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A nossa metodologia no nordeste PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Ramón Cazallas Serrano, imc   
03 de April de 2006

Método e objetivos caminham juntos. Pode-se falar de metodologia, quando os objetivos são claros. Conhecendo-se os objetivos (que fazer), é fácil encontrar a metodologia (como fazer). Acontece também, às vezes, que os objetivos são conhecidos, mas não são alcançados, porque não se sabe como fazer (metodologia). Mas a metodologia nasce também de um contexto, de uma ideologia, de um carisma, de uma mística.
Segundo Lonergan, "o método é um esquema normativo de operações recorrentes e conexas entre si que oferecem resultados normativos e progressivos".
Há métodos cujas operações são distintas, onde cada operação está em relação com as outras, onde o conjunto das relações constitui um esquema, onde o esquema se descreve como o modo justo de fazer uma coisa, onde as operações que se realizam segundo o esquema podem repetir-se indefinidamente e onde os frutos de tal repetição não são algo que simplesmente se repete, mas que tem a característica de serem cumulativos e progressivos.
Os resultados ou frutos são progressivos, se há uma série de descobrimentos e de realidades novas. E são cumulativos se há um lugar, uma síntese com os resultados precedentes como ação da inteligência.

Há métodos a todos os níveis, a partir do nível transcendental válido para todos os campos em cujo esquema se conectam entre si as operações de:
- observar atentamente,
- entender,
- razoar criticamente,
- decidir.
Os esquemas do método próprio das ciências naturais conectam entre si as operações de: experiência - observação - descrição - problemas identificados - descobrimentos como resposta aos problemas - hipóteses para apresentar o descoberto - implicações – experimentações - resultados cumulativos e progressivos - confirmação das hipóteses - novas hipóteses - novos descobrimentos.
No campo da pastoral, foi muito popular o método VER-JULGAR-AGIR, que atualmente se complementa com outras ações metodológicas, assim:

1. VER
a) descrição dos fenômenos, das tendências, ou dos problemas;
b) diagnóstico estrutural, causal, conjuntural.

2. COMUNICAR
a) com linguagem narrativa,
b) ou também com linguagem científica,
c) a partir das múltiplas perspectivas dos observadores.

3. JULGAR
a) reflexão cultural,
b) reflexão teológica (leitura de fé).

4. AGIR
a) planejamento,
b) programação,
c) executar, seguindo o lugar e as circunstâncias.

5. CELEBRAR
a) revelar a dimensão litúrgica e sacramental,
b) anunciar e alimentar a utopia cristã: a Páscoa,
c) explicitar e revigorar a fé do povo de Deus.


Outro exemplo de método pastoral foi a formação da Igreja local nas diversas operações.
O método para um tempo de mudança cultural compreende um esquema de seis operações:
• Tomar em consideração a prática cultural questionada hoje.
• Fazer um análise do passado, pois em momentos de crise é importante entender a história para relativizar a crise ou compreendê-la na sua justa dimensão.
• Formular perguntas sobre o assunto que não tem uma resposta imediata. Às vezes surgem suspeitas que se constituem como desafios.
• Referir-se à experiência de fé. A última palavra deve vir da Palavra de Deus. Que
nos diz o nosso carisma no caso de missioários (as)?
• Do encontro dos dados obtidos nos passos anteriores, determinam-se as orientações gerais para a ação. Quando se vai do passo "C" ao atual, sem passar pelo passo "D", acaba-se por dar respostas e orientações segundo a mentalidade do mundo atual, mas não segundo a visão de Deus.
• Tomada de decisões e nova maneira de agir. As decisões se tomam segundo a situação particular, em consideração e relação com os passos anteriores.
Sartre escreveu “O problema do método”. O título já traz uma mensagem. Em determinado momento, temos que ver o método como problema. Seria uma desgraça (e é realmente) se os nossos métodos não chegassem a ser considerados um problema. Terminaríamos numa estéril e mecânica repetição, sem referências às situações concretas que mudam com tanta frequência. Justificamo-nos, dizendo: "Fiz sempre assim e sempre colhi bons resultados". Ora, temos que nos perguntar: O método que uso é o melhor, ou há outros melhores? Sua bondade é real ou aparente? É um método espontâneo ou forçado? Eis porque é bom não considerar o método como uma posse pacífica, mas como algo que gera interrogativos. O método, às vezes, deve ser questionado, problematizado.
Como conseguir que o método seja um problema?

Cada um de nós, no trabalho que faz (missionário, pastoral, etc.), conhece uma série de formas concretas de ação, que constituem a própria prática em fazer algo, isto é, sabemos usar essas formas concretas. A prática tem necessidade de uma explicação teórica que a ilumine, que dê explicação, que a justifique. A prática pede uma teoria e a teoria pede uma prática. É o círculo ideológico.
Em particular, a atividade missionária (prática) pede uma missiologia (teoria), e esta exige uma prática. Este é o círculo missiológico.
Que acontece quando o círculo se torna insuficiente para enfrentar os problemas atuais, os sinais dos tempos, ou uma realidade nova? Em determinado momento somos chamados a pôr em crise esse círculo, declarando-o um problema, que deve ser superado, que necessita de transformação.
Esta situação, que a nível de pessoas ou de instituições podemos denominar “problematizar o próprio método”, a nível de ciências chama-se "rompimento do paradigma". Quando um paradigma não explica os novos fenômenos e não os pode integrar, esse paradigma deve ser superado por outro. Se a ciência não pode elaborar o seu próprio paradigma, este é declarado inútil.

