Narrow screen resolution Wide screen resolution
A espiritualidade do ser "Chamados" e "Enviados" PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Antônio Bellagamba, IMC   
03 de April de 2006

UM ESQUEMA (1a. parte)

Introdução

O último Capítulo Geral do Instituto desenvolveu uma compreensão renovada do nosso ad gentes, em atenção aos novos contextos do mundo, da sociedade, da Igreja e em consonância com os desenvolvimentos da teologia da Missão. Os esforços dos que elaboraram o texto, antes e durante a celebração do Capítulo, produziram fruto. Os Atos do Capítulo deixam um vestígio indelével acerca do futuro e as novas dinâmicas de trabalho do nosso Instituto.

À luz do renovado conceito do ad gentes, o Capítulo pede a todos os Missionários da Consolata que assumam novas e renovadas atitudes na própria vida e atividade missionária, para acolher uma nova visão de Missão, capaz de injetar novo vigor na Missão mesma e naqueles que a realizam. Propõe igualmente um vigoroso esforço de formação permanente, para preencher a distância existente entre os atuais contextos que desafiam a Missão e a nossa maneira concreta de realizá-la.

Num de seus desejos mais importantes, embora menos vistoso talvez, o Capítulo convida os membros do Instituto a estabelecerem um diálogo entre si, para desenvolver uma espiritualidade do ser “chamados” e do ser “enviados”. O Capítulo considera importante este diálogo, enquanto propõe o desenvolvimento de uma tal espiritualidade tanto aos missionários que se encontram no campo de trabalho como aos estudantes que estão na formação: “As Conferências e as Assembléias anuais de circunscrição... ajudem os seus missionários a crescer na espiritualidade de “chamados” e “enviados”. No caminho formativo e no Diretório Regional da Formação proponham-se meios concretos para evidenciar a espiritualidade do envio e do regresso, para crescer nela e para avaliar a sua interiorização por parte dos estudantes. Coloque-se isto como critério para a aceitação no Instituto”. (2)

A busca de uma espiritualidade missionária autêntica e sólida sempre ocupou lugar de destaque no coração de missionários, formadores e superiores. Como elaborar uma espiritualidade que possa servir de verdadeira escora na difícil vida missionária? Como ajudar os missionários a “permanecerem” na fronteira do mundo e da Igreja, sem que sejam queimados, ou esmoreçam no fervor? Como alimentar o entusiasmo e o empenho dos missionários, para que não se dobrem ou afrouxem perante os compromisso assumidos?

Quisera, com o presente artigo, iniciar um diálogo entre nós – missionários – exatamente sobre este tema. O convite do Capítulo não pode perder-se ou ficar desatendido. Experimentemos juntar alguns princípios, traçar algumas linhas-mestras, elaborar um esquema, para dar início a um diálogo. É possível construir uma espiritualidade missionária na base do ser “chamados” e “enviados”? Tal espiritualidade, que relação teria com a espiritualidade própria do Instituto, inspirada pelo Fundador e cara aos missionários?

Este exercício não me é novo. Debati estes temas durante toda minha vida, porquanto sempre me interessei de uma espiritualidade que fosse fonte vital para minha vida missionária. Nos anos ’70, era encarregado do U.S.Catholic Mission Council, e muitas comunidades missionárias me pediam que as ajudasse a refletir sobre uma autêntica espiritualidade missionária. Em seguida, nos primeiros anos da década de ’90, publiquei um livro na Editora Orbis Books, intitulado: Missão e Ministério na Igreja Global. Naquele livro, desenvolvi o mesmo tipo de espiritualidade que havia elaborado nos anos anteriores, dando-lhe talvez uma visão mais ampla na parte referente à identidade e ao papel do missionário. Depois, quando veio a lume a Encíclica Redemptoris Missio de João Paulo II, publiquei um breve comentário, onde desenvolvia uma espiritualidade missionária totalmente diversa em relação à precedente. Baseava-me nas linhas-mestras do capítulo VIII da referida Encíclica – que trata precisamente da espiritualidade missionária – acrescentando diversos outros elementos da Encíclica, certo de que poderiam ser perfeitamente encaixados no esquema, para que daí resultasse uma espiritualidade criativa e dinâmica.

Sinto-me agora novamente desafiado pelo Capítulo a elaborar e desenvolver uma espiritualidade alicerçada sobre os conceitos do “chamado” (ser chamados) e do “envio” (ser enviados). Farei quanto puder para assumir o desafio; mas sei também que, sozinho, não conseguirei dar conta do recado. Eis porque convido a todos – missionários, formadores, estudantes, e quantos queiram contribuir – para que participem desta tentativa, a fim de que possa nascer deste nosso esforço algo de bonito e proveitoso.

O presente artigo, portanto, compõe-se de três partes: uma definição de espiritualidade, comumente aceita pelos mestres de espiritualidade; uma síntese esquemática da espiritualidade que nos interessa (para ter sob os olhos uma visão geral dos conteúdos); um desenvolvimento final de cada um dos elementos da síntese, comparando-os com o ensinamento do Padre Allamano, a fim de descobrir neles eventuais semelhanças e diferenças, e para sua complementação.


Uma definição operativa de espiritualidade

Definir a espiritualidade é uma tarefa quase impossível, como contar as estrelas do céu. Há espiritualidades segundo as categorias de pessoas presentes na Igreja: para casados e não casados, para solteiros e viúvas, para sacerdotes diocesanos e sacerdotes religiosos, para homens e mulheres, para crianças e adultos, para leigos e consagrados... Há espiritualidades de acordo com as culturas dos povos: de fato, falamos de espiritualidade africana, asiática, latino-americana, pós-cristã... Há espiritualidades do tipo que as religiões as fizeram surgir: espiritualidade cristã,
budista, indu... No seio do próprio Cristianismo há espiritualidades diversificadas, que se adaptam aos Fundadores das grandes Ordens religiosas: espiritualidade beneditina, espiritualidade jesuítica, carmelitana, franciscana, espiritualidade de De Foucould...

Nos últimos anos, os assim chamados Movimentos de Igreja deram também origem a espiritualidades próprias: Opus Dei, Comunhão e Libertação, Focolarinos, Neo-catecumenais...
Há, enfim, espiritualidades baseadas na Palavra (espiritualidade bíblica), ou na Liturgia (espiritualidade litúrgica), nos Sacramentos (espiritualidade sacramental), ou sobre Maria (espiritualidade mariana)...

Haverá possibilidade de encontrar, em todas estas espiritualidades, alguns elementos que as permeiam e que possam, portanto, tornar-se o “denominador comum” de todas as espiritualidades?

Por espiritualidade entendemos um estilo de vida, que emana de alguns princípios, os quais, por sua vez, refletem a identidade de uma pessoa ou grupo, exigindo atitudes e ações que caracterizem aquele particular estilo de vida, de relação e de trabalho. Eis, portanto, os denominadores comuns: identidade, princípios, atitudes e ações que permitam a uma pessoa ou grupo viver e agir em determinado modo, com certo método de oração e de ação.

O Capítulo nos fornece os dois parâmetros da identidade do missionário: os princípios do “ser chamados” e do “ser enviados” ad gentes. Estes princípios produzem atitudes que se relacionam diretamente a eles, e que passamos a elencar abaixo. Por sua vez, estas atitudes exigem certas ações alinhadas com a identidade do missionário, que manifestem tal identidade, de maneira concreta, na vida do missionário.

Assim, uma pessoa “chamada” deve permanecer perto Daquele que a chama, ouvindo-o, deixando-se formar sempre mais segundo a sua imagem, imitando sempre mais o seu modo de agir, tornando-se um agente de salvação em suas mãos, em todo lugar e sempre (dimensão vertical da espiritualidade). Uma pessoa “enviada” ad gentes deve sempre ser capaz de reconhecer Deus em toda parte; deve ser capaz de caminhar em união com todas as pessoas guiadas por Deus, ainda que pertençam a outras religiões, raças e continentes, para poder tornar-se uma testemunha dos ensinamentos e da vida Daquele que a chamou, em qualquer parte se encontre ou viva; deve ser capaz de anunciar, no diálogo, as maravilhas da própria fé e orientar o povo que se encontra em situações difíceis; deve estar sempre disposta a mudar para outros lugares, dócil ao Espírito; deve estar disposta a assumir novos ministérios, a enfrentar novas situações (dimensão horizontal da espiritualidade).

Padre Antônio Magnante – Missionário da Consolata – escreveu um livro sobre espiritualidade missionária no Novo Testamento e nos Salmos. (3) Fazendo um rápido sumário, podemos dizer que sublinha as duas dimensões desta espiritualidade (ser chamados e ser enviados, em sua dimensão vertical e horizontal): “A espiritualidade missionária deve modelar-se sobre as palavras e ações de Jesus... Deve desenvolver uma sólida base cristológica, pois Cristo e seu Evangelho são o objeto da proclamação do apóstolo. Como já falei acima, o missionário não tem uma mensagem pessoal a oferecer (cf. carta aos Gálatas); portanto, não pode assumir o papel de um professor que oferece aos alunos um ensinamento pessoal, porque foi enviado somente para anunciar uma mensagem que recebeu... O missionário deve tender constantemente para Cristo,
para lhe assimilar os valores, os princípios, a verdade, até mesmo sua personalidade. Quando a vida de Cristo lhe tiver permeado as fibras mais profundas do ser, então o missionário será capaz de ser para o Reino, de doar-se para o Reino, de tornar-se tudo para todos. Este “doar-se” do missionário deverá ser manifestado em termos de um amor total e constante, de um empenho irrevogável em favor dos outros, mostrando a capacidade de suportar as numerosas fadigas por amor do Evangelho e de Cristo... A urgência do anúncio levará o missionário a forjar uma inquebrantável unidade com a própria mensagem e com os destinatários da mesma, até à doação da própria vida... A mensagem e seus destinatários constituem os elementos fundamentais de uma espiritualidade missionária. Esta espiritualidade deve oscilar continuamente entre estes dois polos: de um lado, uma imersão constante nas águas puras da Palavra de Deus, que é Cristo (dimensão vertical); de outro, uma doação generosa e sem reservas aos destinatários da mensagem (dimensão horizontal)” (4)


Esquema da espiritualidade “ser chamados”

Atitudes: Atividades:

- Permanecer com, estar com, ficar perto de... - Contemplação direta: permanecer com Deus somente.

- Ver, admirar, ser tocado por... - Contemplação indireta: estar com Deus através de outros,
através da natureza e dos acontecimentos.

- Ouvir, ser ensinado, ser instruído... - A Palavra de Deus como alimento normal para a nossa
espiritualidade, para o nosso caminho.

- Dialogar, partilhar com Deus e com os outros... - Oração comunitária, encontros comunitários, Projeto
Comunitário de Vida, revisão de vida, diálogo com
superiores, formadores, diretores espirituais, amigos,
partilha da nossa experiência de fé.

- Ser transformado, reformado, remodelado... - Papel do Espírito: para dar-nos forma, para modelar-nos,
para mudar-nos, agindo continuamente sobre nós.

- Servir a cada momento da nossa viagem. - Ministério jamais concluído do missionário.

- Descobrir, ver com maior clareza, tornar-se - O Deus que vem, que caminha com todos,que está presente
mais consciente de... em todo lugar, cuja ação envolve a todos.

- Testemunhar, tornar-se sinal e sacramento de Cristo para os outros, sinal dos valores do Evangelho, dos ensinamentos e exemplos de Jesus para todos.

- Anunciar, proclamar, partilhar uma mensagem nova, descoberta na Bíblia, com o exemplo
de todos, especialmente dos pobres.

