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Viver a missão em plena guerra PDF Imprimir E-mail
Por Dom Luis Augusto Castro Quiroga, imc   
03 de April de 2006

Desafios pastorais e espirituais

(Conferência proferida em memória de Isaías Duarte Cancino, Arcebispo de Cali, na Colômbia, assassinado em razão de sua atitude profética contra o narcotráfico internacional.)


INTRODUÇÃO

Em primeiro lugar, uma carinhosa saudação a todos os membros do SEDOS. Permitam-me que comece a falar de números. O número um indica sempre o vencedor, o campeão, o poderoso. Porém, quando a este número se acrescentam outros dois um, temos o 111, que não é um número poderoso, e sim o número mais triste que hoje se possa conhecer.

De fato, “ao longo do século XX e parte do XXI, morrem aproximadamente 111 milhões de pessoas vitimadas pela guerra, em sua maioria civis. A década dos anos noventa, além disso, foi muito prolífera em aberrações provocadas por enfrentamentos entre os seres humanos, como os genocídios da Bósnia e da Ruanda, a matança de civis na Argélia e tantos outros casos que... não conseguiram encontrar o caminho da pacificação, e que, com o passar dos anos, se multiplicaram”.(1)

“Somente no continente africano, nas quatro décadas que vão de 1955 a 1995, houve cerca de oito milhões de mortos, em conflitos armados, com megacifras na ordem de dois milhões de vítimas mortais na Nigéria, um milhão na Angola, Etiópia e Argélia, e mais de meio milhão na Ruanda, Sudão e Eritréia”.(2)
O fim da guerra fria favoreceu o desaparecimento de alguns conflitos no sul, que estavam vinculados precisamente à política de contenção dos Estados Unidos e de internacionalismo comunista da União Soviética.
Os anos oitenta, os últimos da guerra fria, conhecidos também como anos de insegurança controlada, caracterizaram-se pela existência de guerras de baixa intensidade, com a proliferação de guerrilhas. Nos anos noventa voltaram a surgir novos conflitos ou novas formas de manifestação dos conflitos anteriores, que não haviam sido solucionados convenientemente. Apareceram os conflitos étnicos, confessionais e sociais, dando continuidade às guerras civis, que se podem chamar de fratricidas (3), guerras que ocuparam as potências mundiais e deram um novo protagonismo às Nações Unidas como atora no palco internacional.
De 1989 até 1996 surgiram no mundo 101 conflitos, dos quais somente 6 foram travados entre Estados, ao passo que os demais aconteceram no interior dos Estados, abrangendo concretamente 71 países. (4)

Em meio a estes conflitos (5), tanto entre nações como no interno da mesma nação, está a Igreja. Muitos destes conflitos não solucionados positivamente são conflitos bélicos e acontecem nas assim chamadas áreas de missão, conceito hoje muito relativizado pela diferente maneira de se considerar as fronteiras, e nos países em desenvolvimento opção privilegiada, mas não exclusiva, da ação missionária.

Entramos sssim em cheio no tema que nos ocupa: Como viver a missão em plena guerra? Questionamo-nos sobre atitudes pessoais, estratégias pastorais e vivências espirituais que nos permitam viver a missão em plena guerra. Tentarei reunir estas atitudes, estratégias e vivências em quinze exigências, que são feitas ao missionário que deve viver a missão em territórios atingidos pela guerra. Obviamente, é inevitável que fale bastante, a partir da minha experiência pessoal.


1. PRESENÇA versus AUSÊNCIA

Agradou-me a experiência que fiz durante a visita pastoral a um pequeno povoado na Amazônia colombiana. Pela manhã, um grupo de pessoas se aproximou de mim e um indivíduo me disse: “Esta noite pudemos dormir tranquilamente, porque sabíamos que você estava aqui.” Esta presença infundia segurança, tranquilidade e serenidade. “Estando aqui o bispo, não se atreverão a atacar-nos” – era o sentimento de fundo que se expressava com a frase mencionada acima.

O valor desta presença pode ser visto de ângulos diferentes. O mais evidente é que esta presença do missionário é, de certo modo, sinal da presença de Deus no meio do seu povo. Se o missionário não nos abandona, muito menos Deus! Se o missionário está conosco, quer dizer que se repete a história da salvação em nossa terra. Deus está sempre perto do homem que sofre (cf. Sl 91,15); Deus sempre cerca com carinho o homem que o invoca (cf. Is 58,9; Sl 145,18).

Esta presença, nos momentos mais difíceis, como os da guerra, é uma forma de encarnação e, portanto, um modo de participar do sofrimento daqueles aos quais somos enviados. Trata-se de um sofrimento não procurado, mas acolhido com coragem, da mesma forma como não foi procurado o sofrimento da lepra por Pedro Damião, mas acolhido como uma maneira de intensificar sua presença, mais ainda e sobretudo, a presença de Jesus entre seus irmãos leprosos.
Ficar ou partir? A resposta, em certas ocasiões, não é fácil. O que é fácil, sim, é dizer que a presença é um fator poderoso de consolação, de fortaleza, de unidade e fé.
É importante anotar, na conclusão deste ponto, que ser sinal da presença de Deus no meio de um povo ameaçado e torturado pela guerra, traz também seus perigos, dos quais aponto claramente um: é colocar Deus num lado do conflito e tirá-lo completamente do outro. As igrejas nacionais que se identificaram totalmente com as causas nacionais, acabam por perder de vista a realidade e a universalidade do amor de Deus. Deixem-me explicar isto através de uma narração e alguns fatos concretos.
A narração provém de um comentário rabínico acerca da passagem do Mar Vermelho. Os israelitas passaram incólumes o Mar Vermelho. Em seguida entraram os egípcios e foram tragados pelas ondas. No céu, os anjos faziam festa, aplaudiam de alegria, mas Deus os fez silenciar imediatamente: “Que é isso? Meu povo do Egito está perecendo e vocês se põem a cantar?” Israel é povo de Deus, mas também o Egito e seu inimigo, a Assíria. Mais ainda: Israel é chamado a mediar entre estes dois inimigos, e por isso o profeta Isaías o coloca em terceiro lugar: “Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança!” (Is 19,25). Deus é Deus de todos os povos, não se pode nacionalizar sua presença. Contudo, é exatamente isso que acontece, às vezes.

Gregory Baum observa: “Não há exagero em afirmar que, para uma Igreja bem encarnada numa determinada comunidade, é difícil que possa manter uma distância crítica dessa comunidade, formulando um ponto de vista não unilateral do conflito em que está comprometida. Estudos realizados sobre a pregação das comunidades cristãs, durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, revelam o grau de identificação a que chegou o clero com seus países e suas apirações políticas”. (6)
Sem dúvida, a explicação não é apenas sociológica, mas também teológica. (7) É preciso aprender a olhar teologicamente a partir da “outra margem”, a margem onde está o estrangeiro, e não somente a partir da própria.

