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Um olhar contemplativo e empenhativo do nosso tempo
Estudo apresentado na AssembleiaRegional do IMC de Moçambique, realizada em Guiúa (Inhambane), aos 25 de julho de 2002.
I. PRELIMINARES
Ao iniciarmos a nossa reflexão, indico algumas palavras-chaves, para fazer a leitura da realidade moçambicana, usadas com mais frequência tanto pelo povo em geral, como por políticos e pesandores, em paticular:
a) A nível social: corrupção, HIV/SIDA, malária, tuberculose, cólera, criminalidade, droga, pobreza absoluta, dessimetrias regionais, salário mínimo, dívida externa, parceiros, partidos, autarquias, eleições, globalização, modernidade, identidade cultural.
b) A nível eclesial: inculturação, autonomia econômica da Igreja local, quadros, recuperação das estruturas, projetos, vocações, seminários, clero diocesano, ministérios, leigos, catequistas, justiça social, paz, pastoral juvenil, pastoral familiar, cáritas, pastoral de conjunto.
O país celebrou recentemente (25.06.2002) seus 27 anos de independência nacional. Não é um tempo longo para a história de um povo, mas um período suficientemente amplo, tendo em conta os acontecimentos vividos na época, no caso de Moçambique: independência, com tudo o que significa de conquista de direitos inalienáveis e o reconhecimento internacional da própria personalidade nacional; revolução marxista-leninista, através de uma experiência traumática; a guerra civil contra-revolucionária, com mais de um milhão de mortos, destruição de famílias, bens, estruturas econômicas, educacionais, sanitárias e suas consequèncias bem visíveis ainda hoje; e o fim da guerra, cujo X aniversário celebramos neste ano (04.10.2002), com o estabelecimento do sistema multipartidário e da economia de mercado.
Procuremos entender os vários contextos em que nos situamos. Poderíamos resumir os desafios mais urgentes da seguinte maneira: formar pessoas que sejam capazes de contribuir para a melhoria da própria vida e da vida dos outros (família, comunidade, país, mundo), com os valores dinâmicos do Evangelho, levando-as a aprofundar democracia e convivência social, respeito pelos direitos e deveres humanos, preservação dos valores culturais mais genuínos, colaborando assim com a construção do Reino, segundo os planos de Deus.
II. CONTEXTOS
Generalidades
Moçambique tem uma população atualmente estimada em 17.242.240 habitantes; é um país pluricultural, habitado por diversos grupos etnolinguísticos, em sua maioria de origem bantu (makhwa, makonde, yao, nyanja , nyunge, teve, ngoni, manyika, barue, sena, ndau, mutshwa, tonga, chope, changane, ronga – para citar os mais importantes).
70% da população é rural, embora o fenômeno do urbanismo aumente progressivamente. A agricultura é a base de subsistência. A situação econômica da população é gritante, pois mais de 70% da mesma vive abaixo da linha de pobreza absoluta.
A taxa de analfabetismo entre os adultos é também muito alta, o 69% da população. Apenas o 46% dos meninos e o 35% das meninas, compreendidos entre os 6 e os 12 anos, frequentam a escola primária, segundo dados recentes do Instituto para o Desenvolvimento do Ensino (INDE) do Ministério da Educação (Maputo, 2002).
As causas de morte mais importantes são: malária, tuberculose, cólera e SIDA. As infecções diárias de SIDA são 700, segundo as últimas informações do Ministério da Saúde.
1. CONTEXTO SOCIOECONÔMICO
Embora o país goze de independência há 27 anos, atualmente vive quase na “dependência política, econômica e cultural”. Os países mais desenvolvidos fazem com que o Moçambique seja dependente.
O discurso oficial afirma que o Moçambique está somando altos índices de crescimento, ao passo que o cidadão comum acha que tudo está na mesma, ou piorando até. A pequena burguesia fortifica-se dia a dia, quando milhares de moçambicanos perdem seu emprego, vivem em condições infra-humanas e não têm o suficiente para subsistir. O fosso que divide uns e outros é cada vez mais profundo.
