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Desde que cheguei à Coréia, há 8 anos, uma das coisas que mais me despertou a atenção, ao visitar uma igreja católica e um templo budista, foi constatar que a maioria dos fiéis que participavam das celebrações, ou rezavam, eram mulheres, ao passo que o número dos homens era bastante reduzido. Esta constatação suscitou em mim algumas interrogações e me fez refletir. Outro fato que despertou minha atenção foi constatar a grande devoção que as católicas coreanas consagram a Nossa Senhora. Os grupos marianos nas paróquias, sobretudo a Legio Mariae, são os mais ativos e numerosos, praticamente em todas as paróquias. Percebi isso com facilidade, desde que cheguei à Coréia; mas a minha maior surpresa foi esta: quando comecei a conhecer e a tomar contato com os budistas, descobri que entre os seus crentes, sobretudo as mulheres, professavam grande devoção a Bodisatva Kwanum; e notei também que, nos templos, os grupos mais ativos e numerosos eram dedicados a “ela”. Esta Bodisatva, no leste asiático, apresenta um aspecto bastante semelhante com Maria, inclusive externamente, mas sobretudo na maneira como os fiéis a vêm e a consideram. Por exemplo, os católicos japoneses durante o tempo das perseguições continuaram a expressar sua devoção mariana, mas orientando-a exteriormente à figura de Kwanum, para não serem descobertos e poderem continuar a praticar a sua fé. Após meus primeiros 4 anos de estudo da língua coreana e de trabalho pastoral entre os pobres, na periferia de Inchon, comecei o estudo de religiões orientais na universidade. Na conclusão dos estudos, devia apresentar uma tese; pensei que seria um bom tema de pesquisa fazer a comparação destas duas devoções. Minha especialidade era a religiosidade popular e o shamanismo, mas tencionava aprofundar o modo com que o povo simples da Coréia expressa a sua fé e suas crenças. Ciente de que a maioria dos crentes praticantes e ativos no Budismo e no Catolicismo era constituída por mulheres, e que a devoção mais arraigada entre elas era respectivamente a devoção a Kwanum e a Maria, decidi escolher este tema para a minha pesquisa universitária. No meu trabalho, utilizei o método antropológico da pesquisa no campo, associada ao uso de material escrito proveniente das duas tradições religiosas. Assim, considerado globalmente, o trabalho pode ser dividido em duas partes. A primeira, analisa as fontes escritas provenientes das escrituras Budista e Cristã, bem como as fontes históricas das duas tradições; a segunda, ao invés, toma em consideração os dados oriundos fundamentalmente da pesquisa no campo, realizada durante um ano e meio, em diversos templos budistas e igrejas católicas. Graças especialmente aos dados provenientes de tal pesquisa, consegui concretizar os principais elementos culturais e religiosos que caracterizam a religiosidade popular da mulher coreana. Durante este meu trabalho, visitei diversos templos dedicados especialmente a Kwanum e, por dois períodos de três meses, participei da reunião semanal de um grupo de mulheres, num templo da cidade de Puchon. Este grupo se ocupava com o estudo das escrituras budistas. Creio que minha participação neste grupo constituiu uma das experiências mais importantes para o meu estudo. Fez-me compreender meu papel de pesquisador e mostrou-me a dificuldade de aplicar o método antropológico proposto por Clifford Geertz, “do ponto de vista local” (from the native point of view). Meu esforço, durante a pesquisa no campo, consistiu em verificar a devoção a Maria e a Kwanum, exatamente a partir da visão daqueles que constituíam o objeto da minha pesquisa, ou seja, do ponto de vida da mulher coreana. Não foi um trabalho fácil para mim, pelo fato de ser homem, estrangeiro e também sacerdote católico. Desta forma, havia poucos elementos comuns, quando fiz a minha pesquisa entre as mulheres budistas nos templos. Em todo o caso, a tentativa de me deixar transformar no “objeto” da minha pesquisa, embora reconhecendo o meu papel de “enviado estrangeiro”, foi uma experiência muito enriquecedora. Nas minhas visitas, e participando de grupos tanto católicos como budistas, tive a oportunidade de falar