Este esforço teve que fazê-lo a teologia da missão, para poder despojar-se da terminologia que envolvia as outras tradições religiosas sob o nome de “não cristãos”. É o mesmo esforço que se deve fazer para não apresentar a realidade do amor de Deus como exclusividade dos que estão na margem do conflito à qual eu pertenço, mandando aos diabos a outra margem e eliminando a universalidade do pecado, considerada uma exclusividade da margem oposta.
Esta atitude só ajudaria simplesmente a intensificar o conflito; não seria colaborar na superação do mesmo e na busca de uma reconciliação justa.
Todas estas dificuldades devem ser tidas em conta, mas elas não diminuem em nada a exigência de uma presença encarnada, como sinal da presença do amor de Deus no meio de um povo angustiado e abatido pela guerra.


2. ESCUTAR CRIATIVO versus INCOMPREENSÃO ESTÉRIL

Num pequeno povoado da Colômbia chamado Solano, às margens do rio Caquetá, um missionário ouvia a história dramática dos acontecimentos da guerra ocorrida nos anos oitenta. As pessoas contavam e tornavam a contar, sem se cansar de narrar sua história de sofrimento. Que alegria para aquelas pessoas contarem com alguém que as soubesse escutar!
O trabalho da violência é procurar infiltrar na narração da verdade da própria vida, a narração da mentira própria do violento. É importante fazer com que a narração destes fatos seja purificada da mentira, que talvez foi acolhida em certo momento pela necessidade de não ter que viver numa situação caótica, sem sentido. A liturgia, a oração, o trabalho comunitário são chaves que nos ajudam a efetivar esta purificação.

É, porém, de modo especial, a capacidade de ouvir própria do missionário, que pode ajudar a pessoa que sofre violência a fazer com que a narração da mentira e da violência se torne libertadora, e se insira num contexto narrativo libertador mais amplo, como o da Paixão e Morte do Senhor. O indivíduo ou a comunidade que sofre violência não narra, porém, a sua história de qualquer maneira, nem a qualquer pessoa; narra para recuperar a verdade do seu ser, perdida com a mentira da violência que a invadiu; e, finalmente, narra-a para quem sabe que pode iluminar essa história com uma história mais ampla e decisiva. Acontece então o que o filósofo alemão Hans George Gadamer chama de “fusão de horizontes”: “Minha história narrada e ouvida e a história proclamada de Cristo, sua Paixão, Morte e Ressurreição, se fundem numa só história, repleta de significado e de verdade”. (8) Apalpa-se então a verdade proclamada por Paulo: “Nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28). Tudo é valorizado: também o sofrimento, a violência sofrida e o próprio martírio. (9)

Em certos momentos difíceis, quando a violência arremete contra as pessoas com as quais o missionário vive, é importante que ele faça seu o pedido que Salomão dirigia a Deus: “Dai-me um coração que saiba escutar”. Se, além da presença física, se acrescenta o ouvir criativo, que é também iluminação criativa, a passagem para a reconciliação se torna mais fácil.


3. MEMÓRIA versus AMNÉSIA (PERDA DE MEMÓRIA)

Há alguns meses estive na Guatemala, onde duas coisas me impressionaram. Primeira: a longa lista de todos os catequistas assassinados durante os anos da violência, cujos nomes podiam ser lidos na entrada da catedral. Esta lista é um esforço sincero para manter viva a memória destes mártires. A segunda coisa que me impressionou foi o me terem colocado, para dormir, na casa de Dom Gerardi – o bispo que foi assassinado porque fazia o trabalho de manter viva a memória dos fatos dolorosos acontecidos, e por insistir que se esclarecesse a verdade dos acontecimentos.

À presença e ao escutar criativo, é preciso acrescentar e manter viva a memória. Jesus dizia a respeito do seu Sacrifício renovado todos os dias: “Fazei isto em memória de mim”.
Fazer memória dos sofrimentos da comunidade não é apenas um exercício histórico; é um dever moral que alimenta a sensibilidade perante uma avalanche de sofrimento que, como mecanismo de defesa, vai gerando insensibilidade.
É oportuno recordar neste momento a lei do sapo. Pode-se imaginar, sem descer à prática, uma experiência muito simples: se aquecermos um pouco de água, até chegar a ferver, e se lançarmos nela um sapo, o animalzinho, de um pulo, foge do calor para não morrer queimado ou cozido. Porém, se colocarmos este sapinho num recipiente de água morna, agradável, e depois, pouco a pouco, começarmos a aquecer a água um pouco mais, ele permanece lá; acomoda-se à temperatura que aumenta e acaba por transformar-se em caldo delicioso e nutritivo de sapo...

A memória nos impede de acomodar-nos à temperatura cada vez mais crescente da violência que nos cerca. Manter viva a memória é também uma tarefa missionária, sempre e quando essa memória esteja unida a duas realidades fundamentais: a verdade e a reconciliação. A memória, sozinha, não nos dá garantia de podermos superar a violência. Uma jovem guerrilheira me escreveu uma carta muito longa, na qual me contava o motivo que a fez tornar-se guerrilheira, depois que os paramilitares assassinaram o pai dela. A memória do pai assassinado alimentava nela a opção pela violência. A lembrança dos familiares assassinados pela guerrilha, faz com que muitos paramilitares, quando assassinam, o façam com a máxima crueldade, como observava em certa ocasião Alfredo Molano (11): “São tão cruéis, que não querem matar somente o corpo, mas também a alma!”

Que importante a mensagem de João Paulo II sobre a purificação da memória, não só para superar acontecimentos tristes do passado, mas também para construir um futuro diferente, um futuro de paz! (12)

A memória alimenta-se, na vida civil, com os aniversários que reforçam a própria identidade e as raízes históricas dos próprios valores. Pode-se perfeitamente dizer: “Pelos seus aniversários vós os conhecereis”. Não cabe dúvida, estes aniversários, muitas vezes, estão carregados de nacionalismo e de emoções hostis em relação ao outro lado, em relação à outra margem, e assim pouco contribuem para a reconciliação. (13) A visão mais planetária, mais sensível à variedade das culturas e à fraternidade universal, que caracteriza o missionário, ajuda a dar outro sentido à memória.

