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"Nos somos para os infiéis" PDF Imprimir E-mail
Por Pe. Alberto Trevisiol   
03 de April de 2006

Uma convicção profundamente arraigada no Allamano

“(O Instituto) tem seu próprio fim especial e secundário, que lhe forma a característica e é sua razão de ser: a evangelização dos infiéis” (VS 18). “Vós deveis ir para a África... Não, não, nós somos missionários para converter os infiéis: mantenhamos com firmeza a nossa finalidade” (III, 295).

Toda a vida do Allamano, do Instituto e de cada um de nós traz o sinal desta inscrição solene. A compreensão desta finalidade, entretanto, nunca foi imposta com evidência simplicista. Não se condensa em definições redutivas. É um processo lento, do qual Allamano apresenta alguns momentos fundamentais:

a) Emerge de um fundo intuitivo pessoal pelo qual o indivíduo descobre que foi providencialmente escolhido por Deus e “(fornecido) de qualidades convenientes para levar a fé em terras pagãs” (VS 26);
b) ilumina-se à medida em que vai sendo atuada, tanto é verdade que Allamano declara: “A evangelização dos infiéis pode e deve abraçar todas as obras e utilizar todos os meios que forem necessários ou úteis para este fim, segundo as circunstâncias de lugar ou de tempo, e aprovados pela Santa Sé” (VS 18);
c) revela-se sempre submissa ao irromper do novo desde o começo, tanto é verdade que foi necessário pedir que normas comuns fossem derrogadas: “Obtivemos aprovações especiais para as feitorias agrícolas e os laboratórios industriais, para as escolas e visitas a domicílio, para tratamentos médicos, orfanato, colégios, etc.” (VS 18);
d) é sustentada por uma razão apodíctica, uma necessidade que não admite tergiversações; de fato, nasce do reconhecimento pelo dom da fé recebida. Discorrendo sobre o dom da fé,
Allamano aponta os deveres que derivam deste dom: “1) Agradecer a Deus que no-la deu gratuitamente, sem merecimento nosso. 2) Apreciar este dom da fé que trazemos em nós, e como agradecimento a Deus, procurar difundi-la entre os que não a têm, fazê-la nascer entre os infiéis: esta é a vossa missão... Não digais como alguns dizem: Deixá-los na boa fé!... É certo que as pessoas que morrem sem a fé e sem o batismo não podem salvar-se. Nosso Senhor fala com clareza: Nisi quis...” (III 419).


Necessidade de uma contínua redefinição

Por mais que leiamos e releiamos os escritos do Bem-aventurado Fundador, não encontramos neles outros elementos substanciais que permitam chegar à formulação de um conceito diverso acerca do “fim especial do Instituto”. Como sempre, Allamano é sóbrio: afirma o essencial e se atém a ele. No máximo, tece abundantes exortações espirituais e morais, para impelir os missionários a viverem o conteúdo. O reduzido número de textos, entretanto, tem a vantagem de estar permeado de inquietante profundidade, de insuprível modernidade.

A essência dos parâmetros traçados não cessa de fazer perguntas à nossa atual identidade de Missionários da Consolata e nos obriga a não tomar o passado como norma, mas a olhar para o futuro, a fim de torná-lo presente nele. No amanhã, a virtualidade do ontem está presente apenas na diversidade que este produz, como num filho a continuidade do pai não se revela na reprodução de uma cópia de si, mas em tudo aquilo que, do pai, o filho transformou em si.

Partir do Allamano para salientar o passado no presente, para garantir um habitualismo sonolento, e, com ele, garantir fidelidade ao “fim especial” do Instituto, seria como desmentir as intuições fundantes da sua obra. Partir do Allamano para: a) sentir-nos, hoje, novamente escolhidos por Deus para a evangelização; b) perceber-nos mergulhados no processo de algo que está para vir, no qual estamos realizando a missão; c) sentir-nos fascinados e satisfeitos por todo sinal de vida nova que podemos descobrir; d) redescobrir uma razão de fundo que nos vincule para sempre à missão, ao Instituto Missões Consolata... Isto significa: não a querer refundar o Instituto, mas simplesmente buscar o meio de atualizar seu fim especial, juntamente com Allamano, para que nos indique o modo de realizar a evangelização dos infiéis – razão de ser do Instituto. Esta prospectiva nos mostra claramente que o horizonte no qual o Instituto nasce, cresce e vive são os infiéis. A conotação geográfica implícita neste termo, para Allamano é evidente; e, para nós, tradicional. Coincide com as missões nas quais o Instituto historicamente trabalhou.