- Guiar, tornar-se líder, ser ministro com espírito de comunhão, em sintonia com a Igreja
local e com o Instituto, para promover lideranças entre
os leigos.

- Estar aberto a mudanças periódicas - Espírito de desapego de nós mesmos, dos lugares familiares,
de ministério, de lugar... dos ministérios, de pessoas... Espírito de itinerância,
colocando-nos à disposição das necessidades da Missão
e dos superiores... Espírito de abertura ao novo,
ao diferente, ao desafio.


Breve descrição da espiritualidade proposta neste artigo

A) Ser chamados

Sob este título tenciono incluir aquilo que os autores espirituais chamam de “caminho interior”, a dimensão vertical, a relação com Deus, numa palavra, aquela parte da espiritualidade inspirada pelo “ser chamados”, com as atitudes e meios espirituais que ajudam a desenvolvê-la. Este é um aspecto da espiritualidade que alguns missionários, no passado, durante certo tempo, tinham dificuldade de aceitar, porque o consideravam um pouco estranho à realidade, uma perda de tempo (que podia ser usado melhor, por exemplo, ajudando o povo a resolver os seus problemas), ou algo como perscrutar o horizonte do mar, uma atividade parecida com narcisismo...
Agora todos chegamos a compreender sua importância, não só em vista de uma espiritualidade bem equilibrada, mas também pelo fruto mesmo do nosso trabalho. Esta é uma dimensão da espiritualidade já aceita, com a qual os missionários se sentem à vontade, para a qual procuram caminhos e meios que ajudem a desenvolvê-la sempre mais.

a) Ser chamados a permanecer com Deus, a ficar perto dele, a entrar em comunhão com ele, a permanecer em sua casa, a desejar comunicar-se com ele. A sede pelo Deus vivo está profundamente arraigada nos seres humanos; a busca de uma relação pessoal e mística com Deus é tão forte nas criaturas, que estas sentem a necessidade de lhe dedicar tempo para se relacionarem face a face, coração a coração. Este desejo faz nascer um caminho de contemplação direta.


A contemplação direta

É a atividade que nos coloca em relação direta com Deus, que deseja comunicar-nos o seu próprio SER. É ele que se manifesta a nós. O nosso, é um Deus pessoal, capaz de entrar em relação direta conosco, do tipo “eu-tu”. É também uma Pessoa amorosa, que deseja comunicar-se aos outros, numa partilha direta. Esta comunicação com o Absoluto não é concreta, nem pode ser expressa por meio de categorias. Na contemplação direta, Deus se comunica sem meios particulares. É uma comunicação de pessoa a pessoa, uma manifestação de coração a coração. Nela, é Deus o ator principal. É Deus que toma a iniciativa de todo o processo, que decide como levar adiante cada passo do mesmo, como também o grau e os efeitos de sua ação. Deus permanece totalmente livre em todo o processo. O que as pessoas podem fazer é desejar aquela comunicação, abrir-se a ela, oferecendo o seu tempo, criando uma certa atmosfera, mas não a podem causar. (5)

Vários modos de cooperar com Deus na contemplação direta

A contemplação direta é a manifestação imediata de Deus ao homem. As pessoas espirituais usam diversos métodos que as ajudam a acolher a partilha que Deus faz de si mesmo: o “jogging”, a meditação transcendental, o “Zen”, a oração de concentração, a oração de Jesus. Pessoalmente, prefiro a oração de concentração, pelas razões que explicarei mais adiante.

A primeira coisa que deveríamos fazer, quando nos abrimos à contemplação direta, é buscar a disposição conveniente. Se a contemplação direta é a manifestação de Deus a nós, então cabe a nós dispor-nos para acolhê-la. Como? A oração de concentração oferece linhas-mestras simples, que podem ser acolhidas por todos, em qualquer gênero de vida. São, na verdade, linhas flexíveis. Quando possível, deveríamos adotá-las; quando não for possível, deveríamos lembrar-nos de que Deus é o único ator do caminho da contemplação, e Deus pode dispensar as nossas regras e, não obstante, conceder-nos uma experiência mística.

Na medida do possível, a pessoa deve escolher um lugar tranquilo, onde haja silêncio. A solidão, o afastar-se de tudo e de todos, constitui um auxílio importante para a contemplação direta. Este passo nos oferece a possibilidade de criar uma espécie de “vazio”, que poderá ser preenchido pela presença de Deus e pelo seu partilhar conosco. (6) Se isto não for possível, não nos assustemos: qualquer lugar pode ser transformado em santuário para a comunicação com Deus.

A pessoa deve, portanto, adotar uma posição que a ajude a relaxar e sentir-se à vontade, de sorte que o próprio corpo não se torne um obstáculo, mas colabore com o exercício da oração. Um sentará na poltrona, estendendo as pernas sobre um escabelo; outro sentará no chão, apoiando as costas à parede... O importante é que a posição assumida ajude deveras a pessoa a relaxar o corpo.

O passo seguinte consiste em fechar os olhos, para se concentrar completamente em Deus, somente em Deus, desligando-se de qualquer outra criatura ou coisa que possa prejudicar a união com Deus, que deseja encher nossa mente com sua divina presença.

É bom, a esta altura, fazer uma breve oração, que nos ajude a reconhecer a presença de Deus em nosso íntimo, a reconhecer o desejo que Deus tem de compartilhar conosco, e nos ajude também a aceitar esta partilha. Pede-se a Deus, portanto, a graça de manter concentradas nele nossas faculdades todas, com o poder do Espírito. Esta oração deve ajudar-nos a lembrar este importante ponto: somente Deus pode fazer “acontecer” a contemplação direta; nós, por nós mesmos, somos incapazes; deve ajudar-nos a lembrar que nós dependemos totalmente de Deus e do Espírito, para que a contemplação direta aconteça.

O indivíduo, portanto, concentra toda sua atenção no íntimo do próprio ser, evitando de pensar, visualizar ou conversar com Deus presente nele, fazendo o esforço de concentrar todas as suas faculdades no seu íntimo, e controlando-as. Na contemplação direta nós somos passivos, somos receptores; porém, devemos fazer o máximo esforço para nos tornarmos disponíveis. “Estamos simplesmente naquela maravilhosa Presença. Uma Presença simples, plena, total... Desejamos permanecer aí, num estado de amorosa atenção... Pela fé, caminhamos para Deus, que habita a nossa profundidade”. (7)

Para tornar mais fácil este “permanecer com”, há quem prefira escolher uma mantra, uma palavra para sussurrar a si mesmo, quando percebe que as próprias faculdades começam a divagar longe de Deus, de Deus somente. Esta palavra pode ser: Jesus, Deus, Senhor, Espírito, Pai... Funciona como remédio à distração, que impele nossas faculdades para fora da concentração do nosso ser, onde Deus se manifesta à pessoa. Usamos esta palavra para nos mantermos concentrados em nosso interior, onde desejamos permanecer com Deus.

Deus, às vezes, se apossa de todas as nossas faculdades e as invade com sua presença. Quando isto acontece, o indivíduo sente-se como que absorvido por um OUTRO, numa existência sem espaço de tempo. Não perde completamente a consciência de estar em determinado lugar, mas encontra-se numa situação vaga, com a sensação de estar totalmente absorto e, contudo, não totalmente ausente. Quando acontece, a contemplação é uma experiência maravilhosa; e isto torna mais forte e mais fácil o seguinte exercício deste tipo de oração. Outras vezes, ao invés, Deus nos deixa em luta entre concentração e distrações, entre presença e fuga, entre “permanecer com” e “sair do” sujeito da contemplação. A mantra repetida pode ajudar-nos nesta luta, mas não a evitá-la totalmente. Quando acontece isto, não devemos assustar-nos, nem pensar que a oração não seja boa, ou que estejamos perdendo tempo. Lembremo-nos de que a contemplação é obra de Deus, que ele é fiel e que os frutos da contemplação estão garantidos, sempre que nós nos dispusermos a ela. Os frutos sempre são bons, quer nos deixemos absorver por Deus, quer nos sintamos cercados de distrações. Esta lembrança nos ajudará a prosseguir no caminho, a não abandonar o exercício da contemplação.

O momento apropriado para a prática desta oração contemplativa depende de cada pessoa. Todo momento é bom, desde que ajude o indivíduo a concentrar-se e a recolher-se interiormente. Às vezes, o tempo fixado para a oração passa rapidamente, sem quase percebermos; outras vezes, ao contrário, parece que o tempo passa tão devagar, que nos faz desejar que termine depressa.

A frequência desta oração contemplativa depende também do tempo disponível. Mas parece que podemos dizer que o espaço mínimo que se lhe possa dedicar são vinte minutos diários. À medida que o indivíduo se dedica a este tipo de oração, especialmente quando leva vida muito atarefada, pode sentir a necessidade de prolongar o tempo consagrado à contemplação, fazendo duas sessões ao dia. A fome e a sede de Deus aumentam de acordo com a fidelidade com que o indivíduo se entrega a este tipo de oração, e da experiência da partilha da vida divina em si. Quanto mais ocupado estiver, tanto mais sente necessidade de utilizar a oração de contemplação.

No final da oração, é aconselhável demorar-se alguns momentos para agradecer a Deus; e também para dispor de um breve espaço de tempo para passar da contemplação à ação.


Um método de oração apto para os missionários

Afirmei acima que, pessoalmente, prefiro este tipo de oração contemplativa, e a considero de modo particular muito conveniente e apta para os missionários, por diversas razões.
Antes de tudo, porque esta oração de concentração não é tão sofisticada, ao ponto de se pensar que seja reservada aos “profissionais” da contemplação. Pelo contrário, é uma das formas mais simples de oração que nos ajuda a entrar diretamente na contemplação de Deus.
Em segundo lugar, a oração de concentração está alicerçada sobre um sólido e tradicional modelo cristão de aproximação da contemplação. Suas raízes são profundas e mergulham na tradição contemplativa tanto do Oriente como do Ocidente. Os princípios teológicos da contemplação – somos morada de Deus, membros do Corpo Místico de Cristo, templo do Espírito Santo – são mais acentuados na oração de concentração do que na adaptação cristã de outras formas de oração contemplativa, como o Zen, a ioga ou a meditação transcendental.
A idéia de que a contemplação é um dom que Deus nos faz, sendo ele o único e verdadeiro protagonista, enquanto nós somos apenas os destinatários, cuja tarefa principal é colocar-nos à disposição de Deus, me é muito cara como missionário. Nós, missionários, andamos frequentemente cansados e sobrecarregados de compromissos. Rezar, nem sempre é fácil. Mas este tipo de oração não exige muito esforço. É um “abandonar-se” que restaura o corpo e a alma, enquanto nos abre ao Infinito presente em nós.

A terceira razão: a oração de concentração pressupõe a liberdade humana. Não impõe nada. Propõe um procedimento, insiste sobre algumas coisas consideradas úteis, mas depois deixa a liberdade de agir segundo a inspiração do Espírito e como a pessoa se sente chamada, seguindo o impulso dos próprios desejos interiores. É um bem para nós, como indivíduos, enquanto podemos adaptar também a mais simples das dinâmicas ao nosso próprio caráter e personalidade, mas revela-se extremamente útil, especialmente para nós, missionários, visto que podemos praticar a contemplação em qualquer parte do mundo, em contato com todos os diversos tipos e tradições de contemplação, podendo aceitar até mesmo algumas das dinâmicas praticadas em outras tradições religiosas.

