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I. AMAR APAIXONADAMENTE
Não podemos falar com tranquilidade da vida religiosa e dos nossos carismas, sem olhar para a realidade que está vivendo o nosso povo: tempo de seca. A população do interior vive a agonia da falta de água e de comida até para os animais. O povo simples não pensa em outra coisa. É a vida que está em jogo. Os jornais citam concretamente lugares bem conhecidos e queridos por nós: Jaguarari, Monte Santo, Filadélfia, Campo Formoso e outros... São lugares onde muitos de nós vivemos e trabalhamos, onde hoje nos reunimos para falar de vida religiosa e de carisma. Que fazer, como viver este "kairós", como haurir forças dos nossos carismas para vivermos de verdade uma vida religiosa inserida, que dê resposta e acompanhe o povo? Estamos vivendo um momento de grande sofrimento do nosso povo, que, sem dúvida, coloca à prova a força dos nossos carismas.
Ignorar esta situação, seria voltar as costas ao povo que devemos evangelizar; seria olhar narcisisticamente a vida religiosa. Se ignorássemos esta situação, seríamos religiosos acomodados, burgueses e sem amor. Seduzidos pelo Reino, significa: devemos viver o martírio deste povo.
Gostaria que a nossa reflexão partisse da consideração de algumas figuras bíblicas que, neste momento, nos podem ajudar a viver em plenitude a nossa vida religiosa, em sintonia com a vida do nosso povo: JONAS: ir mais longe. RUTE: estar mais perto. ELIAS: descer mais para baixo. JACÓ: entrar mais para dentro.
1. JONAS: IR MAIS LONGE
Jonas vivia tranquilo e ordenado. Tinha, como o filho mais velho da parábola, as fronteiras muito definidas acerca dos bons e maus; sabia quais eram os destinatários do amor de Deus. Sabia também quais os lugares onde devia profetizar. Conhecia perfeitamente os dogmas, era cumpridor e observante, continuador da tradição profética mais segura na linha do "carisma profético". De repente, Deus irrompe na sua vida como um vendaval, quebra fronteiras e limites. Jonas sente-se ameaçado. Eis que aparece a seca neste sertão, que rompe com a nossa quotidianidade. Que fazer? Fugir para Társis? E Társis está ao alcance das nossas mãos: vamos para outro lugar, refugiemo-nos junto ao rio tranquilo do espiritualismo, fechemo-nos em nossos pequenos mundos, no espiritualismo e no pessimismo.
- Como assumir a aventura de Nínive-seca neste momento angustiante da vida do nosso povo? - Como sair agora dos nossos limites e fronteiras para ir ao seu encontro?
2. RUTE : ESTAR MAIS PERTO
Rute, figura feminina delicada, uma das narrações didáticas mais belas do Antigo Testamento. Noemi, a sogra, perde marido e filhos na terra de Moab e decide voltar a Belém, a sua terra. Rute, contra toda lógica e previsão, toma uma decisão arriscada e insensata: quer ficar perto de sua sogra, acompanhá-la num futuro incerto, estar com ela para o bem e para o mal, ficar com ela em qualquer circunstância. "Não insista comigo. Não vou voltar, nem vou deixar você. Aonde você for, eu também irei. Onde você viver, eu também viverei. Seu povo será o meu povo, e seu Deus será o meu Deus. Onde você morrer, eu também morrerei e serei sepultada. Somente a morte nos poderá separar" ( Rute 1,16-18). O livro começa a narrar situações difíceis: fome, miséria, migração forçada, morte, carência de terra. Um quadro bem parecido com a situação que o nosso povo vive neste tempo! Pelos caminhos da cotidianidade – Desafio para a Vida Religiosa e desafio para todos nós nestes momentos. O sertão, agora, é lugar e espaço para vivermos radicalmente o Evangelho. Mas está exigindo rupturas. Certas vezes ficamos “à margem” daquilo que acontece ao nosso povo. A insegurança do nosso povo contrasta com a segurança que temos a todos os níveis: espiritual, material, econômico. Das coberturas normais estamos fazendo uma magnífica e confortável instalação, que nos tira a liberdade do anúncio e da denúncia. Estamos nos acostumando a utilizar internamente um vocabulário repleto de palavras redundantes: opção, missão, contemplação, inserção, inculturação... São realidades muito importantes, mas devem ser avaliadas com o comprovante da opinião do povo pobre e sofrido, ou seja, não devemos fugir dos momentos conflitivos da vida, devemos manter-nos fiéis à palavra dada, aguentar as situações duras, marcar presença ativa quando os amigos passam por um mau momento, aceitar de pertencer à camada humilde do povo que aguenta pacientemente o turno do posto médico, a chegada do ônibus, a fila na janela do banco, ou passar a noite sentado numa cadeira, para velar um doente. Precisamos de um noviciado que nos ensine a aprendizagem da "companhia solidária" com o povo, que nos ensine o jeito de nos relacionarmos com a gente humilde.
