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Ninguém duvida que a Missão de Jesus Cristo, da qual somos continuadores/as, do “jeito” ou com o “estilo” de Missionários/as da Consolata, tem uma dimensão constitutiva relacionada com a Justiça, a Paz e a Ecologia. Agora, o que exige isso de nós, missionários ad gentes, portadores da “verdadeira Consolação”, hoje? Tentaremos responder a esta pergunta, revisitando as fontes antropológico-culturais, bíblico-teológicas, carismático-institucionais, para depois apresentarmos alguns rumos que nos ajudem a desempenhar nosso ministério de Consolação-Libertação.
1. “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18).
O ser humano, feito à “imagem e semelhança” (cf. Gen 1, 26-27) do Deus revelado pelo compassivo Jesus de Nazaré (cf. Lc 7, 11, 16-17; Mt 9, 36; 14, 14) como Pai misericordioso (cf. Mt 6, 1-18; Jô 5, 31-47; Lc 15, 11,32) e descoberto pelo povo da Aliança, na hora da maior aflição, como Mãe carinhosa (cf. Is 49, 14-18), guiado, iluminado, defendido e fortalecido pelo “Outro Consolador” (Jo 14, 12-21; 16, 5-15), o mesmo Espírito que guiou, iluminou e fortaleceu o Filho enviado pelo Pai (cf. Lc 4, 1-30), o Emanuel (cf. Mt 1, 22), é por natureza missionário, isto é, chamado a sair, a ir ao encontro do outro/a diferente.
O ser humano, imagem do Deus Trindade, não foi feito para a solidão, mas para a companhia; sendo pessoa individual, não nasceu para o individualismo, mas para a comunidade; chamado ao silêncio contemplativo, não foi separado para o isolamento, mas para o diálogo e a comunicação; autônomo, não é para a auto-suficiência nem para o individualismo, mas para a fraternidade e a partilha; trabalhador e lutador, não é feito para a competição nem para a ganância, mas para a gratuidade e a reciprocidade.
Com outros, o ser humano (“ser-do-solo” = Adão) é chamado a constituir família e comunidade, a construir sociedade na justiça e na paz, a gerar, promover e cuidar da vida em todas as suas manifestações; e, como cristão, a servir ao Reino de Deus.
Em síntese, entendemos o ser humano como alguém que é convocado para a consolação-libertação, que realiza sua vocação criando e desenvolvendo permanentemente cultura (as) ao serviço da vida, fruto do colo (relações sócio-afetivas), do culto (relações religiosas) e do cultivo (relações técnico-econômicas).
2. Deus Pai-Mãe: fonte de toda consolação
Aqui vincularemos o nosso “carisma” com um referencial teórico-prático explicito: Justiça, Paz e Ecologia integradas à evangelização-transformação. O “carisma” nos coloca dentro da identidade e do nome que trazemos: Missionários/as da Consolata. É com esse referencial que entramos na trilha histórica da Missão de Deus, consolador do seu povo e do Povo de Deus (Servo sofredor), destinado a ser Luz para todas as nações.
Este eixo missionário nos remete, obrigatoriamente, às fontes bíblicas da Tradição Profética do tempo do exílio e do pós-exilio que, aliás, inspirou e forneceu o “slogan” proposto pelo nosso Pai e Fundador, José Allamano, aos dois Institutos Missionários da Consolata: Alegrai-vos com Jerusalém, exultai nela, todos os que a amais; regozijai-vos com ela, todos os que por ela estáveis de luto, pois sereis amamentados e saciados pelo seu seio consolador, pois sugareis e vos deleitareis no seu peito fecundo. Com efeito assim diz Javé: Eis que vou trazer a paz como um rio e a glória das nações como uma torrente transbordante. Sereis amamentados, sereis carregados sobre as ancas e acariciados sobre os joelhos. Como a uma pessoa que a sua mãe consola, assim eu vos consolarei; assim em Jerusalém sereis consolados... Eu virei, a fim de reunir todas as nações e línguas; elas virão e verão a minha glória. Porei um sinal no meio deles e enviarei sobreviventes dentre eles ás nações... às ilhas distantes que nunca ouviram falar a meu respeito, nem viram a minha glória. Estes PROCLAMARÃO A MINHA GLÓRIA ENTRE AS NAÇÕES, e de todas as nações trarão todos os vossos irmãos como uma oferenda a Javé...” (Is 66, 10-13. 18-20 ).