Finalmente, em quarto lugar, a oração de concentração reclama somente uma parte razoável do nosso tempo. Os missionários não têm, geralmente, muito tempo à disposição. Devem dar acolhida e atendimento às pessoas que os procuram a toda hora, vindas talvez de lugares distantes, em busca de soluções urgentes, e que merecem ser atendidas. O volume e a variedade de atividades, na maioria dos lugares onde o nosso pessoal missionário trabalha, parecem aumentar sempre mais. Ter tempo é um bem raro para os missionários. Como disse, este tipo de oração não requer muito tempo, nem nos tira por longos períodos das tarefas que assumimos. O pouco tempo que podemos dedicar à oração torna-se, com este método, uma grande fonte de energia, de consolação e de riqueza espiritual.


O porquê da contemplação direta para os missionários...

A primeira razão é, sem dúvida, a importância que Deus tem em nossa vida. Se Deus, de fato, significa aquilo que nós continuamente dizemos – o nosso tudo, nosso único desejo, o fim de nossa vida – então temos simplesmente necessidade de estar em contato direto com ele. E para que isto aconteça, não podemos deixar de consagrar tempo a Deus, somente a ele, e permitir-lhe que encha com sua presença o nosso ser interior e o transforme do melhor modo possível no seu próprio Ser. Não podemos proclamar que Deus é tudo para nós, que dependemos dele em tudo e por tudo, sem dar-lhe atenção, ou limitando-nos apenas a oferecer-lhe um tributo formal. Se o grito do salmista: Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água (Sl 62,2), for deveras o nosso grito, então devemos abrir a nossa alma a Deus e permitir-lhe que entre nela, como a água penetra na terra ressequida e sedenta. A contemplação direta nos dá a possibilidade de abrir-nos a Deus e deixar que ele envolva o mais profundo do nosso ser.

O Capítulo Geral insiste muito sobre a necessidade de dar o primado a Deus – o absoluto da nossa vida: “A insistência do Fundador sobre o primado de Deus e sobre a santidade torna-nos atentos à dimensão contemplativa da Missão. Ela exige que tenhamos um forte sentido de Deus, da sua presença em nós e nos outros, da procura contínua dele e da sua vontade. A acentuação sobre Deus torna-nos capazes de amar o mundo com o seu coração”. (8)

Uma outra razão deriva do fato de que Deus é o sujeito verdadeiro e essencial da nossa missão. Se cremos nisto de verdade, então, seja qual for a forma concreta que a nossa missão assume, é lógico que devemos fazer o máximo esforço para conhecer a Deus da maneira mais íntima que for possível. Se, na verdade, tencionamos aprofundar nossa relação com Deus, através da nossa missão e do contato com os outros; se queremos ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo, é mister que tenhamos um bom conhecimento de Deus, não apenas um conhecimento teórico adquirido através do contato dos livros, mas através do encontro pessoal e constante com Ele, guardando sua amorosa presença no fundo do nosso coração e em nossa vida.

Afinal de contas, a missão é um discurso sobre Deus, uma descoberta de Deus, um modo de discernir a vontade de Deus a respeito da humanidade, um alinhar-se com aquela vontade. Somente missionários que estejam em contato direto com Deus serão capazes de penetrar o ser mesmo de Deus e de conhecer as suas orientações dadas ao mundo.

Uma terceira razão encontramo-la na necessidade que temos de nos tornarmos homens experientes na contemplação direta. Ver Deus através dos outros e nos outros será mais fácil se o contemplarmos diretamente. Ao contrário, descobrir Deus de maneira indireta não será fácil, e talvez nem será possível, se, primeiro, não formos capazes de descobri-lo diretamente. A contemplação direta possibilita, ou ao menos facilita o outro tipo de contemplação – a indireta – na qual deveremos ser pessoas hábeis e bem preparadas.

A quarta razão é de natureza mais psicológica. Nós – missionários - normalmente levamos uma vida agitada, muitas vezes sob pressão. Encontramos situações difíceis, que requerem solução; e, muitas vezes, estamos sozinhos, sem a possibilidade de consultar conselheiros ou pessoas experientes. Como poderemos suportar toda essa carga, sem correr o risco de sofrer um baque interior? Como poderemos manter a calma e a serenidade, se somos cutucados por situações escabrosas e difíceis? Como poderemos crescer na fé e em santidade, apesar de tais situações, ou então exatamente por causa de tais situações?

Os ministros interculturais podem ter um modo particular próprio para enfrentar as dificuldades que descrevi, e as congregações missionárias estabelecem, de fato, determinadas normas para ajudar seus membros, por exemplo, abreviando os períodos de trabalho missionário e alongando o tempo de repouso na pátria, prolongando o tempo das férias anuais, oferecendo programas de formação permanente mais frequentes.

Porém, minha experiência missionária e meu contato com missionários espalhados pelo mundo inteiro me dizem que muitos missionários colhem maior proveito pessoal da oração de contemplação do que de todos os outros meios acima citados. Este tipo de oração consegue realmente acalmar as pessoas fortemente estressadas e pressionadas, prepara-as para enfrentar situações ainda mais difíceis, sustenta-as nas condições mais exigentes da vida. Ao tomarem consciência de que Deus está presente nelas, recebem novo vigor, renovam suas energias, sentem a coragem de retomar seus propósitos, seus corações e suas mentes respiram um clima de paz e de tranquilidade, difícil de descrever.

A contemplação direta coloca os missionários em contato com Deus – que é presença real na vida deles – e recorda-lhes o Deus transcendente que vem. O Deus manifestado aos missionários na contemplação é o mesmo Deus percebido na história, na existência; todavia é o sempre novo, o sempre diverso Deus do “além”. A contemplação oferece aos missionários a capacidade de manter constante contato com aquilo que a vida lhes apresenta, dá-lhes a possibilidade de ver os acontecimentos na ótica de Deus, impele-os àquela transcendência que repousa na imanente presença do divino.

Concluindo esta seção, podemos afirmar: este tipo de contemplação é perfeitamente possível aos missionários, pois não exige longo espaço de tempo, nem pede dinâmicas difíceis. É uma contemplação fácil, porque pode ser feita em qualquer lugar e não impõe regras rígidas aos que a praticam. É uma contemplação necessária, porque faz dos missionários ministros interculturais mais preparados, possibilita-lhes cumprir seu ministério de maneira mais digna e cristã. É uma contemplação adequada à sua identidade de ministros interculturais. Entretanto, é preciso vigiar, porque, apesar do esforço e da fidelidade com que os missionários se dedicam a este tipo de oração, pode acontecer, às vezes, que permaneçam somente na casca deste tipo de oração, como simples amadores, sem jamais se tornarem experientes e hábeis. Se há, de fato, alguma coisa em que os missionários devem tornar-se experientes e hábeis é exatamente esta: a contemplação indireta.

b. Ser chamados a ver, a admirar, a ser tocados por Deus, que vive em todo o
universo e em todas as suas criaturas. Isto significa: praticar a contemplação indireta.


A contemplação indireta

Deus, a Trindade, manifestam-se também através das criaturas, dos acontecimentos e das situações concretas da nossa vida. Aquele Deus, cuja essência recebemos na contemplação direta, é o mesmo Deus que vive no universo, que continua a sua obra de criação, redenção e realização do seu Reino, que se comunica conosco através das situações da vida. Parece-me que este tipo de contemplação oferece aos missionários a possibilidade de perceber e de partilhar o Deus da história, o Deus do universo, e, no entanto, o Deus que sempre se revela como novidade. O jesuíta Rodrigo Mejia, ao comentar a expressão “procurar e encontrar Deus em todas as coisas”, que descreve de modo mais completo o carisma de Santo Inácio de Loiola, afirma: “Esta contemplação é mais que um exercício, é um programa completo de vida espiritual”. (9)


Os caminhos da comunicação de Deus na contemplação indireta

Não falo aqui de meios a usar, mas de alguns caminhos através dos quais podemos perceber e acolher Deus nos outros e por meio dos outros. Creio que sejam caminhos abertos, em primeiro lugar e diretamente para as pessoas envolvidos em situações interculturais, para que possam ver a importância deste tipo de contemplação e a ponham em prática.

O Deus criador se comunica, antes de tudo, através do universo, o cosmo. As maravilhas da criação vão muito além de qualquer descrição e imaginação. Tanto o microcosmo como o macrocosmo revelam o poder, a magnificência, a beleza de Deus. A tecnologia moderna, com suas invenções e novas descobertas, amplia ainda mais para nós esta revelação de Deus, de muitas maneiras. Com maior razão, portanto, devemos exclamar com o salmista: Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo! Desdobrastes nos céus vossa glória... Contemplando estes céus que plasmastes e formastes com dedos de artista; vendo a lua e estrelas brilhantes, perguntamos: ‘Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?’ (Sl 8,2. 4-5).

Os missionários vivem, frequentemente, em lugares onde a beleza originária do universo, como a flora e a fauna, ainda são visíveis; onde a magnificência do universo ainda não foi obscurecida pelas manchas e pela destruição praticada pelos que se proclamam senhores da terra. Como pode uma pessoa, na África, não ficar encantada perante um céu pontilhado de estrelas, perante a enorme variedade de flores e de animais daquela terra, e não abrir-se assim ao Deus Criador, que se comunica através de todas estas suas criaturas?

Os missionários, contudo, devem ir além. Devem descobrir o Deus universal, que vive e opera em todos os povos, culturas e religiões, na história e nos acontecimentos da vida dos povos. Mais
que contemplar Deus em sua essência, deveriam contemplar sua manifestação; mais que contemplar a vida interior de Deus, deveriam contemplar o Deus que se revela a eles. Enquanto os missionários contemplam deste modo, através das coisas visíveis, das coisas que tocam e experimentam, deveriam recordar que aquelas manifestações de Deus serão sempre diferentes, não só passando de uma pessoa a outra, de uma cultura a outra, de um povo a outro povo, mas também no seio da mesma cultura e do mesmo povo. A solidez, a universalidade, a historicidade, o “não ainda” destas revelações são o que constitui a essência da contemplação dos missionários, o campo específico de tal contemplação.

A Palavra de Deus também será revelada às pessoas em situações interculturais, mais que a quaisquer outras. Elas também, como todos, tomarão conhecimento desta Palavra nas Escrituras judeu-cristãs e confessarão a pessoa de Jesus – Palavra encarnada. Mas, além disso, terão maior possibilidade de se maravilhar perante aquela Palavra conscientemente expressa nos acontecimentos cósmicos, no valor da pessoa, expressa de mil maneiras diferentes, em todo o mundo. Os missionários em contato com outras religiões, deveriam ser capazes de ver nelas as prefigurações da Palavra, assim como os primeiros cristãos as viam na religião judaica. Deveriam descobrir aquela Palavra em todo lugar onde há valores, relações e frutos evangélicos. Deveriam perceber a revelação daquela Palavra quando vêem um autêntico chefe religioso despertar no seu povo o amor pelo Reino, ou por algum de seus aspectos. Os missionários deveriam poder ver a Palavra feita carne em cada comunidade que se reúne para aprofundar o próprio sentido do divino e para promover o Reino na terra. Os missionários, especialmente, deveriam ver a Palavra de Deus feita carne nos pobres que lutam para debelar a pobreza, nos que sofrem por causa da justiça, nos oprimidos que reclamam os seus direitos, nos fracos que lutam para obter seu justo lugar no mundo, nos sem-voz que tentam desesperadamente fazer-se ouvir, nos marginalizados que não querem considerar como definitiva a sua situação, nos explorados que reclamam igualdade, nos pisoteados que se esforçam para erguer-se. O mistério da Palavra se repete neles, em suas vidas, em suas mortes e ressurreições. Eles são a Palavra viva e encarnada, que sofre e ressurge, como afirma Rahner: “Cristo me aparece, sem sombra de dúvida, nos pobres e sofredores.” (10)

O Espírito de Deus é, talvez, a Palavra divina mais próxima aos missionários. O Espírito manifesta as insondáveis riquezas de Deus, a inexaurível infinidade da Palavra encarnada na história, as culturas e as religiões, porque “a presença e ação do Espírito não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas e as religiões”. (11) Rahner sugere que estejamos preparados para fazer a experiência do Espírito também nos acontecimentos do nosso cotidiano. Depois de enumerar muitas situações do cotidiano, nas quais se pode fazer a experiência do Espírito, conclui: “Aqui encontramos aquilo que nós, cristãos, denominamos o Espírito Santo de Deus... Aqui está o misticismo da vida de cada dia, a descoberta de Deus em todas as coisas; aqui está a sóbria ebriedade do Espírito de que falam os Padres e a liturgia, que nós não podemos rejeitar ou desprezar, porque é real”. (12)

Neste Espírito, o “além” é normal, o estranho é regra, os sonhos tornam-se realidade, as visões se concretizam, o impossível torna-se possível, o inatingível pode ser atingido. Este Espírito é
contemplado pelos missionários como vida que faz reviver ossos ressequidos, esperança no auge do desespero, descoberta de caminhos que nem sequer podiam ser sonhados, guia por veredas que pareciam inacessíveis, elevação de pessoas a alturas que pareciam inacreditáveis.