Não se pode negar que na última década tivemos um progressivo crescimento econômico a nível da macroeconomia: controle da inflação, estabilidade relativa da moeda nacional (Metical), normalização do sistema bancário, e também um mínimo de segurança sociopolítica, que assegura investimentos estrangeiros. Outro fato inegável é a reconstrução progressiva, embora lenta, da rede escolar, sanitária e comercial.
O crescimento “oficial” continua a ser questionável. Há, de fato, um certo crescimento econômico, mas não um desenvolvimento social integral. Vejamos.
Paralelamente ao que foi dito antes, não se deu o crescimento a nível da microeconomia. Falta o desenvolvimento dos mais pobres, a componente social do desenvolvimento, pelo que o preço mais caro é pago pelos mais pequenos. Estamos perante uma situação econômica gritante: alto nível de pobreza absoluta. Como dissemos no início deste estudo, o 70%, ou seja, 3/4 da população vive na linha da pobreza absoluta. Em termos comparativos, o crescimento ainda está abaixo dos índices de 1973.
Eis alguns indicadores mais significativos da situação: o salário mínimo atual (último reajuste em maio de 2002, em 1,1 $), todos sabem que é insuficiente para o sustento diário de uma família; a indústria nacional está mergulhada num mar de dificuldades de ordem estrutural, financeira e tecnológica; as privatizações geraram falência (muitas das indústrias privatizadas ou estão fechando, ou não liquidaram as dívidas referentes à sua adquisição, tendo pago apenas o 11%), com o consequente aumento de desempregados (o fechamento das fábricas de caju deixou mais de 9.000 desempregados); e o descontrole do mercado informal.
O modelo de desenvolvimento seguido pelo Moçambique é baseado nas linhas traçadas pelo Banco Mundial (BM) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O país sai de um modelo socialista para outro de tipo neoliberal. Houve uma alteração estrutural profunda da economia e o país ainda não se recuperou da mudança. Só podemos falar em termos de estabilização da economia a partir dos anos 1995/97.
Há um plano oficial para enfrentar a atual situação econômica chamado “Plano de Ação para a Reduçãao da Pobreza Absoluta” (PARPA), com o seguinte objetivo geral: reduzir a taxa de pobreza de 70% para 50%, nos próximos cinco anos. Priorizam-se seis áreas: a educação, a saúde, a agricultura, as infraestruturas básicas, a boa governabilidade e a macroeconomia.
Há fluxos de dinheiro, sim, mas de dinheiro emprestado e o controle diluiu-se. Por exemplo, metade do financiamento externo não é de registro contabilístico, pois o controle saiu do Banco Central (Banco de Moçambique). Além disso, entra muito dinheiro entregue com certas bases políticas e outros critérios menos transparentes. Os recursos que vêm do BM/FMI e outros, muitas vezes, para projetos determinados, mais do 50% retorna ao país de origem, por causa da contratação de empresas, técnicos e materiais estrangeiros.
O Orçamento Geral do Estado (OGE) é financiado em mais do 50% através de recursos externos. Além desta situação estrutural de dependência, o problema agrava-se pela utilização que se faz do referido financiamento. E’ o caso de perguntar-se se é aplicado em meios de produção, fatores de produção, na economia nacional, etc., ou, pelo contrário, se não é utilizado em bens de luxo (carros, bebidas, casas, viagens), ou, pior ainda, em negócios pessoais ou de grupos? Isso é dramático.
Em termos econômicos, o país não faz nenhum planejamento sem primeiro ter a resposta dos que podem dar dinheiro e dizer o que deve ser feito e como deve ser feito. Se este ritmo continuar, pode-se chegar até à dependência absoluta.
A alternativa é a formação. Sem pessoas formadas, não pode haver desenvolvimento, não podemos fazer muito. Se houver uma boa programação da educação, um empréstimo de hoje pode transformar-se num crédito amanhã.