Nesta época (Dêutero-Isaías deve ter atuado em torno do ano 550 antes de Cristo, Ezequiel entre 594 e 570 a C.), a profecia passa a ser entendida, em retrospectiva, como fenômeno do espírito. Os profetas, com exceção de Isaías, que haviam falado tão pouco do espírito, são entendidos à luz deste conceito. A teologia do espírito é teologia de retrospectiva, de releitura.
Uma das peculiaridades desta releitura da história da salvação e, dentro dela, do profetismo, é a de apresentá-lo como evento grupal, coletivo. O espírito é dom comunitário e aparece vinculado à libertação da escravidão do Egito (cf. Ag 2,5 – onde Milton Schwantes traduz o v. 5 desta passagem da seguinte maneira: Esta é a palavra que tratei convosco na vossa saída do Egito: Meu espírito habitará em vosso meio. Não temais!).
Já em Is 32, 15ss, que provavelmente é um texto pós-exílico, depois da descrição da horrenda catástrofe, em especial de Jerusalém (vv. 9-14), discípulos de Isaías agregaram a sensacional confissão (cf. o “nós” do v. 15) sobre o derramamento do espírito “lá do alto”. O efeito primordial do espírito será a restauração do meio ambiente, das condições de vida, do pomar e do bosque. O espírito trará justiça à natureza. Lembremo-nos, neste contexto, de que para o Antigo Testamento o conceito de justiça não está restrito à sociedade, aplica-se também à natureza. Pelo espírito “arrozais florescerão”!
Ao “Servo de Javé” é dado o espírito. É o que se afirma no primeiro hino (Is 42, 1-4): “Dei meu espírito sobre ele” (v. 1). Até a síntese trito-isaiânica (Is 61, 1ss) é encabeçada pelo conceito do Espírito: “O espírito do Senhor Javé está sobre mim” (v. 1). Com estes dois textos encontramo-nos no próprio núcleo da teologia exílica e, em Is 61, de sua tradição subseqüente. Ela é marcada pela teologia do espírito e, segundo Milton Schwantes, assume três facetas: A) Ela é comunitária, pois, conforme Is 49, 3, o servo é um coletivo, provavelmente um grupo específico dentre os exilados (cf. Is 52-53). O evento do espírito se dirige a ele. B) O espírito age nos fracos, nos escravos, ou seja, nos israelitas deportados e transformados em escravos do Estado pelos babilônios. C) A dádiva do espírito visa a justiça (42, 1b-4). Neste texto o termo justiça diz respeito à questão social, como Is 61, 1ss comprova ao falar dos pobres, quebrantados de coração, presos e algemados. Todos eles serão consolados (v. 2, cf. Mt 5,5).
Neste contexto poderiam ser mencionadas mais outras personagens: Is 44,3; 59,21; 63 14; 2 Cr 20, 14, etc. Todos esses textos, que vinculam a dádiva do espírito à comunidade, ao povo de Deus, enxergam para além das fronteiras de Israel e para os mais fracos. O espírito faz olhar para longe, alargando horizontes, e faz olhar para baixo, aprofundando a história de Deus nas dores do mundo ( ).
Além destas dimensões psicológicas, sociais, políticas e culturais vinculadas com a experiência dos exilados e a libertação-reconstrução-consolação, encontramos nesta época a dimensão itinerante, que poderíamos chamar de missionária, vivenciada pelo Profeta Ezequiel, que entendeu o espírito como sendo o que transporta, que leva de um lugar para outro: 8,3; 11,1-24; 37,1; 40, 1; 43, 5l.