A contemplação indireta para os missionários, por quê?

Este tipo de contemplação levará os missionários a trabalhar com fidelidade no rumo traçado por Deus. A contemplação direta enche seus corações de Deus, ajuda-os a se tornarem mais semelhantes a Deus. A contemplação indireta ajuda-os a descobrir as manifestações de Deus, aqui e agora, e impele-os a agir de acordo com os caminhos de Deus, libertando o povo do mal.

No passado, os missionários cometeram graves erros em seus comportamentos, políticas e atividades. Como se explica que pessoas tão dedicadas – como os missionários – dispostas até mesmo a sacrificar a vida por amor do povo ao qual eram enviados, não tenham percebido a importância das culturas, das religiões, ou possam ter destruído, em nome de Deus, aquilo que Deus mesmo já havia construído nelas? É importante não julgá-los... Mas desconfio que aqueles missionários não tinham (ou tinham perdido) a capacidade de perceber a presença de Deus. E, consequentemente, não eram capazes de inserir-se como agentes do amor de Deus nos torvelinhos complexos da história. Sua cegueira dogmática, ao invés, levou-os a não apreciar as múltiplas veredas nas quais Deus se mostrava presente. As trágicas consequências de tal incapacidade ainda são visíveis em muitos países. Acompanham os missionários como triste lembrança. Contudo, quem nos garante que nós não estejamos cometendo os mesmos erros? Por certo, um dos meios que temos à disposição, para evitar visões muito restritas da presença de Deus, é a contemplação direta. Insisto acerca da contemplação, porque tenho a impressão de que muitos missionários dão demasiada atenção às suas obras, ou à oração da comunidade, mas carecem de uma profunda e pessoal relação com Deus. Na verdade, a contemplação é o alicerce de tudo, e sem ela, nada pode ser duradouro, nada pode conservar legítimo significado.

Agora, porém, quisera passar a descrever as outras atitudes e correspondentes atividades da espiritualidade do ser “chamados”. Faço-o resumidamente, porque elas já fazem parte da nossa espiritualidade IMC.

c. Chamados a ouvir, a deixar-nos ensinar, a deixar-nos instruir. O caminho interior é calçado
de escuta, de tomada de consciência do Hóspede de nossa alma, da presença de Deus que está em nós e deseja que o descubramos em maior profundidade. Tal descoberta, porém, não é fruto da manifestação de Deus em nós, como na contemplação direta, e sim o desenvolvimento do nosso conhecimento de Deus, através da escuta e do ser instruídos. Isto se dá especialmente por meio da Palavra de Deus contida na Bíblia. Assim, a Bíblia torna-se o livro comum para a espiritualidade. Um dos melhores frutos do Concílio Vaticano II foi ter promovido a Bíblia como livro-base para as pessoas que desejam encontrar sólido alimento para suas almas, famintas de Deus.

Este fenômeno verificou-se de maneira mais acentuada entre os leigos que entre os religiosos, ou mesmo entre os missionários. Mas qualquer pessoa chamada a entrar na intimidade com Deus, não pode deixar de meditar frequente e profundamente a Palavra de Deus. Dietrich Bonhoeffer nos recorda que as Escrituras, na sua totalidade, são Revelação de Deus: “A Escritura não é o conjunto total dos versículos, mas algo de completo, cujo valor se baseia precisamente na totalidade da Escritura. A Escritura, na sua totalidade, é Revelação de Deus. Somente na vasta rede de suas relações internas, no contexto do Antigo e do Novo Testamento, entre promessa e cumprimento, entre sacrifício e lei, entre lei e Evangelho, entre cruz e ressurreição, entre fé e obediência, entre amor e esperança é que somos capazes de ouvir o testemunho de Jesus Cristo, o Senhor, em sua totalidade”. (13)

A Carta Apostólica de João Paulo II Novo Millennio ineunte afirma: “Não resta dúvida de que o primado da santidade e da oração nem sequer pode ser imaginado, sem partir de uma renovada escuta da Palavra de Deus. Desde que o Concílio Vaticano II sublinhou o papel preeminente da Palavra de Deus na vida da Igreja, certamente houve um grande avanço na escuta assídua e na leitura atenta da Sagrada Escritura... Indivíduos e comunidades já recorrem a ela em larga escala, e também entre os próprios leigos há muitos que se dedicam a ela... É particularmente necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da “lectio divina”, que faz colher no texto bíblico a palavra viva que interpela, que orienta e plasma a existência”. (14)

d. Chamados a dialogar com Deus e com os outros, na vida religiosa e comunitária

Este aspecto da espiritualidade do ser “chamados” tem a ver com o nosso empenho religioso, com a vida comunitária e demais elementos conexos a ela. Somos religiosos e, enquanto tais, chamados a viver juntos, a rezar juntos, a programar a vida juntos, a descobrir a vontade de Deus para a comunidade através do diálogo recíproco, a partilhar o nosso caminho de fé, a perdoar-nos uns aos outros. É neste contexto religioso e de vida comunitária que nós nos enriquecemos, crescemos e correspondemos mais plenamente ao ser “chamados”, colocados à parte, privilegiados com a intimidade.

Para os estudantes, tal diálogo inclui seus formadores, que se tornam para eles os canais da vontade de Deus, responsáveis pelo crescimento numérico do Instituto. Amadeu Cencini expressa esta realidade com palavras vivas: “Hoje, mais que em outros tempos, a comunidade religiosa é chamada a ser sinal de fraternidade: a fraternidade é o destino universal da humanidade... O religioso, consequentemente, é um exportador, não apenas pregador de fraternidade. Por isso, a fraternidade religiosa deve ser vivida de maneira plena e radical, mas também visível e atraente. A comunidade deve saber dizer que é possível viver unidos na diversidade, crescer e santificar-se juntos; deve testemunhar que não só é possível, mas também bonito, partilhar trabalho e moradia, alegrias e preocupações, afetos e amizades, oração e Palavra, dons de natureza e do Espírito”. (15)

O X Capítulo Geral insiste muito sobre a importância deste aspecto do ser “chamados” à vida religiosa e comunitária: “A Missão é para nós inseparável da vida consagrada: ‘O Instituto é uma família de consagrados para a Missão ad gentes’ (Const. 4). A intuição de Allamano sobre a necessidade da santidade para ser um bom missionário, levou-o a encontrar na consagração religiosa a melhor componente de uma vida missionária autêntica. Ela gera a idoneidade para a Missão e torna-se sua nascente. A vida consagrada... é o mais desinteressado testemunho da escolha de “só Deus”, do seguimento de Cristo como norma de vida, da abertura à ação do Espírito santo, que envia a todos os lugares do mundo para anunciar o Reino de Deus e a servir os irmãos com caridade total, só por amor. O radicalismo exigido pela vida consagrada torna-se para Allamano o fundamento do agir missionário, porque dispõe a pessoa a um total abandono à vontade de Deus e ao seu projeto de salvação”. (16)

e. Chamados a ser constantemente transformados pelo Espírito do Senhor

O caminho interior não tem fim, é um processo de santificação que continua sempre. Os missionários devem dedicar-se ao trabalho da própria santificação de maneira total e constante. A transformação de uma pessoa em outro Cristo é uma caminhada que dura a vida inteira e mais ainda. O autor desta transformação é o Espírito do Senhor. A dimensão pneumatológica do ser “chamados” foi redescoberta por todos os membros da Igreja, e pelos missionários em particular. O Espírito tornou-se o primeiro agente de conversão, de santidade, de vida comunitária, de missão e suas atividades, de oração, de justiça. A renovação – a refundação – da vida religiosa, bem como da missão, alicerça-se unicamente no primado do Espírito, que respira no coração das pessoas e das instituições. Fábio Ciardi escreve no seu livro In ascolto dello Spirito: “Hoje, a autêntica criatividade na vivência do carisma vem do Espírito, que é ‘Senhor e dá a vida’. De fato, nós não podemos descobrir novamente a vida religiosa ou o carisma de cada instituto. A vida religiosa, com todo o conjunto de seus carismas, foi fundada pelo Espírito e... a sua refundação será uma graça que o Espírito concede a pessoas e a grupos... O Espírito, infundido pelo Senhor Ressuscitado sobre aqueles que permanecem unidos em seu nome, torna-se uma fonte de criatividade, porque o Espírito, por sua mesma natureza, é sempre criativo.” (17)

f. Chamados a ser missionários por toda a vida

O ser “chamados”, quando compreendido na sua verdadeira dimensão, e com um trabalho apropriado, nos ajudará a permanecer ministros e missionários ativos por toda a vida, a partir do tempo de seminário até a idade da aposentadoria, doando a vida toda pelo Reino de Deus.
Para ser missionário, a pessoa não deve esperar o momento do envio ao campo de trabalho, quando se vê envolvida por toda espécie de atividades que promovem o Reino de Deus na terra.
Por um lado, o indivíduo já é missionário também quando se prepara ao apostolado missionário no seminário, através do estudo diligente, impregnado de conteúdos e de espírito missionário; já é missionário quando se esforça para adquirir uma formação de acordo com o espírito e as tradições vivas do Instituto, quando fortalece o próprio zelo e empenho pelo trabalho missionário (empenho superior ao que poderia ter por qualquer outra coisa); já é missionário quando dá prioridade às necessidades da missão que é servida pelo Instituto, antes mesmo de qualquer outra
necessidade pessoal e profissional; é missionário quando se exercita na pastoral das paróquias, inclusive durante o tempo das férias.

Por outro lado, alguém é e permanece um verdadeiro e ativo missionário quando aceita a solidão do ermo, a inatividade forçada, os achaques da idade avançada, a angústia da solidão, a ameaça de uma doença mortal... É e permanece verdadeiro e ativo missionário quando se aplica a viver uma espiritualidade mais profunda, quando se dedica a uma vida de oração mais extensa, quando consagra mais espaço de tempo à adoração eucarística e se esforça por viver uma vida realmente santa.

