uma cultura, é também verdade que ela, como a fé, não se apresenta num hipotético estado puro. Sempre se serviu de mediações culturais, determinadas pelo espaço e pelo tempo. Jesus – o homem universal – nasceu numa determinada área cultural, foi autêntico hebreu, falou a língua do seu povo, seguiu suas tradições e usou suas expressões, mas nem por isso as suas atitudes, a sua mensagem e os valores que proclamou ficaram fechados na cultura hebraica.
Encontro horizontal - A negação e a exclusão são efeitos perniciosos que podem facilmente aparecer nos processos culturais. Em seu amadurecimento humano, religioso, cristão e missionário, o indivíduo não pode prescindir totalmente da cultura. A negação da cultura cria pessoas sem raízes e sem personalidade e, ao mesmo tempo, é um sério impedimento ao genuíno processo de inculturação, porque nega uma das bases à qual o indivíduo não pode renunciar.
Encontro receptivo – Os processos devem ser acolhedores, de acordo com a dinâmica do dar e do receber, da abertura, do respeito e da renovação. A cultura, de fato, é seletiva e reformula-se continuamente.
SEGUNDA PARTE: INTERCULTURALIDADE
Introdução
1. Educação para a interculturalidade: atualidade do tema
Nos nossos centros formativos torna-se sempre mais presente e urgente o tema de interculturalidade, por razões diversas: • As nossas comunidades formativas, como também as apostólicas, já são internacionais e pluriculturais; • cresceu o número de países em que desenvolvemos o nosso trabalho missionário e, conseqüentemente, também as diversidades culturais; basta pensar nas recentes aberturas: Coréia do Sul, Mongólia e Gibuti; • a sociedade atual, no contexto da globalização, é caracterizada pela interculturalidade; o encontro entre culturas diferentes é uma das suas componentes dominantes; • o mundo globalizado de hoje, muitas vezes atormentado por divisões, sectarismos e fundamentalismos, pode encontrar a novidade do Reino de Deus exatamente no testemunho de uma comunhão que sabe harmonizar as diversidades. Esta deveria ser uma exigência insubstituível da nossa vocação missionária (9).
2. Um tema presente na fundação do Instituto
Um tema intimamente ligado ao nosso carisma
A intuição do Fundador – A internacionalidade e o processo paralelo da aculturação são temas presentes na mente e nos ensinamentos práticos que Allamano, desde o começo, dava aos seus missionários. Embora nascido como Instituto regional e somente mais tarde tenha-se tornado nacional, o IMC teve que enfrentar cedo a problemática do encontro com pessoas de outras culturas. Não me refiro à cultura dos primeiros membros da nossa comunidade, que era logicamente homogênea, mas especialmente às culturas com as quais os primeiros missionários da Consolata se encontraram em suas experiências apostólicas iniciais. Esta foi uma intuição clara do Pai Fundador, que convidava com insistência os seus discípulos a tratarem com respeito as pessoas e as culturas que aos poucos fossem encontrando, oferecendo-lhes inclusive orientações concretas acerca do estudo e do uso das línguas locais, como necessidades específicas da vocação missionária. Sem dúvida, Allamano teve uma intuição profética quando dizia aos missionários: “Seria desejável, a partir de agora, que pudésseis aprender o Kikuyu” (10). Um homem que nunca saíra da Itália, assim falava aos seus missionários, no começo do século passado! Estamos em 1907, à distância de apenas seis anos da fundação do Instituto. Um ensinamento tão claro e semelhante o encontraremos na doutrina do Concílio, quando o Vaticano II se exprime sobre a formação dos missionários: “... Qualquer pessoa que se disponha a partir para outro povo, deve ter em grande estima o patrimônio das línguas e dos costumes...” (AG 26).
A nossa tradição – O estudo das culturas e o uso das línguas dos povos entre os quais trabalhamos, devem continuar a formar parte da nossa tradição mais genuína e permanente. Os nossos primeiros missionários estudaram as culturas e usaram a língua local nos contatos com o povo, na liturgia e na catequese. Não só, mas recolheram também farto e precioso material etnográfico e redigiram as primeiras gramáticas e os dicionários de diversas línguas africanas, por exemplo, os da língua Kikuyu, emakakhuwa, xitshwa... A este propósito, lembro uma breve mas significativa anedota: durante uma celebração na catedral de Maputo, o Vigário Geral – Monsenhor Mabuiangue – dirigindo-se à comunidade cristã, fez a nossa apresentação com as seguintes palavras: “Estes são os Missionários da Consolata, os missionários que falam a nossa língua”. Hoje, uma semelhante e constante tradição é chamada a dilatar o próprio horizonte rumo aos grandes desafios apresentados pela inculturação da fé e do carisma.