e de entrevistar um bom número de crentes de ambas as religiões acerca de sua devoção a Maria e a Kwanum, respectivamente. Os resultados destas entrevistas serão apresentados na última parte do meu trabalho. Retornando ao conteúdo da tese, após breve introdução, onde mostro com clareza os principais problemas e objetivos da minha pesquisa, apresento o método de pesquisa utilizado e que, como lembrei acima, baseou-se principalmente no método antropológico proposto por Clifford Geertz, ainda que adaptado a diversos elementos provenientes da hermenêutica feminista, que procura descobrir novos métodos de interpretação mais apropriados à visão feminina da realidade. Uma realidade vista mais como processo que como dialética, que acentua sobretudo a continuidade e a reconciliação. Prossigo depois fazendo uma análise das principais imagens de Kwanum nas escrituras budistas. Tais imagens apresentam Kwanum como bodisatva, que realiza plenamente a sabedoria e coloca em prática o “nada”. A imagem mais significativa e que aparece com mais frequência nas escrituras budistas é, provavelmente, a de Kwanum em seu papel de salvadora dos seres humanos que imploram ajuda e libertação do sofrimento. Além disso, Kwanum é apresentada também como a que auxilia todos os seres que imploram ajuda para chegar ao “nirvana”. Na tradição do Budismo da Terra Pura (Pure Land Buddhism), Kwanum é a bodisatva que acompanha e conduz os que morrem, em sua viagem rumo ao paraíso. Ao invés, nos textos da tradição do Budismo Exotérico, sobretudo no sutra do “Buda de mil mãos” (Chon Su Kyong), que é o sutra mais popular e mais invocado pelas mulheres coreanas, Kwanum é apresentada como a mãe da misericórdia e da compaixão. Estas imagens de Kwanum dão, sem dúvida, um caráter profundamente religioso e de fé aos crentes budistas, pelo menos a nível de religiosidade popular. Depois de analisar estas imagens referentes a Kwanum nas escrituras, procuro examinar qual foi a evolução da devoção a Kwanum ao longo da história, a partir de seu começo na Índia, até chegar à Coréia. Nesta evolução histórica, atribuo particular importância ao processo de transformação sofrido por Kwanum que, de bodisatva assexuada ou neutra, e até mesmo representada com características masculinas na Índia, onde é conhecida como Avalokitesvara, torna-se, ao chegar à China, uma bodisatva com características acentuadamente femininas e maternas. Analiso também o processo de divinização por que passou Kwanum ao longo da história e que chegou a configurá-la a uma divindade dotada de grandes poderes de salvação, poderes que ultrapassam de muito a sua característica de modelo, mediador, auxiliar, comum a todas as bodisatvas. Em minha tese faço, portanto, uma análise mais detalhada da evolução histórica de Kwanum nas diversas épocas históricas da Coréia. Concluo esta seção, assinalando as características femininas mais evidentes com que Kwanum se manifesta nas diversas legendas e narrativas de milagres relativos a ela, que podemos encontrar em alguns documentos históricos conservados, que remontam especialmente ao período dos Três Reinos e à época de Kóryo. Nesta época, foi popular sobretudo a “Pekui Kwanum” (Kwanum do vestido branco). Em numerosas legendas narradas na Samkukyusa (História dos Três Reinos), relacionadas a Kwanum, esta aparece como uma mulher que oferece o seu amor misericordioso e compreensivo a quantos passam por dificuldades. Sua característica materna é muito evidenciada em todos os períodos históricos. Depois de ter analisado as imagens de Kwanum, passo a estudar as principais imagens de Maria nas Escrituras católicas. No Novo Testamento, Nossa Senhora é apresentada sobretudo como Mãe de Jesus e Mãe de todos os cristãos. Nos textos apócrifos, no entanto, o caráter “divino” de Maria é sublinhado com maior evidência. Outras importantes imagens que foram atribuídas a Maria ao longo da história da Igreja são: a de Virgem e, sobretudo na religiosidade popular, a de Medianeira, Refúgio dos pecadores e Refúgio das almas do purgatório. Outros títulos atribuídos a Maria, neste seu caráter de Corredentora e Medianeira, foram os de Segunda Eva e Esposa de Cristo. Atribui-se-lhe também, com