2. A EDUCAÇÃO
A educação de base é fundamental para o desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade, é um elemento central no processo de redução da pobreza, assegura o desenvolvimento de recursos humanos e é uma necessidade inegável para o efetivo exercício da cidadania.
Não se pode ignorar o fato de que a rede escolar veio a expandir-se durante os últimos 20 anos, começando logo depois da assinatura do Acordo Geral de Paz (Roma, 04.10.92). Em 1992, mais do 50% da rede escolar primária estava destruída ou paralizada por causa da guerra.Eis alguns dados: a) a taxa de analfabetismo continua alta (60%), com tendência a aumentar; b) a cobertura escolar de toda a população em idade escolar não é completa; c) o estrangulamento estrutural do sistema educativo se mantém:
Em 1996: Escolas EP1 (primeiro nível): 5.165; Escolas EP2 (segundo nível): 283;
Em 1999: Escolas EP1 (primeiro nível): 6.608; Escolas EP2 (segundo nível): 454.
Estes dados expressam o seguinte: há 14,5 escolas de EP1 por 1 de EP2, o que significa, na prática, que de cada 60 alunos de EP1, apenas 4 passam para o escalão superior.
d) Muitas estruturas existentes (edifícios escolares, lares, mobiliário, etc.) são muito precárias.
e) Os recursos humanos (professores, pessoal administrativo e auxiliar) e financeiros são insuficientes para satisfazer o direito de cada criança à educação.
f) A qualidade do ensino não é a desejável; a eficácia interna das escolas primárias é muito baixa; as médias repetitivas são de 25% e as desistências, de 15%; apenas o 25 % dos alunos que ingressam na I Classe consegue concluir com sucesso a V Classe do primeiro nível do ensino (EP1). As taxas de transição do segundo nível do ensino primário (EP2), são também muito baixas: de cada 100 alunos, apensa 66 se graduam a este nível.
g) A proporção aluno/professor é alta: 61 alunos para cada professor (= 61:1).
h) Deixa muito a desejar também a preparação dos professores. Um quarto (1/4) do total dos professores do país não possui formação específica; a maioria dos professores recebeu apenas seis anos de escolarização e um ano de formação profissional.
i) As condições de vida e de trabalho dos próprios professores e alunos são muito precárias.
j) Devemos salientar também o desajustamento da estrutura e conteúdos dos currículos (matérias e distribuição pelos vários cursos, textos e outros subsídios).
Devemos refletir sobre toda esta situação.
O ensino primário desempenha um papel fundamental no processo de socialização (inculturação, identidade cultural e formação da personalidade) das crianças, na transmissão de conhecimentos fundamentais, para se tornarem cidadãos adultos e competentes no aplicar depois os conhecimentos adquiridos em benefício próprio e da comunidade. Além disso, a educação é um instrumento fundamental também para o crescimento econômico e o desenvolvimento social.
Em Moçambique, está em curso uma reestruturação profunda do ENSINO BÁSICO. Eis algumas das principais inovações:
a) Nova estruturação do ensino no país. Primeiro nível do ensino: I CICLO, corresponde à 1a e 2a classes atuais; Segundo nível do ensino: II CICLO, corresponde à 3a , 4a e 5a classes atuais; Terceiro nível do ensino: III CICLO, corresponde à 6a e 7a classes atuais. b) Introdução das línguas moçambicanas no primeiro nível do ensino. As motivações mais importantes são duas: pelo fato inegável de serem as línguas que os alunos melhor conhecem; e por ser o meio mais natural de preservação da cultura e da identidade cultural do indivíduo e da comunidade. Serão escolhidas uma ou duas, em cada grande área cultural (norte, centro e sul). c) Introdução da língua inglesa, pelo valor internacional que ela tem e pelo contexto geográfico em que se encontra o Moçambique. d) Introdução de ofícios, isto é, aprendizagem de atividades práticas e de algumas tecnologias. e) Introdução de novas matérias: moral e ética.