Um pouco mais subtil, mas igualmente parte de uma maneira comum de pensar é a implicação negativa em nível cultural anexa ao conceito de “infiéis”. E que dizer da discriminação religiosa que ela contém? Encontramo-la no próprio Allamano. Para ter uma idéia, basta citar um texto para saber qual ela fosse, não qual amor contivesse, na visão de Allamano. De fato, a citação completa do último texto transcrito acima assim continua: “... Não irão para o inferno (os infiéis) se não tiverem cometido pecados pessoais, mas nem poderão entrar no nosso paraíso e alcançar a visão beatífica de Deus, porque não são elevados à ordem sobrenatural. E para onde irão? O Senhor não o quis dizer: gozarão de uma felicidade puramente natural. Além disso, em se tratando de adultos, é difícil que consigam abster-se de pecados, mesmo contra a lei natural, por não disporem dos auxílios espirituais que temos nós!...” (III 419).


“Pagão” – um conceito que vem de longe...

Não é difícil explicar textos como este, se recorrermos à teologia do tempo. Allamano sabia perfeitamente que o termo se referia a uma situação religiosa, que teve certo interesse particular histórico, quando no mundo romano começou a desenhar-se a vitória do cristianismo. Paganus era então chamado o rústico habitante das aldeias e povoados, porque foi exatamente nos “povoados” que o culto idolátrico manteve suas últimas posições de resistência, ao passo que nas cidades o cristianismo tornava-se religião do Estado; desta forma, o termo paganus, já usado por Tertuliano (De corona, XI, 5), entrava na linguagem comum com o significado de “não cristão”, ou “adorador de ídolos”, portanto, sinônimo do termo judaico “gentio”.

Consequentemente, termo e conceito foram codificados pelo direito, primeiro num edito de Valentiniano, em 368, e depois no código teodosiano (XVI, 2, 18). Por fim, entraram também no uso litúrgico e teológico, sobretudo por obra de Agostinho (Retract. II, 43), que os “consagrou”, acrescentando-lhes o tradicional valor negativo, como se pode notar nesta expressão: “... Deorum falsorum multorumque cultores quos usitato nomine paganos vocamus”; ele construiu todo o livro De civitate Dei sobre o triunfo do cristianismo contra todas as objeções do paganismo agonizante. Enquanto isso, a especulação de Agostinho era corroborada pela pastoral antipagã de Ambrósio de Milão. A transmigração dos povos germânicos com a bagagem de destruição da “romanidade” que as acompanhou, veio reforçar a implicância negativa do termo “pagão”, ao ponto de associá-lo à idéia de “não pessoa”. As fontes literárias cristãs, que falam da migração destes povos, associam ao sentido “não cristão” o de “bárbaro-incivil”, chegando até a colocar em discussão a dimensão humana destas populações. Esta idéia perpassou de tal forma pelo mundo medieval, que o Papa Paulo III teve de intervir, com decreto, para afirmar a plena humanidade dos indígenas da América Latina, posta em dúvida por alguns grupos de colonizadores católicos.

Será uma ideologia anticristã – o Iluminismo – a elaborar o mito do “bom selvagem”, de um homem dotado somente das qualidades humanas, homem em estado puro e capaz de perceber o horizonte da transcendência: naturalmente, um homem que não deve ser “convertido”. O Romantismo europeu do 800, partindo da filantropia do movimento espiritualista protestante, alimentará uma corrente de pensamento oposta: os benefícios da superioridade do cristianismo (o gênio do cristianismo) devem ser levados a todos os povos, para torná-los mais humanos. Que a missão servisse – no dizer de Allamano – para fazer “primeiro homens e depois cristãos”, é um slogan que há muito tempo repetimos entre nós, enchendo-nos de santo orgulho. Ainda hoje notamos o influxo desta mentalidade, cuja maneira de argumentar se nos mostra como um valor evidente.

Mais difícil é compreender como o conceito mesmo de “pagão” seja uma dimensão que o homem, nós mesmos, continuamos a produzir. De fato, na história das religiões nascem diversificados movimentos que se distinguem, que se dividem, e que, às vezes, dialogam e se fundem. Toda vez emerge uma inalienável tensão entre unidade e diversidade, entre homogeneidade e heterogeneidade. Este processo dialético cria sempre novos pagãos, ou justifica a acusação de um que considera paganizador o outro. O fato mesmo de distinguir-nos, de separar-
nos, transforma-nos em pagãos de alguém! Os judeus tornaram-se os pagãos dos cristãos e os cristãos os pagãos dos muçulmanos, etc...