Deixemos a ciência e voltemos ao problema dos nossos métodos e perguntemo-nos: Quando percebemos que o nosso método pode já não estar à altura dos desafios, como o problematizamos? É também o momento de perguntarmo-nos: Devo mudar alguma coisa na minha prática? Ou, talvez, a prática é adequada, mas não a teoria? Devo mudar algo na minha ação missionária? ...

Estas perguntas são formuladas como uma suspeita metodológica de que alguma coisa deve mudar. Embora nos formulemos muitas perguntas, no mais das vezes continuamos como antes... O que é que está faltando ainda?
É preciso abrir-se a uma experiência, a uma prática diversa. Na diversidade tomamos consciência do que estamos realizando. Outras maneiras de agir podem ser iluminadoras. A partir do ponto de vista da atividade missionária, abrir-se a outras atividades missionárias; fazer novas experiências missionárias é constituir pontos referenciais para melhorar a nossa própria prática.
Outro aspecto: muitas vezes, embora afrontando novas práticas e experiências, continuamos do mesmo jeito. O que falta? Falta isto: é preciso que a nova prática seja acompanhada de um mínimo de teoria que a ilumine. Se faltar a teoria, é difícil que a nova experiência gere uma suspeita, conduza a uma mudança, motive a revisão do próprio método.

Atividadade missonária e iluminação missiológica.
A nova missiologia suscita o desejo de mudar, quando vem acompanhada de um mínimo de pratica.

METODOLOGIA MISSIONÁRIA NO NORDESTE

Entre as orientações para uma metodologia de trabalho no Nordeste as mais decisivas são estas primeiras duas: coração e imaginação. Nesta dupla, e não tanto na vontade ou na razão, está o segredo do trabalho. O povo por aqui não se mexe pela força de vontade ou pelas razões, mas em virtude de emoções e imagem. Por elas vive e por elas morre.

1. Falar ao coração
O povo entende a linguagem do coração ou do sentimento. A religião é, por excelência, o campo do "numinoso", do mistério. Uma celebração religiosa que não possua, ou não favoreça una atmosfera de sacralidade e mistério, falha em seu objetivo.
Mas não se pode ficar apenas ao nível do sentimento. Importa ir além. Necessita-se da razão, caso se queira dar um sentido justo e libertador aos sentimentos. O povo não deixa a cabeça em casa. Trabalha a partir e no interior do seu mundo afetivo.

2. Apelar para a imaginação
O coração é quem manda. Mas a linguagem do coração é a imagem. Quando bem trabalhada, a imagem possui um poder mágico: encanta, fascina, seduz. As imagens que tocam o nosso povo:
- Símbolos. Evocam os valores profundos ou realidades vitais do povo. Eis alguns: a cruz, a figura da Virgem, a bandeira, o símbolo do partido, o mandacaru...
- Analogias. São as comparações. Os exemplos mais claros são as parábolas, a linguagem
de Jesus. Raciocínios lógicos e fechados não valem, mas sim os analógicos.
- Exemplos. As ilustrações de casos concretos ajudam muito a transmitir uma ideia.
- Gestos. Sobretudo na liturgia.
Não tudo é imagem, mas deve ser privilegiada. Seria ceder à irracionalidade? De modo algum.
A razão não deve ser tudo: deve ordenar tudo, inclusive o coração e a imaginação. No coração
está a força; na razão, a direção.

3. Usar uma linguagem simples
A regra de ouro na linguagem é falar de coisas muito simples. Isso não significa repetir lugares-comuns e banalidades. A simplicidade de que falamos é a simplicidade das coisas essenciais, vitais, radicais, nucleares, e não absolutizar um elemento relativo. Não tem nada a ver com as "idéias claras e distintas". A compreensão deste povo é menos lógica que psicológica. Sem idéias claras, o povo sabe o que significam os ideais de liberdade, dignidade e justiça. A linguagem difícil e técnica impressiona, suscita admiração e temor reverencial. “É jogar areia nos olhos do povo".

4. Apelar para a experiência histórica
Fazer referência à sua experiência real, e em primeiro lugar à experiência presente. Oferecer uma linguagem à dor e à esperança, que o povo muitas vezes vive de forma muda. Valorizar a experiência passada (que chamamos de memória histórica) e tirar as lições que daí provêm.

5. Favorecer a participação ativa
Isto vale para o nosso ser missionários. Que façam eles. Valorizar e oferecer espaços para a ação.

6. Lembrar que somos transitórios ou itenerantes
Pensar que alguém nos deverá substituir e continuar o trabalho que fazemos... Pensar no que deixamos, e como continuará ou crescerá o que plantamos... Acabou a hora de erguermos monumentos pessoais ou institucionais!