No I e II Ciclos do Ensino Básico, esta disciplina não terá uma carga horária, pois está integrada nas Ciências Sociais. Será, também, integrada de uma forma transversal em todas as outras disciplinas curriculares e em todos os momentos do contato professor/aluno, pais, encarregados de educação/aluno. No III Ciclo (atuais 6a e 7a classes), a Moral e Ética vão funcionar como disciplina com carga horária própria.
Para a preparação adequada de professores nesta área, os Centros Catequéticos Interdiocesanos (Anchilo, Nazaré e Guiúa), o Instituto de Ciências Religiosas de Maputo e a Faculdade de Ciências da Educação da Universidade Católica de Moçambique, estão estudando um plano concreto.
3. A SAÚDE
Indico alguns dados significativos: a) Mortalidade. 14% das crianças morrem antes de completar um ano de vida; 24,6 % das crianças morrem antes de completar cinco anos. Uma mulher moçambicana vive, em média, até os 44 anos e um homem até os 41.
b) Doenças. 54 % das consultas ambulatoriais e 40% das internações nos hospitais deve-se à malária, que é também a primeira causa de morte no país. Outras doenças importantes, por sua frequência: a diarréia, a tuberculose e a SIDA.
c) 40 % das pessoas mora a 20 quilômetros de um Posto de Saúde.
d) Apenas 44 % dos partos são assistidos por um profissional da Saúde.
e) A má nutrição afeta quase a metade das crianças do país.
Situação do HIV/SIDA no país
O primeiro estudo sobre a SIDA realizado em Moçambique foi em 1987, nas capitais provinciais, junto a uma população de faixa etária de 15 aos 44 anos de idade, e demonstrou que a prevalência do HIV/SIDA era globalmente de 3,3 %.
A partir de 1992, ano do Acordo Geral de Paz, assiste-se a um aumento acentuado de pessoas portadoras de HIV, coincidindo com o retorno de moçambicanos refugiados nos países vizinhos (Zâmbia, Zimbabwe, Malawi, África do Sul), países com níveis muito elevados de seroprevalência.
Atualmente, um número elevadíssimo de pessoas na nossa sociedade, nomeadamente crianças, adolescentes e jovens são vítimas desta doença.
Dados de 2001
Infectados de HIV/SIDA: 1.340.000 pessoas, das quais 92.000 são menores de 15 anos de idade. 248.301 crianças menores de 15 anos são órfãs por causa da SIDA.
Distribuição dos infectados pelo HIV/SIDA, de 15 a 49 anos de idade, por Regiões: REGIÃO NORTE: (Províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula): 13,9 %. REGIÃO CENTRO (Províncias da Zambézia, Tete, Manica e Sofala): 20,9 %. REGIÃO SUL (Províncias de Inhambane, Gaza e Maputo): 12,8. (Dados do Ministério da Saúde, Maputo, 2001).
4. AS FORÇAS POLÍTICAS
O Partido no poder: a FRELIMO
O Partido FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), que está no poder há 27 anos, tem a sua linha política bem definida, reafirmada nos dois últimos Congressos (VII, em 1996; e VIII, em 2002). Teoricamente, o Partido FRELIMO considera-se socialista, conforme foi reafirmado nas teses dos referidos Congressos.
Não obstante isso, encontramos uma contradição no próprio seio da FRELIMO. Internamente, os membros do Partido consideram-se e tratam-se por “camaradas”; mas, externamente, por um lado, dividem-se entre grandes proprietários e altos dirigentes; e, por outro, em simples operários. A clássica “luta de classes” agora dá-se dentro do próprio Partido, que se divorciou das largas massas operárias, abraçando o neoliberalismo. Todos querem subir, não mostrando trabalho, mas as riquezas que acumulam de forma e meios duvidosos.