Esta experiência, já sugerida no sentido original do termo espírito como “vento” capaz de “levar” (cf 37, 1), torna-se vital para Ezequiel, ao ponto de viabilizar a sua missão profética. Pois se Deus estivesse ligado a um lugar (templo) e não agisse como espírito, se não fosse “deslocável”, sua profecia em terra estranha, em terra que aparentemente nem era de Javé, não seria viável. Aquela espetacular visão da transferência da “Glória do Senhor” do santuário para junto dos exilados (Ez 9, 3; 10, 19; 11, 22s) e a ação do espírito são como que condições indispensáveis para possibilitar a profecia do sacerdote Ezequiel, exilado em terra de outro deus ( ).
Estamos, então, dentro de uma linha de espiritualidade bíblica própria de um período da história do povo de Israel ( ), época do exílio e do pós-exílio: tempo de cativeiro (sofrimento e provação) e profecia (resistência e anúncio ao coração), de libertação e consolação (prova, correção e ternura), de novo êxodo e reconstrução (aplainar contextos, abrir caminhos novos, reconstruir as condições para a vida integral), de justiça e paz para toda a criação (cf. Is 45,8).
Esta espiritualidade de Cativeiro-Libertação-Reconstrução-Consolação nasce exatamente no exílio, lugar da missão entre os desterrados; acorda a memória coletiva, para que visitando o passado, reviva a história, revise a aliança com o Deus fiel e sonhe novamente com a promessa ou utopia da Justiça e da Paz integral, cósmica e universal.
3. Uma Mulher consolada que se torna Consoladora
O fio que nos levou à descoberta da fonte da Consolação em pleno desterro bíblico, brota agora com novo vigor na Igreja local, ou Arquidiocese de Turim (norte da Itália), no coração de um Santuário dedicado a Maria Consolata e dirigido durante quarenta e seis anos pelo Padre diocesano José Allamano, Fundador de dois Institutos Missionários ‘ad gentes’, que fez questão de chamar de Missionários da Consolata (1901) e Missionárias da Consolata (1910). Com a beatificação do Padre José Allamano (7 de outubro de 1990), o Papa João Paulo II, em nome da Igreja, reconhece que a vida e o carisma deste homem é um autêntico DOM do Espírito, e o coloca ao serviço de toda a Igreja e da humanidade em geral como caminho seguro de santidade e de missão, verdadeira linha de Espiritualidade Cristã que traz o carimbo específico da Consolata: consolados (santos/as) para consolar (missionários/as).
Cabe então a nós, da Consolata, tomar nas mãos o “vaso” que contém a rica herança do Bem-aventurado José Allamano ao serviço da SANTIDADE pessoal e da continuidade da MISSÃO de Jesus Cristo na Igreja e, através dela, ao serviço do Reino de Deus, e fazer honra ao nome que trazemos (nossa identidade), assumindo-o com veneração e responsabilidade (identificação com... e sentido de pertença a...), contemplando-o, orando-o e estudando-o em profundidade (apropriação de...); contextualizando-o e re-expressando-o a partir da própria originalidade experiêncial e cultural (inculturação); celebrando-o com sentido (dimensão simbólico-interpretativa) e testemunhando-o com humildade, criatividade e valentia (dimensão missionária).
Ó CONSOLATA!
Tu és a Mãe da Consolação: ventre no qual a misericórdia se encarnou, casa-família que a acolheu e alimentou. Tu és a primeira missionária da Consolata: em ti habitou o espírito gerador e te consolou; contigo caminhou a Consolação até à cruz do Calvário e te inscreveu entre as testemunhas da Ressurreição. Tu, de consolada te tornaste consoladora e assim foste inspiradora para a “fundação”: José Allamano recebeu o “Carisma” e o converteu em dinamismo para a missão. Tu foste a Fundadora de ontem e o és hoje também! Tu foste a primeira portadora da Consolação, hoje és “modelo” de libertação, “guia” de inculturação na missão.
Maria Consolata
Para todo turinês (habitante de Turin – Itália), como para cada missionário/a da Consolata, o apelativo ‘a Consolata’ evoca imediatamente o devoto e belo Santuário com a veneranda imagem de Maria Santíssima, erguido no coração daquela real e industrial cidade.
A Consolada O mesmo apelativo de Consolata é próprio do dialeto piemontês, como testemunha o jesuíta e historiador turinês, Pe. Giuliano Gasca Queirazza: La Consolà, bem como seu correspondente italiano La Consolata, na forma de particípio passado e no gênero feminino, deriva do verbo consolé - consolare e, como tal, de significado passivo: “aquela que é consolada”.