frequência, o papel de Protetora e Patrona. Este último papel, sobretudo, é marcado fortemente por elementos regionais como, por exemplo, no caso de Nossa Senhora de Guadalupe. Em relação a este caráter regional de Protetora e Patrona são-lhe atribuídas ainda outras funções, como: Saúde dos enfermos, Consoladora e Acompanhante dos moribundos. Concluo esta parte da tese analisando em maior profundidade como foi compreendida a característica materna de Maria ao longo da história da Igreja. Esta característica materna não pode ser separada de sua relação com Jesus, como Mãe protetora e Mãe que sofre com seus Filho, Mãe Dolorosa. A maneira de conceber a figura de Maria foi evoluindo ao longo da história da Igreja, não só a nível oficial, mas também a nível de religiosidade popular. Considerando o desenvolvimento histórico da devoção mariana pode-se constatar um processo de “divinização” da figura de Maria, sobretudo a nível de religiosidade popular. Dedico também uma seção da tese à evolução da devoção mariana na Coréia durante os duzentos anos de presença da Igreja Católica no país. Refiro-me aqui de maneira particular aos grupos especificamente dedicados à sua devoção. Concluo este capítulo com a análise das características femininas que foram atribuídas e particularmente sublinhadas em Maria no decorrer da história, e que exerceram influência no modo de conceber o papel da mulher na Igreja e na sociedade. A causa disto: Maria, frequentemente, foi apresentada à mulher cristã como modelo de fé e foi “utilizada” para oferecer uma imagem da mulher, particularmente onde sobressaem as qualidades do serviço, da humildade, da obediência e da submissão à vontade de Deus. Contudo, são tomadas em consideração também as mais recentes interpretações teológicas da figura de Maria, devidas sobretudo ao influxo exercido pela teologia feminista, e que estão fazendo uma re-interpretação de Maria, como modelo para a mulher mais encarnada na realidade humana, mais próxima à situação de sofrimento e opressão em que muitas mulheres se encontram. Na segunda parte da tese faço uma breve análise da posição do papel da mulher crente coreana, seja no Budismo como no Cristianismo. Antes de analisar concretamente a situação atual e o papel da mulher coreana na vida das igrejas e dos templos, apresento o desenvolvimento histórico da posição da mulher na tradição budista e cristã. Procuro mostrar como historicamente se realizou a mudança de uma posição de igualdade entre o homem e a mulher, própria dos inícios carismáticos de ambas as tradições religiosas, para uma posição de discriminação em relação à mulher, com sua exclusão da maioria das tarefas de responsabilidade em ambas as religiões. Tanto Buda quanto Jesus Cristo pregaram a igualdade entre todos os seres humanos; contudo, à medida que as duas tradições religiosas assumiram forma institucional e foram estruturadas sob a influência da realidade sócio-cultural, a separação dos papéis entre o homem e a mulher se acentuou; e a classe dominante – a masculina – reinterpretou as doutrinas de ambas as tradições, para justificar a própria posição dominante e do monopólio do poder. Esta tradição chegou até nós e continua a influenciar a situação e o papel da mulher nas duas tradições religiosas. A mulher continua a desenvolver um papel de ajudante e de apoio na vida da igreja e do templo. Além disso, esta tradição fez com que as mulheres crentes exprimissem a sua experiência de fé sobretudo através de práticas devocionais. A maioria dos grupos femininos, relacionados às igrejas e aos templos, têm como finalidade primeira a prática da devoção (principalmente a Maria e a Kwanum) e o serviço no âmbito do templo ou da igreja. As mulheres, no que se refere às tarefas de governo, ou quando se trata de tomar decisões importantes, raramente são consultadas, ainda que representem a grande maioria dos fiéis ativos nas duas religiões. A partir dos anos ’90, com a tomada de consciência favorecida pelo movimento feminista na sociedade, começou a surgir uma mudança dentro das duas religiões, na Coréia. As mulheres exigem o reconhecimento de seu papel e de sua posição de grande maioria. Isto, naturalmente, além de exigirem o