É óbvio, portanto, que o termo “pagão” assumiu em primeiro lugar um significado “religioso”. Podemos facilmente constatar também que ele inverteu o sentido que lhe foi dado pela proveniência geográfica: no novo tempo, efetivamente, o cristianismo, ao contrário do que aconteceu em suas origens, perdeu um grande número de fiéis, precisamente nas cidades, de sorte que, hoje, o cristianismo parece mais inerente aos “pagãos” da roça do que aos habitantes da cidade. A cultura urbana apresenta-se como um grande desafio para qualquer religião e as cidades constituem os “pagãos” de todas.

Para o cristianismo, o fenômeno atinge uma forma impressionante. David Barret sustenta: “À medida que crescem as cidades, a porcentagem dos cristãos urbanos diminui. Em 1900 era o 68%. Em 2000, desceu para 46%. Na prática, nas cidades temos um não cristão a mais a cada segundo. Se na África temos um incremento de 4.000 cristãos ao dia, a Europa perde 7.000 cristãos em 24 horas...” Por isso, o cenário europeu é apresentado como lugar da ressurreição do paganismo.


Uma reflexão que deve ser continuada com coragem

A partir deste dado de fato, deduz-se que o “nós somos para os infiéis” (sinônimo de pagãos para Allamano) e o consequente dever de “seguir com firmeza esta finalidade” que nos foi imposta pelo Fundador, deve levar-nos a refletir profundamente sobre o modo de como nós somos missionários, hoje. Não se trata aqui de esquecer o passado, mas de querer atrofiar o presente e imaginar que se possa conter o futuro dentro dos limites do passado. Não se trata nem mesmo de querer apontar escolhas operativas: para isso existem os Capítulos e as instâncias de governo do Instituto.

O desafio é lançado no coração de cada um de nós. É o nosso modo de pensar que pode gerar uma atividade descarrilhante. Como também pode acontecer o contrário: pode-se, de fato, reduzir a missão aos espaços de um pensamento pobre, habitual e tranquilizante, que delega toda responsabilidade, e que, não obstante, produz coisas boas, como: o zelo, a caridade, a preocupação com as necessidades emergentes, etc. Ou então pode-se ter a coragem de constatar a mudança que aconteceu dentro de nós e ao redor de nós. Allamano teve esta coragem e criou algo de novo. Inventou para nós o sentido da missão. Esta sua atitude, revivida hoje, contém claramente um valor normativo, considerando a transformação que se realizou na missão. Não raro, definimos a missão como um simples transpor de fronteiras, considerando assim como pagãos aqueles que estavam além delas, tomando-as, naturalmente, não só em sentido geográfico e cultural, mas também em sentido ideológico e psicológico.

Hoje, nada é tão contestado como o conceito de fronteira. Não só pelo irromper prepotente daquele dinamismo desconsertante denominado globalização, mais ainda porque o conceito de fronteira é arbitrário, fabricado pelos homens, para colocar ordem “na ambiguidade” da criação,
para distinguir e separar segundo uma prospectiva histórica ou ideológica contingente. Basta pensar na África dos grandes lagos, ou na Europa depois da queda do comunismo. Foi fácil traçar um novo mapa político do continente, mas não se consegue ainda traçar uma “identidade” do continente. Alguns sociólogos propuseram um “mapa conceitual”, projetado sobre dois eixos que assinalem duas dimensões da vida dos povos europeus. O primeiro eixo – Leste-Oeste – descreve a dimensão geopolítica e geoeconômica do continente; o segundo eixo – Norte-Sul – ao invés, a sua dimensão geocultural, fundamentalmente ligada às divisões entre a civilização mediterrânea e os bárbaros, entre império romano e império germânico; depois, aos três grupos linguísticos: romano, germânico e eslavo; finalmente, às duas grandes confissões cristãs: católica e protestante.

Após as mudanças de 1989, a abertura dos Estados da União Européia e o início das tratativas para o alargamento da União rumo ao Leste, é possível observar que, especialmente a nível político e econômico, desenha-se um tipo de integração jamais visto antes, também a nível cultural, que é prelúdio de uma nova unidade, em cuja construção o elemento religioso parece cada vez mais marginalizado, enquanto se consolida a adoção do princípio da liberdade pessoal. Neste processo de mudança da realidade cultural européia se entrevê uma corrente formada por cinco valores fundamentais que, contemporaneamente, influenciam na formação de uma nova identidade cultural: poder, religião, língua, lei, comunicação social.