Do coração da missão – O IMC, ao abrir as portas a novos membros não italianos – europeus, americanos, africanos e asiáticos – torna-se sempre mais internacional em sua composição. Trata-se de um processo que continua aos nossos dias, um caminho que nasceu do coração da missão, que se transformou em realidade muito concreta: a internacionalidade e a multiculturalidade formam agora parte da identidade da nossa família missionária. O Instituto não voltará nunca mais a ser monocultural, mas é chamado a viver e a testemunhar uma comunhão que harmoniza a diversidade.
3. A integração das diferentes culturas
Chegaram os tempos de nossa família missionária continuar a crescer segundo a linha da nossa tradição e à luz das novas realidades.
O processo de aculturação – O encontro e a convivência no seio do Instituto de pessoas oriundas de culturas diferentes podem enriquecer-nos mutuamente, como indivíduos, como grupo humano e como comunidade religiosa, à medida que se atua e se conduz a termo o processo de aculturação. No nosso caso, que entendemos por aculturação? Como se desenvolve? A propósito, vejamos o que nos diz a antropologia cultural.
Antes de tudo, de que se trata? Referimo-nos aqui ao processo antropológico dos intercâmbios culturais, isto é, da transmissão e interação cultural existente entre grupos ou indivíduos que, agindo entre si, dão origem a novos fenômenos e mudanças nos respectivos modelos culturais originários de referência (11).
Como se desenvolve este processo? Em cada contato cultural, os grupos e as pessoas se revezam e assumem mutuamente marcas e traços do outro. Isto significa que os indivíduos e os grupos aos quais pertencem não são totalmente passivos. Nos processos de que estamos falando há sempre influências recíprocas, também no caso de culturas dominantes. A história é rica de situações em que grupos pequenos influenciaram grupos maiores; e também de épocas em que impérios mais poderosos não conseguiram impor a sua cultura às minorias.
Convém lembrar aqui o que acontece dentro do processo. O conceito que nos pode ajudar a entender melhor a evolução da aculturação é o da seletividade, que implica fundamentalmente uma reformulação da cultura ou das culturas chamadas em causa. Acontece que alguns valores próprios são postos de lado ou até abandonados, ao passo que outros, provenientes da cultura com que se entra em contato, são integrados como valores novos na vida das pessoas. Outros valores, ao invés, permanecem invariáveis e são mantidos como componentes do núcleo permanente da cultura originária. Esta operação tem como resultado uma nova síntese cultural, que se concretiza na formação de um modelo de vida diferente do precedente e de um comportamento cultural novo (12).
Para que tal processo tenha êxito positivo, é preciso deixar-se conduzir pelos princípios antropológicos que ajudam a superar o etnocentrismo, os complexos de inferioridade e de superioridade entre grupos ou culturas, o relativismo absoluto, como também todo reducionismo. Ao mesmo tempo, é mister que haja atitudes de tolerância e de acolhida crítica perante tudo aquilo que é culturalmente diferentes e novo, afastando toda concepção negativa de cultura.
Na qualidade de Missionários da Consolata, devemos integrar e harmonizar as nossas diferenças culturais. A humanidade, tão freqüentemente marcada por divisões, sectarismos e intolerâncias, necessita do nosso testemunho de comunhão. É uma exigência que não pode faltar num instituto missionário. Devemos ser escola de estilos de abertura ao outro, culturalmente, fazendo nossas as atitudes e gestos de estima, de atenção, de acolhida, de respeito, de valorização e integração.
4. O processo de inculturação do carisma
Neste contexto, o carisma do Instituto deve ser lido novamente através do processo de inculturação, no confronto com as culturas diferentes, numa relação dinâmica e crítica, e encarnar-se na realidade pluricultural de seus membros. Este processo, que o Sínodo Especial para a África considera como “uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares” (13), o é também para um instituto missionário, caso se queira fazer um caminho em favor de uma evangelização válida: como é indispensável à evangelização o é também para o Instituto. Vejamos, antes de tudo, do que se trata, e quais são os princípios que a regem, para depois aplicá-los ao tema da inculturação do nosso carisma.