7. Valorizar o canto e a poesia
O canto e a poesia animam, alegram e ensinam.

8. Valorizar os gestos corporais
O agente não comunica só com palavras e idéias, mas também com sua pessoa, com o seu corpo, com as coisas. Grande é a importância dos gestos simbólicos.

9. Recorrer ao aspecto lúdico
O sentido da alegria, do humor, da brincadeira, e mesmo de certa "carnavalização" (Salvador) ou "sãojoanismo" (Jaguarari, Bonfim, Monte Santo).

REGRAS PRÁTICAS

1. Convivência
Sem comunhão não há libertação. Partir para o meio dos excluídos... Romper com a distância. É o ponto zero da caminhada.

2. Acolhida
Ser acessível. Receber bem, com educação, com gentileza. O primeiro acesso é decisivo em toda relação.

3. "Pedagogia da pele"
Toque. Afago. Abraço. São gestos que falam mais que as palavras. Os excluídos sentem falta de aconchego, de carinho, de colo. A sociedade lhes é madrasta.

4. Tratar bem
Ouvir com calma, sem nervosismo, sem pressa. Sem mostrar-se incomodado. Os que nos procuram para falar, que ao sair possam dizer: "Pelo menos fomos bem tratados".

5. Consolar
"Fortalecei os joelhos vacilantes" (Hb 12,12; Is 35,3 ). Curar suas muitas feridas. Perante “ao que fazer”, fica sempre a missão de “consolar”, de suscitar esperança.

6. Esperançar (dar esperança)
Alentar o ânimo. Encorajar. Utilizar uma linguagem que fale ao coração. Longe toda expressão de derrotismo, como: "Não adianta!" "Não dá!" Usar, pelo contrário, palavras que suscitem esperança: "Você pode!" "Você vai vencer!" "Vá em frente!"

7. Iluminar
Informar. Esclarecer. Orientar. A ignorância faz parte da miséria. "Até agora a ignorância nunca prestou bom serviço a ninguém".

8. Valorizar o mínimo
"Não apagar a mecha que ainda fumega" (Is 42,3; Mt 12,20). A evolução que aguenta e resiste é a molecular. É a "atômica", feita de agregação de átomos. Até um elogio tem seu valor, como, por exemplo, dizer a uma mãe que tem o bebê no colo: "Que bonita criança a senhora tem!"

9. Alívio imediato ao sofrimento
É um imperativo da vida. Salvar a vida ameaçada passa à frente de toda lei, seja ela civil ou religiosa. E passa à frente de qualquer política.

10. Proteção
O excluído busca quem o proteja. Por sua situação de abandono, a dependência, para ele, é questão vital. Daí a busca de padrinho poderoso (vereadores, gente de São Paulo...). É como âncora de salvação. Devemos ser paternos sem paternalismo. Melhor é ser “o irmão mais velho"...

11. Assistência
É direito do povo e dever do Estado. Válido para toda pessoa humana. É forma elementar de solidariedade. Ser "samaritano" para com o "caído".

12. Reforçar os laços de solidariedade
Fortalecer a rede de relações entre os pobres nos grupos de amizade, de encontro. Favorecer as formas de organização por mais elementares que sejam. Alimentar a cultura da "solidariedade" contra o "individualismo da miséria" e do neoliberalismo.

13. Reciprocidade
Relação pedagógica: de indivíduo a indivíduo. O pobre também tem “riqueza” para oferecer. Igualdade de base também com o excluído. Que permaneça sempre indivíduo.

14. Mediação política
Necessária a "política implícita". Sobretudo para superar estruturas de exclusão. Desenvolver o senso de cidadania nos excluídos. "Conscientização" política à maneira deles, que é mais sensibilização. E lutas possíveis: ocupação, pressão, manifestação.

15. Cuidar
Tarefa que resume todas as outras. "Pastor” (“Pastora”): título de todas as culturas antigas em referência aos dirigentes do povo. Pastorear: vigiar e estar atento(a), reunir e conduzir, proteger e defender, acudir e libertar.

16. Ativos na contemplação
Dar o sentido de transcendência a todas as atividades que realizamos. O Deus que contemplamos é um Deus ativo: "No princípio Deus criou”... "Por meio da Palavra foram criadas todas as coisas..." O Deus da Bíblia é um Deus comprometido com o seu povo.

Em muitas proposições elencadas acima não se vislumbra, por acaso, o modo de pensar e de agir do Bem-aventurado José Allamano, e também a metodologia dos primeiros missionários e missionárias do Instituto? A metodologia é adquirida com a experiência da caminhada; os missionários não foram para a África com ela. Levaram coração e imaginação, isto sim. E daí nasceu o jeito de fazer, o jeito de estar com o povo e de se relacionar com a ele...
Hoje, é claro, não podemos fazer como eles e elas fizeram; podemos, porém, “recriar” certas atitudes e também muito do estilo de vida de que eles e elas nos deram o exemplo.


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