Padre Trabucco, na conclusão da carta O Missionário da Terceira Idade, afirma: “É possível fazer desta etapa da vida a coroação de uma existência votada a Deus, à Missão, às obras de bem. É possível vivê-la na serenidade e na paz, esperando com confiança o grande dia, ‘a fim de que Deus seja tudo em todos’” (1 Cor 15,28). (18)

(continua)

Introdução

O último Capítulo Geral do Instituto desenvolveu uma compreensão renovada do nosso ad gentes, em atenção aos novos contextos do mundo, da sociedade, da Igreja e em consonância com os desenvolvimentos da teologia da Missão. Os esforços dos que elaboraram o texto, antes e durante a celebração do Capítulo, produziram fruto. Os Atos do Capítulo deixam um vestígio indelével acerca do futuro e as novas dinâmicas de trabalho do nosso Instituto.

À luz do renovado conceito do ad gentes, o Capítulo pede a todos os Missionários da Consolata que assumam novas e renovadas atitudes na própria vida e atividade missionária, para acolher uma nova visão de Missão, capaz de injetar novo vigor na Missão mesma e naqueles que a realizam. Propõe igualmente um vigoroso esforço de formação permanente, para preencher a distância existente entre os atuais contextos que desafiam a Missão e a nossa maneira concreta de realizá-la.

Num de seus desejos mais importantes, embora menos vistoso talvez, o Capítulo convida os membros do Instituto a estabelecerem um diálogo entre si, para desenvolver uma espiritualidade do ser “chamados” e do ser “enviados”. O Capítulo considera importante este diálogo, enquanto propõe o desenvolvimento de uma tal espiritualidade tanto aos missionários que se encontram no campo de trabalho como aos estudantes que estão na formação: “As Conferências e as Assembléias anuais de circunscrição... ajudem os seus missionários a crescer na espiritualidade de “chamados” e “enviados”. No caminho formativo e no Diretório Regional da Formação proponham-se meios concretos para evidenciar a espiritualidade do envio e do regresso, para crescer nela e para avaliar a sua interiorização por parte dos estudantes. Coloque-se isto como critério para a aceitação no Instituto”. (2)

A busca de uma espiritualidade missionária autêntica e sólida sempre ocupou lugar de destaque no coração de missionários, formadores e superiores. Como elaborar uma espiritualidade que possa servir de verdadeira escora na difícil vida missionária? Como ajudar os missionários a “permanecerem” na fronteira do mundo e da Igreja, sem que sejam queimados, ou esmoreçam no fervor? Como alimentar o entusiasmo e o empenho dos missionários, para que não se dobrem ou afrouxem perante os compromisso assumidos?

Quisera, com o presente artigo, iniciar um diálogo entre nós – missionários – exatamente sobre este tema. O convite do Capítulo não pode perder-se ou ficar desatendido. Experimentemos juntar alguns princípios, traçar algumas linhas-mestras, elaborar um esquema, para dar início a um diálogo. É possível construir uma espiritualidade missionária na base do ser “chamados” e “enviados”? Tal espiritualidade, que relação teria com a espiritualidade própria do Instituto, inspirada pelo Fundador e cara aos missionários?

Este exercício não me é novo. Debati estes temas durante toda minha vida, porquanto sempre me interessei de uma espiritualidade que fosse fonte vital para minha vida missionária. Nos anos ’70, era encarregado do U.S.Catholic Mission Council, e muitas comunidades missionárias me pediam que as ajudasse a refletir sobre uma autêntica espiritualidade missionária. Em seguida, nos primeiros anos da década de ’90, publiquei um livro na Editora Orbis Books, intitulado: Missão e Ministério na Igreja Global. Naquele livro, desenvolvi o mesmo tipo de espiritualidade que havia elaborado nos anos anteriores, dando-lhe talvez uma visão mais ampla na parte referente à identidade e ao papel do missionário. Depois, quando veio a lume a Encíclica Redemptoris Missio de João Paulo II, publiquei um breve comentário, onde desenvolvia uma espiritualidade missionária totalmente diversa em relação à precedente. Baseava-me nas linhas-mestras do capítulo VIII da referida Encíclica – que trata precisamente da espiritualidade missionária – acrescentando diversos outros elementos da Encíclica, certo de que poderiam ser perfeitamente encaixados no esquema, para que daí resultasse uma espiritualidade criativa e dinâmica.

Sinto-me agora novamente desafiado pelo Capítulo a elaborar e desenvolver uma espiritualidade alicerçada sobre os conceitos do “chamado” (ser chamados) e do “envio” (ser enviados). Farei quanto puder para assumir o desafio; mas sei também que, sozinho, não conseguirei dar conta do recado. Eis porque convido a todos – missionários, formadores, estudantes, e quantos queiram contribuir – para que participem desta tentativa, a fim de que possa nascer deste nosso esforço algo de bonito e proveitoso.

O presente artigo, portanto, compõe-se de três partes: uma definição de espiritualidade, comumente aceita pelos mestres de espiritualidade; uma síntese esquemática da espiritualidade que nos interessa (para ter sob os olhos uma visão geral dos conteúdos); um desenvolvimento final de cada um dos elementos da síntese, comparando-os com o ensinamento do Padre Allamano, a fim de descobrir neles eventuais semelhanças e diferenças, e para sua complementação.


Uma definição operativa de espiritualidade

Definir a espiritualidade é uma tarefa quase impossível, como contar as estrelas do céu. Há espiritualidades segundo as categorias de pessoas presentes na Igreja: para casados e não casados, para solteiros e viúvas, para sacerdotes diocesanos e sacerdotes religiosos, para homens e mulheres, para crianças e adultos, para leigos e consagrados... Há espiritualidades de acordo com as culturas dos povos: de fato, falamos de espiritualidade africana, asiática, latino-americana, pós-cristã... Há espiritualidades do tipo que as religiões as fizeram surgir: espiritualidade cristã,
budista, indu... No seio do próprio Cristianismo há espiritualidades diversificadas, que se adaptam aos Fundadores das grandes Ordens religiosas: espiritualidade beneditina, espiritualidade jesuítica, carmelitana, franciscana, espiritualidade de De Foucould...

Nos últimos anos, os assim chamados Movimentos de Igreja deram também origem a espiritualidades próprias: Opus Dei, Comunhão e Libertação, Focolarinos, Neo-catecumenais...
Há, enfim, espiritualidades baseadas na Palavra (espiritualidade bíblica), ou na Liturgia (espiritualidade litúrgica), nos Sacramentos (espiritualidade sacramental), ou sobre Maria (espiritualidade mariana)...

Haverá possibilidade de encontrar, em todas estas espiritualidades, alguns elementos que as permeiam e que possam, portanto, tornar-se o “denominador comum” de todas as espiritualidades?

Por espiritualidade entendemos um estilo de vida, que emana de alguns princípios, os quais, por sua vez, refletem a identidade de uma pessoa ou grupo, exigindo atitudes e ações que caracterizem aquele particular estilo de vida, de relação e de trabalho. Eis, portanto, os denominadores comuns: identidade, princípios, atitudes e ações que permitam a uma pessoa ou grupo viver e agir em determinado modo, com certo método de oração e de ação.

O Capítulo nos fornece os dois parâmetros da identidade do missionário: os princípios do “ser chamados” e do “ser enviados” ad gentes. Estes princípios produzem atitudes que se relacionam diretamente a eles, e que passamos a elencar abaixo. Por sua vez, estas atitudes exigem certas ações alinhadas com a identidade do missionário, que manifestem tal identidade, de maneira concreta, na vida do missionário.

Assim, uma pessoa “chamada” deve permanecer perto Daquele que a chama, ouvindo-o, deixando-se formar sempre mais segundo a sua imagem, imitando sempre mais o seu modo de agir, tornando-se um agente de salvação em suas mãos, em todo lugar e sempre (dimensão vertical da espiritualidade). Uma pessoa “enviada” ad gentes deve sempre ser capaz de reconhecer Deus em toda parte; deve ser capaz de caminhar em união com todas as pessoas guiadas por Deus, ainda que pertençam a outras religiões, raças e continentes, para poder tornar-se uma testemunha dos ensinamentos e da vida Daquele que a chamou, em qualquer parte se encontre ou viva; deve ser capaz de anunciar, no diálogo, as maravilhas da própria fé e orientar o povo que se encontra em situações difíceis; deve estar sempre disposta a mudar para outros lugares, dócil ao Espírito; deve estar disposta a assumir novos ministérios, a enfrentar novas situações (dimensão horizontal da espiritualidade).

Padre Antônio Magnante – Missionário da Consolata – escreveu um livro sobre espiritualidade missionária no Novo Testamento e nos Salmos. (3) Fazendo um rápido sumário, podemos dizer que sublinha as duas dimensões desta espiritualidade (ser chamados e ser enviados, em sua dimensão vertical e horizontal): “A espiritualidade missionária deve modelar-se sobre as palavras e ações de Jesus... Deve desenvolver uma sólida base cristológica, pois Cristo e seu Evangelho são o objeto da proclamação do apóstolo. Como já falei acima, o missionário não tem uma mensagem pessoal a oferecer (cf. carta aos Gálatas); portanto, não pode assumir o papel de um professor que oferece aos alunos um ensinamento pessoal, porque foi enviado somente para anunciar uma mensagem que recebeu... O missionário deve tender constantemente para Cristo,
para lhe assimilar os valores, os princípios, a verdade, até mesmo sua personalidade. Quando a vida de Cristo lhe tiver permeado as fibras mais profundas do ser, então o missionário será capaz de ser para o Reino, de doar-se para o Reino, de tornar-se tudo para todos. Este “doar-se” do missionário deverá ser manifestado em termos de um amor total e constante, de um empenho irrevogável em favor dos outros, mostrando a capacidade de suportar as numerosas fadigas por amor do Evangelho e de Cristo... A urgência do anúncio levará o missionário a forjar uma inquebrantável unidade com a própria mensagem e com os destinatários da mesma, até à doação da própria vida... A mensagem e seus destinatários constituem os elementos fundamentais de uma espiritualidade missionária. Esta espiritualidade deve oscilar continuamente entre estes dois polos: de um lado, uma imersão constante nas águas puras da Palavra de Deus, que é Cristo (dimensão vertical); de outro, uma doação generosa e sem reservas aos destinatários da mensagem (dimensão horizontal)” (4)


Esquema da espiritualidade “ser chamados”

Atitudes: Atividades:

- Permanecer com, estar com, ficar perto de... - Contemplação direta: permanecer com Deus somente.

- Ver, admirar, ser tocado por... - Contemplação indireta: estar com Deus através de outros,
através da natureza e dos acontecimentos.

- Ouvir, ser ensinado, ser instruído... - A Palavra de Deus como alimento normal para a nossa
espiritualidade, para o nosso caminho.

- Dialogar, partilhar com Deus e com os outros... - Oração comunitária, encontros comunitários, Projeto
Comunitário de Vida, revisão de vida, diálogo com
superiores, formadores, diretores espirituais, amigos,
partilha da nossa experiência de fé.

- Ser transformado, reformado, remodelado... - Papel do Espírito: para dar-nos forma, para modelar-nos,
para mudar-nos, agindo continuamente sobre nós.

- Servir a cada momento da nossa viagem. - Ministério jamais concluído do missionário.

- Descobrir, ver com maior clareza, tornar-se - O Deus que vem, que caminha com todos,que está presente
mais consciente de... em todo lugar, cuja ação envolve a todos.

- Testemunhar, tornar-se sinal e sacramento de Cristo para os outros, sinal dos valores do Evangelho, dos ensinamentos e exemplos de Jesus para todos.

- Anunciar, proclamar, partilhar uma mensagem nova, descoberta na Bíblia, com o exemplo
de todos, especialmente dos pobres.

- Guiar, tornar-se líder, ser ministro com espírito de comunhão, em sintonia com a Igreja
local e com o Instituto, para promover lideranças entre
os leigos.