A inculturação não é uma simples adaptação exterior da mensagem evangélica, visto que pressupõe a transformação íntima dos valores culturais mais autênticos, mediante a sua integração no cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas culturas (14). É um processo teológico-cultural de encontro entre fé e cultura, que Pe. Pedro Arrupe define assim: “A inculturação é a encarnação da vida e da mensagem cristã numa área cultural concreta, de tal modo que esta vida e esta mensagem não só consigam expressar-se com elementos próprios da cultura em questão, mas se tornem para ela o princípio inspirador, normativo e unificador, que a transforma e a recria, dando origem a uma nova criação” (15).
Dois são os elementos fundamentais do processo de inculturação: A fé – no nosso caso falamos de carisma: um núcleo que foi interpretado historicamente, que se apresenta radicado numa determinada cultura e que se desenvolveu paralelamente com o crescimento do Instituto; de uma intuição pessoal e individual, o carisma tornou-se patrimônio partilhado e comunitário, que deve atingir e iluminar todos os aspectos da vida de cada indivíduo e de toda a comunidade: pensamento, comportamento, expressões e instituições. A cultura: em sentido dinâmico e histórico (sincrônico e diacrônico), em termos de estabilidade, identidade e funcionamento, mas também de mudança e de transformação. A este ponto, é preciso lembrar que o nosso Instituto não será nunca mais monocultural, em razão das diferenças culturais de seus membros. Lembremos a reflexão acerca do conceito de cultura, que fizemos na primeira parte deste estudo.
A Exortação pós-sinodal Ecclesia in Africa indica os quatro fundamentos teológicos do processo da inculturação:
1) O mistério da encarnação do Verbo, o Deus que se fez verdadeiramente homem; tudo é assumido, tudo é redimido: do mesmo modo deve o Evangelho inserir-se nas culturas. 2) O mistério da Cruz, que nos aponta o caminho a seguir, a kênosis, o aniquilamento de si, porque sem paixão não há salvação: é à luz da Cruz que se deve fazer o discernimento, para distinguir os valores dos antivalores. 3) O mistério da Páscoa do Senhor, que mostra a função transformadora do Evangelho numa determinada cultura; as culturas, encontrando-se com Cristo, não podem permanecer como antes, mas renovam-se e renascem. 4) O mistério do Pentecostes, que nos apresenta o resultado e o fruto de todo o processo, ou seja, a comunhão universal no respeito às diferenças (16).
A inculturação do carisma é a conseqüência lógica e urgente da que foi realizada pela fé: a inspiração fundacional do Allamano deve ser continuamente relida e relembrada, para que possamos interpretar o nosso carisma de modo significativo nos novos contextos socioculturais do Instituto, da Igreja e da sociedade (17).
O momento histórico que estamos vivendo como Instituto é o da criatividade e da experiência, porque a inculturação do carisma é uma questão aberta, que não oferece soluções únicas ou receitas preestabelecidas e seguras. Por certo, é também questão de tempo. A antropologia nos ensina que o fator tempo é um componente essencial das mudanças culturais; por isso, no nosso caso, exige-se paciência histórica. É preciso saber esperar ativamente e começar a caminhada da inculturação do nosso carisma, cientes de que o Espírito Santo está junto de nós e nos guia ao longo de todo o processo. Para poder começar este novo trecho de estrada somos chamados, de acordo com a lógica do Evangelho, a abandonar o que é velho, o que é superado; enfim, tudo o que impede a caminhada. Para nós é tempo de kênosis, tempo em que devemos libertar-nos daquelas incrustações que podem ter deformado, ainda que parcialmente, o carisma da fundação.
A reflexão pessoal e comunitária que devemos realizar sistematicamente, além de exigir de nós um profundo conhecimento do Fundador, da nossa história e tradição, comporta também o estudo e aquisição de dados sobre as culturas dos membros do Instituto, sobre os países onde desenvolvemos o nosso trabalho, sobre os sinais dos tempos presentes na sociedade hodierna e na vida da Igreja. Perante todas estas informações, seremos levados a fazer-nos algumas perguntas concretas: - Como construir a unidade na diversidade das nossas comunidades espalhadas nos quatro continentes? – Como viver e partilhar o mesmo carisma da fundação entre missionários de origens tão diferentes, que trabalham em situações eclesiais e sociais com características próprias e diversificadas? Com as nossas respostas, abriremos novos caminhos para o Instituto.