A Consolata é, então, a Consolada, aquela que encontrou graça junto de Deus. Ela, Maria de Nazaré, a visitada e saudada da parte de Deus: “Alegra-te, cheia de graça!” (Lc 1,28); a acompanhada do Senhor: “O Senhor está contigo!” (1,28); a animada e encorajada para a missão: “Não tenhas medo, Maria!” (1,30); a possuída do Espírito Consolador e protegida pelo Deus da vida: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (1,35); a amada por Deus com amor de predileção: “Encontraste graça junto de Deus” (1,30); a “cheia de graça” por estar repleta do Deus que enche o universo (1,28); a servidora do Senhor: “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra!” (1,38), concebe no seu ventre e dá à luz a Consolação profetizada no livro de Isaías 61 e esperada pelo “Resto fiel” (Lc2, 25). Tornando-se a Mãe da Consolação, ela é a Consolada.
A Consoladora O culto e a devoção à Consolata desenvolveu-se ao longo dos séculos. Já no século IV, com São Máximo, primeiro bispo da cidade de Turim, segundo a Tradição, e mais tarde, no século X, sob a orientação dos monges Beneditinos, a devoção e o culto a Maria Consolata já se acham historicamente registrados na igreja de Santa André.
A evolução do próprio título de “Consolata” – sem falar da iconografia, da liturgia e da pregação devocional ou doutrinal – nos insere numa corrente viva de espiritualidade, que às vezes expressa os sentimentos do povo, outras vezes o pensamento das autoridades ou dos pastores.
Vejamos esta evolução, sem deter-nos em maiores explicações históricas, por falta de espaço: as primeiras referências falam de Santa Maria da Consolação e Santa Maria das Consolações; mais tarde (1016 – 1104) aparece o título de Maria Consolata ou Virgem Consolata; mais tardiamente ainda, o apelativo de Consoladora. O titulo de Consoladora sempre aparece em referência a situações de guerra ou de morte, de epidemias e doenças, de assolação territorial ou desolação humana; sempre, afinal, em situações de dor: “Consolatrix nostra in omnibus tribulationibus nostris” (Nossa Consoladora em todas as nossas tribulações).
Aquela que viveu mais intimamente o sofrimento de Cristo – a “Mater Dolorosa” ao pé da cruz (Jo 19, 25-27), onde culminou a profecia do velho Simeão: “Uma espada transpassará o teu coração” (Lc 2,35), a Virgem da Soledade no dia do grande luto da filha de Sião, é a Consoladora. Ela oferece a verdadeira Consolação – o Menino-Messias – que traz em seu colo e que indica com sua mão.
A consolação que nasce da fé na hora da aflição, e que se torna força e mística para a missão, é verdadeira experiência espiritual em Maria de Nazaré, proclamada “Bem-aventurada entre todas as mulheres, por ter acreditado” (Lc 1, 39-43), e profetismo social na hora da “opção preferencial de Jesus pelos pobres”, de acordo com as palavras que o evangelista Lucas coloca na boca de Maria no cântico do “Magnificat” (Lc 2, 46-56), onde Deus inverte a ordem social: os ricos e poderosos são depostos e despojados, os pobres e oprimidos são libertos e assumem a direção da nova história.
É precisamente pela fé que em Maria se realizam todas as bem-aventuranças: “a pobre serva” é “exaltada”, “a aflita” é “consolada” e, finalmente, conduzida ao lugar da consolação plena e definitiva no seio de Abraão (Lc 16, 24-25), na “nova Jerusalém”, onde Deus permanecerá com a humanidade e “enxugará toda lágrima dos seus olhos...” (Ap. 21,4).