- Estar aberto a mudanças periódicas - Espírito de desapego de nós mesmos, dos lugares familiares,
de ministério, de lugar... dos ministérios, de pessoas... Espírito de itinerância,
colocando-nos à disposição das necessidades da Missão
e dos superiores... Espírito de abertura ao novo,
ao diferente, ao desafio.


Breve descrição da espiritualidade proposta neste artigo

A) Ser chamados

Sob este título tenciono incluir aquilo que os autores espirituais chamam de “caminho interior”, a dimensão vertical, a relação com Deus, numa palavra, aquela parte da espiritualidade inspirada pelo “ser chamados”, com as atitudes e meios espirituais que ajudam a desenvolvê-la. Este é um aspecto da espiritualidade que alguns missionários, no passado, durante certo tempo, tinham dificuldade de aceitar, porque o consideravam um pouco estranho à realidade, uma perda de tempo (que podia ser usado melhor, por exemplo, ajudando o povo a resolver os seus problemas), ou algo como perscrutar o horizonte do mar, uma atividade parecida com narcisismo...
Agora todos chegamos a compreender sua importância, não só em vista de uma espiritualidade bem equilibrada, mas também pelo fruto mesmo do nosso trabalho. Esta é uma dimensão da espiritualidade já aceita, com a qual os missionários se sentem à vontade, para a qual procuram caminhos e meios que ajudem a desenvolvê-la sempre mais.

a) Ser chamados a permanecer com Deus, a ficar perto dele, a entrar em comunhão com ele, a permanecer em sua casa, a desejar comunicar-se com ele. A sede pelo Deus vivo está profundamente arraigada nos seres humanos; a busca de uma relação pessoal e mística com Deus é tão forte nas criaturas, que estas sentem a necessidade de lhe dedicar tempo para se relacionarem face a face, coração a coração. Este desejo faz nascer um caminho de contemplação direta.


A contemplação direta

É a atividade que nos coloca em relação direta com Deus, que deseja comunicar-nos o seu próprio SER. É ele que se manifesta a nós. O nosso, é um Deus pessoal, capaz de entrar em relação direta conosco, do tipo “eu-tu”. É também uma Pessoa amorosa, que deseja comunicar-se aos outros, numa partilha direta. Esta comunicação com o Absoluto não é concreta, nem pode ser expressa por meio de categorias. Na contemplação direta, Deus se comunica sem meios particulares. É uma comunicação de pessoa a pessoa, uma manifestação de coração a coração. Nela, é Deus o ator principal. É Deus que toma a iniciativa de todo o processo, que decide como levar adiante cada passo do mesmo, como também o grau e os efeitos de sua ação. Deus permanece totalmente livre em todo o processo. O que as pessoas podem fazer é desejar aquela comunicação, abrir-se a ela, oferecendo o seu tempo, criando uma certa atmosfera, mas não a podem causar. (5)

Vários modos de cooperar com Deus na contemplação direta

A contemplação direta é a manifestação imediata de Deus ao homem. As pessoas espirituais usam diversos métodos que as ajudam a acolher a partilha que Deus faz de si mesmo: o “jogging”, a meditação transcendental, o “Zen”, a oração de concentração, a oração de Jesus. Pessoalmente, prefiro a oração de concentração, pelas razões que explicarei mais adiante.

A primeira coisa que deveríamos fazer, quando nos abrimos à contemplação direta, é buscar a disposição conveniente. Se a contemplação direta é a manifestação de Deus a nós, então cabe a nós dispor-nos para acolhê-la. Como? A oração de concentração oferece linhas-mestras simples, que podem ser acolhidas por todos, em qualquer gênero de vida. São, na verdade, linhas flexíveis. Quando possível, deveríamos adotá-las; quando não for possível, deveríamos lembrar-nos de que Deus é o único ator do caminho da contemplação, e Deus pode dispensar as nossas regras e, não obstante, conceder-nos uma experiência mística.

Na medida do possível, a pessoa deve escolher um lugar tranquilo, onde haja silêncio. A solidão, o afastar-se de tudo e de todos, constitui um auxílio importante para a contemplação direta. Este passo nos oferece a possibilidade de criar uma espécie de “vazio”, que poderá ser preenchido pela presença de Deus e pelo seu partilhar conosco. (6) Se isto não for possível, não nos assustemos: qualquer lugar pode ser transformado em santuário para a comunicação com Deus.

A pessoa deve, portanto, adotar uma posição que a ajude a relaxar e sentir-se à vontade, de sorte que o próprio corpo não se torne um obstáculo, mas colabore com o exercício da oração. Um sentará na poltrona, estendendo as pernas sobre um escabelo; outro sentará no chão, apoiando as costas à parede... O importante é que a posição assumida ajude deveras a pessoa a relaxar o corpo.

O passo seguinte consiste em fechar os olhos, para se concentrar completamente em Deus, somente em Deus, desligando-se de qualquer outra criatura ou coisa que possa prejudicar a união com Deus, que deseja encher nossa mente com sua divina presença.

É bom, a esta altura, fazer uma breve oração, que nos ajude a reconhecer a presença de Deus em nosso íntimo, a reconhecer o desejo que Deus tem de compartilhar conosco, e nos ajude também a aceitar esta partilha. Pede-se a Deus, portanto, a graça de manter concentradas nele nossas faculdades todas, com o poder do Espírito. Esta oração deve ajudar-nos a lembrar este importante ponto: somente Deus pode fazer “acontecer” a contemplação direta; nós, por nós mesmos, somos incapazes; deve ajudar-nos a lembrar que nós dependemos totalmente de Deus e do Espírito, para que a contemplação direta aconteça.

O indivíduo, portanto, concentra toda sua atenção no íntimo do próprio ser, evitando de pensar, visualizar ou conversar com Deus presente nele, fazendo o esforço de concentrar todas as suas faculdades no seu íntimo, e controlando-as. Na contemplação direta nós somos passivos, somos receptores; porém, devemos fazer o máximo esforço para nos tornarmos disponíveis. “Estamos simplesmente naquela maravilhosa Presença. Uma Presença simples, plena, total... Desejamos permanecer aí, num estado de amorosa atenção... Pela fé, caminhamos para Deus, que habita a nossa profundidade”. (7)

Para tornar mais fácil este “permanecer com”, há quem prefira escolher uma mantra, uma palavra para sussurrar a si mesmo, quando percebe que as próprias faculdades começam a divagar longe de Deus, de Deus somente. Esta palavra pode ser: Jesus, Deus, Senhor, Espírito, Pai... Funciona como remédio à distração, que impele nossas faculdades para fora da concentração do nosso ser, onde Deus se manifesta à pessoa. Usamos esta palavra para nos mantermos concentrados em nosso interior, onde desejamos permanecer com Deus.

Deus, às vezes, se apossa de todas as nossas faculdades e as invade com sua presença. Quando isto acontece, o indivíduo sente-se como que absorvido por um OUTRO, numa existência sem espaço de tempo. Não perde completamente a consciência de estar em determinado lugar, mas encontra-se numa situação vaga, com a sensação de estar totalmente absorto e, contudo, não totalmente ausente. Quando acontece, a contemplação é uma experiência maravilhosa; e isto torna mais forte e mais fácil o seguinte exercício deste tipo de oração. Outras vezes, ao invés, Deus nos deixa em luta entre concentração e distrações, entre presença e fuga, entre “permanecer com” e “sair do” sujeito da contemplação. A mantra repetida pode ajudar-nos nesta luta, mas não a evitá-la totalmente. Quando acontece isto, não devemos assustar-nos, nem pensar que a oração não seja boa, ou que estejamos perdendo tempo. Lembremo-nos de que a contemplação é obra de Deus, que ele é fiel e que os frutos da contemplação estão garantidos, sempre que nós nos dispusermos a ela. Os frutos sempre são bons, quer nos deixemos absorver por Deus, quer nos sintamos cercados de distrações. Esta lembrança nos ajudará a prosseguir no caminho, a não abandonar o exercício da contemplação.

O momento apropriado para a prática desta oração contemplativa depende de cada pessoa. Todo momento é bom, desde que ajude o indivíduo a concentrar-se e a recolher-se interiormente. Às vezes, o tempo fixado para a oração passa rapidamente, sem quase percebermos; outras vezes, ao contrário, parece que o tempo passa tão devagar, que nos faz desejar que termine depressa.

A frequência desta oração contemplativa depende também do tempo disponível. Mas parece que podemos dizer que o espaço mínimo que se lhe possa dedicar são vinte minutos diários. À medida que o indivíduo se dedica a este tipo de oração, especialmente quando leva vida muito atarefada, pode sentir a necessidade de prolongar o tempo consagrado à contemplação, fazendo duas sessões ao dia. A fome e a sede de Deus aumentam de acordo com a fidelidade com que o indivíduo se entrega a este tipo de oração, e da experiência da partilha da vida divina em si. Quanto mais ocupado estiver, tanto mais sente necessidade de utilizar a oração de contemplação.

No final da oração, é aconselhável demorar-se alguns momentos para agradecer a Deus; e também para dispor de um breve espaço de tempo para passar da contemplação à ação.


Um método de oração apto para os missionários

Afirmei acima que, pessoalmente, prefiro este tipo de oração contemplativa, e a considero de modo particular muito conveniente e apta para os missionários, por diversas razões.
Antes de tudo, porque esta oração de concentração não é tão sofisticada, ao ponto de se pensar que seja reservada aos “profissionais” da contemplação. Pelo contrário, é uma das formas mais simples de oração que nos ajuda a entrar diretamente na contemplação de Deus.
Em segundo lugar, a oração de concentração está alicerçada sobre um sólido e tradicional modelo cristão de aproximação da contemplação. Suas raízes são profundas e mergulham na tradição contemplativa tanto do Oriente como do Ocidente. Os princípios teológicos da contemplação – somos morada de Deus, membros do Corpo Místico de Cristo, templo do Espírito Santo – são mais acentuados na oração de concentração do que na adaptação cristã de outras formas de oração contemplativa, como o Zen, a ioga ou a meditação transcendental.
A idéia de que a contemplação é um dom que Deus nos faz, sendo ele o único e verdadeiro protagonista, enquanto nós somos apenas os destinatários, cuja tarefa principal é colocar-nos à disposição de Deus, me é muito cara como missionário. Nós, missionários, andamos frequentemente cansados e sobrecarregados de compromissos. Rezar, nem sempre é fácil. Mas este tipo de oração não exige muito esforço. É um “abandonar-se” que restaura o corpo e a alma, enquanto nos abre ao Infinito presente em nós.

A terceira razão: a oração de concentração pressupõe a liberdade humana. Não impõe nada. Propõe um procedimento, insiste sobre algumas coisas consideradas úteis, mas depois deixa a liberdade de agir segundo a inspiração do Espírito e como a pessoa se sente chamada, seguindo o impulso dos próprios desejos interiores. É um bem para nós, como indivíduos, enquanto podemos adaptar também a mais simples das dinâmicas ao nosso próprio caráter e personalidade, mas revela-se extremamente útil, especialmente para nós, missionários, visto que podemos praticar a contemplação em qualquer parte do mundo, em contato com todos os diversos tipos e tradições de contemplação, podendo aceitar até mesmo algumas das dinâmicas praticadas em outras tradições religiosas.