É fácil intuir como este novo mundo seja tal também pela maneira como é compreendido por aqueles que vivem nele; é fácil intuir que, no fundo, também este é um esquema para indicar uma fronteira, ainda que se trate do deslocamento de limites anteriores, com a inclusão de novas dimensões. São sempre os homens, portanto, que criam fronteiras e, consequentemente, criam os próprios “pagãos” (os que estão fora da fronteira estabelecida). Então, de acordo com a visão que eu tenho das coisas, o pagão é sempre o indivíduo que vive além da fronteira, fora do limite do aceitável, fora do MEU mundo. O paganismo, portanto, não passa de uma construção humana.

Será que isto então anula a visão do Allamano e, mais ainda, a razão da missão cristã? Pelo contrário, torna apenas mais obrigatória ainda a preocupação missionária. Exige que se supere a banalidade de pensar que os outros necessitam de nós, porque social, cultural, civil ou religiosamente inferiores! Nascido na Ásia, o cristianismo não conseguiu tomar o caminho de penetração naquele mundo onde faltavam os pressupostos que davam por descontado “o valor” da missão do Ocidente em outras realidades culturais.

Também só pelo simples fato de o Instituto e a Igreja olharem para o continente asiático, como ao futuro da missão, não pode deixar de colocar-nos perante uma nova compreensão do nosso “ser para os infiéis”, como também de esclarecer-nos a respeito da definição semântica deste termo, em relação ao chamado à conversão, implícito na proclamação do Evangelho.


Cristãos e pagãos: contraposição ou encontro?

O dado fundamental do qual brota a Missão é a adesão de fé a este fato: Deus se revelou efetivamente nas primeiras alianças feitas com o povo de Israel e, definitivamente, em Jesus Cristo, mediante uma Aliança Nova. Nesta prospectiva, “pagãs” são as pessoas que ainda não receberam esta Boa-Nova.

Para nós isso parece claro, mas não nos dispensa de fazer uma ulterior reflexão. De fato, uma vez que um texto não é realmente compreensível fora do seu contexto, impõe-se a pergunta: Qual é o contexto da Aliança de Jesus? E a resposta não pode ser que esta: as primeiras alianças com Israel.

Mas, para compreender as primeiras alianças com Israel, a qual contexto devemos referir-nos? E logo o mundo busca o contexto do Antigo Médio-Oriente. A passagem lógica sucessiva alarga ainda mais o horizonte: para poder compreender o texto do Médio-Oriente Antigo e de suas religiões, devo situá-las num contexto mais amplo, e assim por diante, até chegar a esta conclusão: não posso ser cristão sem os pagãos, os quais constituem o verdadeiro contexto que me faz compreender o texto do Cristianismo. O sentido do Cristianismo, portanto, encontra-se também no paganismo e, vice-versa, num contínuo movimento de tensão e de reciprocidade.

A missão, portanto, não pode ser descrita como pura apresentação da mensagem cristã aos pagãos, visto que esta mensagem não é compreensível em si, mas somente em tensão com o próprio paganismo. A missão não pode ser outra coisa que diálogo entre estes dois “textos”, que se iluminam mutuamente, dado que um é sempre o contexto em que o outro texto se faz compreender. Esta essencial dimensão de diálogo da missão pode ser experimentada em diversos níveis:
a) Em nível pessoal: constitui, de fato, o processo pelo qual nós fomos iniciados na fé e
situados num estado de diversidade, em relação a quem não é cristão, diversidade que nós mesmos não podemos compreender sem referência àquilo que nos é próprio e que os outros não têm, ou o têm em modo diverso. Ao chamado da fé, somou-se depois para nós o chamado à missão no Instituto. E aqui tudo se fez para que nos tornássemos missionários na cabeça, na boca e no coração, com uma identidade que não pode deixar de incluir semelhanças, por exemplo, com os Combonianos, mas que não pode, de forma alguma, perder a própria especificidade! O ideal permanece: tornarmo-nos aquilo que o nosso nome significa. Portanto, todo o “texto” do ser “Missionário da Consolata” necessita de um “outro” contexto, para definir-se e identificar-se como específico.
b) Em nível operativo: foi suficiente colocar o pé fora do ninho do seminário e chegar finalmente à missão, para entender que não bastava, de forma nenhuma, permanecer aquilo que nos tínhamos tornado. Um cansativo processo de adaptação à missão é experiência comum. O novo contexto nos define e nos transforma, tanto é verdade que, às vezes, a idéia de voltar atrás torna-se psicologicamente impossível. A missão podou muitas coisas, formou-nos uma linguagem e deu-nos uma nova visão da realidade. Além disso, reduziu ao essencial a nossa teologia, deixou entrever a dissonância entre uma forma de cristianismo considerada normativa e sua recepção extremamente reduzida num contexto diferente do nosso.