3. ELIAS: DESCER MAIS PARA BAIXO
As narrações que conservam a lembraça de Elias (l Rs 17 - 2Rs 2) apresentam insistentemente o tema da caminhada do profeta: vai ao encontro do rei, mas Deus lhe mostra que deve ir ao outro lado do Jordão... Depois para Sarepta, na casa da viúva... Ao Monte Carmelo, onde desafia os sacerdotes de Baal... Em seguida deve enfrentar o deserto, o Monte Horeb... E a vida no deserto é dura e desesperadora: escassez de comida, de água para beber... Uma situação dura e ameaçadora, e o profeta vive um momento de desespero e esgotamento: "O caminho é longo para as tuas forças". No Sinai sente-se bem, mas tem que descer...O profeta deve deslocar-se continuamente, mas num movimento descendente: rei...viúva... monte Carmelo... deserto... triunfo sobre os sacerdotes de Baal... a solidão ameaçadora do deserto.... Um kairós de descida – A descida rumo ao mundo dos pobres é irreversível. Ir mais para baixo foi o esforço que tantos homens e mulheres fizeram nos anos passados. E hoje, com a situação de fome e de morte em que a população se encontra, Deus nos pede, como a Elias, que desçamos mais para baixo, que caminhemos ao encontro deste povo. Sem abandonar os ideais da transformação, desçamos mais, para darmos de comer e de beber a um povo sedento e faminto. Esperar pela transformação, é semear o sertão de tantos mortos, como já aparecem nas páginas dos jornais. A experiência mística de Elias nos ensina e nos convida a assumir concretamente um compromisso: CARMELO-VIÚVA-DESERTO-HOREB. A vida de Elias é um subir e descer, mas um subir e descer no seu compromisso concreto com os mais pobres. - Contemplação e compromisso: como realizar isso, hoje, na realidade concreta?
4. JACÓ: ENTRAR MAIS PARA DENTRO
O quarto personagem bíblico é o Patriarca Jacó, o homem que entrou noite adentro num combate com Deus. A narração a encontramos em Gênesis 32,23-32. Segundo os autores, estamos perante um texto misterioso e obscuro, onde encontramos palavras-chaves: sozinho, noite, luta, amanhecer, nome, bênção... Jacó deixa tudo na outra margem, tudo aquilo que herdou, enganando seu pai. Entra na noite e começa aquela luta com um personagem desconhecido e misterioso, que no começo não fala. Jacó não se rende. Luta, até que consegue entrar em diálogo com o desconhecido e faz com que ele fale. Antes do amanhecer, as palavras pronunciadas são as primeiras luzes.
Como Jacó, nós também enfrentamos tempos escuros: tempo em que as coisas não estão claras nem para nós nem para o povo. A sombra da fome está aí presente. Jacó não abandona o combate, enquanto não lhe é revelado o nome daquele que luta com ele. Quer respostas às suas perguntas.
As perguntas que o povo sofrido hoje nos faz: - Como ter água e comida? - Que fazer com os nossos filhos e animais?
Que rumo dar à nossa luta, nesta noite de seca e de miséria? Para auxiliar a nossa reflexão, enumero algumas iniciativas que nos podem ajudar a fazer o discernimento: • A partilha daquilo que possuímos. • Animar o povo na procura dos meios de que necessita. • Dialogar e lutar com as autoridades que dispõem dos meios para ajudar o povo. • Convidar e apoiar os saques, onde os alimentos estão guardados. Os pontos que apresentei são para dialogarmos e discernirmos juntos, a fim de que a nossa vida consagrada seja "PARÁBOLA" no meio do nosso povo. "Lutar no meio da noite" não é fácil; talvez até sejamos atingidos por um golpe, como foi Jacó, e fiquemos “coxos” pelo resto da vida!