4. MEDIAÇÃO versus PARCIALIZAÇÃO

Tive a oportunidade de achar-me entre duas margens – como foram a da guerrilha e a do governo – preocupado em criar condições de aproximação que favorecessem a libertação de 80 soldados que tinham caído nas mãos dos subversivos. Foram seis meses de negociações secretas e de contínuas viagens, da margem do governo à margem da guerrilha, e vice-versa, para dizer ao governo que a guerrilha era sincera nas propostas que fazia, e dizer à guerrilha que o governo estava disposto a cumprir sua palavra. A mediação foi positiva para a felicidade dos 80 soldados e suas famílias, que se abraçaram novamente.

Mediar é colocar-se no meio, coisa nem sempre fácil. É mais fácil e seguro colocar-se numa margem, para disparar tiros contra a outra. Porém, é mais próprio, é pastoral de comunhão colocar-se no meio, para gerar entendimento entre as duas margens. Entre Assíria e Egito, Israel era chamado a colocar-se no meio, como mediador (cf. Is 19,25).
Israel era chamado a ser como a panela... Entre o fogo que serve para fazer a comida e a água que deve ferver para fazer o chá, é preciso colocar a panela. Ela está no meio, favorecendo que o bem do fogo passe à água e o bem da água passe a quem vai tomá-la. Estar no meio significa assumir os riscos próprios da panela, mas significa também gerar acertos e entendimentos entre as duas margens em conflito.

Os macroconflitos e os microconflitos enfrentados com a intenção de mediação, criam uma cultura diferente, uma cultura de diálogo e de vida, ao invés de uma cultura de intolerância e de morte. Pouco serve para a solução do conflito que o missionário se coloque numa margem para ajudar a disparar sobre a outra margem.
Já acenei a esta atitude, quando, ao falar da presença, mostrei que uma encarnação demasiadamente localizada e demasiadamente identificada com uma margem do conflito, leva o indivíduo a perder de vista as possibilidades de mediação de uma Igreja ou de um apóstolo. Além disso, tal atitude se transforma em fator de propulsão do conflito, ao invés de se tornar fator de reconciliação. Tal foi o cristianismo dos católicos croatas contra os sérvios, como foi o dos ortodoxos sérvios contra os croatas: duas Igrejas convertidas em guardiãs da identidade nacional e, desta maneira, incapacitadas de ser mediadoras. Parece que a mesma dificuldade foi vivida no conflito étnico entre os Hutus e os Tutsis, na Ruanda. (14) A mediação é o grande desafio para a catolicidade, entendido como abertura a toda a verdade e a todo o valor, venha de onde vier. (15)

5. CLAREZA NA LINGUAGEM versus CONFUSÃO DE NÍVEIS OU CONTEÚDOS

O missionário que quer anunciar o Evangelho e denunciar o que se opõe a ele, acaba sendo declarado inimigo de algum grupo e, por vezes, até dos próprios amigos, precisamente porque não sabe ser exato no modo de se expressar.
Em situações de conflito negativo, entre ondas de violência e de guerra, é preciso saber usar com todo o cuidado a própria linguagem. Sobretudo quando se trata de fazer denúncias, é preciso que o apóstolo seja equilibrado, na espiritualidade e no estado de ânimo, para que possa denunciar os erros a partir do ensinamento do Evangelho e da Caridade, e nunca motivado por ressentimentos ou vinganças. Além disso, é preciso saber manter o nível da linguagem e usá-la com exatidão, para evitar que se criem confusões. Daí a necessidade de usar conceitos claros e precisos. Confundir Estado e governo, guerrilha e paramilitarismo, corrupção com erros administrativos, a integridade moral das pessoas com seus possíveis equívocos, etc., pode criar apreciações injustas.

O poder pastoral que, de per si, é para realizar o bem, pode dar uma imagem negativa e gerar rupturas, divisões e tensões.
A exatidão e clareza na linguagem livra o missionário do perigo de passar por demagogo. “A primeira lei do demagogo consiste em não matizar (não definir com clareza) os conceitos, utilizando-os em bloco, de forma ambígua, para destacar em cada momento o aspecto que lhe interessa, deixando os demais na sombra. Quando os conceitos não são matizados, seu sentido se empobrece, banaliza-se... Banalizar implica simplificar, reduzir o valor, rebaixar, aviltar”. (16)

Precisão e exatidão, e não aumento de confusão, é quanto se espera de um missionário em situação de guerra. A doutrina social da Igreja, a teologia assimilada de forma correta, a reflexão comunitária com os colaboradores, deveriam ser um guia nestas situações, especialmente para não se deixar levar por generalizões indevidas.

6. ESPERANÇA versus DESESPERO E PESSIMISMO

Quando o desespero levou os moradores de San Vicente, minha sede episcopal, a crer que tudo estava perdido para eles, eu anunciei que iria construir um pequeno edificio, com a colaboração de todos, para atendimento dos diversos serviços pastorais. E a conclusão do povo foi esta: “Então, se o bispo se põe a construir, quer dizer que nada está acabado, que a coisa tem futuro”. Este é um sinal positivo muito importante, porém podemos apresentar outros sinais menores e igualmente significativos. (17)

Nas situações de conflito armado, especialmente quando se prolongam muito, pode-se perder a esperança e resvalar para atitudes de desespero.
Uma armadilha contra a esperança é o medo, que leva a dizer: “Aqui não há mais nada a fazer!” Outra armadilha é a duração: “A guerra já dura há tanto tempo, isto aqui já não tem remédio!” Outra armadilha ainda é a incapacidade, o desânimo, que se apossa do indivíduo: “Quem sou eu para poder fazer alguma coisa? Se fosse ministro ou presidente, a coisa seria diferente!” Gosto muito de contar ao povo a história do pequeno grão de areia, que se introduziu entre as peças de um possante motor e fez com que não funcionasse... O monstruoso motor da violência pode ser paralisado por meio de algo tão pequeno, como o grãozinho de areia, que cada um é e oferece.
Outra armadilha é fechar-se em si mesmo de maneira defensiva: “Eu me interesso dos meus assuntos e basta! Já fiz o que podia fazer; agora não posso mais assumir nenhuma responsabilidade em benefício da paz!”
Finalmente, a última e talvez a mais perigosa armadilha contra a esperança é a insônia. Não a insônia que não deixa dormir durante a noite, mas a que não deixa mais sonhar num futuro diferente. Já não se tem, como Isaías, o desejo nem a ilusão de sonhar aquele momento em que “as espadas se transformarão em relhas de arados, e as lanças, em foices. Quando uma nação não levantará a espada contra a outra, nem se treinará para a guerra” (Is 2,4).