retorno às doutrinas de igualdade entre todos os seres humanos, proclamadas por Jesus Cristo e Buda. Na última parte da tese analiso os resultados da minha pesquisa sobre o tema. Tomo em cosideração sobretudo as características culturais e religiosas das práticas devocionais da crente coreana. Sublinho em particular a influência que tais práticas exercem na vida familiar e social da mulher coreana. A análise das práticas devocionais concentra-se nas práticas dirigidas a Maria e a Kwanum, e no modo como as mulheres crentes expressam estas devoções. Na Coréia, tradicionalmente, é a mulher, enquanto mãe de família, que tem a responsabilidade de se apresentar perante as divindades ou perante Deus, para interceder em favor dos membros de sua família, para implorar proteção e auxílio. Especialmente nos momentos de instabilidade, de doença, ou quando aparecem outros problemas, é a mulher, a mãe que tem o dever de se aproximar da divindade, para interceder, para implorar proteção. Por isso, pode-se dizer que a mulher é considerada a responsável pela vida religiosa da família, pela sua paz e felicidade. No primeiro capítulo desta terceira parte da tese mostro a grande conexão existente entre a cultura coreana e as devoções de tipo maternal, e como se influenciam reciprocamente. Começo por analisar o papel de Kwanum e de Maria como “mães”. Tanto os crentes budistas quanto os católicos referem-se frequentemente a Kwanum ou a Maria, usando o termo “mãe”. No caso de Nossa Senhora, a tradição católica tem uma longa história de identificação de Maria como Mãe de Jesus e Mãe de todos os crentes; mas na tradição budista esta característica não emerge de maneira tão clara. Entretanto, também a crente budista identifica facilmente o papel de Kwanum com o papel de uma mãe misericordiosa e amorosa, sempre disposta a ajudar, a atender às necessidades dos seus filhos. Assim, pode-se dizer que as mulheres coreanas tomaram Kwanum e Maria como modelos perfeitos de sua maternidade. Maria e Kwanum foram revestidas de muitas características próprias da idéia de “mãe”, proveniente da cultura e tradição coreana. A imagem tradicional da mulher coreana é de uma mãe forte, perseverante, paciente, serviçal e sacrificada. Tradicionalmente, a mulher é vista como a mãe perseverante que constrói a história através de seus filhos, enquanto protege, mantém unida e guarda a família. A idéia da mulher, como mãe, foi ainda mais acentuada pela ideologia confucionista, que identificou a mulher com o seu papel de mãe e a circunscreveu ao mundo interno da casa, ao passo que fez do homem o responsável das atividades do mundo externo. Nesta maneira de conceber a sociedade, a mulher, sozinha, perde a sua importância e só a recupera quando entra a fazer parte de uma família e é capaz de lhe garantir a sobrevivência, colocando no mundo descendentes. A mulher, enquanto “esposa” ou “nora”, só encontra paz e estabilidade familiar quando se torna “mãe”. Também as crentes, sejam elas católicas ou budistas, expressam esta visão tradicional da mulher no seu modo de ver Maria e Kwanum. Interrogadas de que modo viam a pessoa de Maria como mulher, a grande maioria das mulheres católicas definiam Maria como Mãe de Jesus, esposa de José, guarda da família de Nazaré. Mas, sobretudo, colocavam em evidência a “obediência” de Maria; assim, as mulheres coreanas católicas olham para Maria como modelo de obediência a Deus e, consequentemente, aos próprios maridos e filhos. As crentes budistas põem em relevo a característica materna da paciência, da misericórdia, da capacidade de aceitar tudo e a todos, a exemplo de Kwanum, que tomam também como modelo no seu relacionamento com os membros da família, como mãe que zela pelo marido e pelos filhos com um “coração como o de Kwanum”. A mulher deve ser capaz de assumir os sofrimentos e as dores da família, para que esta possa viver feliz. Outro aspecto que emerge das entrevistas diz respeito à característica feminina de Maria e de Kwanum; em ambos os casos, o forte acento sobre a característica materna, prejudicou sua feminilidade, quase esquecida de vez. Praticamente são vistas como assexuadas. No caso de Kwanum, é muito importante o seu papel de