O Partido FRELIMO deixa-se levar pelo vai-vem do neoliberaismo, mantendo uma dependência do exterior muito forte. Para funcionar minimamente, o país depende de 60% da ajuda exterior. Por exemplo, em outubro de 2001, o Governo da FRELIMO solicitou do Grupo Consultivo/Banco Mundial o empréstimo de 600 milhões de $ por ano, para o Estado poder desenvolver minimamente as suas atividades.
O VIII Congresso da FRELIMO (Matola, junho de 2002: “Renovação na continuidade”), prometeu muito, levantando expectativas genuínas de renovação, mas acabou por saldar-se numa indisfarçável decepção. Houve, sim, muita continuidade, mas pouca renovação. O velho estilo leninista, as decisões cruciais chegaram ao Congresso já decididas; pensadas e forjadas na Comissão Política, passaram como palavra de ordem ao Comitê Central, e deste, ao Congresso.
No referido Congresso, assitiu-se à relutância da “velha guarda” em ceder seus lugares aos mais novos. O Núcleo central da FRELIMO não é renovável. O Partido, de fato, fez alguma renovação, mas renovou o que não tem muito peso na vida interna do Patido. Não houve sangue novo.
O novo Secretário Geral e candidato à Presidência da Repùblica nas eleições do ano 2004, Armando Guebuza, pertence à “velha guarda e à ala dura” da FRELIMO, pelo que não ficaram surpreendidos os “antigos combatentes”, a quem ainda pertence o poder do Partido. A televisão do Moçambique mostrou repetidamente a imagem, em primeiro plano, de personagens como: Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo, Sérgio Vieira, Jacinto Veloso e mais outros dos “históricos” da FRELIMO. Os veteranos da revolução continuam no poder. A Comissão Política é quem toma as grandes decisões; é o “órgão pensador”, ocupando o lugar do extinto “Bureau Político”. Atualmente é composta por 17 membros e, na prática, é o órgão máximo do poder.
A oposição parlamentar
A oposição parlamentar é formada pela Coligação da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) e uma série de pequenos Partidos reagrupados na UNIÃO DEMOCRÁTICA..
A RENAMO, que nas últimas eleições obteve quase a paridade de votos da FRELIMO, é um partido grande e enraizado no país. Mas isso não basta. Tem ainda muito que aprender. Como maior partido na oposição, não está à altura dos acontecimentos. Não tem um programa alternativo sério, pois o programa que apresenta é, praticamente, semelhante ao da FRELIMO. A oposição também não sabe aproveitar politicamente os graves erros do Governo, não se prepara seriamente para a alternância no poder e não forma quadros, desperdiçando o dinheiro que recebe.
5. O DIÁLOGO RELIGIOSO
O Islamismo
Os muçulmanos constituem o 31% da população de Moçambique e estão reagrupados em várias comunidades: a) Associação Maometana. Reúne 5 % do total dos muçulmanos; é formada, em sua maioria, por comerciantes indianos e paquistaneses.
b) Conselho Islâmico de Moçambique. São o 10 % dos muçulmanos no país; é formado por gente de alto nível econômico. Entre eles há grupos radicais, de tendências fundamentalistas.
c) Congresso Islâmico. É formado pela maior parte da população muçulmana do país. Em sua maioria, são do norte do país, nomeadamente das províncias de Nampula, Zambézia, Niassa e Cabo Delgado. Em geral, o grupo é tolerante, com tendências mais abertas e moderadas do que os grupos anteriores.
d) Grupos Estrangeiros (a “African Muslin Agency” e outros). São grupos missionários, de expansão e penetração, e fundamentalistas. Estão em Nacala, Nampula e Maputo, principalmente.
A Religião Tradicional Africana (R.T.A.)