4. Missionários/as da Consolata e o ministério de Consolação
Ser Missionário/a da Consolata em meio aos povos condenados à miséria, ao abandono, à opressão e à marginalização é, em primeiro lugar, uma identidade antropológica e, conseqüentemente, um ministério teológico que compromete todo o ser, abrindo-o à humanização, ao encontro, à misericórdia, à compaixão, à solidariedade libertadora. Parece-me oportuno lembrar aqui o Encontro de Nepi, na casa das Irmãs da Consolata (nas proximidades de Roma), de 5 a 10 de novembro de 1990, quando um grupo de missionários e missionárias, convocados pelas duas Direção Gerais, se reuniram para refletir sobre a nossa Espiritualidade Missionária. Nas conclusões do encontro apareceu, entre outros, um tema com pretensões de se tornar uma práxis (reflexão-ação-estilo) missionária: Justiça e Paz. Na ocasião, foi combinado que se realizaria um encontro entre Missionários e Missionárias, com o intuito de organizar uma caminhada conjunta, dado que o nosso conhecimento acerca do Magistério Social da Igreja é muito pobre, escasso nosso comprometimento com as causas vinculadas à Justiça e Paz, fraco o nosso envolvimento com a libertação integral da pessoa.
Missionários e Missionárias: Um eixo – CONSOLAÇÃO. Dois trilhos – JUSTIÇA e PAZ. Uma meta – REINO DE DEUS.
* Relações de gênero ao serviço da missão ad gentes:
Missionários Missionárias masculino feminino
Missão ad gentes Reino de Deus
* Estas dimensões, segundo se expressou o X Capitulo Geral (Sagana, Quênia, 1999), “são parte constitutiva da evangelização ad gentes e do nosso ministério de Consolação, o qual leva a opções e gestos concretos de solidariedade com os povos e ao empenho pela reconciliação” (p. 46).
* Consolação: um ministério profético em nome do Deus da aliança: “Ser profeta em nome desse Deus, que tem entranhas de mãe (cf. Is 49, 15), é ser permanentemente consolador” (4).
4.1. Identidade antropológica da Consolação
Mais que argumentação intelectual ou conjunto de princípios lógicos, a Consolação é uma experiência de afetividade e de corporeidade sexuada de homem e mulher, apelando à sensibilidade, como afeto recebido e afeto dado, como existência frágil, necessitada de sentir-se amada e consolada e, ao mesmo tempo, forte, capaz de amar e de consolar.
Sob ambas as dimensões, a consolação se opõe a duas atitudes bem freqüentes na personalidade de muitos/as religiosos/as: a auto-suficiência ou aparente segurança afetiva, que faz a pessoa aparecer inexpressiva, quase desprovida de sentimento, como que incapaz de emocionar-se, de afetar e de sentir-se afetada, fechada e protegida perante qualquer toque ou contato corporal, quase assexuada, ou melhor, angelical (conceito de santidade que não deixa aparecer o lado humano do homem e da mulher), retraída sobre si mesma e o próprio mundo, tornando-a assim egocêntrica, dogmática, incapaz de se abrir à acolhida, ao diálogo, à troca com o “outro” diferente.
Uma antropologia da consolação busca equilibrar no ser do missionário/a a racionalidade cartesiana (cogito, ergo sum - penso, logo existo) com o sentio, ergo sum (sinto, logo existo). Daniel Goleman, em seu best-seller mundial “Inteligência emocional”, mostrou com base em investigações empíricas sobre o cérebro e a neurologia o que desde Platão, passando por Santo Agostinho, até chegar a Heidegger, já se sabia, isto é, que a dinâmica básica do ser humano é o pathos, o sentimento e a lógica do coração, e não o logos e a lógica da razão. “A mente racional necessita de um ou dois momentos a mais que a mente emocional, para registrar e reagir; o primeiro impulso é do coração e não da cabeça”. Por isso, devemos equilibrar a racionalidade com a compaixão, para podermos viver a consolação.
4.2. Ministério da Consolação
Enriquecidos e equilibrados com a dinâmica da Consolação, podemos exercer o Ministério da Consolação, que Paulo, o missionário ad gentes, juntamente com Barnabé, o discípulo “apto para consolar”, segundo a experiência das primeiras comunidades cristãs (cf. At 4, 36-37), exerceu em nome de Jesus Cristo e sistematizou na Segunda carta aos Coríntios.