Por isso, é importante precaver os fiéis sobre as armadilhas que combatem a esperança e, ao mesmo tempo, apresentar-lhes sinais positivos de esperança, sinais que eles tenham a capacidade de compreender. Quando os jornalistas me perguntam: “E você, o que faz pela paz?” Eu sempre dou esta resposta: “Infundo esperança!” Assim me expressava eu no título de um livro que escrevi sobre a paz: “Nunca é tão escuro como quando vai amanhecer”. (18)

7. RECONCILIAÇÃO versus APENAS RESOLUÇÃO DE CONFLITOS

Faz pouco tempo, tivemos o congresso nacional de reconciliação, do qual participei e apresentei o tema: “Reconciliação e Política”. Hoje, na Colômbia, uma das palavras mais em voga é reconciliação, embora a vejamos tão distante. Alguns vêem a reconciliação como ponto de partida, outros a vêem como ponto de chegada. Considerando o programa de reconciliação do pós-guerra do Moçambique e da África do Sul, (19) após muitos anos de superação do conflito, esta última visão me parece mais real. É justo que seja assim. Uma guerra superada, que não inclua a reconciliação, pode voltar a reacender a violência. Eis porque, com os conflitos no Chile, por falta de esclarecimento acerca de algumas verdades da guerra, foi difícil dar o passo rumo à verdadeira reconciliação. Sem dúvida, a reconciliação deve aparecer continuamente no horizonte, como o grande ponto de chegada. Uma reconciliação que não seja nódoa e novo acerto de contas, que não ponha de lado e não esqueça o sofrimento vivido anteriormente, que não esqueça e ponha de lado a exigência da verdade. Uma reconciliação posterior à libertação dos males e não aceitação dos mesmos, feita sobre altares de uma fingida reconciliação. Uma reconciliação que não é assunto técnico de resolução de conflitos, mas muito mais, uma espiritualidade, uma atitude de vida, uma maneira de viver a Palavra de Deus, que nos diz que a reconciliação vem de Deus, que nos reconciliou com Cristo, e que também é obra de Cristo, que derrubou o muro de separação entre os inimigos. (20)

Estamos no campo mais genuíno da atividade missionária, que é atividade de comunhão. É bonito constatar como no mundo de hoje, em meio a guerras cruentas, despontem iniciativas de reconciliação, que se apresentam como sementes de um futuro de paz. Embora os homens tenham acumulado um grande volume de agressividade, ainda é possível manter um contato onde o diálogo prevaleça sobre a hostilidade e a violência física. (21)

Um dos resultados de uma reconciliação alcançada liga-se com a história. Quando as partes do conflito estão dispostas a examinar a própria história de forma crítica, a reconciliação favorece e pede que se escreva de novo a história, uma história compartilhada, em que as identidades de ambos os lados encontrem seu espaço. Pode-se recordar, como exemplo, a comissão conjunta da França e da Alemanha para escrever uma história que fosse aceita de ambos os lados e que pudesse ser ensinada nas escolas dos dois países, favorecendo assim a amizade dos mesmos. Igual trabalho foi feito entre Alemanha e Polônia.(22) No esforço de reconciliação, como no esforço do perdão, deve haver espaço não só para a criação de novas relações, mas também de uma nova história.

A reconciliação, como nos ensina a história de tantas guerras superadas, deve conter também como ingrediente essencial o desenvolvimento socioeconômico, para o qual, como aconteceu na Europa com o Plano Marshall, a cooperação internacional é muito importante. Se faltar este ímpulso em favor do desenvolvimento socioeconômico, notar-se-á sem demora o crescimento da violência criminal, como sucede na Guatemala; ou, se foram criadas espectativas bombásticas e pouco realistas, aparecerá, na situação do pós-conflito, o fenômeno lamentável do terrorismo, como aconteceu em outros lugares. Dentro destas situações, é necessário reforçar este estreito laço entre evangelização e promoção humana, como contributo para a construção de uma civilização de amor.

8. PROMOÇÃO DOS LEIGOS versus CLERICALISMO

Foi a história dos missionários no Moçambique que nos ensinou, de forma inequívoca, que uma Igreja que promove os leigos pode enfrentar todas as guerras, por mais longas que sejam. O trabalho contínuo e delicado com os catequistas produziu como fruto os líderes das comunidades cristãs, que substituíram o missionário confinado numa casa ou num pequeno território.

Uma história diferente, oposta, foi vivida em Cuba, onde, por falta da promoção dos leigos, as comunidades não foram preparadas para assumir a liderança da pastoral no momento oportuno, e muitos pensaram até em abandonar a região. Quem conta isto é um historiador de Cuba. Ele afirma que a Igreja, em Cuba, nos momentos tão difíceis do começo da revolução marxista, com a finalidade de salvar do comunismo os seus próprios membros, preocupou-se mais em fazê-los emigrar, que levá-los a exercer sua missão na sociedade em que se encontravam.(23) Se esta afirmação corresponde ou não aos fatos, não me interessa neste momento, mas refiro-me a ela para insistir na necessidade da formação apostólica dos leigos, perante e dentro das profundas mudanças sociais, e não na fuga das mesmas. A passagem que leva do passivo ao ativo, do ativo à participação, da participação à pertença deve ser feita constantemente na formação dos leigos, de modo especial em situações de guerra, quando a estabilidade do missionário se torna muito frágil.

Continuamos a constatar que a formação política do leigo é muito pobre, para que tenha condições reais de enfrentar as grandes incumbências que o esperam. A inculturação, como comunhão entre fé e cultura, deve ser traduzida no coração de cada leigo como comunhão entre fé e política; a realidade mostra, contudo, que estes dois aspectos – fé e política – ainda parecem dois mundos diferentes, pouco integrados, pouco dialogantes entre si, pouco reciprocamente críticos. Muitos leigos vivem a divisão interna: por um lado são religiosos, por outro, políticos, como se fossem dois planos completamente separados. Um senador, muito católico, ao ser questionado porque havia apoiado leis anti-religiosas, dizia: “Uma coisa é a política, outra coisa bem diferente é a religião.”

Continua sendo autêntico quanto dizia João Paulo II: A separação entre fé e cultura é o drama do nosso tempo, grande desafio para nossa ação missionária e pastoral.

9. PROFETISMO COMO CONSCIÊNCIA ALTERNATIVA versus ACOMODAÇÃO À MENTALIDADE DOMINANTE

Nestes meses, na Colômbia, falamos com numerosas pessoas e percebemos que muitos perderam a paciência. Clamam por medidas de força, por uma ação de sangue e fogo, por uma guerra forte de suposta curta duração.