A respeito da Religião Tradicional Africana, no Moçambique, pode-se dizer, brevemente, que é a expressão religiosa mais difusa no país e é praticada contemporaneamente pelos membros das outras religiões, no todo ou em parte dos seus ritos. É necessário que nos abramos ao diálogo com R.T.A., se quisermos fazer uma evangelização profunda, pois nela encontramos os valores mais profundos do povo a que somos chamados a evangelizar, valores de verdade e de santidade, como nos lembra o Concílio Vaticano II e o Sínodo Especial para África.
No estudo e na reflexão sobre a R.T.A. estão trabalhando especialmente os Centros Catequéticos de Anchilo, Nazaré e Guiúa, o Centro de Estudos Macuas, de Maúa, e as Semanas Teológicas de Beira. Em Beira, publica-se a Revista Rumo Novo, que trata periodicamente de temas relacionados diretamente com a R.T.A.
Novos movimentos religiosos
Os novos movimentos religiosos estão aí, presentes no dia-a-dia do povo. Não podemos ignorar a sua importância numérica e os desafios que apresentam à nossa pastoral. Há uma infinidade de grupos provenientes da vizinha África do Sul (“Zion”...) e mais outros movimentos vindos de fora do continente (como a Igreja Universal do Reino de Deus, vinda do Brasil).
Ecumenismo
Quanto ao Ecumenismo, o diálogo com as outras Igrejas Cristãs – nomeadamente a Igreja Anglicana, a Igreja Metodista (nos seus ramos de Unida, Livre e Wesliana), a Igreja Congregacional, além de outras – o diálogo se faz através do Conselho Cristão de Moçambique. Trabalha-se na tradução da Bíblia nas várias línguas, em boa vizinhança, na ajuda fraterna, no campo social, em celebrações de certas datas comemorativas e na oração partilhada a nível de pequenas comunidades, por ocasião de matrimônios e funerais.
III SITUAÇÃO ECLESIAL
Passados 500 anos desde os primeiros contactos com o Cristianismo e depois de uns 60 anos de trabalho missionário sistemático, os católicos moçambicanos são o 24% da população total do país. A Igreja Católica no Moçambique conta com 12 dioceses, 15 Bispos (dos quais 13 são moçambicanos) e 150 sacerdotes diocesanos moçambicanos. Os missionários e missionárias ultrapassam os mil. A experiência de fé desta Igreja, sua caminhada e sua originalidade formam uma “memória histórica”, que se projeta até aos nosos dias e que devemos reconhecer, receber e continuar, enriquecendo-a e renovando-a com o dinamismo do Espírito.
A Igreja de Deus no Moçambique tem suas “linhas pastorais” e seus ritmos, realidade em que o Instituto é chamado a inserir-se, partilhando e comprometendo-se nas suas prioridades. Estas “linhas pastorais” formam um conjunto doutrinal e de praxe pastoral, condensado nos documentos das duas Assembléias Nacionais de Pastoral (Beira em 1987, Matola em 1991) e na vida das comunidadess cristãs.
A partir da I Assambléia Nacional de Pastoral (Beira, 1987), a pastoral da Igreja no Moçambique visava principalmente as pequenas comunidades, os ministérios laicais, a formação de animadores e as respostas aos desafios prementes da revolução marxista-leninista. Perante o surgir de novas realidades, sentiu-se a necessidade de estender a formação a todos os níveis, visando outros ministérios e serviços, a vida sacerdotal e religiosa, a resposta ao grande desafio da guerra civil.
Na II Assembleia Nacional de Pastoral (Matola, 1991), sob o tema “Consolidar a Igreja local”, a Igreja, nessa altura, indicou as prioridades que julgou oportunas para a sua ação: a formação do clero local, a expressão da fé enculturada, a autonomia econômica da Igreja local, os ministérios que respondam às exigências atuais, os jovens e a família.
Na referida Assembléia, foram indicados os seguintes meios: as pequenas comunidades cristãs, a formação a todos os níveis (paróquias formadoras, centros catequéticos diocesanos e formação nas próprias comunidades), a urgência do estudo e da pesquisa em vista de uma inculturação séria e profunda da fé, o discernimento dos sinais dos tempos, a conscientização dos cristãos no esforço pela autonomia econômica com pequenas experiências a nível local.
