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Missão e Comunidade PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Antonio Bellagamba, imc   
03 de April de 2006

INTRODUÇÃO

O tema que tenciono tratar sempre suscitou fortes discussões e debates entre os missionários, durante os quais não faltaram troca de opiniões, inclusive bem acesas. As perguntas que os missionários sempre se fazem a este respeito parecem ser estas: as duas realidades – Missão e Comunidade – são compatíveis? Ou uma elimina a outra? Há lugar para a Comunidade na Missão, ou para a Missão na Comunidade? O que é mais importante: a Missão ou a Comunidade? Em caso de conflito, qual das duas deveria ceder o lugar à outra?

Antes do Concílio Vaticano II a tendência normal parecia ser a que dava prioridade à Comunidade sobre a Missão. O Fundador dos Missionários da Consolata, em 1903, escrevia aos primeiros missionários que cada comunidade devia contar pelo menos com três membros. Caso esta norma não pudesse ser cumprida, era preferível fechar alguma missão a mais(1). Palavras fortes, sem dúvida. Mas foram elas observadas, mesmo quando o Fundador ainda vivia? Os próprios Atos do último Capítulo Geral dos Missionários, de fato, comentam: Esta norma, desde o começo, teve muitas exceções e ainda hoje é considerada utópica e impossível de ser realizada (2). Efetivamente, a maior parte das missões dirigidas por Institutos Missionários têm comunidades formadas por dois missionários, não sendo raro o caso de encontrar também missionários que trabalham sozinhos.

Os Missionários Xaverianos também incorporaram em sua “Ratio Formationis” este princípio de comunidades formadas por três pessoas, mas dizem que encontram muitas dificuldades para pô-lo em prática (3).

Passados vinte anos da celebração do Concílio, a tendência dominante foi a de dar prioridade à Missão sobre a Comunidade. Insistia-se sobre a Missão e não se dava muita importância à consistência numérica das comunidades, ou aos encontros para melhorar a vida comunitária, ou ainda ao planejamento comunitário das atividades. À medida que os missionários se empenhassem em sua missão e produzissem frutos em termos de conversão, de desenvolvimento, de defesa dos direitos humanos e da justiça social, seriam estimados pelos outros, pelos seus próprios Institutos e pela Igreja. Pensava-se, ou pelo menos esperava-se que, enquanto a missão tivesse prosperado, também a comunidade teria seguido o mesmo caminho, antes ou depois. Os próprios frutos da missão teriam enriquecido a vida comunitária, tornando-a mais eficaz e mais santa. Insistir demais sobre a vida comunitária teria parecido puro narcisismo, quase uma traição do mandato missionário, que nos manda partir, pregar, batizar, perdoar os pecados, anunciar e construir o Reino. No documento de síntese da União dos Superiores Gerais em preparação ao Sínodo sobre a vida consagrada, há um veemente apelo contra o “protagonismo ativo dos religiosos” (4). Os Atos do último Capítulo Geral dos Missionários Combonianos também convidam todos os membros a se renovarem contra “o perigo de se deixar envolver pelo ativismo crescente e por uma mentalidade eficientista” (5).

Na altura dos anos ’80 começou a mudar alguma coisa. Uma mudança ditada pela experiência dos próprios missionários, mais que pelas reflexões teológicas. Os missionários se deram conta de que alguns dentre eles acabaram por perder a fé e o senso do divino, chegando mesmo a abandonar sua vocação religiosa e sacerdotal; outros encontraram-se “queimados”, exaustos, sem força interior, a tal ponto de se sentirem – como um deles me disse – como “sacos vazios”, à mercê do vento. A vida missionária tornara-se tão complexa e difícil, tão exigente sob o ponto de vista psicológico, cultural e religioso, que fez sentir novamente, e com grande força, a exigência de uma vida comunitária significativa, que estabelecesse melhor equilíbrio e uma missão mais sadia (6). A Ratio Missionária Xaveriana trata com muita clareza desta harmonização entre as duas componentes essenciais do carisma missionário-religioso: Entre comunidade e apostolado deve haver interação e equilíbrio, sabendo que a comunidade é depositária da missão, fiadora da sua averiguação, da sua continuidade e das suas realizações. Por outro lado, a comunidade deve ser autenticamente apostólica e regular-se de acordo com as exigências do apostolado. O discernimento comunitário (comunidade local, regional e eclesial) e a comunicação frequente são instrumentos de que dispomos para transformar as diversidades em riqueza para a missão (7).

Assim, os próprios missionários descobriram a necessidade de harmonizar Missão e Comunidade, embora com uma aproximação diferenciada em relação às duas. A Missão assumiu novos significados, e muitos missionários começaram a adotar um novo estilo de “fazer missão” (8); a Comunidade foi alargando o seu horizonte, até incluir não só as comunidades do próprio Instituto, como também outros grupos, com os quais cada um se encontrava associado, por razões e necessidades específicas (9).

A EXPERIÊNCIA DOS MISSIONÁRIOS

Se a Missão e Comunidade são requisitos essenciais da nossa vida religiosa e missionária, então devemos perguntar-nos: - Como os missionários vivem estas duas realidades no cotidiano de sua vida? – São associadas em boa harmonia, ou há fortes tensões entre elas? A experiência comum parece afirmar que os missionários experimentam sérias dificuldades quando se trata de unir estes dois pólos de sua vida, especialmente quando se considera a comunidade apenas com um grupinho de pessoas que, canonicamente, vivem sob o mesmo teto. Algumas dificuldades provêm das diferentes personalidades dos missionários; outras, da natureza mesma da vida missionária; outras ainda do moderno desenvolvimento do estilo de vida religiosa; outras, enfim, nascem da natureza mesma da comunidade

1. Dificuldades que provêm da diferença de personalidade

Cada comunidade é constituída por pessoas de caráter diferente, cujos traços são, frequentemente, opostos e contraditórios (10), causando tensões cotidianas que pesam na vida comunitária, como também na atividade missionária, corroem a confiança nos outros e, às vezes, também o respeito que se deve ter uns pelos outros. O caráter leva as pessoas a agirem de um modo tal que para elas é natural, e por isso raramente reconhecem no próprio caráter uma possível fonte de contrastes na vida comunitária.
Se a estas diferenças de caráter acrescentarmos a diferente formação espiritual e intelectual que os membros da comunidade receberam, as fontes de contraste aumentam. O que para um constitui quase “matéria de fé”, para um outro não passa de “simples opinião”; o que para este é “uma séria questão moral”, para aquele nada mais é que uma “afirmação da Cúria Romana”; o que para mim é “obediência cega à autoridade”, para ele nada mais é que “incapacidade de pensar com a própria cabeça”; o que para fulano constitui um “abuso nas celebrações litúrgicas”, para sicrano é “expressão de criatividade”.