Finalmente, em quarto lugar, a oração de concentração reclama somente uma parte razoável do nosso tempo. Os missionários não têm, geralmente, muito tempo à disposição. Devem dar acolhida e atendimento às pessoas que os procuram a toda hora, vindas talvez de lugares distantes, em busca de soluções urgentes, e que merecem ser atendidas. O volume e a variedade de atividades, na maioria dos lugares onde o nosso pessoal missionário trabalha, parecem aumentar sempre mais. Ter tempo é um bem raro para os missionários. Como disse, este tipo de oração não requer muito tempo, nem nos tira por longos períodos das tarefas que assumimos. O pouco tempo que podemos dedicar à oração torna-se, com este método, uma grande fonte de energia, de consolação e de riqueza espiritual.


O porquê da contemplação direta para os missionários...

A primeira razão é, sem dúvida, a importância que Deus tem em nossa vida. Se Deus, de fato, significa aquilo que nós continuamente dizemos – o nosso tudo, nosso único desejo, o fim de nossa vida – então temos simplesmente necessidade de estar em contato direto com ele. E para que isto aconteça, não podemos deixar de consagrar tempo a Deus, somente a ele, e permitir-lhe que encha com sua presença o nosso ser interior e o transforme do melhor modo possível no seu próprio Ser. Não podemos proclamar que Deus é tudo para nós, que dependemos dele em tudo e por tudo, sem dar-lhe atenção, ou limitando-nos apenas a oferecer-lhe um tributo formal. Se o grito do salmista: Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água (Sl 62,2), for deveras o nosso grito, então devemos abrir a nossa alma a Deus e permitir-lhe que entre nela, como a água penetra na terra ressequida e sedenta. A contemplação direta nos dá a possibilidade de abrir-nos a Deus e deixar que ele envolva o mais profundo do nosso ser.

O Capítulo Geral insiste muito sobre a necessidade de dar o primado a Deus – o absoluto da nossa vida: “A insistência do Fundador sobre o primado de Deus e sobre a santidade torna-nos atentos à dimensão contemplativa da Missão. Ela exige que tenhamos um forte sentido de Deus, da sua presença em nós e nos outros, da procura contínua dele e da sua vontade. A acentuação sobre Deus torna-nos capazes de amar o mundo com o seu coração”. (8)

Uma outra razão deriva do fato de que Deus é o sujeito verdadeiro e essencial da nossa missão. Se cremos nisto de verdade, então, seja qual for a forma concreta que a nossa missão assume, é lógico que devemos fazer o máximo esforço para conhecer a Deus da maneira mais íntima que for possível. Se, na verdade, tencionamos aprofundar nossa relação com Deus, através da nossa missão e do contato com os outros; se queremos ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo, é mister que tenhamos um bom conhecimento de Deus, não apenas um conhecimento teórico adquirido através do contato dos livros, mas através do encontro pessoal e constante com Ele, guardando sua amorosa presença no fundo do nosso coração e em nossa vida.

Afinal de contas, a missão é um discurso sobre Deus, uma descoberta de Deus, um modo de discernir a vontade de Deus a respeito da humanidade, um alinhar-se com aquela vontade. Somente missionários que estejam em contato direto com Deus serão capazes de penetrar o ser mesmo de Deus e de conhecer as suas orientações dadas ao mundo.

Uma terceira razão encontramo-la na necessidade que temos de nos tornarmos homens experientes na contemplação direta. Ver Deus através dos outros e nos outros será mais fácil se o contemplarmos diretamente. Ao contrário, descobrir Deus de maneira indireta não será fácil, e talvez nem será possível, se, primeiro, não formos capazes de descobri-lo diretamente. A contemplação direta possibilita, ou ao menos facilita o outro tipo de contemplação – a indireta – na qual deveremos ser pessoas hábeis e bem preparadas.

A quarta razão é de natureza mais psicológica. Nós – missionários - normalmente levamos uma vida agitada, muitas vezes sob pressão. Encontramos situações difíceis, que requerem solução; e, muitas vezes, estamos sozinhos, sem a possibilidade de consultar conselheiros ou pessoas experientes. Como poderemos suportar toda essa carga, sem correr o risco de sofrer um baque interior? Como poderemos manter a calma e a serenidade, se somos cutucados por situações escabrosas e difíceis? Como poderemos crescer na fé e em santidade, apesar de tais situações, ou então exatamente por causa de tais situações?

Os ministros interculturais podem ter um modo particular próprio para enfrentar as dificuldades que descrevi, e as congregações missionárias estabelecem, de fato, determinadas normas para ajudar seus membros, por exemplo, abreviando os períodos de trabalho missionário e alongando o tempo de repouso na pátria, prolongando o tempo das férias anuais, oferecendo programas de formação permanente mais frequentes.

Porém, minha experiência missionária e meu contato com missionários espalhados pelo mundo inteiro me dizem que muitos missionários colhem maior proveito pessoal da oração de contemplação do que de todos os outros meios acima citados. Este tipo de oração consegue realmente acalmar as pessoas fortemente estressadas e pressionadas, prepara-as para enfrentar situações ainda mais difíceis, sustenta-as nas condições mais exigentes da vida. Ao tomarem consciência de que Deus está presente nelas, recebem novo vigor, renovam suas energias, sentem a coragem de retomar seus propósitos, seus corações e suas mentes respiram um clima de paz e de tranquilidade, difícil de descrever.

A contemplação direta coloca os missionários em contato com Deus – que é presença real na vida deles – e recorda-lhes o Deus transcendente que vem. O Deus manifestado aos missionários na contemplação é o mesmo Deus percebido na história, na existência; todavia é o sempre novo, o sempre diverso Deus do “além”. A contemplação oferece aos missionários a capacidade de manter constante contato com aquilo que a vida lhes apresenta, dá-lhes a possibilidade de ver os acontecimentos na ótica de Deus, impele-os àquela transcendência que repousa na imanente presença do divino.

Concluindo esta seção, podemos afirmar: este tipo de contemplação é perfeitamente possível aos missionários, pois não exige longo espaço de tempo, nem pede dinâmicas difíceis. É uma contemplação fácil, porque pode ser feita em qualquer lugar e não impõe regras rígidas aos que a praticam. É uma contemplação necessária, porque faz dos missionários ministros interculturais mais preparados, possibilita-lhes cumprir seu ministério de maneira mais digna e cristã. É uma contemplação adequada à sua identidade de ministros interculturais. Entretanto, é preciso vigiar, porque, apesar do esforço e da fidelidade com que os missionários se dedicam a este tipo de oração, pode acontecer, às vezes, que permaneçam somente na casca deste tipo de oração, como simples amadores, sem jamais se tornarem experientes e hábeis. Se há, de fato, alguma coisa em que os missionários devem tornar-se experientes e hábeis é exatamente esta: a contemplação indireta.

b. Ser chamados a ver, a admirar, a ser tocados por Deus, que vive em todo o
universo e em todas as suas criaturas. Isto significa: praticar a contemplação indireta.


A contemplação indireta

Deus, a Trindade, manifestam-se também através das criaturas, dos acontecimentos e das situações concretas da nossa vida. Aquele Deus, cuja essência recebemos na contemplação direta, é o mesmo Deus que vive no universo, que continua a sua obra de criação, redenção e realização do seu Reino, que se comunica conosco através das situações da vida. Parece-me que este tipo de contemplação oferece aos missionários a possibilidade de perceber e de partilhar o Deus da história, o Deus do universo, e, no entanto, o Deus que sempre se revela como novidade. O jesuíta Rodrigo Mejia, ao comentar a expressão “procurar e encontrar Deus em todas as coisas”, que descreve de modo mais completo o carisma de Santo Inácio de Loiola, afirma: “Esta contemplação é mais que um exercício, é um programa completo de vida espiritual”. (9)


Os caminhos da comunicação de Deus na contemplação indireta

Não falo aqui de meios a usar, mas de alguns caminhos através dos quais podemos perceber e acolher Deus nos outros e por meio dos outros. Creio que sejam caminhos abertos, em primeiro lugar e diretamente para as pessoas envolvidos em situações interculturais, para que possam ver a importância deste tipo de contemplação e a ponham em prática.

O Deus criador se comunica, antes de tudo, através do universo, o cosmo. As maravilhas da criação vão muito além de qualquer descrição e imaginação. Tanto o microcosmo como o macrocosmo revelam o poder, a magnificência, a beleza de Deus. A tecnologia moderna, com suas invenções e novas descobertas, amplia ainda mais para nós esta revelação de Deus, de muitas maneiras. Com maior razão, portanto, devemos exclamar com o salmista: Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo! Desdobrastes nos céus vossa glória... Contemplando estes céus que plasmastes e formastes com dedos de artista; vendo a lua e estrelas brilhantes, perguntamos: ‘Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?’ (Sl 8,2. 4-5).

Os missionários vivem, frequentemente, em lugares onde a beleza originária do universo, como a flora e a fauna, ainda são visíveis; onde a magnificência do universo ainda não foi obscurecida pelas manchas e pela destruição praticada pelos que se proclamam senhores da terra. Como pode uma pessoa, na África, não ficar encantada perante um céu pontilhado de estrelas, perante a enorme variedade de flores e de animais daquela terra, e não abrir-se assim ao Deus Criador, que se comunica através de todas estas suas criaturas?

Os missionários, contudo, devem ir além. Devem descobrir o Deus universal, que vive e opera em todos os povos, culturas e religiões, na história e nos acontecimentos da vida dos povos. Mais
que contemplar Deus em sua essência, deveriam contemplar sua manifestação; mais que contemplar a vida interior de Deus, deveriam contemplar o Deus que se revela a eles. Enquanto os missionários contemplam deste modo, através das coisas visíveis, das coisas que tocam e experimentam, deveriam recordar que aquelas manifestações de Deus serão sempre diferentes, não só passando de uma pessoa a outra, de uma cultura a outra, de um povo a outro povo, mas também no seio da mesma cultura e do mesmo povo. A solidez, a universalidade, a historicidade, o “não ainda” destas revelações são o que constitui a essência da contemplação dos missionários, o campo específico de tal contemplação.

A Palavra de Deus também será revelada às pessoas em situações interculturais, mais que a quaisquer outras. Elas também, como todos, tomarão conhecimento desta Palavra nas Escrituras judeu-cristãs e confessarão a pessoa de Jesus – Palavra encarnada. Mas, além disso, terão maior possibilidade de se maravilhar perante aquela Palavra conscientemente expressa nos acontecimentos cósmicos, no valor da pessoa, expressa de mil maneiras diferentes, em todo o mundo. Os missionários em contato com outras religiões, deveriam ser capazes de ver nelas as prefigurações da Palavra, assim como os primeiros cristãos as viam na religião judaica. Deveriam descobrir aquela Palavra em todo lugar onde há valores, relações e frutos evangélicos. Deveriam perceber a revelação daquela Palavra quando vêem um autêntico chefe religioso despertar no seu povo o amor pelo Reino, ou por algum de seus aspectos. Os missionários deveriam poder ver a Palavra feita carne em cada comunidade que se reúne para aprofundar o próprio sentido do divino e para promover o Reino na terra. Os missionários, especialmente, deveriam ver a Palavra de Deus feita carne nos pobres que lutam para debelar a pobreza, nos que sofrem por causa da justiça, nos oprimidos que reclamam os seus direitos, nos fracos que lutam para obter seu justo lugar no mundo, nos sem-voz que tentam desesperadamente fazer-se ouvir, nos marginalizados que não querem considerar como definitiva a sua situação, nos explorados que reclamam igualdade, nos pisoteados que se esforçam para erguer-se. O mistério da Palavra se repete neles, em suas vidas, em suas mortes e ressurreições. Eles são a Palavra viva e encarnada, que sofre e ressurge, como afirma Rahner: “Cristo me aparece, sem sombra de dúvida, nos pobres e sofredores.” (10)

O Espírito de Deus é, talvez, a Palavra divina mais próxima aos missionários. O Espírito manifesta as insondáveis riquezas de Deus, a inexaurível infinidade da Palavra encarnada na história, as culturas e as religiões, porque “a presença e ação do Espírito não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas e as religiões”. (11) Rahner sugere que estejamos preparados para fazer a experiência do Espírito também nos acontecimentos do nosso cotidiano. Depois de enumerar muitas situações do cotidiano, nas quais se pode fazer a experiência do Espírito, conclui: “Aqui encontramos aquilo que nós, cristãos, denominamos o Espírito Santo de Deus... Aqui está o misticismo da vida de cada dia, a descoberta de Deus em todas as coisas; aqui está a sóbria ebriedade do Espírito de que falam os Padres e a liturgia, que nós não podemos rejeitar ou desprezar, porque é real”. (12)

Neste Espírito, o “além” é normal, o estranho é regra, os sonhos tornam-se realidade, as visões se concretizam, o impossível torna-se possível, o inatingível pode ser atingido. Este Espírito é
contemplado pelos missionários como vida que faz reviver ossos ressequidos, esperança no auge do desespero, descoberta de caminhos que nem sequer podiam ser sonhados, guia por veredas que pareciam inacessíveis, elevação de pessoas a alturas que pareciam inacreditáveis.