Atualmente estamos preparando a III Assembléia Nacional de Pastoral. Assim que for possível, serão apontados os objetivos da mesma, para responder aos novos desafios que a sociedade, hoje, apresenta à Igreja. Sem dúvida nenhuma, a próxima Assembleia estará em sintonia com as orientações das anteriores, recolherá o fruto da caminhada das nossas comunidades e discernirá sobre os caminhos novos que a Igreja deverá percorrer.
Eis alguns dos desafios que julgo prioritários:
a) Urgência da missão “Encontramos um tesouro” e devemos partilhar esta alegria com os outros. “Encontramos o Messias” (Jo,41). Devemos comunicá-lo a todos. Recebemos “um mandato para a missão” e devemos cumpri-lo. Devemos transmitir uma experiência de vida e não apenas teorias desencarnadas. O que que ouvimos..., o que apalpamos, o que contemplamos... (1Jo 1,1-3). Trata-se de uma missão urgente. Os problemas que atormentam o povo moçambicano, hoje, devem ser iluminados pela luz do Evangelho.
b) Áreas - Luta contra a situação gritante de miséria e de injustiça em que vive a maioria do povo; - inculturação profunda: a fé que deita raízes no povo, exige estudo sério, muito trabalho de pesquisa, de observação, de respeito dos ritmos do povo, escuta do outro para não caminharmos sozinhos, atenção às sementes do Verbo, partilha do trabalho feito, colaboração com os leigos, com os anciãos, com os jovens, e muito amor por este povo; - promoção vocacional e formação do clero local e das vocações aos vários ministérios; - trabalho em ordem à autonomia econômica da Igreja local (comunidades, paróquias, diocese), começando com experiências concretas.
Perante o mundo atual, o missionário – discípulo de Jesus – deve estar atento aos desafios e às urgências dos seus irmãos, deve escutar sem cessar o clamor dos que sofrem e agir em consonância com a sua opção por Cristo – Missionário do Pai.
Pe Francisco Lerma
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BIBLIOGRAFIA
1. Periódicos/Revistas:
Notícias, periódico diário, Maputo. Sabana, revista semanal, Maputo. Demos, revista semanal, Maputo
Paginas Web:
http://www.ine.gov.mz http://www.mol.co.mz http://www.mediacoop.odline.com/ (periódico diário MediaFax
3. Organismos oficiais:
INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO (MINED) MINISTÉRIO DA SAÚDE (MISAU)
4. Estudos
CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE, I Assembléia Nacional de Pastoral, (Beira 1977), “Conclusões”, SAP (Inhambane), 2002. “ “ “ , II Assembléia Nacional de Pastoral (Matola 1991), “Conclusões”, SAP, Inhambane, 2002. FRANCESCO PONSI, “A situação atual de Moçambique no contexto da África”, estudo apresentado na Assembléia Nacional dos Religiosos, Maputo, 1995, inédito. FRANCISCO LERMA MARTINEZ, “Olhar o nosso tempo”, estudo apresentado na Assembléia Nacional dos Religiosos, Maputo, 2001, inédito. HIPOLITI MMEKUMTA MARANDU, Mozambique, Neo-Liberal Capitalism and Morality Implications for a Theology of Justice in Contex, tese de doutoramento Academia Alfonsiana de Teologia Moral, Roma, 2002, extr. publicado in DOCUMENTAZIONE IMC, n.60 (Feb. 2002), 44 –54. HIPOLITO HAMELA, “A Economia de Moçambique actualmente”, estudo apresentado no VI Curso de Inserção Missionária, Guiúa (Inhambane) 2002, inédito. PEDRO COUTO, “Situação Econômica de Moçambique”, estudo apresentado no III Curso De Inserção Missionária, Guiúa (Inhambane), 1989, inédito.
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