Podemos facilmente imaginar os debates ardorosos, as profundas suspeitas e a desonfiança recíproca a que podem dar origem estas situações, que depois acabam por repercutir inevitavelmente na vivência comunitária e na mesma atividade missionária (11).

Se Comunidade e Missão são essenciais à nossa identidade, e se alguém por comunidade entende apenas o nosso tipo de comunidade tão carregado de tensão e de contraste, como acabamos de ver, poderá esta comunidade cumprir todas as funções que deveria desempenhar, das quais falaremos nas páginas deste artigo?

2. Dificuldades oriundas da natureza mesma da vida missionária

A compreensão e os elementos da Missão mudam tão rapidamente, que também um missionário equilibrado, fornecido de sólidas bases para um ministério intercultural, pode encontrar dificuldade no acompanhamento de tais mudanças, em discernir o que é de verdade obra do Espírito Santo daquilo que é espúrio, em procurar assumir e colocar em prática tais mudanças.

O pêndulo da teologia da missão oscilou do interesse exclusivo pela salvação das almas ao conceito holístico de salvação; do construir a Igreja como instituição, à formação de comunidades cristãs; de uma missão reservada quase exclusivamente aos religiosos e aos sacerdotes, a uma missão exercida com outras forças, inclusive os leigos; da busca de um caminho exclusivamente “católico”, à partilha do caminho com outros cristãos e outras religiões; do isolacionismo ao diálogo; do simples dar ao intercâmbio; do desenvolvimento das populações, ao empenho pela justiça e pela paz; de uma Igreja Ocidental a uma Igreja global, inculturada em diferentes povos (12).

Estas e outras mudanças semelhantes, criando divisões entre os missionários, acabaram por dividir também as comunidades locais, as regionais e as mesmas Conferências ou Capítulos Regionais. Os efeitos que tais mudanças exerceram sobre os missionários estão claramente descritos nos Atos do X Capítulo Geral dos Missionários da Consolata: Muitos missionários, com imutável amor à Missão percebem o valor do “novo” e gostariam de conjugá-lo com a tradição, mas não sabem como fazê-lo e oscilam entre uma atitude e outra. Alguns recorrem instintivamente à tradição e retêm inoportuno qualquer tipo de adaptação e renovação, apelando-se a uma leitura literal ou a uma interpretação ultrapassada do Evangelho e do Fundador. Outros colocam-se entre os que só procuram a novidade e acolhem qualquer mudança, sem se perguntar se corresponde ou não à nossa identidade. Existe também aquele que já não se sente identificado, e sofre em silêncio, e aquele que se afasta, criando uma espécie de isolamento, indiferença ou mediocridade, que pesam negativamente sobre a comunidade (13).

É óbvio que tudo isto exerce influência sobre as nossas comunidades, tornando sua vida mais difícil, complicando o relacionamento. Pode um único tipo de comunidade satisfazer a todas as necessidades dos missionários, e ser de auxílio ao seu crescimento e ao seu ministério? Creio que não!

3. Dificuldades que derivam da internacionalidade

Nos últimos trinta anos, a maior parte das religiões e comunidades missionárias tornaram-se internacionais (14). Este fato é ainda mais evidente nos Institutos que contam com poucos missionários. Os catorze Missionários da Consolata na Venezuela, por exemplo, pertencem a sete nacionalidades diferentes; os dez missionários na Costa do Marfim, a quatro; os dez que trabalham na Coréia, a seis. É evidente que este fato repercute a nível local, onde podemos encontrar comunidades de três missionários pertencentes a três nacionalidades diferentes.
A internacionalidade pode, sim, enriquecer uma comunidade, como nos lembra o próprio capítulo Geral dos Missionários da Consolata: A internacionalidade das nossas comunidades exprime a catolicidade da Igreja e torna-a visível... antecipa a realização do Reino futuro... testemunha que é possível viver em fraternidade, superando todas as barreiras raciais, culturais e sociais... completa de um modo mais perfeito a tarefa de promover e realizar a comunhão como um valor do Evangelho (15).

Raramente, porém, tudo isto se torna realidade. No mais das vezes, a internacionalidade cria mau-humor nos missionários, apresenta uma imagem distorcida, não totalmente certa, de uns em relação a outros, gera conflitos. Os valores culturais são diferentes e, muitas vezes, não são compreendidos; as atitudes culturais diversas são julgadas negativamente e condenadas; os esforços de inculturação são vistos como extravagâncias de alguém.

Em tais casos, o que se ouve dizer dos missionários é o seguinte: “São super-ativos”; “são preguiçosos”; estes aqui querem mudar o Instituto”; “aqueles outros não se mexem”; “não querem perder o seu poder”; “são ainda muito jovens para dirigir o Instituto!...”
O Capítulo dos Missionários da Consolata analisa mais profundamente este fenômeno e afirma: Por causa da nossa internacionalidade, o esforço da inculturação não está limitado só às culturas tradicionais, indígenas, ou de algum modo distanciadas de nossa origem. Também o mundo ocidental está envolvido nela e quem aí nasceu, como quem aí se insere por qualquer razão... Especialmente quando comunicamos aos jovens os nossos conceitos, as nossas palavras, e até os nossos testemunhos, apercebemo-nos de não os conseguir comunicar, de falar linguagens diversas... (16). O Capítulo Geral do PIME também faz notar que a internacionalidade poderia trazer enriquecimento a uma comunidade, mas também as grandes dificuldades que os membros de tais comunidades experimentam, ao escrever: A evangelização, feita como serviço de comunhão, em Igrejas encarnadas em diferentes contextos sociais e por pessoas de diferente nacionalidade, culturas e situações eclesiais, apresenta a cada um profundas exigências de kênosi e de abertura, tanto em relação à comunidade eclesial onde se chegou, como também em relação aos irmãos. A formação à internacionalidade alcança seus efeitos quando mergulha na profundidade da pessoa e a torna capaz de um despojamento radical de si mesma, numa real e serena abertura à acolhida de todos (17).