O famoso “fujimoraço”, no Peru, que entusiasmou a muitos, consistiu exatamente em passar por cima do tempo de que o diálogo necessitava, por falta de paciência, e tranaformou-se em levante sangrento que produziu grande número de vítimas. A mentalidade de guerra pretende resolver tudo rapidamente, quando, na verdade, a realidade dos fatos mostra que os diálogos, em tempo de guerra, requerem muito tempo, muita paciência, muita resistência, que nada tem a ver com a resignação, e sim com a compreensão dos ritmos próprios da história dos conflitos não solucionados positivamente.

Perante a violência e a guerra, como resposta ao “olho por olho e dente por dente”, é preciso criar uma consciência alternativa com visão de Evangelho. Acomodar-se à mentalidade presente é um perigo, contra o qual nos admoesta São Paulo.(24) Por isso, o missionário não pode deixar de entrar na linha da não violência ativa, como também deve saber defender-se das adulações provenientes da mentalidade belicosa e imediatista.

10. COMUNHÃO COM O BISPO E O PRESBITÉRIO versus FRANCO-ATIRADOR

Era curiosa a afirmação de alguns guerrilheiros na zona onde eu trabalhava, no sul da Colômbia. Com todo o descaramento imaginável, diziam aos sacerdotes: “Vocês rezem a missa que nós faremos o sermão.” E a hostilidade contra os catequistas leigos era notória. Mas por baixo da atitude insolente que esta exigência revela, aparece outro fato muito profundo. Ao lado da guerra física feita de armas e de mortos, desenrola-se outra guerra muito diferente, porém não menos decisiva. É a guerra cultural. Especialmente as forças subversivas, de inspiração marxista, é que lutam para criar uma nova cultura com todos os postulados que lhe são característicos.

Lutei durante muitos anos para criar uma série de escolas, com internato anexo, em lugares muito difíceis da Amazônia colombiana. Não consegui obter ajuda do governo para tal finalidade. A guerrilha começou com os internatos, porém queria que as crianças ficassem totalmente separadas dos pais. O motivo era muito claro: não podendo identificar-se com os pais ausentes, as crianças se identificam com outro pai, que é a ideologia, que é o partido ou movimento, e seu compromisso terá uma carga de afetividade e de entrega total, como a tem um filho já adulto e normal em proteger a vida de seus pais. Há uma nova cultura que vai gestando dentro de uma visão de coletivismo muito especial, que nos faz lembrar experiências passadas, seja em contextos de opressão como na União Soviética, seja em contextos de liberdade como em Israel (os kibbutz).

Em tempos de luta, e pela unidade ideológica que o momento requer, é preciso que resplandeça como nunca a comunhão de critérios entre o Bispo e seus sacerdotes. Se alguém, pouco interessado na comunhão, através de um protagonismo desafinado, começa a disparar afirmações que contradizem em cheio as do Bispo, do presbitério e dos leigos comprometidos, deixa a impressão de um corpo confuso, enfraquecido e internamente dividido. Em tempo de guerra, tal situação seria lamentável.

11. CATOLICIDADE COMO ABERTURA A TODO VAPOR versus INTOLERÂNCIA

A convivência cidadã, um ponto crítico hoje na Colômbia, fracassa em razão da intolerância que gera exclusão, violência física, desunião e morte. Um missionário deve agir dentro de parâmetros bem definidos. Primeiramente, deve ter um mínimo de ética que, em resumo, se sintetiza nos direitos humanos, válidos para todos os seres humanos, e que oferece a plataforma do respeito à vida e à integridade de todos. A maneira de conceber os direitos humanos varia de acordo com as ideologias. Nós os consideramos enraizados na própria natureza humana, que exige ser tratada com respeito.(25)
O segundo parâmetro é a moral máxima, que para nós é a identidade cristã, com todas as suas exigências em termos de santidade, de amor sem fronteiras e de doação total.

Permanecendo dentro destes dois parâmetros, pode-se salvar o que é comum a todos e o que é próprio de cada indivíduo, cultiva-se a tolerância como aceitação da diversidade e, sobretudo, como catolicidade em seu sentido mais básico de abertura radical a toda verdade e a todo valor, com a convicção missionária que Santo Ambrósio e Santo Tomás já alimentavam, isto é, de que todo valor – seja qual for e venha de onde vier – é fruto da ação do Espírito Santo.

12. VISÃO DE FUTURO versus IMAGINAÇÃO ESTÉRIL OU CATASTRÓFICA

Em certos momentos críticos da guerra, a situação agrava-se ainda mais, não tanto por aquilo que acontece, mas por aquilo que se imagina e se comunica aos outros. Toda uma população pode cair facilmente na angústia, porque, por telefone, fala-se da possibilidade de um perigo que já parece estar às portas: “A marcha contra o nosso povoado já está chegando junto à ponte... Deus do céu, que fazemos?!...” E vai-se até à tal ponte, para verificar, e não se vê nada!

O povo tem a tendência de usar a sua imaginação de maneira menos produtiva. Sempre se imagina o pior, o catastrófico. Não resta dúvida, a imaginação é fundamental para sonhar um futuro, para recriar o mundo, para se fixar objetivos bonitos que suscitem ânimo para trabalhar, para apontar caminhos que nos façam avançar. A profecia de Joel, retomada por Pedro, com a imagem dos jovens que terão sonhos, e dos anciãos que terão visões, mostra como é importante para uma Igreja nascente contar com pessoas capazes de vislumbrar caminhos de futuro. Um missionário está sempre ajudando a fazer surgir uma comunidade; então deve saber dizer à comunidade, a exemplo de Isaías: “Este é o caminho, sigam por ele!” (Is 30,21). Um missionário não pode deixar-se levar pelo catastrofismo. Pelo contrário, quando a comunidade não sabe o que fazer, ele deve tomar a iniciativa de convidá-la a sonhar o futuro, a tomar decisões de curto e longo alcance, a transformar os problemas que se imaginam como tragédias em desafios, aos quais é mister responder com fé, com coragem e comunitariamente.

13. CAPACIDADE DE PERDÃO versus VIOLÊNCIA E VINGANÇA

O perdão, no contexto sociopolítico, pode parecer uma coisa estranha. Sempre associado com o aspecto religioso, parece algo que foge do realismo dos conflitos sociopolíticos, sendo por isso pouco considerado. Uma exceção é a visão de Hannah Arendt: ele acha que o perdão é uma das capacidades humanas que tornam possível a mudança social. A outra é nossa capacidade de formular novas promessas e novos acordos. Se assim é, muitos teóricos se perguntam porque os inimigos não recorrem a estas capacidades.
Percebe-se que há uma recusa paralisante do perdão no campo da política. Por isso, é urgente fazer com que o perdão deixe de ser uma exclusividade religiosa, para fazer parte do conjunto das virtudes comuns da política. (26)
Nos contextos de violência e de guerra, uma das tarefas mais importantes do missionário é a de favorecer o perdão, pregar o perdão e perdoar. Porém, em torno do perdão social e político, como também do perdão pessoal, é necessário que haja clareza, para não criar uma recusa injusta do mesmo.