Para Jesus, narrar parábolas era arriscar sua vida. Representar suas parábolas, era pôr em jogo a vida. A vocação liminar da nossa vocação, aqui e agora, é narrar uma parábola que, a partir da periferia, lance um grito rumo ao centro, rumo àqueles que detêm o poder; lance um grito também às nossas instituições religiosas, às nossas casas provinciais e gerais, para que chegue até lá o grito do nosso povo faminto e sedento. Ser religioso(a) no sertão, escutar o grito que o povo levanta para nós, sem usar palavras, saber do que esta Igreja local está precisando, eis o grande desafio de hoje e sempre. Você está com dó de um povo que não lhe custou trabalho, que não foi você que o fez crescer? E eu, será que não vou ter pena do sertão, este território enorme, onde moram mais de seiscentas mil pessoas...? (cf. Jonas 4,10-11).
II. PROVOCAÇÕES – PROVOCADORES E PROVOCADOS
“Você tem ainda que profetizar contra muitos povos, nações, linguas e reis" (Ap 10,11). “Vós não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir" (VC 110).
A partir do Vaticano II a dimensão eclesial da vida religiosa ficou fortemente reafirmada e sublinhada. Segundo a Lumen Gentium não se pode falar da vida religiosa, a não dentro do contexto eclesial, e não se pode falar de Igreja sem ter em conta a vida religiosa. Para conhecer a dimensão eclesial da vida religiosa, de grande importância é o documento Mutuae Relationes, de 1978, onde se afirma que os institutos religiosos nasceram na Igreja e para Igreja, e que sua riqueza carismática deve ser colocada ao serviço da Igreja; e, por isso, a mesma hie¬rarquia defende e protege esta pluralidade de carismas (MR 14; 2; 15; 11). A eclesialidade da vida religiosa gerou, no decorrer da história, tensões e desafios: tensão entre vida religiosa e hierarquia; tensão entre Igreja universal e particular; tensão entre vida religiosa e laicato; tensão entre vida religiosa e jovens; desafio da vida religiosa perante a mulher; tensão entre vida religiosa e culturas; tensão entre vida religiosa e pobres. Vejamos alguns fatos: 1. As Irmãs da Palavra em Wafawaka, no Níger, abriram uma comunidade onde os confessores e pregadores dos retiros da comunidade deviam ser aprovados pela Madre Geral, que morava em Atenas, nunca participavam de nenhuma iniciativa da Igreja diocesana, não precisavam, evitavam a contaminação eclesial para salvar o próprio carisma. (Tentação de formar gueto e de isolar-se.) 2. O Bispo de Thusu, na Etiópia, precisava de um bom administrador. No mosteiro de Shashemane havia um monge cartuxo que foi um grande economista quando era leigo. O Bispo colocou a alternativa ao Abade, para que esse monge deixasse o mosteiro para administrar a economia da diocese. (Tentação de prescindir dos carismas e nivelá-los com a uniformidade, ou agir com eles de forma utilitária e/ou autoritária, manipulação dos carismas.) Os bispos desejam que a vida religiosa se insira na Igreja local, mas muitas vezes ela se mantém à margem da pastoral de conjunto, com a falsa desculpa de fidelidade ao próprio carisma. Esta tensão, antiga, torna-se mais aguda com a falta de clero, especialmente na nossa América Latina: a vida religiosa não pode nunca ser uma espécie de potencial de reserva pastoral, para preencher os quadros vazios das paróquias. Poder-se-ia cair na clericalização e paroquialização da vida religiosa, inclusive a feminina, com o risco de perder a sua identidade carismática e privar a toda a Igreja de sua riqueza pluriforme. Por outro lado, a generosidade às vezes pouco discreta da vida religiosa em assumir funções que não correspon¬dem aos carismas, acaba por freiar a iniciativa da Igreja universal na busca de alternativas à atual crise de ministérios ordenados. A vida religiosa, mesmo que esteja ao serviço da Igreja universal, deve inserir-se na Igreja local, deve sentir-se membro da Igreja diocesana, mas esta inserção deve ser feita respeitando a sua identidade carismática. A Igreja local não pode, em nome desta inserção, fechar-se à universalidade e riqueza dos carismas da vida religiosa (MR 18; 23; EN 64). 