Trata-se de uma das experiências humanas mais profundas que nós, como missionários, somos chamados a fazer: é impressionante poder perceber a transformação que a missão opera; notar o amadurecimento de uma pessoa; sentir o ritmo de sua caminhada humana e espiritual; compreender os diversos níveis, as diferentes dimensões em que se manifestam as novas necessidades, às vezes sem palavras.

Nesta luta brilha, seguramente, uma certeza inabalável: o fato de sermos cristãos e portadores do Evangelho é para nós o dado do qual partimos e vamos aos outros; mas a nossa maior dificuldade é descobrir quanto deles (dos outros) penetrou em nós. Sim, nós somos para os infiéis, mas, sem eles, não seremos o que somos.

Esta é a constatação que muda o contexto missionário em que somos chamados a viver nossa vocação e, mais ainda, muda o nosso modo de anunciar o Evangelho. Os pagãos aos quais somos enviados não constituem uma alternativa à nossa fé, mas uma realidade de comunhão, um lugar de encontro para um intercâmbio recíproco. Esta afirmação não inclui a supina aceitação de tudo aquilo que constitui o mal, a experiência de pecado das realidades em que a nossa história pessoal nos coloca. Isto seria como dizer que à fé nós acrescentamos, como se fosse conteúdo da mesma, os pecados da Igreja e das formas históricas de cristianismo que marcaram a sua história. Trata-se, ao invés, de superar o conceito que divide o mundo em duas categorias – nós e os outros – para sentirmo-nos parte de um todo, onde todos necessitam dos outros, inclusive o Evangelho que anunciamos.

Não é um caminho fácil. Atrás da curva sempre se esconde a tentação de nos julgarmos superiores aos outros, fato que garante a nossa eleição. Caiu nesta tentação também um homem muito aberto, como Dom Castro. Ele escreveu apostilas nas quais dedica as primeiras dez páginas em qualificar e catalogar os pagãos do nosso tempo. O elenco é interessante; a linguagem, como sempre, atraente; mas, no fim, sobram os “maus”. No entanto, estou certo, ele também rezou nestes dias com a oração do breviário, que diz: “Deus Pai quis derramar também sobre os pagãos o dom do Espírito Santo. Rezemos para que no nosso tempo se difundam os prodígios do Pentecostes” (Liturgia das Horas, p. 614). O Missal, onde está codificada a lex orandi, complemento indispensável da lex credendi, celebra o conteúdo fundamental dos Atos, proclamando a pré-incidência da obra do Espírito Santo, que suscita discípulos do Ressuscitado. Ele se manifesta presente entre os pagãos, antes mesmo da intervenção dos Apóstolos, e sua obra permanece, visto que em Deus as operações são eternas.


As interpelações não faltam

Os Evangelhos, embora contenham o mandato explícito de anunciar o Evangelho até os confins do mundo, nunca apresentam o advento do Reino de Deus como uma realidade globalizante. As imagens que o descrevem – fermento, grãozinho de mostarda, pequeno rebanho – parecem indicar para o cristianismo um estado de minoria permanente. Na compreensão desta verdade, todos eliminamos o conceito restritivo de uma salvação destinada a poucos eleitos, sobre o modelo de Israel. A paternidade de Deus é universal, como universal é o mistério redentor da Cruz de Jesus: no chamado à existência e no comum destino à morte – comum também com Jesus – há dois momentos de fundamental solidariedade humana com o mistério de Deus: somos filhos na vida, companheiros na morte.

O pagão que está em nós...

A relação com os pagãos parte, portanto, de uma unidade fundamental, de um único relacionamento com o amor fontal do Pai: são nossos consanguíneos, não são diferentes de nós, percorrem o mesmo itinerário de vida, destinam-se ao único amor de Deus. Além de não estarem mais tão perigosamente perto do inferno, fazem, como nós, o esforço da experiência do amor de Deus, embora, às vezes, inconscientemente, ou através da insondável razão da recusa de Deus. Se nós – o Instituto fundado por vontade de Allamano – somos para os não cristãos, devemos partir deste caminho fundamental, que nos conduz a eles. A missão já perdeu a conotação geográfica com a qual foi identificada durante muito tempo, está deixando para trás inclusive as novas configurações que nos foram indicadas recentemente. Descobre-se sempre mais que a missão é companhia recíproca do crente com o não crente, na tentativa de dar contornos ao rosto de Deus Pai e de Cristo Salvador.