Concluindo esta seção, façamo-nos ainda a mesma pergunta, em escala mais ampla:
“Se todas as comunidades religiosas e missionárias experimentam as mesmas tensões e dificuldades, poderão elas, SOZINHAS, cumprir em relação aos missionários tudo aquilo que se supõe que uma comunidade deva fazer?”
Em outras palavras: “Podem os missionários encontrar naquelas comunidades, NELAS SOMENTE, todos os meios necessários ao seu crescimento humano, psicológico, espiritual, religioso e ministerial?” Poderão manifestar livremente nelas os próprios problemas e necessidades, e viver a partilha recíproca numa abertura e profundidade totais? Podem esperar de encontrar compreensão e aceitação na busca da própria identidade, no seio de comunidades cheias de tensões, de incompreensões, de preconceitos nacionalistas ou até mesmo raciais? Ou deveriam os missionários esforçar-se para dar o melhor de si, com lealdade, à sua comunidade canônica de pertença (18), podendo ao mesmo tempo procurar em outra parte outras comunidades, que desenvolvam para eles aquelas funções que não são cobertas pela sua comunidades de pertença?”

Antes de responder a estas perguntas, quisera rever brevemente alguns conceitos, como por exemplo, a natureza da comunidade, e retornar ao exemplo de Jesus, para colher inspiração e justificações às teses que submeterei na parte final deste artigo.

NATUREZA DA COMUNIDADE

Muito se escreveu sobre a vida comunitária. Há livros bem conhecidos, como os do Padre Amadeu Cencini (19) e Fábio Ciardi (20). Ou subsídios preparados para as Assembléias da União dos Superiores Gerais (21). São trabalhos de apresentação ideal da vida comunitária e, sobretudo, não consideram o tema que estamos discutindo aqui. São trabalhos que promovem a comunidade “canônica”, mas não dizem uma palavra sobre o que fazer se tal comunidade não consegue dar conta de todas as tarefas da vida comunitária. Um livro mais realístico sobre o tema é o de Jean Vanier (22).

De qualquer forma, é útil fazer uma síntese, ainda que breve, das características da vida comunitária, para tê-las presentes quando fizermos a pergunta: Pode uma comunidade, SOZINHA, oferecer possibilidades reais de crescimento pessoal, ministerial, profissional e religioso em terra de missão?

Há três modelos constitutivos de comunidade religiosa: o modelo antropológico, o modelo teológico e o modelo eclesial (23). Cada um deles propõe elevados critérios de vida.

O modelo antropológico exige que um religioso, como qualquer outro ser humano, esteja aberto à relação interpessoal. O Deus Criador, que se revelou como Amor, Trindade, Comunhão, chamou o homem a entrar em íntima relação com ele e a viver a comunhão interpessoal, ou seja, a fraternidade universal (24).
O modelo teológico move a vida de comunidade no seio da própria Trindade: A vida fraterna tenciona espelhar a profundidade e a riqueza de tal mistério, configurando-se como espaço humano habitado pela Trindade, que estende assim na história os dons da comunhão, próprios das três Pessoas divinas (25).
O modelo eclesial procura integrar tendências opostas, como o impulso “ad intra” e o “ad extra” (comunhão e missão), a realização tanto do indivíduo como da comunidade, a liberdade pessoal e a construção da fraternidade, oração e missão... (26).

Vejamos, portanto, como são elevados os ideais da vida comunitária, e quão difícil seja também o simples aproximar-se de sua realização prática. Por outro lado, podemos olhar para a vida comunitária de um ponto de vista muito pragmático, podendo chegar às mesmas conclusões.

A vida comunitária é um espaço no qual algumas pessoas vivem lado a lado, partilhando com outras aquilo que possuem, rezam junto, elaboram o Projeto Comunitário de Vida e o Projeto de Missão que tencionam realizar. Sua vida é orientada pelas Constituições e pelo Diretório Geral; os Superiores exercem aí algumas funções de animação, coordenação e controle; e a visita canônica faz uma revisão da situação e sugere correções. Mas, acima de tudo, a vida comunitária é um estilo de vida, um modo de viver no qual Deus é o Absoluto, objeto único do amor e da atenção dos membros; onde Jesus é o Irmão e todos se sentem irmãos Nele; onde cada aspecto da pessoa encontra um ambiente propício para crescer; onde a correção fraterna e a ajuda recíproca são normalmente oferecidas e aceitas; onde regularmente reina a alegria e a felicidade; onde a partilha dos bens materiais, psicológicos e espirituais enriquecem os membros; onde a missão partilhada se torna a força que conduz a comunidade; onde a hospitalidade é praticada com delicadeza e gentileza; onde o diálogo é o caminho normal para resolver discrepâncias e diversidades; onde o coração humano pode sentir-se livre e amado, e todas as suas necessidades são alimentadas (27).

Hoje, mais que em outros tempos, a comunidade religiosa é chamada a ser “sinal de fraternidade”... Por isso, a fraternidade religiosa deve ser vivida de modo pleno e radical, mas também visível e atraente. A comunidade deve saber dizer que é possível viver unidos na diversidade, crescer e santificar-se juntos; deve testemunhar que não só é possível, mas também belo, partilhar trabalho e moradia, alegrias e preocupações, afetos e amizades, orações e Palavra, dons da natureza e do Espírito (28).

Não se poderia escrever palavras melhores. Porém, a nossa experiência de comunidade corresponde, de fato, a estas descrições? Já experimentamos de verdade, alguma vez, na nossa vida missionária, este tipo de comunidade? Nos meus cinqüenta anos de vida comunitária, trinta dos quais passado em contato com missionários de todos os Institutos e nacionalidades, fiz esta pergunta muitas vezes. A resposta foi esta: seria maravilhoso ter tal experiência, mas é extremamente difícil, ou praticamente impossível, sobretudo na vida missionária, pelas razões expostas acima. Quantas vezes ouve-se algum dos nossos missionários dizer: “Não levar os aspirantes missionários para esta ou para aquela comunidade, porque ficarão escandalizados!” Ou então: “Não trazer os leigos à nossa comunidade, porque ficariam desiludidos com o que poderiam ver!” Isto não quer dizer que os missionários sejam maus, ou não se interessem da comunidade religiosa, mas simplesmente que as condições reais das comunidades religiosas em terras de missão são tão precárias, tão difíceis, que achar comunidades ideais, como as que são descritas acima, praticamente é coisa impossível.