Perdoar não é esquecer e abandonar todo interesse pelos crimes do inimigo; pelo contrário, é lembrar de maneira nova,(27) algo muito pertinente à memória.(28) Perdoar não é simplesmente desculpar, pois o perdão implica um juízo moral sobre a ação má, injusta e dolorosa. Pela mesma razão, perdoar não é minimizar o fato, dizendo: “Isso não foi nada!” Perdoar não é renunciar que se faça justiça. Perdão e justiça podem caminhar juntos. Perdoar é criar um novo relacionamento com as pessoas que causaram prejuízo, é um voltar a ficar frente a frente com o inimigo, agora, porém, num nível de mútua e positiva afirmação. Perdoar é a forma de sair da corrente da violência. Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão – declara João Paulo II.(29) A vingança é o final catastrófico da política, assim como a justiça, enquadrada no perdão, é seu começo frutuoso.(30)

A formação dos leigos na política deve incluir esta realidade do perdão, que ultrapassa a atitude espiritual de fazer acordos claros de convivência e de forjar juntos uma nova história. Bastaria deixar-se inspirar em profundidade pelo Evangelho de Jesus e seu mandamento de amor.

14. PACIÊNCIA HISTÓRICA versus PRECIPITAÇÃO IMPACIENTE

Parece-me uma “burrice” – e assim o declarei através dos meios de comunicação – o fato de que se tenha interrompido o proceso de paz na Colômbia. Perdeu-se de vista quão complexo seja um processo e mergulhou-se no pessimismo mais terrível, acentuado ao máximo pelas ações guerrilheiras de sequestro e de crime.

Quantos perderam a paciência histórica e começaram a clamar por medidas de força, por uma ação de fogo e sangue, por uma guerra forte de suposta breve duração! Já o disse acima, o famoso “fujimoraço”, que a muitos entusiasmou, consistiu exatamente em passar por cima do tempo de que o diálogo necessitava, por falta de paciência, e transformou-se em levante sangrento que deixou muitas vítimas.
A paciência que Deus nos pede, devemos entendê-la. Não é fácil, pois pode ser confundida com resignação. Mas não é isso. É saber aceitar os ritmos próprios da história de cada dia. As grandes coisas tomam muito tempo – dizia o Cardeal Newman. Chegar a uma solução de paz, depois de tantas décadas de guerra, não é coisa de meses, mas de anos. Se a Igreja perde o sentido da paciência histórica e se deixa conduzir pela precipitação impaciente, entra no jogo da guerra e não no da paz.

A conquista paciente de objetivos, por menores que sejam, alimenta a paciência e faz com que a guerra entre num processo de dissolução. A formulação de objetivos a longo prazo gera um sentimento de inutilidade de qualquer processo de paz. Creio que foi isso que aconteceu na Colômbia. (31) Há lentidões e demoras que devem ser aceitas, para dar espaço ao crescimento e não romper definitivamente com tudo. Todo missionário sabe muito bem disso. Seu processo de inserção e de encarnação não começa com uma demonstração espetacular de que pode mudar tudo em breve espaço de tempo. Os que assim apressadamente procederam, cometeram uma destas três grandes falhas: ou aceitaram tudo, sem nada examinar; ou não aceitaram absolutamente nada, porque tudo lhe parecia negativo; ou simplesmente se retiraram.

Para um missionário, viver a paciência histórica é garantia de uma inserção correta e também de uma continuidade positiva, que favorece o processo que conduz da guerra à paz.

15. MARTÍRIO COTIDIANO versus CONTRA-TESTEMUNHO

São Bernardo afirma que o soldado luta com mais denodo quando vê as feridas do seu corajoso capitão. Eu sintetizaria este testemunho em quatro palavras: vida espiritual, coragem, vigilância e prudência.
O testemunho cotidiano de vida missionária, autêntica e santa, é fundamental para ajudar os fiéis a permanecerem firmes nas atitudes próprias do Evangelho, para ajudar as pessoas que não crêem em Cristo a entenderem o sentido da cruz, levando-as a evitar outras atitudes que geram violência ou desespero. Quantos grandes homens e mulheres, através de sua conduta transparente e santa, infundiram grande ânimo nos que sofriam por causa da guerra! Quantos campos de concentração poderiam falar destas pessoas maravilhosas em meio à barbárie e a dor!

A fortaleza e a coragem é dada à Igreja, como um dom do Espírito, quando deve enfrentar a oposição. Não é só coragem, mas também parrésia (afirmação ousada), um misto de coragem, de confiança em Deus e fortaleza. A falta de parrésia leva a reduzir a pastoral a ações muito pobres e sem verdadeiro impacto evangelizador. A coragem é a maior virtude apostólica em plena guerra.

A santidade e a coragem exigem que estejamos continuamente com os pés no chão, não só, mas também de olhos abertos. “Toca a trombeta” (Os 1,8), como sentinela que vigia sobre o povo do Senhor!
A vigilância é sempre necessária, especialmente em situações de ameaça, de conflito, de oposição e de insegurança. É uma tarefa fundamental do missionário estar atento aos sinais dos tempos, aos sinais de incerteza e de insegurança do momento presente, para prevenir a comunidade, na medida do possível. Durante a guerra, o missionário não pode dar-se ao luxo de viver permanentemente distraído, ou de fugir talvez para um mundo muito espiritual, porém alheio ao sofrimento real. De modo especial, o missionário deve cuidar que sejam respeitados os direitos humanos e o direito internacional humanitário, para poder denunciar com objetividade e precisão os possíveis abusos.

Finalmente, o testemunho de vida que se quer dar, com coragem e vigilância, não dispensa a prudência, que descarta todo falso heroísmo que não calcula o perigo. Quantos líderes colombianos estão hoje nas mãos da guerrilha, porque estavam seguros de que nada lhes aconteceria, e se expuseram demais, de forma imprudente!
Colocar-se em situações de perigo sem motivo verdadeiro, significa: não valorizar a vida, ou não se dar conta da realidade do perigo. Em ambos os casos, há miopia pouco adequada para a situação. Um missionário míope comete um monte de tolices.