A contemplação indireta para os missionários, por quê?

Este tipo de contemplação levará os missionários a trabalhar com fidelidade no rumo traçado por Deus. A contemplação direta enche seus corações de Deus, ajuda-os a se tornarem mais semelhantes a Deus. A contemplação indireta ajuda-os a descobrir as manifestações de Deus, aqui e agora, e impele-os a agir de acordo com os caminhos de Deus, libertando o povo do mal.

No passado, os missionários cometeram graves erros em seus comportamentos, políticas e atividades. Como se explica que pessoas tão dedicadas – como os missionários – dispostas até mesmo a sacrificar a vida por amor do povo ao qual eram enviados, não tenham percebido a importância das culturas, das religiões, ou possam ter destruído, em nome de Deus, aquilo que Deus mesmo já havia construído nelas? É importante não julgá-los... Mas desconfio que aqueles missionários não tinham (ou tinham perdido) a capacidade de perceber a presença de Deus. E, consequentemente, não eram capazes de inserir-se como agentes do amor de Deus nos torvelinhos complexos da história. Sua cegueira dogmática, ao invés, levou-os a não apreciar as múltiplas veredas nas quais Deus se mostrava presente. As trágicas consequências de tal incapacidade ainda são visíveis em muitos países. Acompanham os missionários como triste lembrança. Contudo, quem nos garante que nós não estejamos cometendo os mesmos erros? Por certo, um dos meios que temos à disposição, para evitar visões muito restritas da presença de Deus, é a contemplação direta. Insisto acerca da contemplação, porque tenho a impressão de que muitos missionários dão demasiada atenção às suas obras, ou à oração da comunidade, mas carecem de uma profunda e pessoal relação com Deus. Na verdade, a contemplação é o alicerce de tudo, e sem ela, nada pode ser duradouro, nada pode conservar legítimo significado.

Agora, porém, quisera passar a descrever as outras atitudes e correspondentes atividades da espiritualidade do ser “chamados”. Faço-o resumidamente, porque elas já fazem parte da nossa espiritualidade IMC.

c. Chamados a ouvir, a deixar-nos ensinar, a deixar-nos instruir. O caminho interior é calçado
de escuta, de tomada de consciência do Hóspede de nossa alma, da presença de Deus que está em nós e deseja que o descubramos em maior profundidade. Tal descoberta, porém, não é fruto da manifestação de Deus em nós, como na contemplação direta, e sim o desenvolvimento do nosso conhecimento de Deus, através da escuta e do ser instruídos. Isto se dá especialmente por meio da Palavra de Deus contida na Bíblia. Assim, a Bíblia torna-se o livro comum para a espiritualidade. Um dos melhores frutos do Concílio Vaticano II foi ter promovido a Bíblia como livro-base para as pessoas que desejam encontrar sólido alimento para suas almas, famintas de Deus.

Este fenômeno verificou-se de maneira mais acentuada entre os leigos que entre os religiosos, ou mesmo entre os missionários. Mas qualquer pessoa chamada a entrar na intimidade com Deus, não pode deixar de meditar frequente e profundamente a Palavra de Deus. Dietrich Bonhoeffer nos recorda que as Escrituras, na sua totalidade, são Revelação de Deus: “A Escritura não é o conjunto total dos versículos, mas algo de completo, cujo valor se baseia precisamente na totalidade da Escritura. A Escritura, na sua totalidade, é Revelação de Deus. Somente na vasta rede de suas relações internas, no contexto do Antigo e do Novo Testamento, entre promessa e cumprimento, entre sacrifício e lei, entre lei e Evangelho, entre cruz e ressurreição, entre fé e obediência, entre amor e esperança é que somos capazes de ouvir o testemunho de Jesus Cristo, o Senhor, em sua totalidade”. (13)

A Carta Apostólica de João Paulo II Novo Millennio ineunte afirma: “Não resta dúvida de que o primado da santidade e da oração nem sequer pode ser imaginado, sem partir de uma renovada escuta da Palavra de Deus. Desde que o Concílio Vaticano II sublinhou o papel preeminente da Palavra de Deus na vida da Igreja, certamente houve um grande avanço na escuta assídua e na leitura atenta da Sagrada Escritura... Indivíduos e comunidades já recorrem a ela em larga escala, e também entre os próprios leigos há muitos que se dedicam a ela... É particularmente necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da “lectio divina”, que faz colher no texto bíblico a palavra viva que interpela, que orienta e plasma a existência”. (14)

d. Chamados a dialogar com Deus e com os outros, na vida religiosa e comunitária

Este aspecto da espiritualidade do ser “chamados” tem a ver com o nosso empenho religioso, com a vida comunitária e demais elementos conexos a ela. Somos religiosos e, enquanto tais, chamados a viver juntos, a rezar juntos, a programar a vida juntos, a descobrir a vontade de Deus para a comunidade através do diálogo recíproco, a partilhar o nosso caminho de fé, a perdoar-nos uns aos outros. É neste contexto religioso e de vida comunitária que nós nos enriquecemos, crescemos e correspondemos mais plenamente ao ser “chamados”, colocados à parte, privilegiados com a intimidade.

Para os estudantes, tal diálogo inclui seus formadores, que se tornam para eles os canais da vontade de Deus, responsáveis pelo crescimento numérico do Instituto. Amadeu Cencini expressa esta realidade com palavras vivas: “Hoje, mais que em outros tempos, a comunidade religiosa é chamada a ser sinal de fraternidade: a fraternidade é o destino universal da humanidade... O religioso, consequentemente, é um exportador, não apenas pregador de fraternidade. Por isso, a fraternidade religiosa deve ser vivida de maneira plena e radical, mas também visível e atraente. A comunidade deve saber dizer que é possível viver unidos na diversidade, crescer e santificar-se juntos; deve testemunhar que não só é possível, mas também bonito, partilhar trabalho e moradia, alegrias e preocupações, afetos e amizades, oração e Palavra, dons de natureza e do Espírito”. (15)

O X Capítulo Geral insiste muito sobre a importância deste aspecto do ser “chamados” à vida religiosa e comunitária: “A Missão é para nós inseparável da vida consagrada: ‘O Instituto é uma família de consagrados para a Missão ad gentes’ (Const. 4). A intuição de Allamano sobre a necessidade da santidade para ser um bom missionário, levou-o a encontrar na consagração religiosa a melhor componente de uma vida missionária autêntica. Ela gera a idoneidade para a Missão e torna-se sua nascente. A vida consagrada... é o mais desinteressado testemunho da escolha de “só Deus”, do seguimento de Cristo como norma de vida, da abertura à ação do Espírito santo, que envia a todos os lugares do mundo para anunciar o Reino de Deus e a servir os irmãos com caridade total, só por amor. O radicalismo exigido pela vida consagrada torna-se para Allamano o fundamento do agir missionário, porque dispõe a pessoa a um total abandono à vontade de Deus e ao seu projeto de salvação”. (16)

e. Chamados a ser constantemente transformados pelo Espírito do Senhor

O caminho interior não tem fim, é um processo de santificação que continua sempre. Os missionários devem dedicar-se ao trabalho da própria santificação de maneira total e constante. A transformação de uma pessoa em outro Cristo é uma caminhada que dura a vida inteira e mais ainda. O autor desta transformação é o Espírito do Senhor. A dimensão pneumatológica do ser “chamados” foi redescoberta por todos os membros da Igreja, e pelos missionários em particular. O Espírito tornou-se o primeiro agente de conversão, de santidade, de vida comunitária, de missão e suas atividades, de oração, de justiça. A renovação – a refundação – da vida religiosa, bem como da missão, alicerça-se unicamente no primado do Espírito, que respira no coração das pessoas e das instituições. Fábio Ciardi escreve no seu livro In ascolto dello Spirito: “Hoje, a autêntica criatividade na vivência do carisma vem do Espírito, que é ‘Senhor e dá a vida’. De fato, nós não podemos descobrir novamente a vida religiosa ou o carisma de cada instituto. A vida religiosa, com todo o conjunto de seus carismas, foi fundada pelo Espírito e... a sua refundação será uma graça que o Espírito concede a pessoas e a grupos... O Espírito, infundido pelo Senhor Ressuscitado sobre aqueles que permanecem unidos em seu nome, torna-se uma fonte de criatividade, porque o Espírito, por sua mesma natureza, é sempre criativo.” (17)

f. Chamados a ser missionários por toda a vida

O ser “chamados”, quando compreendido na sua verdadeira dimensão, e com um trabalho apropriado, nos ajudará a permanecer ministros e missionários ativos por toda a vida, a partir do tempo de seminário até a idade da aposentadoria, doando a vida toda pelo Reino de Deus.
Para ser missionário, a pessoa não deve esperar o momento do envio ao campo de trabalho, quando se vê envolvida por toda espécie de atividades que promovem o Reino de Deus na terra.
Por um lado, o indivíduo já é missionário também quando se prepara ao apostolado missionário no seminário, através do estudo diligente, impregnado de conteúdos e de espírito missionário; já é missionário quando se esforça para adquirir uma formação de acordo com o espírito e as tradições vivas do Instituto, quando fortalece o próprio zelo e empenho pelo trabalho missionário (empenho superior ao que poderia ter por qualquer outra coisa); já é missionário quando dá prioridade às necessidades da missão que é servida pelo Instituto, antes mesmo de qualquer outra
necessidade pessoal e profissional; é missionário quando se exercita na pastoral das paróquias, inclusive durante o tempo das férias.

Por outro lado, alguém é e permanece um verdadeiro e ativo missionário quando aceita a solidão do ermo, a inatividade forçada, os achaques da idade avançada, a angústia da solidão, a ameaça de uma doença mortal... É e permanece verdadeiro e ativo missionário quando se aplica a viver uma espiritualidade mais profunda, quando se dedica a uma vida de oração mais extensa, quando consagra mais espaço de tempo à adoração eucarística e se esforça por viver uma vida realmente santa.

Padre Trabucco, na conclusão da carta O Missionário da Terceira Idade, afirma: “É possível fazer desta etapa da vida a coroação de uma existência votada a Deus, à Missão, às obras de bem. É possível vivê-la na serenidade e na paz, esperando com confiança o grande dia, ‘a fim de que Deus seja tudo em todos’” (1 Cor 15,28). (18)

(continua)

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade

Media