As palavras que Cencici escreve acerca das dificuldades que as comunidades religiosas enfrentam, aplicam-se ainda mais às comunidades de missão: A comunidade é, talvez, o lugar em que, realisticamente, certos limites são ainda mais solicitados e provocados, e onde a vulnerabilidade se torna ainda mais visível e, por vezes, ameaçadora. A vida comunitária é a revelação muito dolorosa, por vezes inesperada, das fraquezas e das trevas pessoais, dos “monstros” escondidos em nós; é o lugar onde se descobre a ferida profunda do próprio ser e onde se aprende a aceitá-la (29).

A EXPERIÊNCIA DE COMUNIDADE FEITA POR JESUS

Uma leitura do Evangelho, ainda que superficial, nos revela que Jesus era uma pessoa muito sociável. Pertencia a diversos grupos, onde hauria força, apoio, intimidade, que depois lhe serviam no ministério em benefício das necessidades das pessoas, por ele sempre acolhidas cordialmente, mesmo quando experimentava dificuldades e alguma agonia.

1. Jesus era muito sociável e amável

Jesus foi amigo de todos e nunca excluiu ninguém de sua amizade (cf. Mt 12, 48-50). Sentia-se à vontade com as crianças, que instintivamente se juntavam em torno dele (cf. Mt 18,2; 19,13-15; Lc 18,15-17); sentia compaixão dos pobres, dos abandonados, dos marginalizados (cf. Mc 1,29-39) e dos sofredores (cf. Lc 7,11-17); permanecia de boa vontade com homens e mulheres (cf. Lc 8,1-3; Jo 4); visitava e almoçava com aqueles que na sociedade eram considerados pecadores e os convidava a se tornarem seus discípulos (cf. Mt 8,9-13). O povo o considerava um homem extraordinário, mas não tinha medo de entrar em contato com ele, de tocá-lo, de ficar em sua companhia (cf. Lc 6,19).

Jesus era sociável e encontrou nas pessoas um pouco da sua alegria, da sua força e do seu crescimento humano (cf. Jo 2,1-12). Este caminho, iniciado em sua própria família (cf. Lc 2,39-40. 51), fez com que o povo o circundasse durante sua vida pública. A amizade normal era um momento de graça para ele, e todas as pessoas que o seguiam eram veículos do amor de Deus por ele, como ele para elas (cf. Jo 2, 11-13).

2. Jesus era membro de uma comunidade evangelizadora

Dentre seus seguidores, Jesus escolheu setenta e dois, que considerou mais achegados a ele, enviou-os em missão de evangelização, depois de instruí-los por muito tempo; ao retornarem junto dele, ouviu o que contavam, corrigiu-lhes alguma falha no comportamento, compartilhou com eles de modo mais profundo algum seu princípio fundamental de ação (cf. Lc 10, 1-21). Com este grupo, Jesus é mais aberto, mais direto, mantém-se mais unido do que com o restante do povo. Era um grupo numeroso, que, entretanto, não lhe impedia de manter algum vínculo mais estreito, de partilhar mais profundamente, considerando-os seus interlocutores no tocante à missão que recebera do Pai.

Em termos atuais, nós os chamaríamos de afilhados, de agregados, voluntários a meio-tempo, ou seja, pessoas que não foram chamadas a se tornarem membros plenos dos Institutos Missionários, ou que não podem empenhar-se por toda a vida, porque já assumiram outros compromissos, e no entanto são influenciados pelo carisma de cada Instituto, pela sua espiritualidade, e desejam participar, na medida do possível, de determinadas atividades destes Institutos.

3. Jesus era membro da comunidade dos Doze, sua comunidade de pertença

Dentre todos os seus discípulos, Jesus escolheu doze homens, que denominou “apóstolos” (cf. Mc 3,13-19) e que se tornaram a comunidade normal da sua vida e do seu ministério (cf. Lc 6, 12-18). Viveu sempre com eles, instruiu-os em todos os segredos de sua vida e missão (cf. Mt 10,5-15), partilhou com eles todas as suas atividades (cf. At 1, 21-22). Conferiu-lhes os seus mesmos poderes (cf. Mt 10,1; 28,18-20), e compartilhou com eles a sua vida de modo mais profundo do que com qualquer outro (cf. Mc 4,33-34). Constituiu-os seus amigos e colaboradores (cf. Lc 9, 1-6) e viajou constantemente com eles. Eles eram a “família ampliada” de Jesus, a sua comunidade de pertença, as testemunhas de tudo quanto ele fez, de suas lutas, sucessos e derrotas, momentos bonitos e momentos tristes (cf. Lc 10, 23-24). Eles eram parte dele, como ele era parte deles. O laço de amizade entre Jesus e os apóstolos tornou-se profundo, e a confiança recíproca era tão forte, que Jesus pode tranquilamente repreendê-los (cf. Mt 16,5-11); eles, por sua vez, podem fazer-lhe perguntas difíceis, e Jesus pode dar-lhes respostas duras (cf. Mt 16, 22-23).

Até mesmo entre os apóstolos havia três com os quais Jesus partilhava em nível ainda mais profundo, e que tornou testemunhas de algumas experiências-limite de sua vida, como a Transfiguração (cf. Lc 9, 28-36), a oração no Horto das Oliveiras (cf. Mc 14, 32-41)...

4. Jesus era membro de uma comunidade mista

As mulheres também são parte da vida e do ministério de Jesus. Freqüentemente ele as cura de doenças (cf. Lc 13,10-13; Mt 8, 14-15; 9,18-26); louva-as em público por suas boas obras (cf. Lc 21, 1-4); sente-se à vontade com elas e não tem nenhuma dificuldade de compartilhar com elas, inclusive em particular, apesar de suscitar admiração nos apóstolos (cf. Jo 4,1-27). Mas Jesus é bem mais que um amigo das mulheres.