5. Em busca de uma sensibilidade intercultural
Para educar-nos à sensibilidade intercultural, é preciso que tomemos consciência da relatividade cultural. O relativismo cultural surgiu no começo, como reação à absolutização etnocêntrica (relativismo absoluto) de uma determinada cultura, para depois chegar a uma tão forte reivindicação das diferenças culturais, a ponto de negar até a existência, em nível cultural, de elementos comuns e universais. Somente num terceiro momento a reflexão regulamentou e formulou uma relatividade mais equilibrada (relativismo relativo), que conjuga juntamente os aspectos culturais universais com os aspectos específicos e particulares. Este tipo de relatividade cultural, que respeita a integridade das diferenças culturais, é fundamental para uma comunidade pluricultural como a nossa. Em resumo, acontece isto: de um lado afirma-se o reconhecimento da diversidade de culturas e de valores, mantendo a abertura às outras culturas, como componente estrutural e como fator dinâmico; por outro lado, nega-se a superioridade de qualquer cultura sobre as outras e a incomunicabilidade entre as culturas.
Ter uma sensibilidade intercultural significa reconhecer e acolher as nossas diferenças como riquezas, tomar consciência dos próprios valores culturais e apreciar os dos outros, cientes de que as diferenças não são coisas absolutas. Assim sendo, em cada um de nós surgem algumas interrogações: - Como vivo tais diferenças? – Como educamos e formamos à sensibilidade intercultural? – Como nos confrontamos com aquilo que, culturalmente, nos é diferente e está longe de nós?
Percorramos algumas etapas que nos podem guiar na nossa reflexão. Comecemos com as mais negativas (etnocêntricas: recusa, defesa, minimização), para depois passar às positivas (etnorelativas: aceitação, adaptação, integração) (18).
6. Fases etnocêntricas
Fase de recusa – É a fase mais negativa que podemos experimentar perante a cultura do outro. Nesta situação, não há possibilidade de pensar nem de compreender as diferenças culturais, nem de manter relações positivas com o outro. As atitudes que caracterizam este estádio de recusa cultural são: o isolamento do grupo, o fechamento intelectual, a construção de barreiras e mecanismos de defesa que produzem a separação e acentuam as distâncias. No esforço para superar esta fase, é preciso estabelecer com clareza a finalidade, que neste caso será a de chegar ao reconhecimento das diferenças culturais presentes na comunidade em que estamos inseridos. Em nível conceitual, devemos abrir a mente para mudar a visão negativa que nos impede de olhar positivamente para o outro, enquanto portador de valores e pessoa com a qual é possível construir relações interculturais. O objetivo do nosso trabalho pedagógico consistirá em recolher abundante informação sobre a nossa e sobre as culturas das pessoas com as quais convivemos, abrindo espaço a atitudes de confiança, disponibilidade e cooperação.
Fase de defesa – Estamos em nível superior, em relação ao da recusa, mas ainda assim se trata de uma atitude claramente negativa. Como estádio etnocêntrico, a defesa consiste em considerar a própria cultura superior a todas as outras, que devemos defendê-la de potenciais inimigos. A defesa cultural é caracterizada pelos complexos de superioridade e de inferioridade, pelos prejuízos que levam a uma avaliação negativa das outras culturas. As nossas iniciativas pedagógicas farão o esforço de superar esta fase, enfatizando os valores universais, a igualdade e as semelhanças culturais. Este esforço formativo nos desafia a viver e a fazer a experiência da diversidade cultural, a refletir sobre os contextos históricos e sociais das outras pessoas que vivem conosco, a descobrir as necessidades e metas comuns, não obstante a diferente origem cultural. Todos, efetivamente, compartilhamos das mesmas necessidades fundamentais como indivíduos e como membros da comunidade religiosa e da sociedade civil. Do ponto de vista pedagógico, propor-nos-emos como objetivo: o autocontrole emotivo, a educação à tolerância, ao respeito dos ritmos culturais diferentes dos nossos.