Para Paulo, a consolação é um atributo do Deus de Jesus Cristo. Ele é a fonte da misericórdia e o Deus de toda consolação (cf. 1,3-7). A comunidade de Jesus vive a “dimensão passiva da consolação”, é objeto da ternura divina e ao mesmo tempo se torna mediação do mesmo Deus para fazer chegar a consolação a todos os atribulados. A participação nos sofrimentos de Cristo é condição para receber dele o consolo e assim poder exercer o Ministério da Consolação.
Buscando a chave cristã da consolação, chegamos até Jesus de Nazaré, na revelação da sua encarnação, na harmonia da sua vida e na agonia da morte:
a) A dinâmica da consolação libertadora, experimentada em e por Jesus Cristo, é fiel à lógica humana: só é possível oferecer consolação a partir da solidariedade na aflição (cf. Hb 2, 17-18). Toda outra consolação resulta oca, desumanizada, enganosa e injusta. Jesus pode ser consolação para os aflitos porque, provado no sofrimento, continua colocando a sua confiança no Pai e convidando os seus discípulos a fazer o mesmo.
b) Inaugurando o ministério de Jesus, o evangelista Marcos apresenta-o como “Filho amado” (Mc 1, 11), consolado pelo Pai, e que, por sua vez, consola o Pai, proporcionando-lhe toda alegria e complacência.
Batizado no Jordão pelas mãos de João Batista, Jesus coloca-se na fila dos pecadores, “aniquila-se”, solidariza-se com os marginalizados e impuros, faz próprias as esperanças e expectativas da humanidade doente e aflita. Saindo dali, passa pelo deserto, como o velho Moisés, rumo à Galiléia, cenário do anúncio e instauração do seu “projeto de felicidade”: “O Reino de Deus está próximo, convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 15).
Esse Reino, que é “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14, 17), constitui o projeto de felicidade oferecido por Jesus prioritária e preferencialmente aos pobres: “Felizes os pobres, porque deles é o Reino de Deus! Felizes os famintos, porque serão saciados! Felizes os que choram, porque serão consolados!” (Lc 6, 20-21); e, a partir deles, para toda a criação. Submetido às tentações típicas da humanidade, Jesus as enfrenta e supera com a força e a luz do Espírito que habita nele e experimenta, à maneira de premonição, a consolação do céu em forma de harmonioso relacionamento consigo mesmo, com os irmãos, com a natureza, com o cosmo todo e com Deus (cf. Mc 1, 12-13).
A consolação vem a ser o resultado dessa harmonia integral, quando todas as relações são trabalhadas, enfrentado e superando as tentações, e reconstruídas ou transformadas, mudando a amargura e aflição em alegria e bem-estar. Este novo estado será o da Paz, do Shalon bíblico, entendido como a perfeição de toda espécie de relação no seio da criação e, particularmente, entre os seres humanos; Paz, como fruto da justiça do Deus da Bíblia (Is 32, 15-17), isto é, a justiça feita ao pobre – órfão, viúva e estrangeiro, e em geral ao aflito, ao sem-defesa, sem-sentido, sem-rumo, sem-terra, sem-identidade, sem-saúde, sem-instrução, sem-pão, sem-vez e sem-voz, sem-emprego, sem-Deus, etc.
c) No Gólgota, a aflição agonizante de Jesus atinge os extremos limites de qualquer ser humano, enquanto que na vida vivera junto ao Pai do Céu, confiando plenamente nele, buscando sempre discernir e realizar a sua vontade com inigualável fidelidade... E nesta “hora” experimenta o vazio da sua ausência, o abandono por parte daquele que tinha sido o seu Tudo, a sua segurança, a sua verdadeira paixão (cf. Mc 15, 33-34). É nessa descida aos infernos da solidão, na quebra das relações, na hora do abandono por parte do Pai que Jesus alcança a solidariedade mais radical com qualquer tipo de experiência de aflição e agonia humana, por grande e forte que ela seja. É por isso que Jesus pode constituir uma reserva de consolação para toda pessoa, povo ou grupo humano que se aproxime dele em estado de aflição, porque Ele, abismado na maior aflição, se fia do Pai e coloca nas mãos do Pai o seu futuro e seu presente, como já colocara o seu passado. Um Espírito como o de Jesus é capaz de oferecer consolação em qualquer situação de sofrimento, inclusive no sofrimento da ausência de sentido da vida, e também do vazio de Deus ou do transcendente.