Nas comunidades de que Jesus faz parte, não há somente homens, mas também mulheres (cf. Lc 8,1-3). Nas comunidades, elas são membros ativos, de extraordinária fidelidade, fortes nos momentos de sofrimento (cf. Lc 23,54; Jo 19,25), generosas com os seus bens (cf. Lc 8,3). Elas seguem Jesus, como os apóstolos; eram certamente instruídas por ele como os apóstolos e, em geral, tornaram-se uma presença importante. Talvez elas fossem inspiradas a seguir Jesus e a entrar em relação com ele por influência da Mãe de Jesus. Maria está constantemente presente, junto com as mulheres; e seu nome é expressamente mencionado quase sempre que o Evangelho fala das mulheres, provavelmente como seu modelo e inspiração.

Tal comunidade mista certamente acrescentou algo de especial na vida de Jesus e na sua compreensão das relações e comportamentos humanos. Sem dúvida, a sua personalidade tem as características de um indivíduo que conseguiu unir harmoniosamente o masculino e o feminino: é forte e gentil, afável e exigente, extrovertido e introvertido, ativo e contemplativo, sonhador e realista, totalmente empenhado no presente e contudo capaz de transcendê-lo, pensativo e amável, amigo de todos e contudo capaz de travar amizades especiais, que não excluem ninguém, mas com certas preferências notáveis, a tal ponto de provocar reação de outros ao seu redor (cf. Mc 10,41).

5. Jesus era membro de uma comunidade íntima

Jesus era, de verdade, um ser humano; portanto tinha necessidade de alguém que satisfizesse também as suas necessidades emocionais. Encontrou resposta nos membros da família de Lázaro: Maria, Marta e Lázaro tornaram-se a sua família íntima, o espaço onde podia relaxar e repousar, amar e ser amado. Com estas três pessoas Jesus podia sentir a liberdade de descarregar todas as suas preocupações, problemas e dificuldades, certo de receber delas atenção e solidariedade. Estas pessoas podiam ficar perto dele, podiam tratar Jesus como um igual, tocá-lo e rir com ele. Por sua vez, Jesus sentia-se livre de poder também repreendê-las suavemente, como elas também faziam com ele (cf. Lc 10,38-42; Jo 12,1-3).

É uma história humana maravilhosa de pessoas que permanecem unidas porque se amam reciprocamente de verdade e, através deste amor, encontram conforto, consolação, força e alegria para a própria vida. São capazes de chorar de amor, são capazes de fazer pedidos que somente o amor pode sugerir, de acolher respostas que somente o amor pode dar, de crer para além de toda capacidade humana (cf. Jo 11,1-44).

Não me maravilho ao considerar que o último filme da TV sobre Jesus tenha sublinhado tão fortemente este aspecto de sua vida. Que tenham depois exagerado em apresentar o relacionamento de Jesus com Maria ao ponto de convertê-lo em amor romântico, é um tema de discussão. Os Evangelhos, todavia, certamente colocaram algumas bases para causar este tipo de interpretação, pela maneira com que pintam a relação de Jesus com esta família e com esta mulher.

Ao concluir esta parte do artigo podemos, baseados nos textos do Evangelho, tirar algumas conclusões de extrema importância para a nossa tese.

Na vida de Jesus, comunidade e missão se incluem reciprocamente, não se excluem. Jesus faz da missão e da comunidade dois elementos constitutivos do discípulo, assim como eles são constitutivos da sua própria vida. Jesus é chamado e enviado; constrói a vida comunitária e exercita a missão ao mesmo tempo; ele permanece com os membros da comunidade, reza com eles, discute os problemas com eles; planeja e trabalha junto com eles; juntos evangelizam, curam, ajudam. É ele que pede aos seus discípulos que vigiem na oração, no “andar de cima”, à espera do Espírito Santo, para que possam começar bem a missão. Os discípulos continuam a reunir-se, para partir o pão, para sair de novo a evangelizar, para realizar a missão. E as mulheres também estavam lá.

Se a comunidade é de caráter constitutivo para Jesus e para os seus discípulos, podemos perguntar-nos: - Que tipo de comunidade é? É uma comunidade só, ou são várias? A resposta dos Evangelhos me parece clara: Jesus escolheu ser parte de várias comunidades. Não poderia ser esta também a escolha de seus discípulos ao longo dos séculos? Jesus resolve a tensão comunidade-missão não com uma solução de “ou... ou”, mas de “e... e...”.

COMO APLICAR ESTES MODELOS ÀS NOSSAS SITUAÇÕES

Em vista da necessidade de preservar tanto a comunhão quanto a missão, e consideradas as dificuldades de combiná-las e de harmonizá-las, quando se insiste sobre a pertença a uma única comunidade, e considerando ainda o exemplo de Jesus que pertenceu a várias comunidades e com todas exerceu a missão, recebendo delas ajuda para todas as suas necessidades, perguntamo-nos agora se este exemplo pode servir-nos de inspiração, de sorte que, seguindo-o, possamos chegar também nós às mesmas alturas de vida comunitária e de atividade missionária.
Procuremos fazer um breve elenco dos tipos de comunidade que estão abertos perante nós e que poderiam levar-nos a criar, em nossa vida, aquela mesma harmonia que existiu entre comunidade e missão na vida de Jesus.

1. A nossa comunidade religiosa

Nós, missionários, somos membros de uma comunidade “canônica”. É o primeiro tipo de comunidade que nos diz respeito, e com ela somos chamados a fazer o máximo esforço, para torná-la a melhor possível. A nossa primeira lealdade é devida aos coirmãos ou coirmãs que se dedicam à mesma vocação, na mesma família, com o mesmo espírito do Fundador ou Fundadora. A falta de um “operoso” interesse por esta comunidade, ou a falta de um empenho sério em favor dela, inutilizaria qualquer outro esforço de querer tornar-se membro de outras comunidades. Toda tentativa de substituir esta comunidade canônica com outros grupos, seria uma traição do empenho assumido e selado com a nossa profissão religiosa, ou pelo juramento de vida comum.