provedora de filhos. Muitas crentes, em suas orações, apresentam como pedido principal: poder dar à luz um filho homem. Perguntadas sobre a característica feminina de Maria, as crentes católicas falam dela como de uma mulher muito especial, mais sobrenatural que humana. Na prática, sua característica de mulher é sempre relacionada ao seu papel de mãe. De qualquer forma, também as crentes católicas pedem frequentemente a Maria que lhes conceda a graça de um filho homem, para garantir, desta forma, a sua posição na família do marido. Este fato nos permite concluir que a devoção a Maria e a Kwanum é fortemente influenciada pela visão tradicional confuciana da mulher e pela sua concepção patriarcal da família. Outro aspecto a ser evidenciado nestas duas devoções é a insistência com que se pede a intercessão de Maria e de Kwanum em favor da própria família; insistência que apresenta uma forte marca egocêntrica. Isto mostra que há uma nova tendência na sociedade coreana. A passagem de uma sociedade prevalentemente agrícola para uma sociedade industrial e urbana produziu uma mudança também na maneira de conceber a própria família. O interesse concentra-se agora particularmente na família nuclear (a família restrita ao núcleo fundamental formado por pais e filhos), em prejuízo da família alargada e do grupo. Eis porque as orações e práticas devocionais, na maioria dos casos, têm por objetivo obter benefícios para a própria família, sem preocupar-se de outras famílias ou de outras situações de sofrimento. Isto acontece também quando, a nível teórico, as fiéis de ambas as religiões, ao definirem Maria e Kwanum, consideram-nas como mães que acolhem a todos sem distinção, mães que respondem às orações de todos os sofredores. Há, portanto, uma dicotomia entre a prática e o conceito teórico. Um outro elemento característico da devoção a Kwanum e a Maria é sua íntima relação com uma conduta (moral) de “serviço e cuidado”. Esta conduta aparece sobretudo no seio da família, mas abraça também o âmbito da igreja ou do templo. Esta moral do serviço e do cuidado, no âmbito cultural coreano, entrelaça-se facilmente com a idéia de “piedade filial” (Hyodo). No budismo coreano a “piedade filial” é reforçada em alguns dos textos mais populares dedicados a Kwanum (Kwanum Bosal, Wuangseng, Pumkyong). No Catolicismo, esta piedade filial e ética do serviço se conjuga muito bem com a espiritualidade da “Sagrada Família”, que ajuda a reforçar o papel de serviço e cuidado da família, próprio da mulher. Entretanto, muitas mulheres coreanas põem em prática esta ética do serviço também fora do âmbito da própria família e o oferecem nas paróquias e templos. Os grupos mais ativos de serviço, nestes últimos âmbitos, são formados por pessoas que veneram Kwanum ou Maria (Grupo Kwanum, Legião de Maria...). Contudo, também nestes grupos de maioria feminina, os postos de comando são ocupados pelos homens. Uma característica bastante acentuada, sobretudo nos grupos católicos, é a militância: de fato, são muito ativos em atrair novos adeptos para suas igrejas. No modelo confuciano, que dá forma à sociedade coreana, a ética do serviço foi valorizada pelas mulheres para conseguir a sua realização e alcançar o justo grau de consideração na família e na sociedade. De acordo com o provérbio: “Por trás de uma pessoa de sucesso, há sempre uma boa mãe”, a mãe coreana procura a própria realização e prestígio através do sucesso dos membros da própria família, especialmente dos filhos. A devoção a Maria e a Kwanum serviu, inconscientemente, a reforçar esta idéia nas mulheres. Na tese, passo, em seguida, a analisar a experiência religiosa da mulher coreana e sua fé nos poderes salvíficos de Kwanum e Maria. Ambas as figuras são revestidas de grande poder salvífico. A crente se aproxima delas com a confiança de ser libertada de suas situações de sofrimento e de necessidade. Esta experiência salvífica é vivida não somente nos momentos particulares da oração ou das cerimônias religiosas, mas prolonga-se também na vida cotidiana da crente. A busca de ajuda e assistência de Maria e de Kwanum é uma constante no trabalho cotidiano no seio da família. A mulher, no seio da família, converte-se