A certeza de fé do cristão não consegue, sozinha, esclarecer o mistério para o pagão, nem a visão do pagão pode substituir o dom recebido do alto. Ambos caminham em busca de uma verdade, que ainda não possuem completamente, que será dom do Espírito.

O respeito jamais deve faltar...

O pressuposto principal da vida cristã permanece a proclamação da Palavra. A “prova científica” do seu valor é o testemunho daquilo que ela opera no crente. Se não lhe transformou a vida, não pode pretender garantia de autenticidade; se não lhe mudou o coração, permanece um sistema. O pagão do nosso tempo percorre outro caminho para chegar à verdade: o caminho da ciência, do conhecimento científico. Ainda que o cientismo tenha acabado há muito tempo, com sua pretensão de poder chegar ao conhecimento de tudo e de substituir o mistério com o saber, permanece o fato: embora concordemos que o caminho científico tem suas limitações, a estrada da razão, para os pagãos, permanece como autêntica possibilidade de acesso à verdade.

Toda forma de reticência cristã, todo desinteresse superficial, toda substituição simplicista da pesquisa pelas formas de espiritualismo, destrói a possibilidade de diálogo e banaliza a substância da verdade cristã. A proclamação do Evangelho, como uma verdade que não pode ou não deve ser mediada por outras verdades encontradas pelo homem, reduz a credibilidade do próprio Evangelho. O mínimo que se pode fazer, neste ponto, é manter a mente aberta, adquirir sensibilidade, um senso profundo e verdadeiro de respeito e, vez por outra, não sempre, deixar-se fascinar pela verdade que brota da pesquisa científica. Quando os primeiros astronautas desembarcaram na lua, Paulo VI enviou-lhes um telegrama vazado nestes termos: “Vídimus et admirati sumus! – Vimos e ficamos admirados!”.

Só a caridade não basta...

A nós – Missionários da Consolata – talvez se nos peça mais que isto. Faz parte da nossa história gloriosa o empenho pela promoção humana. Continuamos ainda a trabalhar neste setor com numerosos compromissos. Estamos em guerra contra toda forma de pobreza. Deveremos continuar ainda por muito tempo. Mas, perdoai-me, se vos trago um exemplo pessoal: há poucos dias concluí um seminário sobre os sínodos continentais. Havia 17 ouvintes inscritos, entre eles 5 africanos. Naturalmente, eles se ocuparam do seu sínodo. Queria apresentar-vos o texto da relação final do trabalho deles, onde se refuta de maneira vigorosa a prolongada descrição da África, embora mostrando seus reais problemas. Diz o texto: “Nós sabemos ver-nos também com olhos diferentes. Vós também tendes sombras e nós não somos somente sombras. Já crescemos, temos vontade de contar-nos as coisas... Sentimos que, talvez, chegou a hora de dizer: Aquilo que temos, já é suficiente para começarmos a ser mais, a valer mais, a pensar mais. Por que, quando nós falamos, tendes pressa de fazer outras coisas? Por que somente aquilo que dizeis vós é considerado inteligente?”
É natural, os meus estudantes são padres... Mas, não há, talvez, um mundo africano que faz o seu caminho sem nós, pelas mesmas razões? São Francisco Xavier já pôde constatar que na Índia o cristianismo era identificado como a religião dos mendigos, porque, quando acabaram as obras de caridade que davam sustentação às classes mais pobres e menos instruídas, os missionários não sabiam como falar nem o que fazer com as grandes culturas orientais, perante as quais o cristianismo aparecia como bárbaro.

Num mundo pagão como o nosso, mas voltado profundamente para a pesquisa, é honestamente mais empenhativo e mais humano abordar um pouco de verdade sofrida, que remeter constantemente tudo a rápidas explicações teológicas. A realização de obras é, sem dúvida, a tradução operativa da caridade; mas, só com estas obras, não se pode explicar a razão da própria fé. É quanto a missão hoje nos pede, e o pede também ao homem que indaga, que pesquisa e que, buscando e pesquisando, faz perguntas e mostra momentos de verdade; estes momentos de verdade são, por si só, um aproximar-se do divino. Ah! Se ao menos conseguíssemos procurar Deus no homem, para fazer com que o homem fosse de verdade ele próprio! Teríamos então encontrado aquela harmonia entre fé e razão, que mereceu uma encíclica de João Paulo II.