Se esta comunidade satisfaz as nossas necessidades, se é capaz de sustentar os nossos melhores esforços no trabalho missionário, devemos permanecer unidos a ela e fazer dela a nossa única comunidade, ou ao menos a nossa comunidade de pertença mais preciosa. Também no caso em que esta comunidade canônica não possa desempenhar todos os papéis descritos acima, devemos da mesma forma colocar em prática tudo quanto as Constituições nos pedem, com fidelidade e alegria, como: rezar juntos; elaborar o Projeto Comunitário de Vida; manter relacionamento cordial com os outros coirmãos e coirmãs; fazer as eventuais revisões de nossa vida comunitária... Porém, depois de fazermos tudo isso, podemos considerar-nos livres de fazer parte também de outras comunidades, que complementem os papéis e a influência da nossa comunidade, embora sem substituí-la.

2. Outras comunidades

• Baseadas nas necessidades espirituais
Todos os missionários têm uma espiritualidade que o respectivo Fundador viveu e desenvolveu para cada Instituto, partindo da própria experiência e da dos seus primeiros membros. Infelizmente, por uma razão ou por outra, alguns elementos daquela espiritualidade não são bem desenvolvidos em determinadas comunidades, apesar dos esforços feitos, como: devoção mariana, vida de oração, espírito de família... Os membros das comunidades onde estes ou outros elementos espirituais não são propriamente desenvolvidos, podem sentir-se chamados à realização mais plena e profunda de algum aspecto particular da respectiva espiritualidade; portanto, deveriam ter a liberdade de aderir a grupos ou movimentos que desenvolvam aquele particular aspecto. Todos os coirmãos e coirmãs têm o direito de dispor dos melhores meios para desenvolver (e praticar) todos os aspectos da espiritualidade própria do Instituto. Se estes meios fossem escassos em determinada comunidade, um membro tem a responsabilidade de procurá-los em outro lugar.

Sabemos que alguns missionários nutrem seu espírito de família à fonte do Movimento Focolarino, ou a devoção mariana às fontes dos Montfortianos, ou a liberdade e alegria de espírito no Movimento Carismático. Às vezes comenta-se negativamente a respeito destes coirmãos, e são vistos como desertores do espírito do Instituto. Não deveríamos, ao invés, apoiar os esforços que fazem para se tornarem missionários mais autênticos do próprio Instituto, mediante o aprofundamento de elementos constitutivos da sua espiritualidade, que eles porém não conseguem encontrar suficientemente em suas comunidades?

• Baseadas nas necessidades ministeriais

Os missionários estão envolvidos numa porção de atividades e desempenham muitos serviços. Durante um período, não faz muito tempo, eles desempenhavam todos os ministérios próprios de uma Igreja. Agora, graças a Deus, há variedade e abundância de ministros e de ministérios, ordenados e não ordenados, religiosos e leigos, jovens e adultos, simples ou especializados, a tempo pleno ou parcial. Todos os Capítulos Gerais recentes dos Institutos Missionários Italianos fazem referência a esta mudança radical da base ministerial da missão hodierna, e todos pedem a seus próprios membros que abram espaço na comunidade ministerial para estes novos agentes da missão (30). A missão é levada adiante através destes ministros e do seu respectivo carisma. Todos estes ministros devem planejar juntos as atividades, devem rezar juntos, devem fazer a revisão do seu trabalho e apoiar-se mutuamente. Em outras palavras: necessitam de uma comunidade construída em torno das necessidades de uma vida de atividade ministerial. A fragmentação dos ministérios leva ao caos; ao contrário, a cooperação na complementariedade gera confiança, energia e eficácia.

Os missionários podem promover a organização de comunidades formadas pelos ministros, e eles próprios fazer parte delas. Eles, de fato, alimentam a vida dos ministros, promovem o seu crescimento no serviço, concentram-se sobre o denominador comum da atividade ministerial. O tempo em que os ministérios se baseavam completamente ou quase completamente numa preparação intelectual, que dava destaque e uma posição de superioridade aos ministros, fazendo deles os únicos líderes da comunidade, já acabou. Agora chegou o tempo de apoiar antes os ministérios que os carismas, o chamado que Deus faz para determinado serviço. Assim, todos os ministros são iguais; podem aprender uns dos outros e estimular-se no próprio crescimento.
O último Capítulo nos lembrou isso, e pediu que formássemos estas “comunidades apostólicas”: Para o Fundador, a missão é confiada a uma ‘comunidade apostólica’, que inclui todos os agentes da pastoral. O seu ‘projeto missionário’ encaminha-se pela estrada-mestra da comunhão entre todos os que estão empenhados nas diversas atividades. Daqui a necessidade de discernir juntos a realidade, de programar o que deve ser feito e avaliar a sua atuação... Esta comunhão estende-se às Missionárias da Consolata, aos Leigos IMC, aos agregados, aos colaboradores, catequistas, membros mais sensíveis e ativos das comunidades cristãs (31). As próprias Constituições no-lo recomendam: Queremos distinguir-nos pela capacidade de trabalhar no apostolado, em espírito de comunhão e corresponsabilidade entre nós e com as outras forças pastorais, tendo como ponto de referência os planos e critérios operativos da Igreja local. A atividade pastoral deve ser objeto de discernimento, programação e revisão comunitária (32).

Os missionários, renunciando ao próprio complexo de superioridade e reconhecendo o carisma, em qualquer parte o Espírito Santo o suscite, podem tornar-se membros destas comunidades, participar de sua vida e de sua programação como iguais, aprender dos outros e, ao mesmo tempo, contribuir para o bem dos outros. Agindo desta forma, poderão aperfeiçoar continuamente a sua espiritualidade ministerial, render mais no serviço que lhes foi pedido, e encontrar nestas comunidades um auxílio apropriado em favor do próprio ministério.
É preciso dizer algo também acerca das comunidades formadas por membros que compartilham o mesmo trabalho, como professores, diretores espirituais, formadores... Eles não podem beneficiar-se da afinidade existente entre a variedade dos carismas, mas podem aprofundar o carisma comum, realizando encontros periódicos, partilhando as últimas descobertas no seu campo profissional, desenvolvendo aquele tipo de relação que os enriqueça no seu serviço.