3. Os Padres de Jericó começaram a olhar ao redor de si. Estavam morrendo. As vocacões, no lugar que para eles sempre fora fecundo, se esgotaram. Fizeram o seu "discerni¬mento" e se tornaram "missionários" (a vida missionária oferece mais garra para os jovens). Foram para regiões fecundas e depois de trinta dias já tinham 10 postulantes. Naturalmente, os métodos eram os de Jericó. A sobrevivência congregacional estava acima da evangelização e/ou das necessidades do povo. A vida religiosa em outras culturas, mais ainda no nosso "sertão", tem pleno direito de ser algo mais que uma simples filial da vida religiosa em São Paulo, Madrid ou Londres. Un desafio para todos é refundar a vida religiosa a partir das culturas não ocidentais, abrir caminhos para que nasçam formas autóctones de vida religiosa. O tema da vida religiosa nas culturas populares, camponesas, entre os pobres, é um desafio, aqui e agora, para todos os presentes. Talvez este seja um dos desafios mais fortes que nos obriga a aprofundar as experiências da Igreja que nasce em Pentecostes, que em Paulo se abre às culturas dos "outros", dos "diferentes", e que deseja reconhecer as sementes do Verbo em todas as culturas (Santo Domingo 17; 138; 245). O olhar da Igreja local e da Vida Religiosa
Os olhos da hierarquia e dos religiosos/as devem voltar-se para a mesma direção: o povo. Mas como os olhos não são todos iguais, é lógico que as percepções sejam diferentes, porém complementares. Os estrabismos, miopias e vistas cansadas, de ambos os lados, podem estorvar a visão que ternos do povo. É bom que a Igreja local, religiosos e religiosas, se olhem nos próprios olhos, para conhecer a profundidade da alma. Se os olhos são o espelho da alma, é bom que paremos e nos olhemos mutuamente. O olhar da Igreja local
A Igreja local deve definir com clareza as necessidades reais do povo, as carências existentes. De acordo com isso, deve suscitar, apoiar e sustentar os carismas que podem ir ao encontro das carências e necessidades. Deve potenciar a fidelidade carismática acima das necessidades da instituição. A Igreja local torna-se assim mais rica e pode evangelizar com maior profundidade, quando os religiosos(as) vivem radicalmente os próprios carismas. O bispo é o promotor e sentinela dos carismas na Igreja diocesana. O seu olhar deve fixar-se na graça (carisma), não na norma ou na lei, ou no imediatismo das necessidades a cobrir. Deve oferecer espaços específicos para que os carismas possam evidenciar-se e o serviço pastoral seja qualificado e não simplesmente genérico. Vigie para que os religiosos(as) "procurem a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão" (cf. 1 Tim 6, 11). “Proclame para eles a Palavra, insista no tempo oportuno e inoportuno, advertindo, reprovando e aconselhando com toda paciência e doutrina” (cf. 2 Tm 4,2) e também com muita ternura. O olhar da Vida Religiosa A vida religiosa deve olhar com carinho e amor para esta terra do sertão, para esta Igreja e seu povo: estudando a historia, a caminhada do povo; deixando-se questionar pelas situações-limites que aqui se vivem; verificando como o próprio carisma poderia ajudar esta Igreja e este povo; assumir a terra, o povo, a Igreja para dar-lhes da própria espe¬cificidade... Olhar continuamente para Manaus, onde mora a Provincial, ou para Roma, onde reside o Padre Geral, produz a doença chamada "torcicollus carismaticus"... É bom lembrar que a Igreja diocesana tem os seus "areópagos", que nós – religiosos – temos que descobrir, para que possamos ser compreendidos e acreditados no que dizemos e fazemos, e também para produzirmos frutos na evangelização. Alguns elementos que a vida religiosa deve ter presentes nesta Igreja diocesana:
Não se vive só de pão (farinha e feijão), mas também de flores, de estética, de cultura. "Se tens duas moedas, gasta uma em pão e outra em flores" (provérbio chinês); recuperar as dimensões de cultura e religiosidade, de festa, de gratuidade, de experiência religiosa, de mistério, de transcen¬dência; aceitar os rostos diferentes que surgem entre os pobres daqui: mulheres, jovens, crianças, anciãos, afro-americanos, desempregados, sem-terra; superar o risco do messianismo, de sabor milenarista, voluntarista e moralizante; recuperar a dimensão do Espírito, sem a qual todos os compromissos se convertem em legalismos ou horizontalismos; passar do ÊXODO ao EXÍLIO, quer dizer, de uma situação onde se vê com clareza o objetivo a alcançar (terra de promissão) e a estratégia a seguir (sair do Egito e cruzar o Mar Vermelho), a uma situação de impotência, numa cultura e num império todo-poderoso onde não há alternativas claras nem lideranças (exílio)... Contudo, o exílio é tempo de purificação, de esperança, de profecia, de espiritualidade; passar da grande libertação às pequenas libertações do cotidiano, à profecia de Elias junto à viúva de Sarepta (um pouco de óleo e um punhado de farinha); passar das grandes gestas proféticas (Amós) à profecia da vida do dia-a-dia (Oséias e Sapienciais), sem perder de vista a grande utopia do Reino; passar do "ir à montanha" (revolução) ou "entrar no mercado" (neoliberalismo) ao “ir à casa do povo", na quotidianidade, onde o povo vive a sua vida pobre e simples; passar da estratégia do MACRO (mudança total de estruturas, revolução total, poder...) à estratégia do MICRO, (CEBs, grupos de mulheres, jovens, direitos humanos, associações...), formando uma rede de conexão inter-grupal ; passar dos ideais ambiciosos dos filhos de Zebedeu (ocupar os primeiros lugares) à pará¬bola do fermento e da semente.
III. OLHAR PARA A COMUNHÃO
O carisma da Instituição (Igreja) e o carisma da Profecia (Vida Religiosa) não são antagonistas, mas complementam-se. São chamadas a aprofundar o mistério da comunhão nas suas múltiplas dimensões: a) comunhão teologal na experiência da comunhão trinitária; b) comunhão eclesial: pela fé e o batismo formamos parte da Igreja, povo de Deus; experiência de fraternida¬de de todos os batizados em Cristo; c) comunhão pastoral com os pastores responsáveis do serviço da unidade da Igreja na missão; d) comunhão solidária com os pobres e os diferentes, em vista da construção do Reino. Esta comunhão faz transbordar o eclesial e o eclesiástico e nos abre à missão do Reino; é como a eclesialidade mais radical e primeira: a solidariedade. OLHAR O NOSSO PRESENTE E NOSSO FUTURO Nossa vida religiosa aqui no sertão é vocação “fronteiriça”. É vocação “fronteiriça” quando se converte em "escândalo e sinal" de contradição, quando a sua carne é simbólica, quando se situa onde quase ninguém se situa. "Castidade, pobreza e obediência" é o nome que damos a este espaço existencial de fronteira. Castidade, ou seja, colocar-se entre os solitários, os corpos secos; pobreza – colocar-se entre os que não possuem nada; obediência – colocar-se entre os condenados à morte de fome, de sede, de sem-terra. Não é fácil chegar a esta fronteira, viver nela, soportá-la e sustentá-la. É necessário manter a abertura do limite. Dialogar e conversar com ele. A estabilidade é necessária; e deveria ser um voto dos que moramos neste sertão, para entender, assimilar, ser dom e sinal para este povo. O nosso "status" não seria mais "perfectionis", mas "liminalis". Talvez muitos de nós não fomos formados para morar na fronteira ou no limite sociológico. A situação-limite ou fronteiriça não tem razão de ser se não for carisma... O carismático não é o exclusivo, mas o comum acentuado, matizado, enquadrado. O carismático não se justifica em si mesmo, mas pela função que exerce na realidade que o atinge. Nas situações-limite do nosso povo os diferentes carismas deveriam, de diferente modo: - abrir caminhos, profetizando; - oferecer uma experiência apaixonada do Absoluto; - oferecer uma nova perspectiva: a boa proposta que apresentamos à Igreja local deve ser da Igreja local, feita com a Igreja local e para a Igreja local; - ler o passo de Deus na história deste povo e oferecê-lo; - onde há um sofrimento, uma “paixão” (fome, sede, escravidão), aí está Deus “apaixo¬nando” a pessoa pela pessoa.
Começamos com o Apocalipse, que nos convidava a profetizar, e concluímos com o profeta Joel: “Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre todo o ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos e vossos jovens terão visões. Naqueles dias derramarei também o meu espírito sobre os escravos e as escravas” (Joel 3,1-2).
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