numa “sacerdotisa”, que sente muito próxima a presença de Maria e Kwanum. Estes fatores fazem com que a grande maioria das crentes de ambas as religiões revistam de uma característica divina tanto Kwanum – considerada como libertadora do sofrimento – quanto Maria, considerada como a que salva do pecado e do mal. A característica salvífica de Maria e Kwanum aparece ainda mais claramente nos diversos tipos de orações que lhes dirigem as crentes católicas e budistas. Podemos dividir estas orações em cinco tipos: orações emotivas, que expressam os sentimentos de afeto das fiéis para com estas duas figuras “divinas”; orações para pedir a manutenção da ordem, a proteção da comunidade e da nação, e para ser preservado de desgraças imprevistas; orações para pedir perdão; orações para implorar salvação, especialmente em favor dos familiares falecidos; orações instrumentais, para pedir a solução dos problemas da vida cotidiana, especialmente da família. Uma outra experiência religiosa vivida pela grande maioria das fiéis de ambas as religiões é a das “revelações” que recebem de Maria e Kwanum, através dos sonhos. Um bom número das fiéis que entrevistei manifestou que sentem a presença de Maria ou de Kwanum ao seu lado durante todo o dia, nas diversas atividades cotidianas que realizam. Além do mais, quando a família recebe alguma má notícia ou ameaça de perigo, Maria ou Kwanum lhes aparecem em seus sonhos, aconselhando ou advertindo do perigo. Os sonhos tornam-se assim uma experiência religiosa que ajuda as mulheres a encontrar força nos momentos de crise. Através dos sonhos, cria-se uma conexão entre a esfera natural e a sobrenatural. Os sonhos, além disso, são fortemente caracterizados por elementos culturais que se combinam com os elementos religiosos próprios da tradição religiosa de pertença. Estas experiências da caráter “místico” são, frequentemente, associadas ao processo de purificação e conversão da parte das crentes. Maria e Kwanum ajudam, intercedem e servem de modelo neste processo de purificação. No caso das crentes católicas, este aspecto de purificação e de conversão faz, muitas vezes, referência à virgindade de Maria. Este é um fato que, em alguns casos, conduz a uma visão negativa da própria sexualidade e condição de mulher. Segundo a cultura tradicional coreana, a sexualidade da mulher é vista como uma “contaminação” que necessita de purificação. Este modo de pensar faz com que muitas mulheres procurem superar esta visão negativa da sexualidade por meio de uma intensa devoção a Maria ou a Kwanum, que são consideradas também, em certo sentido, transcendentes à condição humana, neutras quanto à sexualidade. Outro aspecto que reflete a característica salvífica de Maria e Kwanum é o importante papel que desempenham na experiência do sofrimento e da morte. A devoção a Kwanum e a Maria exerce, na realidade, importante efeito, enquanto alivia a dor e ajuda a superar o sofrimento (Han) das mulheres. Desenvolve, além disso, relevante papel em relação aos mortos, ajudando-os a entrar no paraíso. Deste modo, a característica salvífica de Maria e Kwanum vai além, até englobar os vivos e os antepassados. Este é um fato cultural de grande importância na Coréia. Não é possível separar o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Os antepassados são considerados parte ativa na vida das famílias e exercem forte influência sobre seus membros. A devoção a Maria e a Kwanum ajuda a criar um relacionamento harmonioso entre vivos e mortos, como também a aliviar o sofrimento no coração dos crentes e de seus antepassados. Concluo esta terceira parte da tese dedicada à análise dos resultados da pesquisa, assinalando comparativamente as características mais relevantes das duas devoções. A primeira característica comum é esta: tanto Maria quanto Kwanum são consideradas mães perfeitas, enquanto representam o ideal de “mãe” em ambas as religiões. Uma mãe que resgata e liberta os crentes dos seus sofrimentos e atende sempre às orações dos seus devotos. Todavia, enquanto em Maria a característica materna é constante, no caso de Kwanum essa característica materna nem sempre aparece, porquanto, às vezes, ela assume aspectos diferentes, segundo