Minimização – Temos, depois, a forte tendência a simplificar as diferenças culturais e até mesmo a negá-las, afirmando simplesmente: Somos todos iguais! Esta tendência a minimizar a diferença é caracterizada por uma visão superficial dos traços culturais, especialmente porque não são aprofundados e não são considerados em sua raiz. Não podemos negar que, biologicamente, somos todos iguais, que todos temos uma cultura de referência e que, do ponto de vista dos valores, não existe uma cultura superior à outra. De fato, não há culturas superiores e culturas inferiores, embora haja culturas tecnicamente mais desenvolvidas. Mas, não obstante isso, não podemos negar as diferenças culturais, ou seja, as respostas que cada povo adotou perante as necessidades fundamentais das pessoas. A diversidade é um fato e, ao mesmo tempo, uma riqueza para a humanidade. A finalidade do nosso esforço educativo consistirá em desenvolver elementos de autoconsciência cultural, para que o indivíduo reconheça, aceite e integre harmoniosamente a própria cultura e, ao mesmo tempo, saiba comportar-se criticamente com a cultura dominante. Do ponto de vista pedagógico, nos empenharemos a cultivar a abertura da mente e da vontade, a fazer o esforço para estudar e refletir sobre a própria cultura, para escutar e apreciar a presença do outro, num relacionamento livre de preconceitos e sem juízos de valor.
7. Fases atnorelativas (19)
Aceitação – A aceitação das diferenças culturais é a primeira das três fases etnorelativas. Tem por base o relativismo relativo: nenhuma cultura é considerada superior à outra e, ao mesmo tempo, afirma-se a intercomunicabilidade e a complementariedade entre as culturas. Esta etapa implica um respeito tal pelas diferenças, a ponto de suscitar um comportamento conseqüente, no contexto sociocultural concreto, e a consciência das próprias referências éticas e de sua aceitação.
Nesta fase devemos analisar os contrastes culturais presentes no grupo, refletindo sobre a identidade dos mesmos, as causas e as incidências, e programar soluções. É importante usar as categorias culturais próprias e específicas, procurando motivações que favoreçam o confronto no interior do grupo. Poderemos servir-nos, neste caso, dos meios da reflexão, do diálogo pessoal e do trabalho de grupo. Nesta fase propomo-nos o objetivo de chegar a um conhecimento mais específico das culturas dos membros da comunidade, respeitando os valores e as crenças que elas contêm, tolerando as possíveis ambigüidades.
Adaptação – A fase da adaptação indica que se adquiriu a capacidade de fazer conviver, no interior do grupo, diversos contextos de referência. É preciso desenvolver atitudes de adaptação e de comunicação intercultural; é preciso ajudar a compreender, a sentir e a partilhar os pensamentos e as emoções dos outros, aceitando a coexistência de múltiplas tendências e ideais culturais no interior da comunidade. Será nossa tarefa desenvolver termos fundamentais de comportamento e de orientação, para poder fazer escolhas. Será preciso também desenvolver a identidade cultural dos membros da comunidade, tornando-os conscientes dos próprios modelos e sensibilidades culturais, para que se predisponham a partilhar experiências vivenciadas. O objetivo que nos propomos é o de enfrentar riscos, procurar soluções e administrar as dinâmicas das relações interpessoais no seio da comunidade.
Integração – A fase da integração é a última do percurso iniciado. Situa-se no vértice da pirâmide dos vários estádios culturais apresentados até aqui. Consiste na interiorização regular e progressiva dos diversos contextos de idéias e significados, na consciência de que a própria pessoa é um processo dinâmico (um ser em formação permanente); e que, ao mesmo tempo, a própria identidade pode ser considerada à margem, em ralação a outras culturas. As atitudes que distinguem esta fase são a capacidade de passar através de diversas percepções do mundo e de colocá-las em comunicação entre si.
Será tarefa nossa evidenciar as características da identidade multicultural para o enriquecimento recíproco dos membros da comunidade. Faremos o esforço de adquirir modelos de mediação cultural, como: a compreensão das modalidades pluriculturais que se referem à pessoa e à sociedade, a compreensão de modelos de desenvolvimento ético.
O objetivo a ser alcançado nesta etapa será o de procurar a flexibilidade dos papéis de cada indivíduo e da própria identidade, recorrendo inclusive à renúncia de si mesmo, do próprio modo de pensar e da própria condição, para que cada um se demonstre particularmente receptivo em relação às diferenças culturais do outro.
8. Desafio e urgência
Nenhuma pertença cultural prevalece de forma absoluta. Se há uma certa qual hierarquia entre os elementos que constituem a identidade de cada um, tal hierarquia não é imutável, com o passar do tempo muda e modifica profundamente os comportamentos (Amin Maalnouf, 1999).
A integração que devemos buscar como meta de todos os processos, não tem a finalidade de salvaguardar algo de obsoleto ou caduco, mas visa enriquecer-se com a diversidade dos valores e com o dinamismo crítico do Evangelho, para criar o novo, o homem novo.