CONCLUSÃO

A missão em plena guerra: eis o que significa, na verdade, viver em tempos maus! Os tempos maus podem fazer com que muita gente seja má; porém, são também uma excelente ocasião de testemunho missionário.
Em tempos maus, missionários bons! Os tempos maus são como a forte pressão a que é submetido o carvão, que depois se converte em diamente. Os tempos maus são como as altas temperaturas a que se submete o ferro, que daí sai transformado em aço. Os tempos maus são como o fogo do crisol, onde se lança o ouro impuro para libertá-lo da ganga e transformá-lo em metal de altos quilates.
Em tempos maus, missionários bons, que saibam colher desta dura provação da guerra as melhores oportunidades para o crescimento pessoal e também para ajudar as suas comunidades a crescerem.
Com o salmista, nós, missionários, podemos exclamar: “Na verdade, ó Senhor, vós nos provastes, nos depurastes pelo fogo como a prata” (Sl 65,10).


Dom Luis Augusto Castro Quiroga
Arcebispo de Tunja – Colômbia
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NOTAS

1. FISAS, Vicenc, Cultura de Paz y gestión de Conflictos, Ed. Icaria, Antrazyt, Unesco, Barcelona, 1998, p. 39.
2. Idem, p. 39.
3. DEBRAY, Regis, Guerras fratricidas, Fundación La Caixa, 1966, p. 43.
4. Estes conflitos podem dividir-se em diversas categorias: conflitos devido ao fracasso no processo de integração por falta de fatores de unificação nacional. Conflitos resultantes do legado colonial, ou das dificuldades da descolonização e que se relacionam com fronteiras, posses de terra, etc. Conflitos ligados à guerra fria e que assumem o caráter de guerras de libertação (Angola, Moçambique, El Salvador, Nicarágua, Vietnã, Afeganistão, etc.). Conflitos de cunho religioso como resultado das manipulações dos líderes políticos ou religiosos. Conflitos de caráter socioeconômico, por falta de democracia ou de espaços para a participação política, como também em razão da desigualdade na distribuição da terra e dos outros bens (Chiapas, Colômbia, e em geral América Latina).
5. Estamos falando de conflitos, sem termos antes definido em que consiste um conflito. É um processo interativo e como tal uma construção humana que gera um antagonismo em termos de valores e visões do mundo e uma incompatibilidade entre duas ou mais partes que se situam em margens diferentes. A imagem das duas margens do rio, cada uma das quais albergando uma das partes do conflito, pode ser muito útil para entender o que é um conflito. Quando o conflito é superado positivamente, converte-se em paz. Quando se quer superar o conflito de maneira negativa, ele se transforma em violência, frequentemente afetada por dinâmicas de escalada por causa das frustrações e polarizações crescentes e por fatores de aceleração, tais como: propaganda desinformadora e a retórica de guerra que, por um lado, multiplicou os medos, por outro – as hostilidades. O processo de conquista da paz torna-se fadigoso, como também a manutenção posterior da mesma.
6. BAUM, Gregory, A Theological Afterword, en Baum Gregory y Wells H., The Reconciliation of Peoples, Orbis Books, Maryknoll, New York, 1997, p. 186.
7. BAUM afirma: “É preciso enfrentar a enorme ambiguidade que apresenta a Escritura quando se refere à atitude de Deus com os de fora, sejam eles indivíduos ou comunidades... A solidariedade com os estrangeiros que estão dentro da comunidade raras vezes se estende aos estrangeiros que estão fora da comunidade... Esta herança teológica ambígua fez com que a Igreja olhasse os “outros” somente a partir da sua própria perspectiva. A Igreja teve a tendência de definir os “outros” com os seus próprios termos, ao invés de ouvir antes, e com paciência, como eles se definem a si próprios, e só em seguida, num segundo momento, refletir sobre como são eles à luz da fé cristã” (Baum, o., c., 186).
8. Um amplo estudo desta realidade – ouvir a pessoa que sofreu violência – pode ser encontrado em CASTRO, Luis Augusto, Reconciliación, individuo y comunidad en Colombia, em Moralia, revista de ciências morais, Vol. XXIV – 2001 – 2/3, pp. 219-246.
9. Esta “fusão de horizontes” manifestava-a um catequista de Kinkala (Congo), segundo relata o bispo Dom Anatole Milandou: “Agora que vivemos em nossa própria carne as feridas da dispersão, da fome, das doenças, da morte de amigos, parentes e conhecidos, a humilhação, o medo, o esquecimento e o desespero, sinto a Bíblia mais perto de mim: a história do povo de Israel, tantas vezes deportado e esmagado, me fala ainda mais forte”. (Ver: MILANDOU, Anatole, Un obispo en el corazón de la tormenta, em Spiritus, Ed. Hispanoamericana, setembro de 2000, p. 160.)
10. A Conferência Episcopal da Guatemala, em outubro de 1994, assumiu o projeto REMHI (Recuperação da Memória Histórica), um projeto destinado a recolher testemunhos sobre as violações dos direitos humanos ocorridas durante o conflito armado interno. “O fundamento da informação, resultado da escuta das testemunhas, que se intitula “Guatemala, nunca mais”, consiste nisto: preservar a memória histórica acerca da violência política, as gravísssimas violações dos direitos humanos de pessoas e comunidades indígenas, durante 36 anos de luta fratricida, que produziu uma polarização social sem limites. (PALOSCHI, Rosi, Memoria y perdón en Guatemala, em Spiritus, Ed. Hispanoamericana, março de 2001, p. 132.)
11. Periodista colombiano muito comprometido com os assuntos da paz e que foi obrigado a abandonar o país perante as ameaças do paramilitarismo.
12. O sofrimento provocado pela guerra pode lesar a memória de duas maneiras: esquecendo o passado, ou fechando-a no passado, alegando: “É demasiado horrível lembrar aquilo, ou é demasiado horrível esquecer aquilo!” Porém, nenhuma destas duas posições são úteis para as novas gerações. As gerações futuras se ressentem muito do esquecimento, como também da repetição compulsiva deste passado. E, talvez, são mais atingidas negativamernte por esta repetição do que pelo esquecimento. É uma repetição de morte, não de vida. Basta pensar que os soldados sérvios, em plena guerra de 1993, guardavam viva e forte em suas mentes a tatalha de Kosovo, do ano 1389. Alimentada constantemente por um ressentimento que passa de geração em geração, a memória dos horrores do passado servia simplesmente de terreno para sua repetição no futuro.
13. Veja-se: SHRIVER, Donald W., An Ethic for Enemis, Oxford University Press, New York 1995, p. 93.