as necessidades dos que imploram sua ajuda. A crente coreana espera de Kwanum, como também de Maria, que dêem uma resposta ao seu sofrimento, especialmente ao sofrimento da mãe de família, oferecendo consolação e libertação. É desta esperança que nasce a forte característica salvífica revestida por ambas as devoções. Contudo, lendo as escrituras e os resultados da pesquisa referente ao assunto, o poder salvífico e de libertação é mais acentuado na devoção a Kwanum. Ao invés, no caso de Maria, é mais acentuado o papel de “Medianeira” perante Deus. Ela intercede na presença de Deus para que a crente seja perdoada dos pecados e libertada do sofrimento. Outra diferença consiste no fato de que Kwanum é considerada uma mãe mais ideal, sobrenatural, ao passo que Maria é uma mãe mais próxima da realidade da mulher. Maria, como mãe de um homem concreto, Jesus, se apresenta com uma experiência de mãe mais encarnada na realidade. Outro elemento comum às duas devoções: a mulher coreana vive estas duas devoções no cotidiano de sua vida, como uma experiência ‘mística”, fortemente caracterizada por elementos misteriosos que se exprimem através dos sonhos e mediante sentimentos de união real com eles. Uma união que ajuda a mulher a libertar-se do sofrimento, ou do ressentimento acumulado no seu coração. Esta união é vista de maneira diferente pelas crentes budistas e católicas: as primeiras procuram tornar-se uma só coisa com Kwanum e esforçam-se por seguir o caminho das bodisatvas; as segundas, mais que fazer o esforço de se tornarem uma só coisa com Maria, procuram viver à luz do exemplo de Maria, obedecendo a Deus, como Maria. Maria se apresenta como modelo ideal de mãe, especialmente na relação mãe-filho, fato de fundamental importância na cultura coreana. Maria é o modelo de mãe que dá tudo, também a vida, pelo filho. Aqui a devoção a Maria serve para reforçar a imagem confuciana da mãe, que oferece os seus sofrimentos pelos filhos. Kwanum não foi uma mãe histórica; nas legendas atribuídas a ela, o elemento que mais sobressai nela é a piedade filial. Ambas as devoções acentuam bastante a idéia da dor. Seja Kwanum que Maria, converteram-se em modelos de fortaleza na suportação da dor; porém, ao mesmo tempo, são também fonte de salvação e de libertação do sofrimento. As crentes de ambas as tradições religiosas quando interrogadas sobre como viam Kwanum e Maria, a maioria respondeu que as viam como “mãe terna e amorosa”, embora seja necessário acrescentar que Maria é considerada sob uma prospectiva mais marcadamente ocidental e Kwanum mais oriental. A nível doutrinal, apesar destas duas figuras não terem o poder de perdoar, ou de libertar dos pecados cometidos, na praxe da religiosidade popular das crentes, as duas são consideradas como se tivessem este poder. Poderíamos explicar este fato do seguinte modo: a crente coreana, enquanto mãe de família, sente a responsabilidade de sanar os erros cometidos pelos outros membros de sua família. Mais ainda, as duas devoções reforçam a visão negativa da sexualidade feminina transmitida pelo confucionismo. Entretanto, a partir de 1980, uma corrente de novas teologias, de ambos os lados religiosos, iniciou um processo de reintegração das figuras de Kwanum e de Maria, fazendo com que sejam consideradas como modelo de libertação da mulher. Na conclusão da tese, faço referência a alguns aspectos acerca da devoção a Maria e a Kwanum, que constituem objeto de uma atual reinterpretação, na prospectiva de que se tornem de verdade fonte de libertação e de consolação para as suas respectivas fiéis. No começo, apresento uma nova leitura da ética do serviço, através da qual a mulher encontra a própria realização e identidade. Sublinho também alguns elementos de diferenciação entre a religiosidade popular e a religião oficial, e como esta última foi dominada, sobretudo pelo homem, enquanto a religiosidade popular foi tradicionalmente considerada inferior e tida como “coisa de mulheres”. Apresento, por fim, algumas interrogações e possíveis pistas para pesquisa, acerca da devoção a Kwanum e a Maria, aspectos estes que não foram mencionados neste trabalho e que, futuramente, poderiam ser desenvolvidos. |