• Baseadas na participação de homens e mulheres

Atualmente, as comunidades formadas só de homens ou só de mulheres são quase exclusivamente as comunidades religiosas. A maioria das outras comunidades incluem tanto homens como mulheres. A presença de ambos os sexos oferece uma oportunidade única para o enriquecimento mútuo. No agir recíproco de homens e de mulheres encontramos a melhor possibilidade de nos tornarmos aquele tipo de pessoa andrógena de que a sociedade moderna necessita.
Os homens aprenderão a domar o seu machismo, seu senso de superioridade, a tendência natural de se colocar em postos de comando, e a crescer na delicadeza dos sentimentos, no desejo de partilhar, na necessidade de dependência, para corrigir e enriquecer sua personalidade. As mulheres, por sua vez, aprenderão a superar seu senso de dependência e subordinação, a se tornarem mais seguras de si mesmas nos encontros e sessões de planejamento, mais livres na maneira de se expressar.
Cada indivíduo tem necessidade de crer no outro, de confiar no outro, de ouvir com abertura de coração e mente o que o outro tem a dizer, de unir harmoniosamente o masculino e o feminino, para poder desenvolver uma personalidade que seja ao mesmo tempo forte e gentil, ativa e contemplativa, agressiva e receptiva, extrovertida e interior. Semelhante comunidade mista pode tornar-se a melhor escola para um ministério e uma vida bem integrados.

Institutos masculinos e femininos que têm o mesmo Fundador e o mesmo espírito e que, além disso, trabalham pastoralmente nas mesmas paróquias, missões ou instituições, deveriam providenciar para os próprios candidatos programas conjuntos, para integrar neles os melhores traços de ambos os sexos, e também para se tornarem capazes de viver e de cooperar harmoniosamente no futuro trabalho apostólico que os espera.
Também para os respectivos membros mais anciãos deveria haver a possibilidade de obter o mesmo resultado, através de meios apropriados de formação permanente. Muitas situações trágicas poderiam ser evitadas, e um melhor testemunho de comunhão e de apostolado, feito em conjunto, poderia ser oferecido a sociedades divididas em tribos, em classes e castas, que muito necessitam de ter perante os olhos modelos de comunhão entre pessoas de diferente sexo. Muitos missionários que se empenharam em fazer este caminho, experimentaram uma grande liberdade no seu apostolado, um notável crescimento na sua maturidade psicológica e espiritual e, acima de tudo, a profunda alegria de se redescobrirem reciprocamente, de se transformarem em canais da graça uns para com as outras.

• Baseadas na necessidade de intimidade

Intimidade é aquela vizinhança e estabilidade entre os membros de um grupo, que lhes permite partilhar do fundo do coração, chorar quando a situação é dolorosa, rir quando as coisas vão bem, ser abertos às normais expressões de amor e de solidariedade, sentir aquele laço de amor que invade e aquece o coração. A intimidade é aquilo que faz de uma comunidade uma família, um lar, a própria casa. Intimidade é aquilo que ajuda as pessoas a se acolherem mutuamente assim como são, estimulando o crescimento de todos, sem o medo de se mostrar como a gente é, com os próprios defeitos, limitações e até pecados. A intimidade é um remédio: alivia o sofrimento, refresca do calor da caminhada, estimula o indivíduo a se tornar melhor.

Esta intimidade que existe entre os membros de um grupo e não deve ser confundida com outro tipo de intimidade que se desenvolve entre duas pessoas de sexo diferente, coisa que aqui nós não tomamos em consideração. A intimidade de que falamos aqui se desenvolve ao menos entre três ou mais pessoas; brota do interior do próprio grupo; é a manifestação do amor, da confiança reinante entre seus membros.

Uma comunidade assim pode tornar-se uma necessidade em terras de missão, onde a solidão é norma, onde as comunidades são constituídas de dois ou três membros do mesmo Instituto e do mesmo sexo, e geralmente não deixam muito espaço à intimidade. Em tais comunidades, normalmente, a vida mescla-se com a atividade, surgem todos os dias atritos e diferenças, que tendem mais a dividir que a unir, a ferir as pessoas, mais que ajudá-las a curar suas feridas. Como pode alguém desempenhar com perfeição a própria missão, quando não tem possibilidade de manifestar livremente os próprios sentimentos, quando não pode confessar os próprios medos e sentir que suas próprias ansiedades são assumidas e carregadas por todos os membros da comunidade?

A comunidade de intimidade serve exatamente para isto. E sem uma comunidade estruturada nestes moldes, poderiam surgir sérias conseqüências. O indivíduo poderia fechar-se em si mesmo e tornar-se um misantropo, ou procurar o afeto de qualquer outra pessoa, com as possíveis conseqüências que todos conhecemos, ou sofrer algum tipo de esgotamento nervoso...
Lembro-me de que, quando cheguei ao Quênia pela segunda vez, em 1985, encontrei um querido amigo com quem trabalhara durante anos nos Estados Unidos. Conhecera-o como pessoa brilhante, dedicado até demais ao seu trabalho, um organizador de primeira classe, um missionário entusiasta. E agora quase não o reconhecia! Abúlico, ausente, cheio de medos, desiludido de tudo e de todos, amargurado e causticante. Algumas semanas depois foi levado ao hospital, com um tremendo esgotamento nervoso. Visitei-o e perguntei-lhe o que acontecera. Respondeu-me: “Não tive ninguém com quem pudesse falar, com quem partilhar e manifestar os meus sentimentos, e por fim acabei estourando”. Voltou à pátria, passou de um psiquiatra a outro, de um hospital a outro, mas nunca mais voltou a ser o que era antes.

Esta experiência soou como uma campainha de alarme para mim. Falei com outros amigos, refletindo sobre este tipo de situação, e decidimos formar um grupo que se reunia uma vez por mês, no domingo de tarde. Rezávamos juntos, com amor; partilhávamos a nossa vida, nossas preocupações e alegrias, as nossas lutas, as incompreensões que cada um sofria na própria comunidade, ou no próprio ministério. Às vezes abraçávamos o colega que chorava, ou brincávamos com um outro que parecia sério demais, ou ainda rezávamos pelas necessidades particulares de um terceiro.
À noitinha, para o jantar, reuníamos o que tínhamos trazido, e depois continuávamos a permanecer juntos, procurando ficar perto do coirmão que atravessava momentos de particular dificuldade, ajudando-nos assim mutuamente. Os laços de amizade que unia aquele grupo permanecem vivos até hoje, e continuamos a escrever-nos, a visitar-nos, quando é possível, a ajudar-nos reciprocamente.
O grupo, com certeza, nos ajuda a prosseguir na caminhada, nos ajuda a ser felizes, a assumir os compromissos com empenho, a conservar-nos íntegros e santos em nossa vida.