4.3. A Comunidade pascal habilitada para o Ministério de Consolação
Voltando da angústia e da aflição causadas pela perda-morte do Mestre e banhada pela consolação (mescla de medo, surpresa, susto e alegria, certeza e dúvida) da presença do Vivente, a Comunidade dos discípulos de Jesus sente-se habilitada para, com humildade e carinho, com respeito e coragem, propor às pessoas, aos povos e grupos, e até mesmo à criação toda, aflitos e feridos por todo tipo de aflição, um gesto, uma palavra, uma ação, um silêncio, um colocar-se ao lado de... exercendo, em nome do Morto-Ressuscitado o ministério da Consolação. Trata-se, pois, de um ministério da Comunidade pascal e não apenas de indivíduos, ou de grupos isolados, tal como o percebeu a primeiríssima Comunidade de seguidores/as e o comunicou João na pessoa da primeira missionária do Novo Testamento, Maria Madalena.
RESSURREIÇÃO QUE CONSOLA E GERA MISSÃO
Perdida na solidão do velho horto, Maria Madalena chora a vida encerrada na sepultura.
Na busca apaixonada do Amor, Maria – irmã e amiga de Betânia – chora a ausência do Amado.
Todos somos Maria Madalena!
No jardim da morte, junto ao túmulo vazio, uma voz e um chamado: "Maria!" No jardim da vida, junto ao jardineiro, uma escuta e uma resposta: "Mestre!".
O Mestre não é para ser tocado, retido, possuído; Ele pertence ao Pai e para lá vai. O Mestre é para ser anunciado, partilhado, repartido. Por isso, “Vai!...”
Todos somos Maria Madalena!
Consolados para não mais chorar, chamados num encontro vivo de amor; enviados para ir e anunciar: "Vi o Senhor!"
* * *
"Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para o sepulcro ... Mulher, POR QUE CHORAS? – disseram-lhe os anjos. "Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram!" – responde Maria... Mulher, POR QUE CHORAS? – lhe diz Jesus. A quem procuras? "... Dize-me onde o puseste e eu o irei buscar!" – responde Maria! "MARIA!" – diz-lhe Jesus. "Rabbuni!" – responde Maria... Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: "Vi o Senhor", e as coisas que ele lhe disse (Jo 20, 11-18).
Práticas ou formas de Consolação
Ações contextualizadas
Os caminhos da missão, como Consolação-Libertação, relacionados com a Justiça e Paz, têm em comum a realidade dos que vivem em estado de sofrimento interior profundo, causado por algo ou alguém, e que se manifesta mediante atos perceptíveis, mas têm e exigem enfoques de reflexão sócio-teológica, como busca de pedagogias e metodologias diferenciadas e contextualizadas.
a) Uma é, de fato, a reflexão feita na América Latina, inspirada na compreensão de Deus Libertador ao serviço da libertação integral do ser humano e da criação em geral, focalizando especialmente a análise social, política, econômica da realidade de aflição e, ultimamente, abrindo-se ao mundo das culturas, das relações de gênero e da ecologia. b) Já na reflexão africana, parece-me, se enfatizam mais a questão da pobreza e exclusão, o desenvolvimento, as guerras, o flagelo da AIDs e a identidade cultural. c) Na Ásia a reflexão desenvolve mais intensamente a liberação de toda exploração e discriminação cultural, religiosa, econômica baseada em sistemas religiosos de castas, causa da estratificação da sociedade. d) Agora, na Europa Unida enfrenta-se, com arrogância e ansiedade, a presença dos assim chamados “extra-comunitários”, filhos todos do passado colonial, a convivência num mundo plural e o sentido da existência em geral. e) Enquanto os Estados Unidos procuram aliados para o império das armas e do capital, os pequenos do mundo tecem alianças e parcerias ao serviço da Justiça e Paz. f) O mesmo pode-se afirmar da reflexão feminista baseada nas discriminações pelo sexo, com base numa sociedade patriarcal. g) Pode-se perceber igualmente, refletindo sobre os afro-descendentes, que reivindicam, juntamente com os indígenas, o reconhecimento das suas identidades, a demarcação das suas terras, a defesa e promoção das suas culturas, a resposta igualitária aos seus direitos e aos direitos da terra e do cosmo em geral. h) O mesmo poderíamos pensar ao referirmo-nos a grupos minoritários, tais como: portadores do Vírus HIV-AIDs, homossexuais, ciganos, migrantes, portadores de deficiências. i) Como seres vivos, nós – Missionários/as da Consolata – devemos sentir-nos parte integrante deste complexo, misterioso e maravilhoso organismo vivo, chamado cosmo. Com ele convivemos e interagimos, dele dependemos e com ele comungamos. Chegou a hora de descobrir que somos co-responsáveis e devemos ser compassivos com este sofrido presente de depredação, de exploração e descuido, comprometendo-nos a assumir atitudes mais efetivas e interativas em relação ao futuro.