Um confronto sobre a liberdade...

Outro elemento sobre o qual devemos dialogar com o paganismo, ao qual nos sentimos destinados, é o conceito de liberdade. A liberdade vos tornará livres, garantiu-nos Jesus. Mas a liberdade que o mundo hoje reivindica não tem muita relação com a liberdade encarnada pelo cristianismo; ao contrário, é uma liberdade que tomou vulto através de uma ideologia anticristã – o Iluminismo – e foi crescendo num movimento revolucionário que perseguiu a Igreja, a revolução francesa. Não creio que seja suficiente fazer um pedido de perdão pelas violações praticadas pelos cristãos, ainda que seja um pedido encaixado dentro do Grande Jubileu do 2000. Talvez apareça até inútil um tal esforço. O homem moderno não cristão compreendeu por si mesmo que Deus não pode querer uma religião que danifique o homem, porquanto ele mesmo respeita a liberdade individual. Por mais que o amadurecimento do pensamento moderno possa
ultrapassar os limites e cometer abusos, entretanto é verdade também que se pode cometer outros abusos – negando o princípio da liberdade como fundamento da dignidade humana – enquanto é certo que ela possibilitou uma “explicação” leiga dos fatos e uma intuição racional do comportamento humano centralizado nos valores da solidariedade, da justiça, da paz e da ecologia, valores estes que nos levaram a ter uma compreensão mais profunda do próprio Evangelho.

Saber valorizar e propor o essencial...

Em contato com esta maneira humana de sentir, estamos aprendendo mais uma coisa: a profundidade da fé e a intensidade de alguns poucos valores espirituais bem vivenciados, podem tornar-se caminho de comunicação da mensagem de Jesus. Estamos mais que convencidos de que não faz sentido recorrer a qualquer forma de intimidação para falar de Deus. A fé só pode ser proposta como uma íntima ligação com Deus, que brota do coração e proporciona paz, amor,
alegria, e não sentimento de culpa e de mesquinhez. A adoração só pode ser um ato daquela liberdade individual, hoje considerada sagrada. Dirigir-se a Deus, sem ao menos ter estas disposições, significa tentar enganá-lo, e pode servir apenas de um pretexto provisório para satisfazer as exigências das instituições religiosas. A busca de um caminho experimental para testemunhar a verdade de Jesus – o único que o mundo pagão compreende e está disposto a seguir – obriga o missionário a fazer uma síntese do seu saber doutrinário, a valorizar o que dele é essencial, a fim de que a sua mensagem se torne um meio capaz de levar as pessoas a compreenderem o sentido da vida e a encontrarem a felicidade.

Se a religião se apresenta como algo que limita arbitrariamente a liberdade e cria contraste com a natureza humana, torna-se um fardo, não uma fonte de consolação e de alegria. Toda restrição da liberdade, quando não motivada, prejudicou a religião. Deus criou os seres humanos para serem livres, para se alegrarem com a vida que ele lhes deu. Em troca, pede somente que o amem e que se amem, e que neste amor vivam felizes.

Novos âmbitos de convivência da nossa fé...

Enfim, todos sabemos que do nosso chamado à fé brota nossa inserção na comunidade dos crentes. O cristianismo traz implícita em si uma substancial dimensão comunitária. Forma em toda parte uma “ekklesia”, assembléia dotada de vitalidade transcendente, pois onde dois ou mais se reúnem em nome do Senhor, Ele está presente no meio deles. Além disso, ela vive em toda parte uma dimensão universal intrínseca, é católica por natureza, enquanto sinal e antecipação do Reino. A dimensão social do cristianismo não poderia ter uma expressão tão elevada como esta. Todavia, ela se tornou no tempo uma espécie de abstração. O lugar da sociedade foi substituído pelos elencos; o da participação, pelas instituições. Não houve na Igreja uma reforma que, por mais que se espelhasse na primitiva experiência da comunidade cristã dos Atos, tenha sido capaz de inverter esta tendência.

Nós, missionários, chegamos até a transformá-la numa das finalidades essenciais da missão: plantar a Igreja. No começo, o sistema funcionou, ainda que, mais que plantar, tivéssemos transplantado uma forma de Igreja, a nossa forma. Não resta dúvida, poderíamos continuar a
fazer isso, e talvez ainda o fazemos. Mas os âmbitos nos quais podemos aplicar este paradigma tornam-se sempre mais limitados; e aqueles nos quais parecia que a meta tivesse sido atingida, esvaziaram-se.