CONCLUSÃO

Este estudo sobre COMUNIDADE e MISSÃO nos levou a esta conclusão: as duas realidades devem estar presentes na vida do religioso-missionário. Não como alternativa uma da outra, mas integradas entre si. Separá-las, seria contrariar o ensinamento, o exemplo de Jesus e dos Fundadores de Institutos Missionários, que sempre insistiram na integração de ambas as coisas.
A experiência cotidiana de missionários que procuram harmonizar a vida comunitária com a vida missionária nos diz que é uma tarefa muito difícil, para não dizer quase impossível. As comunidades de missão, normalmente, são muito pequenas e as pessoas que as compõem têm caráter diferente; então acontece o seguinte: os freqüentes contrastes que surgem do viver e trabalhar juntos, dificultam a oração fervorosa, a abertura e a partilha generosa. As comunidades de missão não conseguem satisfazer todas as necessidades das pessoas, ainda que se lhes peça de fazerem isso. De fato, a comunidade é um grupo de pessoas que vive unido para se santificar, para servir da melhor maneira possível, para atender às necessidades de cada membro. Tudo isto, com certeza, não pode ser feito por uma comunidade sozinha. Eis porque é necessário que os missionários participem de comunidades diferentes, para serem ajudados por elas nos diversos âmbitos de sua vida religiosa e espiritual, no seu ministério, e para encontrar apoio em suas necessidades pessoais básicas.

Alargando o horizonte da comunidade e aceitando fazer parte de várias outras comunidades, os missionários têm maior possibilidade de harmonizar os dois pólos da própria vida e de ser-lhes fiéis.

Nós, missionários, devemos ser um pouco mais criativos ao enfrentar esta questão, devemos ter um pouco mais de coragem para solucioná-la, oferecendo aos coirmãos a possibilidade de fazer estes tipos de experiências, e depois compartilhá-las, em vista do bem comum.
Caso contrário, é completamente inútil continuar a escrever sobre a necessidade da vida comunitária, sem enfrentar as verdadeiras dificuldades que encontramos na prática de sua vivência. Até pode ser contraproducente, se não oferecemos um caminho de saída deste dilema.

Sou de opinião que o caminho de saída consiste exatamente na vida comunitária em diversos “níveis”, dado que cada um deles pode ajudar o missionário a adquirir aquela riqueza e plenitude que fará com que sua missão se torne uma bela aventura, um desafio maravilhoso, um campo fecundo de atividade, que além dos frutos produz também alegria e satisfação.


Pe. Antonio Bellagamba, imc

NOTAS

1. INSTITUTO MISSÕES CONSOLATA, Atos do X Capítulo Geral, p. 29.
2. Ibid.
3. MISSIONARI SAVERIANI, Ratio Missionis Xaveriana, XIV Capitolo Generale, 2001, n. 32.
4. BRUNO SECONDIN, Per una fedeltà creativa – La Vita Consacrata dopo il
Sinodo, Torino, Paoline, 1995, p. 178.
5. MISSIONARI COMBONIANI DEL CUORE DI GESÙ, Atti Capitolari 1997,
n. 122, p. 50.
6. BRUNO SECONDIN, Le Crisi nella Vita Consacrata. Temi e problemi
teologici, in Difficoltà e Crisi nella Vita Consacrata, Torino, Elle Di Ci,
1996, pp. 224-25.
7. MISSIONARI SAVERIANI, obra citada, n. 39, p. 41.
8. ROBERT J. SCHREITER, C.PP.S., Mission in the Third Millennium,
Maryknoll, N. Y. Orbis Books, 2001, pp. 149-161.
9. Ratio Missionaria Saveriana, n. 34.
10. Id., n. 30.
11. SEVERINO DE PIERI, Il Discernimento Vocazionale. Criteri di Idoneità e
Controindicazioni, in Difficoltà e Crisi della Viat Consacrata, pp. 99-108.
12. ROBERT J. SCHREITER, Ed., Mission in the Third Millennium, passim.
13. MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA, obra citada, p. 17.
14. MISSIONARI SAVERIANI, obra citada, p. 87; Missionari Comboniani del S.
Cuore, obra citada, n. 125, p. 50.
15. MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA, obra citada, p. 29.
16. Id., p. 69.
17. PONTIFICIO ISTITUTO MISSIONI ESTERE (PIME), Atti della XII
Assemblea Generale, 2001, pp. 23-24.
18. MISSIONARI COMBONIANI DEL CUORE DI GESÙ, obra citada, n. 124, p.
50.
19. AMEDEO CENCINI, “Com’è bello stare insieme...” Milano, Paoline
Editoriale Libri, 1996.
20. FABIO CIARDI, Koinonia, Roma, Città Nuova, 1996; Esperti di Comunione,
1999; La comunità religiosa: una Famiglia.
21. Id., La comunità religiosa: una famiglia.
22. JEAN VANIER, La comunità. Luogo del perdono e della festa, Jaca Book,
Milano, 1991.
23. AMEDEO CENCINI, obra citada, pp. 159-164.
24. La vita fraterna in comunità, Città del Vaticano, n. 9.
25. Vita consecrata, Città del vaticano, n. 41.
26. AMEDEO CENCINI, obra citada, p. 164.
27. Id., pp. 52-88.
28. Id., back page
29. Id., pp. 162-163.
30. MISSIONARI COMBONIANI DEL CUORE DI GESÙ, obra citada, n. 78-94,
pp. 32-26; MISSIONARI SAVERIANI, obra citada, n. 35, p. 39; MISSIONARI
DELLA CONSOLATA, obra citada, pp. 57-62.
31. X Capítulo Geral, pp. 57-58.
32. Constituições IMC, n. 74.

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