Tudo isto nos deve dar coragem, vontade de viver e de lutar ao lado da vida mais enfraquecida, para que ela tenha vez e não morra antes do tempo, ou mesmo ainda antes de nascer.
Devemos sentir que tudo isto faz parte da nossa mística e espiritualidade, da nossa vocação e missão. É hora de recuperarmos toda essa “energia vital” que brotava das fontes antropológico-culturais, bíblico-teológicas, institucionais-carismáticas e juntá-las com a energia solidária e consoladora que brota dos numerosos “poços de água viva” abertos nos diferentes campos de missão, animando a natureza e revitalizando as comunidades humanas e cristãs, para injetá-la em doses de mística e coragem em todos e cada um de nós, “consagrados para a missão ad gentes” no Instituto da Consolata, como Presbíteros, Irmãos, Irmãs ou Leigos/as, servidores da vida e do Reino do Deus do velho Noé e do novo Jesus de Nazaré.
Para os nossos Institutos, de conformação e estrutura internacional, e com presenças missionárias em contextos bem diversificados, torna-se necessária a diferenciação contextualizada na hora de falarmos de “novas formas de consolação: Justiça, Paz e Ecologia, integradas na evangelização-transformação”, na hora de fazermos as escolhas de presenças missionárias e de exercermos o Ministério de Consolação-Libertação, enquanto nos agremia a participação profética, ativa e criativa na articulação desse tecido ou rede internacional ao serviço de uma Nova Ordem Social, respeitosa dos Direitos dos Humanos, dos países, da terra, da água, da energia e da criação em geral, nesta hora de exploração ambiental, de exclusão social, de imperialismo selvagem e anti-ético, gerador de invasões ideológicas e culturais, de explorações, guerras, fome e morte sem par.
Ao concluir, quero compartilhar um sonho inspirado e acalentado no “SOL” da Consolata:
O sol da ConSOLata
O dia nasce e, com ele, nós também; o dia passa e, com ele, nós também. A noite chega e, com ela, as trevas vêm: na escuridão da vida nasce a dor, a doença, o sofrimento e a paixão.
Porém, sempre haverá o porém: nas longas noites da solidão, está o sol; no desolado lar ou na assolada cidade, o sol também está. Não será o extremo entristecer a tomar conta onde o sol está: que nenhuma noite seja eterna, que uma qualquer desorientação não feche o Oriente, que ninguém ouse renunciar à Cruz ou ao cálice da paixão! Que a gente não esqueça de chorar porque... cada lágrima vem grávida do sol, do sol da Justiça e da Paz!
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NOTAS
1. Cf. SCHWANTES, Mílton, O Espírito faz história, CEBI-CECA, Nº 10, Belo Horizonte, 1988. 2. MEDINA, Salvador, Evangelio de Consolación – Isaías 40-55, Bogotá, 1984, pp. 17. 3. Cf. CAVALCANTI, Tereza, Espiritualidade Bíblica, CEBI, Nº 97, São Leopoldo, 1996. 4. CASALDÁLIGA, P. e VIGIL, J. M. Espiritualidade da Libertação, 158.
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