14. Que o conflito tenha sido étnico, como o demonstravam os meios de comunicação, ou então fosse mais político, como o apresentava a Igreja, o caso é quue foi um conflito entre cristãos. O padre branco – Bernard Ugeux – assim narrava a situação: “Em nossa comunidade paroquial houve atos de violência entre cristãos hutu e tutsi. Era uma violência entre os nossos mesmos paroquianos, uma realidade difícil de crer”. Uma mediação neste contexto é difícil, mas necessária.
15. Sobre a catolicidade como núcleo da espiritualidade missionária, pode-se conferir: CASTRO, Luis Augusto, Ensancha el espacio de tu tienda, Ed. Paulinas, Bogotá, 1998.
16. LÓPEZ Quintás, Algonso, La revolución oculta, PPC Madrid, 1998, p. 18.
17. O bispo Milandou, da diocese de Kinkala, no Congo, também procurou achar a maneira de despertar esperança:
“Confesso que é difícil dar ou demonstrar sinais de esperança a estes cristãos preocupados; porém, um fato superior prestes a acontecer, levou-me a centrar minha pontaria neste sentido: a iminência da celebração do Grande Jubileu do Ano 2000. Como pastor, eu tinha que ajudar estes cristãos a buscar e a encontrar razões para se alegrarem. (Milandou, o. c., p. 21)
18. CASTRO, Luis Augusto, Nunca es más oscuro que quando va a amanecer, Ed. Paulinas, Bogotá, 1998.
19. Sobre a reconciliação, como tarefa do pós-conflito, pode-se conferir: BOSCH, Annemie, L’après apartheid, le dédi de la nouvelle société sud-africaine: annuler le passé et construire l’avenir, em Spiritus, setembro de 1996, pp. 258-268.
20. Este é o tema do livro de SCHREITER, Roberto J, Violencia y Reconciliación, Ed. Sal Terrae, Santander, 1922.
21. De experiências significativas de reconciliação trata a obra anteriormente citada de Gregory BAUM e Harold WELS.
22. BAUM, Gregory e WELLS, Arold, The reconciliation of peoples, Ed. Orbis, New York, 1997, p. 191.
23. GÓMEZ Treto, Raúl, Dal conflitto al Dialogo, la Chiesa a Cuba, Ed. EMI, Bolonha, 1988, p. 62.
24. Estávamos tão habituados a ver a hostilidade contra o povo judeu, que foi necessário que acontecesse uma tragédia para nos despertar, como foi a Shoa, a intentona nazista de destruir todo o povo judeu. A este respeito, conferir: LEFEBURE, Leo, Revelation, the religions and violence, Orbis, New York, 2000, p. 3.
25. O Parlamento das Religiões Mundiais insistiu numa realidade muito semelhante à ética mínima e que chama de ética mundial: “Não haverá uma nova ordem mundial sem uma ética mundial. Por ética mundial não entendemos uma nova ideologia mundial, nem sequer uma religião mundial unitária que paire por cima de todas as religiões existentes, menos ainda o domínio de uma religião sobre todas as outras. Por ética mundial entendemos um acordo de fundo em relação aos valores vinculantes, com as normas imutáveis e os comportamentos fundamentais pessoais já existentes. Sem um consentimento de fundo na ética, cada comunidade estará ameaçada antes ou depois pelo caos, ou pela ditadura, e as pessoas perderão a esperança”. (Hung, H. Kuschel K., Per un’etica mondiale, Ed. Rizzoli, Milão, 1995, p. 22.)
26. Cf. SHRIVER, Donald, o. c., p. 7.
27. “O perdão não tem a ver com o borrão do passado. Não se pode perdoar e esquecer, porque esquecer seria uma traição do passado. O perdão não é nem esquecimento do passado nem perdoar o passado, ou seja, trivializar o dano que o fato produziu e deixá-lo de lado. O perdão é recordar o passado de maneira diferente”. (SCHREITER, Robert, Disculpa, perdón y reparación, em Spiritus, Ed. Latinoamericana, março de 2001, p. 83.)
28. A memória tem dois estratos de funcionamento.O mais comum é o funcional, através do qual o organismo tem a habilidade de armazenar a informação recebida e torná-la disponível na conduta presente. O segundo vai mais além: não só fixa algo na memória, mas tem a capacidade de transcendê-la. Um dos poderes fundamentais do ser humano é criar um contexto mais amplo, um novo horizonte, dentro do qual as coisas que se recordam voltam a existir de maneira nova. Os resultados deste poder são maravilhosos, como uma re-criação da história da pessoa e de suas origens. Todo o passado é co-formado e reconstiuído ao aparecer sobre o fundo das presentes convicções, sentimentos, valores e outras circunstâncias. Nenhuma experiência passada é um absoluto. O passado como passado, não pode ser modificado. O passado como recordação, este sim pode ser modificado. (Cf. a este respeito: GRATTON, Carolyn, Tha Art of Spiritual Guidance, Crossroad, New York, 1992, p. 81.)
29. No contexo político, o “perdoar” é um ato em que se conjugam diversos elementos: a verdade moral, que não se pode ocultar nem esquecer; a renúncia à vingança, ainda que haja muitas justificações morais para isso, atitude que pode surpreender o inimigo; a empatia, outro elemento que também pode suscitar perplexidade. Trata-se de empatia pela humanidade do inimigo, coisa bem diferente da simpatia que, sem dúvida, faltou durante todo o tempo. Parece estranha esta combinação de juízo moral severo pelos atos cometidos e de empatia pela humanidade dos que os cometeram. Sem dúvida, é a base que ajuda a chegar primeiro a novos relacionamentos positivos, a uma possibilidade de viver novamente juntos numa coexistência pacífica e, em segundo lugar, à vontade de reparar na justiça a fratura da relação humana, sem que esta justiça apresente, de nenhuma maneira, o sabor de vingança.
30. SHRIVER, Donald, o. c., p. 12 e ss.
31. É necessário situar-se à sua margem, para entender sua visão do mundo, sua ideologia, seus objetivos de poder. Tudo isto ajuda a entender a complexidade do conflito e, ao mesmo tempo, o porquê da lentidão do mesmo. Quando o diálogo é feito de surdos, e mais que surdos, de cegos, e numa margem se fala de paz, mas não se quer saber nada de profundas reformas que significam justiça, e na outra se fala muito de justiça, mas sem nenhum respeito pelos direitos humanos e pela exigência de um contexto de paz para alcançar esta justiça, o processo caminha tremendamente lento. Porém, como é no mesmo processo que se gera o aprendizado mútuo e a conversão mútua, é necessário aceitar os ritmos do mesmo, sem cair na aceitação da pura esterilidade, e por ele se deve falar também da paciência histórica perante o conflito. Paulo dizia, falando de sua viagem a Roma: “Navegávamos lentamente.”

Dom Luis Augusto Castro Quiroga, imc

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