No entanto, exatamente quando a estrutura social e a dimensão assemblear do cristianismo são sacudidas, emerge no mundo pagão o interesse pelo “político”, a ponto de se transformar em ídolo. Nascem formações ideológicas e de poder, meios de comunicação sempre mais agressivos para o predomínio da cidade, alimenta-se uma espécie de paixão política que nasce de uma relativa visão do bem comum, elaboram-se princípios de defesa e de garantia do Direito acerca de tudo, exalta-se a irrupção da economia, talvez a dimensão mais pagã do mundo ao qual se destina o Evangelho de Jesus.

O capital mundial não exerce influência somente sobre o mercado, mas influencia fortemente também a cultura, esforçando-se por torná-la sempre mais homogênea, com a intenção de predispô-la ao único mercado. A globalização vende a cultura como mercadoria do capital (filmes, arte, música, idéias) e a transforma em fonte de lucro, erguendo as bandeiras do materialismo e do consumismo, como valores. A tendência à convivência social, a política, a economia, não obstante sua complexidade, fascinam as pessoas do nosso tempo, ainda que os males que lhes são imputados resultem, às vezes, macroscópicos e recaiam sobre os ombros dos últimos da terra.

Novamente: é este o contexto que deve ser iluminado pelo Evangelho e que, por sua vez, deve criar uma nova compreensão de si mesmo. É este o contexto novo da missão, o lugar dialético da proposta cristã e da humilde acolhida do que é humano. Pode acontecer, ao invés, que a ambiguidade implícita existente em toda forma de dialética, ou a complexidade estrutural do mundo que nos circunda, nos induzam a criar para nós um pequeno mundo – o mundo da nossa missão – onde somos aceitos mais em razão das nossas limitações que pelo significado daquilo que assumimos. O povo sabe que só podemos dar aquilo a que ele está habituado, e por isso nos aceita, mas procura alhures aquele “mais” que lhe é pedido pela complexidade que o envolve.

Conclusão

Hoje, ser para os pagãos, só pode significar isto para nós: sentir que somos destinados a viver na complexidade do mundo que nos cerca, onde quer que esta complexidade se apresente e pareça não deixar espaço ao Evangelho, onde reduz o “religioso” a algo banal, inadequado, fora de contexto. A fuga desta realidade, ainda que inconsciente, não só nos torna estranhos à complexidade, mas priva também (justamente) a nossa mensagem de credibilidade.

No fundo, trata-se de redescobrir o sentido primitivo da nossa vocação: saímos de um contexto limitado – o da nossa família e do nosso ambiente – para seguir um ideal cujo horizonte abrangia o mundo. Este mundo, porém, mudou e nos impõe uma nova compreensão do nosso próprio ideal; nos induz a passar de uma atividade missionária marcada pela necessidade de converter, ou seja, de trabalhar para convencer, para uma missão que se apresenta essencialmente como
dimensão do pensamento, uma emoção da existência, a fim de poder realizar um diálogo em maior profundidade possível com o humano, onde Deus se revela.

Então, a necessidade de mudar torna-se clara, não no sentido de irmos de um lugar para outro (de qualquer forma, também quando mudamos, levaremos a nós mesmos para onde formos), mas no sentido de realizar mudanças em nós, ou, pelo menos, de permitirmos que se realizem mudanças em torno de nós.

O pior dos males que podemos causar a nós e à missão é impor à realidade presente os modelos e paradigmas da nossa experiência que, enquanto tal, pertence sempre ao passado. Tudo passa, a gente nunca se lava na mesma água! É sabedoria antiga. Nem mesmo o mais duro granito pode resistir para sempre às modificações trazidas pelo tempo.

Eu creio nas mudanças graduais, creio nas novidades que amadurecem como uma semente. Só assim, com este método evangélico é que o Instituto crescerá. Creio verdadeiramente que duas, três, dez pessoas, confrontando-se, procurando a verdade, aprofundando o sentido da missão, ajudando-se a viver de maneira nova, lançam a semente. É um lêvedo que fermenta! Levar as consciências a trabalhar é contagioso. Estou aprendendo que se deve ter a coragem da paciência, a arte de deixar que o tempo produza suas mudanças. O tempo cura as feridas e faz amadurecer as plantas... Mas o tempo deve também ser vivido.

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