Conclusão
Chegamos ao fim da nossa reflexão. Quis oferecer-vos pistas abertas de reflexão perante o caminho tão entusiasmante das problemáticas culturais. A cultura nos interessa enquanto referência à nossa identidade, como indivíduos e membros de determinada sociedade. Interessa-nos a cultura enquanto pessoas chamadas a viver em comunidades pluriculturais, cultivando atitudes de tolerância e de acolhida. Interessa-nos a cultura enquanto nós mesmos devemos fazer uma síntese pessoal entre fé e cultura. Interessa-nos a cultura porque somos evangelizadores, chamados a descobrir as sementes do Verbo presentes nas culturas de todos os povos.
Procurei apresentar em primeiro lugar a problemática da identidade cultural e dos processos que lhe são próprios, que interessam diretamente o mundo da formação, porquanto sem maturidade cultural não há possibilidade de chegar à maturidade integral do indivíduo, para que possa depois fazer uma opção vocacional profunda e harmoniosa. Na segunda parte, tentei refletir sobre o tema da multiculturalidade e dos processos conexos a ela: todos somos envolvidos, enquanto membros de uma sociedade globalizada e de um instituto missionário que já se tornou multicultural em sua composição interna e nos contextos socioculturais onde evangeliza. Procurei, inclusive, ainda que de forma breve, apontar pistas que nos ajudem a começar uma caminhada de inculturação permanente do carisma fundacional. O carisma deve ser continuamente inculturado, para que possa tornar-se atual e operante com a vitalidade sempre nova do Evangelho.
Pe. Francisco Lerma Martínez
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NOTAS
1. L. BOKA DI MAPASI, Verso una cattolicità arcobaleno, PUG, Roma, 1988, vol. I, PP. 5-6. 2. F. LERMA MARTINEZ, Antropologia Cultural, Seminário Santo Agostinho, Matola, 2003, p. 51. 3. L. A. CASTRO QUIROGA, “Vivere la missione in mezzo alla guerra: sfide pastorali e spirituali”, in Documentazione IMC, n. 61, gennaio-giugno 2003, pp. 17-18. 4 M. UREÑA PASTOR, “Ante los nuevos signos de los tiempos”, in Plan Pastoral 2002- 2005, Diócesis de Cartagena (Murcia), 2002, pp. 15-16. 5. Cf. M. P. GALLAGHER, Fede e cultura: un rapporto cruciale e conflittuale, San Paolo, Cinisello Balsamo, 1999. 6. UNESCO, México, 1983. 7. B. BERNARDI, Uomo, Cultura, Società, Franco Angeli, Milano, 1984 (8a. ed.), pp. 86-115; cf. M. J. HERSKOVIST, Antropologia Cultural, Mestre Jou, São Paulo, 1963, Tomo I, p. 58, orig. ingl., Man anda his Works, Alfred A. Knopf, New York, 1984. 8. L. BOKA DI MAPASI, op. cit., pp. 12-15. 9. ANNA MARIA OPPO, “Educazione all’interculturalità: spunti pedagogici”, Roma, datt., inedito, s. d., p. 1. 10. I. TUBALDO (a cura di) Le “conferenze spirituali del Servo di Dio Giuseppe Allamano”, EMC, Torino, 1981, vol. I, p. 170. 11. CONSIGLIO DI SCIENZA SOCIALE (USA, 1935), in M. HERSKOVITS, op. cit., p. 341. 12. F. LERMA MARTINEZ, op. cit., pp. 42-43. 13. GIOVANNI PAOLO II, Ecclesia in Africa, n. 59, LEV, Città del Vaticano, 1995, p. 58. 14. GIOVANNI PAOLO II, Redemptoris missio, n. 52, LEV, Città del Vaticano, 1991, pp. 61-62. 15. P. ARRUPE, Lettera sull’inculturazione (14/05/1978), in AA. VV. Inculturazione, Centrum Ignatianum Spiritualitatis, Roma, 1983, p. 145. 16. GIOVANNI PAOLO II, Ecclesia in Africa, nn. 60-61. 17. MARCOS DE LIMA, Inculturação do carisma, Ed. Loyola, CRB, São Paulo, 2001, (2a. ed.), p. 42. 18. ANKE MILTENBURG – ALESSIO SURIAN, Apprendimento e competenze interculturali, EMI, Bologna, 2002, pp. 15-18. 19. ANKE MILTENBURG – ALESSIO SURIAN, Apprendimento e competenze interculturali, op. cit., pp. 18-22.
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